sábado, 31 de maio de 2008

Ainda Dili (24)


Pintura João de Azevedo

Viver quero comigo

Viver quero comigo,
gozar quero do bem que devo ao Céu,
a sós, sem testemunhas,
sem amor, nem ciúme,
nem ódio, nem esperança, nem receio
.

Luis de León

José Pinto de Sá

França: Sarkozy cada vez mais poltrão e inconsequente

O sistema político francês acusa uma concentração inaudita de poder na figura do Presidente da República. Foi fruto de uma "correcção" constitucional realizada em 1958 pelo general De Gaulle , que queria afastar o tumulto do parlamentarismo e da vida política partidária fraccionada da IV República. O sistema, que Mitterrand verberou durante anos de Golpe de Estado permanente, mostra-se agora quase obsoleto e manieta a modernização estrutural da pátria de Molière.


O PR eleito, o polémico filho de nobres exilados magiares, perdeu as estribeiras e comete gafe sobre gafe numa escalada insólita, desprestigiante e anómala. Ele atingiu o seu Princípio de Peter com o posto de ministro das Polícias no longo reinado de Chirac, depois disso é uma vertiginosa queda de estilo, de valores, de consciência profissional mínima ao que se assiste diariamente olhando para o que diz e faz. Ninguém acredita, mas largas faixas do seu eleitorado perderam já quase a confiança total no seu " joker ", que prometia renovar, modernizar e simplificar a vida quotidiana dos franceses.


Após um autêntico dilúvio legislativo , que provoca tensões e desaguizados permanentes na sua maioria parlamentar forte de mais de 400 deputados , Sarko- com uma queda abissal de mais de 50 por cento nas sondagens de popularidade, apurou o faro para a próxima presidência rotativa da U. Europeia, e, aí vai milho que amanhã é capaz de ser tarde:visitas diárias às capitais e governos dos 27 estados membros.


Ladino , o PR francês divide com o austero e descontraído PM, François Fillon , o mapa das visitas. Sarko foi a Angola( Luanda)um par de horas falar com José Eduardo dos Santos , entretanto , pois a multinacional Total tem larga implantação na extracção do ouro negro angolano… e nunca se sabe como é. O grande golpe em preparação por ele planeado prende-se com a privatização da Areva/ Alsthom , o gigante mundial construtor de centrais atómicas de segunda geração ao multimilionário empresário da Construção Civil, Martin Boygues, accionista maioritário do primeiro canal de TV , a poderosa TF-1.O povo escorraça-o, Sarko acalenta os poderosos e paga apoios da campanha, capitalizando para o futuro…


O show irresistível de kitch, mau gosto e de falta de sentido de Estado, teve mais uma longa peça que o divino " Le Canard Enchainè " conta esta semana na página 2 dos mexericos políticos de alta voltagem. Escangalhei-me a rir no metro durante longos minutos. Vou traduzir na íntegra. Imaginem quem governa e tem altas responsabilidades no futuro político-social e económico da Europa ! Ora vamos lá: a peça chama-se " A hora de Carla ". Segue-se o texto da notícia: " Almoço de intelectuais um dia destes no palácio do Eliseu , Presidência da República , à roda de Sarko , o pdg da editora Grasset , Olivier Nora , o historiador Jean-François Sirinelli , os jornalistas seniores Julliard e Fottorino, do Nouvel Observateur e do Le Monde , respectivamente, e o economista liberal, coqueluche da direita moderna , Nicolas Baverez , entre os principais.


" Evocando a polémica sobre o seu lado " bling-bling"( amigo dos ricos e poderosos), o PR brindou-os com um sketch notável: `Atisanaram-me por causa do uso do meu Rolex , mas como V. verificam, já deixei de o usar . E mostrou logo o Patek Philippe que a Carlita lhe ofereceu . Este é mais discreto, precisou , mas muito mais caro . Sobretudo, Carla pediu ao vendedor que lhe mostrasse o mais caro. De imediato , cheio de convicção , o PR tirou o relógio do pulso e fê-lo passar pelas mãos dos seus convidados , completamente atónitos e estupefactos. O mais engraçado é que Sarko repetiu a cena do " relógio que faz a volta à mesa ", aquando de um novo almoço com intelectuais. Terminado o lado " bling-bling", eis o aspecto " toc-toc", como se desejasse impressionar de uma forma tocante ".

FAR

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Da Capital do Império

Olá!
O mês de Maio acabou e com ele devem também acabar os artigos, palestras, análises, debates, livros, ensaios, documentários e testemunhos sobre o Maio 68. Tudo isso quanto a mim só demonstra que o maralhal que nessa época se dizia e julgava revolucionário é hoje o maralhal que domina os centros de decisão cultural – jornais, rádio, televisão, cinema. Tenho a dizer que não vejo nada de mal em que esta nova classe cultural dominante se amime de vez quando com um banho de nostalgia. O que é certo é que, caso contrário, o “Maio 68” não teria a importância que se lhe dá, principalmente tendo em conta que quando se fala em “Maio 68” se refere um período de poucas semanas em Paris e não um ano que teve também abalos noutras partes do mundo, particularmente nos países “socialistas”.
Maio de 1968 foi uma francezise, 1968 (sem o Maio) foi (talvez) importante e, em alguns casos, marcado pelo assassínio de figuras importantes (Martin Luther King e Robert Kennedy nos Estados Unidos) que resultou em actos de violência que marcaram esse ano.
Em Paris o Maio acabou como começou: com o maralhal a regressar às universidades e os trabalhadores às fábricas, trabalhadores esses (apresso-me a dizer) que pouca ou nenhuma solidariedade prática demonstraram com os estudantes e intelectuais. (Não me posso esquecer que em 1972, a trabalhar numa fábrica na Dinamarca, um ‘proleta” local me disse que em 1968 tinha ficado irritado com a estudantada “desorganizada e irresponsável”. Ainda na minha ingenuidade socialista tomei nota para me disciplinar. De imediato cortei o cabelo o que levou o tal proleta a dizer-me no dia seguinte que eu não devia ter cortado o cabelo porque “as gajas gostam de gajos com cabelo preto comprido”).
Mas voltando a 1968, parece-me que esse ano foi um tanto ou quanto esquizofrénico. Ao fim e ao cabo, e para citar creio que Milan Kundera, Maio de 68 foi em Paris uma acontecimento de “lirismo revolucionário” mas nesse mesmo ano deu-se a “Primavera de Praga” que foi “uma explosão de cepticismo pós-revolucionário”. É preciso não esquecer foi também em 68 que Fidel Castro – vestido de verde oliva à revolucionário – deu o seu aval à invasão da Checoslováquia, pondo assim fim à fantasia de uma terceira via “revolucionária” aparte dos exemplos soviético e maoísta.
O que representa 1968? Talvez, portanto, várias vertentes. Uma delas o lirismo perigoso daqueles que ainda acreditavam (acreditam) na revolução messiânica totalitária marxista -leninista e que acabaram nas franjas do Bader Meinhof, Brigadas Vermelhas, Exército Vermelho, etc., ou mais recentemente a apoiar o regime fascista/assassino de Saddam Hussein e o “sempre em pé” totalitário Fidel Castro, senão mesmo os Taliban na luta contra o “imperialismo”.
Alguns desses foram para o cemitério, outros para a cadeia, outros para o caixote do lixo da história e outros estão ainda na longa marcha para esse destino. Outra vertente será a que olha para 1968 (Paris, Checoslováquia, Portugal) e vê os acontecimentos desse ano não só um acto de revolta contra certos parâmetros da sociedade ocidental mas também (e talvez mais importante) como o princípio do fim do socialismo de bandeira vermelha, exemplificado no que se passou na Checoslováquia, nos primeiros sinais de revolta na Polónia e nas posições de Fidel Castro. Sintomaticamente, Che Guevara tinha morrido em 1967, vítima das suas próprias fantasias totalitárias de uma terceira via social-fascista, atraiçoado pelo campesinato boliviano que não alinhou nessas fantasias. Fidel mostrou ser mais realista quanto ao exercício do poder totalitário. 1968 em Paris em Maio foi talvez um episódio mais vislumbrante das eternas discussões filosóficas francesas mas foi também e acima de tudo teatro de rua com bons pecos: “as paredes têm ouvidos, os teus ouvidos têm paredes”, “sous les pavés, la plage”, “cours camarade le vieu monde est derriere toi”, "numa sociedade que aboliu a aventura a única aventura possível é abolir a sociedade”, “ quando a assembleia nacional se transforma num teatro, todos os teatros devem-se transformar em assembleias nacionais”.
No ocidente, incluindo a França, 1968 – enquanto movimento revolucionário – pouco impacto histórico teve senão paradoxalmente aquele de fortalecer o individualismo e de tornar os ditos revolucionários em – como diria Lenine – “idiotas úteis”, só que neste caso ao serviço do individualismo, uma das condições essenciais do capitalismo. O irónico será com efeito que se seguir a interpretação antitotalitária dos acontecimentos de 1968 , eles marcaram não o fim do sistema democrático ocidental (que pelo contrário se fortaleceu, cresceu e forneceu prosperidade e inovação), mas sim o triunfo do individualismo e o princípio do fim do colectivismo e da sua ideologia, não só no ocidente como também nos países “socialistas”.
A pergunta a fazer é talvez esta: que “soixante-huitard” és tu? Um/uma que segue os “diktats” dos comités partidários e/ou das ideias filosóficas “du jour” ou um/uma que segue o graffiti que afirmava: “não me libertem; eu encarrego-me disso”?

Abraços
Da capital do Império

Jota Esse Erre

Ilha de Moçambique (12)


Faroleiro com a mulher. Ilha de Goa (frente à Ilha de Moçambique). 2003

Foto Sérgio Santimano

Xenofobia



Para onde iremos quando a África do Sul estiver destruída?

Houve uma altura na minha vida em que procurei desesperadamente uma empregada doméstica porque não conseguia dar resposta ao trabalho, ao bebé e às tarefas domésticas.
Dirigi-me ao quadro de anúncios de uma loja de conveniências da vizinhança e anotei alguns contactos. Telefonei a um certo número de mulheres e marquei encontros com seis.
Uma delas, sul-africana, não apareceu, mas mandou-me um kolmi. Quando lhe liguei, perguntou-me se podia ir buscá-la, porque não tinha dinheiro para o transporte.
Disse-lhe que outras cinco mulheres, que não eram sul-africanas, tinham conseguido chegar a minha casa à hora marcada. Uma delas até veio com uma criança às costas, na neneca.
Esse episódio, entre muitos outros, mostrou-me claramente que nós, sul-africanos, achamos que temos direito a tudo. Achamos que o mundo nos deve alguma coisa.
Isso é sobretudo verdade para os negros. Não me levem a mal, mas, directamente ou indirectamente, pensamos que o apartheid é uma coisa a que nos podemos agarrar para podermos ser vistos como vítimas, e que tudo nos devia ser facilitado.
E aqui estamos nós, 14 anos após o início da democracia na África do Sul, ainda agarrados a 1976.
Muitos de nós não conseguem aproveitar o acesso à educação nem a oportunidade para aprender mais e marcar a diferença. Por isso abusámos de pessoas que estão simplesmente a fazer os possíveis por ganhar a vida.
Os recentes ataques contra estrangeiros são a prova de que somos uma nação estúpida.
“Roubam-nos os empregos e violam-nos as mulheres”, dizem os responsáveis por centenas de crianças inocentes estarem agora a viver em tendas com as famílias.
Como é que alguém pode tomar em mãos o seu destino quando os sul-africanos, no velho estilo dos bairros negros, se sentam todo o dia a apanhar sol, na má língua e a queixarem-se dos estrangeiros que lhes roubam os empregos?
Como é que uma pessoa que se esforça tanto por arranjar emprego e por exercê-lo bem merece ser espancada e até queimada?
Não percebo como fomos engendrados como sul-africanos. Sei que não temos todos a mesma mentalidade, e que há cidadãos instruídos que são completamente opostos a tais actos. Mas a rapidez com que esses ataques se espalharam é uma vergonha nacional.
Porque é que não participamos de forma tão rápida e colectiva em actividades de construção nacional? E porque estamos tão dispostos a participar quando se trata de coisas que não só destroem vidas humanas como também a economia e a credibilidade do país?
Dizemo-nos uma nação civilizada? Tenho vergonha de ser sul-africana.
Somos uma nação bárbara, e o nosso pior pesadelo.
Pergunto-me o que acontecerá quando finalmente atingirmos o objectivo de arruinar por completo o país – a economia, a credibilidade e os valores sociais – e precisarmos da ajuda dessas mesmas pessoas que andamos a matar.
Será que esperamos que esses países cuidem dos nossos filhos como fizeram no tempo do apartheid para regressarem à África do Sul como dirigentes instruídos, sábios e capazes?
Ou será que esses países também têm o direito de espancar os nossos filhos, de os queimar vivos e de os escorraçar como se fossem criminosos?

NOMFUNDO XULU

In The Times, 26/5/2008

[Trad. José Pinto de Sá]

Ler Rayuela

Irão recupera posição fulcral no Médio Oriente

Os moderados elementos do poder político iraniano conseguiram levar às cordas Ahmadi-Nejad, o actual PR, que só governa mais um ano, pois, Ali Larijani, o antigo negociador dos interesses nucleares junto da AI de Energia Atómica, acabou por conquistar por larga maioria, 231 votos contra 31, o lugar de " presidente " do Parlamento. Trata-se de um grande facto político que abre imensas e radicais perspectivas ao Irão , quer internamente, quer na cena regional e internacional.A famigerada política de ameaça e sanções dos EUA foi desarmada, o que coloca GW Bush e o seu candidato John Mcain em péssimos lençóis, claro.

A crise de produtividade dos poços de gás e de petróleo da maioria dos estados do Médio Oriente puxou para o podium político e económico regional o Irão, dono de grandes reservas de petróleo cifradas em cerca de 250 biliões de barris, a juntar às segundas reservas mundiais de gás. O NY Times assegura mesmo que a Arábia Saudita encara com inteligência o fim da polémica religiosa envenenada com o Irão. As monarquias sunitas ligadas a Ryade precisam de ouro negro como de pão para a boca; e só o podem encontrar na antiga Pérsia. Todos os mecanismos diplomáticos vão aplicar esta tónica de restauração das boas relações com o Irão.

O radicalismo extemporâneo da eleição de Ahmadi-Nejad contribuiu para o êxodo de largas centenas de milhar de quadros que se espalharam pelos EUA e nos países do Golfo. Por outro lado, os cartéis iranianos do petróleo conseguiram " salvar " grande parte dos lucros da exploração e venda de hidrocarbonetos e, com arte e segredo, investiram mais de meio trilião de dólares na economia regional dos seus vizinhos, segundo dados avançados pelo F. Times esta semana. Todos estes sensíveis factores contribuíram para a recuperação do papel vital do Irão na zona.

Mas a política está longe de possuir as virtualidades de uma construção racional, a cem por cento. Há efeitos perversos a controlar por todos os interessados. E o papel dos reformistas/ moderados do poder iraniano vai ser crucial para decidir as possibilidades de recuperação política e o indispensável arranque do renascimento económico. Larijani, que parece um político moderno e muito experimentado, tem que " vergar " o poder dos chefes dos Guardas da Revolução e postar aliados em pontos sensíveis da estrutura político-militar iraniana. Caso contrário, pode existir um grande desequilíbrio e tensão que alastre e incendeie a zona dominada pelos seus aliados, a Síria e o Hezbollah junto a Israel... As manobras são em tal profundidade, e com tão infinitas e delicadas intercessões que se fala numa mudança política em Telavive com o P. Trabalhista a colocar Barack no governo.
FAR

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Mambo 44

O Cristo-Rei Guerreiro

Lubango
Fotos:g.ludovice 2006

O que está na ponta desta montanha, no final do seu braço quente de amores pela cidade e seus muceques bordados no seu manto de ainda montanha, é aquele que me fascina.

Manteve-se ali a ver todas as guerras. Quando desci à cidade da última vez, reparei como estava junto dos seus homens. Contou-me um cubano, que o seu nariz e dedos de uma mão tinham sido levados no bico não de uma cegonha, mas de uns morteiros, o que não é menos surreal.

Como ele ali no seu sossego aéreo, não o teve contudo, era a minha pergunta desalojada de experiência. A seus pés dormiamos nós, respondeu-me, nós os soldados que se debatiam com os outros soldados que vinham como soldados no nosso enlace.
Pelos olhos deles, dos poucos Cristos-reis que existem, deduzimos como o demiurgo vê o nosso mundo a brincar.

Bernard Sichère: Não à política policial insuportável de Sarkozy!


O controlo permanente de identidade e a retenção dos indocumentados em centros especiais, zonas de sem direito onde o emigrante acaba por ser julgado expeditivamente sem recurso e expulso para o país de origem, onde muitas vezes podem correr riscos de morte , incendeiam a repulsa dos grandes intelectuais da França de hoje.
Depois da denúncia reiterada por Alain Badiou nos média, por causa da repressão quotidiana que sofre um seu filho adoptivo de ascendência africana, Bernard Sichére, um dos mais radicais e iconoclastas dos filósofos franceses da actualidade, com livros tão importantes sobre Bataille e Lacan, por exemplo, toma partido e ataca a política policial insuportável do PR francês, Nicolas Sarkozy.

Os centros de retenção dos emigrantes , a maioria das vezes situados à ilharga dos aeroportos são " zonas sem direito, nas quais um poder discricionário se exerce contra os emigrantes ", alerta Sichère. Tendo sido criados pela direita giscardiana nos anos 70, foram confirmados pela esquerda socialista de Jospin no poder no final dos anos 90. O que revela, acrescenta o filósofo, a " interminável agonia da esquerda socialista ". " Não à repressão anti-emigrantes e às expulsões selvagens! ", grita Sichère, apelando para uma nova Esquerda, que longe dos médias perpetue o sentido exaltante mais precioso de Maio 68.
Ce qu’il reste, c’est une politique policière insupportable, dont la part la plus scandaleuse est incarnée par ces centres que nous devons à la droite giscardienne, avant que ne les entérine sans complexes la gauche socialiste de Lionel Jospin. Il s’agit de toute évidence de zones de non-droit, dans lesquelles un pouvoir discrétionnaire s’exerce à l’encontre d’immigrés qui se retrouvent du jour au lendemain parqués là sans possibilité de recours, coupés de leur famille, de leurs enfants, et sous la menace d’une réexpédition forcée dans un pays dit d’origine où souvent le pire les attend. Que la gauche socialiste soit à ce point absente, préoccupée de sa seule survie médiatique, n’est malheureusement pas quelque chose qui doive nous surprendre : nous sommes depuis 2002 les témoins accablés de cette interminable agonie, face à une droite décomplexée, secrètement fragile toutefois, qui imagine avoir fait une brillante opération en mettant dans son escarcelle quelques vieux clowns «de gauche».

Mais il existe une gauche tout autre, qui n’a pas de présence médiatique, qui n’est pas représentée par les groupes parlementaires, qui demeure obstinément fidèle à quelques principes simples, qui ne se fait ni à la répression anti-étrangers, ni aux expulsions sauvages, qui n’a pas oublié que l’actuel Président fut le ministre de l’Intérieur-parjure qui n’hésita pas une seconde à livrer à la justice italienne un ancien militant réfugié en France avec l’accord de l’Etat français et qui n’aura jamais droit dans son pays à un procès équitable. Cette gauche-là, virtuelle, peut au moins se retrouver sur un mot d’ordre simple et évident : «Il faut fermer les centres de rétention». En 68, nous aurions dit quelque chose comme : «Nous sommes tous des sans-papiers.» Mais nous étions de jeunes crétins gauchistes, n’est-ce pas ?

FAR

Do petróleo


quarta-feira, 28 de maio de 2008

Jorge Luís Borges: " O que proponho relaciona-se com o eventual devir perpétuo da linguagem "


A aproximação do solstício de Verão aporta-nos dias pletóricos da força da leitura e da vida, do amor e da solidão recuperada. Aproveitemos tal dádiva celestial para procurarmos sinalizar uma cartografia poética e crítica de um alcance incalculável como a de Jorge Luís Borges, poeta, escritor e crítico literário de renome universal .
Percorremos vários livros de Ensaios de Borges; e detectámos uma panóplia magistral de observações críticas de alta precisão e endereçadas aos seus autores preferidos. " Verlaine- como Óscar Wilde- é uma criança que brinca. Recordo esta frase tão bela, por certo citei-a inúmeras vezes, de Robert Louis Stevenson: Sim, a arte é um jogo, mas é preciso jogar com a seriedade com que uma criança brinca ". Vamos ver, pois, não esquecendo a tónica central de JL Borges:
" A tradição é composta sobretudo por revoluções…".

Poeta preferido: Verlaine. " Creio ter dito que se tivesse que escolher um poeta, escolheria Verlain, se bem que por vezes hesite entre Verlaine e Virgílio. Alguém me disse que Virgílio não será senão um eco de Homero. Voltaire disse, a esse respeito: se Homero ajudou a fazer Virgílio, isso foi o que ele fez de melhor ".

O rebelde William Blake. " Blake acrescenta à salvação, digamos, ética, e ao avanço intelectual, uma terceira redenção- necessária a todos os homens, segundo ele- que seria o resgate pela estética. De facto, Blake era um discípulo de Swedenborg, mas rebelde porque ele diz mal dessa ligação. De todo o modo, sem Swedenborg ele nunca teria existido ".

Russell e Espinoza. " Bertrand Russell afirma que a filosofia de Espinosa não é invariavelmente credível mas, acrescenta, que de todos os filósofos, ele é o mais digno de ser amado e enaltecido. Permaneceu como uma personalidade, uma personalidade digna de ser amada e amada por todos."

Dickens e Dostoievski. " O romance russo teve uma grande influência à volta do Mundo. Li algures que Dostoievski era um leitor de Dickens; ora, segundo Forster, amigo e biógrafo do romancista inglês, houve um tempo em que Dickens farejava assassinatos por tudo quanto era sítio...".

Voltaire. " Voltaire imaginou que não era impossível supôr a existência de uma centena de sentidos; mas já com um sentido suplementar toda a nossa visão do Mundo se modificaria. Esta visão, a ciência já a alterou; o que para nós é um objecto constitui para ela um sistema de átomos, de neutrões e de eleições; nós próprios somos constituídos por esses sistemas atómicos e nucleares ".

Coleridge. " (…) a verdade afectiva, noutros termos., durante o tempo em que escrevo, devo acreditar nisso. Dessa forma estou em sintonia com Coleridge, para quem a fé poética e afectiva é a suspensão momentânea da incredulidade ".

Mallarmé " Creio que foi Mallarmé que disse que não existia nenhuma diferença entre o verso e a prosa; que, se sonha um pouco com o ritmo, se se sonha um pouco com o audível, então fazemos poemas, mesmo se se escreve em prosa . Existe sempre uma estrutura e uma forma ".

FAR

Ilha de Moçambique (11)


Pescaria. 2003

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 27 de maio de 2008

Rússia: Conspiração oligárquica inventa o melhor dos mundos


O espectáculo contribui para reforçar o segredo", esta magistral tese do último livro escrito por G-E. Debord, " Comentários…"(1988), pode englobar e analisar os andamentos da conspiração oligárquica neo-estaliniana comandada por Poutin, hoje, na Rússia. Um artigo inserto no The Observer, a edição dominical do The Guardian, chama a atenção para os efeitos devastadores do " capitalismo dirigido " dos novos senhores do Kremlin. O autor, Heather Connon, esteve em Moscovo e trouxe notícias inquietantes sobre o perfil enevoado e contestado do novo PR, Dmitri Medvedev, apesar de estar controlado pelo seu patrono…

A história fictícia e plena de equívocos, subtilmente ocultos pelo articulista, apresenta a Rússia como o caso de maior sucesso da economia mundial do início do século XXI. O seu poder concentrado no Kremlin e numa camarilha de gestores e cúmplices baseia-se nas segundas maiores reservas de petróleo do Mundo, nas maiores de gás e na quarta maior em ouro. O salário médio atinge os 750 dólares/ mês, actualmente. Há dez anos atrás, a maioria da população russa vivia com menos de 1 dólar por dia, valores comparáveis aos da Índia nessa altura.

Apoderando-se das fabulosas reservas petroliferas, Poutin e os seus muchachos, tentam agora construir uma classe média que suporte a disseminação desigual da riqueza. Reservando para si e os seus amigos- muitos deles a investirem maciçamente em Inglaterra no futebol - os juros e mordomias astronómicos de centenas de biliões de dólares de lucro/ ano.
" A tese de Feuerbach, sobre o caso que no seu tempo era preferida " a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade" foi inteiramente confirmado pelo século do espectáculo, e isso em vários domínios onde o século 19 queria ficar à margem do que era já a sua natureza profunda: a produção industrial capitalista ", refere Debord no citado livro derradeiro. Ora, o jogo maquiavélico de Poutin e dos seus cúmplices consiste, tão só, em iludir o povo com a magia do progresso e bem-estar, manipulando um sistema socio-económico onde a liberdade diminui de dia para dia por causa da opacidade fatal das estruturas do poder politico, que tenta recauchutar um novo capitalismo de Estado.

Poutin promete grandes linhas de construção no imobiliário social e Medevedev tem como meta principal alargar a classe media, os consumidores e escravos da sociedade do espectáculo, para metade da população nos próximos anos. O articulista narra as operações de controlo que sofreram nas últimas semanas, os escritórios da BP e da Shell em Moscovo. Tenta desvalorizar o acontecimento, apesar de tudo. Mas é visível e iniludível que a " guerra do petróleo" é uma das principais armas de dissuasão e chantagem dos senhores do Kremlin. Tudo isto quando a cúpula da Comissão Europeia decidiu incrementar e estreitar as suas relações políticas e económicas com a Rússia nos últimos dias.

Russia: giant of a new economic world
By Heather Connon.
guardian.co.uk The Observer

FAR

Uma outra visão para o que é o Homem

Foto:g.ludovice


"(...) Pode matar-se tudo menos a nostalgia do reino.
Levamo-la na cor dos olhos, em cada amor, em tudo o que nos atormenta profundamente, em tudo o que nos empurra, em tudo o que nos engana. Wishful thinking, talvez, mas essa podia ser outra definição do bípede implume.(...)"

O jogo do mundo, Julio Cortázar

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Ainda Dili (23)


Pintura João de Azevedo

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Daniel Cohn-Bendit: Maio 68 marca o fim das mitologias revolucionárias


Maio 68 continua, de outra forma e de outros modos, a influenciar o pensamento e a vida dos justos e dos inconformistas com uma sociedade desigual obcecada com a tirania do lucro e a privatização dos afectos e desejos. Este texto de Cohn-Bendit, um dos dois grandes líderes autonómos de Maio 68, o outro será Guy Debord, claro, não pode ficar sem ser referenciado. Ele recorda as proféticas palavras que Jean Baudrillard lhe dirigiu, a 22 Março de 1968: " Dany, o que conseguiste é extraordinário. Mas não te deixes envolver por essas forças esquerdistas( maoístas e trotkskistas) que te levarão a destruir tudo o que, hoje, pode nascer do que estais a criar ".

Cohn-Bendit, ao contrário do inefável JP Pereira, destaca que, o mundo dos anos 60 "engloba uma diversidade de revoltas interligadas ". Que atravessam os cinco continentes, de uma forma mais ou menos visível e solidária. " A mutação de 68 influiu sobretudo sobre a cultura tradicional, o moralismo ambiente e o princípio de autoridade vertical. Tocou na vida em sociedade, na maneira de ser, de falar e de amar ", sublinha.

Acentuando que o "movimento de 68 se desviou da violência para construir uma figura de agitação ", Cohn-Bendit aponta: " A revolta participava da expressão política mas a sua finalidade não era a tomada do poder. Na realidade, a sua natureza existencial torna-a politicamente intraduzível ".

" Atacando o autoritarismo, a revolta induziu uma explosão no coração da estrutura bicéfala do poder tipicamente francesa. Que aliava um Gaullismo dominador e um PC gestionário da classe operária. A radicalidade da mutação acabou por deixar escapar o prazer de viver ".

FAR

www.lefigaro.fr



domingo, 25 de maio de 2008

Ilha de Moçambique (10)


Praia de pescadores. 2002

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Da História..

Viena 2008
Foto:g.ludovice

“ (...) O caminho da história não é o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada trajectória; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, até que por fim chega a um ponto que não conhece e por onde nem tencionava passar.
Há no decurso da história universal um certo erro de percurso.
O presente é sempre como a última casa de uma cidade, que de certo modo já não faz bem parte do casario dessa cidade. Cada geração pergunta com espanto: Quem sou eu e quem foram os meus antepassados? Devia antes perguntar: Onde estou?, e partir do princípio de que os seus antepassados não eram diferentes, apenas estavam num lugar diferente. Se assim fosse, já teríamos feito alguns progressos- pensava. (...)”

in: O homem sem qualidades, Robert Musil
Trad J.Barrento, D.Quixote

XXIX Sonetos de Amor de Étienne de La Boétie

Soneto 11°


(Toi qui oys( entends ) mes soupirs, ne me sois rigoureux

Si mes larmes à part toutes miennes je verse ,

Si mon amour ne suit en sa douleur diverse

Du Florentin transi les regrets langoureux ;


Ni de Catulle aussi , le folâtre amoureux ,

Qui le coeur de sa dame en chatouillant lui perce ,

Ni le savant amour du migrégeois (demi-Grec) Properce ;

Ils n´aiment pas pour moi , je n´aime pas pour eux.


Qui pourra sur autrui ses douleurs limiter ,

Celui(-ci) pourra d´autrui les plaintes imiter :

Chacun sent son tourment , et sait ce qu´il endure ;

Chacun parla d´amour ainsi qu´il l´entendit.

Je dis ce que mon coeur, ce que mon mal me dit.

Que celui aime peu qui aime à la mesure.


FAR

sábado, 24 de maio de 2008

Judith Revel e Rancière: " São as acções que criam os sonhos!"


Um balanço provisório das comemorações do 40° aniversário de Maio 68, conjugando uma perspectiva aberta, dinâmica e post-marxista, surgiu hoje no Libération, ler a integral clicando aqui. Trata-se de um texto admirável, a vários títulos, subscrito por dois filósofos de grande fôlego, Judith Revel e Jacques Rancière, e que se associa ao projecto em movimento diferencial posto em movimento também por Alain Badiou e Toni Negri, com as nuances salvaguardadas. Como sublinha Rancière, "Maio 68 mostrou que, o que importa, no movimento não é o objectivo fixado mas a criação de uma dinâmica subjectiva, que abra um espaço e um tempo onde a configuração dos possíveis se encontre transformada. Para dizer de outro modo: são as acções que criam os sonhos, e não o inverso" ".

" Maio 68 representa o fim do " curto século XX ", de que fala Hobsbawm, e o começo de outra coisa, em que nos encontramos hoje ainda a formular, que se exprime por três grupos de questões. Primeiro, o que é um movimento, o que é uma política de movimentos? Um partido ou um sindcato detêm o monopólio da organização das forças políticas, ou bem pelo contrário, outras formas de acções colectivas podem existir? E ainda: uma organização é pensável fora dos partidos e dos sindicato que estruturam os códigos e a " gramática política "?, avança Judith Revel.

Se Judith Revel assegura que " é porque a Esquerda esquece Maio 68, que perde ", Rancière aprofunda a tese e dispara: " Maio 68 foi um movimento político importante porque criou uma cena política distante, quer das instituições do Estado, quer da composição dos blocos sociais. A política é o que interrompe o jogo das identidades sociológicas. No séc 19, os operários de quem estudei os textos diziam: " Nós não somos uma classe ". Os burgueses designavam-os como uma classe perigosa. Mas para eles, a luta de classes, era a luta para sair da classe e do lugar que lhe era imposto pela classe dominante, uma luta para se afirmarem como os portadores de um projecto universalmente partilhado. Maio 68 reactivou esse intervalo entre a lógica da emancipação e as lógicas classistas ".
J. Revel : Le problème n’est pas de savoir si une utopie peut réussir ou si elle est par définition vouée à l’échec. 68 n’était pas une utopie parce qu’il s’agissait d’une expérimentation, de la construction d’une différence ou d’une discontinuité qui se voulaient immédiatement présentes. Creuser le présent d’une autre manière, chercher à inaugurer d’autres formes d’existence - non pas ailleurs, ou dans un monde meilleur, mais ici et maintenant : une ouverture d’espoir, une torsion violente du monde existant. Aujourd’hui, nous avons oublié ce désir de discontinuité qui est aussi une aspiration au bonheur. Mais l’abandon de la recherche du bonheur comme projet politique est, je crois, le prix à payer d’un certain «pragmatisme» qui cherche précisément à effacer ce que 68 nous a appris : la possibilité d’une expérimentation puissante au cœur du présent. Penser à la fois la discontinuité et le présent, la discontinuité dans le présent.
J. Rancière : On pourrait résumer 68 en un seul objectif : rendre les Sarkozy impossibles. Les jeunes défilaient dans la rue avec des slogans du genre : «Nous ne voulons pas être les exploitants de demain, nous ne voulons pas être les servants de l’exploitation.» En fait d’incarnation de 68, Sarkozy est un personnage du XIXe siècle, un jeune homme qui désire «arriver», comme le Rastignac de Balzac ou le Frédéric Moreau de l’E ducation sentimentale. Il représente la coïncidence de ce désir puéril du pouvoir pour le pouvoir avec la logique globale de ce que j’appelle police : la gestion des affaires communes comme ensemble de problèmes à remettre aux soins des gens compétents, par opposition à la politique comme exercice de la capacité commune à tous. L’esprit de 68, c’est qu’il faut être crétin pour vouloir devenir président de la République. C’est celui de la politique comme invention collective et non comme prise de pouvoir. C’est une période où on a presque oublié qu’il y avait des ministres et des députés.
J. Revel : Il m’est totalement indifférent de savoir ce que Nicolas Sarkozy pense de 68. Pour moi, 68 interroge surtout la gauche aujourd’hui. Parce qu’il a donné à voir une configuration politique inédite : la constitution de champs d’expérience, un rapport critique aux institutions existantes, une façon d’interroger ce que pourraient être des institutions de nature différente. Et surtout un autre rapport au pouvoir - qui ne veut plus prendre le pouvoir, ni même se constituer en contre-pouvoir… Quarante ans plus tard, la gauche reste prisonnière d’une «forme parti» dont la seule visée semble être la prise du pouvoir, interne ou externe. C’est parce que la gauche a oublié 68 qu’elle perd. Voilà pourquoi il faudrait aujourd’hui non pas reproduire 68 - on ne reproduit pas un événement avec quarante ans de décalage, cela n’aurait aucun sens -, mais se poser à nouveau les questions que 68 avait ouvertes : quels espaces de lutte se donner, quelles nouvelles subjectivités politiques mettre en jeu, quelles pratiques politiques et quels modes de vie inventer ? La plupart des mouvements actuels se déplacent sur ce terrain. La gauche y est, hélas, sourde.
FAR

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Movimento Secessionista

Edifício da Secessão, desenhado pelo arquitecto Joseph Maria Olbrich (1897) como manifesto do movimento secessionista. Tem apenas duas cores, branco e dourado. A sua forma geométrica básica é o quadrado, sendo suavizado o acabamento com curvas e ornamentos. Tem um friso de 34 m criado pelo pintor austríaco Gustav Klimt em 1902, em homenagem a Ludwivg van Beethoven. A sua cúpula tem três mil folhas de louro douradas (símbolo do louro: vitória, dignidade, pureza) .

O edifício é apelidado carinhosamente pelos vienenses, como "couve dourada". Boa parte do seu interior foi saqueado durante a segunda guerra mundial e a partir dos anos 70, salvo do seu declínio. A crítica comparou-o a uma estufa, armazém ou casa de banho pública. Contudo, hoje é considerado uma das mais importantes obras do estilo Arte Nova vienense.

Por cima da entrada, a divisa do movimento:

"Der Zeit ihre Kunst. Der Kunst ihre, Freiheit"

"A cada época a sua arte, à arte a sua liberdade"

www.secession.at

Foto:g.ludovice

Alain Badiou: Os intelectuais perante Sarkozy e Pétain…

" O apoio a Sarkozy- a família Glucksmann, Alain Finkielkraut, Pascal Bruckner, entre outros, significa a possibilidade para os intelectuais e filósofos de agora se tornarem reaccionários clássicos, " sem hesitação nem murmúrio ", como diz o regulamento da lei militar. Fazem parte desse processo de adesão o convívio corrompido dos ricos e dos poderosos, a xenophobia anti-popular e a adoração da política Americana. Outrora quando um intelectual era de direita, tinha complexos por isso.Mesmo Raymond Aron os tinha!


" A sequência do pós-guerra(1945) tinha agenciado o personagem bem característico do intelectual de Esquerda. Iremos assistir- é o que desejo- à morte do intelectual de Esquerda. Que vai cair ao mesmo tempo que toda a Esquerda, antes de renascer das cinzas, qual fénix.Esse renascimento só se realizará por opção: Ou radicalismo politico de tipo novo, ou adesão reaccionária. Não existe meio-termo.


"Há um espírito comum entre o sarkozismo e o pétainismo: O pétainismo é uma espécie particular de " reacção/direita" francesa, que existe desde 1815. Primeiro traço: apresentar uma política de capitulação ( outrora perante Hitler, hoje perante o hipercapitalismo e GWBush) como uma regeneração nacional: A "ruptura" de Sarkozy, o que é? Consiste no desmantelamento das conquistas sociais, o propósito de os ricos pagarem menos impostos, a privatização–relâmpago da Universidade e a concessão das mais loucas facilidades aos grandes negociantes. Esta forma de mascarar a submissão ao capitalismo mundializado jogando a carta da " revolução nacional ", é própria do pétainismo. Segundo tópico: desenvolve uma repressão administrativa muito dura, visando os grupos tidos por estrangeiros à sociedade " normal".


"A democracia que conhecemos, só é apropriada ao capitalismo.O que se apelida de democracia representativa é uma forma de poder oligárquico. O debate sobre a democracia nesse sentido, remete-nos para um problema ainda insolúvel para a Esquerda e Extrema-Esquerda, por agora. Isso tudo está relacionado com o abandono da categoria chamada ditadura do proletariado. Contudo, não defendo a experiência histórica dessa categoria.


" Penso que a promoção dos massacres e das vítimas como os únicos conteúdos interessantes da História, está ligado a um processo profundo de despolitização. Examinar todas as situações exclusivamente através das categorias morais conduz à impotência política. Por outro lado, não julgo que a memória seja uma boa categoria de forma a evitar a repetição dos desastres. Porque essa não- repetição pressupõe uma avaliação racional e abalizada sobre o que aconteceu. Distinguir entre o que deriva da emoção pela repulsa e da emoção pela fascinação é muito difícil. Sim, desconfio da memória. Tanto da memória das atrocidades coloniais ou do estalinismo como da do nazismo".

FAR

O Homem é as suas circunstâncias, diria Ortega y Gasset

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Moonlight Sonata

Ilha de Moçambique (9)


Sentados. 2002

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

"AMAR GUITARRA" (ex - "Las Guitarras Locas") na 6ª Edição do FIESA , dia 22 de Maio, às 20:00h

Algoz – Pêra - Algarve
Inauguração da 6ª Edição do FIESA
Festival Internacional de escultura em Areia
(20:00h)

Amar Guitarra” é uma viagem apaixonada pelo universo sonoro
latino, com passagem por terrenos do jazz e do blues,
conduzida por guitarras em diálogo.

Em 2008, João Cuña e Luís Fialho, decidem apostar num projecto musical instrumental mais ambicioso: “Amar Guitarra”, que resulta da evolução natural do projecto inicial “Las Guitarras Locas”, e onde a guitarra portuguesa assume um papel de relevo.

O agora quarteto conta com uma sólida secção ritmica a cargo do veterano Raimund Engelhardt na percussão (tablas, cajon e cimbal) e do jovem talento Marco Martins no baixo “fretless”.

Brevemente será disponibilizada a primeira aposta discográfica deste colectivo.

Consulte toda a informação, contactos, vídeos, fotos e agenda de concertos em:

www.amarguitarra.com

www.fiesa.org

Eduardo Prado Coelho: a visão política do Mundo

" Para Milner, a palavra Revolução designa a ideia de uma conjunção entre os gestos de rebelião e a actividade do pensamento, ambos levados ao extremo . Isto desenha um mundo cujo princípio de visibilidade reside na política. A palavra " política " abandona o seu sentido clássico( teoria dos agrupamentos e da governabilidade) para passar a indicar uma teoria da conjunção rebelião/ pensamento, que vai funcionar, sobretudo para artistas e intelectuais, como pólo de atracção absorvente e exclusivo.

" Qual o primeiro axioma desta visão política do Mundo? O seguinte: um pensamento tem sempre efeitos materiais. E o segundo axioma? Este: o único efeito material verdadeiramente digno desse nome é o da rebelião. Para Milner, esta ideia de Revolução vai articular-se com os princípios inerentes ao universo de Galileu: se o universo não admite exterior, os efeitos materiais só podem ter causas materiais, e portanto a efectividade do pensamento, a sua capacidade de produzir efeitos, só pode vir de uma força material que lhe seja interna. Esta força é a Rebelião. Marx virá apenas matematizar a teoria, definindo os princípios matemáticos da conjunção.

" No registo da conjunção, a política é a ética e a ética é a política. As doutrinas recentes trouxeram a este dispositivo duas inovações; se só há ética pela política, então só há ética através da rebelião; e por outro lado só há máximo enquanto máximo infinito. Assim, " os máximos do pensamento e da acção são infinitos.O nome desse infinito através do qual a conjunção se realiza é a liberdade ".

In E.P. Coelho," Tudo o que não escrevi" , vol.II. Edit. Asa.( Sobre um livro admirável de Jean-Claude Milner, filósofo e linguista, " Constat"( editions Verdier, a dos sartreanos…)

FAR

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Sarkozy no Divã de Gerard Miller

Itália: Referendo sobre lei eleitoral dentro de um ano pode dar zanga(s)


Neste magnífico texto de um economista da Uni Bocconi de Milão, Tito Boeri, assinala o barril de pólvora em que está assente a coligação vencedora das Legislativas de Abril último. Apesar da maioria confortável detida na Câmara dos Deputados e no Senado, o PDL, de Berlusconi, tem que negociar minuciosamente todas as leis que quiser aprovar. O negocismo e as " habilidades" irão, pela certa, minar a coesão do Bloco da Direita e Extrema-Direita. E a corrupção e o nepotismo não podem cessar. Por isso, assinala Boeri, o voto dos italianos foi mais de protesto contra o imobilismo do Governo Prodi, do que a favor de Berlusconi e dos seus amigos extremistas. A classe política italiana aumenta-se a si-própria, a um ritmo de 10 por cento ao ano, enquanto que a media dos aumentos salariais ronda os 2 a 3 por cento, acrescenta o economista.

De acordo com Boeri, os três grandes desafios que Berlusconi tem que enfrentar, para já, e no prazo de um ano para a alteração da lei eleitoral, incluem a revisão do federalismo fiscal e a luta contra a evasão fiscal implementada por Romano Prodi, apesar de tudo. Boeri diz que não houve " lua-de-mel/ estado de graça" entre Berlusconi e o seu eleitorado. A Liga do Norte quer a parte de leão dos impostos locais para a sua zona. O Movimento para a Autonomia da Sicília, o terceiro membro da coligação, reivindica a refinação do petróleo nas suas bandas…



THREE BIG CHALLENGES FOR BERLUSCONI’S CABINET
By Tito Boeri Published: May 20 2008 19:21

The new Italian cabinet, Silvio Berlusconi’s fourth government, is both strong and weak. It is strong because the government has solid majorities in the House and Senate, and the supporting coalition is less fragmented than in previous Berlusconi cabinets. It is weak because the government is starting with relatively low popular support and no political honeymoon. Italians voted more against Romano Prodi’s government than in favour of Mr Berlusconi. They are rightly tired of a political class that has raised its own wages – up 10 per cent per year in the past 50 years compared with 2-3 per cent for average Italians – rather than address structural impediments to growth in Italy. Fiscal federalism, the electoral law and the fight against tax evasion will be the three most important challenges in the first year. The first challenge is fiscal federalism. The real winners in the election were two local movements in the Berlusconi coalition: the Northern League and the Movement for Autonomy (of Sicily). The House and Senate majorities depend on them. The Northern League calls for fiscal federalism to prevent public money going south, with proposals that 90 per cent of tax revenues stay in the areas that generate them. The Movement for Autonomy, by contrast, wants revenues from oil refined on the island – no matter where it is sold! – to go to Sicily. Mr Berlusconi’s party (Popolo delle Libertà) has endorsed a bill recently voted on in the Lombardia region. It keeps 80 per cent of revenues from value added tax in the region in which it is generated, 15 per cent of the income tax and all the revenues from taxes on oil, tobacco and gambling. The bill also proposes devolving a number of programmes funded at the national level to local administrations, limiting how much redistribution can occur across regions. If this is adopted nationwide, it would leave some regions without sufficient resources to pay school teachers. Italy badly needs to cut public spending, which has grown faster than its gross domestic product, especially at the local level. By making local governments fiscally responsible it could reconcile these two goals, by imposing political costs if they run large deficits.

FAR

Ainda Dili (22)


Pintura João de Azevedo

Sinais


Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 20 de maio de 2008

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Exercícios

Exercício da plataforma visível

Ter chão, pensa-se, é a coisa mais certa e óbvia para um animal terrestre e até mesmo as aves que se exilam tempos diria infindos pelo tecto gasoso do mundo, o têm por vezes.
Mas não é assim fácil de todo, achá-lo no sítio debaixo das nossas solas onde ele se torna perpendicular à nossa consciência física ou notá-lo pegado a um lado mais extenso do nosso corpo como uma insoltável paisagem, vista da janela de um trem, porque pelo pensamento também dos demais e pelos desejos e angústias somos muitas vezes desvisitados de nós mesmos.

Olha-se para baixo.
Existem tábuas de madeira ou mosaicos ou terra ou assim.
Nesse fundo à vista, está a ponta de nós ou um meridiano que ainda somos nós.
Abarcamos pouco. Ocupamos um irrisório espaço em relação às coisas e cidades, mas precisamos de espaço em volta do que somos, mesmo que permanecendo imóveis como as sombras de objectos pendulares que não são visitados, pelos esgares da luminosidade.
É estranho. Só os mortos parecem não necessitar de horizonte.

Olha-se ainda para a parte que em nós não se desalinha com o piso.
Um dedo poderia percorrer essa linha de contacto como uma carícia inusitada que aproxima estranhos, de modo invulgar, com uma enormidade de súbitos pretextos irracionais.
Não há dúvidas desse apego ao quintal dos pés.

Mas na angústia da nossa efemeridade, tal como desaparecem as coisas quando aceleradas em demasia perante a estática visão que delas temos, a realidade estável torna-se volátil como uma mobilidade ainda mais real e aquilo que é para nós certo, deixa-o de ser.
Incluído o nosso único e insubstituível chão.

Olha-se de novo para onde assentamos algo de nós em algo.
Ama-se essa impossível permanência.
É tudo.
(A pensar nas vítimas de xenofobia que assolam o mundo, neste instante, Joanesburgo)

"Por que é que os índios não falam todos espanhol?"



Na Lima inventada por Mérimée segundo os traços expressionistas do romantismo, um Vice Rei colonial sofre de amor e gota. Com o reino em caos crescente sob o impacto da revolta índia lá para os confins da sua geografia, e em dia de cerimónia religiosa dirigida pelo bispo local, sua alteza está enciumada por causa da actriz Perichole, sua amante, escandalosa de comportamentos num meio dominado pelas beatas da pequena corte local. Conseguirá Perichole que o Vice-Rei lhe ceda o mais belo Coche de Lima, de fazer morrer de inveja as famílias tradicionais poderosas?
E a revolta índia, por onde andará?
Estará a resposta no índio que Tabori constrói, mais de um século depois?


Teatro da Rainha

Guy Debord e o 25 de Abril em Portugal 1974


O novo ensaio sobre a vida e obra de Guy Debord desfaz muitos mitos e narra, estruturalmente, a forma de ser/pensar e a vida real do heróico panfletário de " A Sociedade do Espectáculo", corrigida e aumentada pelo célebre prefácio à edição italiana de 1979. Stéphane Zagdanski, no recentíssimo volume hagiográfico sobre o criador da Internacional-Situacionista- " Debord ou La diffraction du temps", ontem lançado neste Blogue, debruça-se sobre a revolução do 25 de Abril 74 em Portugal,e alerta para os contactos e convites que G.Debord recebeu para " ajudar " a radicalizar o movimento em Lisboa, com a pressa e a pressão desalmada dos seus coriféus lusitanos.
Como sublinhava Debord, " se a totalidade dos sentidos possíveis é a sua única verdade ",que carambola com a tónica de Heidegger," tudo se move em conjunto ", foi Maio 68 que acabou com a IS: " O tempo é nosso amigo e nosso inimigo " parodiava numa carta a um seu cúmplice italiano , um ano depois do fracasso " da última verdadeira revolução do séc.XX ".No caso do 25 de Abril lusitano , sublinha Zagdanski, " toda a vanguarda, os meios revolucionários em geral, encerram um misto de nevrose, de ignorância, de incapacidade( e além disso hoje todos os outros espaços da sociedade ainda são piores, a esse respeito)". Por isso, urge disseminar uma perspectiva radical e global, o que ele exortava aos seus camaradas lusos. E foi o que aconteceu.
" Jamais se contentar em denunciar localmente uma ´democratização `de floristas, antes questionar o modelo em que se inspira, preso a um bric-à-brac capitalista hodierno como o que triunfou na Europa do Oeste ", aponta Debord para acrescentar mais fundo ainda: " O único método consiste, sem concessões ou ilusões, na denúncia precisa, informada, critica e implacável de cada discurso, de cada acção e de todas as proposições e reformas adoptadas pelo novo governo de união estalino-social-liberal que sucedeu em 1974 ao despotismo estreito de Salazar ".
E Zagdanski relembra este fragmento divino da análise de Debord sobre a situação portuguesa post imediato 25/4-74: " Portugal conhece melhor do que qualquer outro país o segredo de Estado. Ele observou-o durante 48 anos em estado puro. É preciso, portanto, ultrapassar o Estado pela democracia operária em armas( ultrapassar o estado burocrático eleitoralista e sindical que se revela alegremente; e que , sem dúvida, só se manifesta porque o vai acabar por perder, mais cedo ou mais tarde)".
Stéphane Zagdanski, " Debord ou La diffraction du temps "
FAR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Zen (8)


Pedras. Praia do Cabedelo, Minho. Novembro 2007

Foto Jota Esse Erre

domingo, 18 de maio de 2008

Da Alma..

"(...) À frente, o rosto e as mãos olham a partir dela, as sensações e aspirações passam diante dela, e ninguém duvida que aquilo que se faz nesse espaço é razoável, ou pelo menos possuído de paixão. Ou seja, as circunstâncias exteriores pedem-nos para agir de uma maneira que qualquer um pode compreender; e quando nós, enredados nas paixões fazemos coisas incompreensíveis, também isso está, à sua maneira certo. Mas por mais perfeito, compreensível e acabado que tudo pareça ser, é sempre acompanhado pelo sentimento obscuro de se tratar apenas de uma metade. Falta qualquer coisa nesse equilíbrio e o homem avança para não vacilar, como na corda bamba. E ao avançar na vida e deixar atrás de si o que viveu, o que está por viver e o já vivido formam uma parede, e o seu caminho assemelha-se então ao do caruncho na madeira, que pode furar ou recuar, mas deixa sempre um espaço vazio atrás de si. E é nesta terrível sensação de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, nesta metade sempre em falta mesmo quando tudo é já uma totalidade, que podemos entrever aquilo a que se chama alma.(...)"
Robert Musil (Escritor Austríaco)
in: "O homem sem qualidades I"

Viena 2008
Foto:g.ludovice

Novo ensaio sobre a vida e obra de Guy Debord sob o prisma de Hegel-Lacan e Heidegger


Quatro décadas depois da " bomba " teórico infinitesimal armadilhada pela publicação de " A Sociedade do Espectáculo", e a juntar a centenas de teses e memorandus sobre a sua aplicação na vida e nas artes, Stéphane Zagdanski, poeta e ensaísta, lança uma introdução geral sobre a vida e a obra de Guy Debord, que arrasa o fluido sincrético interpretativo anterior, " Debord ou La diffraction du temps ", que foi posto ontem à venda pela Gallimard em França.

Agora que o espaço literário nacional celebrou a tradução do panfleto de Anselme Jappe sobre o fundado da Internacional-Situacionista(IS), não é sem uma ponta de ironia e espanto que surge este mega-Ensaio de prospectiva e interpretação ,apoiado nas teses maiores de Hegel, Nietzsche, Lacan e Heidegger, principalmente. Mas sem meter medo ou iludindo os impasses e insuficiências de uma leitura-tentativa extremamente difícil, é evidente…

Numa leitura microscópica intensa e alarmante, Zagdanski disseca a implacável novidade e violência conceptual de Debord, lembrando uma confissão juvenil do iconoclasta contestatário:
"Não é necessário admitir a correnteza das coisas. O que é necessário é desencadear revoluções". Tinha G. Debord dezanove anos…" Nunca embandeirem por doutrinas, só por perspectivas! ".

Neste apontamento-flash, em cima do acontecimento, para lá dos tópicos de interpretação referidos de grande intensidade e eficácia, que revelam uma leitura total dos textos, filmes e correspondência de Debord, Zagdanski joga tudo no conceito de jogo e imprevisto criados por Nietzsche e desenvolvidos por Georges Bataille na " A fracção maldita".

" Contestando as interpretações adocicadas do marxismo no Ocidente –produzidas por esse " amor desinteligente" que Hegel, na " A Fenomenalogia do Espírito", diz que pode ser mais destrutivo do que o ódio- assim como as suas despóticas distorções leninistas na Europa de Leste e na China, Debord ressuscita de uma forma inacreditável o pensamento da mercadoria e o projecto revolucionário de uma sociedade sem classes ", assinala Zagdanski, que anteriormente publicou na colecção L´Infini/Gallimard dirigida por Ph.Sollers, belos ensaios sobre Proust, Céline e o Judaísmo.

Numa sequência muito bela e profunda, intitulada justamente "Manual de Guerra", Zagdanski exorta sem sofismas ou panaceias: " Saber pensar é indissociável de uma recusa de contemporizar com as desgraças hodiernas. Pensar, é mergulhar no inalterável. As duas opções vão agora em conjunto; pensar regressa a habitar numa aberta das palavras, especialmente quando a linguagem dos homens não é mais senão do que o " espaço das suas obsessões"(Heidegger).

Stéphane Zagdanski," Debord ou La diffraction du temps", Éditions Gallimard.
France. Mai 2008

FAR

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Compay Segundo

Citações universais dispersas de António Maria Lisboa(2)


" Dentro dos nomes genéricos, mais amplos e capazes de abrigar as personalidades mais díspares, foi até hoje o Surrealismo que me apareceu, pois os seus princípios e, portanto, denominadores comuns são poucos e indistintos- automatismo psíquico, Liberdade, o encontro dum determinado ponto do espírito sintético, o Amor, a transformação da realidade, a recuperação da nossa força psíquica, o Desejo, o Sonho, a POESIA.

" Mas, mesmo assim, depressa, posto a funcionar, se criaram as diversas cores Surrealistas( sem no entanto negar os seus princípios…claro!) e de tal forma, e tanto mais feroz, que o Movimento ou passa a ser a cauda dum Pontífice Inadmissível ou cai na ofensa e na querela inútil do EU SOU tu não és, a não ser que outro caminho se tenha adivinhado. E de facto assim foi: Livre, nem mesmo a um agrupamento de indivíduos Livres pode estar ligado Umbilicalmente.

" Na criação de um Partido existe a criação dum Compromisso entre os que o compõem, o que, forçosamente, mais dia menos dia, lhe vem a cortar os passos, lhe vem a negar a Necessidade duma Necessidade Imperiosa, lhe vem barrar um Desejo Intenso – e, uma vez por todas, o Compromisso do Poeta é com o Amor e o acto um acto Livre no Tempo-Único !

"O Surrealismo que engloba dentro das suas consequências toda a Realidade( pois em Poesia só podemos falar em termos de Absoluto e Totalidade), para a transformar, não exclui o particular, antes o admite para que renasça no conjunto.

" As frentes do Surrealismo não são apenas as da Arte, da Moral e da Política, embora seja nestas que mais se tenha ouvido, mas toda a actividade do Homem. Uma posição revolucionária em qualquer situação é muito provável que seja ou se possa chamar de Surrealista. A atitude inicial é que lhe determina a denominação( desde que interesse denominá-la).

" – O que se entende por acção revolucionária? Ou o que nós entendemos?- Toda a acção Livre, Apaixonada, Poética. Quero dizer: toda a acção que sem compromissos, de qualquer ordem, pretende estabelecer num meio opressor( qualquer meio) a sua antítese, ou seja: Não Opressor.

" O Poeta já não apela para a lógica do espectador( antes a nega), nem tão-pouco para a sua memória da natureza- mas para a sua Imaginação. Trata-se de Inventar o Mundo! Descobrir as semelhanças e dissemelhanças, pôr a nu o rendilhado que une o Invisível ao Visível, estabelecer um Arco-Voltaico entre o Consciente e o Inconsciente, entre o Passado e o Futuro, provocar um Curto-circuito para os destruir isolados, perfurar a Razão com a Loucura e vice-versa- todas as formas são boas, todas as conjugações possíveis ".

In " Poesia, António Maria Lisboa", colectânea realizada por M-Cesariny de Vasconcelos.
Editora Assírio & Alvim, Lisboa 1995
FAR

Zen (7)


Areia. Praia do Cabedelo, Minho. Novembro 2007

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho Maturino Galvão

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Rússia: Medvedev cercado por homens-de-mão de Putin


O preço do petróleo aumenta, a administração GW Bush entrou em estado de coma e Poutin " destaca", é o termo, alguns dos seus mais fiéis ajudantes de campo para " ensinar " o novo PR, Dmitry Medvedev, a governar. Este tríplice geopolítico telescopeia-se no golpe da facção pró-iraniana do Hezbollah no Líbano, que desencadeou uma séria advertência das autoridades sauditas, de intenções mais que suspeitas.Se a subida do preço do petróleo contou com a ajuda das previsões do FMI, onde se projecta uma nova e misteriosa lógica da relação oferta/procura, a blindagem do poder executivo na Rússia pode deixar antever um prelúdio de crise, a que T. Friedman, de novo a escrever no NY Times, formula pelo uso da aterradora sigla de " A nova guerra fria ".
Poutin, o novo czar bilionário da Rússia, abalançou-se a destacar quatro antigos ajudantes de alto nível para colaborarem com o novo PR. Já se sabia que Medvedev era manipulado, mas a este ponto ninguém o imaginava. O chefe da nova administração presidencial, Sergei Naryshkin, antigo ministro sem pasta, natural de St-Petersbourg, a cidade de Poutin, não confirma nem demente o seu tirocínio no ex-KGB. O conselheiro especial do novo PR, Leonid Reiman, antigo ministro das Telecomunicações, é natural também de St. Petersbourg. Mikhail Zurabov, antigo ministro da Saúde, coadjuva o anterior.
Outros homens-de-mão muito especiais de Putin envolvem este controlo quase total do Kremlin.
Mais este trio, vejamos. Vladislav Surkov, o ideólogo do regime, continua. O secretário de Imprensa do antigo PR, Alexei Gromov, foi reconfirmado noutro cargo. E Alexander Beglov, antigo conselheiro de Poutin, dirige agora os serviços da administração técnico-financeiros. A secretária de Imprensa de Medvedev é Natalya Timakova, uma habitué do Kremlin e dada como uma fanática do antigo PR.
O círculo confidencial dos homens de extrema confiança de Poutin na nova gerência do Kremlin adensa-se ainda com a presença de Sergei Prikhhodko, antigo conselheiro presidencial de Política Internacional. Dmitry Medevedev conta só com dois antigos colegas da Faculdade de de St Petersbourg : Arkady Dvorkovich, economista liberal , e Konstantin Chuichenko, advogado com fortes ligações ao mundo dos hidrocarbonetos.

FAR