segunda-feira, 31 de março de 2008

Da indisciplina e da violência...

Ainda nem me encontro em solo pátrio e logo me deparo com a pátria...
Aeroporto de Zurique - vôo para Lisboa, atrasado, claro...
1º Quadro
Porta de embarque, a abarrotar de compatriotas. Vozearia, lástimas do queijo apreendido no controle do aeroporto - a vontade de nem abrir a boca para não revelar a minha origem. Meto-me na sala de fumo e fico a olhar para aquela gente que não pára; os meninos divertem-se em acrobacias nos carrinhos onde se transportam as bagagens, gritam, falam alto...
Penso naquele recanto que é Portugal. E descubro os portugueses, distingo os que ali vivem e trabalham dos outros que aqui residem em permanência. É fácil demais. Os portugueses de Portugal são convencidos e arrogantes, mal - educados, olham em frente para se verem no espelho, nada mais.
2ºQuadro
Num vôo que dura duas horas e meia os meninos não páram. Correm pelo corredor do avião como se estivessem em casa, falam alto, jogam freneticamente nas consolas. Os pais enfronham-se numa leitura saudosa do 'Correio da Manhã', revelando os seus ares de 'centralões'. Devoram todos avidamente a 'sandocha' e reclamam mais coca-cola.
3ºQuadro
Na apresentação dos BI's ou passaportes sou recebido por uma pré-tia (portuguesa, claro.) com uma voz desagradável e modos pouco correctos gritando-me que se formem filas.
Os passageiros desorganizam-se e desorientam-se. Perante a perspectiva de não chegar em primeiro ao lugar onde se recolhem as bagagens, impacientam-se. Refilam. Os que trazem bébés vêem nisso o 'furo' e furam efectivamente as filas, logo se lhes juntam os que trazem crianças - as tais que corriam pelos corredores do avião e espalhavam a confusão junto à porta de embarque... - e, também vejo passar por baixo das fitas um respeitável cavalheiro com uma cabeleira muito mais alva que a minha,resmungando: "Ó Chico! 'Bora que senão nem amanhã lá chegamos! Foda-ssse!"
EPÍLOGO
A partir daí tenho observado melhor. E vou continuar.

Zimbabué: Mugabe derrotado?

Em directo com o Le Monde e o NY Times On Line Services, parece desenhar-se uma derrota estrondosa do PR vitalício e déspota, Robert Mugabe, nas Presidenciais zimbabueanas. As últimas estimativas avançadas pelo NYT, cerca das 18 horas de hoje, revelavam os seguintes resultados: 58 por cento para o candidato do Movimento da Mudança Democrática, Morgan Tsvangirai, 37 por cento para Mugabe e só 5 por cento para o antigo ministro das Finanças, Simba Makoni.

Num rápido balanço da campanha, se Mugabe tentou "instrumentalizar" as chefias das Forças Armadas e da Polícia contra os partidos da Oposição, de realçar a grande postura moderada e apaziguadora do chefe da Oposição, Morgan Tsvangirai, que se furtou a atacar pessoalmente Mugabe. E refutou o envio do "ditador" para o Tribunal dos Direitos do Homem, em Haia, por causa de massacres étnicos perpetrados, há uns anos a esta parte.

Mugabe conseguiu em oitos anos destruir grande parte da economia do Zimbabué, através de um plano sinistro que obrigou a maioria dos colonos brancos a abandonarem as suas terras e gado. A China e a Rússia reforçaram entretanto o seu controlo sobre as minas de ferro,cobre e carvão; e, em troca, providenciam apoio económico e politico à camarilha do partido governamental liderado por Mugabe. A elite política sul-africana tem adoptado um low profile e, sem grande alarde, tentado tirar partido das necessidades prementes do povo zimbabueano de alimentos e objectos de primeira necessidade. A seguir.

FAR

Berlim (11)


Das Konzerthaus am Gendarmenmarkt. Berlim. Setembro/Outubro 2007

Foto Sérgio Santimano

domingo, 30 de março de 2008

Atrás do prejuízo

ZAPATISMO, PODER e ESTADO - Seminário, dia 9 de Abril, com John Holloway

ISCTE | Auditório B203 | 9 DE ABRIL 2008 | 18:00

O levantamento zapatista mudou a ideia de transformação social radical, constituindo-se como um desafio prático e teórico que exige reflexão e debate. O que pode significar querer mudar o mundo sem tomar o poder? O que é uma política de dignidade? O que significa afirmar "caminhamos perguntando"? Que sentido pode adquirir o zapatismo na cidade? É sobre estas questões que se debruçará o seminário.


John Holloway nasceu em Dublin. Professor da Universidade de Edimburgo desde 1972, é desde os anos 70 um dos mais destacados dinamizadores da corrente conhecida como Open Marxism. Actualmente é professor na Benemérita Universidad Autónoma de la ciudad de Puebla, no México. Publicou livros e ensaios em vários países, de Post Fordism and Social Form - a Marxist debate on the Post-Fordism State até Zapatista! Reinventing revolution in México. Em 2002 publicou Changing the World without Taking Power – The Meaning of Revolution Today, livro também publicado no Brasil com o título Mudar o Mundo sem Tomar o Poder – O Significado da Revolução Hoje. Este livro, ao colocar em cima da mesa questões tais como a crise do sujeito revolucionário "clássico", a crítica da noção de revolução enquanto estrutura de poder e dominação, a centralidade do trabalho abstracto na ideia estatocêntrica de revolução ou, ainda, a ideia de autonomia como forma política anti-totalizadora do sujeito transformador, colocou o pensamento de John Holloway no centro de um intenso e polémico debate político e teórico, travado desde a França até à Argentina.



Organização

Centro de Estudos de Antropologia Social / ISCTE

Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa / ISCTE

Le monde diplomatique – edição portuguesa


Apoio

Fundação para a Ciência e Tecnologia


INSCRIÇÕES ATÉ DIA 7 DE ABRIL
Por e-mail para: ceas@iscte.pt

[Entrada gratuita. Lugares limitados]

[Confere certificado]

[John Holloway intervirá em espanhol]

[Será previamente fornecido aos inscritos um texto de John Holloway]

Toni Negri: “Um só combate político vale a pena ser travado: o do amor contra o egoísmo”

A pedido de várias famílias de combatentes e entusiastas pela descoberta de conceitos e de modus-operandi, retomamos de novo a expressão de mais algumas das ideias-força de Toni Negri, o ultra-radical pensador e agitador politico italiano. Ao longo dos dois anos e picos do Blogue, Negri ocupou sempre um lugar de destaque, que não deve ser despromovido ou censurado. Houve já sucesso para o nosso Blogue, com a impressão no Google do artigo-em-cima do acontecimento sobre o último livro de Alain Badiou, “Petit panthéon portatif”, como já tinha sido inserido uma tradução de Bakunine. São coisas que dão força e vitalidade ao 2+2=5, e que importa tentar multiplicar. Para a felicidade de todos nós, claro!

* “A história da filosofia é uma espécie de teologia, uma construção abstracta. Ninguém se liga a uma tradição. Vive-se, muda-se, é tudo”.

* “Espinoza é o primeiro filósofo a fornecer um quadro materialista à existência humana”.

* “Não sejamos hipócritas: a violência, mesmo ilegal, existe também nas instituições e no conjunto das relações sociais”.

* "Os conceitos de povo, de proletariado e de classes sociais estão caducos. Correspondiam a certas realidades históricas hoje desaparecidas. A ideia de Povo estava ligada ao Estado-Nação; a de Proletariado ao desenvolvimento industrial do séc. XIX".

* "Antigamente, a exploração capitalista incidia sobre a força bruta de trabalho dos operários e o sítio dessa exploração era a fábrica/atelier. Hoje, são as aptidões intelectuais e as necessidades afectivas que são exploradas. Não são mais as fábricas mas as cidades-metrópoles – nas quais vivem agora mais de metade da humanidade - que representam o tecido produtivo. Num certo sentido, a exploração tal qual a vivemos nas cidades-metrópoles de hoje, é pior que a precedente porque nunca existe repouso. Quando se trabalha com a inteligência ou os afectos, estamos ao serviço 24-horas-sobre-24".

* "Robinson Crusöe nunca existiu, nem existirá. Ninguém consegue viver isolado. As singularidades funcionam em rede. Partilham a mesma vida. Vivemos numa comunidade exposta e espontânea, que criamos sem cessar".

* "Contra o transcendentalismo dos Modernos, a importância do comum foi sublinhada por outros filósofos muito importantes para mim, que são Maquiavel, Marx e Espinosa. Em Maquiavel, o papel não só do povo como o dos pobres, é muito importante para a construção de uma República, não só justa como forte. Há uma certa continuidade entre Maquiavel e Espinosa nesse ponto. Espinosa mostrando que a multitude - classe, grupo livre - nunca se imobiliza, pois, vai-se sempre realizando".

FAR

Zen (2)


Riscos. Virgínia, USA.

Foto Jota Esse Erre

Coisas boas do fim-de-semana

Os textos:

Fazer coisas belas a mulheres belas, Manuel S. Fonseca

O Apocalipse é já amanhã..., Paulo Pinto

A descoberta do
Inquietações Pedagógicas, de Ana Maria Bettencourt
(via Bicho Carpinteiro)









de Ana Cristina Leonardo

sábado, 29 de março de 2008

Do México (2)


A casa colorida. Estado de Veracruz, México. Fev. 08

Foto Pedro Caldeira Rodrigues

Diálogo Touraine/Marcela Iacub: “Maio 68, liberdade sem fim…”

Esta longa entrevista publicada hoje no Libération, dá sequência ao exponencial de textos que surgem para comemorar/perspectivar Maio 68. Trata-se de um diálogo entre o venerando sociólogo Alain Touraine e a historiadora Marcela Iacub. Touraine, que hoje navega nas águas de um Michel Rocard, revela alguns lances da sua convivência com Cohn-Bendit, em Nanterre, onde tudo começou em 22 de Março de 1968. Ler o texto na íntegra, aqui.
Touraine desenvolve mais alguns lances da sua dinâmica reflexão sobre a importância dos movimentos sociais e da representação política. “Hoje, não se acredita na acção. Apoiar a acção era acreditar na acção política contra os monarcas e,sobretudo, apoiar o movimento operário”. E tudo porquê? Ele tenta explicar: “Creio que, com o fim do movimento operário, a extinção da União Soviética e a supremacia dos EUA, a cena social francesa esvaziou-se”.

Maio 68 é qualquer coisa de extremamente novo, que o sistema politico e cultural não estavam preparados para receber. Se se fala, hoje, tanto dele, é por que esse acontecimento singular recomeça a fazer sentido. O periodo liberal posto em prática em 1970/75 na Europa, começa a dar sinais de esvaziamento. Não se pode viver sem um grande projecto. E o projecto consiste em reconstruirmos o que foi desfeito e desfigurado”, sublinha.

Marcela Iacub perspectiva mais a libertação dos sentimentos, desde o início da Revolução Francesa. Touraine destaca o facto de, ao contrário da Inglaterra, o direito de voto para as mulheres em França, ter sido só reconhecido em 1945. “Os estudantes exprimiram um sentimento de grande ruptura e in-ovação. Entrámos, de repente,num mundo que se desconhecia. A França acabava de sair de uma série de acontecimentos maiores: as guerras mundiais, depois a reconstrução e depois as guerras coloniais”, aponta o autor de “Crítica da Modernidade”.

Touraine vai ainda mais longe e afirma: “Maio 68, liberdade sem fim. Tradicionalmente, os que são liberais em economia, são repressivos culturalmente. A partir de 1975, entramos num periodo liberal. É o início de um periodo repressivo que, actualmente, tomou formas gigantescas. Entre meados dos anos 70 e hoje, assistimos a uma regressão enorme. O que se discute sobre a prisão perpétua para os delinquentes sexuais susceptíveis de reincidirem, era impensável há trinta anos atrás".

FAR

Pedrito do Bié

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ainda Dili (13)


Pintura João de Azevedo

Toni Negri ao “Le Monde”: Maio 68 corre-nos nas veias para sempre!

Os 40 anos da efeméride exaltante de Maio 68 prometem um dilúvio de teses e de cerimónias evocativas. O Le Monde, o jornal de centro-esquerda francês mais conhecido no Mundo, resolveu dar à estampa um número Especial sobre o tema. Sob a batuta do sociólogo Jean Birnbaum, optou por entrevistar António Negri, um dos mais conhecidos filósofos e altermundialistas da mouvance italiana.
Negri anuncia na sua residência de Veneza, que quer compor uma Autobiografia para ser publicada até ao final do ano.

O “maestro cattivo”, o cúmplice de Deleuze e Guattari, traça as diferenças essenciais entre o Maio 68 francês e o italiano. A experiência italiana começou nas fábricas e repercutiu-se nas Universidades. A insurreição tricolor começou em Nanterre-Universidade, se bem que Debord e os seus muxaxos tenham andado a espevitar a coisa uns anos antes por Estrasburgo, Lille e Toulouse.

“Sim, Maio 68, foi o fim do velho movimento operário. A reconstrução terminou e assiste-se a uma formidável mutação dos assalariados. Em Maio 68 nasce um movimento que procura reinventar o comunismo de outra forma. Depois disso, o capitalismo soube-se organizar. Helàs, ao contrário do movimento operário”, afirma Negri.

Birnbaum questiona-o se o conceito de “multitude”- massa, classe e outras coisas mais - nasceu em Maio 68. Negri atira: “ O operário indistinto cede o seu lugar ao trabalhador social. Na linguagem marxista, fala-se de produção para as mercadorias e de reprodução para a vida. Melhor seria realizar o inverso: dizer produção quando se fala da vida e reprodução quando diz respeito às mercadorias. É esta mutação que é fundamental em Maio 68“.

“Afirmar que a produção é cada vez mais “ imaterial”, é sublinhar que em realidade ela se torna cada vez mais vital, e que o elemento corporal se revela decisivo. 68, é a revolução dos corpos, uma reivindicação de libertinagem que passa pela libertação do desejo“, reitera.

Negri elabora um terrível requisitório contra a Esquerda tradicional: “O socialismo real é incapaz de compreender isso: não é mais possível organizar a produção e as pessoas de maneira vertical e hierarquizada. Passámos da hierarquia às redes! Em Maio 68, isso foi claro, nós tínhamos assimilado essa mutação, de um ponto de vista teórico. Mas perdemos sobre o terreno político."

“Como diz a anedota, os verdadeiros marxistas estão em Wall Street. A esquerda não conseguiu compreender esta mutação. Ela abordou-a, tão-só, sob o aspecto negativo, da forma: o comunismo acabou. Existe uma grande crise da Esquerda, hoje. Não é somente devido ao facto de não ter compreendido a nova base material da nossa sociedade. Mas também isso se prende com o facto de não ter sabido mudar, de não ter conseguido reorganizar-se, acabar com a velha forma do partido bolchevique, um modo de funcionamento que não se adaptará nunca mais ao processo de trabalho actual, isto é, intelectual e baseado em redes “. E conclui: “ Mas o pior erro da esquerda, é de não compreender a fraqueza do capitalismo, que é agora obrigado a apoiar-se num tipo de pessoas como Bush, Berlusconi ou Sarkozy. O sistema está terrivelmente fragilizado, porque o capitalismo financeiro é uma forma absurda de dominação: eis, o que a Esquerda não percebeu“.

FAR

Slogans de Maio de 68

* Il est interdit d'interdire.
(It is forbidden to forbid.)

* Soyez réaliste, demandez l'impossible.
(Be realistic, demand the impossible.)

* Ne travaillez jamais.
(Never work.)

* Je prends mes désirs pour des réalités car je crois en la realité de mes desirs.
(I treat my desires as realities because I believe in the reality of my desires.)

* L'ennui est contre-révolutionnaire.
(Boredom is a counter-revolutionary act.)

* Nous ne voulons pas d'un monde où la certitude de ne pas mourir de faim s'échange contre le risque de mourir d'ennui.
(We don't want a world where freedom from dying from hunger comes at the risk of dying of boredom.)

* Le patron a besoin de toi, tu n'as pas besoin de lui.
(The boss needs you. You don't need him.)

* Travailleur: tu as 25 ans mais ton syndicat est de l'autre siècle.
(Worker: you are 25 years old but your trades union belongs to another century.)

* On achète ton bonheur. Vole-le.
(They are buying your happiness. Steal it back.)

* Sous les pavés, la plage.
(Under the cobble-stones, the beach.)

* La barricade ferme la rue mais ouvre la voie.
(Barricades shut down the street but open the way.)

* Le réveil sonne: première humiliation de la journée.
(The alarm clock rings: first humiliation of the day.)

* Imagine: c'est la guerre et personne n'y va!
(Imagine: there was a war and no one turned up!)

* Cours camarade, le vieux monde est derrière toi.
(Run comrade, the old world is behind you.)

* Elections, piège à cons.
(Elections, traps for idiots.)

* Dieu, je vous soupçonne d'être un intellectuel de gauche.
(God, I suspect you of being a left-wing intellectual.)

* Les murs ont des oreilles. Vos oreilles ont des murs.
(Walls have ears. Your ears have walls.)

* Ne vous emmerdez plus! Emmerdez les autres!
(Don't screw yourself up any more! Screw up other people!)

* Vous finirez tous par crever du confort.
(You will all finish up by dying from comfort.)

* La forêt précède l'homme, le désert le suit.
(Forests came before man, the desert comes afterwards.)

* Je suis marxiste, tendance Groucho.
(I am a marxist, Groucho tendency.)

* A bas le réalisme socialiste. Vive le surréalisme.
(Down with socialist realism. Long live surrealism.)

Compiled by John Lichfield
Friday, 22 February 2008
The Independent

Via Bicho Carpinteiro

quinta-feira, 27 de março de 2008

Mambo 38

Essa coisa...
Essa coisa da alma que nos faz juntar nadas, como que depois de tanto varrer esse acampamento que é a vida finalmente houvesse a possibilidade de um montículo surgir rasteiro, na humildade dos vazios, e com essa esquina virada para o alto, poder então argamassar um sorrir que não se quebrasse no primeiro intento da saudade de o pasmar desde um outro canto, para mais vir a ser no nosso dentro.

Saigão (1)


Vista de porto e rio. (Ho Chi Mhin City) Saigão. Vietnam. 2008

Foto FFC

Auguste Blanqui: A essência do socialismo

“Não nos alongaremos muito, neste momento,em refutar os sofismas da economia política em favor da remuneração do capital, da capitalização. Essa tarefa essencial ficará para outra altura. Trata-se, agora, tão-só de fazer lembrar que os dois socialismos que se digladiam, o mutualismo e o associativo, apesar da sua divergência radical, estão de acordo sobre um ponto decisivo - a ilegitimidade dos juros. Isso não é tudo, sem dúvida. Mas questionemos, se isso se afigura pouco para os proprietários, os banqueiros, os capitães de indústria e para os negociantes!. Sem querer aliviar as dificuldades da organização do mercado de trabalho nos dois sistemas socialistas - e é nesse ponto que aparece o antagonismo visceral - podemos avançar com toda a força, que a essência nuclear do socialismo reside na fórmula que consagra a ilegitimidade dos juros do capital”.

In “Maintenant, il faut des armes”, Antologia de textos de Auguste Blanqui, La Fabrique Éditions, Paris

FAR

quarta-feira, 26 de março de 2008

Terra

Somewildwish/27
Foto:g.ludovice

Migrações forçadas - Simpósio - 27 de Abril a 2 de Maio no Monte Verità


Foto Sérgio Santimano

EXPULSOS, DESLOCADOS, DESTERRADOS
Migrações forçadas na América Latina e em países luso-africanos
Centro Stefano Franscini, Monte Verità (Ascona)

Coordenador: Prof. Martin Lienhard / Romanisches Seminar, Universität Zürich
Assessor: Prof. Jesús Morales Bermudez / Universidad de Ciencias y Artes de Chiapas (UNICACH), Tuxtla Gutiérrez, México
Patrocinadores: Politécnico de Zurique (ETH) / Fonds National de la Recherche Scientifique (FNRS) / DEZA / Hochschulstiftung Zürich / Instituto Camões / KFPE / SAGW / Zürcher Universitätsverein
Informações:
Prof. Martin Lienhard / Annina Clerici / Marília Mendes
Romanisches Seminar / Universität Zürich / Zürichbergstrasse 8
CH-8032 Zürich
Tel.: ++41 44/ 634 35 78 (M. Lienhard) / 634 35 74 (A. Clerici / M. Mendes)
Fax: ++41 44/ 634 49 40 E-mail: lienhard@rom.unizh.ch

Projecto e programa
Causado por situações de guerra ou de conflito armado, mas também pela implementação sem escrúpulos de grandes projectos de tipo extractivo, agrícola, industrial, hidráulico, infra-estrutural e urbanístico, o deslocamento em massa de populações vem provocando, em diversas áreas e localidades de África e da América Latina, situações extremamente graves em termos sociais, económicos, culturais e educativos.
Ao promover um debate interdisciplinar e inter-regional sobre os deslocamentos forçados e as suas causas e consequências, o simpósio que estamos organizando pretende contribuir para um melhor conhecimento deste preocupante fenómeno e intervir no debate – levado a cabo por organismos internacionais, nacionais e não governamentais – acerca das estratégias que é necessário desenvolver na luta contra os deslocamentos e em apoio das populações deslocadas ou re-assentadas. Para se poder avançar nesta direcção, parece-nos imperativo dar especial atenção à experiência das próprias colectividades que foram envolvidas em – ou ameaçadas por – processos de expulsão, deslocamento ou reassentamento compulsivo. Interessar-nos-á especialmente, neste contexto, os movimentos colectivos de resistência contra a expulsão e desenraizamento, as estratégias de sobrevivência das populações dispersas e todas as práticas de reconstrução da vida comunitária – economia, organização social,educação, etc. – nos espaços de reassentamento ou de retorno.
As disciplinas representadas neste colóquio serão, entre outras, a história, a antropologia, a sociologia, o cinema, a fotografia e a literatura. Também se dará a palavra a representantes de organismos comprometidos com a luta contra os deslocamentos e com a ajuda a deslocados. Estamos confiantes que o cotejo de experiências diversas e que o diálogo interdisciplinar e inter-regional nos permitirão chegar a resultados novos e significativos.
As línguas de trabalho são o espanhol e o português.
O simpósio conta já com a participação de uma quinzena de destacados especialistas que provêm, na sua maioria, da América Latina e da África (v. lista em baixo).

Situado na Suíça italiana, perto da cidade de Locarno e do Lago Maggiore, o Centro Stefano Franscini no Monte Verità, antigo refúgio de utopistas e democratas perseguidos, é um espaço idílico que oferece um excelente quadro para os debates deste simpósio.

Informações sobre o Centro Stefano Franscini / Monte Verità

Conferencistas confirmados:
· Prof. Jesús Morales Bermúdez, antropólogo e escritor, reitor da Universidad de Ciencias y Artes de Chiapas (UNICACH), Tuxtla Gutiérrez, México
· Juan Tomás Ávila Laurel, escritor, Guinea Ecuatorial
· Dr. João Paulo Constantino Borges Coelho, historiador e escritor, Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique
· Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy, historiador oral, Universidade de São Paulo, Brasil
· Andrés Cabanas, jornalista de investigação, Memorial de Guatemala, Ciudad de Guatemala
· Prof. Hugo Carrasco, estudioso antropológico-literário, Universidad de la Frontera, Temuco, Chile
· Prof. Fernán E. González, historiador, CINEP, Bogotá, Colômbia
· Carlos Rosero, Grupo de derechos humanos – Proceso de comunidades negras en Colombia (PCN), Colômbia
· Prof. Ricardo Valderrama, antropólogo, Universidad San Antonio Abad, Cusco, Perú
· Prof. Julio Ramos, Cultural studies, University of California, Berkeley, USA
· Prof. Aline Helg, historiadora, Université de Genève, Suisse
· César Pastor, UNHCR (The UN Refugees Agency), Genève, Suisse
· Sérgio Santimano, fotógrafo, Maputo, Moçambique / Uppsala, Sverige
· Juan Lozano, cineasta, Genève / Colômbia
· Jean-Pierre Bastian, historiador de religiões, Université de Strassbourg
· Antonio Melis, estudos literários, Università di Siena

Estão previstas algumas actividades culturais (teatro, cinema, etc.).

Via Ponte

Novo PR russo ao Financial Times: tudo pelo Estado de Direito à Ocidental

É a primeira grande entrevista do recém-eleito PR russo, Dmitry Medvedev, a um jornal estrangeiro, realizada pela equipe de ouro dos correspondentes do F.T.,em Moscovo, Neil Buckley, Catherine Belton e um assessor, Lionel Barber. O tom da conversa foi caracterizado pelos jornalistas que se deslocaram ao Kremlin, como “conciso, sujeito a ponderação, envolvendo precisão e alongando-se no tempo de resposta”. Nada que se pareça com o “ colorido talento e a linguagem crua” de Putin…
E foi dado à estampa na edição europeia de ontem.

Medvedev, universitário puro e jurista, com 42 anos, surge no cerrado puzzle da vida política russa como o continuador da tese de Putin, desmentida e mal rodada, da instauração do Estado de Direito, em movimento sem fim. “Ele vê cada solução para os problemas através do prisma do legalismo “ democrático, o fundamento jurídico e constitucional, alertam os jornalistas.” Mas por detrás da linguagem esparsamente muito trabalhada, situa-se um profundo objectivo: entronizar o papel da lei na sociedade russa”, frisam.

Medvedev sabe que o jogo é muito arriscado, Tem que fazer “duo” com Putin, que passa a PM com funções exclusivas na governação económica, “na arena”, como exprimiu. Por outro lado, tem que fazer frente aos duros do regime, antigos caciques do KGB, que não gostaram nada que tivesse sido o escolhido. Antes tinham preferido que Putin tivesse “alongado” o seu mandato…A nova burocracia de Estado russo pode vir a causar muitos dissabores ao sucessor de Putin, pois vive anichada e em circuito fechado acoplada às administrações mais rendosas do fabuloso património industrial russo, conforme dei a ver em artigos anteriores.

“O seu princípio básico, de partida, prende-se com o seu estatuto profissional ele é, afirma-o, talvez demasiado um advogado. Meticuloso e preciso, perspectiva quase sempre cada solução através da racionalidade jurídica do seu pensamento”. “ Será uma tarefa gigantesca”, concorda, para sintetizar: “A Rússia é um país onde o povo não gosta de cumprir a lei. É um país de niilismo legal “, acrescenta.

Medevedev insiste em que, a Rússia, tem que construir o império da lei, destacando três princípios base. O primeiro prende-se em legitimar a supremacia da lei sobre o poder executivo e a vida social. O segundo, é criar “uma nova atitude e comportamento perante a lei”. “Temos que assegurar, que cada concidadão compreenda que para lá da necessidade e justeza, se torne ciente que sem esses desideratos não pode existir um normal desenvolvimento do nosso Estado e da sociedade em geral”, foca. O terceiro prende-se com a necessidade de ser observada a “independência dos juízes e dos tribunais”.

“A minha definição da democracia como poder do povo não é diferente, de modo algum, das clássicas definições que existem nos outros países”, assegura. E avança com esta profissão de fé, a par do emagrecimento e redefinição da estrutura da economia, que se pode tornar como o seu talismã, diferencial e de marca própria: “A Rússia é um país europeu e tem toda a capacidade para cooperar com os outros países, que tenham adoptado o mesmo compromisso democrático para o progresso”.

FAR

Berlim (10)


Berlim. Set./Out. 2007

Foto Sérgio Santimano

terça-feira, 25 de março de 2008

Meritocracia é mitologia.

Li isto e fiquei espantado. A mentira da meritocracia é repetida à exaustão, juntamente com a velha lenga - lenga do trabalho enquanto valor (e a propósito, recomendo o fabuloso O Direito à Preguiça de Paul La Fargue).
"Em que outro país uma ex-refugiada consegue adoptar uma nova nacionalidade, abrir uma loja, ter um negocio seu, depender de si própria? No fundo, em que outro local, uma pessoa nas condições de Chloe poderia vencer?"
É fantástico que haja quem se consegue prender com a mentira capitalista que é possível. É, de facto, possível. Mas com que preço? Quantas Chloes ficaram no caminho da saúde privatizada e inacessível a milhões? Quantas Chloes continuam escravizadas em um, dois, três empregos precários, com o banco prestes a cortar-lhes a torneira (depois vai-se a casa - e a loja de roupa, suponho)? E quantas Chloes ainda morrem de malária enquanto há dinheiro para o Iraque?
O que é mais intrigante é que isto chega a ser básico, mas tem que ser verbalizado: porque é que nos concentramos nos pouquíssimos bons exemplos e não ligamos aos muitos mais que todos os dias são humilhados e vivem em condições miseráveis? Ligar a muitos não é melhor do que ligar a poucos? Não é mais justo? Não havia maior probabilidade de estarmos no grupo dos muitos do que no dos poucos?
Mas há mais. Os meritocratas falham redondamente filosoficamente, porque o livre arbítrio, como o provou Schopenhauer (no seu Contestação ao Livre Arbítrio) e outros, não existe. E a partir daí, é difícil chegar à meritocracia. Depois, falam como se o jogo não estivesse viciado à partida. As Chloes partem da mesma posição que os filhos do Balsemão? Os meritocratas devem ser os primeiros na luta contra a herança (que mérito há em receber o dinheiro dos pais? Algum de vós escolheu os pais? Só Bush fala com deus (ai, credo, com minúscula!), não se iludam ).
A meritocracia e este culto quase eugenista de "longa vida aos das boas escolhas" é a forma bonita, dentro da matriz judaico- cristã, de nos lembrarem que quem muito trabalha e muito sofre, merece ser recompensado. E se não for nesta vida, é na outra (o que faz com que ou seja uma ou outra, porque os ricos não chegam ao reino dos céus, não é verdade?).
Importa desmistificar e combater estas ideias que encorajam as pessoas a sonharem por uma lotaria em vez de quererem um mundo menos injusto, com menos diferenças, sem estas histórias da carochinha.

(PS: citei dois livros neste post. Qualquer trocadilho com o Marcelo não é benvindo.)

Zen (1)


A outra metade do céu. Virgínia, USA.

Foto Jota Esse Erre

“USA-Today”: 75% dos eleitores do P.D. favoráveis a candidatura bicéfala

No mundo das sondagens, quase de hora a hora, do agitado universo politico norte-americano, hoje, o jornal USA-Today, embandeirava com uma sondagem encomendada à Gallup, onde três quartos do eleitorado democrata manifesta simpatia pela candidatura bicéfala de Hillary Clinton e Barack Obama às presidenciais de Novembro. Só uns residuais 25 por cento do eleitorado distinto dos dois rivais, se manifesta em oposição frontal a tal desígnio, acrescenta a sondagem.

A prosa do jornal norte-americano, recolhida no campo dividido dos dois candidatos democratas, alerta para a “quase obrigação” da dupla aparecer na lista para as Presidenciais Nov.08. Para evitar a erosão de votos, sobretudo, Segundo os analistas apuraram. Porque o eleitorado jovem afro-americano de Obama, caso o seu favorito não surja na disputa com McCain, recusa ir às urnas. Do mesmo modo, as mulheres brancas com mais de 50 anos, que formam a base eleitoral de H.Clinton, e cujos votos são cruciais, ameaçam abster-se caso a sua eleita não seja escolhida. A hipótese de Bill, jogada há já algum tempo, cria volume e sonho…

Entretanto, as fratricidas e siderantes rivalidades entre os dois rivais democratas, estão a dar força ao candidato republicano, John McCain, que na sondagem da Newsweek desta semana, aparece com 15 por centos de votos a mais, quer em relação a Obama, quer Hillary Clinton, no espaço do eleitorado “independente”. Sabendo-se que McCain tem um programa eleitoral muito “à direita”, em relação ao destino da Guerra do Iraque bem como da Crise Económica, os analistas favoráveis ao P.Democrático exortam os dois rivais a silenciarem os ataques pessoais.


FAR

segunda-feira, 24 de março de 2008

Do México (1)


Cacto. Estado de Oaxaca, México. Fev. 08

Foto Pedro Caldeira Rodrigues

Maio de 68 - Colóquio Internacional - 11 e 12 de Abril em Lisboa

RESUMO DAS COMUNICAÇÕES

Teses sobre a geração dos anos 60 em Portugal e a questão da hegemonia
Fernando Rosas
Pretende-se discutir o papel que o "Maio de 68" em Portugal, ou seja, a contestação estudantil de 1969, desempenhou na radicalização da luta política em geral e na alteração das relações de hegemonia em favor das mundivisões marxizantes e revolucionárias na sociedade portuguesa da época.
Fernando Rosas, Historiador, Professor catedrático da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Autor de bibliografia sobre a História do séc. XX em geral e a História do Estado Novo português em particular.

Um conto de duas Europas
Gerd-Rainer Horn
Em quase todo o lado o meio estudantil universitário serviu de catalisador para "1968", e isto será exemplificado com um breve olhar sobre as origens do 1968 Belga. Contudo, podemos distinguir dois padrões bem distintos na Europa Ocidental e nos Estados Unidos em 1968. Na "Europa do Norte" e nos Estados Unidos, 1968 representou sobretudo uma série de movimentos sociais de base estudantil. Na "Europa do Sul", 1968 foi muito mais transclassista, com a classe operária a assumir um papel proeminente.
Gerd Rainer Horn ensina no departamento de Hiatória da Universidade de Warwick e escreveu The Spirit of '68.

Maio de '68 como revolução cultural
Manuel Villaverde Cabral
Testemunho pessoal sobre o momento mais alto de um movimento social internacional que não queria o poder, mas que nem por isso – ou talvez por isso – deixou de mudar o mundo.
Manuel Villaverde Cabral nasceu em 1940. Fugiu à PIDE em 1963, indo para Paris onde trabalhou e estudou. Voltou a Portugal em 1974, ingressou na carreira docente no ISCTE, entrou para o antigo Gabinete de Investigações Sociais em 1975, passando para a carreira de investigação quando foi criado o Instituto de Ciências Sociais na Universidade de Lisboa em 1982. Foi Director da Biblioteca Nacional entre 1985 e 1990.

Maio de 68: do «assalto ao céu» ao capitalismo em rede. O papel dos situacionistas
Anselm Jappe
Começaremos por abordar a questão de saber qual foi a «influência» dos situacionistas em Maio de 68 bem como na sua preparação, opondo a outros movimento políticos e intelectuais mais visíveis da época a sua própria agitação subterrânea. Sublinharemos de seguida que Maio de 68 constituiu simultaneamente um esforço de emancipação mas também o início da passagem para uma nova forma mais subtil de dominação capitalista. Neste contexto, recorreremos às ideias de Guy Debord para compreender esta evolução tirando daí algumas consequências.
Anselm Jappe ensina estética na Escola de Belas Artes de Frosinone (Itália). É autor de Guy Debord (edíção portuguesa da Antígona prevista para 2008) e As aventuras da mercadoria. Para uma nova crítica do valor.

Lançamento do livro Guy Debord, pela Editora Antígona
12 de Abril 21h30
Fábrica de Braço de Prata
Apresentação por Ricardo Noronha


«Como é possível pensar que se possa quebrar o ciclo vicioso [da dominação]?»Daniel Bensaïd
Era esta a questão colocada, logo em 1964, por Herbert Marcuse, em L'homme unidimensionnel, e que assolava a sua época. A exuberância dos acontecimentos de Maio terá significado um princípio de resposta à questão ou confirmado, pelo contrário, o fecho daquele ciclo vicioso, como parece indicar a evolução posterior da obra de Debord ou de Baudrillard: depois do espectáculo, estado supremo do fetichismo da mercadoria, o simulacro, estado supremo do espectáculo?
Daniel Bensaïd é Professor de Filosofia na Universidade de Paris VIII (Vincennes) e dirigente da Ligue Communiste Révolutionnaire (IV Internacional). Participante no movimento estudantil em Maio de 1968, é autor, entre outras, das seguintes obras: Mai 1968: Une répétition générale (1968), Walter Benjamin sentinelle messianique (1990), Marx l'intempestif : Grandeurs et misres d'une aventure critique (1996).

1968: o fim do intelectual sartriano
Judith Revel
1968 não constitui apenas o levantamento de uma geração que não quer mais viver de forma semelhante à dos seus pais, alimentando-se da mesma memória – de Vichy, das guerras coloniais – e reconhecendo-lhe os valores. Constitui também uma outra forma de conceber a tomada da palavra e a acção colectiva, os modos de intervenção política e os processos de subjectivação. Nesta grande transição de uma época à outra, a própria função dos intelectuais vê-se profundamente redefinida: o modelo sartriano de envolvimento político cede pouco a pouco o lugar a uma outra figura que, por seu turno, implica já uma análise diferente das relações de poder e do papel do conhecimento, da função das lutas e dos usos colectivos da palavra. De Sartre a Foucault, trata-se pois de uma passagem de testemunho em forma de ruptura – que quarenta anos depois não deixa de suscitar mal-entendidos.
Judith Revel, filósofa, italianista e tradutora, docente (maître de conférences) na Universidade de Paris-I Sorbonne. Especialista em pensamento contemporâneo, particularmente no de Michel Foucault, a quem consagrou numerosos livros e artigos, trabalha actualmente sobre as categorias políticas anteriores e posteriores a 1968. Integra a redacção das revistas Posse (em Itália) e Multitudes (em França), e o gabinete científico do Centre Michel Foucault. Membro da equipa de investigação ANR «La bibliothéque foucaldienne. Michel Foucault au travail" (CNRS-ENS-EHESS).

Participação, encontro, memória: os imigrantes e o Maio de 68
Maud Bracker
Esta comunicação debruça-se sobre alguns dos modos pelos quais os principais grupos que encabeçaram o Maio de 68 em França – estudantes, intelectuais, sindicalistas – tentaram compreender a emergência do mundo pós-colonial, e integraram essa passagem ao pós-colonialismo na sua oposição ao capitalismo. Contudo, as teorias e a acção em solidariedade com os trabalhadores imigrantes que se desenvolveram durante e após 1968 herdaram das formas mais antigas do anti-imperialismo marxista europeu alguns dilemas não-resolvidos.
Maud Bracke dá aulas de História Moderna Europeia na Universidade de Glasgow. É autora de Which socialism, whose détente? West European communism and the Czechoslovak crisis of 1968.

Estudantes ou trabalhadores?
João Bernardo
Será paradoxal que os participantes num movimento que jornalistas e historiadores insistem em classificar como estudantil colocassem principalmente problemas políticos e sociais relativos à classe trabalhadora? O desenvolvimento do capitalismo, com as pressões ao aumento da produtividade e com a necessidade de qualificar a força de trabalho, converteu universidades de elite em universidades de massa e transformou a maioria dos estudantes universitários em futuros trabalhadores.
João Bernardo é doutor pela Unicamp (Brasil). Em 1965 foi expulso por oito anos de todas as universidades portuguesas. Desde 1984 tem leccionado como professor convidado em universidades públicas brasileiras. É autor de numerosos artigos e livros.

1968 e a génese do Cognitariado
Franco Berardi (Bifo)O movimento de 1968 representa o efeito da escolarização de massas e a primeira manifestação política da emergência do cognitariado, classe do trabalho cognitivo, composição social que se tornou predominante no final do século, com a difusão da rede.
Rádios piratas, cibercultura, net-art, são as manifestações sucessivas do trabalho cognitivo em busca da sua própria autonomia. Só reencontrando o fio (actualmente submerso) da revolta de sessenta e oito poderá o trabalho cognitivo empreender um processo de recomposição e autonomia.
Franco Berardi (Bifo), militante do Potere Operaio nos anos 60, redactor da Radio Alice em 1976 e fundador da revista A/traverso. Autor de Contro il lavoro, Mutazione Ciberpunk e Felix. Colabora actualmente com a revista on-line www.Rekombinant.org, ensina em Bologna numa escola para trabalhadores emigrantes e em Milão na Accademia di Belle Arti.

As greves operárias em França em 1968
Xavier Vigna
O movimento de Maio e Junho de 1968 em França constitui o mais importante fenómeno grevista de toda a história do país. Alarga-se a todo o território e mobiliza também operários de que até então não se falava: os jovens, as mulheres, os imigrantes. Retoma um vigoroso repertório de acções e levanta questões que não encontraram ainda resposta quando finalmente se retoma o trabalho em Junho de 1968. Nessa medida, o movimento grevista de Maio-Junho de 1968 constitui um evento que inaugura um período de dez anos de insubordinação operária: a década de 68.
Xavier Vigna, docente (maître de conférences) em história contemporânea na Universidade de Bourgogne, trabalha sobre a conflituosidade social e política na segunda metade do século XX. Publicou recentemente L'insubordination ouvrière dans les années 68. Essai d'histoire politique des usines.

Maio de 68, herança por reclamar na divisão de perdidos e achados da História
Yann Moulier Boutang
Começou por ser grande o interesse na recuperação de Maio de 68, depois na sua liquidação. Abordaremos aqui um ponto de vista radicalmente diferente relativamente ao qual trataremos dois aspectos: 1) Que foi realmente Maio de 68? Canto do cisne do movimento operário, outro movimento operário, proclamação oculta do verdadeiro sujeito da renovação radical do capitalismo? 2) Qual o legado não reclamado mas efectivo de Maio de 1968? Concluímos que o evento foi e continua a ser critério de demarcação entre duas fases, embora não necessariamente do modo condensado pelas diferentes cristalizações fantasmáticas que gerou e continua a produzir.
Director da Redacção da revista Multitudes. Professor universitário de ciências económicas (Universidade de Tecnologia de Compiègne e Escolas de Arte e Design de Saint Etienne).

1968 e a Crise do Trabalho Abstracto
John Holloway
1968 tornou evidente que a crise do trabalho é a crise do capital, que a luta contra o trabalho é a chave da luta contra o capital. Em 1968, o fazer fendeu o trabalho e transbordou. Falar hoje de 1968 não é falar de um legado histórico, mas sim das reverberações causadas por essa fissão.
John Holloway é professor na Universidade Benemérita de Puebla, no México. É autor de vários livros, publicados em vários países, o mais recente dos quais, Mudar o Mundo sem Tomar o Poder.

A revolução da vergonha
Bruno Bosteels
Partindo do famoso poema de Octavio Paz, publicado pouco depois do massacre de Tlatelolco no México em 2 de Outubro de 1968, poema inspirado nas cartas de Karl Marx ao seu amigo Arnold Ruge, discutirei o destino da esquerda no período posterior a 1968 em termos de vergonha e de melancolia, de coragem e de justiça. Não é apenas Sarkozy e os seus acólitos pseudo-intelectuais que pretendem acabar com o legado de 1968; na realidade, semelhante legado vê-se igualmente corroído a partir do seu interior por uma forte tendência de negação, a favor de um certo recuo do político, que se proclama mais radical que qualquer noção de revolucionarização da vergonha.
Bruno Bosteels é Professor Associado de estudos românicos na Universidade de Cornell. É autor dos livros Alain Badiou o el recomienzo del materialismo dialéctico e Badiou and Politics.

Os embalsamadores e os coveiros
François Cusset
No quadro da vastíssima bibliografia que 'explica' ou 'comemora' Maio de 68, a interpretação de esquerda, que lhe imputa o liberalismo da década de 1980, e a interpretação de direita, que o acusa de ter minado a autoridade e os valores, partilham entre si uma vontade intransigente de liquidar o movimento de Maio, denegando-lhe a dimensão de acontecimento, a sua actualidade intacta, em proveito de uma causalidade de carácter retrospectivo muito contestável. Embalsamadores de esquerda e coveiros de direita do Maio de 68 trabalham assim ombro a ombro para substituir a irrupção possível do comum pela impotência colectiva.
François Cusset, que ensina história intelectual em Sciences-Po-Paris e na Universidade de Columbia em França, é autor de Queer Critics, Frenche Theory e La Décennie. Em Maio de 2008 publica na editora Actes Sud um panfleto contras as mentiras históricas sobre 68, L'avenir d'une irruption.

MAIO' 68



POLÍTICA|TEORIA|HISTÓRIA

Colóquio Internacional
Lisboa, 11 e 12 de Abril de 2008
Instituto Franco-Português
Av. Luís Bívar, 91 | METRO: São Sebastião - Campo Pequeno.

Tradução Simultânea
Entrada Livre
Mais informações: lisboa1968@gmail.com | (+351) 213111468


Organização
Instituto Franco-Português
Instituto de História Contemporânea
Le monde diplomatique – edição portuguesa

Apoios: FCT | Fábrica de Braço de Prata | Goethe Institut | Antígona


Maio de 1968. Em Paris anuncia-se o início de uma luta prolongada. Quatro décadas depois, este colóquio internacional reúne um conjunto de reputados intelectuais cujas investigações permitiram voltar a olhar para 1968 nas suas mais variadas dimensões. Levando o debate mais além das repetidas alusões ao cariz geracional e estudantil da revolta, mapeando 1968 para lá das fronteiras da França, o colóquio confronta a importância de 1968 na emergência de novas subjectividades políticas, analisa a dimensão de luta de classes que atravessa o período e discute a persistência de Maio'68 nos conflitos políticos contemporâneos.


Os coordenadores,
Bruno Peixe (NÚMENA)
Luís Trindade (IHC-UNL/U.Birkbeck)
José Neves (ICS-UL)
Ricardo Noronha (IHC-UNL)

PROGRAMA
11 DE ABRIL


9h30
Sessão de Abertura


10h | Maio no Mundo

Fernando Rosas
Teses sobre a geração dos anos 60 em Portugal e a questão da hegemonia

Gerd-Rainer Horn
Um conto das duas europas

Manuel Villaverde Cabral
Maio de '68 como revolução cultural

14h30 | Ideias de Maio

Anselm Jappe
Maio de 68, do «assalto aos céus» ao capitalismo em rede. O papel dos situacionistas

Daniel Bensaid
Como será possível pensar poder quebrar o ciclo vicioso (da dominação)

Judith Revel
1968, o fim do intelectual sartriano

12 DE ABRIL
10h | Maio em Movimento


Maud Bracker
Participação, encontro, memória: os imigrantes e o Maio de 68

João Bernardo
Estudantes ou trabalhadores?

Franco Berardi (Bifo)
68 e a génese do cognitariado

14h30 | O Outro Movimento Operário

Xavier Vigna
As greves operárias em França em 1968

Yann Moulier Boutang
Maio de 68, herança por reclamar na divisão de perdidos e achados da História

John Holloway
1968 e a crise do trabalho abstracto

18h | 1968 - 2008

Bruno Bosteels
A revolução da vergonha

François Cusset
Os embalsamadores e os coveiros

Da Capital do Império

Olá!

Hoje escrevo para vos dizer que o Obambi está um pouco à rasca. Vocês lembram-se que quando ele iniciou a campanha há muitos e muitos meses atrás o homem foi acusado pelos pretos de não ser suficientemente preto. Escreveram-se artigos, comentários, opiniões sobre se o Obambi era “black enough”. Depois o marido da Hilária meteu o pé na poça e insinuou que o Obambi não podia ganhar eleições porque era preto. A partir daí os pretos começaram a votar quase que por unanimidade pelo Obambi, a brancalhada que estava incerta ficou furiosa com mais uma clintonice e votou ainda mais pelo Obambi. A Hilária teve que mandar calar o Bill.
Agora o Obambi está à rasca porque está tudo a dizer que ele é preto e não é suficientemente branco. Isto porque o reverendo da igreja do Obambi, um tal Jeremias, disse em tempos que a SIDA era um plano da brancalhada para matar os pretos e que na sua igreja não se canta God Bless America mas sim God Damn America. Aparentemente isto são coisas de pretos e a brancalhada ficou ofendidíssima porque isso não é verdade e porque o Obambi lhes tinha dito que tinha “transcendido” a raça.
A barraca foi tal que o Obambi teve que ir à televisão explicar porque é que não pode denunciar e afastar-se da igreja que o “trouxe para o cristianismo” (essencial na politica americana). Para tal disse que se o Jeremias de vez em quando afirmava coisas tolas o mesmo fazia a sua avó (branca) quando fazia comentários sobre os pretos e que ele nunca tinha cortado relações com a avó.
Eu fiquei assim um pouco atrapalhado porque as avós não se escolhem, mas aqui na América, igrejas há uma cada esquina e pode-se ir a uma diferente todos os Domingos e conhecer dezenas de reverendos tipo Jeremias cada qual com a sua pancada. O Obambi poderia por exemplo ter escolhido a igreja de um outro reverendo famoso que afirma que tem que se apoiar Israel para garantir a segunda vinda de Jesus. Esse mesmo reverendo disse que o furacão Katrina foi vingança de Deus contra os homossexuais e prostitutas. O problema talvez é que esse é branco e …. ninguém notou.
Tenho a dizer-vos no entanto que os tipos das relações públicas do Obambi fizeram um trabalho excepcional pondo o “transcendente racial” em frente a umas dez enormes bandeiras americanas. Até parecia um presidente preto a falar na Casa dos Brancos (que a Hilária quer transformar em Casa da Branca).
Claro está que por esta altura vocês estão a fazer a pergunta que os americanos estão agora a fazer. O Obama é preto, branco ou transcendente?
Em primeiro lugar tenho que vos explicar que na complicada questão racial americana só há pretos e brancos. Nada pelo meio. O que pode ser confuso. Como vocês se devem sentir quando olham para as fotos do reverendo Jeremias que é mais claro do que muita malta do Alentejo e Algarve ou mesmo quando eu vou à praia. Lembro-me aliás que há uns anos atrás a presidente da Câmara de Washington era mulata de pele clara e um conhecido politico Moçambicano ficou totalmente confuso quando a mesma lhe foi apresentada.
“Tinham-me dito que era preta,” disse o tal moçambicano. “Na América é preta,” explicou um funcionário da embaixada muito sério. “Então eu sou branco,” disse o ministro moçambicano (preto). Olhou para mim e disse: “Tem a certeza que não é preto?” A malta riu a bom rir.
A razão por que o Obambi não era considerado “black enough” não era portanto por causa da sua cor da pele não ter a cor preta. A razão prende-se ao facto do Obambi não ser descendente de escravos, não ter tido família que passou pela era da segregação tipo apartheid que se viveu na América, ter sido totalmente educado por uma família branca (o pai queniano foi-se embora), não ter portanto crescido com conhecimento dos ódios e divisões raciais que marcaram o país.
E paradoxalmente essa é talvez a razão por que o Obambi escolheu a igreja do Jeremias. Na América a igreja é mais que um lugar de culto. É parte viva da cultura, é parte da identificação, parte daquele sentimento tão comum dos americanos de se querem identificar com um grupo ou uma etnia, de estarem sempre à procura das suas raízes – italiano-americanos, sueco-americanos, luso-americanos, “hispanicos”, africano-americanos etc. Uma nação construída na base de enclaves étnicos, raciais, religiosos e estaduais. Quando se pergunta a um americano de onde é, ele responde por afiliação estadual, depois étnica, depois religiosa. Uma nação sem um povo comum e daí a reverência de todos os americanos para com as suas bandeiras, os seus hinos patrióticos, a sua constituição, o seu exército. É o que os une.
O que os divide mas que continua ainda para muitos a ser a sua identificação é precisamente a sua identidade étnica, religiosa, racial, marcada por tragédias e confrontos e no caso da raça marcada pelo “pecado original’ desta nação: a escravatura. A igreja para a população negra é algo de vital. Foi o que manteve os negros juntos, onde nasceram as canções de protesto, o único lugar de reunião durante a escravatura. O único lugar de esperança e onde hoje se ouve ainda a voz irada dos protestos contra as desigualdades da sociedade, muitos deles totalmente desfasados da nova realidade mas reflexo de uma ira contra os vestígios desse passado
O Obambi que em tempos procurou a sua identidade nessa igreja pensava que podia transcender agora tudo isso. O passado apanhou-o e os clintonistas quase que não conseguem esconder o seu regozijo. A Hilária espera que o Jeremias seja o santo que a vai salvar.

Da capital do Império,

Jota Esse Erre

Economia-Mundo: Recessão épica ou desregulação feérica?

(...) assistimos à criação em todos os sectores de redes de influência ou de sociedades secretas. Isso não é senão um produto natural do movimento de concentração do Capital, da produção e da distribuição. O que, neste complexo, não se desenvolve, tem que se extinguir; e nenhuma empresa consegue crescer se não adoptar os valores, as técnicas e os meios usados hoje pela indústria, o espectáculo e o Estado. Isso é, em última análise, a forma de desenvolvimento sui-generis que foi escolhida pela Economia actual, que impõe em todo o lado a formação de novos laços pessoais de dependência e de protecção”. In « Commentaires sur la société du Spectacle », por Guy Debord.

Estamos todos a assistir a uma abracadabrantesca crise do sistema financeiro norte-americano, nas últimas semanas. A chave do sistema - a desregulação e a supremacia do mercado - abrem brechas e mesmo o staff de GW Bush multiplica os ziguezagues para só muito poucos perceberem que o Estado tem que financiar as ribombantes (cada dia é um mundo, como dizem os economistas do Financial Times) perdas do sector financeiro, especialmente as ligadas com o surreal (e indescritível) sistema de empréstimos sem caução de espécie alguma, em especial para o sector imobiliário. A incerteza da perspectiva que moldou a teoria económica de J:M Keynes, a anteceder a Grande Depressão, parece estar de volta. Mas agora com novos processos de engenharia financeira e de política monetária, que só uma elite pode condicionar e manipular.

Como o escreve Edmund Phelps, Nobel de 2006 da Economia,, os riscos de gestão do crédito sem rede eram inverosímeis e inescapáveis, ao mesmo tempo…E vai direito à sua tese principal, defendida há uma semana atrás nas colunas do WS. Journal: “All the risks in economy, it was claimed, are driven by pureliy random (azar,chance…) shocks - like coin throws – subject to known probabilities, and not by innovations whose uncertain effects cannot be predicted “. A que se soma aquela ideia peregrina da política monetária que tenta equilibrar, num mundo opaco e já sem defesas contra a especulação, o nível médio das taxas de juro acoplado com a média do desemprego e da inflação. Coisas que geram, oscilam e são incertas: a quadratura do círculo, onde a boa prestação da economia real se torna capital, claro. E os grandes indicadores da economia USA, por exemplo, entraram no vermelho em Novembro passado. É o carrossel do poço da morte!

Paul Samuelson, o venerando e mítico deão do MIT, publicou dois artigos capitais no NY Times, em Novembro passado e no corrente mês. O primeiro tinha por título,” Nova Crise, controlar a liberdade do Mercado”; o segundo, de 19 do corrente, tinha por antetítulo,” Décadas perdidas”, e “ Repelir um demasiado longo colapso”. Samuelson assinala que, mesmo a heróica plêiade de economistas nipónica, ainda não conseguiu jugular os efeitos inflacionistas negativos gerados pela estagflação do estertor da “ bolha “ do mercado imobiliário dos anos 80…O que vale, do mal, o menos, é que a crise financeira parece confinada aos EUA e alguns sectores bancários da União Europeia, que fazem tudo para refinanciar e organizar o sector em perigo. Qual bola de neve, que pode esconder a responsabilidade das elites que nos governam. O que se verifica, acima de tudo, é que os países com grandes almofadas de divisas e funcionais sistemas bancários, bem como com pujantes sectores virados para a exportação, parecem estar imunes a esta real ameaça de contaminação económica e financeira. A curto ou a médio prazo, toda a política económica mundial terá que ser reavaliada para confinar a incerteza inerente ao mega-mundo.

FAR

Ainda Dili (12)


Pintura João de Azevedo

domingo, 23 de março de 2008

Sugestões musicais de fim-de-semana

Ouvi tudo, mas hesitei muito na escolha. Comecei com os amigos Ana Cristina Leonardo e Manuel S. Fonseca. O Maturino Galvão está sem net e, dadas as circunstâncias, o rock chinês espera melhores dias. Passei à Angela, à Carla de Elsinore, à E-Ko, à NancyB e ao António Costa Amaral. Fui às do Pedro Vieira. Fiquei-me pelo Vítor Dias. Nisto da música há que atender à ortodoxia.


Eric Clapton - Cocaine

Ser professor é difícil (4)

A escola do antigamente

"Os anjinhos dos bons velhos tempos

Fiquei chocadíssimo ao aperceber-me de que, afinal, só a minha turma do liceu é que gozava perdidamente com os professores.

Recordo-me do J. e do S. a emitirem um programa radiofónico lá da última fila nas aulas daquele professor de História surdo; da professora de Português estrábica a quem nunca respondia o aluno que interrogava, mas outro sentado no lado oposto da sala; ou da turma toda a uivar quando a professora de Inglês que usava mini-saia se esticava toda, de costas para nós, para escrever no alto do quadro. E fico-me por aqui.

Castigue-se quem deve ser castigado, mas poupem-me às prédicas sobre o respeito dos alunos pelos professores nas escolas do antigamente
(...)
"
João Pinto e Castro
. ...bl-g- -x-st

"Caderneta escolar

Frequentei uma escola exigente. No entanto qualquer professor que revelasse não ter pulso, passava por situações complicadas, que não se limitavam a “imitar as palavras da professora, berrar com os colegas e levantarem-se sem autorização”, nas palavras do famoso dr. Charrua, que agora surge encaixado no gabinete de apoio ao aluno da escola Carolina Michaelis.

Havia no entanto uma diferença essencial: os professores “sem pulso” não se punham a medir forças com os alunos. Chamavam o auxiliar administrativo — ou o responsável da escola.
(...)
"
Miguel Abrantes. Câmara Corporativa

"No meu tempo

Há dias recebi um convite dos colegas para participar no 30º aniversário do fim do nosso ano de liceu. Não poderei participar, mas sei quem lá encontraria: senhores e senhoras de meia idade, pais e mães de família, empresários, quadros superiores, médicos, advogados, arquitectos, certamente também alguns "falhados".
Frequentei o liceu numa cidade de província, uma escola pública. A escola, sem ser de elite, tinha uma boa reputação. O director era um padre jesuíta, muito respeitado dentro e fora da escola e, por nós, também temido. A maioria dos outros professores também não tinha problemas maiores de disciplina.
Mas havia as aulas de educação visual, em que sempre jogámos às cartas, o que a professora fingiu não ver. Tínhamos 14 ou 15 anos. As aulas de latim, dadas pelo Dr. S., de quem me lembro hoje com respeito e carinho: era um senhor perto da idade de reforma, tão delicado que quando nós cruzámo-nos com ele na rua, levantava mesmo para nós adolescentes o chapeu, cumprimento já na altura antiquado. Isso não impediu que, quando nos virava as costas na aula, lhe atirámos com bolinhas de papel.
E havia a professora de inglês, Mrs. T., que recentemente tinha enviuvado, o que poderá ter contribuído pela sua incapacidade de impor disciplina nas suas aulas. Lembro-me de uma em especial. Alguém tinha trazido uma bola de futebol para a sala, e a professora teve a triste ideia de tentar confiscá-la. Durante minutos, a bola voava de um para outro, para o gáudio de todos. Continuava a voar ainda algum tempo, mesmo depois de ela ter desistido e ter voltado a debitar a matéria, que nós ignorámos como ela então ignorava a bola.

O que distingue o nosso caso de 1974 do da Carolina Michaëlis é que não tínhamos como gravar e colocar o espectáculo no Youtube.
"
Lutz Brückelmann. quase em português

Frequentei o ensino público antes do 25 de Abril. Sou professor. Tenho filhos. A escola hoje é muito menos violenta, do que a do meu tempo de aluno, e responde a desafios maiores. Bendita democracia

Ser professor é difícil (3)

"(...)
Sempre houve indisciplina na escola e nas salas de aula. O tempo que as pessoas fantasiam nas suas cabeças desapareceu há umas décadas. Aceito, no entanto, que hoje seja mais grave. Algumas de muitas razões: famílias demissionárias ou ausentes (as mulheres hoje trabalham e espero que não as queiram de volta para casa), formas de socialização entre adolescentes que os pais e os professores desconhecem e com os quais não sabem lidar, concentração de miúdos problemáticos nas mesmas escolas e turmas, pais e alunos que não respeitam a escola porque não a vêem como uma forma de ascensão social, depreciação da imagem do professor, confusão entre autoritarismo e autoridade (sem a qual a educação - aceitação de que a pessoa que está à nossa frente tem qualquer coisa para nos ensinar - é impossível), uma escola cada vez mais distante da realidade quotidiana vivida pelos adolescentes, a hiper-mediatização de cada episódio que deixa de poder ser gerido dentro da sala de aula e passa a ser debatido por todos (para esta última contribuo eu próprio).
Alguns destes factores são inultrapassáveis. São assim mesmo. Outros não o são e vale a pena discuti-los. Mas há debates que não vejo muito bem para onde nos podem levar. O que propõem exactamente, para resolver os problemas de disciplina, alguns que aqui deixaram comentários?
1. Que o castigo físico volte a ser reintroduzido como forma de ensino?
2. Que os alunos complicados sejam proibidos de ir à escola e se acabe com o ensino obrigatório?
3. Que se acabe com a Internet e com a televisão?
4. Que se esterilizem os pais que não saibam educar os seus filhos?
(...)
A importância de preparar os professores para lidar com a indisciplina (que passa por saber gerir uma crise, mas também por saber dar aulas) e com adolescentes pareceu-me evidente. Defender a dignidade dos professores é defender os professores, mas não só. É defender a sua qualificação. E quem trabalha com adolescentes em 2008 tem de saber trabalhar com os adolescentes que existem em 2008, com todas as diferenças que há entre eles, e não com o adolescente que devia existir ou que um dia existiu (se é que existiu). Haverá sempre excelentes professores, professores medianos, professores maus e professores péssimos. Haverá sempre excelentes alunos, alunos medianos, alunos maus e alunos péssimos. A formação dos professores, a valorização da profissão para que os mais capazes queiram leccionar e a adaptação da escola à realidade que tem pela frente é o que podemos fazer. O resto depende, como em todas as profissões, da qualidade de cada um. Mas fazer de cada professor uma vítima aos olhos da sociedade, dos pais e dos adolescente só piora o problema. Uma coisa não está ao nosso alcance: escolher os adolescentes que podem estudar. E ainda menos os pais deles. Por isso é que faz sentido falar dos professores e, claro, do funcionamento da escola.
De resto, os que não querem resolver os problemas podem continuar a falar do seu tempo. Já foi. Era outro. E sobre o outro tempo podemos também falar. Há muito para dizer e está longe de ser consensual. Mas não serve de muito para aquilo que está em debate. Esse tempo passou. Passa sempre. A escola que temos tem estes adolescentes que têm estes pais. Acabada a indignação, vamos discutir o que interessa?
PS1: Uma coisa que não suporto ouvir: o meu papel é ensinar a matéria, não é educar, gerir conflitos ou resolver este tipo de problemas. E não suporto por uma razão simples: é falso. Mesmo que fosse justo (e não é), não aguentava um segundo de contacto com a realidade. E denuncia uma relação burocrática com a docência que é intolerável.
"
Daniel Oliveira. Arrastão

Hua Hin (5)





Hua Hin. Tailândia. 2008

Fotos FFC

sábado, 22 de março de 2008

Irão: Radicais islâmicos "limpam" legislativas

É mais uma herança de GW Bush: o reforço do poder militar e religioso da facção Ahmid-Nejadh, o PR iraniano que pensa poder levar por diante o plano militar de enriquecimento do urânio. A terceira vaga das sanções impostas pela ONU, que coincidem com a realização da campanha das Legislativas, fizeram acentuar o peso da numenclatura integrista e radical do estado-maior dos Guardas da Revolução.

Segundo as notícias veiculadas pelo The Guardian, hoje, já que o NYT e o WP não analisaram ainda as primeiras estimativas, os partidários de Ahmid-Nejadh podem vir a alcançar, tudo o leva a crer, uma maioria absoluta superior a 70 por cento. 120 militares já foram eleitos e os Reformadores parece, pois muitas das operações de escrutínio foram contestadas e aguardam recontagem, terem conseguido eleger 40 membros, sobretudo nas capitais de departamentos.

"The conservative consolidation of power in Iran's parliamentary elections has shown that international sanctions are backfiring, according to liberal analysts in Tehran.

Religious conservatives have won 70% of the seats decided so far and are likely to maintain their grip after an imminent run-off vote for about 90 undecided seats.

The election has strengthened the hand of Iran's Revolutionary Guard, a militantly conservative force with growing control over the economy. At least 120 of the 290 members of the new parliament will be former guardsmen like President Mahmoud Ahmadinejad. Reformists, barred from standing across the country, have only won 40 seats. They expected to do well in Tehran, where they were allowed to compete, but are yet to win a seat there, and demanded a recount.
(...)
Even reformists say sanctions do more harm than good, by making Iranians close ranks around the leadership.

"Pressure will not work," said Seyed Safavi, who stood and lost in Tehran for the relatively liberal National Trust party. "Is there any pressure more than war?
"
Julian Borger in Tehran,Saturday, March 22, 2008
The Guardian

FAR

Berlim (9)


Der moderne Bau des Architekten David Chipperfield beherbergt die Galerie Contemporary Fine Arts (CFA). Berlim. Set./Out. 2007

Foto Sérgio Santimano

Na Páscoa lembro-me do fim do Verão

O Verão a acabar. Agora vem aí o Outono. Bela estação para se começar o ano escolar. A queda das folhas faz-me lembrar a depressão do meu pai. O homem ficou preso aos tiques e às convicções de “Grande Timoneiro”. Uma mistura, caseira, do Henrique Monteiro, do Expresso, com o José Manuel Fernandes, do Público, e ainda com os maneirismos do Espada, de Oxford. Só que o meu pai, coitado, propôs-se objectivos mais modestos. Tentou educar a família. Família alargada, entenda-se. E, num Verão como este que está no fim, passámos a ser menos. Foi as últimas férias que passámos juntos. Quase juntos. A minha madrasta, acabada a Universidade, estava a estagiar e a lutar pelo primeiro emprego. O meu pai tratava de nós e da casa. Parecia a “Música no Coração” sem governanta. Isto é, o meu pai fazia também de governanta. Acordávamos e deitávamo-nos com hora marcada. Aliás tínhamos hora para tudo. Para as refeições, para a praia, para os jogos, para as lições. E, quão divertidas as aulas que tínhamos! Português, Matemática e Música. As de música então eram um espanto. Sobretudo os últimos 30 minutos. O meu pai convocava a especial atenção do meu irmão, na altura, com três anos, trazia o xirico e o canário do Härz, punha o James Brown a cantar o “sex machine” e tudo solava. O timoneiro gostava do multiculturalismo. Na primeira quinzena de Julho e durante o mês de Agosto foi assim, todos os dias, à mesma hora. Não sei se estas rotinas eram por amor a Phileas Fog ou a Kant. Sei como tudo acabou. Faz, por esta altura, anos. Já em Setembro, o xirico e o canário apanharam-se com a gaiola aberta e fugiram. Quem a abriu? Penso que um foi para Norte e o outro para Sul. A minha madrasta feito o estágio entrou para os quadros da empresa e mandou o meu pai ir pregar para outra freguesia. Ao meu pai caiu-lhe um muro, maior do que o de Berlim, em cima. Deixou-se de querer educar. Mas, nem sabe o êxito que teve. Um dia, no Outono, ou noutra estação qualquer, eu e o meu irmão, cada um por si, sairá a cantar por aí o “I’m a sex machine” , esvoaçando para Norte ou para Sul.

Josina MacAdam

Com muitos ovos para quem nos visita de novo e ainda mais para os da casa. Estamos na Páscoa e tenho obrigações familiares. Peço desculpa pela republicação.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Ser professor é difícil (2)

Inimigo de Classe



Ainda a propósito de um 9º ano.

A peça filmada e encenada por Peter Stein passou, faz uns anos, na RTP. Diogo Dória, salvo erro, numa adaptação de João Canijo, esteve soberbo numa de bad boy.
As razões dele
O perdidismo da sua mais nova, resolvia-se por vezes nos aromas do mar. Chegava orientar-lhe a cintura do corpo na direcção da brisa e alastrava o assalto de um sorriso, na paragem de seus olhos.
Tinha de tomar conta de todas elas, era seu mérito e dever de marido rico de mulheres.
Cuidá-las com palavras cavadas no adocicado, por vezes gritos grossos de humores trazidos do mundo, outras barcos nas mãos para as viagens de pele, trocas de serviços, o beijo pelo prato.
No ajuntamento com a mais velha, conseguiu umas quantas cabras castanhas com manchas brancas, não puras de raça, mas um bom dote ainda assim.
Ao fim de uns tempos veio a do meio, com a devida autorização de coração da primeira, cansada de procriar e ser sempre ela a consumidora dos abismos da cabeça dele.
Estava na hora de o repartir como uma comida amarga só na nossa boca, ainda a paciência lhe sobrava para os desaforos do seu homem mas o seu parideiro volume, já lhe esmolava violentos descansos.
Quando lhe disse aquele sim sombreado pela quebra de si mesma, ele trouxe a segunda para a casa do lado, com a mesma árvore e sua amedrontada sombra.
Ficaram amigas na mesma história dos sucessivos arredondamentos e desarredondamentos.
Nos luares fortes, as conversas giravam entre os três, num balanço de leves digestões o mambo do milho, os enlameados futuros dos filhos todos que falhavam o saber escrever numa repetição de gerações, o terreno enchuvado a estragar a melhoria de vida, a morte dos que primeiro se tinham encovado de tristezas na doença de muitos nomes ou que num atropelamento de rua para a cidade, se tinham feito sangue solto nas areias.
As duas eram como os dois braços musculados dele, livravam-no de muitas incumbências, sabiam como manter as estrelas no alto do seu planalto. Não pareciam sofrer o fazer da existência, juntas como irmãs de destino comandado por ele.
Mas a mais nova só se derramava a sonhar pelos poucos cantos, que havia. Não queria saber do fundo de panelas, nem do rio seco com roupa a atravancá-lo de cor nem da lâmina da enxada a fazer surgir palavras de comer nos lábios da terra.
Não tinha terceira casa para ela, mas um nicho de amor sem janelas, antes recolha de quintal.
Elas desprezavam-na.
Os miúdos sorriam-lhe.
Ele não sabia bem que fazer com ela.
Desconhecia o que ia fora dela por ignorar o que estava lá por dentro, onde ela estava o mundo ficava com mais espaço mas escapava-lhe mais, ao raciocínio de chefe de casas.
Parecia um peixe fora do seu maternal liquido, não havia murete onde se sentisse encostada nem solas de pés que a entusiasmassem com desvios de sonhos.
Quando se afogava de amores por ter sido a escolhida entre as outras duas, para com ele amanhecer , só então parecia suster-se com substância.
Ele estava a ficar em alargados desesperos, mas gostava da sua nova condição; esta permitia-lhe um estatuto mais macho, ser o chão onde ela se alcunhava de vida, numa guerra perdida com a realidade.

5 anos

Perco demasiado do meu tempo a ler blogues de direita. É um exercício quase cristão,de sofrimento por tanta falta de racionalidade junta.
Quando li estes posts, não tive remédio senão rir-me. Afinal, esta gente diz que o perigo era Saddam, que o mundo corria perigo. O mundo hoje, dizem eles, corre menos perigos. Morreram 150 a 600 mil pessoas, mas isso são danos colaterais que não devem ser muito importantes. Mais, dizem que agora é fácil - com os números na mão - refilar. Claro, só o Professor Karamba é que advinhava que numa guerra morre muita gente. Pelos vistos, Paulo Tunhas não o conseguiria fazer: "Hoje, com tantos cadáveres às costas, e vários erros trágicos evitáveis, é da praxe dizer que não."
É, de facto, perder tempo. Porque esta gente finge-se mais estúpida do que é (e, em alguns casos, é uma proeza extraordinária). Esta gente sabe muito bem que estas guerras têm um interesse económico claro e só a defendem porque isso favorece este sistema que as beneficia. O resto é conversa.
Mas fica uma lembrança e um aviso: o nosso país é invasor do Iraque. O nosso governo patrocinou a chacina que ainda lá corre. Ora, se o meu país fosse invadido (mesmo com este cretino no governo) e me matassem a família, acho perfeitamente lícito responder. Aliás, a resistência francesa foi isso: resistiu-se a um país invasor. Portanto, se um dia um destes atrasados mentais estiver a andar de metro e explodir uma bomba, tenham a bondade de não perguntar "Porquê?". É a consequência de uma guerra que aprovaram.
Podem agora chamar-me nomes e exultar com a extrema esquerda e com a sua violência. Violentos são vocês, seus filhos de uma grande puta (Ai, tão malcriado que ele é! Vão-se foder, seus cabrões! Mais vale ser filho da puta e aprovar que uma guerra onde há gente a morrer do que dizer "filho da puta"?).
Há gente que morre pelo sistema que vocês defendem, há guerras para sustentar o santificado mercado. Isto é responsabilidade vossa.

Uma de Nietzsche para o top do nosso Blogue

Andamos todos engajados na guerrilha política e passional causada pelos solavancos assimétricos da Governação. Procuramos munições no virtual, no passado e nas entranhas. Estamos vivos e defendemos a Liberdade de Expressão com todos os dentes. Não queremos voltar para trás e despachar banalidades controladas e mesquinhas. O nosso sucesso de audiência atingiu uma velocidade de cruzeiro, que se espera reforçada, cada vez mais e melhor.

De Friedrich Nietzsche, um texto muito interessante sobre a Amizade, inserto em “Aurora”.

Tem barbas a objecção que se faz à vida filosófica de que, por ela, nos tornamos inúteis aos nossos amigos; isso torna-se impensável, no entanto, para o espírito de um homem moderno, pois é muito antiga. A antiguidade celebrou profunda e fortemente a noção de amizade, e quase que a levou para a cova. Isso construiu uma vantagem sobre nós: podemos-lhe opor o amor ideal do sexo. Todas as grandes coisas que foram realizadas pela humanidade antiga radicaram no facto do homem se encontrar ao lado do seu semelhante; e que nenhuma mulher conseguiria ultrapassar o objecto do amor mais próximo e alto, ou mesmo o ser o objective último - como ensina o sentimento da paixão. Talvez por causa disso, as nossas árvores não crescem muito por causa da hera e da vinha que nela se enroscam”. (Tradução livre)

FAR

Há festa na aldeia

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Do (Site Meter)

Ser professor é difícil

A propósito de um vídeo que por aí anda (Atlântico, A Barbearia do Senhor Luís, Blasfémias, Expresso, Do Portugal Profundo, O país do Burro, Spectrum).

Do Causa Nossa ao We Have Kaos In The Garden a blogosfera indigna-se em peso.

"Ser professor é difícil. Recebem-se na sala de aulas todos as falhas familiares, todas as falhas sociais, todas as falhas do sistema. E no fim, o mais provável é ser-se maltratado por quem falha em casa, por quem falha na sociedade, por quem falha no sistema. Mas é esta a profissão que se escolheu e todas as profissões têm partes difíceis. E nesta profissão, em que se trabalha numa escola em que todos entram e têm de entrar, não se escolhem os alunos. Há, haverá sempre, casos quase impossíveis. São esses os ossos do ofício. Já havia quando eu era aluno. Para uns professores era dramático, para outros era um problema que tentavam resolver com muito talento e esforço. É difícil, mas simples: a disciplina e a autoridade nunca estão garantidos, conquistam-se. Até com os filhos."
Daniel Oliveira. Arrastão

Tiro o meu chapéu a Daniel Oliveira. Vi, muito tempo atrás, uma reportagem esclarecedora na RTP. Lembram-se dela? Há quem tenha memória curta.

Via Ana Crisina encontrei a solução.

Os vinte e nove Sonetos de Amor de Étienne de La Boétie (9)

Soneto 9

Ô entre tes beautés que ta constance est belle !

C´est ce coeur assuré, ce courage constant,

C´est, parmi tes vertus, ce que l´on prise tant:

Aussi qu´est-il plus beau qu´une amitié fidèle ?


Or ne charge donc rien de ta soeur infidèle,

De Vézère ta soeur: ele va s ´écartant

Toujours, flottant mal sûre en son cours inconstant.

Vois-tu comme à leur gré les vents se jouent (!) d´elle?


Et ne te repends point, pour droit de ton aînage,

D´avoir déjà choisi la constance en partage.

Même race porta l´amitié souveraine


Des bons jumeaux, desquels l´un à l´autre départ( partage)

Du ciel et de l´enfer la moitié de sa part;

Et l´amour diffamé de la trop belle Hélène.



(1) “Jouent" compte ici deux syllabes


FAR

Cai a noite


Estoril, Novembro 2007.

Foto Jota Esse Erre

Marcha Global da Marijuana

Olá amigos, este ano a MGM Lisboa e a MGM Porto têm um manifesto conjunto. Fica aqui para darem uma vista de olhos:

O que é a MGM?
A Marcha Global da Marijuana (MGM) é uma iniciativa apartidária, pacífica e sem fins lucrativos, organizada por cidadãos conscientes e informados que consideram ter direito a consumir uma substância que, com a devida qualidade, não representa um risco tão grande como as substâncias adulteradas que se obtêm no mercado clandestino.

A MGM insere-se num movimento global que pretende pôr fim à proibição do cânhamo/canábis. Realiza-se sempre no primeiro sábado do mês de Maio, em mais de 200 cidades em todo o mundo.

O objectivo desta marcha é apresentar à sociedade argumentos e propostas de políticas alternativas ao proibicionismo vigente, para que o assunto seja seriamente discutido. A MGM defende que, tendo em conta que vivemos num país democrático e livre, os cidadãos devem ter direito à escolher com base em decisões informadas e responsáveis e desde que não interfira com a liberdade dos outros.
Para saber mais, consulta os sites:
www.mgmlisboa.org
www.mgmporto.org
www.globalmarijuanamarch.com/


MANIFESTO Marcha Global da Marijuana – Portugal
O facto de a canábis ser considerada uma substância ilegal tem consequências sociais e sanitárias bem maiores do que se fosse um produto permitido, nomeadamente:
- A crescente probabilidade de adulteração dos produtos, muitas vezes com substâncias mais perigosas (especialmente quando fumadas) do que a canábis, com o perigo que isso implica para a saúde pública, dado o elevado número de consumidores.
- O fomento do tráfico, que alimenta uma economia paralela dinamizada por máfias, em que os grandes lucros ficam na mão de uns quantos, quando seria justo para os contribuintes e para o Estado poder beneficiar dos impostos que recairiam sobre essas actividades (muito lucrativas) se fossem regulamentadas.
- A limitação do uso terapêutico de uma substância que tem claros benefícios no tratamento de algumas doenças; e os impeditivos legais que a proibição supõe para o desenvolvimento de uma investigação rigorosa centrada nesta planta, devido à grande quantidade de licenças que são necessárias e ao perfil político e não-científico das entidades que podem autorizar tais investigações.
- A criminalização e penalização dos consumidores, só porque têm um determinado comportamento que não afecta outrem e que, mesmo a nível individual, não traz mais problemas potenciais que o consumo de álcool, tabaco ou outras substâncias legais e com as quais o Estado lucra bastante, apesar dos riscos assumidos.
- A inexistência de prevenção e de educação para a utilização de canábis.
Em Portugal o consumo da canábis foi descriminalizado em 2001. No entanto, a perseguição policial aos consumidores mantém-se e o risco de se ser tomado por traficante é demasiado grande, uma vez que a quantidade pela qual se pode ser acusado de tráfico é mínima.
A saber: a lei portuguesa prevê que qualquer pessoa possa ter em sua posse, sem consequências jurídicas, óleo, resina ou "folhas e sumidades floridas ou frutificadas da planta" de canábis que "não poderão exceder a quantidade necessária para o consumo médio individual durante o período de 10 dias" (Lei 30/2000 – "Descriminalização do Consumo de Drogas").
De salientar que esta lei explicita que é "sem consequências jurídicas", o que significa aquele que tenha até àquela quantidade não será considerado um criminoso, mas poderá ser será penalizado com uma contra-ordenação (multa) e poderá ter de se submeter a tratamento psicológico se o juiz de turno assim o entender.
E assim, oito anos depois da descriminalização, ainda há consumidores de canábis que são presos ou que são postos numa situação delicada face à justiça, vendo-se obrigados a provar que não são traficantes quando, muitas vezes, não há provas de que o são.
Além disso, não faz qualquer sentido estipular a quantidade permitida como a "necessária para o consumo médio individual durante o período de 10 dias", limite muito pouco claro, tendo em conta que nem toda a gente consome a mesma quantidade e que a maior parte dos consumidores preferem comprar mais de cada vez para não ter de estar sempre a recorrer aos "dealers", com os riscos que isso supõe não só em termos de segurança, mas pela possibilidade de ser induzido a comprar drogas verdadeiramente perniciosas.
E resta destacar que, sendo permitido o consumo, como esperam as autoridades que o consumidor se abasteça sem estimular o tráfico, tendo em conta que tanto a venda como o cultivo de marijuana são ilegais? A proibição de cultivar esta planta obriga os consumidores a alimentar actividades criminosas. Assim, entendemos que o direito ao consumo deve contemplar a possibilidade de cada um cultivar as suas próprias plantas, podendo, desta forma, garantir a qualidade do produto que consome, o que não acontece quando se vê obrigado a recorrer ao mercado clandestino.
Alterar a situação legal da canábis é corrigir um erro histórico que tem trazido mais consequências negativas para os consumidores e para a sociedade em geral do que o consumo. Décadas após é clara, a desadequação da lei é cada vez mais evidentes tendo em conta os benefícios múltiplos que esta planta tem.

A política do impossível
O presidente do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT), Marcel Reimen, afirma que "é essencial compreender de que modo e por que razão os consumidores de canábis podem desenvolver problemas, a fim de planear as respostas e avaliar o impacto que a droga ilegal mais consumida na Europa poderá ter para a saúde". Perante isto, perguntamos: como é possível desenvolver respostas se não sabemos qual a composição dos produtos consumidos?!

No mercado português, a grande maioria do haxixe vendido tem diferentes e variáveis substâncias usadas para o cortar e fazer render mais. Para estudar a resposta ao impacto na saúde que tem essas substâncias têm, é necessário saber o que são e qual o seu impacto no organismo. Só a legalização pode garantir a qualidade do produto e assim desenvolver respostas em termos de saúde e só assim haverá a informação necessária para que exista um consumo consciente e responsável.
Todos os esforços feitos até agora para acabar com o tráfico e o consumo desta substância têm sido em vão e todo o dinheiro gasto tem sido um absoluto desperdício, visto que, de acordo com todos os relatórios oficiais da ONU e da União Europeia, cada vez há mais pessoas a lucrar com este negócio clandestino e cada vez há mais consumidores.
Em 2008 chega ao fim o prazo de 10 anos estipulado pelas Nações Unidas com a sua Estratégia para acabar com o tráfico de drogas no mundo (http://www.un.org/ga/20special/poldecla.htm). Segue-se um ano de reflexão em que se vai analisar qual o impacto do acordo assumido pelas Nações Unidas e se, realmente, os objectivos de reduzir significativamente a procura e oferta de drogas foram atingidos.
De acordo com todos os relatórios oficiais, esta estratégia e as sucessivas políticas de combate às drogas falharam rotundamente, apesar dos milhões gastos com este tipo de iniciativas.
Por isto, como cidadãos, exigimos: mudem de estratégia!

Somos mesmo muitos
Segundo o relatório de OEDT de 2007, quase um quarto da população entre os 16 e os 64 anos de idade – cerca de 70 milhões de pessoas –, consome ou já consumiu canábis em algum momento das suas vidas. É um facto: a canábis existe e os seus consumidores também, toda a gente o sabe. Como já ficou provado, não é proibindo que vai deixar de se consumir.

Um apelo a ti
Embora a Canábis não seja inofensiva, os riscos do seu consumo são mínimos, principalmente quando comparada com outras substâncias largamente consumidas e aceites pela lei e pela sociedade. A proibição NÃO é do interesse público: põe em risco a saúde dos cidadãos, fomentando o mercado negro e a adulteração dos produtos e impedindo o Estado de arrecadar milhões de euros em impostos.
A experiência mostra-nos que o uso de Canábis não é uma grave ameaça nem aos consumidores, nem à sociedade. Cabe por isso ao Estado o dever de provar o contrário se pretende continuar a limitar a liberdade individual e a penalizar os consumidores.
Apelamos a toda a sociedade civil que se junte ao nosso protesto pela legalização da Canábis e o do seu cultivo para consumo pessoal ou para fins industriais ou com vista à investigação para fins medicinais.

Os nossos objectivos
• A legalização e regulamentação da canábis para todas as suas utilizações.
• A descriminalização total do consumo de Canábis por adultos, regulamentando modos de obtenção como o cultivo para consumo próprio ou a compra em estabelecimentos ou outros organismos autorizados e regulados.
• Encorajar o estudo e a pesquisa, públicos ou privados, das muitas utilizações benéficas da planta Cannabis Sativa L para o seu uso industrial, social, recreativo e medicinal.


As nossas propostas
• Remoção da canábis e de todos os produtos derivados da planta das listas de substâncias controladas, anexas à lei 15/93 e das respectivas adições a estas listas.
• Desburocratizar e dar prioridade ao cultivo e à indústria de canábis para a produção de energia renovável (biomassa; biodiesel; etanol) e para a produção de fibra e pasta de papel. Desde que esta produção seja feita de forma sustentável e com respeito pelas populações.
• Permitir que médicos e outros profissionais de saúde tenham a possibilidade de recomendar o uso de canábis no tratamento terapêutico, sintomatológico ou para a melhoria da qualidade de vida, nomeadamente, a doentes de SIDA, cancro, em tratamento de quimioterapia, esclerose múltipla, glaucoma ou doença de Chron, entre outros que com o seu uso possam ter melhorias de saúde e qualidade de vida.
• Despenalização da posse, consumo e cultivo de canábis e de todos os produtos derivados desta planta.
• Criação de regulamentação para o fornecimento, comércio e compra legal de canábis por adultos.
• Criação de regulamentação para estabelecimentos públicos onde o consumo de canábis por adultos seja permitido.


info@mgmlisboa.org