segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Terra

Somewildwish/18 (2007)
Foto:G.Ludovice

Madrid me mata (1)


Presépio vivo. Corte Ingles. Madrid. 2007

Foto FFC

Feliz Ano Novo

"Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.

Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.

Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.

Vai mijar noutro lugar, tô sem água.

Pereba saiu e foi mijar na escada.

Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.

Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?

Tô morrendo de fome, disse Pereba.

De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.

Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.

Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.

Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.

As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?

Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.

Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.

Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.

Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?

Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.

Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.

No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.

As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.

Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.

Ela tava nua, disse Pereba.

Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.

Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.

Brincadeira, eu disse. Afinal, eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.

Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago - pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.

Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.

Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.

Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.

Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.

As ferramentas dele tão todas aqui.

Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.

Eu ri.

Quais são os ferros que você tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de cano serrado, e duas magnum.

Puta que pariu, disse Zequinha. E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?

Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.

Fumamos. Esvaziamos uma pitu.

Posso ver o material?, disse Zequinha.

Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.

Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.

O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.

Já, eu disse, está lá em cima.

A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.

Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.

É antiga mas não falha, eu disse.

Zequinha pegou a magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.

Botamos tudo em cima da mesa e ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.

Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.

Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.

Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.

É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.

É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.

Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.

Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.

Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?

Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.

Cara importante faz o que quer, eu disse.

É verdade, disse Zequinha.

Ficamos calados, fumando.

Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.

O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?

Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.

Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.

O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.

Que casa? Você tem alguma em vista?

Não, mas tá cheio de casa de rico por aí. A gente puxa um carro e sai procurando.

Coloquei a lata de goiabada numa saca ele feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.

Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.

Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.

É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!

Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.

Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.

Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.

Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.

Crianças?

Estão em Cabo Frio, com os tios.

Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.

Gonçalves?, disse Pereba.

É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.

Inocêncio, amarra os barbados.

Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.

Revistamos os sujeitos. Muito pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques. Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.

Pereba desceu as escadas sozinho.

Cadê as mulheres?, eu disse.

Engrossaram e eu tive que botar respeito.

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.

Vamos comer, eu disse, botando a fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que se mexer eu estouro os miolos.

Então, de repente, um deles disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.

Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.

Podem também comer e beber à vontade, ele disse.

Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.

Como é seu nome?

Maurício, ele disse.

Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?

Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.

Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.

Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.

Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.

Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha.
Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.

Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.

Eu não disse? Zequinha esfregou ó ombro dolorido. Esse canhão é foda.

Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.

Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.

E você... Inocêncio?

Acho que vou papar aquela moreninha.

A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.

Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.

Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.

Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.

Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.

Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.

Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?

Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.

Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.

Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.

Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.

Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo."


Rubem Fonseca

Texto extraído do livro "Feliz Ano Novo", Editora Artenova – Rio de Janeiro, 1975.

domingo, 30 de dezembro de 2007

sábado, 29 de dezembro de 2007

Da Capital do Império

Olá,

Foi preciso ir a Viana do Castelo para ter a prova viva daquilo que eu cá com os meus botões já sabia há muito tempo: Os anglófonos ganharam.
Notei isso quando ao fim da tarde a beber um copo de verde em frente à foz do Rio Lima vi um cartaz que dizia: “Visite o Retail Park em Darque”.
Eu sei que Park rima com Darque mas não sei quantas pessoas em Viana do Castelo sabem o que é um retail park antes de lá se deslocarem.
Aceito que muitas vezes é difícil traduzir conceitos da língua inglesa. A língua é a alma de um povo e o português tal como o povo que o fala tende a ser cheio de complicações, floreados, muitas palavras para dizer pouco, incapacidade de ir direito ao assunto, incapaz de dizer “não” preferindo “sabe que isso é capaz de ser um pouco difícil”, incapaz de aceitar a pergunta directa americana “what’s de bottom line?” com um resposta igualmente directa preferindo “Sabe vou ter que pensar depois telefono-lhe”. Por isso muitas vezes é preferível usar as palavras inglesas, directas, “streamlined”, capazes de descrever um conceito incapaz de ser descrito noutra língua. Indeed. Mas Retail Park tem em português centro comercial. No centro comercial não há vendas a granel. Só a retalho.
Mas se já com o meu terceiro copo de verde achei uma certa piada e até criatividade ao anúncio do Retail Park em Darque, no dia seguinte fiquei totalmente varado quando visitei o resplandecente centro comercial de Viana de Castelo que muitos acusam de estar a destruir o pequeno comércio local. Cum carago, se não fosse a pronúncia local eu teria pensado que estava na América ou em Inglaterra com algumas pouca lojas de imigrantes tugas.
Logo à entrada deparei com a loja “Premier” que tinha uma “promoção Happy Days”. Estava logo à entrada ao cimo da escada rolante. Seguiu-se a loja “Beautiful” (joalharia), “Silver Field”, “Soap Story”, “Game”, “Pull and Bear”, “Kiddy’s Class”, “Women’s Secret”, “Throttleman – Boxer shorts”, “The B Design”, “Details”, “Sun Planet”, “Sports Zone” e mesmo uma “Bowling House”. Havia mais mas eu não consigo ler a minha letra no meu livro de notas. Sei que havia uma loja muito pan europeia pois chamava-se Tiffosi Kids
O que eu quis saber é como é que um gajo de Biána pronuncia “Throttleman – Boxer Shorts” e/ou “Pull and Bear”. Por isso foi ao guiché das informações onde ao seu lado estava uma senhora a dar folhetos religiosos (em português) e pondo a minha melhor pronúncia inglesa perguntei às duas miúdas que lá estavam onde é que ficavam essas duas lojas.
Espertas as miúdas. Nem pestanejaram. Perguntaram-me logo: “Cumo é quisso se escrebe?”. Depois foram a uma lista e indicaram-me o local. Mudei de táctica. “Então digam-me lá já agora onde é que fica o Segredo da Mulher”. Riram-se. Se bem me recordo ficava no segundo andar, um andar acima dos “Happy Days”.
Em português havia a “Loja dos Grelhados”. Não é de admirar. Mas faz face à concorrência no “food court” do “The Grill Place” (não estou a inventar) e da “Pasta Mix”
Tenho a dizer-vos que isto não é um fenómeno vianense. Já no regresso a Lisboa nos arredores do Porto estão em construção umas torres de apartamentos com o nome de “Arrabida Lake Towers”. Parecem muito “upmarket”. (Lake Towers é Torres do Lago mas como é que se diz “upmarket” em português? Seria preferível talvez anunciar as “Torres do Lago – Apartamentos upmarket”. Não?)
Tenho a dizer também que os francófonos não se devem sentir totalmente abandonados mas devem ser realistas e aceitar que o francês está a ficar um tanto ou quanto démodé. No centro comercial de Viana havia a “Bijoux Brigitte” e a “Parfois”. Nada mais. Totalmente esmagados pelos anglófonos e o seu comercialismo.
Quando contei isto a uns amigos francófonos que vivem aqui na Capital do Império “ils etaient bien amusés” e sugeriram que eu passasse umas noites a ouvir o noticiário televisivo da France Deux. Segui a sugestão e Mon Dieu, quel horreur!
Fiquei a saber que uma companhia qualquer francesa tinha recrutado um “cost killer” para se tornar mais competitiva (good idea!) estando também a pensar em oferecer “discount” nos seus produtos. Falaram também de um “wine maker” em Bordeaux o que francamente me deixou totalmente perplexo e mesmo boquiaberto. As celebridades são “Les People” (verdade!) e pelos vistos há uma certa moda de vestir a que os parisienses chamam de “streetwear”.
Um dos apresentadores falou da “showbization” (ler à francesa) da presidência de Sarkozy para depois ao falar ainda da relação da Carla Bruni com o Sarkozy afirmar que “sa reaction officielle c’est no comment”. Num outro dia o noticiário da France Deux falou de um cantor chamado James Blunt que descreveu como “le serial lover de la pop”.
Não há dúvida. Os anglófonos ganharam.
Ainda bem. Good.
Um abraço e Happy New Year.

Da capital do Império,

Jota Esse Erre

Cimeira África/Europa (2)

L´Afrique dit Non

Ainsi donc, au grand dam de l’arrogante Europe, l’inimaginable s’est produit : dans un élan de fierté et de révolte, l’Afrique, que certains croyaient soumise parce qu’appauvrie, a dit « non ». Non à la camisole de force des accords de partenariat économique (APE). Non à la libéralisation sauvage des échanges commerciaux. Non à ces ultimes avatars du « pacte colonial ».
Cela s’est passé à Lisbonne, en décembre dernier, lors du IIe sommet Union européenne - Afrique, dont l’objectif principal était de contraindre les pays africains à signer de nouveaux traités commerciaux (les fameux APE) avant le 31 décembre 2007, en application de l’accord de Cotonou (juin 2000), qui prévoit la fin de la convention de Lomé (1975). Selon celle-ci, les marchandises en provenance des anciennes colonies d’Afrique (et des Caraïbes et du Pacifique) entrent dans l’Union quasiment sans droits de douane, à l’exception de produits sensibles pour les producteurs européens comme le sucre, la viande et la banane.
L’Organisation mondiale du commerce (OMC) a exigé le démantèlement de ces relations préférentielles, ou alors leur remplacement – seul moyen, selon l’OMC, de préserver la différence de traitement en faveur des pays africains – par des agréments commerciaux fondés sur la réciprocité (1). C’est cette seconde option qu’a retenue l’Union européenne, le libre-échange intégral camouflé sous l’appellation « accords de partenariat économique ».
Autrement dit, ce que les Vingt-Sept exigent des pays d’Afrique (et de ceux des Caraïbes et du Pacifique (2)), c’est d’accepter de laisser entrer dans leurs marchés les exportations (marchandises et services) de l’Union européenne, sans droits de douane.
Le président sénégalais Abdoulaye Wade a dénoncé ce forcing et a refusé de signer. Il a claqué la porte. Le président de l’Afrique du Sud, M. Thabo Mbeki, l’a immédiatement soutenu. Dans la foulée, la Namibie a également pris la courageuse décision de ne pas signer, alors qu’une augmentation des droits de douane de l’Union européenne sur sa viande bovine marquerait la fin de ses exportations et la mort de cette filière.
Même le président français, M. Nicolas Sarkozy, qui avait pourtant eu des mots fort malheureux à Dakar en juillet 2007 (3), a apporté son appui aux pays les plus opposés à ces traités léonins : « Je suis pour la mondialisation, je suis pour la liberté – a-t-il déclaré –, mais je ne suis pas pour la spoliation de pays qui, par ailleurs, n’ont plus rien (4). »
Cette fronde contre les APE – qui suscitent, au sud du Sahara, une immense vague d’inquiétude populaire ainsi qu’une intense mobilisation des mouvements sociaux et des organisations syndicales – a porté. Le sommet s’est terminé sur un constat d’échec. M. José Manuel Barroso, président de la Commission européenne, a été contraint de céder et d’accepter la revendication des pays africains de poursuivre le débat. Il s’est engagé à reprendre les négociations en février prochain.
Cette cruciale victoire de l’Afrique est un signe supplémentaire du moment favorable que connaît le continent. Au cours des dernières années, les conflits les plus meurtriers se sont terminés (seuls demeurent ceux du Darfour, de la Somalie et de l’est du Congo), et les avancées démocratiques ont été consolidées. Les économies continuent de prospérer – même si les inégalités sociales demeurent – et sont pilotées par une nouvelle génération de jeunes dirigeants.
Autre atout enfin : la présence de la Chine, qui, investissant massivement, est sur le point de supplanter l’Union européenne au premier rang des fournisseurs du continent africain, et qui, par ailleurs, pourrait devenir, dès 2010, son premier client, devant les Etats-Unis. Il est loin le temps où l’Europe pouvait imposer de désastreux programmes d’ajustement structurel. L’Afrique se rebiffe désormais. Et c’est tant mieux.
Par Ignacio Ramonet

http://www.monde-diplomatique.fr/2008/01/RAMONET/15490 janvier 2008 - Page 1
L'Afrique dit « non »

(Obrigada pela tua colaboração, J.Rezende)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Carla-II

Sarkozy, o "homem com/para os ratos", é capaz de tudo; e de mais alguma coisa. O Canard Enchainé desta semana, a juntar ao Le Point, edição de fim-de-ano, revelam tudo e mais alguma coisa sobre os amores de Sarkomnipotente com a multimilionária Carla Bruni, modelo e cançonetista nas horas vagas, que o divino Libération apelida de "croqueuse de stars"...Ri, a fortes e estridentes gargalhadas, a ler o Canard, meus caros.
" Quel culot! ", pensei; e se a Carla é que está a levar a melhor...por causa dos CD’s e do resto do mundo da cançoneta?!?
Sarko, segundo o Canard, mandou fazer sondagem sobre as três hipóteses-de-se-tornarem- madames Sarko: Carole Bousquet, Laurence Ferrari e Carla Bruni. O que é certo, no entanto, é que Jacques Séguèla, o mago da Pub universal, " arranjou " jantarinho para colocar Sarko e Bruni, lado-a-lado. E, aí vai milho...
Carla Bruni colecciona experiências e arrasa corações, sinalizava o " sarkosiano " semanário de F-Olivier-Gisbert. Fotos com a diva abraçada a Raphäel Enthoven, filho do maior amigo de B-H. Lévy, Arno Lagerfeld, o advogado-mais-roller de Paris, e mais uns quantos. Sarko, que detesta intelectuais, meteu-se no meio das alcovas de Saint-Germain-des-Près. É obra. O que parece é que a diferença de idades entre os "pombinhos" é enorme, ainda por cima. Não há memória na política europeia de um facto "amoroso" tão espectacular e "revolucionário", pois as tépidas " aventuras " de Berlusconi nunca passaram de ameaças sem tilt...
Kouchner, que há pouco vi a dar beijos-e-abraços a Condi Rice, foi com os "noivos-relâmpago" até às praias do Mar Vermelho. Tudo oferecido e sponsorizado pelos caucionistas de Sarko: aviões particulares, villas para o casal-em-ensaio e "paus de cabeleira".
Sarko vai ao Cairo umas horas, vender e adjudicar obras e investimentos.
Nesta saga de "pesadelo e aventura", Sarko acelera. Como revela o Canard, o Vaticano "não desejou" ver Bruni em Roma.
Os líderes históricos do Gaullismo começam a inquietar-se com tanta desenvoltura do sucessor de Chirac. E Sarko, com malícia, atreveu-se a "dar" Fillon embeiçado pela maquinal Ângela Merkel. "Sem dúvida, o efeito Carla ", revelou ao Canard um membro do staff presidencial francês.


FAR

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Amerigo Vespucci

Cagliari. Sardenha. 2007

Foto Francesca Pinna

André Breton: Tudo o que é o sexo!

Numa alfarrabista de Estrasburgo, onde o V.G. Moura e o JP Pereira fazem compras...,descobri os dois volumes da Plêiade que contêm as OC. de André Breton, tudo pelo preço da "uva mijona" e num estado de conservação imaculado. A dona, a quem eu tinha prometido uma crónica de VGM no DN sobre a sua livraria/ alfarrábio - Nuits de L´Insomniaque - ainda me fez um desconto.
Pedi-lhe desculpa por não poder satisfazer a minha vontade sobre a crónica atrás sinalizada, e em contraponto, a alfarrabista confessou-me que VG Moura sempre se lhe apresentou, na rotatividade das deslocações entre Bruxelas/ Estrasburgo, como um homem...de Direita. Assim é que é!
Vamos ao essencial, dando a ler este excerto delicioso do "Dictionnaire abrégé du surréalisme", realizado por André Breton e os seus colaboradores sobre o Sexo. "L’ancêtre n’avait point de sexe apparent; c’est à sa venue que la parole commença à se développer pour atteindre à une quasi-perfection chez les êtres de premiére formation. Cela causait des sensations et des surprises. Eh qu’ai ce? exe. Sais qu’ai ce? ce exe-ce, c’est un sexe. Sais que c’est? ce exe c’est, sexe est, ce excès. Le sexe fut le premier excès; il causa et cause tous les excès... Qu’ai, quai, quéque ai. Qu’ai que c’est? quéque c’est que c’est? Qué qu’ est te? Quéquette. Qué que tu veux? quéque tu veux. Qu’ai, que c’est, que çai à ? qu’ai, que sexe ai a? kékséksa? ". ( J.P. Brisset) "Le sexe sans fin couche avec la langue ortodhoxe" (Cad.exequis). "Ma femme au sexe d’algue et de bonbons anciens - Ma femme au sexe de miroir!" ( A. Breton). "L’acte des sexes est l’axe des sectes" ( R. Desnos).


FAR

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Uma carta à atenção das editoras

Armando,

Sobre os livros estive a verificar nas agendas e não mandei para a Antígona. Aliás este ano só mandei para a Guerra & Paz mas o nosso amigo e colega de sucesso nem respondeu.
O “Corpo de Intervenção” não é publicável. Aquilo está para além de tudo o que foi escrito. Ninguém escreve assim sobre juízes, polícias e padres e não sofre uns quantos processos judiciais.
A brigada da PJ que se enraba quando resolve um caso, a lei do enrabanço para resolver o problema da droga em Portugal, que põe os juízes em frenesim sexual nas boites, as miúdas aos treze anos desfloradas para não nascer outro Cristo, a prostituição como escolha profissional digna, a substituição do sangue pelo esperma de Cristo, enfim, é um ataque frontal aos valores mais queridos da Civilização, no seu estado perfeito, que hoje vivemos.
Eu creio que ficou bem escrito. Peguei no lixo produzido pela Humanidade, (chamam-lhe Cultura), e juntei tudo num sítio, como fazem os artistas plásticos que querem chocar. O livro é mais influenciado por Damien Hirst que por qualquer escritor, excepto, Sade (na destruição da moral de “Justine”) ou Jarry (no absurdo das situações). Tentei criar algo usando o lixo que é produzido diariamente. Muitas frases e situações descritas sucederam de facto noutros contextos.
O livro é uma declaração política num mundo absurdo e ridículo. Viste como são usados os serviços secretos? Para a guerra do Iraque, sex up a informação, para colocar bombas nucleares escondidas no país. Agora, como é preciso refrear os ânimos contra o Irão, aparecem a dizer que o programa nuclear foi interrompido. E salvaram os políticos americanos que não têm capacidade, militar e psicológica, para outra invasão. Isto é simplesmente ridículo.
A “Cruzada Para Converter Bagdad Ao Cristianismo” é mais ou menos a mesma coisa mas sem os palavrões. Acho que o final ficou bem composto e glorifica o nosso querido Portugal. Mas a utilização de parênteses curvos e rectos retira-o do conceito de literatura actual que faz sonhar e viajar o leitor.
“As Doze Cadelas” é uma ode à noite de Lisboa. Que só existe por causa da rotação da Terra, e não porque seja um lugar de divertimento, cheio de propostas interessantes.
Tenho mais um escrito sobre um agente secreto português que vive uma aventura absurda para glória do nosso querido país. É mais uma paródia ao cinema que uma obra literária.
Claro que escrevi tudo isto sem Internet. Usando os livros que me restam, a enciclopédia e, sobretudo, os meus apontamentos. É possível que necessitem de um aggiornamento.

Um abraço.

Maturino Galvão

PS:
Os desenhos vão demorar um pouco. Estas festividades produziram pouca matéria-prima. Vou escrever o próximo post, um conto de fim de ano, esperando que haja uma guerra em 2008, e depois vou ver o que se arranja.
Podes publicar o que quiseres. Não sei se a linguagem será a mais apropriada. Joyce fez com o “Ulisses” uma colagem do seu tempo. Eu com o “Corpo de Intervenção” fiz a mesma coisa. Mas os tempos são outros. Misturei pintura, arquitectura, cinema, música, Direito, Criminologia, História, banda desenhada, desenhos animados, telenovelas, Psicologia, Física, publicidade etc. numa colorida estória nacional. Que deu a Lisboa um peculiar cheiro – o do cadáver do seu padroeiro, S. Vicente.

Albero maestro

Sardenha. 2007

Foto Francesca Pinna

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Da Capital do Império

Olá,

É 24 de Dezembro à noite e estou a escrever-vos algo que já deveria ter feito há alguns dias atrás.
Escrevo para vos dizer que eu cá sou de opinião que o Natal deveria ser como os jogos olímpicos – só de quatro em quatro anos.
Por várias razões uma delas sendo que acho desnecessário lembrarem-me todos os anos o que é viver na Coreia do Norte. Todas as vezes que ligo a rádio só tenho música de Natal. Na estação de rock, na estação de “oldies”, na estação de música clássica. Fui outro dia a um centro comercial que tocava música de natal pelos corredores e depois cada loja tocava também a sua própria versão de música de Natal. Estive quase a fazer uma americanice e ir à loja de armas da esquina comprar uma Glock e abrir fogo sobre os altifalantes.
Na Coreia do Norte claro está não se tem música de Natal mas quando ligam a radio só ouvem música ao “querido leader” que segundo ouvi outro dia deverá ser promovido em breve para “grande líder”. Também não há lojas que vendem Glocks
No Natal nós também temos um “querido líder”: o Pai Natal. Um amigo meu imigrante disse-me que quando um avô veio da China visitá-lo há cerca de 10 anos atrás tinha ficado convencido que o Pai Natal era “um dos vossos deuses” tal como o “Querido líder” Ele não acreditou nessa história do Pai Natal ser para as crianças perguntando: “É um Deus só para as crianças? Muito interessante”.
Os americanos adoram o Natal embora ao contrário de vocês aí do outro lado do charco não tenham subsídio de Natal. Alguns recebem bónus mas aqui nada de socialismos. Isso esta geralmente reservado à malta da Wall Street (the masters of the Universe) e aos directores de companhias. Alguns americanos reagem com risos nervosos quando eu lhes digo que ai toda a malta recebe um salário extra pelo Natal. Outros acham muita piada e dizem: “Good idea. Money for nothing”.
Nos Estados Unidos claro está que do ponto de vista económico se o Natal não existisse teria sido necessário inventá-lo. Isto porque como vocês sabem o consumo é a principal componente da economia Americana e o período de pouco mais de um mês que antecede o dia de hoje é seguido pelas páginas de finanças e “business” dos grandes jornais com mais detalhe do que os ecolotontos seguem as temperaturas na Groenlândia. Se a malta não compra a economia vai passar mal. É comprar vilanagem!
Sempre que ouço isso lembro-me da minha sogra (paz à sua alma). Era o tipo de mulher prática. Contabilista de profissão. No Natal só dava prendas “práticas”. Os netos recebiam sempre meias e cuecas porque “são coisas que são sempre precisas”. Os desgraçados ficavam sempre com um ar enjoado a ter que dizer “obrigado vovó”.
Eu estive sempre à espera do Natal em que ela decidisse oferecer aos miúdos pilhas porque “são coisas úteis para os brinquedos”. Na minha imaginação as pilhas seriam acompanhadas de uma nota “brinquedos não incluídos”, mas para minha desilusão isso nunca aconteceu. Até ao fim ficou-se pelas meias e cuecas.
Antes de terminar tenho a dizer que hoje fui à minha lavandaria do costume buscar um casaco e que a imigrante coreana que é dona da loja - (todas a lavandarias são de coreanos aqui na capital do império) - me disse que gostava muito do Natal. O Pai Natal e “as luzes”.
“São as luzes que eu gosto”, disse -me ela num inglês quebrado. “It’s like Disneyland”. Fiquei a pensar nisso. A disneyficação da religião. Fiquei também a pensar num gajo qualquer que ouvi na rádio a ser entrevistado e que disse gostar do Natal porque é altura do ano para nos embebedarmos.
Eu cá vou agora buscar a minha garrafa de single malt. Para ficar predisposto a uma canção de Natal.
Boas entradas.
Da capital do império,

Jota Esse Erre

Mambo 34

A minha pele Natal

Chocolate com passas ou sem elas, pelo buraco da boca.
Bem chegada, a ventoinha num sopro quente a desgastar-se na direcção do corpo em modo lânguido, pestanejando pelo ar algumas ideias em demora por aquietados desejos, nesse aflito tanto gosto pela vida como pela morte, que se confunde em festa, como areias que resvalam irmanadas na indisposição de montanha pouco enrochada.

Só querer oferecer esse resplandecer das manhãs, que pode ser a qualquer instante, numa desatenção à civilização, num não te crês.
Tão pouco, quase nada, só esse silêncio bom de uma haste ou arfável sonho.

domingo, 23 de dezembro de 2007

O Inverno em festa














A Máfia está cada vez mais forte

Gangs da noite lisboaportista? Claques neofascistas em catimini? Fogachos de práticas amadoras de extorsão?
Todos estes fenómenos de principiantes em Portugal, hoje, tornaram-se num pesadelo aterrador em Itália . Mais precisamente, nos arredores do norte de Nápoles, na vilória Casal di Princípe. Isso tudo consta da trama do romance de Roberto Saviano, " Gomorra ", que está a ser um sucesso de vendas por toda a Europa...É um romance-reportagem que já valeu ao autor as ameaças sem sofisma da Camorra napolitana, porventura a organização clandestina mais violenta do Mundo. Onde os Jiadds e os Hezbolahs, pior sinistra comparação, assumem um estatuto de meninos-de-côro...
Saviano narra e mostra a face do crime e da violência mais sofisticada da Europa. E mergulha-nos no " coração " da Mafia italiana: a vilória de Casal di Principe. Nada mais, nada menos, escreve ele, a aldeia possui a maior concentração de Mercedes do Mundo, conta com o maior número de homicídios da Europa e gere mais empresas de Construção do que o total de habitantes do sítio... E não olha a meios para atingir os seus fins: como o atesta o massacre de Duisbourg (Alemanha), no pino de Agosto último.
"Gomorra, no império da Camorra", ultrapassou todas as expectativas do jovem romancista italiano. Que vive hoje sob rigorosa protecção policial. Os barões napolitanos, unidos aos albaneses e aos nigerianos, colocaram-lhe a cabeça-a-prémio. Ele denuncia e sinaliza os dotes de engenharia financeira de alto coturno, que colocaram nas mãos da Camorra grandes parques do imobiliário de luxo da Emília-Romana, criaram grandes investimentos na Roménia, compram hotéis por todo o Mundo e investem forte na rede de transportes e no comércio de carnes.. Um sortilégio de terror pela ponta da kalachnikov e granadas-ofensivas, made in Russia, claro.

Roberto Saviano, "Gomorra,dans lémpire de la Comorra", Edit.Gallimard. Paris 2007

FAR

Mad Dog, Chinken Birdie, Dudas & Friend




Mad Dog, Chinken Birdie, Dudas & Friend

O Aifaife em meio rural - um tesourinho deprimente

No Youtube há de tudo, sobretudo a exposição nua e crua das mais bizarras cenas. Não se trata já dos cinco minutos de fama ‘warholianos’ mal interpretados, trata-se de achar que tudo, mas mesmo tudo, tem o direito a globalizar-se e ficar ao alcance da curiosidade de quem passa.
Passo a relatar e quem quiser que procure:
Cena de ‘buliyng’ junto ao gradeamento de escola (3º ciclo, aventuro eu, embora o aspecto físico das intervenientes não possa esclarecer muito...), filmada como convém. A Marília ( a morena ) começa a cena agredindo a Catarina (aparentemente loira, a dar para o ruiva.) – Hollywood em série B...
O ‘acting’ inicial é mais que óbvio, ela (a Marília) queria que a cena ficasse registada.
Pena foi que, a partir do meio, a coisa descambasse para um nível de improvisação muito próximo de um mau exercício de Expressão Dramática.
Pois a dita Marília chega com uma conversa que, a princípio, não se percebe bem, mas que logo se começa a ver que aquilo são coisas de namoros e ela vem em defesa da suposta infidelidade do namorado com a dita Catarina.
É o Portugal do telemóvel, do aifaife e do iútube, pelo meio da cena passa um tractor, uma velhota trajando quase exclusivamente de preto. O que destoa, no meio deste décor, são os contentores para a reciclagem e expressões como: “Olha que ainda vais para o Conselho...” (leia-se Conselho Directivo ou Executivo de uma Escola), “vamos falar à DT” ( leia-se eu vou levar este assunto de te ter dado porrada à porta da escola por achar que o meu namorado afinal não é tão fiel como eu pensava e vou dizer à Directora de Turma que tu levaste o meu namorado a trair-me...). É algo de incoerente e, decididamente isso explica por que razão o nosso Cinema continua tão por baixo.
Pelo meio, escutam-se as reacções alarves da equipa encarregue de registar o acontecimento, perpassam expressões como “fixe” sempre que a Catarina (a loira) recebe mais um encontrão ou uma chapada da Marília e escutam-se risos guturais de quem se diverte muito com uma cena que nunca teria cabimento num país civilizado.
Não sei como poderá ter acolhimento junto das autoridades competentes um vídeo de quase cinco minutos como tem aquele a que me refiro; é um documento vivo e pertinente daquilo que temos um pouco por todo este país.
Os nossos alunos usam as novas tecnologias, são ousados no trajar (quem destoa, no meio daquela cena, é a velhota que passa e se alheia da confusão). Do mais profundo Portugal até ao Youtube vai a exposição de um atraso visceral, deprimente.
Eu tenho estado a escrever sobre Educação, caso não tenham reparado. Sem usar aquele jargão que costumamos encontrar nos textos que tratam deste assunto.
Civismo, respeito pelo outro, solidariedade, tolerância – são, de uma forma geral, alguns dos termos que passam ao lado de quem frequenta o nosso Ensino público actualmente. Saber ser, saber estar, são expressões vazias. Se o Ensino implica a Educação, ou seja, saber aprender mais saber ser e saber estar, então o nosso sistema de ensino público anda pelas ruas da amargura. Não ensina, não educa e não forma. A Escola pública era a última esperança de uma transformação em termos de mentalidades, e essa esperança começa cada vez mais a desvanecer-se.
Gentes, cada vez mais boçais e broncas. Manadas sujeitas às leis naturais, manadas individualistas e egoístas – cada um(a) se achando o (a) melhor -, alarves e grosseiros.
Da Escola não esperam nada e esperam tudo.
E é aqui que reside o problema...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Where have all the young men gone?


A perder de vista... Campas de soldados americanos. Cemitério Nacional de Arlington. Arredores de Washington. EUA. 2007

Foto Jota Esse Erre

terça-feira, 18 de dezembro de 2007