quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Hungria (5)


Pécs. Hungria. 2007

Foto FFC

Post pessoalíssimo e hermético



Em 1976, no primeiro congresso em liberdade, o Nino ascendeu a secretário-geral


Depois destas sornas, ainda em liberdade, vai recambiado para Maputo, por indecente e má figura.

O Landru substitui-o.

O Nino continua o nosso embaixador lá? Ou continuará o embaixador deles cá?


"Tantas perguntas. Quantas respostas?"

Sinais


Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Publicidade contra a pobreza

Após quase dois anos e meio no mesmo formato, entendeu-se que era tempo de arejar um pouco o aspecto visual deste blogue. Espero que gostem. Comentários são bem vindos.

Nega Gizza - Prostituta

Como se acaba com a Escola Pública

O "estatuto do aluno", especialmente no que toca ao fim das penalizações por faltas injustificadas, é a prova que faltava, se era preciso prova alguma mais, de que os "responsáveis" pelas políticas educativas em Portugal, ou perderam o juízo, ou estão completamente desligados da realidade do que é uma escola neste país, ou se preocupam apenas com as estatísticas do insucesso escolar e nada com os resultados das políticas que aplicam na formação das próximas gerações deste pobre país. Ou ainda, o que é mais assustador, mas que considero plausível, não acreditam sequer no modelo de Escola Pública.
O meu ilustre colega de blogue Armando Rocheteau, nas muitas conversas que já tivemos sobre estes temas, tem razão quando diz que o poder dos professores era muitas vezes usado por pequenos ditadores, que, todos o sabemos, destruiram a vida de muitos alunos, especialmente dos menos preparados culturalmente para a sobrevivência na selva. E tem também razão quando diz que o ensino obrigatório tem, necessariamente, de ser para todos. Mas há um limite que se ultrapassou, um limite de bom senso, inteligência, e resultado. Começou algures nos anos 90, com os disparates pedagógicos das "areas escolas" e afins, ao mesmo tempo que se diminuia a exigência dos programas das disciplinas nucleares. E foi prosseguindo até atingir o climax nesta Ministra da Educação, com a total descredibilização da autoridade prática e mesmo moral dos professores, cujo culminar é a criminosa rábula dos colocados com cancro e outras doenças incapacitantes, tratados como crápulas, vigaristas, usurpadores dos recursos do Estado em seu proveito próprio.
É que o problema principal já não é, sequer, as condições de trabalho dos professores. Neste momento, a questão é mesmo os alunos. Não se consegue entender que interesse futuro terão em sairem da escola aprendendo nada ou quase nada. A escola democrática, inclusiva, e a própria essência do conceito de ensino obrigatório, entende-se facilmente, são subvertidas nesta lógica de facilitismo. Há muitos anos que não era tão compensador para o futuro de uma criança colocá-la numa escola privada. Se pensarmos que, em breve, as universidades passarão a escolher os alunos que admitem, percebe-se o triste destino das próximas gerações daqueles que, por razões económicas ou culturais, definharão no caixote do lixo da escola pública. Nessa altura será tarde para pedir responsabilidades a esta ministra ou a outros responsáveis. As virtudes da democracia representativa fá-los-ão justificar-se com a "livre escolha dos eleitores", e os seus filhos e netos aprenderão felizes no colégio, esperando o bilhete garantido para a melhor faculdade e o seu futuro brilhante, onde cumprirão a especial e necessária função de se perpetuarem como casta dominante.

Um caminho longo


Em frente à praia de Coney Island, a caminho de Brighton Beach, numa cadeira de rodas eléctrica. USA. 2007

Foto Jota Esse Erre

Estratego de fama mundial: "Não resulta fazer frente à China!"

O consultor-estratego residente em Silicon Valley, Jean-Louis Gassée, jura a pé juntos que é inglório o esforço de fazer frente à China: eles têm os computadores mais potentes, os melhores cérebros e o maior investimento.

Com um Curriculum invejável de sucesso planetário, tendo passado pela Hewlett-Packard, a Mobil-Exxon e a Apple, Jean-Louis Gassée, consultor de Strauss-Khan, Fillon, etc, oriundo das "Grands Écoles" de Tecnologia de Paris, fundou uma empresa multimédia em Silicon Valley que vendeu aos japoneses da Acess Technologie e , presentemente, gere uma "incubadora" de génios para fazer avançar as performances do High-Tech. É uma verdadeira odisseia de grande intensidade e poder, realizada quase a solo mas em Silicon Valley, ao lado de Stanford e não muito distante de Berkeley, no sul de S. Francisco da Califórnia; portanto com os pareceres de dezenas de Prémios Nobel a poucas milhas de distância, para o que der e vier, como soe dizer-se...

Numa grande entrevista ao Charlie Hebdo, Gassée assegura que, "uma tecnologia, não é necessariamente só uma patente, pode ser também uma ideia". "Ajardino e cultivo os neurónios. O suor, fica para os chineses. Que são muito fortes para o meu gosto. Construo sem batalhões de trabalhadores, camarada. Recuso a fixação regressiva sobre os objectos parciais", diz, com luxo e subtileza, telescopando com o vocabulário de Lacan, claro.

E vai mais longe para nos fazer sonhar acordados: "Silicon Valley, é como o Sentier (quartier de Paris onde há pequenos ateliers de alta tecnologia). Toda a gente se conhece. O que dizer dos problemas em torno da Emigração em França? Isso faz-nos rir docemente. Aqui, não existem senão emigrantes, com 55 % de asiáticos (chineses e indianos, na sua maioria)". Sublinha, no entanto, que o modelo de Silicon Valley "não se pode exportar"...


FAR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Sobre o ensino (público) entre nós...

Sucede que, por vezes, vejo a RTP Memória e, por vezes, leio o jornal "Público".
Nesta segunda-feira houve uma conjunção de vistas e leituras.
No jornal uma entrevista com Júlio Pedrosa, responsável pela CNE, e na TV uma reportagem de Barata Feyo sobre o Plano Nacional de Alfabetização (1978).

Perfazemos exactamente 3 - décadas - 3 de erros consecutivos no nosso sistema de ensino (público)!

Desculpem, mas é aquilo que deduzo. Do dito plano aos dias de hoje vejo apenas uma tentativa para facilitar.
Criar a ilusão para que esta se pareça com a realidade - esta tem sido a política seguida.

Um Ministério a engordar de funcionários, gente que se fica pelos corredores e engrossa as Direcções Gerais e Regionais e tudo o que seja burocracia para evitar o contacto com a situação real: sala de aula.

As famigeradas ESE's, ao abrigo dos Institutos Politécnicos (Públicos), a lançar para o Sistema gente que não tem nem habilitação, nem condição para se considerar Professor.
Lanço o desafio: vamos ao 1º ciclo do Ensino Básico Público e contabilizemos as habilitações e a proveniência das mesmas daqueles que são efectivos desse mesmo quadro.
E lá me vejo eu a questionar os docentes. A culpá-los daquilo que não funciona neste sistema de ensino. A achar que se uma professora não consegue responder correctamente num concurso televisivo devia procurar outra profissão ou, então, dar o seu lugar a uma criança com 10 anos...

Sem rei nem roque.
Há ideias para o nosso sistema de ensino?

A fazer fé nas últimas determinações do ME (estatuto do aluno do Ens. Secundário) parece que entrámos num 'sauve qui peut...'.

O 'pãozinho': esse continua a ser essencial. Não há escolaridade obrigatória, nem abandono escolar sem que estejam garantidas as condições para que uma família mande o seu filho à escola.
A fome sempre foi má conselheira, sabêmo-lo todos. Com a barriga a doer, por estar vazia, não há lugar para discernimento de qualquer espécie.
Quem quer aprender de barriga vazia?...

O ensino, entre nós, continua a ser um problema social.
Lá vou eu ao desperdício: ponham os olhos no Porto: 3 - dias - 3 para uma Conferência, que começou hoje e há-de terminar na próxima 4ª feira, sobre o Ensino Artístico em Portugal, organização a cabo do ME, com convidados estrangeiros e etc.
As Escolas Soares dos Reis e António Arroio a desmarcar-se de tal evento, os órgãos de comunicação a calarem, a conversa de surdos, com tradução directa.

Tudo vai bem, no melhor do mundo possível. Ou, como diria Pangloss: "o que se deve dizer é que tudo está o melhor possível.".

Suécia (8)


Gustavianum. Uppsala. Suécia. 2007

Foto Sérgio Santimano

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Uma série fenomenal de pernas cortadas pela censura fascista

A mais importante e decisiva série de posts alguma vez publicada nesta blogosfera, ou seja, minha série sobre a nova música lusófona, está a enfrentar um obstáculo de peso: os fachos do youtube retiraram a opção "post it", que permitia fazer o upload directo do video para o blogue, e isto apesar de pertencer tudo à mesma merda de empresa, a Google.
Agradecem-se dicas sobre como é que agora se pode postar videos. A informática nunca foi o meu forte. Sou um homem das artes e das letras. Notar que a viagem é para seguir pelo hip-hop brasileiro e pelo baile funk.

sábado, 27 de outubro de 2007

Mulino ad acqua


Sardenha. 2007

Foto Francesca Pinna

Félix Guattari: "Je suis à la fois hyper pessimiste et hyperoptimiste"

"Nous sommes engagés dans une fuite en avant éperdue: on ne peut plus se retourner, revenir à um état de nature, à de bons sentiments, à de bonnes petites productions artisanales. Les processus de production, de plus en plus intégrés mondialement, autorisent- et je crois que c´est là une intuition marxiste qui demeure valable - un épanouissement de la liberté et des désirs. De nouveaux moyens nous sont donnés de sortir d´un Moyen Âge, voire d´un néolithisme des rapports humains."

"Le capitalisme ne peut impulser de motivation productive - à l´échelle personnelle, locale, régionale, mondiale - qu´en faisant appel à des techniques ségrégatives d´une incroyable cruauté. Il ne sélectionne et valorise économiquement que ce qui entre dans ses créneaux spécifiques ; tout le reste est dévalué, pollué, massacré. À cet égard, il faut bien dire, que le socialisme du goulag est devenu la forme suprême du capitalisme. Il nous a toutefois légué une chose essentielle: la compréhension de ce qu´aucun socialisme, aucune libération sociale ne saurait uniquement reposer sur des remaniements économiques"

In "Les années d´Hiver", par Félix Guattari, Edit. Bernard Barrault. Paris

FAR

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Terra

African Kids/8 (Angola.2006)
Foto: G.Ludovice

Hungria (4)


Pécs. Hungria. 2007

Foto FFC

Ainda à volta de James Watson

Pseudoscientific Bigotry in France

Immigration issues bring out the worst instincts in politicians who should know better. Congress showed that earlier this year. Now it is the turn of France’s Parliament. It is moving toward final approval of an ugly new law that would introduce DNA testing as a potential basis for excluding prospective immigrants hoping to reunify with family members already living in France.”
The New York Times 21/10/2007, Editorial

(continue a ler no Meditação na Pastelaria)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

É Outono


Na Capital do Império e seus arredores há uma explosão de cores. Encarnados, - ligeiros e escuros – amarelos das mais diversas tonalidades, verdes esbatidos, castanhos, roxos. Tudo numa mistura inacreditável. Na verdade a mudança de estações nesta parte do mundo é marcada por essa dança de cores. Vem ai o inverno do cinzento, das árvores desnudadas. Depois a primavera em que tal como agora no Outono se assiste a uma outra explosão de cores ainda que diferentes. Verdes, azuis, amarelos vivos. A não perder. Mas nada bate as cores do Outono.
Fairfax, Virginia, USA. 2007

Foto Jota Esse Erre

James Watson

"De Watson A Fernandes

É muito curioso que o caso Watson tenha agitado tanto a sociedade portuguesa - pelo menos a que se revela na comunicação social. Dir-se-ia que décadas de propaganda colonial sobre a suposta tolerância e não-racismo portugueses (o famoso - ou infame? - lusotropicalismo) têm abafado o racismo despoletado pelos fluxos de “outros” para o jardim à beira-mar plantado. É preciso um cientista americano dizer uma asneira - como o próprio reconheceu - para se ter uma desculpa para confundir o politicamente correcto (na origem uma atitude de exigência de respeito pelos violentados simbolicamente e não, como agora se quer fazer crer, sinónimo de hipocrisia) com aquele artefacto ideológico do antigo regime - e assim abrir as portas para o “e se fosse verdade que eles são mesmo inferiores”?"
Miguel Vale de Almeida, Os Tempos que Correm



"Rui Tavares: Serão os prémios Nobel menos inteligentes do que os empregados de café?

Quando a filosofia da ciência se exaspera de procurar definir o seu objecto há sempre alguém que sugere uma escapatória: “ciência é aquilo que os cientistas fazem” (o mesmo se passa, curiosamente, com a filosofia da arte).
Que essa é uma definição profundamente insatisfatória viu-se agora demonstrado pela afirmação de James Watson, Nobel de 1962 e co-descobridor da estrutura e função genética do ADN, segundo a qual os negros são menos inteligentes do que os brancos, “como sabe qualquer pessoa que contacte com um empregado negro”. James Watson não citou provas científicas, experiências realizadas ou o trabalho de colegas seus. Dias depois declarou mesmo: “não consigo compreender como posso ter dito aquilo que foi citado em meu nome. Não era aquilo que eu queria dizer. Mais importante ainda, não há base científica para tais crenças”.”
Rui Tavares, Cinco Dias

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Suécia (7)


O meu trajecto de bicicleta. Uppsala. Suécia. 2007

Foto Sérgio Santimano

Evangélicos e lobbies petrolíferos "empurram" GW Bush contra o Irão

Seymour Hersh e o seu "recuperado" agente Ritter multiplicam sinais de aviso contra o possível ataque "cirúrgico" contra o Irão. Krugman e Dowd , do naipe de ouro do NY Times, prolongam análise preventiva dos dois inveterados anti-bushitas de primeira grandeza.

Hersh escreveu um grande artigo na New Yorker, de 8 do corrente mês, onde pôs a descoberto a "garra" dos Neo-Cons na preparação de um eventual ataque ao Irão. Afirma que as premissas do ataque estão todas falsas, pois, mesmo os Serviços Secretos ocidentais dão como improvável a realização de uma bomba atómica iraniana. São precisos cinco anos de intensas operações para a realizar, sublinha. Disso não quer saber Cheney e os seus falcões do Pentágono. E os evangelistas não deixam GW Bush descansado no desenlace de uma tomada de ataque rompante, sublinha Scott Ritter num artigo publicado ontem no Truthout. Org.

Krugman revelou ontem no NY Times que os únicos lobbies favoráveis aos Republicanos, para financiarem campanhas, são os dos Gás e do Petróleo, a quem Cheney e GW Bush estão ligados de alma e coração. Por outro lado, o conglomerado de empresas de Construção Civil, os homens-de-mão da dupla da Casa Branca, associou-se agora aos sectores da Segurança e dos Transportes de Valores, que tanta carnificina por excesso de zelo têm provocado pelas ruas de Bagdad.

Maureen Dowd, em análises muito profundas sobre a pré-campanha presidencial dos EUA-08, assinala que Cheney ultrapassa Gates e Condi Rice na vontade de atacar o Irão, sem motivos consistentes. Com a "garra" dos Neo-Cons, que se perfilam maciçamente pela candidatura presidencial de Rudolph Giuliani, Cheney "inventou" o perigo dos Guardas Revolucionários iranianos, de forma a lançar os bombardeamentos contra o Irão. As repercussões geopolíticas desse acto são incalculáveis, como é evidente. Os dados dos serviços secretos a operarem na clandestinidade no Irão são sem importância alguma, frisa Hersh.

Ritter, no artigo do Truthout.org, de anteontem, chama a atenção para o "abuso do poder" que a famigerada dupla da Casa Branca tenta realizar até ao fim do mandato. "O contencioso com o Irão é um problema nacional que implica um debate colectivo, a discussão e o diálogo com todos os factos em cima da mesa, abandonando toda a ideologia e teocracia que poderiam envenenar todo um trabalho realizado sob os princípios da lei e dos ideais", frisa o antigo comandante dos Marines.


FAR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Estudantes contra a mercantilização do ensino

universidadesprivadas.jpg

Anos 90. O governo Cavaco inicia a ofensiva contra a educação, elitizando um dos pilares do progressismo dos povos. “Um povo culto é ingovernável”, já dizia o velhaco do Salazar que também era professor. A introdução das propinas, o início da transferência do custo da educação para os alunos e as suas famílias, desencadeou então um forte movimento de protesto por parte dos estudantes.
2003. Sob o signo da Declaração de Bolonha e da Estratégia de Lisboa, as “modernas” palavras da mobilidade, competitividade e produtividade instalam-se no léxico universitário. As propinas passam agora a ser decididas pelas instituições, com montantes mínimo e máximo definido, mas crescentes de ano para ano. Já vamos entre 520 e 950 euros. Os estudantes mais uma vez agiram. Fizeram greves e vieram para a rua em protesto, culminando na manifestação de 5 de Novembro de 2003 com 15 mil pessoas. Mas a lei passou. Se desde o início este movimento apresentou menos força do que o da “geração rasca”, é no dia 9 de Novembro de 2005 que o controlo de algumas estruturas associativas por parte da JS conduz à divisão de uma manifestação, desmoralizando, com mais uma traição, toda a luta.

Mais encargos, menos direitos
A propina máxima ia sendo adoptada, por pressão de orçamentos de Estado cada vez mais diminutos, e era também usada perversamente como critério de qualidade: “uma faculdade de ponta tem de ser cara”. Estudantes e trabalhadores-estudantes têm mais encargos, menos apoio dos serviços de acção social e, simultaneamente, menos direitos e muitos são forçados a abandonar a escola.
Bolonha, um processo que continua em implementação, é mais uma das passadas do neo-liberalismo na UE, a mercantilização do Ensino é total. Agora os cursos passam a integrar dois ciclos, um primeiro, pago, em parte, pelo Estado, e um segundo à vontade das universidades. A fórmula 3+2 esconde um crivo económico: a diferença entre poder pagar o título ou não, levará a uma diferenciação de graus de primeira e segunda. E é uma conta simples para, acelerando a passagem pela universidade, impedir a partilha de conhecimento, a união dos estudantes e a formação de cidadãos críticos.

No sentido da privatização do ensino
Este Verão, durante os exames, época de difícil mobilização, o governo Sócrates preparou o novo Regulamento Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES). O método foi o de sempre: redigir a lei em silêncio, enviar versões diferentes para as diferentes instituições e associações, dar um prazo de apenas 15 dias para a análise e discussão de um documento com 185 artigos, aprovando-o na generalidade no dia 28 de Junho. O RJIES, aprovado de forma antidemocrática, afasta ainda mais a democracia da comunidade que faz a Escola. Os alunos vêem os seus lugares nos órgãos fulcrais da instituição reduzidos a 15%, os funcionários não têm assegurada a sua participação. Para os substituir surgem “personalidades de reconhecido mérito”, que não só nada têm que ver com a Escola, como têm tudo a ver com as empresas. Uma das bases deste Regime, é a Criação de Fundações “Públicas” de Direito Privado. Estas poderão ser criadas de raiz pelo governo ou por decisão do Conselho Geral, onde os estudantes têm uma representação ridícula. Este Regime é o passo final para a privatização do Ensino, demonstrando a promiscuidade entre os interesses do Capital e o Governo.

Por igual acesso ao ensino superior
As AE’s dominadas pelas juventudes de direita, onde se inclui a dita socialista, pouco ou nada fazem. Apesar disso, criaram-se movimentos, reuniram-se estudantes de diferentes escolas e, no dia da aprovação do RIJES no parlamento, os estudantes gritaram “NÃO À PRIVATIZAÇÃO”, sendo expulsos pela polícia.
Queremos que este movimento cresça. Contra as políticas neo-liberais, é necessária a união entre estudantes e trabalhadores, um número cada vez maior destes precários, muitos deles licenciados. Hoje, impõe-se a luta por um acesso igualitário ao ensino superior. Impõe-se a luta contra a mercantilização do conhecimento, a defesa intransigente da Escola Pública de qualidade e a garantia de um trabalho justo.

Hugo Bastos e Pedro Varela - Sábado, 20 Outubro, 2007

Via Mudar de Vida, com um agradecimento especial aos meus dois amigos autores do texto

Arcipelago


Sardenha. 2007

Foto Francesca Pinna

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Palíndromos

"Um palíndromo, como devem saber, é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos - normalmente, da esquerda para a direita ou ao contrário, da direita para a esquerda. Exemplos: OVO, OSSO, RADAR. O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase; é o caso do conhecido: SOCORRAM-ME, SUBI NO ÓNIBUS EM MARROCOS. Tomamos a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões...

ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZULO
CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ"

(recebido por email)

sábado, 20 de outubro de 2007

O filósofo e a morte



Com a devida vénia a A Causa Foi Modificada

A outra ruptura de Sarkozy

Tendo a ambição de perseguir o mito de J-F. Kennedy, e mulher, Sarkozy ficou tão frenético com a Presidência da República francesa que, em cinco escassos meses, aceitou o divórcio de uma manequim subtraída a um animador de rádio super-popular. A "peoplização" da vida política francesa atinge o clímax: qual será a nova dama de França, a breve prazo?
Prova mais do que provada: os bons jornais alertaram, há mais de duas semanas para a iminência da consumação do divórcio do Pr. todo-poderoso de França, a quinta potência mundial e país-chave na Europa, dêem lá as voltas por onde derem e quiserem...A coisa serviu de "indirectas" cheias de charme e bom gosto ao grande semanário satírico e político, Le Canard Enchainè: "toda a gente anda à procura de Cecília", titulava, em sucessivos cartoons de Cabu, Kerloux e& Cia. Depois, o Liberátion tomou o comando da expertise, sendo diário é mais fácil, e começou a fazer fogo sobre a eventualidade de uma ruptura judicial no casal. Num artigo publicado no Le Parisien, Dominique Rousseau, clicar aqui para ler, recorda que, por imperativos constitucionais, Cecília teve que aguardar pela aceitação de divórcio da parte do Pr., por efeitos de uma escandalosa imunidade total assegurada pela revisão do Estatuto penal do presidente, efectuada em Fevereiro do corrente ano. Além disso, o especialista em Direito da Universidade de Montpellier revela que casos de divórcio, em instância de Rei ou Pr., só existiu um longínquo com Napoleão. Michel Rocard, quando era PM assumiu o divórcio, no final dos anos 90. O que tem piada nesta história, prende-se com o facto de Sarkozy ter andado a vilipendiar o espírito de "Maio 68", com bravatas sinistras e de muito mau gosto, associando o facto histórico com o " mal da sociedade, da vida e da família", tornando-se, sem o querer, em mais uma vítima da pressão libertadora do Poder feminista e emancipador...das mulheres. Pascal Bruckner, o escritor pró-sarkozista de alta voltagem, bem dizia que os Sarkozy tinham muito do espírito de Maio 68...E os jornalistas do NY Times deram conta do imenso nervosismo do Pr. francês, aquando da grande entrevista realizada no Palácio presidencial, há cerca de duas semanas...


FAR

Sinais

Terra


African Woman / 7 (Angola 2006)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Já é candidato!

O meu candidato às eleições americanas

Na mouche

Há poucos a escrever com a clareza, acuidade e lucidez do Rui Tavares. Hoje, no Público, eis mais um artigo de última página que, perdoar-me-ão o entusiasmo, diz tudo:

A Caixa Negra

«Há um ano e meio soube-se que o BCP dedicava quase noventa por cento dos gastos com pessoal aos salários dos administradores. Esses executivos absorviam quase dez por cento dos lucros do banco, eram os mais bem pagos em Portugal e estavam acima da média europeia.
Como é habitual, houve quem respondesse que este era um assunto da vida interna da empresa e que se os salários dos executivos eram altos isso se devia às leis do mercado. Só no ano de 2004 os administradores do BCP dividiram entre si mais de 30 milhões de euros: mas isso sucedia porque eram bons gestores e os lucros do banco o justificavam.
Sabemos hoje que nesse mesmo ano de 2004 o BCP perdoou ao filho do seu fundador uma dívida de 12 milhões de euros em juros de empréstimos. E que, noutra ocasião, perdoou quinze milhões respeitantes a um empréstimo contraído por um seu accionista de referência para comprar acções do próprio banco.
E sabemo-lo porque a excelência dos seus administradores e grandes accionistas, apesar de bem remunerada, não os impediu de entrar em guerras intestinas que já minaram a credibilidade do maior banco privado português.
Os crentes no sistema voltarão a dizer que o dinheiro é do banco, que um banco pode perdoar dívidas a quem quiser e que se trata de assuntos privados de um banco privado. O BCP dá lucro e tem folga para estas coisas.
Quando assim é, o discurso dos crentes aproxima-se da feitiçaria. Se os milhares de funcionários de um banco pedirem aumentos, dir-se-á que o banco perde competitividade. Se um cliente não pagar a prestação do empréstimo, o banco fica-lhe com a casa. Se o estado quiser aumentar os impostos sobre os lucros da banca, responde-se que os prejudicados serão os clientes com os gastos que o banco terá de ir buscar “a algum lado”. Mas para aumentar executivos e perdoar dívidas a familiares ou sócios, as premissas são as opostas. Os lucros dão margem e ninguém sai prejudicado: nem os accionistas, nem os clientes do banco, nem os clientes de todos os bancos onde as comadres não se zangaram mas que passam a estar sob as suspeitas que no BCP se confirmaram.
É magia. E por isso mesmo, não funciona.

O discurso empresarialista criou a ideia de que a empresa deve ser uma caixa negra. A eficiência do sistema depende do estado não intervir. Pessoas que se preocupam com os abusos de poder e a falta de transparência dos estados (legitimamente) deram carta branca às empresas, nomeadamente às grandes. A única obrigação das empresas, diz-se, é dar lucros aos seus accionistas: para tudo o mais são irresponsáveis. Mas hoje as empresas já pesam mais na vida de cada um do que os estados: são elas que nos dizem quando podemos sair de casa dos pais, quando podemos ter filhos, quando já não precisam de nós. As empresas agora têm “direitos”; até mais do que os cidadãos.
Há duas gerações, a ideologia desenvolvimentista dominava com um discurso baseado na acção do estado e nas indústrias pesadas. Entretanto, o barco virou e a nova ideologia dominante garantiu-nos que não há instituição mais eficaz do que a empresa. Quantas vezes ouvimos políticos prometer que iriam gerir a cidade ou o país “como uma empresa”? A empresa foi modelo de tudo, solução para tudo. A fantasia ainda não acabou. Mas a ressaca vai ser dura.»

200 mil


Em Lisboa foram 200 mil por uma Europa social, uma Europa das pessoas, contra o embuste da inevitabilidade, contra a pseudo-ciência da coligação dos bem instalados e dos incapazes de olhar para lá do aparentemente evidente.
Que fique bem claro que há muita gente que sabe bem do que se trata com o tratado que, infelizmente, se eternizará no nome da minha bela cidade de Lisboa. Sobre o conteúdo deste, falaremos mais tarde.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Velieri a Cagliari


Cagliari. Sardenha. 2007

Foto Francesca Pinna

Da Capital do Império

Olá!

Ler os discursos dos chefes de estado à assembleia geral da ONU - algo que tenho que fazer todos os anos - é como condenar alguém a ter que ler a minha colecção de livros mais chatos do mundo onde incluo livros como a “Colectânea de discursos do Enver Hoxa” e “ O modelo soviético de desenvolvimento” .
Pior do que isso (e agora que o Fidel está com os pés para a cova) só pode ser … ser forçado a ouvir um discurso de sete horas do narcisista-fidelista (leninista) Hugo Chavez. Ainda não me calhou a sorte embora eu conheça um desgraçado que teve que assistir a isso de pé o que o levou a rogar ao santo Che pela cura de Fidel para ver se calava o Hugo. Sem resultado o que, disse-me ele, “prova que afinal o Che não é santo”. O que todos nós sabemos ser verdade… não é?
Mas voltando à questão dos discursos da ONU: É por essa característica soporífera de mediocridade surrealista que eu considero a Assembleia Geral da ONU - que todos os anos em Setembro atrai dezenas e dezenas de chefe de estado e governo e respectivos “penduras” a Nova Iorque - como nada mais que uma oportunidade para ver alguns amigos, dar uma passeata, ir ver uma boa peça de teatro e comer num ou dois bons restaurantes franceses à custa de outrem e depois fazer uma ou duas entrevistas sobre os males dos Estados Unidos no mundo para pagar os ditos jantares. É ao fim e ao cabo pouco diferente do que fazem os ditos chefes de estado e governo embora eles se desloquem em limusinas e causem irritantes engarrafamentos de trânsito na zona de mid town Manhattan onde os preços dos hotéis quadruplicam durante esse período.
Pois tenho a dizer-vos que este ano na minha ida à Assembleia Geral da ONU nem pus os pés na dita cuja. Preferi ir passear para Coney Island (onde o piroso é genuíno) e ir ver como é que funciona a Máfia russa em Brighton Beach (Little Odessa). Muito mais colorido e fascinante do que a Máfia inoperante da ONU e além disso não vivem à minha custa.
Pois para recuperar tempo perdido estava eu outro dia a ler o discurso feito na Assembleia Geral a 25 de Setembro por “Sua Excelência José Eduardo dos Santos” (notem que já não é “camarada”) e à espera de cair a dormir antes de ter tempo de soletrar “QUE CHATICE PORRA” quando quase que saltei da cadeira sem acreditar no que lia.
“Pode ou não o Islão coexistir nas sociedades de modo pacífico com outros credos religiosos? Como neutralizar o fanatismo e evitar a islamização do estado que contraria a consciência jurídica moderna da humanidade sobre o estado secular?”
Tive que ler estas interrogações legitimas e atempadas de “Sua Excelência” duas vezes e ainda duvidando do que estava à minha frente em preto e branco agarrei logo no telefone para confirmar o que estava escrito com um empregado diplomático do Zé Dú Ali Bábá ( o nome popular de Sua Excelência).
“É pá acho que ele fez umas modificações pouco antes de ler o discurso mas nós só temos o original,” disse o tal diplomata do Zé Du Ali Bábá. Por isso tive que contactar a russa matrona que trabalha num escritório nas caves da ONU num corredor que nunca ninguém encontra e onde todos os discursos são arquivados em cassetes e pedir-lhe a cópia do discurso do Zé Du Ali Bábá que ela resmungando lá me mandou eficientemente (que surpresa!).
Tenho a dizer que o Zé Dú me voltou a desiludir pois à ultima da hora “cortou-se”! Mudou as interrogações para certezas afirmando que “o Islão pode coixistir nas sociedades de modo pacífico com outros credos religiosos mas é preciso neutralizar o fanatismo e evitar a islamização do estado que contraria a consciência jurídica moderna da humanidade sobre o estado secular”.
Pode coexistir? Talvez …. se se “evitar a islamização do estado”. Mas se tivermos em conta que a influencia crescente do Islão é aquela do movimento Wahhabi (e suas variantes) em que nada pode ser separado da leitura fundamentalista do Corão é difícil imaginar isso. Na verdade é preciso notar que o Islão não é apenas um “pacote” de princípios e crenças mas pelo menos senão mesmo acima de tudo uma crença social, lições de como organizar a sociedade como um todo.
O problema surge porque nós sabemos que as nações existem com base em valores e crenças comuns e que nas sociedades as pessoas avançam porque são encorajadas pela sua sociedade a adoptar certos hábitos e comportamentos. Por outras palavras: as soluções para questões morais não são só produto dos indivíduos já que os homens são criaturas sociais cujas acções e pontos e vista são profundamente marcados pelo tecido social que os une. Daí a importância da questão que o Zé Dú Ali Bábá levantou antes de se “cortar”: “Pode ou não o Islão coexistir nas sociedades de modo pacifico com outros credos religiosos? Como neutralizar o fanatismo e evitar a islamização do estado que contraria a consciência jurídica moderna da humanidade sobre o estado secular?”
Isto levanta outra questão: A crença no tal “processo histórico” pelo qual vamos todos acabar num sociedade igual a cantar Grândola Vila Morena Terra da Fraternidade depois de passarmos todos pelas mesmas etapas históricas a cantar “Imagine”. Isto é, basta dar tempo ao tempo e acabaremos todos por acreditar em valores democráticos, de fraternidade, de liberdade de imprensa etc. Se isso ainda não acontece é porque há exploração (dos americanos) ou/e porque o resto do maralhal ainda está numa outra fase do tal processo histórico mas com tempo … vai lá. Pois, pois…
Na verdade só quando abandonarmos esta fantasia de um processo histórico igual para todas as nações e povos é que poderemos fazer face ao problema que o Islão é hoje para todos. Só então é que poderemos aceitar que há pessoas para quem e ao contrario de nós no ocidente a religião é fundamental para organizarem a sua vida e não valores democráticos . E se aceitarmos isso poderemos talvez conseguir distinguir entre esses e aqueles cujas crenças os levam à utopia terrorista anti-moderna.
Tentar bater uma ideologia assassina com complacências ocidentais sobre o “processo histórico”, o “multiculturalismo” e outras suposições não é uma boa aposta. O relativismo infelizmente não resolve tudo. É por isso que o Zé Du Ali Bá Bá deveria ter deixado ficar a pergunta no ar. Mesmo que o único que a tenha notado fossemos só nós. Mas do Zé Du há muito que deixei de esperar coragem.

Abraços,
Da capital do Império

Jota Esse Erre

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Hungria (2)


Pécs. Hungria. 2007

Foto FFC

Richard Rorty: "Todas as coisas têm agora que ser feitas de novo"

Do grande filósofo anti-sistema, o mais europeu dos norte-americanos, recentemente falecido, um ponto de ordem radical para nos fazer pensar (e viver...) de outra maneira.

"As figuras que estou a usar como paradigmas da teorização ironista - o Hegel da Fenomenologia, o Nietzsche de O Crepúsculo dos Ídolos e o Heidegger da Carta sobre o Humanismo - têm em comum a ideia de que há algo (a história, o homem ocidental, a metafísica - algo de suficientemente vasto para ter um destino) que esgotou as suas possibilidades. Assim, todas as coisas têm agora que ser feitas de novo. Não estão apenas interessados em fazer-se de novo a eles próprios. Pretendem também fazer de novo essa coisa grandiosa: a sua própria autonomia será uma excrescência dessa novidade mais vasta. Pretendem o sublime e o inefável e não apenas o belo e o novo - pretendem algo de incomensurável com o passado, não apenas o passado recapturado através da redisposição e da redescrição. Pretendem não apenas a beleza visível e relativa da redisposição, mas sim a sublimidade inefável e absoluta do Totalmente Diferente: querem a Revolução Total ".

In Richard Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, Editorial Presença, Lisboa


FAR

Há 25 anos


Adriano Correia de Oliveira (1942-1982)

"Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não"

Trova do vento que passa

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sinais


Desenho Maturino Galvão

O PSD e a constituição (3)

Pedro Mexia, um homem de outra Direita que não a dos "liberais", sobre a proposta de Menezes:

Não precisamos de uma nova Constituição

De quando em vez alguém propõe uma nova Constituição. Ou seja, um novo regime. São os descontentes com a Terceira República e os proponentes de uma Quarta. Mas acumular Repúblicas nunca deu grandes resultados. Os nossos vanguardistas constitucionais acreditam que as fraquezas do regime (partidocracia, corrupção, caciquismo, etc) caducam automaticamente com a elaboração de um novo texto. Acontece que tais fraquezas são intrínsecas à democracia e não se resolvem por decreto constitucional.
O recém-eleito presidente do PSD propõs há dias uma nova Constituição. Não apenas mais uma revisão: um texto novo. A proposta obviamente não tem votos, como nunca terá nenhuma proposta semelhante. Mas, além disso, é também uma proposta leviana. Não precisamos de uma nova Constituição.
Não precisamos de uma nova Constituição porque esta é a Constituição saída do 25 de Abril. Há quem compreensivelmente não goste disso, quem preferisse desligar o documento da data, quem ache que a democracia podia ter vindo de outra maneira. História virtual é história virtual. A democracia aconteceu com o processo iniciado a 25 de Abril de 1974 e depois concretizado na eleição de uma assembleia constituinte, a aprovação de uma constituição e a realização de eleições legislativas e presidenciais. Houve momentos em que a democracia esteve em perigo: mas a Constituição foi aprovada a 2 de Abril de 1976, ou seja, depois do 25 de Novembro ter corrigido os devaneios RDA da revolução.
É evidente que o texto originário estava impregnado de linguagem e objectivos socialistas. Mas em 76 todos os partidos falavam em «socialismo». A verdade é que os aspectos fundamentais de uma sociedade democrática apareciam consagrados logo no texto inicial: liberdade de expressão e associação, eleições livres, independência dos poderes, checks and balances, etc.
As sucessivas revisões do texto consagraram a normalidade democrática. Em 1982, com a extinção do Conselho da Revolução, que exercia uma tutela já serôdia sobre o poder democraticamente eleito. Em 1989, com a garantia da liberdade económica, contra o espartilho estatista. E depois disso houve pequenos ajustes, nomeadamente em matéria de integração europeia.
A Constituição de 1976 na sua versão original era uma constituição democrática socialista. A Constituição de 1976 na sua versão actual quase não tem sombra de socialismo, mesmo na linguagem. Há vestígios esclorosados que precisam de retoques, como o número 2 do artigo 7º, que fala em «colonialismo» e «blocos político-militares». E pouco mais. A dimensão política da Constituição não põe entraves ao regular funcionamento de democracia portuguesa. Nem se vê onde estejam tais entraves na dimensão económica.
A única matéria que se afigura discutível é a dimensão institucional. Ou seja, é possível que haja quem queira alterar a natureza do regime. Sejamos claros: há quem pretenda o presidencialismo. Se é esse o caso, mais vale assumir tal proposta com clareza. E cá estaremos para lembrar os defeitos do presidencialismo, os desvios cesaristas, os conflitos com o governo, e o mais que os manuais registam.
Se é isso, conversaremos em devido tempo. Se não é isso, é pólvora seca.

O PSD e a constituição (2)

Em mais um dos seus editoriais no Público (sem link directo, como sabem, mas podem procurá-lo através do site, em "edição impressa"), José Manuel Fernandes brinda-nos com outro dos seus excelsos momentos que gosto de designar como o género "cortina de fumo". A táctica é, através de uma pretensa neutralidade, um apelo ao eficientismo, e uma generosa vontade de "tratar dos problemas do país", mascarar a ideologia que sempre lhe subjaz. Desta vez, a propósito da "nova constituição", proposta por Menezes, JMF não faz por menos que propôr a refundação da República. Acabar com a terceira, e passar à quarta, essa que, por decreto refundador, irá finalmente combater as razões de todos os nossos males nacionais.
Claro que não se limita a defender uma "Quarta República" assim sem mais, não vamos nós supor que, num movimento de regressão à juventude, ande agora a defender suloções chavistas. Também nos indica alguns dos caminhos que, no seu entender, a devem nortear. Mas o que é curioso, é que todas as suas soluções são apresentadas como óbvias, evidentes, empíricas, quase obrigatórias. Essa refundação deverá «enfrentar os problemas que o actual regime nos coloca». Claro que todos esses problemas tem uma raiz nos preâmbulos e artigos "socialistas" que a actual constituição ainda mantém: o direito a uma educação "progressivamente gratuita" ou a uma saúde "tendencialmente gratuita" (olha que grande socialismo que isto é). Mas o mais curioso é que o próprio JMF, imediatamente a seguir, argumenta com o facto de que estes artigos, tão lesivos do nosso progresso, «não estão a ser cumpridos: arranjou-se sim artifícios para que as leis de que o país necessitava passassem no Tribunal Constitucional». Ah!, mas não é Portugal um país de regime socialista? É. Mas pode-se praticar o contrário? Pode. Isso não é uma contradição? Pschhht!!! Daí que, na sua lógica imparável, JMF se questione candidamente sobre se, «apenas por uma atitude de bom senso [a constituição] não deve ser reinventada».
Sejamos claros: JMF tem todo o direito de defender uma mudança de regime ou uma nova constituição, devia era ter a honestidade intelectual de não se refugiar em argumentos de practicidade e assumir as suas opções ideológicas. Porque o faz, não é difícil de adivinhar: dificilmente se encontrará matéria que una tão fortemente as esquerdas como a defesa da actual constituição, daí que seja tacticamente preferível, para consumo externo, fazer de conta que tudo não passa de uma inócua "actualização"; no mesmo editorial em que, para consumo interno, se assume a causa como decisiva para o futuro do País. Mas não tenhamos receio, aliás, venham daí essas propostas "revolucionárias" de mudança, que nós, na Esquerda, estamos a precisar como pão para a boca de uma causa comum, que idealistas como JMF e oportunistas como Menezes nos vão oferecer de bandeja.

O PSD e a constituição (1)

Não sei se repararam, mas Luis Filipe Menezes já está a comandar a agenda política.

Dama do bling-boy

Suécia (5)


Uppsala. Suécia. 2007

Foto Sérgio Santimano

domingo, 14 de outubro de 2007

Festa moçambicana na Suécia


A Ponte

Associação dos moçambicanos residentes na Suécia e seus amigos.....
Vänskapsföreningen Mocambique/Sverige

27 Outubro
Flaggskeppet, Hagalundsgatan 9, Solna

Com música, dança, gastronomia do nosso Moçambique e muito, muito, mais!!!!!! .....

100kr/sócios e 150kr não sócios

Por questões organizacionais, queira por favôr confirmar com seu nome e número de pessoas para o e-mail da Ponte, ou fazer o pagamento, mencionando “festa Ponte 27-10.2007”.
PlusGirot 43 45 62-5

27oktober
Flaggskeppet, Hagalundsgatan 9, Solna
Med musik, dans, Mocambiquansk mat och mycket, mycket mer....
100:-kr medlemmar och 150:-kr ick medlemmar
PlusGirot 43 45 62-5 Bekräfta via e-post eller betala till vårt plusgirokonto, skriv på inbelningsblanketten
"fest Ponte 2007-10-27".
e-mail ponte.moc.swe@gmail.com
http://www.ponte-moc-swe.blogspot.com/

Mambo 27

As pessoas podem fazer lembrar os seus países, mesmo num sítio longínquo.
E o que foi uma politizada geografia comum é agora também montanha e vale num olhar e uma sensação de espanto e uma vontade completa de baralhar as línguas e os seus idiomas.
De repente podem estar frente a frente como dois elementos de estado, sabiamente envenenados por ancestrais culturas, numa rapidez que avança porque parte do estalido de uma estranha e ritmada compreensão.

O que poderá ser um cubano muy macho e nada romântico ao lado de uma sentida angolana?
Estende a maciez do queixo, o braço em amparo, tira-lhe as espinhas do peixe, talvez ainda primo daquele que nas remotas águas de Trinidad é gastronomicamente velado quarenta oito horas antes de ser perfeita refeição, dedica-lhe canções e canta-as devagar com areias de Ancór ainda nos olhos, prepara-lhe mojitos deliciosos enquanto ela fica só ali sem sequer sílabas, pede a um amigo que escreva no minuto um poema e oferece-lhe, dizendo só que o amigo é um grande escritor, para-lhe nos lábios um enxuto charuto para que se extasie, segue viagem no que existe na colher até à sua boca, vai pela rua a agitar a sua alegria como se uma fogosa bandeira fosse a mão dela, no dia em que terminou a escravatura no Valle de los Ingenios. No rosto, os seus ossos largos permitem que o coração fique intemporalmente à espreita, enquanto é noite e acredita e deseja, que os países de algum modo são como "algumas pessoas".

Dedicado a Cuba e a Angola

Hungria (1)


Pécs. Hungria. 2007

Foto FFC

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Estória

Uma hora antes de o meu despertador tocar notei um vulto no meu quarto.
Pensei que sonhava, uma vez que só costumo acordar ao toque do despertador.
Confortado com esta ideia envolvi-me mais nos lençóis.
O vulto, no entanto, era real e, além o mais, desajeitado: derrubou uns quantos objectos da minha cómoda.
Irritado, desfiz o ninho morno onde procurava mais uns instantes de sono e levantei-me para acender a luz.
Afinal, não era um vulto. Eram dois agentes devidamente uniformizados da PSP que remexiam as gavetas e abriam as portas de tudo o que era móvel no meu quarto.
Apaguei a luz e voltei para o conforto da cama.

Não há nada como ter e sentir a Segurança de portas para dentro...

sábado, 13 de outubro de 2007

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Suécia (4)


Clínica dentária. Uppsala. Suécia. 2007

Foto Sérgio Santimano

Bernard-Henri Lévy ataca "Rove" de Sarkozy

O autor de "A barbárie com face humana" denunciou o "racismo" do Conselheiro Especial do Pr. francês, Henri Guaino e, paralelamente, continua a defender Ségolène Royal. O Outono parisiense está mesmo quente: correm insistentes rumores sobre o possível divórcio do casal presidencial...É o show-bizz animado pelo canibal- presidencialismo copiado do modelo arruinado protagonizado por GW Bush, que se derrete a produzir tempestades de boulevard.


Quem diria que B-H Lévy, o intelectual mais incongruente e mediático do Tout-Paris, se iria colocar em bicos de pés para denunciar a irredutível fragilidade do principal e omnipotente Conselheiro Especial do Pr. francês, uma espécie de Karl Rove, a peça principal da argumentação política do candidato Sarkozy na sua marcha célere para o Poder. Isso aconteceu mesmo. De verdade. Lévy fez fogo sobre o célebre discurso de Dakar do novo Pr. francês, escrito por Guaino, ler texto, clicar aqui, E aproveitou, sibilino, para criticar com grande violência - acusou-os de maurassianismo - os dois "coveiros" de Ségolène Royal como candidata a Pr., Chevènement e Lionel Jospin.

B-H L. considerou "ignóbil" o discurso de Dakar, proferido dois meses após a investidura de Sarkozy como presidente da França. Como se sabe, a África Ocidental é um "jardim" para as ambições neo-coloniais do capitalismo francês, por excelência. O discurso foi mesmo um absurdo. BHL tenta desculpar Sarkozy...mas chama " racista " a Guaino, um economista keynesiano que sempre navegou nas margens enevoadas do gaullismo social. O que se sabe, para já, é que a França que tem um forte contingente militar na Costa do Marfim e assessoria os governos da Gâmbia, do Chade, etc, corre o risco de ver a sua missão político-militar muito maltratada. E Sarkozy revelou a sua fraca estatura intelectual, claro.

Se existe uma parte de calculismo "táctico-promocional", clique aqui, artigo de Schneidermann, a invectiva de B-HL espanta por se posicionar ao arrepio da lógica do compromisso assumida pelos seus rivais, Kouchner, Attali, Glucksman e Bruckner, entre outros trânsfugas para o campo enlameado do canibal-presidencialismo à la Sarkozy. O comentário de Schneidermann é mesmo delicioso e muito corajoso: apesar de todas as suas limitações e embustes, o gesto de verrinoso de Lévy é um grito numa alcova povoada de " reverências e medos" (sic).

A defesa de Ségolène por B-HL fia mais fino. As ruínas no interior do campo dos socialistas franceses são enormes. Só Ségolène se mantém à tona de água. Obrigou o pai dos quatro filhos a sair de casa, por infidelidade conjugal indesmentível do n° 1 do PSF. E faz frente a uma onda de livros-libelo contra as suas ideias e estilo, sobretudo um de Lionel Jospin, onde é tratada de superlativa imbecil. Lévy continua a proclamar aos quatro ventos que, Sego, é uma mulher "formidável", que tinha carácter e estatura para o job " de presidente. Só que, acrescenta, se "encontrou terrivelmente só" e, o grão-de-pimenta, "falhou a aliança com os centristas" de Bayrou, o que aconselhavam Rocard, Strauss-Khan, Kouchner, e tutti-quanti. Está-se mesmo a ver...

FAR

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Yah! - Buraka Som Sistema feat. Petty

American Woman


Foto Jota Esse Erre


American woman stay away from me
American woman, moma let me be
Don't come round knocking on my door
I dont' want to see your face no more
I've got more important things to do
Then spend my time growing old with you
Now woman I said stay away
American woman Listen to what I say
American woman get away from me
Don't come knocking around my door
don't want to see your shadow no more
Coloured lights can hypnotize
Sparkled someone else's eyes
American Woman listen to what I say
I don't need need your war machines
I don't need your ghetto scenes

Guess Who

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Nobel da Literatura: a globalização derrotou controlo ideológico

O actual secretário da Academia sueca, Horace Engdahl, é um reputado tradutor de Derrida e Blanchot

A poucos dias da revelação do galardoado com o Nobel 2007 da Literatura, a revista Lire (Outubro) publicou um revelador dossier sobre o mecanismo da selecção e escolha definitiva do laureado. A Academia Sueca tem já mais de um século de actividade. Tudo começou em 1901 e Emilio Zola, o candidato favorito para a primeira edição do Nobel, foi seca e definitivamente afastado da derradeira prova selectiva por a sua prosa"ter falta de espiritualismo". No computo global os premiados de origem francesa e norte-americana totalizam, ombro a ombro, os mais numerosos. O que nos remete para as grandes influências ideológicas: membros proeminentes da família real escandinava, marechais do exército sueco e os famigerados jurados do Pen Clube International acabaram por ditar muitas vezes a sorte do vencedor. As vicissitudes dramáticas do período entre as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria subsequente amordaçaram muitas escolhas: Sartre recusou receber o prémio e Malraux nunca foi distinguido; enquanto Hemingway o recebeu tarde e às más horas e Dag Hammarskjöld, o futuro secretário geral da ONU, tudo fazia para os seus pares distinguirem o diplomata Saint.John Perse, a par de Boris Pasternak e Beckett, o que veio a acontecer...
A cena de Malraux é caricata e de mau presságio: mesmo Camus afirmou que o prémio devia ter-lhe sido atribuído a ele, um pouco como Saramago o disse sobre Aquilino Ribeiro...A dupla vida política do autor da Condição Humana como que o afastou do pódio mais célebre da distinção literária, pois, a Guerra de Espanha e mais tarde o "penchant" pela ideologia gaullista eram coisas sacrílegas para os jurados de Estocolmo. Agora, cinquenta anos após a distinção controversa de Albert Camus - que mesmo assim demorou a vencer quatro designações frustradas de 1952 a 56- a Academia Sueca revelou pela voz do seu secretário-geral alguns dos mecanismos de tão exotéricos processos de escolha. De acordo com Horace Engdahl, um francófilo dos quatro costados, a nova geração de jurados acabou por aceitar os diktats da globalização, do multiculturalismo e da diversidade ideológica. Com uma rede de instituições de cooperação de mais de 400 Universidades e Academias de todo o Mundo, os jurados suecos solicitam pareceres e listas de possíveis candidatos, tudo a partir de Janeiro do ano posterior à ultima selecção vencedora. Seguem-se dois a três meses de triagem para em Abril, realizarem uma lista de 20 nomes de onde saíram, 60 dias depois, um conjunto definitivo de cinco propostas de autores. Uma regra intangível de 1938 faz com que, para se ser seleccionado e vencer, o nome e obra do vencedor já devia ter sido mencionado pelo menos uma vez na short list...

Horace Engdahl afirma que os critérios da nova geração são hoje mais dilatados."Creio que hoje não se pode reduzir a Literatura à Poesia ou ficção. Existe o que apelido de literatura de testemunho muito importante. Que vai da narrativa de viagens aos testemunhos sobre a Shoa, os escritos de Lévi-Strauss e a certos ensaios literários, e uma certa forma, a via foi aberta por Churchill (laureado de 1953), Bertard Russell (1950) e Soljenitzyne (1970)". Está tudo dito. Nós lusitanos, perdemos a hipótese de ver eleitos Aquilino e Jorge de Sena, mas temos o trunfo grande de Lobo Antunes. Haverá algum professor de Yale ou Nova York que o tenha proposto? Terá ele feito parte das listas antigas dos cinco candidatos finais? Vamos esperar uns dias.

FAR

Sinais


Desenho Maturino Galvão

Arroja e as abelhas

Pedro Arroja não é aquele avô salazarista que está sempre a pregar aos netos que os comunistas comem criancinhas. Pedro Arroja escreve com uma moderação que deixa qualquer um engasgado quando nos focamos no conteúdo.
Vejamos, há uma profundidade científica nos posts, uma análise que, para o mais incauto, parece ser um programa científico, fundamentado em premissas já diversas vezes confirmadas, inclusive com exemplos animais. Ficamos todos a saber que "Chamar os pais, como pretendem certas teorias modernas da educação, a desempenhar nos cuidados e na educação dos filhos" é um erro, porque nas abelhas as coisas não se passam bem assim e os machos são usados para fins meramente sexuais. Uma comparação plena de eficácia e altamente sustentada, porque as abelhas são um animal e nós também. Há umas leves diferenças que me estão ocorrer, mas não interessam nada para o caso.
Mas é isso que é belo no blog de Arroja: a modernidade. Não há aqui cheiro a bolor, é tudo inovador, quase revolucionário. O autor apresenta-se como um Messias que nos vem corrigir os erros da nossa famigerada professora de História (porque o ensino de hoje é claramente socialista. Os russos ganharam a guerra fria e foram tão inteligentes que nos convenceram do contrário.).
Arroja não está atrasado no tempo, como costumamos pensar sobre os apoiantes de Salazar. Arroja está à frente, numa fase de surrealismo mágico em que até as regras da lógica são esquecidas. Observemos:
1.[acerca de Salazar] "Mas aquilo que ressalta em todos os seus escritos é a preocupação permanente em conhecer o carácter português"
2. [no meio de algumas qualidades lusas, conseguimos aprender também que...] "o português (...) é pouco aplicado ao trabalho e ao estudo (...), incapaz de chegar a um consenso mesmo com o seu vizinho do lado. (...) mas depois falta-lhe a vontade e a perseverança para executar as ideias e os projectos que ele próprio concebeu."
3. [no entanto, o que é que torna o Estado Novo único?] "O Estado Novo foi um regime político diferente de todos os outros, genuínamente português"
Aqui, as pessoas que tiveram lógica no ensino secundário e que a usam enquanto ferramenta pensam: mas então... o Estado Novo foi bom?
Ao que Arroja responde, com uma argúcia fantástica: " O Estado Novo levou Portugal da 70ª ou 50ª posição no mundo para a 24ª. Hoje, nos seus grandes princípios, levá-lo-ia provavelmente para a primeira. "
Este estado supra-sumo de uma pessoa calma, que escreve sem irritações ou ataques e vê acima de todos nós é, no mínimo, refrescante.
Aqui, porque a dúvida nos assalta e o gosto pela discussão nos leva a querer saber mais, enveredamos pelo perigoso caminho da opinião de Arroja sobre o Estado Novo. O desconhecido mete medo, já o sabemos. Mas a escrita iluminada de Arroja é uma pedrada no charco.
Quais são as chaves do sucesso do Estado Novo? e Arroja arranca. Há o pormaior de o sucesso do Estado Novo ser já uma premissa da discussão. O mais distraído poderá começar a questionar a taxa de analfabetismo, o colonialismo, a censura política e essas histórias da carochinha. Mas dado que há pouco Arroja previu - com uma firmeza que nem o Professor Karamba pode permitir aos seus clientes - que Portugal estaria no topo do mundo não fosse aqueles sacanas do 25 de Abril, já nenhum de nós pode voltar atrás.
"a democracia é restrita - só votam os (as) chefes de família." - mais uma frase que nem necessita de explicação. Suponho que nas abelhas também só votem as fêmeas. (nota-um-bocado-depois-de-ter-postado: reparem que Arroja está num ponto tão elevado que não se prende com o óbvio. Para mim o primeiro argumento para a democracia ser restrita era o facto de estar sempre o mesmo no poder. Mas Arroja vê mais longe.)
"...a aproximação, numa base de independência recíproca, entre o Estado e a Igreja. Existe liberdade de culto, mas a Igreja Católica é a religião tradicional dos portugueses." Ah, os bons ares da Igreja! A tradição é a tradição e isto nem se questiona. É uma coisa científica, a tradição. Se os portugueses sempre foram católicos, o Estado deve dar liberdade de culto, mas com um toque católico. Uma tendência, um empurrãozinho. Nada de especial (há uma independência recíproca), é só um acordo de cavalheiros. A moral e os bons costumes são para manter. E fico muito feliz pela modéstia do senhor Pedro Arroja, que aconselha uma religião a todos os seus compatriotas, não vá a malta escolher mal (ou o chefe de família por nós).
"Oitavo, a família como unidade natural da sociedade." - esta frase volta a esbarrar num dos mais poderosos argumentos de Arroja: o das abelhas. Eu cá, se tenho que ser natural porque a naturalidade é boa, gostava de poder educar os meus filhos e não ser um objecto sexual da minha mulher (as feministas tomaram conta do mundo e nós, homens, a ver futebol).
"Décimo-segundo, a autoridade pessoalizada, forte, proba e discreta do próprio Salazar - um exemplo para todos aqueles que serviam o Estado e, em última instância, para toda a sociedade. Ele estava lá para guardar a casa e para evitar que ela fosse deitada abaixo." - várias curiosidades: Salazar morreu solteiro e sem filhos (não era um pró - vida), o que não deixa de ser normal. Era um homem de bons costumes e cedo percebeu que se tivesse mulher era só para sexo e não quis. Ou porventura até queria educar os filhos, mas viu que isso era contra a tradição histórica da humanidade e não se deixou enganar. No entanto, era um exemplo. Mais, deixámos morrer o pastor que guardava as ovelhinhas e, se este era tão bom, vai ser difícil arranjar outro que nos ponha tão ordenadinhos (apesar de Sócrates, nesse campo, ser uma boa promessa).
Concluindo, em Arroja há um surrealismo contra-lógico, uma coisa mui moderna e especial, que selectivamente lembra acontecimentos históricos para chegar a uma conclusão que faz Nostradamus parecer a Maya: o Estado Novo colocar-nos-ia no topo do mundo.
Porventura não chegámos lá por não sermos chefes de família. Ou abelhas fêmeas.

Suécia (3)


Clínica dentária. Uppsala. Suécia. 2007

Foto Sérgio Santimano

Covilhã - citação de Maiakóvski...

" Na primeira noite, eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam o nosso cão.

E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho na nossa casa,
rouba-nos a Lua e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Só uma perguntinha...

E este, pode-se chamar de fassista?

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Mambo 26

Nas arcadas de qualquer coisa, teimam sempre uns peitos de pés que nascem de papelões e tão descrentes quanto parados, arqueiam-se pelo delírio de já não pertencerem a setas que respiram ventos.
Mais acima, espreitam de lá uns tons que parecem enxutos mundos mas restam só lá demolhados nos círculos da cara, como sentados que estão para sempre numa inclinação única.
Não sabem des-sabores porque tudo tem um cheiro de todos, de um buraco universal que não se pode atapetar por cima.
As suas solidões são esses vapores subidos, que não encontram susto.


P.S-Eles nunca lerão este blogue, eles, os outros, os que não são eu nem tu, os Sem-Abrigo das cidades belas... como Lisboa, como...

Foi só um sonho estranho

Hoje tive um sonho muito esquisito. Sonhei que a polícia fazia visitas a quem se pretende manifestar, antes das ditas manifestações, para inspeccionar o material e aconselhar a malta a "portar-se bem".
O que vale é que era só um sonho, pois ao acordar lembrei-me que vivemos num estado de direito democrático.

Halloween - O Exorcismo de Mary Witch

Nicarágua pela vida

María de Jesús González was a practical woman. A very poor single mother, the 28-year-old's home was a shack on a mountain near the town of Ocotal in Nicaragua. She made the best of it. The shack was spotless, the children scrubbed. She earned money by washing clothes in the river and making and selling tortillas.
That nowast quite enough to feed her four young children and her elderly mother, so every few months González caught a bus to Managua, the capital, and slaved for a week washing and ironing clothes. The pay was three times better, about £2.60 a day, and by staying with two aunts she cut her costs. She would return to her hamlet with a little nest-egg in her purse. She bought herself one treat - a pair of red shoes - but she would leave them with her family in Managua, as they were no good on the mountain trails she had to go up to get home.
During a visit to Managua in February she felt unwell and visited a hospital. The news was devastating. She was pregnant - and it was ectopic, meaning the foetus was growing outside the womb and not viable. The longer González remained pregnant, the greater the risk of rupture, haemorrhaging and death.
What González did next was - when you understand what life in Nicaragua is like these days - utterly rational. She walked out of the hospital, past the obstetrics and gynaecological ward, past the clinics and pharmacies lining the avenues, packed her bag, kissed her aunts goodbye, and caught a bus back to her village. She summoned two neighbouring women - traditional healers - and requested that they terminate the pregnancy in her shack. Without anaesthetic or proper instruments it was more akin to mutilation than surgery, but González insisted. The haemhorraging was intense, and the agony can only be imagined. It was in vain. Maria died. "We heard there was a lot of blood, a lot of pain," says Esperanza Zeledon, 52, one of the Managua aunts.
González was not stupid and did not want to die. She knew her chance of surviving the butchery was small. But being a practical woman, she recognised it was her only chance, and took it. The story of why it was her only chance is an unfolding drama of religion, politics and power that has made Nicaragua a crucible in the global battle over abortion rights.

Mais aqui.

Desde Novembro, quando o aborto passou a crime neste pais, morreram 82 mulheres, segundo o mesmo artigo. 82 mulheres. Mereciam, não é? Ou é mentira? Ou isso não interessa para a pergunta - o utilitarismo é uma grande treta? Ou isto é propaganda de esquerda?Qual é a desculpa para isto? Quem votou "não" no referendo devia pensar muito bem nestas 82 vidas (e na quantidade inestimável de mulheres que deve ter ficado infértil)

Porque quem tem delírios religiosos e acredita em santinhas com buço e afins está no seu pleno direito. Agora chega de me obrigarem a viver sob esses padrões esquizofrenizantes.

82. Nosso senhor escreve direito por linhas tortas, o malandro. Muito tortas, mesmo.

Sinais


Desenho Maturino Galvão