sábado, 30 de junho de 2007

Terra

"Somewildwish"/8
Angola-Cachoeiras, Embondeiro- 2006


"(...) é verdade mãe aquela árvore é capaz de grandes tristezas. Os mais velhos dizem que o embondeiro, em desespero, se suicida por via das chamas. Sem ninguém pôr fogo. (...)"
Mia Couto, O Embondeiro que Sonhava Pássaros


"(...) Atravessamos florestas de embondeiros, os elefantes do reino vegetal. O marinheiro não percebe porque fico tão contente com cada novo embondeiro que nos passa ao lado. Explico-lhe que em Portugal não há.: "Tu já nem reparas mas a mim espantam-me sempre. "Ele contradiz-me."Sim, eu espanto-me também, mas só quando são grandes." Grandes? são todos enormes. (...)" (Gonçalo Cadilhe, África Acima, Lisboa: Oficina o livro, 2007. p.106)

Na história, O Principezinho de Saint-Exupéry, o menino narra que o solo de seu pequeno asteróide era infestado de sementes de embondeiro/baobá. Preocupado com os possíveis danos que estas plantas pudessem causar quando adultas, (o seu planeta era demasaido pequeno para uma grande árvore) após completar a sua toilete matinal, dedicava-se à toilete do asteróide, arrancando regularmente os seus pequenos brotos.
(SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Le Petit Prince. Paris: Librairie Gallimard, 1961. p. 23-24.)


Lenda árabe: «O Diabo desenterrou o embondeiro, enfiou os ramos na Terra e deixou as raízes no ar».

Kimbundo: Mbondo
: imbondeiro / embondeir
o


"O embondeiro é uma resistência de Angola. Por onde se anda em Angola se vê o embondeiro, uma árvore de ramos grossos e frutos longos. O embondeiro alcança uma altura de até quinze metros e seu tronco pode chegar a oito metros de diâmetro." Wanda Chase

Conversos



Com a devida vénia ao 0 de conduta

O silêncio

"O SILÊNCIO O SILÊNCIO O SILÊNCIO O SILÊNCIO O SILÊNCIO O SILÊNCIO

Ana Sá Lopes jornalista

De certa forma, Mariazinha é um exemplar excelente da massa humana em que Sócrates deseja mandar: é silenciosa, incrivelmente silenciosa, insaciável e compulsivo o seu desejo por se manter recolhida e muda. Consegue, efectivamente, passar dias seguidos sem abrir a boca, nem sempre reage a estímulos verbais, teme que lhe perguntem qualquer coisa. Dias há que a sua contribuição para o ruído nacional se resume a pedir uma bica no café e a dizer "com licença" para empurrar o maralhal no metro, além de outros discursos menores na mesma linha.Há em Mariazinha o seu quê de apático - a qualidade hoje mais valorizada no reino. Por feitio, carga genética, idiossincrasia, timidez e insegurança, Mariazinha vive aterrorizada que alguém (o director-geral, o administrador de condomínio, o chefe de secção, o patrão, a colega do lado que foi promovida, a outra que tem mamas grandes, o gajo que fala alto e é muito popular entre as chefias, o outro que é da concelhia do PS) a admoeste. Oh palavra terrível - admoestar. Faz parte, de resto, do léxico de comportamento da Função Pública. Mariazinha talvez nunca venha a ser vítima de nenhum processo disciplinar: à partida, ela não abrirá a boca, não se levantará para colocar um recorte de jornal "jocoso" na parede, tentará passar invisível aos olhares do poder castigador. Mesmo que não houvesse processos disciplinares por delito de opinião, dificilmente Mariazinha arriscaria a ter qualquer opinião - nunca fiando. É evidente que isto não é de hoje - é, aliás, tão antigo que se perde na memória dos tempos. Mas, convenhamos, é um modo de estar absolutamente patriótico, porque se confunde com a memória dos nossos antepassados e a mais profunda identidade nacional. Quem dá o pão dá a educação. Que outro país tem provérbios tão profundos e tão identificados com o dia--a-dia do poder instituído? Mariazinha defende-se com o silêncio. O silêncio é um risco mínimo, mas em si também é um risco. Secretamente, Mariazinha teme que o seu silêncio possa vir a ser mal interpretado. "Em que é que estás tu a pensar?", disse-lhe um dia o chefe, sobrolho carregado, de processo disciplinar em punho para o outro gajo do lado que tinha afixado um papel jocoso no elevador. É verdade que há pessoas que, só de lhes olhar para a cara, percebe-se perfeitamente em no que estão a pensar. E podem estar a ter maus pensamentos. Pensamentos jocosos. Pensamentos ofensivos. Mariazinha reza para que a sua cara não tenha ar de quem se prepara para "quebrar o dever de lealdade à hierarquia" ou para pensar "algo menos próprio" sobre o chefe ou, quiçá, o ministro da tutela. Reza para que a expressão seja, se não socrática, pelo menos neutra ."

Diário de Notícias de 30/06/2007

Onde está o palhaço?


Manifestantes anti-G8. Khulungborg. Alemanha

Foto Jota Esse Erre

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Give me a reason to love you


Portishead

Com a devida vénia ao Geração Rasca.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Ilha de Moçambique (7)

Cheik Amur

Abdurramane Amur Bin Jimba (17/03/1009 - 1/06/2005)
Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

Com esta foto de Sérgio Santimano termina a série "Ilha de Moçambique". Presta-se homenagem a quem a viveu.
Aproveitamos para alertar para o escândalo da sua degradação (esperando que a mcel reponha rapidamente o que estragou). O Ma-Schamba, o Da Literatura e o ForEVERPEMBA em tempo nos avisaram.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvâo

Telegramas

Relações irano-americanas legítimas são solução para guerras no Iraque e Afeganistão - É um refrão que se escuta há meses. E para a qual as cadeias diplomáticas da União Europeia e da ONU têm aplicado o esforço das meninges. A coisa é complexa. Os EUA nunca reconheceram diplomaticamente a República Islâmica iraniana e a administração Bush-II multiplica as " jogadas" no terreno de equipas de espionagem e sedição. Por seu turno, o Irão envolveu-se amplamente em todos os conflitos regionais do Médio Oriente, dispensando treino e material de guerra sofisticado às milícias chiitas, em maioria geográfica incontornável naquelas latitudes. Num artigo de Selig Harrison, expert do Centro de Política Internacional de Washington, que se deslocou a Teerão, e publicado no F.Times, vislumbra-se um começo de paz e sensatez. Harrison diz que o chefe espiritual Ayatollah Kamenei e o Conselho de Segurança Nacional estão dispostos a discutir plenamente com os EUA, e aliados, as questões do processo nuclear e da intervenção político-militar iraniana no Iraque e no Afeganistão. Sem subterfúgios nem ratoeiras. Pedem em troca, para desarmar eventuais críticas dos adeptos do hardliner PR, Ahmadi-Nejad, que os EUA reconheçam a República Islâmica e ponham cobro às acções secretas contra o poder constituído no Irão. Trata-se de uma proposição muito consistente e , frisa o analista, " mesmo com a ajuda iraniana, o futuro quer em Bagdad quer em Cabul, será sempre tempestuoso "; mas, finaliza," a cooperação entre Washington e Bagdad representa a melhor esperança para limitar os estragos ".

Zimbabué: inflação ronda os 1000 por cento ao mês - Ninguém sabe o que poderá acontecer ao poder e ao povo do Zimbabué. O que se sabe, segundo o Washington Post, é que Robert Mugabe adiou para Julho a segunda volta das negociações com os partidos da Oposição, que sob os auspícios da África do Sul decorreram recentemente em Joanesburgo. Fontes governamentais sul-africanas revelaram que todos os experts de economia " sentem " quase como inevitável o colapso económico do antigo " celeiro de África ". Mugabe será assim obrigado a ceder o poder, de força. De acordo com a mesma fonte, os experts calculam em 1000 por cento a infernal taxa de inflação mensal do Zimbabué. Os dois partidos da Oposição, com fortes querelas tácticas, solicitam a nomeação de um colégio eleitoral idóneo que possa realizar as Presidenciais em Março, do mesmo modo que reclamam o fim da polícia-de-choque e o voto livre para os emigrantes (3 milhões) que vivem no estrangeiro.

China: quem manda nas Forças Armadas? - Os países circunvizinhos estão cada vez mais inquietos com a falta de transparência - quem manda e orienta? - que envolve o inacreditável desenvolvimento e modernização do Exército Popular da China. Especialistas militares de Taiwan colocam em xeque a hipótese oficial de que o Presidente da República, Hu Jintao, tenha conseguido domar o apetite das altas chefias do exército, que querem conservar a sua visão sobre o xadrez geoestratégico dos possíveis adversários da RP da China, de acordo com uma extensa análise desenvolvida no NY Times recentemente. Sem se conhecer a real capacidade e orientação estratégica das forças armadas chinesas os seus vizinhos, diz o artigo assinado por David Lague, fica-se sem saber o que é que a China deseja e prepara militarmente no contrabalanço do equilíbrio de poderes na Ásia. A questão da utilização da arma nuclear numa hipotética invasão de Taiwan, inquieta tanto os EUA como os outros estados independentes da zona. Ainda não foi esquecido, e o seu autor não foi castigado, general Zhu Chenghu, director da Academia Militar, que há dois anos brandiu a arma nuclear como opção contra os EUA, caso Washington defenda Taiwan de um ataque surpresa da RP da China.

Espanha: economia com pés de barro - Martin Wolf, do Financial Times, alerta para o fim do espectacular e contra-cílco boom de "nuestros hermanos". A "bolha" do sector da Construção Civil / Imobiliário vai acentuar a queda do crescimento económico, com a competitividade e a produtividade a atingirem valores muito preocupantes. Tudo porque a Espanha valorizou um sector tradicional em detrimento do reforço e da inovação tecnológica. A competitividade sofre com a alta geral dos salários e, sobretudo, com a crescente e forte concorrência dos industriais do Leste europeu. O deficit da balança de pagamentos é o segundo maior do Mundo depois do americano, cifrando-se em cerca de 107 biliões de dólares. Uma política de ajustamento técnico-económico de grande impacto para a próxima década, e tirando partido da estabilidade macroeconómica prodigalizada pela União Europeia, é uma das hipóteses mais ventiladas pelos experts da OCDE , em especial. Que impacto é que esta situação pode ter sobre a economia portuguesa, tão imbricada com a sua congénere ibérica, parece ser uma questão a não iludir.

FAR

À espera dos turistas


Cimeira do G8. Khulungborg. Alemanha

Foto de Jota Esse Erre

quarta-feira, 27 de junho de 2007

RJIES

Mantendo a linha a que nos tem habituado, Sócrates decide agora atacar pela raíz o Ensino Superior. A escolha sempre astuta da época de exames é tão tradicional que não espanta, mas a mudança de base que se propõe e que vai ser imposta sem discussão é vergonhosa e perigosa.
O novo Regimento Jurídico para as Instituições do Ensino Superior (RJIES) é um atentado aqueles a quem supostamente a escola interessa: os estudantes. A lógica capitalista não perdoa, interessa é lucrar.
Assim, depois de existirem pelo menos 12(!) versões do novo RJIES (manobra suja para que não haja a mínima condição de união do movimento estudantil), as poucas coisas em comum não animam ninguém: retirada dos estudantes de todos os orgãos (pedagógico, etc) e substituição das bolsas por empréstimos (ah! O doce sabor da meritocracia! Viva a liberdade dos 400 euros por mês!) que se começam a pagar assim que se chumba. Todas as medidas valem para privatizar (e dar competitividade, flexibilidade e outros -ades fofinhos e pomposos) e escravizar o ensino à lógica da inevitabilidade do mercado, do desemprego e da precariedade.
As AE`s do PS vão fingir que refilam porque, afinal, são estudantes e até ficava mal não fazerem nada. As do PSD vão lutar contra o governo sem se lembrarem que todas estas medidas seriam aplicadas por um governo seu (desde que fornecido de orgãos genitais externos). As do PCP e do BE nunca se vão entender.
Mas amanhã, na manifestação junto à Assembleia, todas sairão com o sabor do dever hipocritamente cumprido. É urgente um Movimento Estudantil revitalizado e lutador. Que não vá às manifestações de hora marcada, como se fosse só um comic relief. O que se está a passar é grave, muito grave. É um passo perigosamente grande para colocar uma barreira definitiva no acesso igual à educação. Depois de anos e anos de cortes orçamentais, a medida é drástica e definitiva: as Universidades e os seus...clientes estão à venda. Ficaremos à disposição dos investidores e das necessidades económicas (no fundo, todos peças do grande puzzle do "a vida está difícil" de um lado e dos lucros astronómicos do outro). A saída dos orgãos de gestão diz tudo: o que pensamos não interessa. Há montes de cabeças inteligentes a pensar por nós, já dizia o José Mário Branco.
Amanhã vou lá estar na mesma. Apesar de sonhar com um Movimento Estudantil completamente diferente. (E com outro país e outro mundo também completamente diferentes)
Em 2009 há eleições. Não se esqueçam de votar neste socialista que não estudou nem deixa estudar.


Manuel Neves

terça-feira, 26 de junho de 2007

domingo, 24 de junho de 2007

Mambo 21

Os passos não se atropelam, vão silenciosamente a pedir desculpa um atrás do outro sem íngreme vontade, que os torne donos de um destino mais belo. Das extremidades superiores, enquanto se entrega a caminhar, pendem-lhe uns volumes de plástico gordos. Tudo o que possui, está ali comprimido entre as asas e o fundo. Faço um exercício de pensamento: se de um momento para outro, tivéssemos que materializar as nossas posses em apenas duas bolsas de mão, o que lá escolheríamos pôr? Parece-me inimaginável. A mulher percorre o jardim sem pressas, durante todo o dia. Já experimentou todos os assentos vazios que existem no parque público. Vazios, porque ninguém anseia a sua companhia. Para que alguém se interesse por nós enquanto seres dialogantes, temos de nos oferecer como um conjunto de estímulos que despertam nos outros, agradáveis sensações ou a imaginação delas. Faço mais um exercício, do mesmo tipo: desço a rua desgrenhada, aparentemente diluída num anteontem acabrunhado, fixo desatentamente o chão, estou mal abotoada, não lavo a cara há três dias, tenho um esgar de fome e nojo do mundo. Onde me sento, todos se levantam… nos cafés sou parecida com insectos, enxotam-me antes de entrar para espreitar os bolos, que tanto me apetecem. A mulher recolhe-se da luz da lua pouca assídua, debaixo do beiral de um pequeno antigo prédio. Dorme curvada numa cadeira de metal, que subtrai à esplanada em frente. De manhã bem cedo, devolve-a à mesa. Por vezes arrasta mesmo esta última, para descansar sobre ela, o peso da cabeça com tudo o que lá tem, a noite é longa. Por vezes tem companhia. Um homem senta-se da mesma maneira ao seu lado, mas ele tem uma manta. Na pobreza extrema, não há bons modos. A mulher não tem manta nem a metade da outra. A sua cara é escura de medo e desconfiança. Sorriu uma vez, enquanto devorava um hambúrguer e era para este, que esticava em barca os cantos da boca. Faço mais um exercício daqueles: se procurássemos uma noite fria e nela nos obrigássemos a viver na sua desolação de silêncios, solidões, dores de mundos desaparecidos, engolires de indiferenças constantes a ampliarem as insónias, geadas, o ouvir as portas dos que sobem as escadas e vão a algum canto seu, que tipo de pessoas seríamos nas manhãs seguintes a essas muitas escurecidas horas? A mulher é de meia idade e não sofre da crise da meia idade, ela tem tempo mas não alma que se queixe disso. Não é nunca arrebatada por um sms hardcore de algum belo amante nem tem mails carinhosos para apagar. Não é mulher. É sem lábios e sem sexo. Leva uma vida de fugazes afectos com as pedras da calçada. Tem um tumor num antebraço, do tamanho de uma laranja desenvolta. Usa muitas rugas que não sabe esconder, na pele da sua primeira página. Espera que todo o inteligente movimento se esgueire das ruas, para que possa descansar-se e sentir que também ela tem um chão no planeta. Do outro lado das suas sombras quietas, ergue-se o palácio rosa da presidência da república. Um último exercício: Este mês não vai haver a comunicação que nos faz funcionar como seres humanos e uma terrível depressão poderá assolar todas as pessoas que não receberem um olhar de volta ou que encontrarem o seu telemóvel sem nenhuma chamada ou ainda ninguém lhes tocar à campainha, mesmo que para a hedionda publicidade.

Ela nunca lerá este blogue.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Ilha de Moçambique (6)


Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

sábado, 23 de junho de 2007

Los amantes


¿Quién los ve andar por la ciudad
si todos están ciegos ?
Ellos se toman de la mano: algo habla
entre sus dedos, lenguas dulces
lamen la húmeda palma, corren por las falanges,
y arriba está la noche llena de ojos.

Son los amantes, su isla flota a la deriva
hacia muertes de césped, hacia puertos
que se abren entre sábanas.
Todo se desordena a través de ellos,
todo encuentra su cifra escamoteada;
pero ellos ni siquiera saben
que mientras ruedan en su amarga arena
hay una pausa en la obra de la nada,
el tigre es un jardín que juega.

Amanece en los carros de basura,
empiezan a salir los ciegos,
el ministerio abre sus puertas.
Los amantes rendidos se miran y se tocan
una vez más antes de oler el día.

Ya están vestidos, ya se van por la calle.
Y es sólo entonces
cuando están muertos, cuando están vestidos,
que la ciudad los recupera hipócrita
y les impone los deberes cotidianos.

Julio Cortazar

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

P.S. francês: ajuste de contas pode ser fatal para Ségolène

A ex-candidata presidencial lançou campanha de inscrições da sua facção, Desejos de Futuro, sigla-sic, e pode atiçar contra si a unidade de todas as outras tendências e do aparelho ainda controlado pelo antigo companheiro.

Será de vitalidade ou de abatimento congénito e irremediável a imagem política de um PS destroçado por duas derrotas eleitorais consecutivas? Tudo isto apesar de Sego ter obtido quase 17 milhões de votos e vencido nas cidades mais importantes, Paris inclusive. Ora, a refundação da Esquerda está cada vez mais na agenda de todos os que abraçam o socialismo democrático, que a Mundialização tem forçado a sangrentas revisões e capitulações. Mas assiste-se a um forcing melodramático de Ségolène para se postular candidata à liderança dos socialistas e realizar a renovação inadiável. Só que as outras três tendências arregimentadas decidiram bloquear todo o processo de antecipação do Congresso.

As fragilidades tácticas da antiga candidata presidencial e o peso do aparelho socialista chefiado pelo seu antigo companheiro, cuja separação deu origem a uma maré impressionante de intrigas porno-jornalísticas, determinaram o bloqueamento do início de uma nova "conquista", desta feita definitiva e sólida, do partido por parte do estado-maior de Ségo, onde se juntaram todos os ressabiados dos últimos 10 anos dos consulados de Jospin e Hollande. Strauss-Khan e Laurent Fabius, os outros tenores das tendências alternativas, fazem de " mula" e aproveitam a " boleia" para minar a rival.

O "aparelho" controlado por Hollande parece ter conseguido perfilar o apoio dos "irmãos-inimigos" e aprovar um " roteiro " político até às Municipais, em Março do próximo ano. O que põe em perigo toda a estratégia de Sego para conquistar, a quente, o comando do partido. Quanto antes, melhor, era o seu desejo...de futuro. As contas saíram-lhe erradas e ninguém se atreve a ver a luz ao fundo do túnel nesta batalha de egos...Uma tarefa titânica depara-se aos herdeiros de Marx, Blum e Jaurès ... que são tentados pela fuga para diante e esvaziarem de vez todas as veleidades alternativas à direita caterpillar de Sarkozy.

Num texto publicado no Libération, clicar aqui, o sociólogo Fréderic Sawicki, na peugada de Laidi, portanto, revela o mapa eleitoral francês depois das presidenciais deste modo: " Os novos aderentes são na sua esmagadora maioria oriundos das classes médias e médias superiores, super-diplomados e citadinos. Existem poucos empregados, operários e pequenos funcionários. O partido tem também muita dificuldade em colocar em lugares elegíveis candidatos oriundos da emigração. A não serem " pára-quedistas ", que deparam in loco com grandes resistências. A UMP, partido sarkozista, muito mais centralizado, tem muito menos problemas a impor os seus candidatos nas instâncias locais ".


FAR

sexta-feira, 22 de junho de 2007

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Das cidades e suas lutas (2)

O EMALMADA, dia 8 do corrente mês, tem o post que se transcreve:

Obras do MST e ( In ) Segurança

Em...Almada, um dos "calcanhares de Aquiles" da obra deste comboio designado MST, prende-se com as condições de Segurança para os cidadãos, com que as mesmas decorrem.
As Normas de Segurança, não são minimamente respeitadas, conforme já aqui revelámos, até com fotos de uma cidade de França, onde se mostra a diferença que existe "entre lá e cá ".
Por alguma razão a Presidente da Câmara não quis formar a Comissão de Acompanhamento Local para o MST, conforme as recomendações da Declaração de Impacte Ambiental. Essa Comissão integraria residentes, isto é cidadãos e a CMA têm muito medo que os cidadãos exerçam cidadania. diremos mesmo que não tolera.
É claro que poderá tolerar, desde que esses cidadãos estejam ao serviço da câmara e dos interesses de quem a dirige.
Quem diz que faz tudo bem feito alguma vez aceitará reparos, críticas ou opiniões diferentes?
(clique sobre a imagem para aumentar)
Já ocorreram alguns acidentes durante as obras e em consequência das mesmas, quer em Almada, quer no Laranjeiro, quando aí decorreram, com um caso mortal.
Divulgamos hoje a informação que nos chegou de uma residente da Av. 25 de Abril, em Cacilhas:
"Ocorreu-me há algumas semanas um aspecto que julgo pertinente: irmos registando um levantamento das ocorrências de acidentes com cidadãos, relacionados com as obras do MST na travessia do centro da cidade.
Pelo meu lado, aí vão as de residentes da Av. 25 de Abril, que já foram vítimas das ditas obras e das quais tive conhecimento:

- no nº 3 – Um octagenário - sofreu uma queda, embora afortunado, porque ao espalhar-se na avenida devido a um tropeção em consequência das obras , nada lhe aconteceu. Os astros protegeram-no desta.
- no nº 5 – Um homem de 50 e poucos anos foi parar ao Hospital Garcia de Orta com um braço traumatizado; para reparar a mota gastou 2000 e tal euros (vi a factura); um bom casaco de pele ficou num frangalho. Isto tudo porque a vedação lhe caiu em cima.
- no nº 57 – Um septuagenário, diabético, teve uma ruptura muscular numa perna, ao tropeçar. Alguns dias depois enfiou a dita num buraco, “reforçando” o que já havia sofrido.
- uma professora, caiu junto ao Café Sambinha, devido a um buraco no solo e magou-se bastante no rosto.

Quem vai pagar todo o tipo de danos?
Alguém terá de pagar.
Não acham que temos todos de ver como?

E... adeus até ao meu regresso.....

Almerinda Teixeira

Na caixa de comentários ao texto um anónimo bolsa inanidades. Almerinda Teixeira responde-lhe aqui:

No meu “luxuoso andar”
Tive baratas de METRO
Quando pela Lisnave passavam
Barcos que ovinhos traziam
E para minha casa vinham...

Quem me valia era a “Tendrex”! (a)

Mas os barcos já se foram
Barcos do povo ou reais
Agora é um cemitério
À espera do nunca mais.

Do lado de lá é Lisboa
Que também anda às bolandas
Tu e Almada – cidade-berço
Só no mundo dos possíveis
As duas de costas voltadas
Hei-de morrer, vós sem andas...

Almerinda Teixeira

(a) Juro que não sou sócia da credível empresa nem vou receber um
chavo pela publicidade.

A nossa devida vénia à Almerinda e ao EMALMADA.

Haja quem lute pela sua cidade!

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

"A papinha feita"

Foi nestes termos que a APP (Associação de Professores de Português) se referiu ao exame nacional de Português para o 9º ano de escolaridade.
Nem referências a Gil Vicente nem ao Camões épico - conteúdos literários do programa deste ciclo de ensino.
Reina tal confusão neste domínio do ensino da língua materna que nada surpreende.
Não é de agora.
É de há muitos, muitos anos a esta parte.
Quem quiser dar-se ao trabalho poderá tentar consultar um artigo assinado pelo hoje deputado (PS) Luíz Fagundes Duarte no JL (não consigo precisar a data, mas será na década de 80) no qual este docente da FCSH da Universidade Nova de Lisboa se insurgia quanto ao facto de continuarem a ser reconhecidas as Licenciaturas em História como "habilitação própria" para o ensino no 2º ciclo da disciplina de Português.
A coisa prolongou-se e deu no que deu. Durante muitos anos os professores do 2º ciclo leccionavam simultaneamente as disciplinas de Português e Estudos Sociais, sendo que muitos deles eram precisamente Licenciados em História.
Com as sucessivas reformas do nosso sistema educativo nunca se tocou no essencial: quem pode leccionar a disciplina de língua materna? O que é um programa para uma disciplina que há-de passar pela aquisição das competências, pelo pôr em prática as mesmas e pelo domínio e compreensão da língua enquanto estética (a Literatura)? Essa discussão nunca se fez. Nunca houve a preocupação de entender o ensino desta disciplina enquanto veículo facilitador de todas as restantes aprendizagens, nem se lhe deu nunca uma dimensão de disciplina transversal: o aluno que domina mal a língua em que aprende nunca poderá ter grandes expectativas enquanto à sua progressão no sistema de ensino...
O mais fácil era facilitar (perdoe-se-me a redundância): retirar a carga literária dos programas.
Fernão Lopes, a lírica medieval, os poetas do Cancioneiro Geral, entre muitos outros, foram sacrificados. Um aluno do nosso actual ensino secundário não tem nem ideia de quem sejam estes autores. Aliás, os programas da disciplina de Português do nosso ensino secundário são matéria rísivel - oscilam entre um ensino do funcionamento da língua (competência que deveria estar já adquirida com o cumprimento da escolaridade obrigatória, nove anos são o suficiente!), e uma parafrenália de conteúdos espúrios, mais uma série de coisas da Literatura que são comuns a todos os cursos.
Resultados: os nossos alunos lêem de forma deficiente; desconhecem, de uma forma geral, as regras básicas do funcionamento da língua; não têm hábitos regulares de leitura; não conseguem, de uma forma geral, expressar-se correctamente nem oralmente nem através da escrita.
Era urgente pensar nisto como uma prioridade nacional.
Nenhum país avança dignamente com base em 'papinhas feitas'.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Blanchot: algumas noções de Poesia

1. "A obra de arte está ligada a um risco, é afirmação de uma experiência extrema. Se o artista corre um risco, é porque a obra é essencialmente risco e, a isso estando ligado é, também, o artista que pertence ao risco".

2. "Na obra o homem fala, mas a obra dá voz, no homem, ao que se não diz, ao inominável, ao desumano, ao que não tem ( é) verdade, ao que não tem justiça; sem usufruir de direito, lá onde o homem não se reconhece, onde não se sente justificado; onde não está de modo algum presente; onde o homem se ausenta de si próprio, de deus".

3. "O poema é a película que torna visível o fogo, que o torna visível porque o esconde e o dissimula. O mostra, portanto. Descobre mas dissimulando e retendo na obscuridade, o que só se pode esclarecer pelo obscuro, e guardando-o no obscuro até à claridade revelada pelas trevas".

4."O poeta vive na intimidade do perigo. Só. Suporta profundamente o tempo vazio da ausência e, nele, o erro torna-se a profundidade da perdição, a noite torna-se noutra noite. Mas o que é que isto significa? Quando René Char escreve: "Que o risco seja a tua clareza", quando Georges Bataille, colocando face a face a chance e a poesia, diz : " A ausência de poesia é ausência de chance", quando Hölderlin classifica o presente vazio do perigo " plenitude de sofrimento, plenitude de alegria, o que é que se procura dizer? Por que é que o risco se assumiria como clarificação? Por que é que o tempo do perigo seria o tempo da chance? Quando Hölderlin fala dos poetas que, como os apóstolos de Bacchus, vão errando de país em país na noite sagrada, em deslocação interminável, infelicidade que atormenta quer os que falham o lugar ou a migração fecunda, o movimento que mediatiza, o que faz das correntes uma linguagem e da linguagem, a casa do ser, o poder pelo qual o dia permanece- e será a nossa habitação?".

5. "O poema é a ausência de resposta. O poeta é o que, pelo seu sacrifício, conserva no seu trabalho esta questão em aberto. Nunca deixa de viver no perigo. Sempre".

6. "No poema não é só o homem que se arrisca, pelo facto que se expõe à expectativa e ao fogo tenebrosos. O risco é mais essencial; é o perigo dos perigos, pelo qual, de cada vez, é radicalmente contestada a essência da linguagem".

In Maurice Blanchot, L´Espace Littéraire, Gallimard. Idées.

FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Embandeirar em arco...

Escreveu a profª. no Público de 19 de Junho sobre a sua satisfação grande de os alunos falarem de Pessoa no espaço da escola logo a seguir ao exame nacional de Português. Grande admiração, ó stôra! Haviam de falar do quê, logo nos cinco minutos seguintes?...
Mas, ó stôra, é um bocadinho cedo para tal crónica. Esperávamos primeiro pelos resultados e, logo, havíamos de optar...
Digo eu...
Eu, que tenho grandes, grandecíssimas, objecções quanto aos exames nacionais e a toda a filosofia que por detrás dos mesmos se encerra...
Mas isso é outro falar...
A Pessoa chegam os que lá conseguem chegar e, parece-me, que serão cada vez menos. Ficam com uma ideia vaga, têm aquela imagem imprecisa dos heterónimos. Se lhes puser a questão no sentido de definir o significado de homo e hetero/sexual vai ver que muitos titubeiam e vacilam...
Para trás, ficou muito por ensinar e aprender daquilo que é fundamental: o funcionamento da língua (vulgo Gramática) na qual Pessoa e os seus heterónimos escreveram e fundaram uma Obra.
Já deu uma espreitadela atenta aos programas da disciplina de Português do nosso ensino secundário?
Não me venha falar numa tal APP.
Estou a falar a sério.
A coisa tem que ser mantida numa base ONG (organizações não-governamentais) e não nessas aberrações que são albergue de quem quer fugir à sala de aula.
Repare que grande parte dos profs. que leccionam a disciplina de Português (e o próprio nome com que se nomeia a coisa não deixa lugar a quaisquer dúvidas...) têm formações académicas muito pouco abonatórias: no 2º ciclo do nosso ensino básico a disciplina foi (é, ainda) leccionada por profs. licenciados em História. No 3º ciclo e no secundário está entregue, maioritariamente, a licenciados em Línguas e Literaturas com variantes em Português/ Francês.
Daqui emanam aberrações como a TLEBS e os programas de uma disciplina fundamental e estrutural em termos de um verdadeiro sistema de ensino.
Este Ministério percebeu que está a chegar a uma situação sem retorno possível. Trata agora de 'tapar o sol com a peneira'. Manteve a dita TLEBS como conteúdo programático para o ensino secundário, quando a declarou abolida em relação aos restantes ciclos de ensino. No entanto, não assumiu essa determinação em termos de exame nacional.
Mais que ouvir falar acerca de Pessoa nas nossas escolas e bater palmas e exultar por isso, gostaria que os nossos alunos tivessem saído indignados do seu exame de Português por terem sido obrigados a interiorizar as coisas estranhíssimas relacionadas com a TLEBS.
Infelizmente, creio que esta Escola que hoje temos não os dotou das competências de pensar, de reflectir e de construir discurso argumentativo. Quanto a Pessoa...
Bom...
Ouviram falar... Tipo... E assim...
Topam?...
Não acrescentou nada, não os tornou melhores leitores, não modificou nada.
Generalizo, claro.
E, esclareço, a generalização abrange os próprios profs.
Dirão alguns mal-intencionados:
"Isso é conversa das 2.37...".
E aí eu respondo:
" E que outra conversa poderia eu fazer a estas desoras?..."

Ilha de Moçambique (4)


Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

terça-feira, 19 de junho de 2007

Em obliquidade ao anterior post do Fernando...

A mão chega ao pescoço sem trilhos nem pistas

Envolve-o de dedos

Mas quando os pensamentos (auto)tossem-se e imaginam uma ama

Por ignorarem qual o rosto

As mãos não os afagam.

É isso, o abismo.

in: Caixinha com rodas; Ed.Geic

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Verdes... verdíssimos.

A treta é esta: queres postar em directo, ao vivo e a cores e, depois, dá nisto.

Isto era mais naquela base do 'Sentimento dum Ocidental'.
Ou talvez não.
Era um post de às tantas da madrugada.
Já viveste uma parte da tua vida social.

Lá fora e à tua volta apenas os ruídos da noite.

Estás finalmente contigo.

Uma promessa de fruto.
Apenas essa promessa.

Os projectos, os 'que-fazer', daqui em diante...

Eventualmente apetece-te a música
imaginar um rosto, uma figura desejada...

Eventualmente...

Mesmo com a inovação da rede,
continuo a achar a noite como o lugar da grande solidão...

Lugar soturno e calado onde acolho todos os medos. Lugar onde não me ouço.
O ladrar vago dos cães presos à distância. Um chiar de pneus.

Ruas vazias sem passos, ainda que incertos.

Noite, noite. Noite mesmo noite, feita de ruas desertas com árvores tristes.

A respiração sossegada da casa dá-me algum alento.

Assim me deito e fecho os olhos e me tapo com a solidão.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

A propósito...

Há quem seja treinado para guardar por um determinado tempo,
os conhecimentos na cabeça dos demais,
de modo a que nenhuns outros se lhes possam mesclar, vindos do exterior.

Tudo tem de ser originário do saco próprio,
como se este fosse destacado por um período,
da sua condenação a estar engolido por um invólucro maior.

É isso, a inutilidade.

in: Caixinha c rodas; ed. GEIC;

Este nunca esquece e não perdoa


Virgínia. USA. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Breaking news, Breaking News

Sarkozy perde dinâmica política e Ségolène deu ordem de despejo a Hollande por infidelidade

O "bonaparte" de Neuilly-sur-Seine não conseguiu a maioria esmagadora com que delirava e Ségo conseguiu eleger os seus homens-de-mão

Mais do que a vitória medíocre da coligação que apoia o PR francês, que averbou 340 deputados contra 237 da Oposição, a grande notícia da noite é o primeiro passo público da ruptura familiar entre Ségo e François Hollande, depois de semanas de acerbas e contraditórias manobras e acidentes conjugais entre a dupla que, realmente, dirige os socialistas franceses. O Libé (clicar aqui) noticiou, via France Press, a notícia da separação, de facto, já para lá das 10 horas da noite. Para lá da questão de infidelidade, o matutino de Esquerda plural, dá conta do crescente apetite de Ségo e dos seus apoiantes para tentarem tomar o poder no interior do partido, talvez a única forma de afastar Laurent Fabius e D.Strauss-Khan da corrida.

FAR

domingo, 17 de junho de 2007

Francisco Naia


Mais notícias do cantor aqui e aqui.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

"Nem o melhor, nem o pior, parecem ser sempre certos"

O dispositivo político-ideológico agenciado pela Mundialização conhece novos dados operados pela recente campanha das Presidenciais francesas e que podem ser confirmados na segunda volta das Legislativas

O debate apaixonante em torno do fenómeno político obrigou, é o termo, os conselheiros políticos de Obama Barac e de Hillary Clinton a estudarem o dilema em Paris, no coração da épica e terrível disputa entre Ségolène e Sarkozy, que acabou por dar a vitória ao neoliberal atípico do centro-direita. Ninguém desconfia, no entanto, de que a Mundialização, os seus efeitos antagónicos e irredutíveis, estiveram no centro da escolha do eleitorado e moveu, é o termo, os lances de argumentação e manipulação dos respectivos estados-maiores partidários. Ora, como disse Maquiavel, nem o " melhor, nem o pior parecem ser sempre certos ", e no estado actual do Mundo urge ousar lutar e tentar perceber.

Como disse Gael Slima, director-delegado da BVA-Sondagens, num texto, clicar aqui, está longe de ser verdade o diagnóstico formulado pelos comentadores políticos e os partidários da candidata da Esquerda, de que existe " uma forte tendência de direita " no eleitorado francês. Isso parece errado, pois, segundo Slima, a esquerda era largamente maioritária na intenção de voto do eleitorado nos largos meses da pré-campanha. " Os eleitores interessaram-se por temas que davam estruturalmente vantagem à esquerda como " o emprego, a luta contra a pobreza, o poder de compra e a Educação (temas nos quais a esquerda suplantava ainda a direita dentre 10 a 23 pontos de diferença no arranque da campanha oficial) ", frisa., para rematar: " O facto que este potencial inicial não tenha sido transformado em voto revela, simplesmente, o diferencial de persuasão respectivo de cada candidato. Trata-se menos de um problema pessoal do que de projecto: a direita propôs aos franceses um projecto de sociedade coerente, legível e bem marcado ideologicamente, a esquerda não o fez ".

E aqui cruzamo-nos com o diagnóstico publicado no Le Monde pelos politólogos Gérard Grunberg e Zaiki Laidi, sobre o " pessimismo social " da Esquerda, em que o centro dessa atitude, advogam, " se fixa num sentimento de impotência - ou de resistência impotente - face ao mercado e à Mundialização ". Se Sarkozy logrou convencer o eleitorado a ultrapassar esta " depressão ", Sego e o PS não o conseguiram realizar. Porquê? A superideologização de longa duração dos socialistas parece ser fruto de um bloqueamento: "Temendo as divisões de um debate em profundidade, decidiram-se por fechar o caldeirão ideológico depois de timidamente o terem aberto, e inventando fórmulas vazias ou insuficientemente explicadas como o " reformismo de esquerda " ou o " sim à economia de mercado, não à sociedade de mercado ".

E vão mais longe, focando o cerne do diferendo sobre o futuro da social-democracia: " A social-democracia, é o compromisso social entre o trabalho e o capital numa base nacional. Ora, hoje, devido especialmente à Mundialização, a relação de forças entre o capital e o trabalho não está mais constrangida pelo contexto nacional. Devido à chegada ao mercado mundial de um bilião de novos participantes, centra-se no nível planetário o repensar e o restabelecimento de um compromisso - se tal for possível ". Mas, advertem, " os princípios de diálogo, de concertação, de antecipação, de descentralização e de co-responsabilização permanecem sempre pertinentes, como desde os tempos áureos".


FAR

Ilha de Moçambique (3)


Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

Ainda há Cesários...

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O post da Gabriela

Li com mais atenção o post da Gabriela e fiquei mesmo à rasca.
Estamos num sítio muito lixado. A gentinha que nos rodeia tomou conta da coisa e impera e governa-nos.
Montaram-se no cavalo do Poder e mandam com a maior das desfaçatezes.
As bananas despontam na República.
As FERSAP's fazem a diferença e contentam a Governação.
Os camelos trabalham, pagam e calam. Ai deles se adoecerem!
Estou mesmo à rasca.
Preciso urgentemente defecar este país.

No dia seguinte...

Fazer de conta que não houve nada e ter juízo.

Viver no reino das sombras e de todos os medos.
Como dantes...

Duvidar - o que é sempre salutar... - antes de falar.

Ai o medo é um ministro sinistro
um preservativo posto a tempo
com medo, muito a medo...

Medir cada palavra, perceber como é bom usar do siso.
Tudo é avaliado, tudo calculado
até oe centímetros de um sorriso.

Ai este medo que temos
que até mesmo tememos
a sombra que fazemos.

Há os que vencem. E tu és vencedor.

Sem medo.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

quarta-feira, 13 de junho de 2007

2º parte ... A saga do formulário

... formulário: CERTIFICADO DE INCAPACIDADE TEMPORÁRIA PARA O TRABALHO POR ESTADO DE DOENÇA DE FUNCIONÁRIO PÚBLICO/ AGENTE ADMINISTRATIVO

(o objectivo desta partilha “não é queixar-me à portuguesinha” mas “ajudar” a reflectir sobre este assunto- Percebemos o que se está a passar ?

A todos pode chegar o momento súbito, em que é necessário o escorregadio animal… Terão sorte? O que significa ir atrás dele? Ceder à continuação do cerco aos direitos essenciais?)

1º situação:

H.S. F-X. - Serviço de Urgências (serviço público estatal)

- Aqui não é passado nenhum atestado médico, apenas uma declaração de entrada e saída do paciente, muito menos preenchem o dito formulário, que revelaram desconhecer completamente e, óbvio, não o possuem; com tal resposta categórica, dirigi-me “em sofrimento” a um outro hospital.


2º situação:

H. da L. (privado, mas com acordo com a ADSE) –

Consulta complementar de atendimento permanente.

- Aqui o médico pode passar um atestado médico se o entender, mas não preenche o dito formulário nem o estabelecimento o possui;

(Depois de consultada, levo o atestado médico com tudo a que tem direito, alinhado segundo as alíneas do artigo 31, meio de prova,
Decreto-Lei n.º 100/1999, de 31 de Março (na redacção dada pelo Decreto-Lei n.º 181/2007, de 9 de Maio))

Não é aceite este atestado médico, por não ser o formulário.


3º situação:

Centro de saúde da Aj.

- Aqui têm o formulário, passam-no mas é preciso ter uma consulta marcada (talvez com 15 dias ou um mês de antecedência) ou inscrever-me na consulta de atendimento permanente, chamada de consulta de inter-substituição, considerada urgente, que é para aqueles que não têm médico de família e não podem esperar, (as pessoas que não têm médico de família, são imensas… os médicos destes postos não chegam para todos os utentes) Azar, só atendem 20 pessoas por dia na consulta urgente e eu só a 21º. Terei que voltar outro dia.

Mas depois, como afinal não coincide exactamente com a minha morada, chega-se à conclusão que o meu centro de saúde é outro.


4ª situação:

Centro de saúde de Al.

- Aqui têm o formulário, passam-no, (Aleluia) mas apenas nas consultas marcadas é que passam declarações, atestados, etc. (segundo indicações no balcão e nas paredes) Insisto que está na lei que os formulários podem ser passados nas consultas de inter-substituição e de atendimento complementar, mas dizem-me que não o fazem. Sugerem-me que vá falar com um médico das consultas, talvez esteja bem disposto e me atenda, no final. Parece que me vai atender, daqui a umas horas. Aqui não há triagem, por isso, mesmo que tenha dores e não tenha posição de pé ou sentada, isso não é importante, até porque é um favor. Vou marcar a concedida consulta. Serei atendida, com a condição de que aquilo não se repetirá. Fecha os olhos sem resignação, apenas porque isto do formulário é coisa recente. Garante que os hospitais públicos os têm de passar, e também os serviços de atendimento permanente (SAP) e complementar nos centros de saúde. As clínicas privadas com acordo com a ADSE, também.

Pede-me que arranje rapidamente um médico de família, que assim é que não pode ser. No balcão dizem-me isso ser impossível, por longos meses estão esgotados os recursos, os médicos estão cheios de pacientes, não podem mais as suas listas. Se me acontecer alguma coisa, que vá aparecendo e com sorte serei atendida.

(Saliento aqui, a toda esta saga esteve sujeita uma pessoa, que por indicação médica deveria estar em repouso).

Conclusão: Por ter o cartão da ADSE, tenho pecado, ou seja, não tenho frequentado nos últimos anos os centros de saúde e por estar no ensino e entretanto andar regularmente a mudar de escola/cidade/distrito, perdi a noção de médico de família. Que é isso? Parece-me um conceito ancestral, quando cada vez mais os portugueses já não sabem onde vivem e muitos perderam a unidade familiar pelas suas próprias condições de trabalho ou nem têm agregado familiar. De qualquer modo, é-me inacessível…

Na verdade, estamos a sofrer uma espécie de terrorismo social, (como diz um muito conceituado, amigo meu), porque nos afunilam em becos de todo asfixiantes, como se nada.

É muito sério!! Tremendamente sério.

A instauração do medo começou há muito…

Mas será saudável vivermos com medo?

Será obrigatório, termos à nossa mesa esse encolher de dignidade?

A perplexidade acompanha-me!!

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Telegramas

A crise da Europa é muito profunda - Zaki Laidi, a estrela da sociologia política francesa, escreveu um longo texto no Libé, no qual avisa que a "crise da Europa é profunda mesmo muito profunda". E relembra, sem emitir juízos de valor aquele axioma do sucessor de Tony Blair, o mister Brown: " A Europa, é um conjunto muito grande para resolver os pequenos problemas e muito pequeno para tentar resolver os grandes ". Sobre a actualidade política aflitiva para a Esquerda gaulesa, sujeita aos dissabores de uma infernal luta fratricida entre Ségolène e os dois " elefantes " do seu partido, Strauss-Khan e Fabius, Laidi aponta sem dó nem piedade: " A aliança com o Centro ontem desprezada será praticada amanhã, custe o que custar ".

Superpower hipocrisy - Eu procuro o sentido das coisas, dê lá por onde der. Ando a ler um livro do Alain Badiou sobre o Deleuze, " O clamor do Ser", que me dá água pela barba. Edição da Hachette, reedição em Poche pelo preço de uma caixa de cigarrilhas jamaicanas. Ora, um leitor do NY.Times escreveu a dizer que a líder oposicionista de Myanmar, Aung Kyi, não consegue ser libertada da prisão domiciliária infernal porque não existem " reservas de energia suficientes " no subsolo que justifiquem uma intervenção dos EUA para democratizar. "Por que é que a superpotência se mostra tão empenhada em restaurar a democracia pelo mundo fora e recusa salvá-la de uma implacável e antidemocrática situação?", sustenta.

As "luvas" mirabolantes do príncipe saudita - Não deve ser por acaso que uma das figuras políticas de maior peso do inextricável xadrez dos herdeiros sauditas, o príncipe Bandar Bin Fayçal, um provável sucessor do rei Abbdullah, antigo embaixador nos USA durante 22 anos, se vê envolto em jogadas de contra-informação por causa de uma série proverbial de " luvas " encaixadas nas suas contas na Suíça. As autoridades inglesas fazem o cerco total à revelação de pormenores e, segundo o Wall Street Journal, pensam é em incriminar a atitude das empresas de armamento. Melhor moral e ética do que esta só na democracia " vigiada " de Putin...

FAR

Ilha de Moçambique (2)


Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

terça-feira, 12 de junho de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Hells Angels (9)


Miúda dos Angels. Virgínia, USA. 2007

Foto de Jota Esse Erre

1º parte... "o formulário da ministra e amigos"

Estou-me a passar com o formulário para o atestado médico!! E com quem o exige, com quem não o passa, com quem não o pode passar, com quem não tem vagas na consulta onde o poderia passar, com quem não o aceita, com a saúde privada que tem acordos com a adse mas não pode, com quem nunca ouviu falar disso embora sendo médico, com quem inventou esta nova maneira de pôr um professor que teve o azar de ficar doente a correr de lá para cá, tal qual um saudável rosado atleta. Porra, com tanta desconfiança por parte do ministério, por que razão não mandam de vez o médico que entenderem ao domicílio com a merda do formulário na mão mais a autorização para o passar?

Tirem-me daqui!!!
estão todos loucos!!!!
e eu preciso de repouso...
e tenho um atestado médico que serve para nada!!! porque não é o belo do formulário...

Status quo

As desigualdades começam quando falha o Ensino.
As gentes chegam à Escola carentes de Educação. Vêm em bruto. Os agentes do Ensino vêem-se e desejam-se para retirá-los deste limbo. Lutam contra milhentos inimigos, todos reconhecidamente muito mais poderosos.
O Estado desinvestiu claramente no ensino básico.
Mantém a fachada: paga a uns quantos educadores de infância e aos professores, decreta programas oficiais e inspecciona.
A coluna vertebral do sistema educativo do nosso país está entregue a um conjunto de boas vontades: autarquias, associações de pais e ao trabalho de cada professor. Os meninos e as meninas chegam à escola e fazem o que bem lhes apetece, ai do professor que os tente pôr na ordem. E por esta expressão quero dizer: ensinar a estar. Apenas isto. Este país anda a malbaratar os seus recursos: paga a pessoas que tentam ensinar a estar uns vinte e tantos maduros na casa dos 15 ou mais anos e que frequentam o 10º ano de escolaridade. Estes nossos concidadãos que têm agora 13, 14 e mais anos andam pelas salas de aula das escolas do ensino público a exaurir recursos que este país não tem.
Nada aprendem, nada pretendem aprender.
Vão à Escola porque são obrigados pelos pais. Ali é quase de graça, uma 'baby-sitter' cobra à hora e na hora.
Os próprios pais têm da Escola a visão que ainda retêm dos tempos em que por lá passaram: aquilo é uma chatice, depois é uma questão de 'cunhas'. Falo da nossa escola pública em meio suburbano...
E temos uma vantagem: a Escola tornou-se um serviço com direito a reclamação. Como se fosse um urinol público onde se pode reclamar pela falta de água, pela escassez de papel higiénico ou pelo que quer que seja.
Claro que nesta latrina há funcionários mais descuidados. Mas estes já são frutos do sistema. Deixaram-nos entrar.
Mas eles funcionam. Aquilo que não funciona é a visão central. Aqueles que se foram revezando no mando. Aqueles que sabiam, que encomendavam estudos (pagos à custa do erário público...) e que liam e se estiveram nas tintas. Nada mudaram. É bem melhor que estejamos assim.
Embora lá falar de taxas de abandono, embora lá discutir a sério o problema do ensino da Matemática, embora lá perceber que é pela transformação do social que podemos promover uma verdadeira transformação de mentalidades e, dessa forma, dar crédito a um sistema de ensino verdadeiramente apostado na transformação.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Do Reino da Dinamarca

Olá,

Já deixei o local da conferência dos Oito Governadores que como vocês se devem ter apercebido foi um sucesso. Toda a malta comeu e bebeu bem, toda a malta foi à praia e os globalizados antiglobalização andaram à porrada com a polícia pelo que não houve nada de anormal. Houve também um comunicado final a dizer que sim e tal e coisa e o aquecimento global e uma promessa de mais 60 mil milhões de dólares para África. Nada de anormal portanto.
A malta das organizações missionárias que estão sempre presentes a estas conferências e que hoje em dia são conhecidas por ONGs disse como era de esperar que a massa não chega e ficaram particularmente chateadas porque os oito governadores não disseram quando é que vão gastar essa massa. Ficaram todos de certo modo embaraçados quando numa conferência de imprensa alguém lhes perguntou o que é que tinham a dizer sobre o facto dos Estados Unidos e a Grã-Bretanha serem os países que mais cumpriram as promessas feitas há dois anos atrás e o que é acham do facto do burro do George Bush ser aquele que mais massa dá a África. Eu pensava que iam responder “porque é burro” mas, ena pai parecia que tinham engolido um sapo. Mais chateados ficaram quando o jornalista, com um ar e pronúncia do continente asiático, perguntou o que é que achavam do facto dos 60 mil milhões agora prometidos 30 mil milhões virem dos Estados Unidos. Eu pensei mais uma vez que iam responder “porque ao contrário dos italianos que nos últimos dois anos não deram um tostão do que prometeram o George Bush é burro” mas não. Disseram que é tudo uma “cortina de fumo para esconder o facto de que não estão a cumprir anteriores promessas” e coisa e tal. Um dos activistas missionários disse que “o povo rugiu e os g 8 ganiram”. A malta dos jornais gramou à brava e eu tenho que admitir que dá um bom título.
No último dia foi outra vez a conferência de imprensa do Sarko e desta vez fiquei porque o dito cujo pregou uma finta ao pessoal de informação. Chegou mais cedo vejam lá! É bom sinal. O Chirac fazia ponto em chegar atrasado o que me irritava sempre e eu mais irritado ficava quando ele começava a dizer bacoradas sobre a importância da França no mundo que como vocês sabem está muito rapidamente a caminhar para o zero. Ou como dizia um alemão no local da conferência dos 8 Governadores: zilch que eu creio que significa nada ou pelo menos soa a isso.
Nesse último dia fui dar uma volta pela vedação construída em redor do local da conferência e fiquei impressionado. Tenho que voz dizer que os alemães continuam a ser os melhores em construir vedações para impedir pessoas de passear se de um lado para o outro. Desta vez como a maior parte dos polícias eram da antiga Alemanha do proletariado foi só recordar como a coisa era feita e aplicá-la em pequena escala. Ao contrário do que aconteceu há dois anos na Escócia nenhum globalizado antiglobalização conseguiu furar a rede patrulhada ao seu longo por carros e policias a cavalo e helicópteros sempre no ar. O Honeckker teria ficado orgulhoso. Eu cá achei que nos pontos de entrada da vedação deveriam ter posto sinais como “check point Charlie. You are now leaving the free world. You are now entering 8 Governors in Wonderland” e depois deixar entrar todos os globalizados antiglobalização e fechar a cancela.
Nesse último dia houve um incidente que ia acabando em sangue. Uns fotógrafos bifes queriam dar porrada (ou como eles diziam “fuck up”) a cinco globalizados antiglobalização que resolveram outra vez dar um ar da sua graça bloqueando a linha de caminhos-de-ferro que ligava o local da conferência ao centro de imprensa/copos e salsichas Aconteceu que o comboio estava cheio de jornalistas todos muito apressados porque era o fim do dia e tinham ainda que ir escrever o que tinham dito os oito Governadores antes de ir para os copos.
Quando o comboio parou e fomos informados que tínhamos que esperar pela chegada da polícia uns fotógrafos bifes perguntaram: mas quanto são eles? “Five”, respondeu a germânica dos caminhos-de-ferro. Os bifes olharam uns para os outros e disseram :”Let’s fuck tem up”. A mulher dos caminhos de ferro só dizia “nein nein” e “ I call die polizei”. Ao que uns eslavos entoaram em coro: “Yes lets fuck them up”.. Mesmo uns franceses presentes com fato e gravata começaram a gritar que os globalizados antiglobalização são “des cons” e a sugerir aos ingleses fotógrafos com um ar de rufias para irem lá à frente “fuck them up”. Como vêem problemas comuns podem produzir alianças inesperadas, Só que a germânica apercebendo-se que os bifes queriam triar o emprego aos polizei fez recuar rapidamente o comboio para o local da conferência até os polizei irem “fuck them up”’
Os bifes lá se acalmaram mas acho que tinham razão. Um comboio com 300 jornalistas poderia muito bem ter “fucked up” os cinco globalizados antiglobalização sem ser preciso chamar a polícia. Mas enfim… como diz o grande filósofo inglês Mick Jagger “you can’t always get what you want”. Resultado: Fomos todos atrasados para os copos onde ao fim da noite apareceram também muitos polizei para tirar fotos e beber uns copos com o maralhal. Bacano! Eu pedi a uns três ou quatro para me darem uma T-shirt preta que eles usam com a palavra Polizei nas costas mas só levei com os pés. Uma polizei ficou ofendida perguntando-me: Você quer que eu tire a minha t shirt aqui? Fiquei sem camisola e lá pensei outra vez no filósofo Mick Jagger.
Estou agora em Copenhaga que agora tem mais mulheres com fraldas amarradas à cabeça para esconder o cabelo e mais talhos al hal mas onde tal como há 30 anos se pode passar dias e dias sem ver um policia. O que é porreiro. Significa que aos fins-de-semana os dinamarqueses continuam a apanhar bebedeiras de caixão à cova e que ninguém os chateia, Mas volto a este assunto mais tarde.

Um abraço,
Do reino da Dinamarca

Jota Esse Erre

Ilha de Moçambique (1)


Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

"Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades"

Isto já vem a desoras.
Até porque amanhã eu tenho de me levantar cedinho, muito cedinho, para a minha jornada de produção e há-de haver muito cidadão que se deixa ficar entre lençóis 'mais um nadinha' aí até às dez da matina.
Mas é que me incomoda ir para a cama sem ripostar.
Fez-se, a partir de 25/4/74 um Estado Social.
Bem, quer dizer, mais ou menos, assim assim, pois...
Dá ideia que sim. Bem vistas as coisas até se nota um certo bem-estar. Carros aos montes a atravancar as estradas, malta nos restaurantes e cafés, o Algarve cheio, montes de construção civil, os imigras a fazer os trabalhos que a malta não grama nada fazer. E os putos? Os putos, pá, já nem dá pra distinguir se são da França, da Inglaterra ou da Alemanha.
Muito fixe, pá.
E os pobres?
Os pobres, pá, os pobres são mais que muitos. A malta não os vê, pá, porque agora não andam por aí a exibir-se.

Falemos sério e a sério: falemos sobre as desigualdades.
Um neto do senhor Mário Soares parte com vantagem, há-de chegar longe porque tem "a mão por baixo". E vem ele dizer que não acredita em Deus, ele que nem lhe agradece o facto de ter um descendente que vive num mundo já próximo do Paraíso.
É que não é bem a mesma coisa. O Domingo na Amora a passear pelas ruas sujas e o mesmo Domingo no ambiente cosmopolita e eclético de Nafarros.
Não pretendo que todos tenham Nafarros, gostava apenas que muitos pudessem ter algo mais que o horizonte triste e limitado da Amora.

A desigualdade que cada vez mais se revela na nossa Escola. Uma Escola que se centrou numa questão de dinheiro, de classe social.
Este senhor teve responsabilidades ao mais alto nível neste país, não mexeu uma palha para que o estado de coisas se alterasse.

Escrevo o seu nome numa ostra.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Primeira volta das Legislativas Francesas: Sarkozy apanhou "bofetada" com alta abstenção

UMP (sarkozista) tem 45 por cento dos votos; Esquerda(PS+PC+PRG+Verdes 37,5 % e M. Democrático 7,3 %. Abstenção ronda 40 %

O sarkozysmo é uma espécie de doença senil do autoritarismo modernaço e vivaço. Joga
com o efeito da ilusão de estar sempre a mexer. E tem mãos mesmo muito compridas: o Nouvel Obs desta semana trazia um artigo aterrador sobre o controlo dos Média - dos grandes TF1, estatais e a generalidade da Grande Imprensa diária - operado pelo novo PR francês. Putin e Bush passam por aprendizes. E na Europa nenhum poder executivo concentrou tão esmagadoramente essa " influência " cínica e fatal sobre a Liberdade de Informação. Apesar do balanço das presidenciais a Direita (UMP) tem que encarar uma desalentadora elevada taxa de abstenção. O PCF (o que é histórico) pode perder todos os seus deputados e os Verdes e o MD de Bayrou ficarem reduzidos a pouco menos de 5. O PS prepara já as grandes remodelações: Ségolène falou depois de Hollande, numa primeira apreciação dos resultados e projecções da Primeira Volta.


FAR

Hells Angels (8)


Sob a bandeira. Virgínia. USA. 2007

Foto de Jota Esse Erre

domingo, 10 de junho de 2007

Das cidades e suas lutas

Car@ almadense:

Todos sabemos que a instalação de uma rede de eléctricos rápidos ou metros ligeiros de superfície é a melhor solução - a todos níveis - para a solução dos transportes nas áreas metropolitanas. Esta rede poderia custar, a preços actuais, só na área metropolitana de Lisboa, cerca de 1 bilião e 300 milhões de euros.
Há mais de 10 anos iniciou-se, e bem, o processo do metropolitano ligeiro da margem sul do Tejo (MST), processo esse que, a partir de 1996, passou a sofrer de várias enfermidades. Alguns documentos que irão sendo apresentados falam por si. Está-se na iminência de se implementar um projecto concebido por mimetismo de outras cidades cuja morfologia nada tem a ver com a de Almada.
Estamos ainda a tempo de recuar, não fazendo um enorme disparate que comprometerá fortemente a vida, hoje, aos almadenses, bem como às gerações vindouras. Chama-se a isto cuidar o presente, mas, ainda e mais importante, cuidar o futuro. O Movimento de Cidadãos "MST, não cortes Almada ao meio", exercendo os seus direitos e deveres de uma cidadania activa, apenas exige que se cumpra o Direito Comunitário.
Pelo Movimento de Cidadãos "MST, não cortes Almada ao meio" (clicar para aceder ao website)

Almerinda Teixeira

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Soares Todo-o-Terreno

“O neoliberalismo deu às pessoas a ideia que o mundo é uma selva e a selva é para os mais fortes, que se alimentam dos mais fracos. É o que se chama o ‘darwinismo social’. A força, aliás, não se mede pelo músculo, mas pela carteira. Cada vez há mais pobres e maiores desigualdades(...)”
(Como define a relação que existe actualmente com o dinheiro?)

“Desde que há novas normas de segurança, deixei de ir. Já tive vários convites, mas não estou disposto a estar ali horas a ser fiscalizado, a preencher papéis e a responder às perguntas, nem sempre inteligentes, que os agentes fazem na fronteira”
(Tem ido aos Estados Unidos?)

“(...) Sócrates acumulou demasiadas más vontades. Na classe média, no povo, no seu eleitorado tradicional. È tempo, julgo, de corrigir o rumo, pensando mais à esquerda. É daí, de resto, que vai soprar o vento, vindo donde menos se esperaria: da América do Norte."
(Quais os ministros que não funcionam?)

“(...)Gosto dos meus compatriotas, mulheres e homens, gosto de sentir o calor do entusiasmo popular e entendi-me particularmente bem com os jovens. Com os da minha faixa etária é que foi8 o diabo: não compreenderam a minha insistência. Achavam que devia estar, como eles, a ver televisão, com uma manta sobre os joelhos." (Quando fez a sua última campanha presidencial, sentiu o gosto de voltar a ter o contacto da rua?)

“(...)no meu sistema racional o problema de Deus não se encaixa. Acreditar que há um Deus que está algures, no universo, para recompensar e julgar as pessoas que andam cá por baixo é algo que para mim não faz sentido. Como não faz sentido a imortalidade da alma. Com o que conheço da ciência não faz sentido. Não creio na existência de um Deus, muito menos antropomorfo.(...)”
(Tem alguma nostalgia da não crença, de não acreditar em Deus?)

“(...)Digo sempre a verdade. Melhor: aquilo que penso ser a verdade. Como não tenho nada a ganhar e nada a perder, sinto-me muito solto e livre. E gosto de partilhar a ampla experiência que adquiri ao longo da vida. È uma forma de dar aos outros aquilo que recebi dos outros, que foi imenso.(...)”
(Politicamente, quer fazer outras coisas?)

Excertos da entrevista de Cândida Pinto e Clara Ferreira Alves. Única. Expresso de 9/06/2007

Hells Angels (7)


Hard Man. Virgínia. USA, 2007

Foto de Jota Esse Erre

sábado, 9 de junho de 2007

Mambo 20

Contrários à direcção das linhas das tábuas de madeira, estão sobre elas os ossos das pernas com a sua "cheieza" demorada, em vida. Desde o chão é admirável o piso tão macio do tecto, tão imensamente desnudo de objectos, na sua brancura faustosa esquecida de sombras. Faz-nos sentir menos empobrecidos. Não se entende como tem a mesma extensão do onde estão pregadas, as tábuas bem assoalhadas e as pernas sobre elas. O restante do corpo também lá está, nessa rasia de mundo abaixo do nível dos assentos do sofá. As portas agigantam-se em altura, sem nada apontar. Não é facilmente que se é vizinho não apenas do pó mais anónimo que se possa conceber mas também de areias com cor de longes e insectos armados com os seus modos tão mais pequenos. Parece que colapsam se não tiritarem de ocupações. Compreende-se, que estes seres não tenham joelhos. Não sabem da posição sentada nos seus cansaços.
Quanto às humanas pernas... É preciso algum tipo de relâmpago a devorar gulosamente estabilidades já estreitas por si ou então uma ardente alegria que teima em ficar antiga numa afiada tristeza, para se estar assim, caído no chão como uma qualquer folha, que se tenha unido ao vento.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Sublinhados do Expresso de 9/06/2007

“ (...) os governos, entre nós, não têm por hábito corromper juízes, nem ameaçá-los de morte ou às suas famílias, não os podem mandar prender, nem desterrar, nem destituir, nem sequer censurar pelas suas decisões.
(...)
(...) temos assistido recentemente a uma prática de contragovernação, em especial por parte dos tribunais administrativos e através dessa varinha mágica que são as providências cautelares.
(...)
(...) Já faltou mais para vermos os tribunais administrativos a oporem-se, por providência cautelar, ao Orçamento do Estado, ao envio de soldados para a Bósnia ou aos exames nacionais do Secundário.
Bem fala o novo presidente da Fenprof quando promete boicotar mais uma reforma proposta pela ministra da Educação entupindo os tribunais administrativos com providências cautelares – uma por cada professor que não seja promovido por mérito. Parece-me uma causa bem capaz de obter vencimento nos tribunais administrativos.”
Miguel Sousa Tavares

“ (...)
É verdade que a confiança do país na Justiça se encontra próximo do grau zero e que há indícios de uma certa propensão justicialista em certas decisões dos tribunais. (...)”
Fernando Madrinha

Hells Angels (6)


Born to be wild. Virgínia. USA. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Gérard Miller: a verdade é surpresa!

O célebre psicanalista pode ensinar-nos a ver melhor o mundo e as suas personagens, bestas e heróis...

"Somos conduzidos a dizer, muitas vezes, que os que afirmam a verdade distinguem-se na política. Isso está correcto. Mas, infelizmente para a sua carreira, eles são tentados a querer dizer a verdade sobre... a verdade. Pensam formular nisso critérios cometendo o mesmo erro que os lógico-positivistas. Porque a verdade, ela, não está justamente presa a nenhuma lei: não se confunde com o saber; como no lapso ou no acto falhado, é surpresa."

"Michel Rocard é incontestavelmente um homem brilhante, mas tem um handicap em relação ao Sol: tem razão. E, como tudo indica, que não tem menos razão ontem do que hoje, está condenado a repetir-se. É a boca que se come a si própria; a precisão dos enunciados importa menos que a posição de enunciação."

"Foi isso que explica a enigmática rigidez que arrastou na solidão e na derrota Mendès France. E como não olhar com afeição para aquele que proclamou um dia na TV, como que revelando um caso de predestinação luminoso: eu sou o seu filho 'intelectual'. Há um pensamento rocardiano: 'Sei, portanto sou', que se prolonga ainda num implícito 'Sou como sou'."

In Gérard Miller, Le divan des politiques, Edit. Seuil/ Navarin. France

FAR

Terra

African Kids /6 - Angola, 2005

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Da conferência dos Oito Governadores

Olá,

Vocês desculpem-me lá mas ontem à noite estava totalmente cansado e não tive pachorra para escrever. O Sarko deu uma seca ao pessoal à velha e à francesa e o Presidente Barolo deu outra conferência de imprensa em que repetiu as mesmas coisas do dia anterior. Só que desta vez tudo era um sucesso em vez de ser um desejo porque aparentemente houve um acordo sobre o aquecimento global. A malta acordou que afinal não acordou em nada e isso aparentemente e segundo o Barolo foi um sucesso.
Para ser honesto o Sarko não nos fez esperar tanto tempo como o Jacques Chirac fez há dois anos na Escócia quando chegou uma hora e meio atrasado à conferência de imprensa. O Sarko só nos fez esperar 45 minutos. Por essa altura eu já estava farto e fui dar uma volta e descobri que os tempos mudaram.
Falei com um dos comandantes “de terreno” da polícia de choque. Um tipo aí de uns 50 anos, cabelo rapado à careca, barba de dois dias, magro como o caniço, só nervo nem um grama de gordura e …. um brinco na orelha esquerda. Ena pai, se não fosse a farda eu pensaria que o gajo era um freak dos velhos tempos só que sem cabelo.
Mas a melhor cena foi quando ali perto de Heiligendam antes de mais uma cena de porrada entre os globalizados antiglobalização e a polícia, um dos manifestantes sacou de um trompete e tocou impecavelmente e com muito soul e feeling a…. Internacional. O tipo tocava bem embora eu tenha pensado na altura que foi um pouco de mau gosto tocar a internacional num local que pertenceu à antiga Alemanha de Leste. Alias ninguém aplaudiu mas lá que foi bem tocado isso foi. Passados uns minutos e não sei por que razão a polícia decidiu dar chuvarada ao pessoal com dois carros com duas mangueiras uma das quais estava sempre a pingar grandes quantidades de água mesmo quando não estava a ser usada. Começou tudo aos empurrões e a polícia apanhou também uma chuvarada. Houve um gajo que atirou com uma garrafa de cerveja meio cheia que inexplicavelmente não se partiu quando um polícia a aparou com o seu escudo. Tenho que aprender a técnica. Depois a coisa começou a aquecer e eu fui-me embora.
Tenho a dizer-vos que já estou um pouco farto de tudo isto. Ontem aliás fui à praia para passar tempo, praia que é aqui mesmo em frente do centro de imprensa. Quando voltei duas horas depois estava toda a malta na galhofa em frente a um écran gigante a ver o George e o Vlad (é assim que os amigos tratam o Putin) a dizerem que se amam. Não sei lá por que razão a malta em frente ao écran achou uma piada enorme quando o Bush disse que a “Rússia é um grande país e os Estados Unidos também são um grande país e o mundo fica nervoso quando começamos a argumentar”. Risada geral! Deve ter sido pela profundidade filosófica da declaração, mas o Vlad gostou e deu a mão ao George para a foto. Tão romântico! E malta toda na galhofa com um jornalista espanhol a dizer que pareciam “maricons”
Vocês devem ter notado que eu disse que a malta estava em frente a um écran. Isto em grande parte funciona assim. A malta no centro de imprensa vê as notícias no écran da televisão (como vocês) e depois escreve as notícias sobre as coisas que vocês já viram em directo. É porreiro! Se isto durasse mais três dias ninguém mais iria a Heiligendam porque o maralhal da informação prefere ficar aqui no centro de imprensa onde a comida e a bebida é melhor. Os alemães ontem numa tentativa de animar o pessoal abriram um campo de voleibol na praia. Infelizmente só uns gajos barrigudos é que foram jogar e depois um deles começou aos berros quando a bola bateu directamente na câmara de televisão estacionada a uns metros de distância. Esse barrigudo foi-se embora com um ar preocupadíssimo sentando-se depois num banco a limpar a câmara e a gritar insultos (creio eu!) numa língua que eu não percebia.
Ah! Já me esquecia que ontem fui a uma conferência de imprensa de activistas de causas africanas. Fiquei a saber que o aquecimento global é que causa cheias em Moçambique. Segundo um dos gajos que falou na conferência de imprensa (um nigeriano com uma impecável pronúncia britânica) os países da brancalhada deveriam pagar aos países africanos pelo aquecimento global. “E isso para além do dinheiro já prometido,” disse ele. Ninguém se riu o que eu achei estranho. A brancalhada continuou toda a escrever nos cadernos de notas, todos muito sérios. Eu estava à espera que o nigeriano dissesse: "estava só a gozar", mas não. Aparentemente estava a falar a sério. Quando eu lhe disse que cheias em Moçambique acontecem desde o tempo do antes da Outra Senhora, ele disse-me que agora ocorrem com mais frequência e afectam mais pessoas. Ninguém se riu, vejam lá!
A sala desta conferência não tinha ar condicionado ou janelas e a malta começou toda a sentir o efeito de estufa. Fui-me embora quando um outro activista disse que a brancalhada deveria pagar a África porque uma percentagem enorme dos seus médicos e enfermeiros vão trabalhar para esses países. Ninguém se riu e ninguém perguntou porque é que os médicos e enfermeiros não querem ficar em África. Eu já estava a transpirar e fui beber uma cervejinha alemã com uma salsicha. Depois fiquei com azia. Não sei se foi da salsicha ou das conferências de imprensa.
Hoje isto termina. O Thabo Mbeki está ali neste momento falar com o Tony Blá Blá e com a Angie. Tenho que me ir embora porque pode ser que alguns deles tenha alguma coisa a dizer. O que duvido.

Até breve
Do local da conferência dos oito governadores

Jota Esse Erre

Hells Angels (5)


Sinal de paz. Virgínia. USA. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Maravillosas ocupaciones


Qué maravillosa ocupación cortarle la pata a una araña, ponerla en un sobre, escribir Señor Ministro de Relaciones Exteriores, agregar la dirección, bajar a saltos la escalera, despachar la carta en el correo de la esquina. Qué maravillosa ocupación ir andando por el bulevar Arago contando los árboles, y cada cinco castaños detenerse un momento sobre un solo pie y esperar que alguien mire, y entonces soltar un grito seco y breve, girar como una peonza, con los brazos bien abiertos, idéntico al ave cakuy que se duele en los árboles del norte argentino. Qué maravillosa ocupación entrar en un café y pedir azúcar, otra vez azúcar, tres o cuatro veces azúcar, e ir formando un montón en el centro de la mesa, mientras crece la ira en los mostradores y debajo de los delantales blancos, y exactamente en medio del montón de azúcar escupir suavemente, y seguir el descenso del pequeño glaciar de saliva, oír el ruido de piedras rotas que lo acompaña y que nace en las gargantas contraídas de cinco parroquianos y del patrón, hombre honesto a sus horas. Qué maravillosa ocupación tomar el ómnibus, bajarse delante del Ministerio, abrirse paso a golpes de sobres con sellos, dejar atrás al último secretario y entrar, firme y serio, en el gran despacho de espejos, exactamente en el momento en que un ujier vestido de azul entrega al Ministro una carta, y verlo abrir el sobre con una plegadera de origen histórico, meter dos dedos delicados y retirar la pata de araña, quedarse mirándola, y entonces imitar el zumbido de una mosca y ver cómo el Ministro palidece, quiere tirar la pata pero no puede, está atrapado por la pata, y darle la espalda y salir, silbando, anunciando en los pasillos la renuncia del Ministro, y saber que al día siguiente entrarán las tropas enemigas y todo se irá al diablo y será un jueves de un mes impar de un año bisiesto

Julio Cortazar.