quinta-feira, 31 de maio de 2007

Telegramas

A mega-potência China - Dois artigos de grande qualidade - um no NY Times de Daniel Altman e outro inserto no Financial Times de Martin Wolf - aprofundaram na arena internacional da super-informação as tentativas de avaliação do atelier do Mundo, grandezas e misérias. Ora vejamos. Na famosa secção do matutino nova-iorquino, Altman revelou as respostas espantosas e alarmantes de um operário chinês sobre as condições excepcionais de dureza do trabalho. Seguros, horas extras e salários em atraso são sintomas inquietantes que castigam os trabalhadores. No Fórum dos Economistas, Wolf ontem apontava para estas realidades surpreendentes: o ultra rápido crescimento do saldo da balança comercial de 46 ( em 2003) para 250 biliões de dólares, o ano passado. O que quer dizer, que ultrapassou o Japão exportador máximo. O PIB atingiu um espantoso crescimento de 12 por cento no ano passado, com as taxas de investimento estrangeiro e interno a baterem recordes jamais vistos no Império britânico. Reverso da medalha: O consumo interno é muito baixo, só as zonas costeiras atraem o desenvolvimento e as ondas de mão-de-obra barata e submissa, e a taxa de crescimento laboral cifrou-se, repare-se, tão-só e exclusivamente, na ordem do 1 por cento entre 1993 e 2004, com os consumos de energia a dispararem e o dinheiro de empréstimo a corromper a pirâmide burocrática...

Argélia: A dança da morte dos burocratas - Clima de desencanto na Argélia, um dos colossos de África e país de cultura e vida partidária activa e diferenciada, ao contrário da ditadura " enroupada " vigente quer no Marrocos quer na Tunísia de hoje. Ora as eleições legislativas, que ocorreram há duas semanas, deixaram tudo na mesma. O presidente Bouteflika, o homem dos sauditas despachado para resolver o banho de sangue islamita, encontra-se cada vez mais doente e não tem sucessor à altura. O partido oficioso, a FLN, para fazer de conta que tem pluralismo dividiu-se em três ramos. O histórico, a União Democrática Nacional e o Movimento para a Sociedade de Paz, congregados no seio da Aliança Presidencial. O Partido trotskista, chefiado por uma mulher, Louisa Hanoune, caso único no Mundo árabe, o partido islâmico moderado, MNR, ou El-Islah, e a União para a Cultura e a Democracia esperam ocupar lugares no futuro Parlamento. Os socialistas do FFS, Frente das Forças Socialistas, decidiram boicotar todo o processo eleitoral.

Paquistão: Musharraf na corda-bamba - O ditador-general do Paquistão, que exilou os líderes da Oposição, parece ter ainda o apoio dos USA e da Inglaterra, que o descobriram e pagaram a peso de ouro para controlar as fronteiras e deixar os comandos secretos dos dois caucionadores a tarefa inglória de tentarem descobrir o rasto de Bin Laden. Tudo isso ocupava uma página inteira da Política Internacional do FT, há dois dias. Registo adicional de relevo: " Embora os USA e os ingleses incitem Musharraf a alargar a sua base eleitoral de apoio pela reaproximação com a senhora Bhutto, a sua principal preocupação consiste em assegurar a cooperação paquistanesa para participar no controlo da fronteira do Afeganistão, de modo a acautelar qualquer tipo de ataque contra os dois países". E o FT avançava mais esta tese: Musharrraf só cairá se a violência das ruas, quotidiana em Carachi, se propagar às cidades do Punjab, baluartes do exército nacional, avessos ao derrame de uma única gota de sangue por aquelas paragens.

FAR

Da Capital do Império


Olá!
Outro dia fui a Nova Iorque. Não é uma cidade com aquela beleza turística que se encontra em Paris. Ou Londres. Ou Barcelona. Não tem os Campos Elísios. Não tem Las Ramblas. Ou Westminster. Não há locais para os sentidos se regalarem em relaxamento.
Na verdade tudo em Nova Iorque é agreste, os desfiladeiros entre arranha céus a pique sem o encanto, espaço e mesmo calma que as grandes avenidas com as suas arvores trazem em zonas de Paris ou Barcelona As estações de metro em Nova Iorque são exemplo disso, uma mistura de ferro, ferrugem, água que pinga não se sabe bem vinda de onde, com bancos de madeira em que saliências também de madeira foram incluídas para se impedir as pessoas de se deitarem nos mesmos. Nova Iorque é uma cidade que reflecte na sua paisagem urbana a agressividade dos crescimento do capitalismo do século 19 mas que ou talvez por isso continua a ser o pólo de atracção para milhões de pessoas de outras partes do mundo.
Respira-se em Nova Iorque movimento, riqueza - reflectida nas limusinas de cor negra, vidros fumados que patrulham incessantemente as suas ruas - e juventude. É de pasmar como em Manhattan se constrói ainda, se destrói o antigo para novos arranha-céus. Constantemente, sem parar, em todo o lado.
Nova Iorque é a glândula tiróide dos Estados Unidos. Queima energia, fabrica proteínas e mede a sensibilidade do país a outro sangue, a outras hormonas. Multidões poliglotas enchem as suas ruas, reflectindo o facto que mais de 30 por cento da sua população nasceu no estrangeiro e que 47 por cento dos seus mais de oito milhões de habitantes falam em casa outra língua que não o inglês. As restrições à imigração aumentaram, a imigração é tema quente para os políticos. Mas de todo o mundo ali continuam a chegar para serem triturados, remoldados, refeitos, desfruídos, renascidos à sombra da estátua da liberdade e depois espalhados pelo resto da América. “USA,” dizia-me o condutor de táxis do Paquistão, “significa U Start Again” e ria-se. Todos se queixam (“Ah se eu soubesse…”,). Raros se vão embora
Às duas da manhã depois de um a noite de teatro e jantar em “brasserie” francesa (aberta 24 horas ao dia) chego ao meu quarto e falta-me algo. Saio do meu hotel, ando dois quarteirões e compro um saca-rolhas para a minha garrafa de Porto Vintage 1997 Taylor Fladgate. Sempre que vou a Nova Iorque comemoro todas as noites que lá estou com Porto …. do bom. No mínimo um Tawny de 10 anos Bom vinho para boa cidade. Faço questão em escolher restaurantes de nacionalidades diferentes todas as noites embora os franceses estejam sempre no menu. O homem que me vende o saca-rolhas é um imigrante. Da Bolívia. O seu patrão é de Taiwan. Os dois a atender clientes às duas da manhã. Nova Iorque é isso: quer um saca-rolhas às duas da manhã? Há alguém a vendê-lo…Também corta unhas, segundo me disse alguém.
Nova Iorque é remodelação constante. Outrora os condutores de táxis eram polacos, judeus vindos do leste europeu. Hoje são paquistaneses, afegãos, indianos. Ontem foram italianos a marcar a história de certas zonas de Nova Iorque. Hoje Little Italy é um bairro a morrer que existe na esmagadora parte apenas como local de restaurantes italianos para turistas. Os italianos e as famílias mudaram-se para Nova Jersey e outros locais. Renascem agora americanos ou talvez ainda italo-americanos. Little Italy renasce no entanto com o ímpeto da Chinatown que cresce como nunca invadindo as ruas onde se fala cada vez menos italiano e cada vez mais mandarim, cantonês e seshuan. A Máfia está moribunda, substituída pelas tríades.
Nova Iorque é a riqueza da Wall Street, da Upper East Side. São também os “barrios” latino americanos da Upper West Side com lojas e lojinhas, negócios especializando-se no envio de mobílias, carros, dinheiros, tudo para a Republica Dominicana, Guatemala, Nicarágua etc.
Nova Iorque é a cidade vertical do imprevisível. Vertical com pérolas difíceis de imaginar. A chinesa a passear os cães num carrinho de bebé. O homem com centenas de balões à cabeça. Um negro bem macho mas vestido de saia, blusa e chapéu de mulher, de guarda-chuva na mão gritando as ultimas más noticias do Iraque ali no Washington Square perante a indiferença de quase todos e onde um conjunto musical de um negro, uma asiática e um branco tocam um jazz encantador. Perto de uma igreja Baptista que se gaba à sua entrada de querer para seus crentes “a comunidade LGBT” ou seja Lesbians, Gays, Bisexuals e Transexuals. Ou de um branco a tocar marimbas (é verdade, marimbas!) numa rua e furioso quando o quis fotografar. É a cidade onde num programa de dedicatórias na radio alguém diz : “Quero dedicar isto à Tina. Desculpa lá ter-te dado uma facada”. Verdade!
É cidade onde o ano passado foram assassinadas 580 pessoas (e não foi um ano mau) mas que recentemente impressionou o autor britânico Allan Bennet pela sua “relativa ordem e civismo”, reflectidos nos encontros à noite em conhecidas livrarias onde autores de renome mundial discutem as suas obras recentes, ou apenas tópicos de interesse da actualidade, das artes, das letras. “Já não é possível imaginar-se esse tipo de civismo público em, Inglaterra,” queixou-se Bennet.
Tentei ir ao ao museu Guggenheim. A fila de entrada estendia-se para fora do museu. Um polícia mantinha a ordem na fila até à esquina. Desisti. Mas fiquei a remoer no que tinha visto: Um polícia a manter a ordem na fila para um museu! Verdade! No Museu Metropolitano multidões enchem as salas. No mais pequeno Neue Gallerie há fila para o café vianense, perto da residência privada do Mayor Bloomberg .
E depois as “sociedades”. A sociedade da Ásia, a Scandinavian House, o Instituto Francês – tudo com exibições excelentes. E as salas “privadas” de negociantes de arte, escondidas em arranha-céus como a Zabriski e Greenberg onde recentemente vi uma exibição fotográfica de se lhe tirar o chapéu.
E o teatro e os seus grandes actores, noite após noite, um festival de teatro. E de ballet.
Cultura que faz abrir a secção de artes do New York Times à Sexta-feira e ao Domingo algo como ler um livro.
E a very “rive gauche” East Village. E Brooklyn com a sua juventude, cafés, armazéns, bate chapas e mercearias polacas e de produtos judeus
Nova Iorque ‘e cidade onde durante anos e anos o homem encarregue de preparar as luzes de natal da cidade era um judeu, Cuja matrícula do carro dizia: “Xmas” ( Christmas)
Para mim Nova Iorque e ao contrário de muitos não foi uma cidade de que me senti parte instantaneamente. Não foi amor à primeira vista. Sei contudo que agora não posso viver sem ela. Duas, três vezes por ano tenho que lá ir. Mesmo que só por duas noites Está-me no sangue. Uma das boas coisas da Capital do Império é a estrada para Nova Iorque.
Um abraço,

Da capital do Império Jota Esse Erre (texto e foto)

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Greve geral

Para mim a noite do Medo era a da véspera do dia de Natal.
Esse apagar de luzes e ficar a pensar que havia de aparecer um sujeito estranho que deixaria prendas ao fundo da chaminé, dava-me um cagaço descomunal. Vivia insónias de terror. Cobria-me dos pés à cabeça e ia escutando todos os pequenos ruídos que habitam todas as casas durante a noite.
Mais tarde aprendi outras formas do Medo. Como a de ontem.
Em tudo a achei igual ao meu Medo da minha infância: a sós, comigo próprio. Cada um se cobriu dos pés à cabeça e se ficou, perfilado, a contas com o Medo.
Quando os do Medo perceberem que não são os únicos a senti-lo talvez se resolvam algumas coisas, talvez se dêem conta que por muito que alguém se cubra algo há-de ficar destapado, vulnerável. Esse é o ponto por onde entra e se aloja o Medo.
A ausência de sono não me traz mais atento, pelo contrário: oriento a minha existência em função d'o Medo, sou seu servidor. Fiel lacaio do Medo - um atordoado e acobardado ser que se verga e se recusa a levantar e a sacudir de sobre si um jugo.
No fim deste Maio, o Medo ganhou território.
Não tem forma definida, ninguém o pode identificar.
Instalou-se.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Greve geral!

Uma ideia do Daniel Oliveira.

Quer-me é parecer que vai surgir por aí um fura-greves socratiano a picar o ponto...

terça-feira, 29 de maio de 2007

Sexy Beast


Estátua à frente da Biblioteca do Congresso. Washington. 2007

Foto de Jota Esse Erre

O 28 de Maio hoje


Há 81 anos, Portugal mergulhou num dos mais negros periodos da sua história. Durante 48 anos, vivemos com a ausência de liberdade, a repressão, a censura, a mediocridade endémica, o culto do pobre e honradinho, o pior clericalismo, a cegueira política que levou à Guerra Colonial.
A 25 de Abril de 74 o país despertou do pesadelo, mas se pensam que isto está tudo ultrapassado, então talvez seja melhor não fechar os olhos aos filhos do salazarismo, que ainda por cima tem a suprema lata de pretender dar lições de História.

Mais que a maioria absoluta...

A ouvir a rádio pelo que resta de noite escuto notícias de sondagens.
Sessenta e três por cento de portugueses inquiridos por uma sondagem de opinião manifestaram um desejo: as grandes superfícies deveriam estar abertas ao público durante todo o dia aos domingos e feriados.
É grave, é excessivamente grave.
A malta daquela faixa a partir dos 55 anos volta a atacar impiedosamente.
Pressinto mesmo um processo gerontológico em curso, vulgo PGEC.
E a coisa não se dá por acaso, não meus amigos. A coisa começa com um daqueles profes. que há anos não passam pelas salas de aula a fazer aquilo que os profes mesmo profes fazem: dar aulas. A coisa começa aqui. O que é que faz um profe. que, no fundo, não é profe.? Tem que justificar de qualquer forma o facto de andar por ali. E, como? Pois gasta uma boa parte da sua jornada de trabalho a contar piadas de gabinete em gabinete.
É obra!
Perguntem lá aos Gato Fedorento, ao Marco Horácio ou mesmo ao maluco do Tochas se aguentavam sessões de 'stand-up comedy' das 9 às 5! Era o aguentas!
E andam esses maduros a ganhar balúrdios!
Voltemos à sondagem.
É confuso, à primeira vista,o entendimento deste valor tão exagerado. A malta não tem grande poder de compra, a malta anda enrascada nos últimos vinte dias do mês. A malta gasta mais do mini-preço, do lidl e das outras superfícies que vendem produtos assim um pouco para o suspeito - e a razão é simples: é mais barato. Só lá vai (a malta) porque sim, a carteira não alcança mais.
( A propósito, leram aquela reportagem da última Pública sobre os produtos 'gourmet'?... É mesmo uma chapada nas vossas caras de frequentadores rascas de grandes superfícies, não é?... Está lá tudo: não podem encomendar um quilo de Beluga numa loja 'gourmet' mas podem passear ao Domingo às 18 horas no corredor dos enlatados de uma qualquer grande superfície. Estiveram apenas a um passo do caviar. Um pequeno passo para esta grande maioria que reclama o direito a frequentar as grandes superfícies não importa quando nem a que horas de expediente. Aí reside a sua força, aí residem os seus direitos!)
E, a despropósito, temos - na mesma Pública - a reportagem de um dia a abordar adolescentes para fins publicitários. O próprio 'modelo' se rebaixa à categoria de olheiro e se presta a fins que raiam o proxenetismo: tira medidas, dá esperanças, preenche fichas junto de escolas secundárias. Numas, os Conselhos Executivos alinham e noutras fazem vista grossa.
Impera, ou assim parece, imperar entre nós o Galo Cócó. Aquele da anedota: enterrado na areia, exausto, cercado pelos abutres (sessenta e três por cento dos abutres disponíveis, esclareça-se...) que aguardam com paciência o seu último suspiro, diz:
- Deixa-os pousar... deixa-os pousar...

S.P.N.P.O.V
(só para não postar outra vez)
Aquela gentinha dos profes continua com as desculpas esfarrapadas do costume quanto ao facto de não fazer greve. Continuam a invocar aquelas tretas costumeiras. Mesmo vendo todos os sinais, mesmo experimentando na pele todos os sinais, persistem na sua condição de avestruzes...
Um grande bem-haja para essa gente. Exportemo-los para o Iraque. Já!

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Niassa (11)


Da série "Terra Incógnita". Niassa. Moçambique. 2001

Foto de Sérgio Santimano

Antologia dos textos de Imprensa de Claude Lefort gera apoteose

A colectânea do filósofo e pensador desvenda os bastidores da génese de um dos gurus da Ultra-Esquerda mundial. É um verdadeiro acontecimento e um manual para a acção implacável dos que não se querem deixar agrilhoar por falsas questões e aldrabões de feira...

Aí está o que mais importa: a agitação de ideias, a crítica dos embustes e falsificações que do leninismo ao mao-spontex, de Altusser aos solavancos da Perestroika, e seus produtos derivados e incorporados, contribuiram para o preocupante impasse político actual, à escala universal.Tudo isso está analisado no grande pavé de Lefort, a assinalar os seus 80 anos de vida, que se arrisca a tornar-se num dos grandes momentos políticos do ano. Como o romance autobiográfico de Thomas Pynchon o há-de ser. Ou o processo teórico da candidatura de Obama Barack o será certamente pela novidade e rigor.

Mais de mil páginas de textos avulsos de Lefort, o companheiro e émulo crítico de Castoriadis e Morin, Manent e Thibaud, para ler e matutar. "O poder provém da divisão social e nisso se enreda", frisa o demiurgo pensador de Maio 68 que, dez anos antes, tinha rompido com os colegas de "Socialisme ou Barbarie", porque a ruptura com os conceitos de direcção, de revolução iria implicar a crítica substancial do legado de Marx. Anos depois(1976), os fundadores de "S.B." iriam reencontrar-se num projecto teórico capital em torno da revista Libre, que veio a gerar a terceira série da Esprit e a Le Débat. Esse folhetim exaltante é agora recuperado pela recolha dos textos de circunstância, o que é óptimo.

Justamente, sobre a grande e maravilhosa experiência do projecto político e teórico tecido em torno da constituição de "Socialisme ou Barbarie", Lefort traça e revela episódios de grande valor. As ligações de Castoriadis, logo ao início em 1949, com dissidentes de um partido trotskista americano, sobretudo Rya Stone, que já pensavam na via sobre a crítica à burocracia soviética e a resistência operária ao capitalismo industrial ; a entrada na revista dos luxemburguistas, dos bordiguistas e dos conselhistas, onde avultavam Lyotard e Mothé, Véga e Soueyris, que se tornaram famosos aos mais tarde são momentos detalhados de várias entrevistas agora reunidas no volume.

"O relativismo é a versão doce, pacífica, do nihilismo; e o nihilismo contém a virtualidade do terror. Quando nos interrogamos sobre o relativismo em democracia, é preciso pensar que, sob a exibição da tolerância ds pontos de vista, do "cada um com o seu direito, cada um com a sua verdade", projecta-se a ameaça do nada e do nada sai o nazismo - uma ameaça de auto-afirmação absoluta", aponta Lefort para denunciar os novos desafios do racionalismo contemporâneo.

Claude Lefort- Le temps présent.Écrits 1945-2005. Editorial Belin. Paris. Maio 2007

FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

domingo, 27 de maio de 2007

Câmara

Atirar aos bonecos

Noutras latitudes diz-se que um homem com “três brancos” nos olhos (à esq. à dir. e em baixo), tipo Marcelo Rebelo de Sousa, ou é manhoso ou assassino. Nalgumas sociedades os pais preferem matar os filhos quando detectam que ele é “sam pak”

Do mesmo modo que entre os latinos se diz que um homem com o lábio superior “pró-linha”, muito fino, tipo Fernando Negrão, ou é maldoso e vingativo ou é filho da puta.

Por outro lado, segundo o fumo que tem saído deveríamos ter em breve Carmona no espeto para ser “comido” na pildra, onde estão muitos por danos bem menores à sociedade.

Sá Fernandes é um pistoleiro paladino neste far-west de impunidades.

Telmo Correia é homem p’ra toda a obra, mas nunca fez nenhuma.

Acho Helena Roseta excelente, mas tem um jeito mental demasiado pró-sapatão para o meu gosto.

Embora Ruben de Carvalho tenha provas dadas que o comum dos lisboetas nem suspeita, prefiro António Costa porque vejo-o como exemplo da biodiversidade da cidade (que não é cosmopolita) e na expectativa (sonho?) de que seja o embrião paridor de deputados das minorias (bem, o já PP tem alguns… “exemplares”).

Agora é só aguardar que a pequena burguesia lisboeta, do alto da sua clarividência iletrada, decida. O voto é a sua arma.

zemari@

Good Dog


Entrada para salão de lavagem de cães. East Village. Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Fernando Negrão

“(...) Quem acreditará na viabilidade do combate à corrupção que um independente, politicamente anémico, quer travar, quando o vir rodeado da gente que, no mínimo, o não travou durante a presidência do anterior independente politicamente anémico? Quem poderá repousar na convicção de que, desta vez, seriam os interesses da cidade a nortear a acção da autarquia, se a única mudança visível é a troca de um compagnon de route por outro? Quem assegura que, daqui a dois anos, não teremos um Negrão escorraçado e culpabilizado por outro independente, sem peso algum no aparelho do partido e, por isso, dele dependente a cem por cento?"

Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias de 27 de Maio de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Niassa (10)


Da série "Terra Incógnita". Niassa. Moçambique. 2002

Foto de Sérgio Santimano

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Em Maio coisas para não pasmar

"Coisas para não pasmar

Mês de Maio é mês de Portugal. Esquece-se o trabalho e pensa-se em peregrinar. Dá-se corda aos sapatos que se faz tarde, pelas bermas das estradas, com alegria no coração e uma melodia confortante nos lábios para, em Fátima, pôr uma vela, engolir uma hóstia e acenar um lenço branco à estátua da virgem. Enfim… viver la vida loca, versão portuguesa."
Continue a ler o Táxi Pluvioso no Pratinho de Couratos

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Legenda

LEGENDA







- Vou falar com o Fragateiro.
Talvez se arranje um lugarzito lá na programação do Nacional.
Tu tens jeito, ó Lino. Isto é mesmo um país injusto, pá. Se tentasses gaguejar um bocadito como o Solnado ainda te safavas melhor.
Qual Marco Horácio, qual Tochas, qual Bruno Nogueira! Metes essa gajada toda num chinelo, pá.
E não te preocupes com as caras que aqueles broncos faziam no tal almoço em que fizeste aquela rábula da margem sul. Isso é normal. A malta do ‘stand-up’ está muito habituada a este tipo de coisas. É normal. Os gajos fazem-se difíceis por timidez. É só isso.
O teu número estava demais! Era de um gajo se cagar a rir! Podes crer, Lino. Vai em frente!

Terra

"Somewildwish" / 7 Angola, Sumbe (2006)

Quebrado pelo cansaço


Homeless. Metro. Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Charrua em campos de pedra

Vejo-me forçado a postar pela força dos acontecimentos. Mesmo com um título sacado ao sr. José Manuel Mendes.
Foi o que me ocorreu. Obrigado, dr. José Manuel Mendes.
É o país que temos, amigos meus.
Um Ministro a proferir um conjunto de disparates sem especificar que não serão tão disparates se lhe for dada a oportunidade de desmentir os disparates que, entretanto, proferira.
Um 1º Ministro embaraçado com o "excesso de zelo" de uma funcionária superior que ouve uma delação e logo delibera só para mostrar serviço.
O professor que, afinal, não era professor: foi deputado, foi requisitado à DREN e agora está de serviço a uma biblioteca de uma escola do Porto. Este professor que, afinal se revela um tipo bem disposto e com tempo para gerar piadas acerca do assunto que tem a ver com o nosso 1º Ministro, e que, bem vistas as coisas, não é efectivamente professor há uma porrada de anos e ainda olha a escola como o sítio de onde saíu há umas largas décadas. Este nosso professor que, afinal, o não era efectivamente há muitos anos gosta de dizer graçolas.
Não passa de uma 'charrua num campo de pedras'.
Estivesse lá um governo da cor que é a sua e o nosso Charrua haveria de estar nas bancadas de S. Bento a berrar que aquilo que uma funcionária superior do serviço ao qual pertence e cuja for fosse igual à sua fizesse estaria muito bem feito.
Qué lá isso, andemos aqui a achincalhar o bom nome de sua Insselencia ó quê?!
Os nossos políticos andam deliberadamente a dar tiros nos pés.
Por quê?
O que está por trás de tudo isto?
A indiferença e a descrença.
O campo de pedras...
Um charrua com piada.
Estamos lixados com esta gente, amigos meus.
Felizmente que a margem sul é um deserto e eu me levanto por volta das 7.45h. para estar na escola (a 10 km. da minha casa) onde entro às 8.20h, não sem antes deixar um dos meus filhos na escola que frequenta, na Cova da Piedade - Laranjeiro.
Era mentira. Quando entro na minha escola às 8.20h., o meu despertador toca às 6.45h.
Amigos meus, só vos digo: atravessar o deserto da margem sul, entre a Cruz de Pau e Almada, depois das 7.30h. é lixado.
Ele há camelos, ele há toda a sorte de perigos e inesperadas intempéries...

O que para mim continua em causa é a delação.
O nosso Charrua não pronunciou a piadazita em frente à sua superiora hierárquica.
Um ouvido mal-intencionado (vulgo: bufo, chibo) fez chegar a coisa aos ouvidos de alguém, que investido de parcos poderes resolveu mostrar que não brinca em serviço.
E não há pior que isto: dar poder a qualquer um.
Esta gente que, sendo professor, anda por tudo quanto é serviço do Ministério da Educação há uma porrada de anos e não é obrigada a fazer aquilo a que se comprometeu e contratou com Estado acha-se no direito e, até mesmo no dever, de fazer não importa o quê para agradecer ao Estado (que eles, na sua confusão, confundem com o Governo vigente) o facto de os manter afastado dessa realidade que é a Escola Pública, à qual designaremos de ora em diante como "Campo de Pedras".
E desse "campo" se afastou o nosso Charrua e a respectiva Directora. Cada um - devido à alternância - se foram sucessivamente investido em Poder ou em contra-poder.
À conta do Estado - esse que continua a ser um campo verdejante e fértil por onde passam todas as charruas...
Quanto ao deserto, xôr Lino, o deserto há-de acolher a sua voz ecoando um acto de contrição pelo facto de ter sido membo do PCP durante quase dois terços da sua vida e que, atingindo a idade senil, ter verificado que andara errado até então.
Senhor Engenheiro, andou V. Exª. muito bem. Pense, V. Exª., em S.Paulo, a caminho de Damasco - aquilo era tudo um deserto...- . Veja bem, sr. Ministro acaba de garantir as Portas do Céu. Bem-haja.
E voltemos ao 'campo de pedras' que é esta nossa função pública. Aos poucos foi-se instituindo o sistema da delação. Caminha-se a custo. Os salazaristas deixaram lá as raízes que agora, devido ao aquecimento global começam a brotar. Qual 25/4/74, qual caraças! Era só deixá-los poisar!
Greve. Que é isso? Eu nunca fiz greve!
É o medinho, amigos meus, o cagaço no mais puro estado governado por um qualquer salazar.
" Fachavor digam lá os nomes dos gajos que fizeram greve. "
Diz o Governo do senhor Engenheiro.
"Acho que é para efeitos estatísticos..."
Dizem-me os funcionários menores.
Não há - penso eu - como saber amedrontar.
É uma arte suprema, esta de pôr o cão a ladrar como se se tratasse da própria voz do dono.
O mais interessante é observar como eles se amedrontam e agacham e acatam.
A charrua passa e há-de passar e tudo o que lavra é um campo de pedras.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

X. Caso Litvinenko: Polícia inglesa pede extradição de agente do ex-KGB

Putin recusa liminarmente qualquer inculpação russa...No enredo do maior crime político e mediático da era do post-post Guerra Fria...

Sete meses após a morte por intoxicação de Alexander Litvinenko em Londres, por beber chá misturado com o terrível Polónio 210 num bar de hotel, a polícia inglesa adquiriu provas para inculpar um antigo colega do morto na KGB, a residir e a trabalhar na capital britânica. Moscovo recusa extraditar o visado e ameaça retaliar ainda mais as " frias " relações bilaterais: Os homens do senhor do Kremlin fazem tudo para culpar Boris Berezovski no atentado.

Os meios do exílio russo na capital britânica ficaram em estado de choque com a morte por substância radioactiva do antigo oficial do KGB, que se tinha aproximado do multimilionário Berezovski para ajudar a derrubar Putin e o seu regime semi-ditatorial. As provas de implicação da FSB, a sucessora do KGB, no atentado não deixam dúvidas à excelente polícia criminal inglesa. Só que os serviços de Poutin não admitem tal acção.

Um especialista sobre os serviços secretos russos, Wladimir Voronov, mostra-se convencido de que tal façanha, com a manipulação de partículas radioactivas muito caras e de difícil acesso público, contou com o apoio do FSB e necessitou de uma ordem de execução que só podia partir do Kremlin. A hipótese de um ajuste de contas político-corporativo entre antigos rivais do KGB não está também inviabilizada, acrescentou. As autoridades soviéticas não tomaram a iniciativa de inculpar a nova polícia política, no entanto.

FAR

Niassa (9)


Da série "Terra Incógnita". Niassa. Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

Liberais-conservadores

O post do Daniel Oliveira que cito mais abaixo parte do projecto do BE sobre a possibilidade de divórcio unilateral, que os "liberais", só surpreendentemente para quem não os conheça, contestam desde a primeira hora. O que é espantoso é que, pelo menos, não admitam neste caso a liberdade contratual, que parece ser o seu totem em tantos outros assuntos. Seria de esperar que, sendo as pessoas livres de contratualizar, pudessem, livremente, optar por incluir, ou não, no casamento, as possibilidades citadas, de se divorciarem com maior ou menor facilidade, como soberanos do seu consentimento. Acontece que para os "liberais" como o João Miranda ou o André Azevedo Alves* a questão é outra. Embora com nuances mínimas, a sua objecção é a "tradição" do casamento, que supostamente lhe conferirá a força contratual.
Portanto, para quem se diz "liberal" e defende a liberdade do contrato, esta deve valer para a generalidade dos tipos, mas não para contratos que encerrem regulações da vida privada (o direito sucessório, a partilha de bens). Como em diversas outras ocasiões, quando se trata de questões em que a liberdade dos indivíduos se projecte para lá da simples liberdade de ganhar dinheiro sem entraves, este "liberais" revelam o seu carácter eminentemente conservador.

*- Este blogue está a começar a parecer-se com um blogue anti-AAA, mas juro que não é de propósito. Nada nos move contra a simpática figura que nos fornece tanto material para postar. Acaba por ser, simplesmente, inevitável.

A ler

No Arrastão um grande post do Daniel Oliveira, do qual destaco este excerto:

«Na verdade, estes "liberais" acreditam na liberdade das empresas, mas odeiam a liberdade dos indivíduos, que os transporta para o pesadelo do caos. A questão deles não é, na realidade, a liberdade. São as limitações à liberdade de quem sempre a teve: seja o patrão ou o chefe de família. Eles nada têm contra o Estado. O problema deles é o Estado Democrático, que deve defender a liberdade de todos os cidadãos por igual. O problema deles é que a liberdade democrática, a liberdade de todos os cidadãos, limita a liberdade dos poderes de sempre. São, na realidade, mais conservadores do que qualquer anti-liberal.»

Na mouche!

terça-feira, 22 de maio de 2007

Pergunta (acerca da dissonância cognitiva)

Caro André Azevedo Alves:

Fiquei deveras surpreendido com a sua resposta ao meu post. Deixe-me ver se me entendi: ao facto de eu achar que o senhor tem uma dissonância cognitiva porque acha mais grave uma montra partida e uns graffitis do que os milhares de mortes pelas quais são responsáveis Pinochet e seus pares, o senhor contrapõe que eu estou a usar métodos soviéticos para pessoas anti-comunistas.

Vamos lá er se lhe explico isto em termos simples: achar que milhares de mortes são mais graves que graffitis e uma montra partida não é ser comunista. Desculpe-me se o surpreendi, mas é mesmo verdade.

Libertando-o do seu pior pesadelo - ser considerado comunista - pergunto-lhe em termos simples:

Acha ou não que os crimes do regime de Pinochet foram mais graves que os factos ocorridos na manifestação do 25 de Abril?

Se a sua resposta é Sim, entra em discordância com os comentários que fez em relação às duas situações no seu blog, mas pelo menos ficamos com a certeza que tudo não passou de mais uma manifestação triste e histriónica de esquerdofobia e que a sua sanidade mental se mantém.

Se a sua resposta é Não, lamento imenso, mas não há outro remédio senão psiquiatrizá-lo. E não é para manter o sistema como está como os soviéticos faziam (até porque eu não concordo com este sistema), é só porque acho que é preferível admitir que o senhor sofre de alguma perturbação psiquiátrica. A outra hipótese é pensar que é tão hipócrita ao ponto de se dizer um defensor da vida na questão do aborto e depois fechar os olhos aos crimes de Pinochet, e ainda voltar a abri-los para apontar o dedo a uma montra partida e a uns graffitis.

Agradecia imenso que respondesse à pergunta que lhe coloquei. O meu obrigado antecipado.

Manuel Neves

Terra

"African Kids" / 5 Angola Benguela -Bairro da Graça (2006)

Fundação Nacional para Alegria no Trabalho?


Capa da Tempo Livre, nº182-Maio de 2007.

À atenção de Kalidás Barreto, provedor da revista do INATEL (e-mail: provedor@inatel.pt)

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Telegramas

Relações estáveis USA/Irão são indispensáveis - Dois especialistas árabes publicaram ontem no NY Times duas análises sobre a evolução da guerra no Iraque, chegando à conclusão conjunta de que os Estados Unidos precisam de negociar com o Irão para evitar o prolongamento indefinido da ocupação da antiga Mesopotâmia. E do Afeganistão também, pois claro. Deste modo, Vali Nasr, autor do " Renovamento do Xiismo", defende que só a melhora e a estabilidade das relações iraniano-americanas dará estabilidade ao Médio Oriente. "O Irão não permitirá um Iraque estável se os seus interesses não forem protegidos, e se a nova relação de forças do poder - baseada na maioria kurda-xiita - não for reconhecida". Por seu turno, Rashid Khalidi, especialista da Columbia University, que clama para que o Hamas não destrua a Autoridade Palestiniana, que controla os grupos de radicais que podem envenenar tudo e todos na zona.

Oposição a Mugabe também está dividida - O Movimento da Mudança Democrática, a oposição para-legal a Roberto Mugabe, o ditador em perdição do Zimbabué, está dividida. O que causa inúmeros problemas para a procura de alternativas sólidas ao inveterado déspota no poder. O Washington Post descreve duas facções no MMD que se guerreiam de morte, cada qual a acusar a outra de traição aos ideias democráticos e de rolar por conta de Mugabe. Se bem que inspirados nos ideais de Ghandi e Luther King a pacificação interna do partido demora. Morgan Tsvangirai, que lidera a maioria do MMD, e o seu rival, Welshman Ncube, não conseguem ultrapassar os diferendos e o rio de sangue que afasta os militantes da procura de uma alternativa para salvar o país.

Ségolène Royal deve avançar no PS - Ségo é mesmo de ferro, mas do bom. Ontem o grande semanário de Esquerda da Alemanha, tiragem de perto de 2 milhões de exemplares, contava a história siderante do ultimato de Sego ao seu concubino, François Hollande: ou serei candidata ou separo-me e guardo os nossos quatro filhos. Tudo isto antes das primárias no PS, claro, no Outono do ano passado. O Libé publica hoje uma sondagem sobre a popularidade da dama que teve perto de 17 milhões de votos na corrida ao poder máximo da República Francesa. Ora, o povo de Esquerda gaulês credita-a de a melhor defensora dos valores de esquerda, com 41 por cento dos eleitores. O seu feroz rival, que não fez como Bernard Kouchner, atinge só 28 por cento das intenções de agrado. Os eleitores não são parvos: responsabilizam o Partido Socialista francês (66 %) pelo fraco apoio dispensado a Ségo, seguindo-se o voto nas razões da derrota deste modo: 50 por cento dizem que é preciso renovar as ideias e 51 por cento dizem que Sarkozy conseguiu convencer os incautos...


FAR

Um durão do império


Busto romano. Museu metropolitano de Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Preocupações

Preocupou-me aquela notícia, creio que da última edição do "Expresso".
Sobretudo pela parte que diz respeito à delação.
Uma piada é apenas uma piada e o Homem é o único animal que ri. E, talvez por isso se distinga de todos os outros seres.
Que um professor, a prestar serviço numa Direcção Regional de Educação do nosso país, seja suspenso das suas funções porque, fazendo fé na dita notícia, contou uma piada a uns colegas acerca da tão propalada licenciatura do senhor primeiro-ministro e que a dita piada terá sido transmitida por terceiros à senhora Directora que logo accionou uma suspensão ao dito professor é uma coisa que me preocupa.
É mau sinal.
Acho que vou reforçar: são maus sinais; é um nunca acabar de acenos inequívocos; é uma quantidade de aves agoirentas e soturnas a esvoaçar por cima das nossas liberdades.
A delação é, em si mesma, uma coisa mesquinha e aviltante já que, quem pratica tal acto, espera recompensa.
Começo por não saber com quem falar; depois, duvido se estou a falar com as pessoas que me merecem confiança; mais tarde, resolvo não dizer tudo aquilo que realmente penso; logo em seguida, desconfio de todos e, pelo sim pelo não, calo-me.
Tudo fica em jogo, tudo está em risco.
Se decidir ficar naquilo que acho que são os meus direitos enquanto cidadão livre num país que se diz livre posso dar-me mal. Pelo menos, nos tempos que agora vão correndo.
Lembrei-me de um caso que o meu pai me contou acerca do meu avô paterno que trabalhou na nossa Marinha Mercante: em dada altura foi abordado por um fulano que pertencia à Legião Portuguesa (organização que, a partir de certa altura, se virou para os Sindicatos e os pôs ao serviço da delação...). O dito fulano propôs ao meu avô a inscrição na organização e acenou-lhe com a possibilidade de uma promoção. Aquilo não custava nada: era apenas questão de uns poucos dias de exercícios para-militares na sede da organização e "a prestação de algumas informações sobre os colegas". O meu avô - pai de três filhos - disse-lhe que não e nunca se prestou a qualquer colaboração com aquela organização. Nunca prosperou e continuou a exercer as mesmas funções que até aí exercera. Morreu, uns quantos anos mais tarde, era eu miúdo de uns 7 ou 8 anos, em Luanda.
Um marinheiro que acode ao hospital, longe da família, em agonia. Não passou de ser um simples marinheiro porque foi essa a sua opção - ele que era um homem livre.
E aqui lhe presto a minha sentida homenagem e manifesto o meu orgulho em ser seu neto.
Esse era o Portugal de Salazar. Tenho ainda memória desse país.
E agora isto.
De repente, vem um cheiro acre a bafio, como se desenterrassem velhas múmias.
Ao fim da manhã, à procura do almoço, da conversa interminável da minha mãe e do beijo terno do meu pai, ouço a Antena 2. Falam do lançamento de uma - creio - biografia de Luís de Freitas Branco. Sabia-o compositor. Pouco mais que isso.
A reportagem deu-me a conhecer que aquele homem passara os últimos anos da sua vida numa situação que considerei degradante e tudo porque um director da Emissora Nacional o vira, no dia a seguir ao falecimento do então PR, Óscar Carmona, ostentando uma gravata 'em tons avermelhados', manifesta falta de respeito pelo luto imposto. Luís de Freitas Branco foi despedido da Emissora Nacional, do ensino (era professor no Liceu Pedro Nunes - o primeiro orientador pedagógico do ensino da Educação Musical no nosso país...), mesmo dispensado da colaboração que mantinha com o Teatro de S. Carlos. Os poderes que mandavam neste país deram-se ao luxo de condenar alguém que, supostamente, parecia 'incómodo'.
Junto outra palavra a delação: arbitrariedade.
Tudo me pode ser permitido, desde que tenha do meu lado aqueles que mandam. O Poder.
E desaguo na minha preocupação: em que águas navegamos agora? que ondas estarão para vir?
Desço para o fim de noite no café da rua. Desemboco numa conversa de pescadores. Animo-me. Gostava de saber daquelas artes. Porém, dou comigo a confessar que sou um leigo na matéria: eu, pescador fingido em cada Agosto num braço do Minho, a usar pedaços de maçã como isco como se estivesse à espera de qualquer peixe - Adão em busca de um mundo novo.
Eles ouvem-me com respeito e prometem-me lições, ajuda e tudo o que for preciso.
Confio. Sinto que da parte deles não haverá qualquer delação.
Regresso a casa mais tranquilo.
Pesquei à linha, hoje. E tudo o que apanhei foram preocupações.

Dissonância cognitiva

Não sou um bloguista. Não faço rondas por muitos blogues. Mas desde que comecei a escrever no 2+2 que às vezes espreito os liberais e os "liberais" com quem o André gosta de discutir. Confesso que não tenho muita paciência para isso, mas hoje, entretido a ver os delírios esquizofrénicos do André Azevedo Alves, que está plenamente convencido que há uma conspiração comunista que domina os media, não resisti:
Não é só ridículo uma pessoa chamar "extrema esquerda" a tudo o que não esteja à direita do Partido Monárquico. É infantil (no pior sentido do termo) e desprezível achar mais graves os "actos de vandalismo" que se passaram na manifestação do 25 de Abril do que os crimes de Pinochet.
Vendo estes dois exemplos, é pacífico que André Azevedo Alves sofre de uma dissonância cognitiva clara. Portanto, mais que a necessidade de um livro de história, impõe-se uma revisão psiquiátrica.


Manuel Neves

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Niassa (8)


Da série "Terra Incógnita". Niassa, Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

Lamento...

...Cara Patricia Lança, mas não é para evitar a discussão que eu (só posso falar de mim) a chamarei, quantas vezes quiser, de "islamófoba", "esquerdófoba" ou "homófoba". É precisamente para que a discussão se faça. Eu não a quero calar, cara Patrícia; mas porque me quer calar a mim? Não se considera nada disso? Óptimo, contradiga, ou melhor ainda, ignore.
Mas deixe-me dizer-lhe, enquanto me ignora, que conviria encontrar certos termos de comparação, para melhor se entender aquilo a que chama de "politicamente correcto". Pensemos por exemplo no exemplo que dá, a prostituição. Diz a Patrícia que agora já nem se chamam às prostitutas de prostitutas, mas de "trabalhadoras do sexo". Ora, eu conheço, e a Patrícia por certo também conhece, outro termo para as designar: putas. Assim mesmo. Eu, cara Patrícia, reconheço-lhe o direito de as chamar de putas. Se quiser, pode chamar os homossexuais de paneleiros. Ou os muçulmanos de terroristas. Ou os esquerdistas de ignorantes. Faça-o, ningúem a quer proíbir. No máximo, talvez a contradiga, ou melhor, a ignore.
Sucede que há aqui uma questão a pôr. Qual é a diferença entre as chamar de prostitutas, putas, ou trabalhadoras do sexo? A validade, digamos, semântica da coisa é igual. Já quanto à justeza moral, aí já é mais complicado. Os critérios são sempre uma coisa chata. Um critério a admitir (mas que poderemos discutir, ou se quiser, ignorar) será o da opinião das visadas sobre o termo. Sabendo nós (ou pelo menos julgando eu) que as palavras, qualquer palavra, não são mais que relações de sentidos entre os objectos, poderemos supor que não será a mesma coisa chamar uma pessoa de puta, prostituta, ou trabalhadora do sexo. Ou melhor, poderá ser para si, como poderá não ser para ela. Eventualmente, talvez se pudesse considerar que a opinião dos visados sobre uma qualificação terá a sua importância. Por exemplo: não me passaria pela cabeça rotulá-la de imbecil, e dizê-lo à sua frente, mesmo que fosse essa a minha opinião. Ou dizer de todos os insurgentes que são uns imbecis. Haveria formas de pôr a coisa que poderiam respeitar um pouco melhor a dignidade dos insurgentes.
É que isto do "politicamente correcto" é muito chato quando se reivindica o direito de chamar uma puta de puta, ou um paneleiro de paneleiro, mas têm a sua conveniência quando se trata de não nos chamarem a nós de uma coisa qualquer que não seja do nosso agrado. A minha mãe dizia-me que era educação, mas parece que agora se chama "politicamente correcto". Talvez seja politicamente correcto chamar a educação de politicamente correcto, não sei. Mas creia, cara Patrícia, que defenderei até à morte o seu direito à má educação, quer dizer, a rejeitar o politicamente correcto. Eu no máximo irei contradizê-la, ou mais provavelmente ignorá-la. Com limites, é certo: se me encontrar na rua e me insultar, como poderá, ou não, fazer às putas e aos paneleiros, o mais provável é eu não me ficar. Mas como cavalheiro que sou, e graças à boa educação da minha mãe, uma vez que a Patrícia é uma senhora, a minha resposta será apenas verbal. Não sei se a contradizendo ou ignorando. Logo se verá.

Está explicado...

...O que liga estes a estes. É isto.
Vamos ao que interessa: Paulo Portas reconduzido.
Falo desta forma de estar na Política. Naquilo a que alguém denominou 'partidocracia', e que entendo como: participas na vida pública e tens direito a intervir e a decidir enquanto detentor de um cartão de militante (curiosa e, ao mesmo tempo, saborosa) esta expressão, de uma qualquer força partidária. Fora disso, meu amigo, não tens direito a mais nada a não ser o teu voto. Abeiras-te da urna e pronto.
Paulo Portas percebeu que por via do jornalismo não chegava lá. Por dentro de um partido (PSD) nunca lá chegaria. Só por dentro de um partido com direito de antena chegaria a ser visto e ouvido. Chegou mesmo à governação, alcançou poderes inimagináveis. Perdeu-os quando se ligou a alguém que também vislumbrara o mesmo 'furo' e, então, à maneira do 'wild west' a 'cidade tornou-se pequena demais para os dois'. Chegou, entretanto, o tempo do cavaleiro solitário - chegado do nada, rumo ao sol posto da nossa desgraça. Usando dos mais variados expedientes para ir salvando o couro.
Brama São Paulo contra nem ele sabe bem quem. E o que era mesmo engraçado seria que ninguém lhe ligasse atenção.
O homem punha-se aos berros e a malta afastava-se, a dar de ombros, sorridente. Afinal, todas as terras têm direito ao seu tolo de serviço.
Aceitemos Paulo Portas como o tontinho desta nossa aldeia. Com uma vantagem extra: traz um sub-tolo à albarda: o Telmo Correia, a quem ele convenceu que era alfacinha de gema (o que quer que isso queira dizer...) e que se candidata a um lugar na gamela pública.
Insisto nesta ideia: o aceitar um cargo público não significa necessariamente servir-se do mesmo publicamente.
'Capisce?'

domingo, 20 de maio de 2007

Lisboa

“Há agentes que encaram a sua intervenção política como uma aventura responsável que se premeia a si mesma ao ser vivida. Há outros que a concebem como uma carreira, um crescendo de situações pessoais feito de cálculos, prudências e cautelas e cujo prémio está fora ou para além dele. Aqueles escasseiam, estes abundam. O realismo manda reconhecer que todos são necessários. Mas não é proibido gostar mais dos primeiros. António Costa voltou a provar estar entre eles.

(...)

É claro que está tudo a começar e que a campanha, em sentido estrito, nem isso. Que o êxtase fácil dos basbaques não é boa mezinha para as maleitas da cidade. Que, para quem não nasceu num falanstério nem vai morrer no eldorado - como quase todos nós -, não faltarão as oportunidades e o espaço para a crítica, plural e diversa. Felizmente. Mas pôr algum entusiasmo cívico na abulia fatal a que chegámos e ver florir alguma cor no cinzentismo de alma de quem habita Lisboa já nem releva da caridade, mas da sobrevivência pura e simples.”

Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias, 20 de Maio de 2007

Estacionamento "New York Style"


Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Um trânsfuga de alta-voltagem chamado Bernard Kouchner

Membro proeminente do staff da candidatura de Ségolène Royal, o French doctor alude a desemprego para explicar aceitação de convite de Sarkozy todo-o-terreno...

Ele foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi esquerdista e, nos anos 80, depois de ter criado a mundialmente famosa ONG, Médicos sem Fronteiras, foi progressivamente escorregando para a direita. Ajudou a fundar o Partido dos Radicais de Esquerda, que mudou de sigla para ser aceite pelos socialistas no poder. Depois saiu e colou-se a Michel Rocard, quando este tinha força política e foi primeiro-ministro. Nunca se comprometendo muito foi participando em vários governos PS, foi deputado europeu e membro de alta voltagem do Tout-Paris, com Cohn-Bendi a pensar fazer dele o sucessor avisado de Rocky depois da entronização de Lionel Jospin como n° 1 do PSF.

Com 67 anos e no desemprego técnico, Kouchner atira com tal estatuto para defender a sua colagem à nova direita incarnada pelo frenético e apocalíptico Sarkosy, um émulo refinado de GW Bush, mas com sonhos europaistas contraditórios. Escravo do grande capital, o Financial Times lançou já sérias dúvidas sobre o seu( N.Sarkosy) programa económico. Mas ele é capaz de tudo e do contrário, com a aparência de um maquiavel de bairro chique e bimbo...Clicar aqui para ler relato do Libération.

Quando a jornalistagem pariseense começou a descobrir que Kouchner estava a ser aliciado por Sarkosy, com a confirmação via a France Press, os dirigentes do PS francês não queriam acreditar e começaram a descompô-lo ao telefone. D.Strauss-Khan, o grande e pérfido rival de Ségo, fala de "traição a si próprio" para explicar a atitude de Kouchner. Este dizia na campanha que Sarkosy "não tinha vergonha em pescar nas águas da extrema direita" e dava-o como "particularmente perigoso e completamente irresponsável" pelas expressões do PR agora eleito sobre a pedofilia.


"«Trahison». Plus acerbe, DSK a jugé que «ce n'est pas obligatoirement la meilleure solution pour quelqu'un qui a été ministre de la gauche de servir aujourd'hui une politique qui ne peut pas être la même». Pointant «le risque d'une trahison de soi-même». D'autres mettent en avant les propos que l'ex-ministre de la Santé a tenus, durant la campagne. Kouchner parlait-il de Sarkozy comme d' «un homme qui n'éprouve aucune honte à pêcher dans les eaux de l'extrême droite». Le présentant aussi comme «singulièrement dangereux, voire complètement irresponsable» quand il commentait ses propos sur la pédophilie."
FAR

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Hidroeléctrica de Cahora-Bassa

Há novidades no XITIZAP. Leia lá o artigo: "HBC, Lei e Piedade"

Passeando os cães em N.Y.


Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

Universidade de Coimbra: mais violências das praxes!

Começou por ser mais um caso público de praxe violenta. No dia seguinte passou a dois. No primeiro caso, um jovem estudante viu-se "imobilizado por colegas mais velhos e alguns começaram a rapar-lhe os pêlos púbicos com uma lâmina de barbear" do que "resultou o rompimento de parte do escroto do caloiro", segundo conta um jornal diário. O outro "para além de unhas negras, resultantes de apanhar com uma colher de pau" sofreu cortes no couro cabeludo com uma tesoura enquanto lhe cortavam o cabelo, segundo outro jornal diário regional. Um apresentou queixa ao Conselho de Veteranos (CV), o outro, junto das autoridades policiais.

José Luís Jesus, dotado do "nobre título" dux veteranorum da Universidade de Coimbra, garante-nos que os agressores "estão devidamente identificados"; que ainda "esta semana serão feitas todas as averiguações"; e que caso tenha havido abusos "o CV vai até às últimas consequências". Além de se fazer passar por uma autoridade para tratar o que as leis normais, iguais para toda a gente, deveriam resolver, este estudante acrescentou ainda, em declarações mais recentes: "já sabemos que é tudo mentira! Se o estudante tem um rompimento no escroto, foi porque fez outra coisa qualquer!" Parece incrível, mas é verdade: as "leis" da praxe são feitas para proteger e fomentar a barbaridade e não precisam de grandes averiguações para "julgar" e tomar as suas "decisões".

Surge então uma pergunta: Que entidade é esta, o "CV", e as pessoas que o constituem, os "duces", que se auto reveste do poder de identificar, averiguar, julgar e condenar situações nas quais não esteve directamente envolvida? O Estado reconhece-lhe esse direito?

É inaceitável que se pense que as pessoas que praticam as praxes podem ser as mesmas a fiscalizar os actos por si praticados, e ainda para mais consideradas idóneas. Como se pertencessem a uma instituição à parte, numa proposta de mundo à parte – a Universidade. É exactamente essa proposta de Universidade-fortaleza, fechada ao mundo, que recusamos.

A sociedade vai perdendo a ilusão de que as praxes não passam de um conjunto de brincadeiras menores e que até é normal que tenham instituições próprias que a regulem. Mas se por algum motivo não tivessem acontecido cortes no escroto ou no couro cabeludo, nódoas negras e hematomas, estes casos teriam sido notícia? O CV consideraria aquela praxe admissível?

O Conselho de Veteranos talvez responda sim a esta pergunta alegando, em defesa dos agressores, que o aluno aceitou ser praxado. E novas questões se colocam: em que condições aceitou ser praxado? Foi de livre e espontânea vontade que avançou para a praxe, com o conhecimento prévio do que lhe poderia acontecer? Não foi persuadido sob nenhuma forma, física ou psicológica (e o motivo da integração adapta-se perfeitamente a este tipo de persuasão) para se submeter à vontade dos praxantes?

Infelizmente, sabemos que a coragem de não aceitar e denunciar estas violências é quase sempre "premiada" com o abandono e a hostilização das vítimas e a cumplicidade com os agressores: o passado recente mostra-nos que os responsáveis pelas escolas e pelo ministério são os primeiros a contribuir para o clima do medo e da impunidade.

O Movimento Anti "Tradição Académica" não aceita esses poderes obscuros e sem qualquer legitimidade e considera que estes casos não são acontecimentos isolados mas que acontecem devido à própria natureza da praxe. Condenamos as violências inerentes às praxes quer se tornem em casos públicos ou não. Apelamos aos estudantes que rejeitem qualquer forma de praxe, bem como todas as imposições e os poderes absurdos de estudantes sobre estudantes disfarçadas de brincadeiras e "tradição". A lei da praxe não vale nada, nem pode sobrepor-se às leis do país e ao convívio entre estudantes sem imposições, sem chefes e sem violências.

Por último, mantemos a expectativa de que o Sr. Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Mariano Gago, mantenha o perfil de indignação que já demonstrou relativamente a situações semelhantes, esperando ainda pelo momento em que verdadeiramente coloque na agenda a reflexão e acção sobre este tema. Para ele, como para toda a comunidade escolar e sociedade em geral, desistir e abreviar responsabilidades seria uma atitude inaceitável. E speremos que, à semelhança do que aconteceu noutros casos como o de Ana Sofia Damião, não seja a própria instituição escolar a querer ocultar o que se passou para manter o bom nome da casa.



--
M.A.T.A. - movimento anti "tradição académica"

Índia


Da série "Índia Íntima". Mombai. 1995

Foto de Sérgio Santimano

Por uma Nova Esquerda: as posições da ATTAC e da ala neo-marxista dos Verdes

Depois de Bernard Kouchner, o fundador dos Médicos sem Fronteiras,
Jacques Attali pode juntar-se a Georges-Marc Benhamou para aconselhar Sarkozy no palácio do Eliseu...

Bernard Kouchner, o médico famoso inventor dos MSF, Médecins sans frontières, o french doctor, personalidade política da elite mundial chamado por Kofi Anan para resolver, entre outros focos de insurreição mundial, o conflito do Kosovo, deu mais uma cambalhota e deixou-se seduzir pelas "ninfas" do staff de Sarkozy, sendo muito provável que venha a dirigir o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o segundo ou terceiro lugar do organigrama do poder de Estado da nova direita vencedora das presidenciais. Kouchner, de quem se dizia mundos e fundos, vaidoso e banhado em perfumes Dior na selva, traiu as suas reiteradas juras para com o PSF e Ségolène e juntou-se ao inimigo. Cohn-Bendit deve estar transido de raiva, ele que apostava tudo na renovação política leiloada por Kouchner depois que Rocard se afastou de todas as pretensões a ser de novo líder dos socialistas. O mau exemplo do french doctor parece instilar contágio: Attali, o célebre judeu-conselheiro de Mitterrand, pode juntar-se ao miterrandocrata Benhamou na difícil função de conselheiro presidencial. É muita desgraça de uma só vez, convenhamos.
Na série dos artigos publicados pelo Libération, subordinada ao tema, Para uma Nova Esquerda?, cabe a vez de assinalar as posições de Susan George, da direcção da ATTAC, Associação de Educação Popular virada para a Acção, clicar aqui, e o do neo-marxista ecologista, Alain Lipietz, clicar aqui, por seu turno. A particularidade das duas contribuições reside em destacarem a componente "bushista" da estratégia de conquista do poder supremo por Nicolas Sarkozy., já que o ex-liguista transalpino, Fini, saudou o novo PR gaulês no Le Figaro...
Susan George sublinha que "foi eleito e bem eleito quem disse o que fará e que fará o que disse. Ele fará bons presentes às empresas multinacionais do topo da bolsa de Paris, às grandes fortunas e, em menor escala, às classes médias superiores. As outras classes que se lixem". E avança para a definição do conceito de mundialização neo-liberal, a seguir, deste modo: " Constitui em última análise a vitória da ideologia daqueles que chamo de " gramscianos de direita ", porque compreenderam o conceito de "hegemonia cultural" forjado pelo pensador marxista italiano, António Gramsci. (...) A classe dominante triunfa quando consegue fazer pensar as pessoas como " o devem " fazer com os seus valores. Se se chega a ocupar a mente do povo, não existe necessidade de coerção: os corações, as mãos e os votos obedecerão ". E avança como arma anti-sarkozista, por excelência, o conhecimento e a acção, porque, frisa,"para mudar as coisas, é preciso compreender, dotar-se de factos, de argumentos, de análises e ser capaz de desmistificar os que se lhe opõem".
Alain Lipietz, num longo texto de análise da derrota da Esquerda, pondera: "Não está tudo perdido. A direitização da direita desencadeou o seu antídoto: uma cisão do Centro: O eleitorado de Bayrou deu a maioria a Ségo nos centros das cidades e em toda a fachada atlântica. Noutros lados, com o apoio de le Pen, assegurou o triunfo de Sarkozy. Esta brecha entre a direita e uma parte do Centro, foi o que permitiu à Itália sair do reinado de Berlusconi. Os eleitores de Bayrou que não ousaram votar Royal, se o tivessem realizado talvez pudessem ter invertido o resultado. Podem ainda fazê-lo na hora do voto decisivo, a segunda volta das próximas legislativas". E exorta, por fim: "A esquerda não se deve pautar pelos valores dos centristas, mas, isso sim, renovar-se de modo a cativa-la para alinhar a seu lado. E o anel que falta entre o centro e a esquerda deve-se procurar na ecologia política. Porque a ecologia, urgência universal, não pode ser realizada senão pelos valores da solidariedade, com as armas da democracia, frente à ditadura dos mercados".

FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

terça-feira, 15 de maio de 2007

Ilha de Moçambique


Ilha de Moçambique. 2003

Foto de Sérgio Santimano

Era bom ter um pouco de vergonha (3)

A curiosidade (ou talvez não) de ver um "liberal" defender a pena de morte (aqui e aqui). Para os «sequestradores, raptores e comerciantes de crianças», claro está. Mas com resposta à altura da SV nos comentários a ambos os posts.

Editado após comentário do autor citado.

Era bom ter um pouco de vergonha (2)

Uma adolescente curda de 17 anos foi lapidada até à morte por namorar com um rapaz de outra religião. Mas desta vez não vimos os islamofóbicos de serviço, e os adeptos do "choque de civilizações", a condenar o acto com a veemência tão característica de outras ocasiões. A razão? É que a rapariga não era islâmica, pertencia a uma religião minoritária chamada "yezidi", o seu namorado é que é muçulmano. Ora, isto pode levar a considerações que não são nada favoráveis aos defensores de tais teorias: a de que estas questões são culturais, transversais a várias religiões; e a de que um verdadeiro problema é o ódio inter-religioso, que vive de falácias identitárias, as quais os acima citados alimentam. Nesse sentido, lamento dizê-lo, não são muito diferentes dos mullahs.

Era bom ter um pouco de vergonha (1)

De acordo com esta notícia do DN, baseando-se em investigações do jornalista espanhol António Salas, que esteve um ano infiltrado nos movimentos skins espanhóis, a extrema-direita ibérica estará ligada ao tráfico de mulheres para prostituição na península. A juntar aos vários casos de violência e assassinato confirmados e julgados, e às fortes suspeitas de participação em tráfico de armas e drogas pesadas. É caso para perguntar a quem insiste em desvalorizar tudo isto, através da comparação (para não dizer pior) com a "criminalidade organizada" da extrema-esquerda, que, como se sabe, consiste em de vez em quando pintar uns graffitis nas paredes, mais raramente ocupar umas casas, e de tempos a tempos atirar pedras à polícia, se ainda consegue ter vergonha na cara, tal é o nível de desonestidade intelectual a que a sua esquerdofobia o obriga. E, já agora, se tiver o desplante de responder, que não o faça com esse patético argumento de que quem o acusa desta parcialidade é o tal vigilante anti-fassista, como tão ridiculamente gosta de escarnecer. É que corre o risco do feitiço se virar contra o feiticeiro, e acabar a escarnecer de si próprio.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

EUA: 30% das crianças sem cuidados de saúde

"Cerca de 30% das crianças norte-americanas (23,7 milhões) vive sem acesso regular a cuidados de saúde num dado ponto de um dado ano, de acordo com um estudo revelado esta quinta-feira pela associação Fundo de Saúde das Crianças.

Estes dados incluem nove milhões de crianças - definidas no estudo como pessoas com menos de 20 anos - sem seguro de saúde, 11,5 milhões sem qualquer tipo de cobertura médica num dado ponto de um dado ano e 3,2 milhões que não têm acesso a consultas médicas por falta de transporte fiável.

«Mais crianças do que nunca têm dificuldades em obter os cuidados médicos de que precisam e não é apenas uma questão de seguro», afirmou o Dr, Irwin Redlener, presidente do grupo que elaborou o estudo.

O mesmo responsável afirma que a perda da possibilidade de cuidados médicos é muitas vezes gerada ou pela entrada no desemprego de um dos pais, ou pela mudança de um progenitor para um emprego que não oferece seguro de saúde, ou ainda por ganharem demasiado para entrarem no Medicaid (sistema governamental de cuidados de saúde para os pobres) mas não o suficiente para pagarem um seguro privado de saúde.

Por último, Redlener, fundador da organização a par com o cantor Paul Simon em 1987, adverte que «crianças com problemas de saúde negligenciados terão problemas na escola e poderão vir a ser bem menos produtivas do que poderiam ser»."

Diário Digital / Lusa

03-05-2007

Império sim...mas a que preço?
Notícia recolhida pela Annie, especialmente dedicada ao Jota Esse Erre.

New York, New York...em esquadria


Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Por uma Nova Esquerda: Bruckner tenta "lift" de Sarko e outras histórias

O Libé e o Le Figaro continuam a terçar armas na guerra ideológica...
O politólogo Jacques Genereux, associado ao PS como Olivier Duhamel, por exemplo, considera que a derrota de Ségolène é muito " perturbadora". Pois, admite e sublinha, a direita tinha vindo a ser sancionada nos dois últimos anos. "A direita deveria ver-lhe assacado um balanço aflitivo em todos os tabuleiros. A candidata socialista tinha portanto a vantagem de ser a alternativa que podia incarnar a mudança e a rejeição de uma política de quebra-conquistas sociais amplamente contestada por todos os movimentos sociais", frisa, num texto que pode ler clicando aqui.
"Nicolas Sarkozy conseguiu manipular o sentimento de dignidade que confere aos humildes o sentimento de serem mais meritórios que os assistidos. Mas a sua grande força foi de combinar a ideologia (neo-liberal) com um discurso respondendo exactamente às expectativas dos trabalhadores exasperados pelos excessos e as insuficiências do capitalismo liberal: mostrou-se o defensor do poder de compra, e como o único líder ousando falar de novo de proteccionismo, e como o promotor de um Estado eficaz ao serviço do público ", adianta para retratar a campanha de Ségo deste modo: "Longe de reivindicar uma ideologia de esquerda tão determinada como a de Sarkozy, ela mostrou-se a reboque do seu rival não falando senão de ordem, do valor trabalho e da recusa da assistência parasitária ".
Pascal Bruckner, o genial ensaísta da Nova Desordem Amorosa, apoiou Sarkozy. Como o seu amigo Glucksman e o enfant-terrible mediático do mitterrandismo, Georges Marc-Benamou, o criador da famosa revista Globe dos tempos áureos do consulado do deus socialista super-vencedor. Ele tenta o impossível para recuperar Sarkozy, neste texto delirante que pode ler clicando aqui. E diz, entre muitas coisas siderantes, isto: "A sua vida privada de pai de família refeito, as suas desavenças conjugais e a sua relação descomplexada com o dinheiro são tiques tipicamente soixante-huitards. Enfim, sem a influência de Maio 68 e o seu espírito generoso, jamais os franceses teriam eleito um filho de emigrante, judeu e húngaro"... "Ao PS francês a coragem de saber se quer morrer, para melhor ressuscitar como a maioria das esquerdas europeias, ou afundar-se no culto dos pensamentos rígidos e mortos: nada de mais narcísico que a utopia quando ela prefere a secura da ideia à riqueza da realidade". Um bom debate, a ler todo...

FAR

Mambo 19

Lubango 2005


Entrava-se lá para os fundos, por um corredor entre um prédio e a casa. Na sala composta por quatro ou cinco mesas compridas em madeira, os alunos sentavam-se em bancos corridos. Em cada uma delas morava uma classe, da primeira à quarta. Todas as classes tinham a mesma professora que ensinava, dirigia, controlava, no mesmo espaço e em simultâneo todas elas. Havia respeito, também algum medo. A professora ensinava em sua casa, era portanto uma escola particular. À hora do recreio, saía-se ao pátio onde saltitavam os seus gatos. Havia tempo, para se comer o lanche trazido e para se brincar um pouco à macaca, às escondidas... Quando a professora chamava, as crianças entravam sem ser a mastigar. Sabiam que se passassem uma determinada porta estariam na intimidade do seu lar, por isso ficavam-se pela sala grande e pelo pátio. A única casa de banho da casa era no quintal, quando chovia tinham que ir a correr. Não a podiam deixar suja, porque seriam responsabilizados de forma séria. Quando um aluno da última classe não sabia alguma matéria básica, um miúdo das classes anteriores tinha de responder e o outro era então confrontado com a sua falta de estudo perante a sabedoria do mais novato, ficava enxovalhado no seu orgulho de mais velho e o vencedor da resposta ganhava brilhos nos olhos da professora. Todos os erros eram uma declaração de guerra por parte da professora, que armada das palmatórias de vários tamanhos segundo as palmas dos garotos, desencadeava a matança à ignorância de forma muito física. Um erro de ortografia num ditado, correspondia a uma palmatoada. Uma conta enganada, outra. Entre as suas armas estavam também as puxadelas de orelhas de preferência com vinco de unha, os abanões de bochechas, os deveres carregados para casa, a folha de reprimenda escrita no caderno diário para o pai assinar, a não ida ao recreio e uma muito especial para os casos mais graves de indisciplina ou preguiça. A nossa professora tinha em casa uns chifres de impala. Guardava-os lá numa parte da sala. Estavam munidos com um fio, que servia para os segurar à cabeça de algum menino. Então, escolhia um outro miúdo para ir passear com ele ao café Tirol, que ficava em frente. Ia para a janela, para verificar os trajectos e o cumprimento das ordens. Uma vez calhou-me. Sob pena de ser castigada também, acompanhei um colega com uns chifres de impala na testa. Era impossível a rebelião, havia sempre um possível tormento maior para os dois. A nossa professora primária era terrível, mas aprendíamos e todos passávamos nos difíceis exames nacionais, porque não aprender até chegava mesmo a doer. Nesta singular escola, andavam os alunos mais cábulas, desinteressados, preguiçosos, rebeldes, mal-educados e aqueles que por via familiar iam lá parar com esses irmãos que professavam o desespero dos pais. Entrei aos cinco anos para este tipo de ensino, por causa do meu irmão que queria ser um bicho cego, surdo e mudo para não ter de estudar. Um dia não me apeteceu fazer bem os deveres para casa, a minha cópia parecia escrita por um míope, as letras ocupavam cinco e seis linhas de uma só vez. Na outra manhã lá estava a palmatória elevada no ar, pela primeira e última vez dirigida às minhas mãos pequeninas da primeira classe. O meu olhar aterrorizado salvou-me do impacto. A professora perdoou-me porque só encostou a face do instrumento às linhas do meu destino, depois só ralhou infinitamente. A professora tinha um marido bonzinho. Tinha perdido um olho e usava um pano preto, a tapar a assustadora cavidade. Às vezes, ela pedia-lhe ajuda para fazer um ditado. Ele dizia vagarosamente todas as palavras e ela deitava-lhe um vociferar de zanga. A professora também cuidava de nós do lado de fora da escola, enquanto esperávamos os nossos pais no passeio, perto das janelas da sua casa. Num Carnaval, deitámos serpentinas para dentro de um carro estacionado. A nossa professora viu tudo, desde a sua cortina afastada. Obrigou-nos a esperar pelo dono do veículo, a pedir-lhe desculpa e a apanhar todos os papelinhos com que tão traquinamente nos tínhamos divertido. Era uma professora muito atenta.
Os nossos pais gostavam, agradeciam-lhe todos os castigos, menos quando falhava a palmatória e apanhava o pulso do aluno
ou então tinham de lhe pedir, por favor ao meu filho não lhe puxe as orelhas porque sofre de otite, no resto está à vontade, aplique-lhe os curativos… Nós sabíamos que os nossos pais, tinham-na envolta num grande respeito, porque todos aprendíamos. Na modesta casinha verde, era a nossa primeira escola de verdade, lá viviam também a nossa professora, o seu marido bonzinho com o pano preto na falta do seu olho, e os seus gatos muito educados. Um dia eles morreram e ficámos todos tristes.
Muitos de nós terminámos a primária, numa escola oficial onde já não batiam nem ralhavam, mas nós já não gostávamos tanto da professora. Já não era nossa.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

A Indústria do Insucesso

(um post motivado pelo post da Gabriela)
Existe, entre nós, uma indústria subterrânea que floresce há muitos anos de uma forma próspera.
Gera pequenas fortunas, nas mais das vezes trânsfugas ao Fisco. Vive de forma parasita pois alimenta-se daquilo que o sistema linfático (Ensino) não consegue produzir: o sucesso.
Explicando melhor: a disciplina de Matemática conseguiu criar uma indústria - chame-se ela de explicações ou salas de estudo ou qualquer outra designação que se lhe queira dar. Nas nossas salas de aula a disciplina de Matemática vai criando, desde o 1º ciclo, uma camada de anti-corpos que chegam até ao 3º ciclo num estado tal de acumulação que nada nem ninguém os será capaz de remover. Os nossos alunos - aqueles que não possam ou queiram recorrer à Indústria - serão incapazes de aceder a qualquer curso que, no ensino secundário, lhes possa dar acesso ao ingresso num curso superior com graus de exigência altos.
Os nossos rebentos progridem - é este o termo utilzado em 'eduquês' - mas mancam. Não sabem nada ou quase nada de Matemática. Estarão, à partida, excluídos do sistema educativo se os pais não deitarem mão do único recurso disponível: a Indústria.
E a Indústria é mantida (agora menos...) por quem?...
Precisamente por aqueles que exercem a sua actividade nas nossas escolas, no sistema público.
É possível?, perguntará alguém mais desatento.
É.
Vamos até à formação inicial de professores para o nosso 1º ciclo do ensino básico. Analise-se com atenção o currículo do plano de estudos. Neste momento temos (muitos) professores no terreno com graves carências no que toca à Didáctica do ensino da Matemática. Não sabem o que ensinar, nem como ensinar pela simples razão de que muitos deles desistiram da Matemática quando estavam no 9º ano de escolaridade.
Fiquemo-nos por aqui. Era só para despoletar alguma polémica...

Punk Maria


Museu Cloisters de Nova Iorque. 2007

Foto de Jota Esse Erre

domingo, 13 de maio de 2007

Ana Cristina Leonardo: Bernard-Henri Lévy Vertigem Americana

Não é a primeira vez que «The New York Review of Books» discorda de Bernard-Henri Lévy. Aquando da saída do seu livro Quem Matou Daniel Pearl? (Livros do Brasil, 2003), William Dalrymple seria demolidor, acusando-o de erros factuais, informações falsas e investigação amadorística. A propósito de Vertigem Americana (Edições Caderno), não se pode dizer que tenham sido mais simpáticos. « Lévy is short on the facts, long on conclusions», resumiu Garrison Keillor, directamente «to the point». No «San Francisco Chronicle», Michael O'Donnell não foi mais meigo. Referindo-se ao subítulo da obra, «Uma viagem pela América profunda seguindo os passos de Tocqueville», sublinhou a vacuidade da ideia que lhe subjaz, segundo ele tão despropositada como a de alguém que pretendesse ter escrito Madame Bovary II.
A ideia, porém, não foi de Lévy. Vertigem Americana resulta de um convite feito pela revista «Atlantic Monthly», para que, durante um ano, ele refizesse a viagem aos EUA do francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), da qual nasceu A Democracia na América (Principia, 2002), obra que se tornaria num marco do pensamento político, inspirada defesa da democracia e não menos inspirada reflexão sobre os perigos que ela própria engendra. Vertigem Americana não corre esse risco.
A intenção parecia boa. Como Tocqueville, também BHL se propunha «misturar as coisas vistas com o pensamento», e isto apesar das suas interrogações, passados 172 anos, serem outras. Em primeiro lugar, o anti-americanismo. Depois, «a questão ontológica» europeia. Finalmente, o actual estado de saúde da democracia americana. Todo um programa!
Tocqueville fora mais modesto. A sua viagem visava, tão só, estudar o sistema prisional americano. Chegado, porém, a esse Novo Mundo em turbilhão, «open mind» «avant la lettre», mergulha numa realidade que o surpreende e fascina e dessas «coisas vistas» cria um pensamento original. Ora, nada do que Vertigem Americana nos traz é particularmente original ou, sequer, novo.
Claro que nas 366 páginas escritas por BHL (sem qualquer episódio de humor, mesmo tendo ele percorrido 20 mil quilómetros!), podem colher-se informações interessantes ou desconhecidas para o leitor. Páginas somadas, as ideias são fracas e a maioria das reportagens banal. A entrevista a Sharon Stone, a cruzar e a descruzar as pernas enquanto critica Bush, é patética. O retrato de Woody Allen a tocar clarinete em Nova Iorque não acrescenta nada, mesmo que nunca o tenhamos ouvido tocar clarinete ou ido sequer a Nova Iorque. O encontro com uma bailarina de «lap dancing» de Las Vegas confirma a «miséria erótica em meio puritano», mas teria sido preciso ir ao deserto? E que aprendemos de novo sobre o criacionismo, os malls ou o lobby das armas? E, já agora, o que é que Lévy realmente pensa de Billy Kristol ou de Fukuyama? A descrição de Los Angeles como «anti-cidade» é dos piores momentos do livro, exemplo maior da pomposidade do estilo e do vazio de ideias. Como assinalou David Singerman, no fim, a única coisa que conseguimos concluir é que LA é grande. Além de que alguém percebe o que quererá dizer: «Uma cidade ininteligível é uma cidade cuja historicidade não é mais do que um remorso sem idade»?
No final, BHL conclui que os EUA, apesar dos erros e fragilidades, não são o Império do Mal, possuindo energia suficiente para «entrar em beleza no novo século». Para filósofo, é pouco. Por estas e por outras, para entender a América de hoje, será preferível ler Tocqueville ou reler Notas sobre um País Grande, de Bill Bryson. Quanto a BHL, foi-lhe dedicado Une imposture française (2006, Les arènes), de Nicolas Beau e Olivier Toscer, jornalistas, respectivamente, do «Canard Enchaîné» e do «Nouvel Observateur». Também podíamos ler.

Ana Cristina Leonardo