segunda-feira, 30 de abril de 2007

Digressão interna (III)

Ainda faltava uma meia dúzia de horas até ao concerto…!
Fosse porque a fome, leia-se, sede, do tipo bíblico, começava a apertar, que houvesse a agenda do Encontro Mundial de Viggis para despachar, fosse porque a boa prudência exigia que nos puséssemos a recato de uma subversão na esquadra, decidimos esgaçar o passo rumo ao “Moutinho”, embora com a promessa de voltar, rebentar as fuças ao bófia do chanfalho, o Lopes, e arrancar a farda à nossa agente da PSP- fazendo dela uma mulher…civil. Mais a habitual Intifada de insultos. Estes gajos não crescem…
E foi assim que desaguámos no estábulo da nossa sorte, recebidos, confesso, com meio sobrolho do Moutinho e duas ou três risadinhas multiculturais da senhora de Moutinho. Curioso… não é a primeira vez que isto acontece. Estranharão a pala negra do Mad Dog? Sentir-se-ão ameaçados pela bomba de asma do Clarence?
Seja como for, o degelo foi instantâneo. “Olhe, enquanto a gente escolhe, traga-nos meia dúzia de garrafas do melhor alentejano da casa e tomem providências para que não nos falte vinho; vire um pouco a televisão para a nossa mesa e quando começar o Portugal/Bélgica aumente o som…que a gente vê mal…de tanto forçar a vista cansada ficámos com os olhos vermelhos”. Era apenas o princípio de uma grande amizade; à segunda meia dúzia já tratávamos o Moutinho por ó cabrão e o Luís P. desafiava a patronne a tirar a camisola.
Nos intervalos, como se disse, foi sendo despachada a agenda Viggi e deram-se os últimos retoques na playlist do Mad Dog. Por entre telefonemas aos Santeros que jantavam algures no deserto vermelho.
A agenda foi, pois, sendo aviada nos espaços que sobravam dos “viva Portugal e o Cristiano é o melhor do Mundo” e alguns apontamentos eruditos sobre a Bélgica e os Belgas- “é o país dos dois estrumes e de uma bosta singular (Bruxelas), Portas nasceu lá (Bruxelas), são todos paneleiros, menos o Brel, o Jean-Marie Pfaff e o Preudhomme, e o maquinista é o rei Balduíno, na avenue Louise até os cães são rabetas, os flamengos aliviam-se nas vacas, a Yourcenar fugiu, Liége tem mais idiotas por m2 do que Carrazeda de Ansiães.
Entre os vários pontos abordados, desequilibradamente, sublinhe-se a escolha de Francis Obikwelu para ‘melhor português de sempre’- um gajo que não é português e quer sê-lo é sem dúvida o melhor de todos nós; Marques Mendes, com a licença de Wag the Dog, que por sua vez deveria pedir licença a Vargas Llosa, é um infiltrado albanês com objectivos sinistros- subtrair-nos, substituindo-nos por albaneses de metro e meio, e declarar o estado de Nova Tirana. Diz que, Mendes quer transformar o Palácio de Belém numa mesquita, interditar o álcool, proibir o futebol e o entretenimento em geral. Os albaneses de Nova Tirana só poderão alegrar-se no Karting e nos Matraquilhos, beber laranjada e tocar ao bicho.
Houve lugar, também, para um momento de Cardiologia, a cargo do Luís P., um momento de politicamente correcto- mudar a designação do pau preto e da peste negra-, falou-se do cogito ergo sum do Estado (protejo, logo obrigo) e foi novamente reiterada a expulsão de Gomes da Silva. Landru, muito diplomaticamente, não se manifestou, mas foi encomendando o avental, as divisas, o báculo e a farda de gala Viggi. Brindou-se a um longo consulado do novo secretário-geral.
O jantar/comício estava no fim. Ainda deu para mais uma meia dúzia de tintos e para cantar o hino Viggi na sua dupla manifestação Zen: “A Negra tava mamando” e “Minhas Botas Velhas Cardadas”. O casal Moutinho bateu palmas e implorou “voltem, voltem mais vezes; mas avisem com um ano de antecedência”.
Refez-se a formatura no exterior, alinharam-se tempos, e, tequilla propelled, lá fomos a todo o vapor para o “El Mareado”, o palco que haveria de receber a velocidade dos Santeros e a massa do Mad Dog.

(continua)

JSP

Ségolène Royal "escolhe" Strauss-Khan como PM e Bayrou fustiga Citizien Sarko

Recta final da campanha presidencial: Glucksman "absolve" o seu poulain. Sondagens continuam a ser favoráveis a Sarko, que manobra os Grandes Média...Ségolène Royal defende o Small Business Act, big-bang!

Numa importante e última entrevista ao Le Monde, clicar aqui, Ségolène Royal indica como provável primeiro-ministro, Dominique Strauss-Khan, o chefe de fila dos rocardianos e dos sociais-democratas puro sangue do PSF. Trata-se de mais um "piscar de olhos" a Bayrou e aos seus 8 milhões de votantes. A hipótese de Bayrou se tornar PM, não é excluída por Ségo. A candidata da Esquerda afirma que, hoje, a "economia de mercado é incontornável", mas, precisa, que "é necessária uma certa regulação para evitar as desordens". "Tudo o que será reinvestido na empresa irá beneficiar de reduções fiscais. Quero um pacto de crescimento com as PME, o Small Business Act"

Entretanto, Sarkozy realizou um megacomício no palácio dos Desportos de Bercy, onde esteve presente Villepin, a caterva de cançonetistas (sem Enrico Macias, mas com Johnny Halliday) e o novo-filósofo André Glucksman, que ilibou, in vero, o seu novo alter-ego político de tentações racistas e totalitárias... Sarko promete pleno emprego e autoridade, nesta recta final.

Entretanto, o Libération, clicar aqui, analisa o alto controlo e manipulação com que Sarkozy e os seus muchachos "arrebanham" a grande maioria dos Grupos Médias franceses. Vejamos este panorama delirante: "Primeiro, existe Martin Bouygues, o mais próximo de todos, o seu melhor amigo, e, isso cai bem, patrão da TF1 (considerada a maior TV da Europa...). Mas há também Arnaud Lagardère, seu irmão, patrão do grupo que abriga no seu circulo Europe 1, Paris Match, Le JDD, etc. Sem contar Serge Dassault, o filho dos pioneiros da aviação militar, desiludido com o chiraquismo, e proprietário do Le Figaro, o segundo maior jornal francês...Bernard Arnault, o super-capitalista do grupo LVHM, moda de luxo e dono dos melhores vinhos e champanhes do Mundo, que foi padrinho de casamento do casal Cecilia-Nicolas Sarkozy, proprietário do jornal económico La Tribune, ou ainda François Pinault, proprietário do Le Point e comparsa dos passeios de bicicleta".


FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

domingo, 29 de abril de 2007

"Cavaco no Parlamento"

"(...)
Importante é que um segundo 25 de Abril já passou, sem grandes molhas. E numa inanidade bem gerida, a fazer alguns consensos importantes. O mais vistoso, aliás, foi o de Marques Mendes consigo mesmo, já que ele tão alegremente se reviu no Portugal apocalíptico de Paulo Rangel, como no Portugal de Cavaco, promissor de radiosas madrugadas."(clicar para ler tudo)
Nuno Brederode Santos, Diário de Notícas, 29/04/2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Orchestra Marrabenta Star - Wazimbo


Com a devida vénia ao Forever Pemba

Niassa .3


Da série "Terra Incógnita". Niassa 2001/2005. Moçambique

Foto de Sérgio Santimano

sábado, 28 de abril de 2007

Edgar Morin: "O sistema planetário está condenado à morte caso não haja mudança"


(imagem tirada de http://nicolier.blogs.com/journaliste/morin-edgar1-1.jpg)

Edgar Morin, o grande filósofo francês com grande impacto em Portugal, escreveu no Le Monde, na passada quarta-feira, dia 25, um texto desassombrado sobre o futuro político e social da França na Europa e no Mundo. Trata-se de uma peça de grande qualidade e importância. Alerta para o facto, em primeiro lugar, de que " vivemos integrados numa comunidade com finalidades planetárias, fazendo face às ameaças globais que são suscitadas pela proliferação dos arsenais nucleares, o crescimento exponencial dos conflitos étnico-religiosos, a degradação da bio-esfera, o curso ambivalente de uma economia mundial incontrolada, a tirania do dinheiro, e a união de uma barbárie vinda do fundo dos tempos com a barbárie gelada do cálculo técnico e económico".

Segundo o autor do "Método do Método", e advertindo que o que propõe é, tão só, "uma estratégia (e não um programa) que tome em consideração os acontecimentos e os acidentes ", avança com a proposição de uma política de civilização: " Uma política de civilização que contribua para o renascimento das diversas formas de solidariedade, que faça recuar o egoísmo e, de um modo aprofundado, que contribua para reformar a sociedade e as nossas vidas. De facto, a nossa civilização está em crise. Lá, onde chegou, o bem-estar material não gerou o bem-estar mental, como o exemplifica o consumo delirante de drogas, ansiolíticos, antidepressivos e soporíferos. O desenvolvimento económico não realizou o desenvolvimento moral. A aplicação do cálculo, da cronometria, da hyper-especialização, da separação no trabalho, nas empresas, nas repartições e na nossa intimidade, acabaram por gerar amiúde a degradação da cadeia de solidariedade, a burocratização generalizada, a perca de iniciativa e o medo da responsabilidade".

"Defendo a revitalização da Fraternidade, subdesenvolvida na trilogia republicana Liberdade-Igualdade-Fraternidade. Preconizo a criação da Casa da Fraternidade nas mais diversas cidades espalhadas pelo país, e também nos bairros de Paris. Podem vir a ser lugares de criatividade, de dinâmica e mediação, de socorro moral e material, de Informação, de benevolato e de mobilização permanente . (...) Como o curso actual da nossa civilização privilegia a quantidade, o cálculo, o ter, defendo uma intensa e vasta política de qualidade de vida. Favorecerei tudo o que combate as múltiplas degradações que envolvem a natureza, a alimentação, a água e a saúde. Toda a economia de energia deve gerar um ganho de Saúde e de qualidade de vida".


FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Digressão interna (II)

Escusado será dizer que o Landru, nosso vaticanólogo de referência- é dele a teoria sobre a castidade virtual de sua santidade- e também perito nas relações entre o catolicismo e a indústria farmacêutica- o viagra e a irmã Lúcia-, desembarcou no cais do Barreiro em cima de uma nuvem. Não era caso para menos…não só se preparava para assistir a um concerto integral de Mad Dog e dos Santeros, como muito principalmente estava fresco de ter sido admitido nos Viggis e logo na importante posição de secretário-geral. Aliás, Landru foi, perante a estranheza dos indígenas a quem ofereceramos boleia na “Mad Dog Van”- uma Volvo de 55 lugares que, quando não está sendo precisa, é geralmente emprestada aos Transportes Colectivos do Barreiro-, saudado de forma efusiva pelos demais Viggis. O habitualmente circunspecto Landru, também conhecido pelo cognome de ‘Príncipe da Cidade’, não escondia, pode dizer-se, satisfação e orgulho por ir ocupar um posto que fôra do canalha Gomes da Silva- expulso por delitos axiológicos e pressão do Sérgio Albasini.
Landru reciprocou com uma demonstração de destreza em movimento acelerado: enrolou um charro em menos tempo do que o motorista levou a dizer “não tarda, ponho-vos na rua” e ofereceu a primeira rodada de baldes, no primeiro “buraco” que encontrássemos. Par hasard…a Associação dos Dadores de Sangue do Barreiro. Simpática colectividade da Avenida da Praia que explora um misterioso “comes e bebes”, servido por um duo de barmen: um sósia amarelecido de Peter Cushing e um exemplar do tipo Bela Lugosi on steroids. Declinámos, obviamente.
Havia, pois, que encontrar amesedação condizente com a estirpe da delegação e com a circunstância de ir ser transmitido o Portugal/Bélgica. Lá partimos na demanda do Shangri La: acabámos por estacionar no restaurante “O Moutinho”, propriedade e serventia de um simpático casal da família do grande João Moutinho do Sporting.
Como descobriu Ponce de Léon- no relation-, a viagem assegura a juventude. Razão porque deambulámos bastante até assentar guardanapos no Moutinho. Passando pela sede de um jornal local- Mad Dog comparou-o, para o quem quis ouvir, com o “Choson Sinbo” de Pyongyang, por um mono que aparentava a dignidade de uma mairie mas deve funcionar como clínica de ‘anger management’, a julgar pelos cabrões, sacanas e filhos da puta com que fomos bombardeados, por dois ou três estábulos feitos ‘casas de comida’, e por algumas escalas técnicas para repor líquidos.
Par hasard, também, passámos frente à esquadra da polícia. Um edifício salazaroso, com um adiantado modernista, tipo marquise ao contrário, jardim de Inverno ou gazebo gradeado.
Na dita antecâmara, iluminada, transparente para o exterior, uma valerosa agente da polícia democrática de Alberto e António Costa vagueava pelo teclado de um laptop. Alguns de nós, não vou identificar, acharam que seria interessante chegar à fala com a mulher fardada. Nunca se sabe…e nas polícias democráticas é um par ou ímpar, um cara ou coroa.
“Sua puta, sua grande puta”, foi a fórmula encontrada para quebrar o gelo. Os nossos sagazes leitores já estão a saborear o que se seguiu…mas estão enganados.
A nossa agente, permitam que a refira deste modo, levantou os olhos do écran, onde se atropelavam vários sites de organizações de direitos humanos, e respondeu ao charlot que emergia do interior da esquadra de chanfalho estalinista na mão…”deixe-os lá, Lopes, são uns velhinhos… e já vão cá com uma carroça…que não chegam ao asilo”.

(continua)

JSP

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Memórias

A propósito da manifestação dos anarcas em Lisboa, e da carga policial que se lhe seguiu, vou contar uma história: há uns aninhos, quando eu era um bocadinho mais radical que agora, participei numa manifestação do mesmo génro no Porto. O objectivo era protestar contra a realização da cimeira da OSCE, em que se aprovaram várias leis limitadoras das liberdades individuais a pretexto da "guerra ao terrorismo".
A manifestação teve uma particularidade notável: deu-se às 7h30m da manhã. O objectivo, com o qual não estive de acordo desde o princípio, era "estragar o pequeno-almoço aos ministros". Tentar-se-ia manifestarmo-nos durante todo o dia. A essa hora, estiveram cerca de 50 pessoas em frente da Alfândega: algumas ainda dormiam.
A manifestação durou o tempo da descida dos Caldereiros à Alfândega, e mais um minuto em frente a esta. Ninguém insultou a polícia. O trânsito não foi cortado. Ao fim desse minuto foi vítima de uma brutal carga policial, efectuada por cerca de 100 polícias, de choque e outros. Fui preso, juntamente com mais dez pessoas, uma das quais a minha namorada da altura. Fui também agredido à bastonada, tendo ficado com um hematoma na perna do tamanho de uma bola de ténis.
Após varias e engraçadas peripécias na esquadra, todas com o objectivo de empatar ao máximo a nossa situação e levar-nos o mais tarde possível ao tribunal, fui ouvido ao fim de cerca de 10 horas detido. Acusaram-nos, como agora acusam os manifestantes de Lisboa, de estarmos armados com paus (que eram os cabos das faixas e bandeiras), de termos insultado e provocado a polícia, e de cortarmos a rua. As acusações foram arquivadas, e foi aberto inquérito à actuacção da polícia pela Inspecção Geral da Administração Interna, no qual testemunhei, mas de que desconheço o resultado. Tivemos a imensa felicidade de estar presente no local a câmara da SIC. Estive no total detido 12 horas.
Sendo estas as minhas memórias, não me é difícil acreditar na versão dos manifestantes. Acho-a absolutamente plausível e provável.

Absolutamente imprescindível...

...Economistas do lado esquerdo no Ladrões de Bicicletas. Também outro óptimo blogue de esquerdalhos adicionado, o Spectrum.

Niassa .2


Da série "Terra Incógnita". Niassa 2001/2005. Moçambique

Foto de Sérgio Santimano

Digressão interna I

Como soe dizer-se, o prometido é devido...mais os juros simplesmente vincendos. Dirijamo-nos, pois, ao local e momento em que arrancou a digressão de Mad Dog Clarence, descrito nas publicações da indústria, pouco, e no boca-a-boca, muito, como o ‘mítico bluesman do Cais do Sodré’, por terras inóspitas do Barreiro.
Porque a logística é complicada, tanto mais que, para além do staff técnico que habitualmente acompanha o artista, daquela feita pontificavam delegações do exterior (Suécia e China), o “party”, no sentido de grupo, bando, delegação, concentrou-se, pois claro, no British Bar, ao Cais do Sodré. Daí executar-se-ia a ‘transfega’ do artista e convivas para a Outra Margem, onde residem, aliás, os três elementos da banda de apoio nos concertos do Clarence: “Los Santeros”. Sigamos por narrativa simples, pesem os sacrifícios da estilística e da prosódia. Prosódicos não paródicos.

Pelos princípios da tarde de sábado, cerca das 5 horas, Mad Dog e convidados, mal refeitos, ou ainda desfeitos, da noute de sexta-feira, foram arribando à sala de reuniões do BB. Completada a guarnição, passou-se ao briefing técnico/artístico- acústica na sala do El Mareado, play-list, afinação dos instrumentos, as estafada leviandades sobre a origem dos blues, do delta aos urbanos, style, suportes de gravação, e, não há volta a dar, cachets. E outros assuntos menores, tais como a ausência de horários, consequências do desconhecimento da localização do espaço do concerto- “é ali, mais ou menos, perto do El Mareado…a malta pergunta, alguém saberá”, e, principalmente, onde estavam os Santeros?
Claro, simultaneamente, sem prejuízo da atenção prestada às explicações do Clarence, foram sendo tombados os primeiros baldes de cerveja. O Mad Dog optou pelas Cubas Libres, ao que disse, por motivos exclusivamente vocais.
Não se pense, todavia, que o nível desta etapa preliminar foi baixo, embora tivesse sido necessário recorrer a um produto orgânico- química, só mesmo a guerra- deveras estimulante. Discutiram-se, por exemplo, questões como a globalização e as fiscalidades dos países escandinavos, melhor, providência e previdência- o líder da delegação sueca concretizou como “filhos da puta da direita querem que eu pague impostos…eu, que nunca paguei”, justificando com o erro induzido por uma má percepção da utilidade marginal keynesiana “pensei que isso significa que é mais útil ficar na margem, recebendo e não pagando”-, a iminente desintegração do Bloco de Esquerda, o excelente trabalho que vem sendo feito pelo governo de José Sócrates, a castidade de Bento XVI como alegoria, o irreversível regresso à economia de subsistência no Zimbabué, o denominado, por mim próprio, ‘axioma da machamba’, a revisão do Processo Penal e a SAD do Benfica e a possibilidade de cantar um blue em crioulo cabo-verdiano. Mad Dog trazia, inclusive, uma proposta de letra; o colectivo entendeu que os públicos lusos mal-versados nas subtilezas daquele patois poderiam achar estranho um poema cujos versos terminavam todos em pichón.

Duas horas e vinte baldes mais tarde, e tendo ficado decidido que seria mais prudente ir de cacilheiro, a missão cultural formou no exterior do British Bar e Mad Dog, já ataviado para o concerto (de baixo para cima, sneakers, jeans, camisa preta, gravata castanha com motivo pornográfico pintado à mão, jacket a deux poches, de um espreitava a harmónica do outro uma bomba de asma, pala preta de pirata e chapéu castanho abado ao estilo da Suazilândia) deu voz de partida. Um, dois, três, esquerdo, direito- comunas, filhos da puta-, um, dois três, esquerdo, direito- comunas, filhos da puta-, um, dois, três, esquerdo, direito- comunas, filhos da puta.
Lá fomos, cantando e rindo, em direcção ao cacilheiro, por um atalho ribeirinho que Clarence também atribuiu à excelência da governação de José Sócrates, variando, por sugestão tautológica do líder da delegação da China, então, um tudo nada o estribilho, qual sound byte, que ficaria a marcar esta grande digressão interna de Mad Dog Clarence: filhos da puta… comunas; filhos da puta…comunas; filhos da puta…comunas. E Clarence, treinando o contraponto jazzístico ao mambo trash dos Santeros, replicava: dou-vos uma carga de porrada; dou-vos uma carga de porrada; dou-vos uma carga de porrada.
Chegados ao, chamemos-lhe, terminal fluvial, já não deu tempo para molhar o bico. Foi trepar a bordo da embarcação, cuja modernidade o Clarence também associou à excelência da governação do José Sócrates, aterrar no bar, entornar alguns baldes contra o enjoo, e ameaçar perante a indiferença geral: Barreiro, vais virar braseiro. Ah! Já me esquecia: comunas, filhos da puta; filhos da puta, comunas.

JSP

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Bayrou critica severamente Sarkozy e vai avistar-se com Ségo, Delors...

O candidato da Terceira Escolha, já eliminado, quer empatar os 7 milhões de votos na construção de um novo partido do Centro, Liberal e Social-cristão com as novas formas do modelo italiano...Delors e Cohn-Bendit vão tentar a aproximação eleitoral entre Bayrou e Ségo.

A política profissional francesa desperta à hora da paginação dos jornais On Line, seis da manhã hora de Paris. O Herald Tribune está disponível a partir das duas da manhã na Net. Imaginem o rodopio das redacções e dos estados-maiores partidários...Depois da Primeira Volta, com a presença frontal e dual dos dois candidatos apurados, Ségo e Sarko, assistimos a uma diabólica e múltipla táctica política para o dueto finalista se apropriar de parte substancial do eleitorado de François Bayrou, o centrista e homem de letras que foi a revelação das Presidenciais francesas 2007.

Ségo com a sua ala esquerda muito depauperada - Extrema-Esquerda, PC e Verdes, a valerem só cerca de 10% de votos no total - precisa desesperadamente de Bayrou para colmatar o que lhe falta para vencer. A tarefa é gigantesca e tudo se joga na classe e golpe de asa que, Ségoléne Royal e os seus mucachos, souberem desenvolver no terreno. A hipótese de vir a ganhar reside nisto simplesmente: negociar com Bayrou um protocolo de apoio eleitoral e, indirectamente, propor-lhe vantagens políticas para que ele se estabeleça com um novo partido, uma máquina transparente, crítica e democrática. Ao arrepio do "exército" ululante, monocórdico e "soviético" de Sarkozy e da doce "algaraviada" do PS e dos seus compagnons de esquerda...privada e alcatifada.

Bayrou é o fiel da balança e parece disposto a vender caro a sua cotação eleitoral, a rondar os 18 por cento. Hoje demarcou-se de Sarkozy de forma visceral e abracadabresca: "Pela sua proximidade com os centros de negócios e as potências mediáticas, pelo seu gosto da intimidação e da ameaça, irá concentrar os poderes como jamais o tinham sido (...). Pelo seu temperamento e os temas que espevita, arrisca a agravar as dissensões no tecido social, conduzindo acima de tudo uma política que avantaja ainda mais os ricos. Penso que há semelhanças entre Berlusconi e Nicolas Sarkozy". A carga é feroz e acutilante, pois.

Por outro lado, Sego multiplica as iniciativas para cativar o eleitorado de Bayrou. De uma forma democrática e clara. Propondo encontros bilaterais e discutindo os pontos de divergência entre o Pacto Presidencial e o Programa de Bayrou. A candidata da Esquerda solicitou o apoio a Jacques Delors, o grande perito da política social francesa. Este aceitou e vai escolher equipa para se poder encontrar com os representantes de Bayrou. O edil de Veneza, Massimo Cacciari, clicar aqui, deu uma entrevista ao Libération, sublinhando que Bayrou deve apoioar Sego sem reservas...Ao mesmo tempo, envia este recado aos socialistas tricolores: "Os socialistas devem reconhecer publicamente a exigência e a necessidade de uma aliança com Bayrou e tentarem abrir a perspectiva de criação de um partido democrático".


Daniel Cohn-Bendit, uma espécie de "rolha" dos post esquerdistas europeus, conseguiu convencer, clicar aqui, Sego e os seus estrategos e vai entrar (já o fez) na dança para conseguir capitalizar o máximo de votantes de Bayrou para a sua nova dama. Como fez uma bela amizade com Bayrou no Parlamento Europeu, e andaram em comícios juntos a favor do sim ao Novo Tratado em 2003, conseguiu " iludir " os burocratas amedrontados do PS e fez-se ao objectivo."Eu sou o que liberta a audácia de Ségolène, que lhe diz: Sê tu mesma, avança, não te deixes entalar pelo teu partido, porque a maioria, engloba também o centro".


FAR

Um mundo é uma rua

Shican dançando...

Por vezes, imitam sons de estrangeiros pássaros aos quais quase se adivinha o colorido das penas, através das suas vozes, bem como algum deles dança, ora dobrado sobre si ora de braços estendidos em adoração a uma realidade alheia ao nosso imaginário. Entre as danças, figuram a dança da Chuva ou dos Espíritos ou do Sol.

Usam instrumentos curiosos. Condor ensina-me o nome de vários deles, ali presentes; entre as flautas de diversos tamanhos, existem as maltas, os toxos, a sampona, o quenacho, a flauta de pau da chuva... chocalham também um objecto chamado chochas, constituído por unhas de cabra e guisos - e sopram também a ocarina.


Condor revelando o som da ocarina


Este apetrecho musical chama-se Chochas

Escuta-se na portuguesa tarde, a canção do Búfalo Branco e a do Condor passa...
Entre as dificuldades desta vida itinerante, apontam uma; para tocarem têm de tirar uma licença nem sempre fácil de conseguir e pagar, apenas por espalharem aquela alegria que aprenderam a partilhar pelas ruas do mundo.

Não resisto, sempre gostei mais dos índios nos fimes de cowboys e destes últimos, apenas as botas fazem parte do meu inesquecível.

Obrigada, pelos preciosos momentos musicais e visuais, Shican, Luigi e Condor !!

Vou ver o mapa, outra vez!!
Do Equador, as cidades de Quito e Otavalo espreitam teimosamente.
Alguns de seus músicos são os causadores desta inquietude feliz.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril (o meu)

O antes era pior. Por muito que alguns tentem apagar o facto e dizer meia dúzia de mentiras torpes e nojentas, dia 24 de Abril de 1974 vivia-se pior em Portugal do que daí em diante.
O agora não é perfeito, está longe disso. Paulatinamente, regressamos ao antigamente... Sussurra-se cá em casa. Eu sou da geração do Hino da Alegria, o tempo em que a história acabou. Querem-nos fazer crer que chegámos ao fim da evolução histórico - política, quando cerca de 1/5 de portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza e outros fazem lucros astronómicos.
O meu 25 de Abril, como o do Armando, também tem as saudades do meu tio João Neves e do meu tio António (que também fazia anos hoje).
E além disso, é um dia que todos os anos nos lembra que a história não acaba só porque uns dizem. Até porque em cada esquina, um amigo.

Post intimista sobre o 25 de Abril

Foto: Eduardo Gageiro. Com a devida vénia ao Geração Rasca

Sempre comemorei Abril. Este ano num espectáculo em que participei, com direito a capitão de Abril e tudo. Tivemos a grande voz do Francisco Naia, música, dança e poesia. Deixei o convite aqui, a 15 do corrente mês. Hoje, para mim, é dia de autocrítica, introspecção, exame de consciência. Este blogue congrega entre ficha técnica, colaboradores, comentadores, quiçá grande parte dos nossos leitores, várias tendências de esquerda. Todos sabemos, aqui, que há diferença entre esquerda e direita. E também sabemos que somos, e viemos, de esquerdas diferentes. Continuaremos a aprofundar as nossas convergências e divergências. Dito isto, algumas constatações. Em Abril de 1974, o Fernando Almeida Ribeiro, o João de Azevedo, o José Pinto de Sá, o Jota Esse Erre, eram exilados políticos. O ZeMari tinha passado pelas prisões do regime. Aqui lhes deixo a minha homenagem. À guerra colonial baldámo-nos todos ou quase todos. O André Carapinha e o Manuel Neves não tinham nascido, mas com eles o debate de esquerda continua e cresceu. Que inveja tenho, por não ter a pedalada de outrora, dos novos tempos que Abril abriu. O João Neves faria hoje anos e o João Murinello, o José Barros, o Raul Ferreira vão faltar à festa. Muito vou ter que chorar, que rir, que beber, que fumar, nestes festejos. A luta continua!
Aqui fica para todos este cravo.

Beijinhos e abraços

Mambas em extinção



"Moçambique extingue brigada especial da polícia

Eleutério Fenita
De Maputo

Cidadãos de Maputo queixam-se dos níveis de criminalidade

Em Moçambique, no que é visto como um sinal de capitulação as autoridades confirmaram a extinção de uma importante brigada de combate ao crime organizado.
A decisão segue-se a uma onda de assassinatos selectivos de agentes da chamada brigada Mambas, incluindo o seu comandante.
Informações não confirmadas falam da morte de mais de uma dezena de agentes dos Mambas.
Depois de algum mistério e todo o tipo de especulações em redor dos temíveis Mambas a Polícia da República de Moçambbique finalmente confirmal oficialmente o que já veiculava: a brigada foi extinta.
Situação insustentável
Sobre as razões para a decisão tomada as autoridades falam de missão cumprida, mas o que fica claro nas entrelinhas é que a situação poderá ter-se tornado insustentável.
Durante vários meses alguns dos mais destacados agentes dos Mambas form alvo de autênticas emboscadas claramente montadas por quem estava a par dos seus passos e poucos escaparam com vida.
De entre as vítimas mortais do que se concluí ter sido uma acção concertada de sindicatos do crime figuram, recorde-se, Isaías Tchavane, o próprio comandante dos Mambas.
Sobre alegações relacionadas métodos de trabalho pouco convencionais e até mesmo impróprios por parte da brigada Mambas o Comando Geral da Polícia entende que sería indelicado comentar sobre acusações de que os visados não se podem defender.
Entretanto as autoridades policiais asseguram que a extinção dos Mambas não deve constituir motivos de preocupação no que diz respeito à segurança pública.
Quem contudo continua a não se sentir seguro são os citadinos de Maputo, pelo menos a julgar pelo que alguns disseram à BBC. " Daqui.

Niassa .1


Da série "Terra Incógnita". Niassa 2001/2005. Moçambique.

Foto de Sérgio Santimano

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

terça-feira, 24 de abril de 2007

Morreu Boris Ieltsin: Putin tem as mãos despóticas ainda mais livres


O primeiro presidente eleito democraticamente na Rússia morreu ontem. Os comentadores encartados temem que Putin possa ultimar a sua cruzada autoritária agora. Ficou com as mãos livres. Ieltsin ainda podia telefonar para a Casa Branca ou Downing Street a fazer queixas do sucessor que entronizou, agora esss recurso acabou. Neste texto hagiográfico, Irina de Chikoff e Laure Mandeville, publicado no Figaro, clicar aqui, postula um retrato nuancée e desigual da carreira política do velho engenheiro agrónomo sucessivamente recuperado por Brejnev e Gorbatchev.

Foi em 1985 que Gorby o nomeou para dirigir o comité da Perestroika na capital russa, onde ele denuncia, de forma crescente e admirável, todo o tipo de corrupção dos altos quadros do partido comunista moribundo. Depois de uma curta passagem votado ao ostracismo pelo PCUS, Ieltsin arranca de novo em 1990 com os poderes que lhe confere o papel de presidente do Parlamento, opondo-se aos velhos bolcheviques que tentaram um putch militar para destituir o dueto, tão incontroverso e deferente, simbolizado por Boris e Gorby. Afastou o seu velho rival Gorbatchev e ligou-se de alma e coração aos reformistas liberais, que o seu antecessor tinha incorporado no processo de democratização Glasnost/ Perestroika.

São dessa época os tenores do neo-capitalismo selvagem russo, Anatoli Tchoubais e Boris Berezovski. O ritmo apocalíptico que as concessões/privatizações selvagens atingiu atingiu, de pleno e frontal , o frágil equilibrio de poderes e a vida económica russa. Boris acaba por ser afastado paulatinamente e os tecnocratas aliam-se com os novos oficiais do antigo KGB para salvarem o " sistema " , que culmina com a eleição em finais de 1999 de Vladimir Putin para o cargo de Ieltsin por decreto, o que despoleta uma via sacra de atentados crescentes contra os princípios mínimos de democracia política que o fim da URSS tinha visto aparecer.


FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Não estaremos a levar demasiado longe o espírito de Abril?


Notícia do Destak, 3ª Feira, 24 de Abril de 2007

Traições

Entregaram o Eusébio ao Inimigo.
Já não acredito em nada.
O Hospital da Luz é um disfarce sacana para a Solução Final.
Auschwitz do nosso fulgor...

Finalmente, conseguiram tê-lo.
Foram-lhe às carótidas e lixaram-nos.
A lagartagem apanhou-nos o Pantera Negra.
Está enjaulado, sedado, anestesiado, operado.

Apanharam-no, desprevenido, mais idoso.
Um homem fica despreocupado,
nem nota que à sua volta se erguem rancores antigos.

Há-de, porém, rematar como só ele sabe.
Certeiro e forte.
A baliza da Vida há-de curvar-se numa veneração respeitosa.

O Pantera há-de sair sacudindo as traições.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Sarkozy força Ségolène a entender-se com Bayrou

PC e Verdes em queda abissal, com menos de dois por cento dos votos. LCR (trotskistas) a rasarem os 5 por cento. Le Pen "morreu" à boca das urnas. Bayrou vai ter o papel crucial nesta segunda volta e Ségolène deve fazer acordo de Governo (prometendo-lhe o lugar de PM), se quiser vencer...

O Le Monde publicou em cima do fecho da noite eleitoral esta análise política subscrita pelo director editorial do jornal, Gérard Courtois, clicar aqui. O essencial desse longo articulado: 1) A participação eleitoral foi um recorde que marca uma reconciliação dos franceses com a democracia representativa; 2) A extrema direita perdeu 1, 3 milhões de votos; o P. Comunista desceu a 2 por cento e os Verdes não passaram dos 1,5 por cento. 3) Criou-se, de novo, uma polarização Direita/ Esquerda, com um eleitorado global que atinge os 56 por cento do total; 4) Bayrou, o cristão-democrata, com 19 por cento dos votos é o fiel da balança e o criador da rainha ou rei da segunda volta; 5) Como vinca G.Courtois, todas as análises efectuadas sobre o tipo de votante em Bayrou, até agora realizadas, destacavam o facto de serem eleitores vindos da Esquerda desiludidos com as posições do PS e de Ségo...

FAR


“ Cette année, 38 millions de Français à peu près ont été voter, contre 29 millions seulement en 2002. Le taux de participation est presque record. On retrouve pratiquement le taux de participation de 1974 et de 1965.

(…)

Le résultat le plus évident du scrutin, c'est la repolarisation autour du débat droite-gauche. Le candidat de l'UMP, avec 30 % des voix, réalise un score supérieur de 10 points à celui de Jacques Chirac en 1988, 1995 et 2002. De l'autre côté, la candidate socialiste réalise également le meilleur score de son camp depuis 1988. Donc il y a bien une bataille de second tour entre la gauche et la droite

(…)

Nicolas Sarkozy est ce soir en position de force, mais il n'a pas gagné. Pour y parvenir, il lui faudra combattre le front anti-Sarko qui s'est dessiné dès ce soir avec le refus de Philippe de Villiers d'appeler à voter pour lui, et l'attitude aussi bien de François Bayrou que de Jean-Marie Le Pen, qui ressemble à tout sauf à un ralliement.


Inversement, Ségolène Royal aura besoin pour l'emporter de rassembler très au-delà de la gauche. L'ensemble de la gauche pèse ce soir 37 %. Pour gagner le 6 mai, il faudrait qu'elle entraîne sur son nom plus de la moitié de l'électorat de Bayrou et, il faut le dire comme tel, une partie de l'électorat d'extrême droite qui serait prête à tout pour barrer la route à Sarkozy. C'est un pari extrêmement difficile, mais qui n'est pas impossible."

Gérard Courtois

MARGINAL

Vivo nas margens,
sou marginal.
Fumo droga e bebo alcoól,
sou doutro mundo.
Diferente dos outros,
sou p'ra maltratar.
Pensar sério não dá,
bato no fundo.
Que fumam os outros?
Que bebem os outros?
Despreocupa-me o que fazem,
o que pensam os outros!

JOÃO AUTOR

domingo, 22 de abril de 2007

Um mundo é uma rua

Este instrumento é o Quenacho


Vou ver o mapa. Do Equador, as cidades de Quito e Otavalo destacam-se de súbito. Alguns de seus músicos são os causadores desta inquietude.



Shican, Luigi e Condor são os nomes artísticos, dos três elementos que constituem o grupo musical, chamado "Terra Inka". Existe há cinco anos. Condor é o seu director artístico, é o que veste as plumas deslumbrantes. Fazem tours pela Europa. Já palmilharam a Alemanha, Bélgica, Holanda, França, Espanha e até já estiveram como convidados, no Japão. Um canal televisivo português já lhes concedeu uma entrevista. São sobretudo divulgadores da sua cultura indígena. Como nómadas em arte, têm muitas vezes intensas saudades do Equador e querem regressar a casa. E isso é tão cada vez mais comum no mundo, estar longe do que se ama.

(1º parte...)




A vontade de Mudar

O director do Libération, Laurent Joffrin, publicou ontem um editorial, que cimenta a "cruzada" muito corajosa que imprimiu ao quotidiano, contra os amigos e capitalistas de Sarkozy que dominam os principais Médias franceses
Nada melhor para fazer sair a França do "marasmo, do desespero social e do cinismo", que dominaram o espaço sociopolítico gaulês do que a vitória da Ségolène Royal, postula o director do grande matutino parisiense." Royal quer mudar a Esquerda ultrapassando os seus atávicos reflexos. Ela deverá concretizar tal aposta pela vitória: eis o principal móbil da sua candidatura". E vai mais longe, num texto que deve ler todo, já." O que é no fundo ser presidenciável? Muito simples: ter carácter: A França é, sem dúvida, o único país no Mundo onde se espera do presidente ou da presidente uma espécie de omnisciência tecnocrática aliada a um carisma oratório. Quando é o espírito de decisão e a sensibilidade para o país que contam".

FAR

"La France veut changer d'air. Fatiguée des élites, elle cherche de nouveaux dirigeants, une nouvelle politique, une nouvelle république, qui la sorte enfin du marasme, de la désespérance sociale et du cynisme qui ont dominé les deux dernières décennies.
La volonté de changer a favorisé un Sarkozy qui a promis la rupture face à tous les apprentis candidats que Jacques Chirac lui a jetés dans les jambes, Raffarin, Villepin ou Alliot-Marie. La volonté de changer a propulsé Ségolène Royal au firmament lors de la primaire socialiste. La volonté de changer a fait la fortune d'un François Bayrou et de son «centrisme révolutionnaire».
Question cruciale : pourquoi cette volonté n'a-t-elle pas favorisé plus que d'autres Ségolène Royal ? Parce que le travail de rénovation idéologique réussi par Nicolas Sarkozy pendant les cinq ans de sa longue campagne, auquel s'ajoute le contrôle total de l'appareil UMP, n'a pas trouvé son équivalent au PS. Assemblage fragile d'écuries présidentielles, le PS n'a pas produit de projet digne de ce nom. Ségolène Royal s'est retrouvée seule en rase campagne. La bravitude, ça n'existe pas. La solitude, oui. Royal veut changer la gauche contre elle-même. Elle devra le faire par la victoire : c'est tout le pari de sa candidature.
Qu'importe, dira-t-on. Le changement, nous l'aurons avec Bayrou. La victoire du centriste créerait une rupture décisive dans la vie politique. Mais quelle rupture ? Une meilleure gestion du pays, peut-être, une équipe nouvelle, sans doute, un président tolérant, certainement. Les centristes y trouveront leur compte. Mais la gauche ? Certainement pas. Le rejet des élites, du système, du microcosme, en un mot toute cette rhétorique maintes fois utilisée dans l'Histoire de France ne conduit jamais à une politique de gauche. Le changement social avec Jean Arthuis, comptable aimable aux idées courtes ? Le changement avec Charles-Amédée de Courson, réac champenois bien connu ? Le changement avec ces députés UDF qui ne peuvent espérer retrouver leur siège sans l'appui de l'UMP ? Ségolène n'est pas assez à gauche, votons plus à droite : telle est la logique baroque qui préside au raisonnement des «bayrouistes» de gauche.
Reste évidemment la question qu'on n'ose pas poser. Si Ségolène Royal ne séduit pas, murmure-t-on, c'est qu'elle n'est pas «présidentiable». Autrement dit, elle flotte dans le costume. Elle y flotte d'autant plus que ce costume est percé des coups de poignard discrètement portés dans son dos par ses amis furieux de se voir supplantés. Jamais candidate ou candidat de gauche n'a été aussi peu soutenu. Qu'elle soit encore au-dessus de 20 % dans ces conditions tient du miracle. Qu'est-ce au fond qu'être présidentiable ? C'est très simple : avoir du caractère. La France est sans doute le seul pays au monde où l'on attend du président ou de la présidente une sorte d'omniscience technocratique alliée à un charisme oratoire. Alors que c'est l'esprit de décision et la sensibilité au pays qui comptent. Sur ces deux chapitres, Ségolène Royal a montré qu'elle égalait sans peine ses adversaires. Cette femme saura décider. Que demande le peuple de gauche ?"

Laurent Joffrin

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

sábado, 21 de abril de 2007

Da Capital do Império

Olá!

A Segogaffe (léne) Royal tem sorte em não ser americana. Se o fosse serviria para reforçar o estereótipo tão vulgarizado aí desse lado do charco sobre a estupidez dos americanos.
Eu deixei de contar as calinadas da Segogaffe quando ela proferiu a bacorada sobre a independência do Quebeque. Aparentemente a candidata socialista esqueceu-se de verificar que no Quebeque neste momento o movimento independentista está um pouco pelas ruas da amargura e que ela em vez de reunir-se com os homens do Parti Quebecois deveria ter-se avistado com aqueles que estavam a caminho da vitória das eleições na antiga colónia que pelos vistos são um tanto ou quanto conservadores e portanto mais realistas quanto a essa questão do “Vive le Quebec Libre”.
Mas a gaffe do Quebeque não é de admirar. Aparentemente alguém se esqueceu de informar a Segogaffe que os Talibãs já não estão no poder em Cabul e que portanto não faz sentido pedir sanções contra o governo Talibã do Afeganistão. A Segogaffe pode estar descansada que se for alguma vez a essa cidade já não terá que usar uma burca graças aos americanos e aos ingleses e não aos seus conselheiros políticos do Hezbollah com quem ela disse compartilhar dos pontos de vista quanto à “ameaça” americana.
Não sei se os franceses ficaram preocupados com a gaffe royal da Segogaffe quando afirmou que o sistema judicial francês tem algo a aprender com o sistema judicial da China. O que eu sei é que deve ter sido por isso que a Hilária (a mulher do Bill Clinton) se recusou a ter um “tête-à-tête” com a Segogaffe. Foi pena porque como não houve “tête-à-tête” a Segoggafe aproveitou para dar mais uma bacorada exortando à revolução por parte do “novo proletariado“ (aparentemente são as mulheres) contra as caixas automáticas dos supermercados! Eu estava à espera que ela começasse a cantar “de pé ó vítimas das caixas automáticas…”
Se estas calinadas todas tivessem sido ditas por um candidato à presidência americana os intelectuais da bem-falante UEtupia estariam ainda hoje a rolar-se de gozo com mais uma prova da falta de inteligência, cultura e conhecimentos dos cowboys americanos. Mas como a Segogaffe é francesa, veste bem e ainda por cima é boa tudo está perdoado. O que não é má ideia. Ao fim e ao cabo como a influência francesa no mundo está neste momento praticamente reduzida ao zero também ninguém se tem que importar muito com o que a Segogaffe pensa, principalmente tendo em conta que aparentemente a candidata do Partido Socialista nem sequer sabe quantos submarinos nucleares o seu pais tem.
Mas o que eu penso é que os franceses se devem interrogar é se o próximo(a) presidente(a) tem em si a capacidade para parar o resvalar da França para a insignificância total e dizer aos franceses que a semana de 35 horas é óptimo (quem me dera a mim!) mas que do outro lado do canal os ingleses agora fazem o mesmo em dois dias.
A França é na verdade hoje o doente da Europa. Nos últimos 25 anos a França caiu à escala mundial do oitavo lugar para o décimo nono em termos do Produto Interno Bruto per capita. Em 1991 o PIB per capita da França era 83 por cento do nível dos Estados Unidos. Hoje é 71 por cento.
Nos últimos 25 anos o desemprego na França nunca caiu para baixo dos oito por cento e entre os jovens com menos de 24 anos é hoje acima dos 20 por cento. Só 41 por cento da população adulta trabalha, um dos níveis mais baixos do mundo.
A nível social e apesar de uma minoria racial de 10% há uma total falta de integração (aparte o futebol) não havendo minorias no governo, nos postos de comando das forças armadas etc etc.
Os gastos do governo francês são 54 por cento do PIB, uma das percentagens mais altas do mundo e que reflecte aquela crença ainda existente em muitos dos “bien pensant” que o estado é a personificação e a garantia dos interesses de todos. É uma monomania que impede muitas pessoas de olharem para os factos, como por exemplo:
A divida pública aumentou cinco vezes desde 1980.
O sector público na França emprega agora quase 25% da força de trabalho do pais, o dobro da proporção de 1970 e quatro vezes a proporção de 1936.
O resultado é que o investimento privado na França é anémico e isso reflecte-se no facto de que entre 1999 e 2005 a percentagem francesa das exportações mundiais caiu de 5,4 por cento para 4,3 por cento. Mesmo dentro da zona do Euro essa percentagem caiu de 17% para 14,5%.
São números que gritam à cara das pessoas mas que tudo indica a classe política francesa não tem a coragem e a capacidade para resolver. Um professor francês numa universidade americana (Ohio) disse-me há poucas semanas atrás que como não há coragem para enfrentar os factos a França está a caminho de se transformar num “pais museu estilo Veneza”.
Deve ser por isso que um cada vez mais crescente número de franceses emigra para a Grã-Bretanha (quel horreur Mon Dieu!) que há uma geração atrás era o então doente da Europa. São tantos os franceses na Inglaterra que o Sarkozy e o Bayrou fizeram campanha pessoal junto do eleitorado francês nas terras da rainha Elizabeth. A própria Segogaffe abriu escritório em Londres para fazer campanha junto dos seus compatriotas.
Aqui nos Estados Unidos há também um aumento de imigrantes franceses. No fino bairro de Bethesda cada vez mais se ouve falar francês nos cafés, cinemas e lojas.
Os franceses deveriam perguntar como é que a Inglaterra deixou de ser o doente da Europa. Chegariam rapidamente à conclusão que a Segogaffe não é a Dama de Ferro que precisam.
Um abraço,
Aqui da capital do império

Jota Esse Erre

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Ficções, no Onda Jazz, no dia 27 de Abril


Onda Jazz. Rua Arco de Jesus, 7. Lisboa. (Junto ao Campo das Cebolas) Clicar aqui

Ségolène ultrapassa ilusão-Bayrou nas sondagens

A candidata da Esquerda oficial realizou um final de campanha notável. Sarko lidera intenções de voto da primeira volta e Bayrou ensaia o canto da"mula" para captar indecisos persistentes. Não houve tema dominante na campanha e a questão do futuro da Europa foi pouco ventilada...

O declínio económico francês e as lutas fratricidas entre os dirigentes das duas grandes formações políticas - UMP e PS - acabaram por desorientar as aspirações de voto da parte nuclear do eleitorado. A dois dias da primeira volta das Presidenciais Francesas, persistem sérias dúvidas sobre a " cristalização " das intenções dos votantes, sobretudo no espectro de centro-esquerda. Num texto de hoje publicado no Libé, os dois magos das Sondagens analisam, clicar aqui, o conteúdo fulcral desta indecisão política maior.

"Inquietação passageira ou grave doença ?´ Um número elevado de pessoas disseram-nos que ainda não tinham escolhido. No nomento em que as escolhas se deviam cristalizar, é porventura a indecisão que se cristaliza", constata Emmanuel Rivière, da Sofres. E ele acrescenta: ´Há uma indecisão no centro da oferta`. Para Jerôme Sainte-Marie, do instituto BVA, "a posição do candidato centrista é frágil: 47 por cento dos eleitores que podem escolher Bayrou declaram poder mudar de ideias, contra só 20 por cento entre os potenciais eleitores de Sarkozy, Royal ou Le Pen", frisa o texto referenciado.

E vai mais longe esta análise de opinião abalizada e muito trabalhada: "As incertezas mergulham também no posicionamento respectivo de François Bayrou e Ségolène Royal. Os dois candidatos pertencem a campos opostos, mas nenhum deles se limita a entoar os cânticos do seu reduto político. Sego não teme agitar a bandeira nacional e entoar o hino pátrio, de apelar para uma grande firmeza contra a delinquência e interrogar-se sobre os resultados das 35 horas. François Bayrou, por seu turno, multiplica-se para dizer o melhor que sonha dos dirigentes dos Sindicatos da Educação Nacional. Acabou mesmo por achar Olivier Besancenot (LCR, trotskista) " simpático ", ao mesmo tempo que apela para a apresentação de uma moratória sobre os OGM, como o repetiu ontem ".

As grandes diferenças entre os programas de Sego e de Bayrou situam-se no campo das opções económicas, clicar aqui. De acordo com Christian Saint-Etienne, expert universitário e membro do Conselho de Análise Económica junto do PM, as grandes diferenças entre os programas de Sego e Bayrou situam-se ao nível da resolução das disparidades entre a oferta e a procura, por causa da perda de competitividade da economia francesa e dos balanços da Mundialização.

"Para Bayrou, o país está confrontado com uma crise de oferta. A França é cada vez mais incapaz de fornecer produtos e serviços competitivos. O antecessor de Villepin explicava amiúde que, quando ia em viagem oficial à China, tentava oferecer os Airbus e o TGV e ao fim de 20 produtos já não tinha mais nada para vender. Enquanto que o seu homólogo alemão, à época Gerhard Schröder, ia para lá com uma lista de 200 produtos made in Germany. Sego e os socialistas avaliam que a crise se manifesta tanto na oferta como na procura", indica.




Num suplemento excepcional do Le Monde sobre as Eleições Francesas, clicar aqui, alguns dos grandes sociólogos mundiais, como Axel Honneth, o sucessor de Habermas no Instituto de Pesquisa Social de Francfort, Pierre Rosanvallon e o norte-americano Lawrence Kritzman ; justamente o grande teórico rocardiano e Prof. agora no Collège de France, Rosanvallon , chama a atenção para o " nível extremamente baixo de elaboração teórica interna nos partidos políticos e nos estados-maiores dos candidatos ", frisando, por conseguinte, que se vive o fim dos "conselheiros do príncipe" e que a sociedade mediática " suplantou a campanha de ideias".
Tudo a juntar aos dossiers daquele quarteto de pavés onde a revista Marianne, o Charlie Hebdo e o Canard Enchainé se coligam com a fortíssima operação comandada por Laurent Joffrin no Libération quotidiano.



FAR

TERRA

"African Woman"/4 Cubal-2005

A paranóia e os seus limites

Não é de espantar que os amigos se protejam. Nada melhor para desvalorizar a extrema-direita que fazê-la igual à "extrema-esquerda" (que, neste caso, é entendida como nada mais nada menos... que o PCP e o BE!). Aliás, o perigo dessa "extrema esquerda" para a democracia é ainda superior: é que estes tem votos, e os outros não (daí o perigo para a democracia, curioso, que vêm da legitamção democrática a que estes partidos se sujeitam).
Aqui há duas lógicas a convergir: por um lado, branqueia-se a extrema-direita: "também se aceita a extrema-esquerda, que até é representada no parlamento, e no fundo está integrada pela democracia, qual o problema de surgirem uns lunáticos do outro lado?"- esta é a lógica instrumental do argumento. Mas há também uma fobia subterrânea nestes senhores, que sentem tanto asco por tudo o que lhes cheire a "esquerda" que não se importam de desculpar os capangas que fazem os trabalhinhos sujos, assim como "devaneios da juventude".
Resta-lhes explicar, para que a comparação tenha o mínimo de honestidade intelectual, se os militantes do PCP e do BE andam armados; se participam em espancamentos daqueles que tem ideias, hábitos, ou simplesmente uma cor de pele diferente; se vivem numa lógica de violência e se sentem em estado de guerra; se têm treino militar; se utilizam actividades criminosas para se financiar.
E apetecia-me mudar o tom para explicar a alguns exaltados comentadores desse post a diferença entre "desobediência civil" - sim, a tal que faz parte do programa do campo de férias da juventude do BE - e violência. Que a "desobediência civil" é a resistência pacífica, e mesmo passiva, a uma autoridade que se contesta. Que foi o Gandhi que a inventou. Mas valerá a pena explicar estas coisas a certas alminhas atacadas da paranóia esquerdofóbica?
E apetecia-me mudar ainda mais o tom para perguntar a certos mentirosos cuja patologia ultrapassa em muito a paranóia onde é que eles viram essa "violência dos okupas" contra os pacatos cidadãos? Em frente de casa ocupada é que é inseguro passear? Porque razão é que, repetidamente, os habitantes dos bairros onde existem casas ocupadas se colocam do lado dos okupas contra os despejos destes?

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Desta cultura .3

"O Português, muito intimamente, é incapaz de ambicionar para a sua pátria, o bem-estar e a prosperidade que, por exemplo, o Suíço conseguiu pelo esforço pertinaz e constante. É certo que o Português se envergonha perante um suíço pelo elevado nível de vida que aquele soube conquistar, mas se fosse ele o suíço, envergonhar-se-ia da mesma maneira, por ter conseguido um bem-estar sem glória.
É um povo paradoxal e difícil de governar. Os seus defeitos podem ser as suas virtudes e as suas virtudes os seus defeitos, conforme a égide do momento."

Jorge Dias, O Essencial sobre Os Elementos Fundamentais Da Cultura Portuguesa, pág. 56, INCM

Eu também quero ir

Não se transplantam para as órbitas oculares
Particulares visões do mundo
Nem ainda ninguém inventou
Conteúdos de vida agradáveis
Aplicáveis com adesivo.
Os seus olhos côncavos perderam tijolos.
É isso a fome ter feito rua no corpo.

IN: Caixinha c rodas; Col. Homem do saco; ed. Geic; 2005

A inevitabilidade

A inevitabilidade é o sem-abrigo. A inevitabilidade é o desespero, a fome, a morte. A inevitabilidade é a guerra.
Conversava eu ontem com um homem que pedia de mão estendida na rua. Intrigou-me, pela ausência dos sinais distintivos que definem e estereotípo recente desses homens. Tinha a barba feita, relativamente bem vestido e bem alimentado.
Pede na rua porque foi despedido de um trabalho de 30 anos numa fábrica que fechou em Marvila; o subsidio de desemprego terminou, e não consegue, com os seus 49 anos, qualquer tipo de trabalho. O Rendimento Mínimo dá-lhe quase para a renda e as contas; e faz questão de as manter, porque quer manter um mínimo de dignidade na sua vida. Mas admite que um destes dias não chegue; diz-me que, se isso acontecer, não vai para a rua, porque quer manter um mínimo de dignidade na sua vida. Ou seja, prefere acabar com ela, em vez de viver sem dignidade.
Isto pode parecer uma chachada neo-realista, mas que se foda. Estes são os homens, aqui tão próximos, que são sacrificados por esta inevitabilidade, o "melhor dos mundos possíveis". O pensamento macro-económico é confortável a gente com bons ordenados, do lado certo da vida, não custa nada pensar e dizer e escrever que se tal fábrica fecha aqui há-de abrir outra na Roménia, e que se uns gajos são fodidos outros hão-de prosperar, e que é mesmo assim, a lógica inexorável da vida.
Pois eu, mesmo sem ter de ir mais longe, aos milhões de fodidos por esse mundo fora, faço questão de mandar essa gentinha da inevitabilidade toda à merda. Em nome desse homem, e dos outros todos, serão sempre os meus inimigos.
O LADRÃO

Já lá foi preso o ladrão
Que em toda a parte apar'cia;
Contam-se mais de um milhão
De roubos que ele fazia

Meus senhores, vão ouvir
A história do quadrilheiro
Manuel Domingos Louzeiro,
Que foi a pena cumprir,
Enquanto alguém de Salir,
Num primor de descrição,
Lhe chama até "Lampião"¨;
Mas, salinenses honrados,
Podeis dormir descansados,
Já lá foi preso o ladrão.

P'las coisas que o povo diz,
O tal Domingos tem sido
P'ra uns, terrível bandido,
p'ra outros, grande infeliz.
Mas eu, sem querer ser juiz,
Vi que ele se despedia
Da mulher com quem vivia
Numa amizade sincera
E não vi nele a tal fera
Que em toda a parte apar'cia.

Desse rei dos criminosos,
Direi, aos que o conheceram:
Poucos crimes apareceram
E poucos são os queixosos;
Apenas alguns medrosos
Terrível fama lhe dão;
Para a justiça só são
Os seus crimes dois ou três,
Mas coisas que ele não fez
Contam-se mais de um milhão.

Por alguns sítios passava,
Onde há só gente honradinha,
Que roubava à vontadinha
E que ninguém acusava;
Tudo Domingos pagava,
E ele às vezes nem sabia
Que à sua sombra vivia
Gente que passa por justa,
Fazendo crimes à custa
Dos roubos que ele fazia.

Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço
Quem sem parecer o que são
São aquilo que eu pareço

(Poema de Antonio Aleixo; música de Adriano Correia de Oliveira)

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

quarta-feira, 18 de abril de 2007

490 euros (preço de venda ao público)

O Partido Socialista acha que dar 490 euros (preço de venda ao público) por cada vacina do HPV a cada bebé do sexo feminino não compensa (as palavras não são estas, mas vai dar tudo ao mesmo).
Afinal, só morrem 350 mulheres por ano de carcinoma de colo do útero. A doença previne-se com a vacina. Há as que não morrem, mas são histerectomizadas.
Comecei há pouco a rotação de Ginecologia - Obstetrícia e, a epidemiologia não perdoa, vi um caso de uma senhora de 46 anos que vai morrer com um carcinoma de colo do útero invasivo. 490 euros (preço de venda ao público) eram demais pela vida da senhora.

(Armando, desculpa lá o desaparecimento, mas o estudo não perdoa)

Ségolène iguala Sarkozy, que veste pele de cordeiro

A três dias do fecho da Campanha, a candidata socialista sobe e alcança Sarko na corrida para o primeiro lugar das intenções de voto. O Libération, a revista Marianne e o semanário humorístico, Charlie Hebdo, desencadeiam uma denúncia total e violenta dos vícios autoritários do candidato da direita conservadora e émulo de GW Bush...

“«Marianne» crie au fou
Marianne prétend révéler «Le vrai Sarkozy», celui que «les grands médias n'osent pas ou ne veulent pas dévoiler». L'hebdo compile, sur une dizaine de pages, les dérapages du candidat ainsi que les confidences de ceux qui l'ont approché. Spectaculaire mais pas très neuf si ce n'est cette conclusion que «même la gauche étoufferait» : «Cet homme quelque part est fou ! Et la nature même de sa folie est de celle qui servit de carburant dans le passé à bien des apprentis dictateurs.» En quarante-huit heures, les 300 000 numéros de Marianne mis en vente étaient épuisés. «C'est inouï, se réjouit Jean-François Kahn, les lecteurs nous disent : "Enfin quelqu'un le dit !"» Charlie Hebdo emboîte le pas aujourd'hui avec un «spécial Sarkozy» de 16 pages titré : «Votez peur» .”
Alain AUFFRAY



Trata-se de uma verdadeira apoteose anti-Sarko, o enfant-terrible da Direita conservadora francesa vestido com a ideologia neoliberal dos Republicanos americanos, que ele adaptou com muita perversidade e acutilância durante os cinco longos anos em que, como número dois do executivo de Villepin, não perdia pitada para o adaptar e multiplicar. Ora, tal dispositivo estratégico mascara uma ambição sem limites e necessita, como de pão para a boca, de um partido-exército obediente e devotado ao culto do chefe. Sarko denunciou ontem na TV a " cruzada " do Libération contra a sua candidatura. A revista Marianne acaba de vender em relâmpago os 300 mil exemplares da sua edição desta semana, por causa de um dossier " frontal " e chocante " sobre a ideologia e as práticas do possível sucessor de Chirac.O concorrente do Canard Enchainé, Charlie Hebdo, publicou hoje um Suplemento sobre Sarko - "Votai Medo" - reforçando o campo dos adversários do federador da direita metalizada gaulesa.

Hoje, clicar aqui, saiu mais um texto sobre as " rupturas, os conflitos e as divisões " que o candidato UMP gera no estado-maior da sua campanha, onde dois dos seus mais antigos e incondicionais apoiantes foram postos fora de combate. O rival regional de Ségolène Royal, Jean-Pierre Raffarin, decidiu envolver-se a fundo na defesa de Sarkozy, e convida para a defesa do candidato no terreno os " liberais ", Jean-Louis Borloo, líder do P.Radical, Alain Juppé e mesmo Giscard´Estaing.

Numa entrevista, clicar aqui, o historiador Michel Winock, abalança-se a analisar o que designa por " monarquia electiva " francesa. Segundo ele," A nossa democracia mergulha as suas raízes num velho país católico e monárquico. A questão da incarnação é mesmo importante, por isso. A Revolução Francesa, que transformou profundamente o país, não foi capaz por outro lado de criar um regime democrático estável. (...) A grande questão do equilíbrio dos poderes nunca foi totalmente resolvida. O que é recorrente, é a solicitação de um chefe, de um salvador. Palavras que podemos também usar no feminino. Há um precedente célebre no séc.XV, com Jeanne D´Arc". A ler tudo, portanto.

FAR

TERRA

"Somewildwish" / 5

Como gosto de café!


(clicar para ampliar)
O açúcar e seu invólucro ficam aqui.

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Abrigo Temporário


(clicar no cartaz para o ampliar)

terça-feira, 17 de abril de 2007

POETA DA TRETA!

Vou fazer-me poeta
não tarda um instante.
Da treta!
Momentos da Vida
passados à escrita
de repente!
E de repente,
num instante,
muda-se tudo
e tudo na mesma!
Oh... oh... oh...
firme e hirto
como vara secada,
no calor da solada,
que grande cegada!
E poeta virei.

JOÃO AUTOR

Sinais


Desnho de Maturino Galvão

Ségolène Royal só liga com Bayrou na 2ª volta


São daquele tipo de revelações sensacionais. Ségo não fecha a porta a Bayrou e queixa-se dos "elefantes " do seu partido... A revista económica Capital diz que ela usa sapatos que custam 1200 Euros/ a peça...

Estamos na recta final da primeira volta das presidenciais. Há cinco anos que Sarko anda em campanha. Ségo teve que vencer os "elefantes" do seu partido, os rivais Fabius, Jospin e Strauss-Khan. Rocard afastou-se cedo das primárias e apoiou Strauss-Khan, como dissemos no tempo exacto. Neste texto, clicar aqui, pubicado hoje no Le Monde, Sego precisou a sua determinação e amargura face aos jornalistas da rádio judia , a Rádio J. E queixou-se dos seus colegas de partido, "que nunca a aceitaram como candidata". "Isso não me ajuda. Mas, preciso de forma optimista, que isso é o preço da minha liberdade e que finalmente possuo muita resistência, e constância".

Ségolène recusa qualquer acordo precoce com Bayrou, mas não o invalida para sempre. Conforme precisa, ao milímetro, a candidata da Esquerda Socialista recusa-se a caucionar "a combinação de alianças entre candidatos ou formações políticas", antes da segunda volta. " Depois da primeira volta, ninguém será proprietário dos seus eleitores e não os poderá forçar. E é com todas e todos aqueles que se reconhecerão na posição "França Presidente", que se disputará o futuro do país", frisou.
E Cohn-Bendit apoia Rocard e Kouchner alargando o acordo aos Verdes, prisioneiros "de um mundo irreal". (ver Libération)


FAR

domingo, 15 de abril de 2007

Le temps des femmes

"Les Français ne regretteront pas leur audace"
Propos recueillis par Pascale AMAUDRIC et Florence MURACCIOLE
Le Journal du Dimanche

Ségolène Royal est confiante en cette fin de campagne. "Le temps des femmes est venu pour remettre debout la maison France", affirme-t-elle. Elle répond à Rocard qui propose une alliance avec François Bayrou. Mais se refuse à dire qui pourrait faire partie du gouvernement qu'elle constituerait si elle était élue

Comment jugez-vous cette fin de campagne ?Passionnante. J'avance sereinement et fermement sur ma route pour convaincre les électeurs car je suis avec eux, habitée d'un sentiment de gravité face à l'importance du choix, et portée par un immense espoir pour mon pays. Je fais tout pour qu'à la face du monde, la France fasse le choix de l'avenir meilleur, pour la France présidente et pour la femme qui l'incarne.

Que pensez-vous de l'appel de Michel Rocard ?
Il a le mérite de la constance. Depuis des années il veut faire venir le centre par des alliances de personnes vers les socialistes. Je crois, moi, à la force des idées qui entraînent et font se lever les espoirs populaires que je vois dans toute la France. J'espère que je suis au bout de mes surprises, car point trop n'en faut! Aujourd'hui, mon choix c'est d'aller à l'essentiel: faire entendre à l'ensemble des électeurs les valeurs pour que la France se relève, afin qu'ils aient un vrai choix pour permettre à notre pays de reprendre la main. En particulier choisir le changement sans brutalité et vouloir une France où les valeurs humaines doivent l'emporter sur les valeurs boursières.

Quels sujets aimeriez-vous imposer dans cette dernière ligne droite ?Il me semble qu'aujourd'hui les Français ont bien saisi les personnalités des candidats et peuvent se faire une idée précise de la manière dont ils exerceraient le pouvoir... Quant au clivage entre mon projet et celui de la droite, il est clair. D'un côté, une société dans laquelle les Français seraient dressés les uns contre les autres, où régnerait le "chacun pour soi", une société du déterminisme, de la violence et de l'autoritarisme. De l'autre, une France apaisée, qui se rassemble autour de valeurs communes -travail, solidarité, esprit d'initiative-, une France du plein-emploi qui reprend confiance en sa jeunesse et qui garantit aux personnes âgées les sécurités auxquelles elles ont droit, qui croit à nouveau en sa capacité à produire de la richesse et à la redistribuer de manière équitable, une France, enfin, dont les dirigeants sont à l'écoute du peuple et non au service de groupes de pression.

Continue a ler no Le Journal du Dimanche

FAR

Cantares

JOHNY PIÇUDO
(Rima ordinária)

Johny Piçudo
tem de tudo:
ânus p'ra cagar
e pénis p'ra mijar,
mãos p'r'apalpar
e língua p'ra provar.
Tem cobiça
na ponta da piça.
Até ejaculações
p'los colhões!
Johny Piçudo
é um tesudo:
fode na cona
e fode na mão,
é uma fona
com tanta tesão.
Procura nos meios
um princípio carmim,
mordisca nos seios
e vem-se sem fim!
Agora...
Mija na mão
e deita fora.

JOÃO AUTOR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

sábado, 14 de abril de 2007

V-Presidenciais Francesas: Rocard propõe acordo político entre Ségolène e Bayrou

O pai da "Segunda Esquerda" alerta para a indispensabilidade da aliança entre o PS, o PRG, os Verdes e a UDF de Bayrou. Desde já, atenção. Sarkosy tenta jogar a política das águas turvas, do diz que não disse...

A 9 dias da primeira volta das Presidenciais, o ritmo político atingiu o clímax. Sarkozy, depois do lapso sobre o determinismo genético e Ségolène Royal depois do rumor lançado pela polícia secreta interior (RG) de que não passava da primeira volta, indo Le Pen à segunda como em 2002, foram surpreendidos por um texto de opinião de Michel Rocard, um dos pais da Esquerda Liberal mundial, hoje publicado no Le Monde, clicar aqui, que preconiza uma aliança entre Sego e Bayrou, antes da primeira volta. " É a grande chance da França ", frisa, para adiantar:" Unidos aos Verdes, a esquerda social-democrata (Sego/PS,PRG) e o Centro Democrático Social (Bayrou), constituem uma maioria no país. E dentro de duas semanas pode-se tornar a maioria efectiva ".

O antigo PM francês, com Delors a personalidade política mais fascinante dos últimos 25 anos do centro-esquerda francês, alerta para o pesadelo que Sarkozy pode incrementar em França: "A França irá sofrer durante cinco anos. E todos os franceses não irão sofrer da mesma maneira: os mais ricos ainda viverão melhor: As classes médias e os pequenos assalariados irão viver ainda pior. Os excluídos ficarão ainda mais isolados". E fundamenta ainda deste modo a sua tomada de posição:"Socialista e europeu desde sempre, afirmo que face à urgência dos dias de hoje nada de essencial separa mais em França os sociais-democratas e os democratas-sociais, isto é, os socialistas e os centristas. Sobre o emprego, sobre o alojamento, sobre a dívida pública, sobre a educação, sobre a Europa, as nossas prioridades são em grande medida a deles. Isolados, nem eles nem nós, não teremos chance nenhuma para bater a coligação de Nicolas Sarkozy e de Jean-Marie Le Pen".

"Não é preciso esperar pela segunda volta para criar a dinâmica da aliança" adverte: "Dentro de poucos dias, os franceses decidirão quem, François Bayrou ou Ségolène Royal, será o melhor para vencer Sarkozy. E isso será feito de uma forma superior se souberem que, em todo o caso, uma aliança sincera e construtiva defenderá à segunda volta, e depois nas Legislativas, um Projecto Comum de Esperança para a França", aponta ainda.

O candidato do centro-direita Nicolas Sarkozy, relapso a cometer lapsos de grande significação política, deu ontem uma grande entrevista ao Libération, clicar aqui, onde insinuava esta desculpa-confissão impressionante: " O Maio 68 que denuncio, é o relativismo: tudo se equivale: Se se suprimem as regras, não existe diferença entre o bem e o mal, tudo se equivale ". Isto vem da direita americana recauchutada que elevou GWBush, como analisa o normalien Eric Fassin, clicar aqui, a partir de 1994, precisamente com o best-seller "O desvio posto em causa", a apologia da revolução conservadora escrito por Newt Gingrich .

FAR

TERRA

"African Kids"/3 2005 - Lubango

Sem querer moralizar...

Hoje saí. E quando emprego esta expressão refiro-me ao facto de andar nos transportes públicos, ouvir do que as pessoas falam, observar. Em termos de teatro chamo a isto 'fazer laboratório'.
A meio da tarde entro numa estação da Fertagus algures entre Coina e Roma-Areeiro. A máquina dos bilhetes não funciona; a bilheteira, que serve para tudo, menos para vender bilhetes de forma a que eu possa entrar no comboio que está a menos de oito minutos de chegar à estação, essa bilheteira apresenta uma fila considerável. Atento ao relógio (preciso de estar em Lisboa às 17 horas), reparo num casal munido da respectiva filha. Aguardam a sua vez na fila. São poucos os que pretendem um bilhete, todos eles vêm munidos de papéis e fotografias e imensas questões para pôr aos senhores que se sentam do outro lado do balcão. E os senhores do balcão lá vão fazendo escorrer o tempo, de - va - ga -ri - nho.
Enquanto no relógio o tempo se consome, assisto a explicações e a explicações acerca das explicações. Concluo, inquieto, que o simplex não chegou à Fertagus. E, desesperado, começado a pensar que o simplex é uma miragem.
Para cúmulo, constato que o casal, que até aí se mantivera unido, no momento em que lhe é concedido o acesso à bilheteira, se desmembra: ela, mais a filha vão para o balcão da direita e ele, só e munido do papel e das fotos, dirige-se para o balcão da esquerda.
É triste ver "claramente visto" (como diria o nosso Camões...) o fim tão inesperado de uma união de facto. Na hora de aceder à bilheteira assumem que se casaram com separação da dita.
A filha do casal, essa, julgando-se livre de quaisquer tutelas, não descansou enquanto não alapou o cu no balcão da bilheteira. À puridade se diga que o pai (no balcão da esquerda...) de imediato se desligou daquilo que lhe explicava o bilheteiro e veio admoestar o rebento (o que só lhe poderá vir a render créditos quando, em Tribunal, se discutir a regulação do poder paternal...). A mãe da criança (uma tamanhona vestida de fato de treino) esboçou um gesto, mas nada mais que isso, e prosseguiu a sua alegre conversa com o senhor da bilheteira (a da direita) indiferente a todos os outros; a todos aqueles que, como eu, não tiraram a tarde para ir, em família, a uma bilheteira conversar com os senhores que vendem os bilhetes.

Por acaso, só por mero acaso, consegui entrar no comboio e, assim, honrar os meus compromissos. Só esse facto me permite escrever assim. Quanto às conversas a que esperava assistir não me interessaram, nem são dignas de registo.
Já ninguém fala de Sócrates...

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Vou ali ver fotos de um amigo cá da casa


(clicar no cartaz para ampliar)
IWALEWA-HAUS. Bayreuth
Armando,

Tenho andado atrasado com os desenhos. O texto para o blog deu-me muito trabalho a escrever, mas não podia deixar passar aquela ideia de snifar o pai. Já viste quanto terreno útil se libertaria se implementassem essa medida? Até as homenagens ex-votos eram mais fáceis. Bastava meter flores no umbigo, ou noutro orifício mais fundo, consoante o amor pelo ente querido.
Também me tem ocupado uns mails que ando a escrever para o DIAP. Vi uma notícia de que começaram a investigar a esquadra da Amadora por usar droga para incriminar facínoras. Como prova viva da excelência dessa técnica policial não me contive. Não podia deixar de lhes explicar que isso é uma prática muito antiga e, que, é usada nas outras esquadras. O que é preciso fazer é uma avaliação dos resultados, para criar um quadro de honra das esquadras, como fazem para as escolas e outras instituições públicas.
Agora tenho que escrever para a ADSE. Afinal o cartão não é “simplexmente” mudado quando um tipo é reformado. Tenho que meter um impresso não sei onde, (não é onde estou a pensar), e preciso não sei de quê do sítio onde trabalhei. Isto tudo deve ser simplex de certeza!
Grande merda o meu gato acaba de morrer. Depois continuo o mail.

Maturino Galvão

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

DA MORAL...

O que me preocupa mais é aquilo que passa para o cidadão comum, para os jovens...
Estar num cargo público (político) e servir-se do mesmo para obter benefícios pessoais é vil.
A isso já alguém chamou estar sentado à manjedoura do poder.
Quem serve a coisa pública há-de exigir-se uma rectidão a toda a prova, uma transparência irrepreensível.
Lembram-se, por acaso, de um dos presidentes desta república (a 1ª) que ia de sua casa até à sede da presidência num transporte público?...
Serão outros tempos, é certo, mas também vos direi que a verticalidade é intemporal.
A imagem que alguns dos políticos da nossa praça vão dando é a de que tudo é permitido, até mesmo o partido da oposição (PSD) se cala num claro sinal de não querer lavar em público a roupa suja que alberga no seu seio. Sabiamente remetem-se ao silêncio próprio daqueles que também padecem de idênticas mazelas.
A manjedoura do poder, porém, não é inesgotável porque a sustenta um país que está nas lonas.
Não há serviço público que não esteja à beira da ruptura: na Saúde, no Ensino, na Justiça, nas Finanças Públicas... Tudo se encontra votado ao oportunismo e ao arranjismo.
O presente Governo não sabe para onde vai, nem sabe para onde há-de ir.
A questão não está em saber se há ou não Licenciatura. É um problema mais amplo: o da moral.
É-me indiferente saber se o 1º ministro do meu país é licenciado ou não; importa-me, porém, saber que ele é impoluto, que não usa o seu poder (ou que nunca usou do seu poder) para dele ou através dele colher benefícios pessoais.
Não acho normal, nem natural utilizar papel timbrado de qualquer órgão público para tratar de assuntos pessoais.
O cidadão José Sócrates é isso mesmo: um cidadão que, devido à sua actividade política, ascendeu a cargos públicos.
O exercício dessa actividade não lhe confere o direito a fazer valer o cargo que ocupa como meio de obter benefícios pessoais.
Alguém que entra para um Governo com pretensões (e não só) de moralizar alguns sectores da vida pública expõe-se, agora, a uma questão "mesquinha".
Só mesmo quem se dispõe a que lhe atirem a primeira pedra...
Só mesmo quem sabe que esta gente que governa anda tonta e adormecida e não protesta, não contesta, nem se indigna.

quinta-feira, 12 de abril de 2007