quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Da Capital do Império

Olá,

Peidos, arrotos, diarreia, hemorróides, arterite, alergias, gripes, diabetes, ranho no nariz, dificuldades em fazer xixi ou não controlar o xixi, calvície e impotência sexual. Esta é parte da dieta diária a que o pessoal aqui nos “states” é submetido à hora de jantar quando liga a televisão para ver os noticiários das grandes cadeias de televisão que transmitem à escala nacional.
Teoricamente meia hora de notícias. Na prática cerca de 20 minutos sendo os restantes 10 minutos reservados a anúncios. E por razões de “marketing” que têm que ver com a idade da audiência desses noticiários os anúncios estão virados para as insuficiências do corpo que aumentam com a idade ou com certas épocas do ano.
Por exemplo agora há uma série de anúncios sobre “mucus” no nariz. Na primavera aumentam os anúncios sobre como parar os espirros causados pelo pólen das flores.
Sempre em moda estão anúncios com uns gajos e gajas a mexerem-se com um ar de aflitos em cadeiras enquanto uma voz narrativa fala da “comichão” ou da dor que podem atacar a qualquer momento no fundo das costas, mas que tudo pode ser resolvido com … “Preparation H” ( O H é claro está é a inicial da palavra hemorróida). Ou então como o “crème Preparation H” que aparentemente “cools” o local afectado.
Os homens aparentemente podem ter dificuldades em fazer xixi a qualquer época do ano porque o anuncio para “Flomax” está sempre em moda, com uns tipos assim com o aspecto de terem mais de 50 anos mas magros e com um ar saudável a andarem de bicicleta e a rirem-se muito enquanto a voz off nos diz que com “Flomax” urinar é mais fácil. Outro dia tive quase a recomendar o Flomax a um amigo que se queixava que agora quando vai fazer xixi tem sempre que ter uma longa conversa com o instrumento antes da urina começar a fluir. Acabei por lhe dizer filosoficamente para ver os noticiários o que deixou …embasbacado.
Pelo que vejo nos anúncios as mulheres têm o problema oposto porque há diversas companhias com anúncios sobre umas fraldas para adultos e são sempre mulheres sorridentes que aparecem porque um certo tipo de fraldas oferece “protecção e conforto para que você possa continuar com a sua vida”. Presumo que se alguém tomar uma overdose de Flomax pode sempre fazer uso extra das fraldas “Serenety”.
“Sente-se inchado? Gas-X é a resposta”. Isto como vocês já devem ter adivinhado é para os peidos. Os americanos chamam-lhe gás. Há também um anúncio com um gajo com ar de infeliz a esfregar o peito e a queixar-se de azia. Às vezes usam um gajo com um ar de enjoado a olhar para umas pizza cheia de pepperoni no topo. E depois já com um ar todo sorridente a gabar-se de que a azia e os arrotos acabaram porque …”o meu médico disse Mylanta”.
À hora do jantar contudo nada mais apetecível de que ouvir um gajo a vender “Mucinex” que “solta o mucus no naris e dura 12 horas” ou de Listerine que “branqueia” os dentes, lava “entre e atrás dos dentes” e “acaba com o mau hálito”. Ou então aquele de um gajo no meio de uma reunião a ter que correr para a casa de banho porque está com diarreia ou então no meio de uma bancada de um estádio desportivo a ter que subitamente correr para ir à casa de banho
Hà anúncios sem fim para a arterite, para o colesterol, para o coração e até para combater os efeitos da quimioterapia quando se luta contra o cancro. (Este último tem sempre um velho a brincar com um garoto que deve ser o neto).
Por receio de acções em tribunal (isto é a América) muitos destes anúncios são acompanhados no seu final de uma voz a falar muito rapidamente dos efeitos secundários que alguns dos medicamentos podem ter e quase todos acompanhados sempre em voz alta da recomendação: “pergunte ao seu médico”. Os médicos não acham piada nenhuma porque muita malta vai agora ao médico para lhe exigir para receitar o medicamento tal e tal como viu na televisão.
O anúncio de Viagra esse tem um gajo e uma gaja assim de aspecto de meia-idade com um ar feliz e descansado a abraçarem-se e a sorrir ou então na praia todos contentes a beberem um copo de vinho branco pois encontraram a solução para a “disfunção eréctil”. A voz avisa no entanto que o medicamento pode ser perigoso para pessoas com problemas de tensão arterial, pode causar “uma diminuição de visão” (!) e avisa que se “uma erecção durar mais de quatro horas então chame o seu médico”. O que me surpreende pois se eu alguma vez tiver uma erecção que dure mais de quatro horas não chamo o médico. Convoco mas é de imediato uma conferência de imprensa….
Bem, desculpem lá estar a chatear com todos estes pormenores. São essenciais contudo porque para além de serem um indicativo da agressividade das companhias farmacêuticas (“Merck – os pacientes vêm primeiro”) reflectem também a epidemia de diagnósticos que assola este país e pelo que me apercebo começa também a afluir certas sociedades aí desse lado do charco. Quando se tosse depois de correr é porque se tem asma; quando um gajo acorda chateado com a vida ou com os “blues” é porque está deprimido. E coitado dos gajos que as vezes andam contentes e às vezes tristes, aparentemente são bipolares. Chegamos ao ponto hoje em que para a psiquiatria qualquer pessoa que se comporta de modo obnóxio é obviamente alguém que tem um problema psiquiátrico...até o contrário poder ser provado.
Em termos puramente médicos há agora aqui uma obsessão com números e padrões inflexíveis. A Dra Lisa Schwartz da faculdade de medicina de Darmouth disse que se todas as pessoas nos Estados Unidos tivessem que seguir à risca os padrões de colesterol, açúcar no sangue, gordura e diabetes então 75 por cento dos americanos seriam doentes.
Os fabricantes de medicamentos acham que sim e impigem mesmo através da publicidade as noções de novas doenças como (a minha favorita) o “sindroma da perna inquieta” para o qual já há um medicamento Requip, anunciado na hora dos jantar com o slogan “faça as pazes com a sua perna”. Um dos efeitos secundários desse medicamento, diz o anúncio, é que pode causar náusea e tonturas. Colmo a vida é difícil, sempre a forçar nos a tomar decisões. Há que fazer a escolha portanto: paz com a perna irrequieta ou náuseas e tonturas. Mas pensando bem há sempre um medicamento para náuseas e tonturas.
O “sindroma da perna irrequieta” é talvez prova que no país do marketing e comercialização de tudo não há nada melhor que inventar ou descobrir um produto (neste caso um sub produto de um medicamento contra a Parkinson), depois inventa-se a doença e o mercado et.. voilà.
Outro dia no noticiário de uma das três cadeias nacionais logo a seguir ao anúncio para o Requip mostraram uma reportagem com um campo de refugiados no Quénia com Somalis escanzelados e eu perguntei a mim mesmo: quantos deles é que sofrem de “sindroma de perna irrequieta” e não o sabem? Será que há crianças esfomeadas nos campos de refugiados que sofrem de “intolerância à lactose”?
Perguntas para a ONU formar umas comissões de investigação multilaterais de “personalidades eminentes”, não acham?
Um abraço e por amor de de Deus não se esqueçam: se sentem o pulso a bater… então estão doentes.

Jota Esse Erre

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Desenho de Maturino Galvão
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Vox-Blogs Magazine

A partir de hoje sou também colaborador da revista on-line Vox-Blogs Magazine, com uma rubrica semanal chamada "Manifesto dos Iguais". Esta é uma ideia extremamente interessante do João Ferreira Dias do Kontrastes, e tem uma particularidade: para além de poder ser consultada no formato blogue, é editada semanalmente uma versão em pdf que é visualisada num formato clássico de revista e pode ser imprimida para papel. É possivel e desejável inscrever-se numa mailing list, para receber a revista em primeira mão. Para isso, deverá enviar um mail para kontrastes.blogue@gmail.com. Para já estão disponíveis para download os números um e dois. O três ainda só chegou à mailing list (ainda não colaboro nestes). É claro que publicarei os meus textos também aqui no 2+2=5. Este é o primeiro:

Manifesto dos Iguais - Primeiro Manifesto

Este é o primeiro artigo que escrevo para a VoxBlogs, no seguimento de um simpático e prestigiante convite do João Ferreira Dias. O tempo tem sido pouco, pelo que demorei mais que o previsto a corresponder, mas o que importa é que cá estamos.
Esta rubrica que se pretenderá semanal (ai o tempo, o tempo…) chama-se “Manifesto dos Iguais”. Remete para uma personagem singular da História, Gracchus Babeuf, conspirador revolucionário dos tempos da Revolução Francesa. Considerado por Marx como “o primeiro comunista”, Babeuf, que desde a prmeira hora esteve na linha da frente da Revolução, é sobretudo conhecido por ter inspirado e liderado em 1796 a chamada “Conspiração dos Iguais”, sustentada ideologicamente por um famoso panfleto, o “Manifesto dos Iguais”. Falhado o golpe, os conspiradores foram julgados em 1797. Foi-lhes dada a hipótese do exílio em troca da abjuração. Mas Babeuf, em vez disso, pronunciou um célebre e brilhante discurso, onde pela primeira vez foi usada a palavra “classe” para definir o Povo, e justificou os seus actos em nome do Socialismo e da Declaração dos Direitos do Homem. Em 27 de Maio de 1797 foi guilhotinado.
Não se assustem, porém, os leitores menos radicais. Mais que as ideias de Babeuf, interessa-me o seu exemplo de verticalidade e coragem, e se me assumo como Socialista, não pretendo derrubar a Democracia, antes pelo contrário, defendo-a contra ventos e marés. Estes “Iguais” do meu manifesto somos todos nós. Surgiu-me também como interessante a associação de “Iguais” ao suporte em que publico estes textos, a blogosfera, onde nos movimentamos em rede e não verticalmente, e a informação e opinião são potencialmente iguais e livres, e somos todos nós em comum que a credibilizamos ou não.
Nesta rubrica irei abordar temas políticos, mas não apenas, e não sobretudo, numa perspectiva de “actualidade”; antes procurarei uma análise mais densa e profunda. Também pretendo fazer alguma divulgação sobre autores que considero essenciais para a compreensão dos nossos tempos. Enfim, também comentarei, certamente, os temas que a actualidade me proporcionar. Espero que os leitores apreciem, e assim contribua para o sucesso de uma publicação que é uma ideia de grande valor e originalidade no panorama nacional, e que merece ser feliz.
Na próxima semana arranca, então, já na sua forma definitiva, o “Manifesto dos Iguais”. Até lá.

O liberal-salazarismo

Tem sido de todo interessante o debate autofágico em curso em blogues liberais. Aquele que em tempos anunciaram como "o maior defensor da liberdade em Portugal nos últimos 20 anos" (sic), Pedro Arroja, afinal resume o seu "liberalismo" a duas teses peregrinas: a de que a instituição mais liberal de sempre terá sido a Igreja Católica, e a de que Salazar era liberal. Se isto pode parecer ridículo para uns, ou abjecto para outros, convém não elevar demasiado o espanto. Lembremo-nos que o "liberalismo" é, hoje por hoje, sinónimo de capitalismo sem regras, e que a Direita sempre foi mestra em truques de vira-casaca. Não surpreende que aqueles para quem o programa de sempre é manter tudo como está em termos de ordem socio-económica (e quando os ventos para aí soprarem, afirmá-la com mais convicção- é o caso da actualidade), se metamorfoseiem ciclicamente nas formas políticas à sua medida: ontem salazaristas, depois conservadores, hoje liberais. O que espanta é a falta de tacto de Arroja, uma certa candura ingénua, que supõe que um verdadeiro liberal irá com toda a naturalidade engolir sapos como Salazar e o Papa. Por outro lado, é significativo que senhores como Arroja ou André Azevedo Alves se sintam hoje tão à vontade para defender a ICAR e o salazarismo com a maior das desfaçatezes. Deve lembrar aos mais distraídos que a Democracia não é um facto, antes uma circunstância, e que o nosso esquecimento e alheamento são o terreno dos novos salazares, desta vez, suprema das ironías, mascarados de liberais.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007


Dili

Pintura de João de Azevedo

Mambo 10

Afinal, parece ser que desde a formação do nosso inveterado reino, se misturou muita gente em traços genéticos a partir das carnes do nosso suposto rebelde D. Afonso Henriques.
Sabemos, que o mundo é uma coisa de nada - ainda que complexa, que cabe algo de si na nossa memória, que ainda nos entram pelas narinas as mesmas moléculas de oxigénio que se passeavam aquando dos nossos antepassados primordiais, que a nossa fixação semântica em termos de conhecimentos vai adoecendo, mas foi uma surpresa perceber que supostamente, o presidente dos EUA, ainda é qualquer coisa de português, parente afastado é verdade, mas descendente do nosso Afonso...

p.s. Consultar geneaportugal

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Lucinda Maria, a da FNE

Federação acusa ministério de "subversão"FNE rejeita acordo sobre acesso a professor titular 26.02.2007 - 19h12

A Federação Nacional de Professores (FNE) considerou hoje que existe "uma subversão" da responsabilidade do Ministério da Educação sobre o papel do docente nas escolas e garantiu não existir acordo com a tutela sobre o acesso a professor titular.
"Este não é um diploma que a FNE possa aceitar", declarou a dirigente da estrutura Lucinda Maria, no final de uma ronda negocial no Ministério da Educação, considerando, no entanto, ser "extemporâneo" falar na possibilidade de a federação recorrer aos tribunais para contestar a proposta do ministério.De acordo com a dirigente sindical, "o ministério continua a manter a subversão daquilo que a FNE considera ser a função do professor, que é o trabalho com os alunos, enquanto a tutela parece valorizar excessivamente o exercício de cargos".Para a FNE, a tutela "não tem tido em linha de conta todo o percurso profissional dos docentes, valorizando os últimos sete anos em detrimento de outros cargos e funções que os professores e educadores foram exercendo ao longo dos tempos, para além do trabalho com alunos e comunidade, que não está aqui valorizado".Um dos aspectos mais contestados pelos sindicatos é a ponderação do factor assiduidade, que prevê a atribuição de zero pontos a um docente que tenha faltado mais de nove vezes num ano lectivo, mesmo que por causas justificadas como doença, morte de familiar ou presença em acções de formação, por exemplo.Quanto a esta questão, a FNE afirmou não ter havido qualquer recuo por parte do ministério. "Todas as faltas que contam para efeitos legais e que não têm perda de qualquer direito não poderão ser tidas em conta neste cômputo que o ME está a fazer", sublinhou.Os sindicatos de professores admitiram, sexta-feira, recorrer ao tribunais para contestar a proposta da tutela para o acesso à categoria de professor titular, considerando inaceitável que faltas justificadas sejam penalizadoras para efeitos de progressão na carreira.Em resposta aos sindicatos, o Ministério da Educação considera que pretende "valorizar a assiduidade e penalizar o absentismo".


LUCINDA MARIA, A DA FNE


Segundo a Lusa uma tal Lucinda, em nome da FNE, insurgiu-se contra a proposta do Governo relativamente ao concurso para a titularidade dos profes.
A meu ver, andou bem, a Lucinda da FNE.
Acima de tudo, topou com o mais importante desta cena toda do ECD: estão, claramente, a ir-lhe ao bolso. Nem mais! Era o que faltava! Isso é qu’éra bom!
A Lucinda nunca faltou, nunca fez greve ( “à sexta-feira não....”, “à segunda-feira não”, “ à quarta-feira também não que calha a meio da semana”, etc.), enquanto esteve na escola fez de tudo: coordenadora do serviço de exames, verificação dos registos biográficos dos alunos, o famoso ‘pente-fino’ (verificação das pautas onde se lançam as classificações dos alunos), a tudo se permitiu sem perceber que estava a fazer o trabalho dos Administrativos que povoavam a Secretaria da Escola para onde fora contratada na qualidade de Professora. Lucinda só se apercebeu tarde demais. Nunca sequer estranhou por que razão tragava uma magra sopa na sala de professores e não via nenhum dos funcionários admitidos com cargos administrativos. Esses, iam almoçar nas calmas a casa, regressavam e iam tomar o seu café no bar da sala de professores que ainda cheirava a sopa indefinida e a sandes de carne assada. A Lucinda enveredou, então, por um certo sindicalismo: encostou-se à Situação.
O SPGL e a FENPROF eram coisas vermelhíssimas. Como moderada que era, a Lucinda resolveu encostar-se a algo que não a comprometesse em demasiado: filiou-se no SINDEP – era uma solução de compromisso, o Governo ora era PS, ora era PSD – em suma, dava para tudo...
E a brava Lucinda ascendeu na carreira (sindical). Cada vez mais longe da Escola (mas, diga-se em abono da verdade, com grandes remorsos...) a nossa Lucinda embrenhou-se e deu-se toda aos Sindicatos.

(Em abono da verdade revele-se que a Lucinda remoçou. Nem parecia a mesma. Sempre colocada em escolas problemáticas, deitava pelos olhos a merda a que tinha chegado o nosso sistema de ensino público.
Não esquecendo os ensinamentos católicos recebidos na infância, pensou que ser professora consistiria em estar no Inferno, ser membro de um Conselho Executivo seria encontrar-se no Purgatório, ao passo que a qualidade de sindicalista lhe conferia a qualidade de membro efectivo do Paraíso, acrescentando a isto a possibilidade real de aparecer num telejornal de qualquer uma das televisões ou, ainda, no programa da Fátima C.F. )

Tudo aquilo, posto em tal equação, parecia claro. Fez-se a luz no bravo espírito de Lucinda.

Enquanto aos outros profes, a grande maioria dos profes, a esmagadora maioria dos profes, manteve-se estupidamente a trabalhar, assistindo impavidamente à degradação do nosso sistema de ensino público. A suportar todo o tipo de imposições, a aturar cada Reforma sempre que mudava o Governo, a ver passivamente a degradação do seu perfil social e económico, a faltar ao trabalho achando que esse estatuto lhes assistia. Trabalhando estupidamente. Assistindo a baile de finalistas ( do 9º ano?... Finalistas de quê?...), viagens de finalistas ( do 9º ano?... Estão a finalizar o quê?...), organizando visitas de estudo?... (Quantos impressos há que preencher? Autorizações? Aulas de substituição?), reuniões de Departamento?...
reuniões intercalares? O que quer que um(a) Director(a) de Turma se lembre de convocar?... E, ainda, dispondo-se a fazer figura de parvos em manifestações a quem não ligava pêvas ( talvez num esforço competitivo com as Lucindas Marias dos mil e um Sindicatos dos Professores que existem neste país... )

Abençoada Lucinda que se lembrou do sindicalismo à séria.
Grande alívio.
Ou não?...
E agora, Lucinda – votante alternadeira nas deputais, as quais ela confunde como os demais como a eleição de quem vai ser o próximo primeiro-ministro de Portugal.
Uma vez no Cavaco, porque parecia ser sério; logo depois no Guterres porque até parecia fixe`; outro de raiva no Santana (confessa que não era só raiva, aquele lábio inferior dele era mesmo ‘sexy’...) e, logo após, o Sócrates...
E a tua vontade, Lucinda, é essa: que nada mude para que tudo fique na mesma.
Não é, Lucinda?
Cumpres, Lucinda. É um hábito teu, Lucinda. Quantas vezes questionaste os programas que emanavam da tutela e que te diziam directamente respeito, uma vez que eras tu quem os irias pôr em prática?....
Por que te revoltas agora, Lucinda Maria?...
Apostaste no cavalo errado?...
Viste?!
Afiinal, a via certa não era o Sindicalismo!
Pois, parece que a coisa ia mais pela via do Mestrado, a equiparação a bolseiro, a licença sabática, logo de seguida o Doutoramento, mais uma equiparação e ...
Percebes, Lucinda, o teu logro?...
Não desesperes, porém, o teu protesto há-de mover influências, hão-de finalmente reparar em ti e hás-de trepar (não no sentido, infelizmente para ti, que lhe dão os nossos irmãos do Brasil...) na carreira.
Tudo se arranja, minha boa Lucinda.
Hás-de ter garantida a tua titularidade à pala da tua militância sindical.
Ou não?...


Não te queixes, Lucinda Maria...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

domingo, 25 de fevereiro de 2007

NY Times: Existem hipóteses de Putin se recandidatar.

Segundo um enviado especial do NY Times a Moscovo, Steven Lee Myers, há a hipótese de ser criada uma " vaga de fundo ", orquestrada pelos Governadores das províncias russas, de forma a ser posta à votação na Douma (Parlamento), uma lei que suprima da Constituição a impossibilidade do Pr. se recandidatar mais de uma só vez. Abrindo assim caminho para o terceiro mandato do actual locatário do Kremlin. O artigo narra a saga da apresentação dos prováveis candidatos - onde Kasparov se assume como Oposição frontal - e apresenta com elasticidade e sem triunfalismos as hipóteses dos dois candidatos hipotéticos de Putin, o pdg da Gazprom, Dmitri Medvedev, e o actual ministro da Defesa, Sergei Ivanov.

FAR

Conversas de Café

O Kontrastes está a publicar uma interessante série de entrevistas a bloggers, com o título genérico de "Conversas de Café". Na número 72 eis que o entrevistado é... Exacto, este mesmo que vos escreve. Sugiro um clique aqui para acederem a um notável momento de toda a história da entrevista nacional, o que digo eu, mundial, aliás, universal. É só ler.

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Presidenciais francesas: Villepin "vende" caro o seu apoio e Jospin entra para "estocar" Sarkozy

Estamos a dois meses das eleições. Bush pode dar uma cambalhota se o candidato da direita ganhar. Mais de 24 sondagens favoráveis para Sarko. Ségo muda de táctica(s) a um ritmo alucinante. O Libé tem trazido os melhores artigos contra um Le Monde muito circunspecto.


Dominique de Villepin trocou as voltas a uma audaciosa pergunta do correspondente do Financial em Paris: quando tudo se preparava para declarar o " apoio " ao candidato da direita republicana Sarkozy, à última hora congelou a expressão dos seus desejos. Ontem no Jornal da France 2, furtou-se a dar uma resposta convincente. Entretanto, o Canard Enchainé desta semana conjectura que " podem " haver negociações entre Villepin e Sarkozy, e Dominique aparecer como candidato da Direita nas eleições para a câmara de Paris. Golpes de rins e golpes de bluff. Essa a tónica desta pré-campanha siderante, mas onde aparecem elementos de alta valia: o chefe da campanha de Sarko, Claude Guéant, e a equipe mediato-comunicacional de Ségolène Royal que a instrumentaliza a galope e lhe tirou aquela terrível sensação de madona-só-boa-para a cama... que fez psichiit nas últimas três semanas.

GW Bush estará a calcular as suas chances de prolongar o final abracadabrantesco do seu mandato? Com a Angela Merkel no " papo", um Prodi favorável ao aumento das bases americanas na Península, seria ouro sobre azul se Sarko ganhasse as enormíssimas prerrogativas de PR gaulês. Será que Sarko vai ter " massa " a rodos para seduzir, melifluamente, o seu eleitorado, que vive com o coração apertado pelos problemas causados pela Globalização e o inferno das deslocalizações? Quem está disposto a passar um cheque-em branco a um puro produto da direita francesa, arrogante e parisiense, qb?. A mulher, que tinha roubado a um amigo no dia do casamento deles, virou mandatária-operacional total. Ao oposto do François Hollande, o companheiro de Ségò e pai dos seus quatro filhos.

Face às dificuldades na passagem pública da mensagem programática de Ségolène Royal, ontem foi anunciada a constituição de um super-comité de apoio para o " Pacto Presidencial ", onde os jospinistas - a rival Martine Aubry, Jean Glavany, o maire de Paris - podem entrar na sequência da entronização de Lionel Jospin, o candidato perdedor de 2002, no referido areópago de cúpula da campanha socialista mais abrangente, onde Strauss-Khan e Fabius, patrões de tendência, também ajudam no " forcing". Vão ser dois meses exaltantes, portanto. O Le Monde tenta um equilíbrio perigoso, já que o seu presidente do directório, Alain Minc, é cúmplice há anos de Sarko e do seu patrono Balladur. O Libé. que tenta salvar os " móveis " tem sabido ultrapassar as " minas e armadilhas" e revela, ao nível da sua direcção sob a batuta de Laurent Joffrin, ex-Nouvel Obs, um apoio crítico muito inteligente a Ségo.

FAR

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Deleuze: Post-Scriptum sobre as sociedades de controlo (2)

II. LÓGICA


Os diferentes internatos ou meios de confinamento pelos quais passa o indivíduo são variáveis independentes: supõe-se que a cada vez ele recomece do zero, e a linguagem comum a todos esses meios existe, mas é analógica. Ao passo que os diferentes modos de controlo, os controlatos, são variações inseparáveis, formando um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica (o que não quer dizer necessariamente binária). Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas os controlos são uma modulação, como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro. Isto vê-se claramente na questão dos salários: a fábrica era um corpo que levava as suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controlo a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prémios mas a empresa esforça-se mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua meta-estabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cómicos. Se os concursos de televisão mais idiotas têm tanto sucesso é porque exprimem adequadamente a situação de empresa. A fábrica constituía os indivíduos num só corpo, para a dupla vantagem do patronato que vigiava cada elemento na massa, e dos sindicatos que mobilizavam uma massa de resistência; mas a empresa introduz a todo o momento uma rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo. O princípio modulador do "salário por mérito" tenta a própria Educação nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controlo contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido de entregar a escola à empresa. Nas sociedades disciplinares não se parava de recomeçar (da escola à caserna, da caserna à fábrica), enquanto nas sociedades de controlo nunca se termina nada, a empresa, a formação, o serviço, sendo os estados meta-estáveis e coexistentes de uma mesma modulação, como que de um deformador universal. Kafka, que já se instalava no cruzamento dos dois tipos de sociedade, descreveu n'O Processo as formas jurídicas mais temíveis: a desobrigação aparente das sociedades disciplinares (entre dois confinamentos), a moratória ilimitada das sociedades de controlo (em variação contínua) são dois modos de vida jurídicos muito diferentes, e se o nosso direito, ele mesmo em crise, hesita entre ambos, é porque saímos de um para entrar no outro. As sociedades disciplinares têm dois pólos: a assinatura que indica o indivíduo, e o número de matrícula que indica sua posição numa massa. É que as disciplinas nunca viram incompatibilidade entre os dois, e é ao mesmo tempo que o poder é massificante e individuante, isto é, constitui num corpo único aqueles sobre os quais se exerce, e molda a individualidade de cada membro do corpo (Foucault via a origem desse duplo cuidado no poder pastoral do sacerdote - o rebanho e cada um dos animais - mas o poder civil, por sua vez, iria converter-se em "pastor" laico por outros meios). Nas sociedades de controlo, ao contrário, o essencial já não é uma assinatura nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do controlo é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou à rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se "dividuais", divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou "bancos". É o dinheiro que talvez melhor exprima a distinção entre as duas sociedades, visto que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro - que servia de medida padrão - , ao passo que o controlo remete a trocas flutuantes, modulações que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda. A velha toupeira monetária é o animal dos meios de confinamento, mas a serpente é-o das sociedades de controlo. Passámos de um animal a outro, da toupeira à serpente, no regime em que vivemos, mas também na nossa maneira de viver e nas nossas relações com outrem. O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, mas o homem do controlo é antes ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo. Por toda parte o surf substituiu os antigos desportos. É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina, não porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las. As antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas, roldanas, relógios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo activo da sabotagem; as sociedades de controlo operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o activo a pirataria e a introdução de vírus. Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo. É uma mutação já bem conhecida que pode ser resumida assim: o capitalismo do século XIX é de concentração, para a produção, e de propriedade. Por conseguinte, erige a fábrica como meio de confinamento, o capitalista sendo o proprietário dos meios de produção, mas também eventualmente proprietário de outros espaços concebidos por analogia (a casa familiar do operário, a escola). Quanto ao mercado, é conquistado ora por especialização, ora por colonização, ora por redução dos custos de produção. Mas actualmente o capitalismo não é mais dirigido para a produção, relegada com frequência à periferia do Terceiro Mundo, mesmo sob as formas complexas do têxtil, da metalurgia ou do petróleo. É um capitalismo de sobre-produção. Não compra matéria-prima e já não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são acções. Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar à empresa. A família, a escola, o exército, a fábrica já não são os espaços analógicos distintos que convergem para um proprietário, Estado ou potência privada, mas são agora figuras cifradas, deformáveis e transformáveis, de uma mesma empresa que só tem gerentes. Até a arte abandonou os espaços fechados para entrar nos circuitos abertos do banco. As conquistas de mercado fazem-se por tomada de controlo e já não por formação de disciplina, por fixação de cotações mais do que por redução de custos, por transformação do produto mais do que por especialização da produção. A corrupção ganha aí uma nova potência. O serviço de vendas tornou-se o centro ou a "alma" da empresa. Informam-nos que as empresas têm uma alma, o que é efectivamente a notícia mais terrificante do mundo. O marketing é agora o instrumento de controlo social, e forma a raça impudente dos nossos senhores. O controlo é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem já não é o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controlo não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos bairros de lata e dos guetos.

Gilles Deleuze
in Conversações (continua)

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X. Castoriadis: Na história do Ocidente...

"Na história do Ocidente há acumulação de horrores, tanto contra os outros como contra consigo próprio. Esse não é um privilégio seu: quer se trate da China, da Índia, da África antes da colonização ou dos Astecas, as acumulações de horrores ocorrem por todo o lado. A história da humanidade não é a história da luta de classes, é a dos horrores, se bem que ela não seja apenas isso. É verdade que há uma questão a debater, a do totalitarismo: será este, como o penso, o desfecho dessa loucura do domínio numa civilização que fornecia os meios de extermínio e de endoutrinamento numa escala nunca dantes verificada na História?, será um destino perverso, imanente à humanidade como tal, com todas as suas próprias ambiguidades, ou será ainda outra coisa?"

"Ao invés, há qualquer coisa que é a especificidade, a singularidade e o pesado privilégio do Ocidente: a sequência soció-histórica que se inicia com a Grécia e que recomeça, a partir do séc. XI na Europa ocidental, é a única na qual vemos emergir um projecto de liberdade, de autonomia individual e colectiva, de crítica e de autocrítica, o discurso da denúncia do Ocidente constitui a sua mais estrepitosa confirmação, pois, pelo menos alguns de entre nós são capazes, no Ocidente, de denunciar o totalitarismo, o colonialismo, o tráfico de escravos negros ou o extermínio dos Índios americanos, mas não vi os descendentes dos Astecas, dos Hindus ou dos Chineses fazerem uma autocrítica análoga, e ainda hoje vemos os Japoneses a negarem as atrocidades que cometeram durante a Segunda Guerra Mundial."

"Não digo que tudo isso apague os crimes cometidos pelos ocidentais, apenas recordo que a especificidade da civilização ocidental é esta capacidade de se questionar e de se autocrítica. Na História ocidental, como em todas as outras, existem atrocidades e horrores, mas só o Ocidente criou essa capacidade de contestação interna, de questionamento das suas próprias ideias e instituições, em nome de uma discussão ajuizada entre seres humanos, a qual permanece indefinidamente aberta e desconhece dogmas derradeiros."

In C. Castoriadis, A Ascensão da Insignificância, Págs. 106/8. Edit. Bizâncio. Lxa

FAR

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Zeca Afonso


Canção de embalar

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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Da pobreza da Filosofia

Há um erro comum na análise histórica que consiste em confundir as precedências.
Lembrei-me disto numa conversa em que se discutia como o nosso tempo tinha produzido uma filosofia tão pobre intelectualmente como a actual, que venera o liberalismo político, negação da possibilidade de produção de conceitos em favor da aleatoriedade das escolhas, ou o pragmatismo em Filosofia, negação da própria possibilidade de Filosofia em favor da simples análise linguística.
Mas qual o espanto em uma época pobre intelectualmente produzir uma filosofia pobre?

O Estado não é um parasita, é um hospedeiro

Está errado, o João Miranda, por duas ordens de razões:

Uma puramente taxionómica: os parasitas tendem inexoravelmente a consumir os hospedeiros até à destruição.

Outra essencialmente filosófica: o Estado é o hospedeiro do parasita social, que, esse sim, constrói e destrói as formas em que sucessivamente se materializa.

(Dúvidas quanto ao segundo ponto, recomenda-se a consulta de UM livro de História)

Deleuze: Post-Scriptum sobre as sociedades de controlo (1)

I. HISTÓRICO

Foucault situou as sociedades disciplinares nos séculos XVIII e XIX; atingem o seu apogeu no início do século XX. Elas procedem à organização dos grandes meios de confinamento. O indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro, cada um com suas leis: primeiro a família, depois a escola ("não estás mais na tua família"), depois a caserna ("não estás mais na escola"), depois a fábrica, de vez em quando o hospital, eventualmente a prisão, que é o meio de confinamento por excelência. É a prisão que serve de modelo analógico: a heroína de Europa 51 pode exclamar, ao ver operários, "pensei ver condenados...". Foucault analisou muito bem o projecto ideal dos meios de confinamento, visível especialmente na fábrica: concentrar; distribuir no espaço; ordenar no tempo; compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à soma das forças elementares. Mas o que Foucault também sabia era da brevidade deste modelo: ele sucedia às sociedades de soberania cujo objetivo e funções eram completamente diferentes (açambarcar, mais do que organizar a produção, decidir sobre a morte mais do que gerir a vida); a transição foi feita progressivamente, e Napoleão parece ter operado a grande conversão de uma sociedade à outra. Mas as disciplinas, por sua vez, também conheceriam uma crise, em favor de novas forças que se instalavam lentamente e que se precipitariam depois da Segunda Guerra: sociedades disciplinares é o que já não éramos mais, o que deixávamos de ser. Encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um "interior ", em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional, etc. Os ministros competentes não param de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que essas instituições estão condenadas, num prazo mais ou menos longo. Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até à instalação das novas forças que se anunciam. São as sociedades de controlo que substituem as sociedades disciplinares. "Controlo" é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo. Paul Virillo também analisa as formas ultra-rápidas de controlo ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas que operavam na duração de um sistema fechado. Não cabe invocar produções farmacêuticas extraordinárias, formações nucleares, manipulações genéticas, ainda que elas sejam destinadas a intervir no novo processo. Não se deve perguntar qual é o regime mais duro, ou o mais tolerável, pois é em cada um deles que se enfrentam as liberações e as sujeições. Por exemplo, na crise do hospital como meio de confinamento, a sectorização, os hospitais-dia, o atendimento a domicílio puderam marcar de início novas liberdades, mas também passaram a integrar mecanismos de controlo que rivalizam com os mais duros confinamentos. Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas.

in Gilles Deleuze, Conversações (continua)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

PSD/Marques Mendes & Jardim/Dr. Jekyll and Mr. Hyde

"Tivemos assim dois bailes de máscaras, um encenado de propósito na Madeira e ajustado aos costumes locais, outro indesejado e talvez por isso mais patético em Lisboa, que se cruzaram em pleno Carnaval. Dois bailes antecedidos por essa tentativa malograda de dissimulação numa dupla personalidade com que o PSD procurou mascarar-se no referendo do aborto, ostentando uma suposta neutralidade e, simultaneamente, alinhando com o "não"."
Vicente Jorge Silva, "A Quarta-Feira de cinzas do PSD", DN, 21/02/2007

Foto de Maya Santimano

Fundador do diário USA Today jura que GWBush é o pior presidente de sempre dos States

Al Neuhart - fundador e ainda cronista semanal num dos maiores diários populares dos USA, anunciou no Truthout. Com, que GWB é o pior presidente de sempre de toda a história da América. Ainda hesitou durante dois anos. " Eu enganei-me. E penitencio-me por isso. Não só GW Bush atingiu a lista dos piores, como ocupa firmemente o primeiro lugar ". Al Neuhart depois conclui: “Ele é verdadeiramente um obcecado que só faz aquilo que pensa? Ou é um político arrogante que ignora o que o povo e o Congresso entendem ser o melhor para o país? ".

FAR

FERNANDO AGUIAR no CENTRO CULTURAL RAIANO (3)


Centro Cultural Raiano - 2 de Fevereiro a 7 de Março


"POEMAS NA PEDRA" é a designação genérica de vários pequenos poemas esculpidos em granito e que estão a ser gravados manualmente em pedras dispostas nas imediações do Centro Cultural Raiano.
O único destes poemas colocado no Centro Cultural tem como título "Sempre..."
e é dedicado ao poeta Bartolomé Ferrando

( "POEMA NA PEDRA" )


O "SONETO ECOLÓGICO II", a ser concretizado durante a exposição, é uma obra de Land-Art que terá cerca de 50 x 18 metros.
É um poema sobre a natureza "escrito" com elementos da própria natureza: as árvores.
Trata-se de uma instalação ambiental constituída por 70 árvores organizadas por 14 filas com 5 árvores cada uma, que correspondem aos 14 versos da estrutura do soneto, distribuídas por duas quadras e por dois tercetos.
É um soneto vivo, que respira e que se vai modificando visualmente porque está em permanente crescimento e transformação.
Este projecto, que inicialmente era para ser realizado numa das salas do Centro Cultural Raiano, (com cerca de 1500 x 500 cm ) está a ser concretizado no exterior, à semelhança do "Soneto Ecológico" plantado em 2005 em Matosinhos, que com 110 x 36 metros, é provavelmente a maior obra de Land Art realizada em Portugal, e seguramente o maior soneto do mundo

( Projecto do "SONETO ECOLÓGICO II" , 2005-2007 )


Post de Fernando Rebelo

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

DUDAS TRIO



Dudas: guitarra
Yuri Daniel: baixo
Alexandre Frazão: bateria


22 de Fevereiro no Onda Jazz


28 de Fevereiro no B.Leza

Estamos a caminho da segunda Guerra Fria?

Enquanto o NY Times fala do atelier da Boeing em Moscovo para desenhar o futuro 787, a The Nation alerta para os riscos de uma escalada esquizóide entre a Rússia e os USA...Há quem fale de "cortina de ferro ao contrário", forjada agora pelos americanos.

As críticas contundentes e dramáticas exprimidas por W. Putin na reunião de Munique para a Paz e a Cooperação na Europa, reflectem o profundo mal-estar que ameaça o futuro do relacionamento entre dois dos países mais fortes (militarmente) do Mundo. Stephen F. Cohen, politólogo da U. de New York, publicou um estudo na The Nation onde examina, ponto por ponto, o estado comatoso das relações bilaterais americano-russas. E a conclusão a que chega é a seguinte: os USA podem-se vangloriar do seu poder atómico, da sua supremacia tecnológica, mas a Rússia tem capacidades de resposta e retaliação de grande potencialidade, e o melhor é retomar o diálogo e a cooperação enquanto é tempo. De um suposto afrontamento militar/ atómico, ninguém sairia vivo...

O artigo gigantesco ( mais de 45 mil caracteres) detecta as perversidades e as falácias da pesporrência da administração pública e das elites do poder dos EUA para com o fim da União Soviética. Recorda as humilhações, a sobranceria e o neocolonialismo do estilo de intervenção yankee para com os heróis da democracia russa, Gorbachev e Ieltsin. " Contrariamente à opinião geral difundida, os maiores perigos para a Segurança dos EUA ainda residem na Rússia, pois, contrariamente ao menosprezo dos opinion-makers e da administração presidencial americana, foi com uma guerra fria não declarada que Washington recompensou os esforços de ambos os lados 15 anos após o fim da I Guerra Fria ".

S. Cohen frisa que" ninguém avalia o que para o Mundo representou o colapso russo de 1991", pois os prejuízos materiais e financeiros atingem, toda a proporção avaliada," o dobro dos prejuízos causados pela II Guerra Mundial ao estado soviético...". Actualmente, a Rússia tem as quintas maiores reservas de divisas do Mundo e tenta diversificar o investimento tecnológico atraindo o cooperante estrangeiro selectivo. Só que o desgaste emocional causado pela arrogância e prepotência dos " salvadores " americanos deixou as élites e o poder russo num estado de agressividade larvar e crescente. Que se vem endurecendo com o correr dos tempos e as gafes consecutivas da administração Bush .
" A crise profunda continua a flagelar a Rússia", dizem os meios universitários moscovitas.

" A estabilidade política do topo do regime está a perder qualidades, residindo no poder e na popularidade de Putin, tão-só. As elites do business e da alta administração que " capturaram " por privatização as fontes de riqueza mais importantes do país, estão particularmente agressivas. E essa " pose " pode constituir uma bomba ao retardador. As altas instâncias militares estão igualmente muito agitadas, com graves dissensões na hierarquia, poucos fundos, muitos abusos de autoridade e corrupção crescente. Uma súbita queda no preço do barril de petróleo, novas eclosões de terrorismo e separatismo ou o apagamento de Putin pode mergulhar de novo a Rússia numa crise perigosa ":


"Cerca de 1/4 da população mundial vive encostada à Rússia, com graves conflitos étnicos a fervilharem nesse complexo. Qualquer tipo de instabilidade na Rússia pode facilmente espalhar-se. Outra possibilidade tangível: os petrodólares dão à Rússia a possibilidade de optar pelo nacionalismo autoritário e a xenofobia. Muitas vezes chamado de "o cenário de Weimar", tal realidade não seria forçosamente fascista, mas tornava a Rússia mais hostil para com o Ocidente, devido à posse do arsenal nuclear variado e ao controlo de grande percentagem do petróleo e do gás mundial".

Cohen invoca o conceito de "cortina de ferro ao contrário", forjada pelos USA em torno da Rússia. Com a quebra de promessas - a NATO não alargaria o seu domínio na Europa Central - a exigência de concessões sem contrapartidas e ingerências aviltantes na política interna, tudo isto ao longo de 15 anos muito difíceis para um país a despertar para a democracia. " A guerra fria acabou em Moscovo mas não em Washington" sintetiza o investigador. E o cerco militar yankee provocou a corrida à renovação do arsenal militar russo, que pode tentar vender e conquistar aliados mais facilmente do que os EUA na China, no Irão e mesmo na Índia, onde já beneficiaram de posições dominantes.

E há mais factores adicionais de peso para evitar um perigoso " esfriamento " no relacionamento russo/americano: " Estado da Eurásia com mais de 25 milhões de muçulmanos, e com o Irão como vizinho, a Rússia pode-se imiscuir gravemente no conflito criado pelos USA no Mundo Islâmico, ou quer no Irão e Iraque. " Mesmo hoje a Rússia pode vencer uma guerra nas suas fronteiras através dos antigos territórios do império soviético. Tem a vantagem da proximidade geográfica, de controlar os mercados essenciais, de possuir os pipelines e as indústrias petrolíferas, para lá do relacionamento ancestral e da língua em comum " . A possibilidade de construir uma OPEP com armas atómicas é real e temível: imaginem ! Mas o pior ainda pode ser evitado, se ambas as duas maiores potências nucleares do Mundo se sentarem à mesa das negociações, ultrapassando falsas hegemonias e cortando cerce todos os estigmas de destruição.

FAR

FERNANDO AGUIAR no CENTRO CULTURAL RAIANO (2)

A instalação "FAZER PELA VIDA", aborda uma problemática social,
numa altura em que o emprego ganha contornos cada vez mais precários e imprevisíveis.

"FAZER PELA VIDA", 2005-06, 210 x 653 cm


"TGV LIGHT" e o "SONETO DO TGV LIGHT" são instalações que fazem referência a uma questão que tem sido largamente discutida, e representa metaforicamente uma outra leitura deste assunto que está longe de ser consensual



"TGV LIGHT", 2005-06, 1800 x 190 cm


"SONETO DO TGV LIGHT", 2005-07, 280 x 660 cm


Realizados nos últimos 2 anos, os sete VIDEOS apresentados recriam a prática da performance poética à qual o autor se tem dedicado desde o início dos anos 80.

(Videos realizados com a colaboração de Vitor Pinhão, Paola Rettore e Marcelo Kraiser)

2 de Fev a 25 de Março. Centro Cultural Raiano. Idanha-a-Nova.

Post de Fernando Rebelo

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Convite


PARA ALÉM DOS MUROS

Um encontro para discutir a escola e dar outros passos

Sala multiusos da Faculdade de Medicina (Hospital Sta Maria).


Sábado, dia 24


10h00

1. Como chegámos aqui?

Um pouco de história do M.A.T.A. e do movimento estudantil.


13h00

Almoço


14h00

2. Agir na escola: juntar, fazer, refazer. - Resposta a uma provocação: «Escola-empresa em tempos de amorfismo»? Com João Teixeira Lopes (professor e sociólogo)


15h30

Pausa


16h00

- E contudo ela mexe-se. As respostas que há e as que pode haver.

Com MOVE (movimento por outra vida na escola, ISAgronomia); MISTA (movimento por um IST alternativo, ISTécnico); Des1biga (jornal Fac. Medicina); GAE (grupo acção estudantil, ISCTE)


20h00

Jantar e convívio



Domingo, dia 25

14h00 Meter o nariz onde (não) se é chamado

O que é que o M.A.T.A. quer fazer e como.




M.A.T.A. – Movimento Anti “Tradição Académica"

"LAS GUITARRAS LOCAS" no "INCRIVEL CLUB"

Las Guitarras Locas
com o percurssionista Raimund Engelhard (tablas e cajon)
no "INCRIVEL CLUB", em Almada,
integrado nos Encontros Alcultur de Almada 2007,

a 23 de Fevereiro, às 22:00h (Sexta-feira);

(abertura das portas às 21:30h)

FERNANDO AGUIAR no CENTRO CULTURAL RAIANO (1)

"PELOS CONTORNOS DA LUZ"


CENTRO CULTURAL RAIANO
Idanha - a - Nova

2 de Fevereiro a 25 de Março
2007




"MONTES CLAROS"

"O conjunto das 47 fotografias é uma selecção dos cerca de 120 estabelecimentos comerciais fotografados no centro de Montes Claros, no Brasil, durante a minha participação no "PSIU POÉTICO - Salão Nacional de Poesia" que se realizou nesta cidade do interior mineiro.

O intenso movimento do dia-a-dia não permitia perceber o "design" exterior das lojas,
sobretudo porque de portas abertas e com os produtos a acumularem-se muitas vezes junto às paredes, tornava-se imperceptível a saturação de palavras e de frases curtas, como a designação das lojas, marcas comerciais, serviços prestados, etc.,
com uma estética tão característica que só mais tarde, num domingo e no feriado que se lhe seguiu, consegui descobrir.

Nesses dois dias, com o comércio encerrado e as ruas desertas, pude então constatar e registar fotograficamente a profusão desta "escrita" e de uma certa desordem (ou melhor, de uma ordem de certo modo desordenada) na organização do "lettering" que se acumulava nas paredes, nas portas, nos portões de metal e no espaço envolvente, repletos de palavras, de onde emergia uma curiosa visualidade poética que afinal estava de acordo com aqueles dias inteiramente dedicados à poesia, e que a cidade já se habituara a viver.
Até porque Monte Claros, ao que parece, é a única cidade brasileira que instituiu o Dia Municipal da Poesia."




"MONTES CLAROS", 2005, 56 x 71,2 cm ( cada fotografia )
FERNANDO AGUIAR


Post de Fernando Rebelo

IX. Castoriadis: Socialismo ou Barbárie

"Afirmar que um social inerte tomou o lugar de um social fecundo, que toda a mudança radical é inconcebível a partir de agora, exprimiria a posição de que toda uma fase da história iniciada, digamos, no séc.XII, está em vias de desaparecimento, que entramos numa espécie de nova Idade Média, caracterizada quer pela tranquilidade histórica (vistas as coisas, a ideia parece cómica), quer por conflitos violentos e desintegrações mas sem nenhuma produtividade histórica: em suma uma sociedade fechada que estagna, não sabemos senão desagregar sem nada criar ( Seja dito entre parêntesis, esse é o sentido que dei ao termo 'barbárie', na expressão 'Socialismo ou Barbárie')".

"Não se trata de fazer profecias: Mas não creio que vivamos numa sociedade onde nada acontece. Primeiro, é preciso ver o carácter profundamente antinómico do processo. O regime empurra as pessoas para a privatização, favorece-a, subvenciona-a, acompanha-a. As próprias pessoas na medida em que não descobrem nenhuma iniciativa colectiva que lhes ofereça uma saída ou lhes dê sentido, retiram-se para a esfera privada. Mas também, é o próprio sistema que, para lá de um certo limite, não pode tolerar essa privatização porque a molecularização completa da sociedade acabaria por dar cabo dela ; por isso, assiste-se de vez em quando a tentativas para atrair de novo as pessoas para as actividades sociais. E os próprios indivíduos, cada vez que querem lutar, 'colectivizam-se' de novo".

"Todo o movimento parcial não só pode ser recuperado pelo sistema mas, como enquanto este durar, contribui de qualquer forma para o seu funcionamento. Apesar de tudo, o capitalismo pode funcionar não só apesar das lutas operárias, mas graças a elas. Sem essas lutas não viveríamos nesta sociedade como é regida agora, mas sim numa sociedade fundada sobre o trabalho de escravos industriais: E essas lutas ajudaram a contestar as significações centrais do imaginário capitalista: a propriedade, a hierarquia, etc".

"A democracia é impossível sem a liberdade e a diversidade de opinião. A democracia implica que seja impossível que alguém invoque uma ciência qualquer para dizer, no âmbito da política, "isto é verdadeiro" ou "isto é falso". Dito de outra forma, aquele que "possuísse" essa ciência, poderia, e deveria, tomar o lugar do corpo político, do soberano ".

In C. Castoriadis,"Domaines de l´homme", págs. 79/257. Edt. Du Seuil. France
FAR

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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Foto de Maya Santimano

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Mambo 8

As figuras dele eram contáveis!!
Ocupavam o espaço pela lista da sensatez, lógica e funcionalidade, prescrevendo-se nos princípios de qualquer estética desejável. Ao observar o seu desenho nada o incomodava, traços firmes sem humilharem a finura do mundo, a mulher continuando a ser a mulher, cores serenas a embalarem atmosferas propícias à vida, vez por vez um detalhe mais arrojado sem despicar o sentido do todo, o tempo apetecidamente direccionado, o papel sem o súbito enrugamento das calhas para alguma premente distracção, o riso a fluir, a prima velha a impregná-lo de uma particular cheirosa familiaridade.
As figuras dele antes eram de uma nitidez absoluta !!
Tudo gritado, amarrotado, ofuscado, plissado, enrolado, negado, esticado, cuspido, rasgado, beijado, infernizado, acrescentado, ferido, mentido,...
O Amor desencadeia Algo, para fora do desenho da vida, que já estava pintado!!

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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Another brick in the wall



Foto: t.
Link: http://pinturasrupestres.blogspot.com


Post: Manuel Neves
(com a mudança para o new blogger a minha assinatura é a inicial, mas assim não há enganos)

sábado, 17 de fevereiro de 2007

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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Foto de Maya Santimano
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Ano do Porco

Irra! A sombra do ‘politicamente correcto’ chegou ao simpático zodíaco chinês. O governo central da RPC determinou, assim mesmo, determinou, que é proibida, a utilização de imagens de porcos na publicidade alusiva ao signo do Ano Novo Lunar. Esta interdição, cujo objectivo é o de “não ofender”, desnecessariamente, diríamos nós, a comunidade muçulmana da China, recai, compreender-se-á, apenas sobre o média televisão.
À excepção da Nestlé e da Procter&Gamble, que investiram fortemente na fecundidade do signo em causa, ninguém se queixou de uma rasura que deixou indiferente a dita comunidade. Entrevistados para o principal canal da CCTV, os muçulmanos de Xian minimizaram a questão: “isso são coisas dos Han”. ‘Coisas’ de 900 milhões.
Uf! Chegámos a recear pelo futuro dos suínos…pelo que queremos deixar bem expressa a devoção eterna pelo nosso parente antropológico mais chegado. Chegue ele nos mais nobres presuntos, de farinheira, em costoletas, em lombo ou acém, com uma maçã na boca, com gambiarras nos globos oculares- previamente esvaziados-, de balichão ou à alentejana, agridoce ou polaco, com a família- javalis e javardos- ou desacompanhado, será sempre bem recebido. Nos tempos maus, até feito salsicha num cachorro ou fiambre em carcaça, lhe será prestada a devida homenagem.
Espiritualmente, o porco ainda é mais familiar. Sujeito mandrião- foi o último a passar o rio-, é dado à estultícia, na forma popular, é um grande fodilhão, augusto símbolo da lubricidade permanente, dá-se como emérito reprodutor, preza a prosperidade sem esforço, é pródigo e gastador. Não lê poesia.
Simbolicamente, é omnipresente. Seja Seth, seja a terceira incarnação de Vishnu, seja os três porquinhos, seja porco voador, porco equilibrista, bailarino ou professor. Nos tempos mais recentes, tem sido referenciado na filantropia internacional. Os famosos peacekeeping pigs.
Redesenhe-se, pois, o mapa mundi em nome do porco exilado das esferas kosher e halal, eriga-se um novo muro, sem vergonha e…pode entrar o almoço. Abençoado pelo nosso Santo António, padroeiro da récua, regado ponderadamente para que possamos brindar a todos os porcos. Na forma esdrúxula, como o little bit retarded Chavez da Venezuela, na forma épica como Koba, na forma doméstica como o piglet Mendes, ou na forma óbvia como Mugabe.
Façam boa nota de que um almoço de porco pode ser muito elevado. Como dizem os nossos vizinhos da Ibéria, do porco aproveita-se tudo…hasta la conversacion.

Kung Hei Fat Choi

JSP no Império do Capital

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

México

Inauguração de uma galeria na Cidade do México (D.F.), obras de artistas mexicanos baseadas em brinquedos de crianças. E ainda um quadro




Pequena fábula de “Tito” Monterroso, natural de Tegucigalpa, filho de mãe hondurenha e pai salvadorenho e exilado no México desde 1944


LA OVEJA NEGRA


EN UN LEJANO PAÍS EXISTIÓ HACE MUCHOS AÑOS UNA OVEJA NEGRA.

FUE FUSILADA.

UN SIGLO DESPUÉS, EL REBAÑO ARREPENTIDO LE LEVANTÓ UNA ESTATUA ECUESTRE QUE QUEDÓ MUY BIEN EN EL PARQUE.

ASÍ, EN LO SUCESIVO, CADA VEZ QUE APARECÍAN OVEJAS NEGRAS ERAN RAPIDAMENTE PASADAS POR LAS ARMAS PARA QUE LAS FUTURAS GENERACIONES DE OVEJAS COMUNES Y CORRIENTES PUDIERAN EJERCITARSE TAMBIÉN EN LA ESCULTURA.



AUGUSTO MONTERROSO (1921-2003), LA OVEJA NEGRA Y DEMÁS FÁBULAS, MÉXICO, 1969

Pedro Caldeira Rodrigues