quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Sinais

 

Desenho de Maturino Galvão
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México


Estado de Oaxaca, o silêncio da rebelião. Novembro 2006


Artesãs indígenas zapotecas de Teotitlán del Valle, estado de Oaxaca. Os homens partiram para o inframundo do álcool, ou da imigração clandestina. Restam os (as) que não puderam partir, ou que entendem resistir. Novembro de 2006

Texto e fotos de Pedro Caldeira Rodrigues

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

Outra questão simples

Graças à excelente intervenção da Dra. Maria José Alves em debate hoje na TSF fiquei a saber que desde 1998 para cá morreram 4 mulheres em Portugal vítimas do aborto clandestino. E nenhuma com mais de 10 semanas de gestação. Qualquer uma destas mulheres estaria viva se o resultado do referendo tivesse sido outro. O aborto pode (e deve) ser discutido em termos jurídicos, filosóficos ou históricos, como já o foi aqui por mim, em termos do direito da mulher ao seu corpo ou do estatuto do embrião, mas independentemente disso, antes de tudo isso, é um problema de saúde pública; e esse é o ponto essencial da sua legalização. Arrisco dizer que a grande maioria dos defensores do Sim tem muitas reservas, se não for mesmo contra, o aborto no seu caso pessoal; simplesmente, não tapa os olhos e se resguarda em inúteis questões de princípio quando a realidade está aí para nos confrontar com a vida real, não com ideais de vida, por mais belos e justificados que pareçam ser.

Uma questão simples

Como costuma escrever o João Miranda, embora com outros objectivos, as implicações da pergunta que vai a referendo no dia 11 vão para além da pergunta. Existem outras perguntas que a realidade dos factos faz pressupor. A principal delas é esta: Devem as mulheres que abortam continuar a fazê-lo sem condições e assistência médica, no caso das pobres, ou no estrangeiro, no caso das menos pobres, e em qualquer dos casos sob o estigma da perseguição da lei, ou devem pelo contrário efectuá-los num estabelecimento de saúde e dentro da legalidade?
Muitos não perceberam, e outros fazem por não perceber, que não estamos a referendar o facto de se fazerem ou não abortos no futuro. Quando uma mulher quiser fazer um aborto fá-lo-á sempre, como já o faz hoje em dia. Resta decidir em que condições.

Breaking-News, breaking-news

Glucksman, Gallo, Bruckner e Witzman
apoiam o candidato da direita Sarkozy


O antigo discípulo de Sartre, André Glucksman, declarou oficialmente o seu apoio à candidatura de Nicolas Sarkozy, o federador da Direita francesa neo-capitalista, bushista e atlantista. Seguem-no, numa declaração publicada pelo Le Monde de hoje, Pascal Bruckner, Marc Witzman e o " nacionalista- miterrandista " escritor de sagas históricas, Max Gallo. Bernard-Henri Lévy, Jacques-Alain Miller, Philippe Sollers e Alain Minc ainda não se pronunciaram pelo apoio público a nenhum dos dois candidatos. Ségolène Royal, de quem o Canard Enchainé, tem traçado o calvário de uma série de pesadas gafes políticas, foi à colónia francesa Martinica, nas Antilhas, em campanha de tentar tomar balanço para mudar e inverter o sentido descendente da sua imagem nas sondagens. Sarkozy tem-se multiplicado em jogadas demagógicas, pois, ao mesmo tempo que favorece a discriminação positiva e a construção de mesquitas, advoga, sem pudor, o controlo brutal e selectivo da política de emigração, com o recambiar de mais de 200 clandestinos por dia para os países de origem.

FAR

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Estes é que eu queria na rua!


México

"(…) Mi rival es mi propio corazón
Por traicionero
Yo no se como puedo aborrecerte
Si tanto te quiero
(…)"

Agustín Lara, Rival, década de 1960


Nos finais do século XV, as civilizações pré-colombianas da Mesoamérica sacrificavam prisioneiros em nome do Sol. Na Europa, em simultâneo, queimavam-se hereges em nome de Deus.
























A verdadeira gastronomia mexicana prova-se aqui, em QUAUHNAHUAC, neste México quase meridional. Como em muitos outros locais deste país estranho, perigoso, imenso, intenso, feliz, devorador. Nada más. (Mais nada!) Novembro 2006



















Talhantes do mercado Lopez Mateos em QUAUHNAHUAC (Cuernavaca, como dizem os colonizadores). Novembro 2006




















Mercado Lopez Mateos, QUAUHNAHUAC. Entre a Vida e a Morte, existem ervas mágicas. Novembro 2006


Textos e fotos de Pedro Caldeira Rodrigues

domingo, 28 de janeiro de 2007

Sublinhados dos jornais do fim-de-semana:

“(…)Guantánamo é o território zero dos direitos humanos, maravilha fatal da nossa idade.(…)Portugal, sob a liderança de Durão Barroso, comprometeu-se, quer com a invasão do Iraque quer com os voos da CIA para Guantánamo, muito para lá do que era o interesse nacional e da opinião da maioria dos portugueses(…)."
Guantánamo Ou O Esplendor Da Democracia, Miguel Sousa Tavares, Expresso.

“(…)
Há políticos cujo sentido de serviço se circunscreve a servirem de chefes aos que os serviram a eles.”
Predestinados, Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias.


“(…)
Estranho caso de um país que se revê em Salazar e Cunhal. Com seu ar ascético e a sua fé, um e outro conseguiram arrasar e perverter tudo em que tocaram e estão na origem da maior parte dos problemas de hoje. Mas Portugal guarda uma boa memória do mundo desumano que eles lhe impuseram, ou que pretenderam impor.”
Salazar e Cunhal, Vasco Pulido Valente, Público.

Foto de José Carlos Mexia, sobre recortes de Carlos Rocha.

VI:Castoriadis:O que é a formação da média de taxa de lucro

" Suponhamos que num país industrial desenvolvido A , a produção por unidade de uma mercadoria necessita uma despesa de 60 unidades de trabalho morto ou realizado (capital constante: máquinas, matérias primas) e de 40 unidades de trabalho actual ou dinâmico, portanto 20 unidades de trabalho pago ( capital variável: compra da força de trabalho) e 20 de trabalho não pago (mais-valia)".

" Suponhamos igualmente que num país menos desenvolvido B, onde por consequência se empregam menos máquinas e mais trabalho actualizado, a produção desta unidade exige 50 unidades de trabalho morto e 60 de trabalho vivificante (repartido por 30 unidades de trabalho pago e 30 de não pago)".

" Cada unidade da mercadoria produzida em A terá um valor de 100 ( 60+20+20); a produzida em B, terá um valor de 110 (50+30+30) . Mas sobre o mercado mundial existe em princípio um preço único para cada produto. Se esse preço único for, no nosso exemplo ( supondo que só os países A e B produzem a mercadoria em jogo, e que os volumes de produção são iguais), de 105; por consequência, os capitalistas de A realizarão um lucro de 25, superior à mais-valia que extraíram dos seus operários, enquanto que os capitalistas de B realizarão um lucro (de 25 igualmente) inferior à "sua" mais-valia".

"O mecanismo que está na base deste fenómeno, que foi apelidado por Marx de taxa prévia de lucro (ou formação de uma taxa de lucro médio); revela-se pelo facto de que os capitais de composição orgânica diferente produzem não um lucro igual à mais-valia realmente produzida na empresa, no ramo industrial ou no país no qual cada um está inserido, mas um lucro médio calculado na base da relação da mais-valia social (ou mundial), total do capital social (ou mundial) total".

" Deste modo, se o total do capital mundial empregue num ano na produção é de 500 biliões de dólares, de que 250 se situam nos EUA, e se a mais-valia extraída aos operários é de 100 biliões, a taxa média de lucro será de 20% (100/500) e os capitalistas americanos realizarão um lucro de (20x250/100)= 50 biliões, mesmo se a mais-valia realmente extraída aos operários americanos não ultrapassar os 30 biliões. Eles absorvem deste modo 20 biliões mais da " sua " mais-valia, e esses 20 biliões constituirão a parte da mais-valia que os patrões dos outros países extraíram aos seus operários e de que não se podem apropriar porque ultrapassa a taxa média do lucro".

" A soma do capital dispensado na produção de uma mercadoria e o lucro médio correspondente realiza o preço de produção da mercadoria em questão. É em torno desse preço da produção, e não em torno do valor da mercadoria ( capital+ mais-valia), que oscilam, em função da oferta e da procura, os preços reais do mercado. Tudo isto enquadrado no domínio do capitalismo concorrencial. A aparição dos monopólios, as alterações geoestratégicas do mercado mundial e os fenómenos de estatização/ liberalização condicionantes acrescentam a este postulado modificações profundas. Por consequência, os países menos desenvolvidos, onde a composição orgânica do capital é mais baixa, são explorados pelos outros, e isto pelo mecanismo da taxa prévia de lucro, mesmo se eles não têm relações comerciais directas com os mais fortes ".

In C. Castoriadis, La révolution contre la bureaucratie, Págs. 25/ 153.Edt.10/18.France

FAR

Sinais


Desenho de Maturino Galvão

PH. Sollers: Nietzsche é um niilista...e um anarquista aristocrático

" Acreditar em tudo e acreditar em nada, isso equivale-se. A soberania da Técnica une-se, como disse Heidegger, a uma intensa credulidade. É o que vos posso demonstrar ao longo dos tempos escutando o blá-blá universal. Florescimento de todas as falsas soluções, charlatanismo generalizado. Nietzsche é um niilista. Ele afirma-o. E é precisamente porque é isso de uma maneira tão radical, que ele o diagnostica a fundo, e talvez por isso possa ser também o contrário. Não se pode ser Anti-Cristo sem o Cristo, isso não significaria nada caso contrário. Dionysos contra o Crucificado, é lá que urge observar de perto".

" Não se está para lá do niilismo, sem se ser fundamentalmente niilista. Ou tê-lo sido, e ter visto o limite disso. Mortal, na ocorrência. Ou demencial. Autodestrutiva em todos os casos. Quero matar e acabo por me matar a mim próprio...É preciso que se desconfie das pessoas que ousem vos tratar como um niilista, assim mesmo, sob o pretexto que seria melhor aderir, extasiar-se de qualquer das formas. Porque isso é o niilismo, justamente. O niilismo é não colocar a questão do nada. Se a questão do nada é ignorada, ou não formulada; pois bem, podemos agitarmo-nos em todos os sentidos, passaremos a ser niilistas".

" O mais grave nesta questão, é que, a partir de agora, o espaço social se encontra completamente paralisado e sem distinções. Quando Nietzsche anuncia que a partir de agora a plebe vai reinar, e ele emprega essa palavra no final do séc. XIX, com efeito, tudo o que aconteceu lhe dá razão: A plebe, não o povo, a plebe! E quando diz e prova, e a nossa época dá-lhe razão: " plebe no alto, plebe em baixo ", é isso que é preciso compreender... Plebe no Jet-Set, plebe nos bairros da periferia. Estamos nisso: Nietzsche é um anarquista aristocrático absoluto. Não é preciso acreditar que o superior dará lições ao inferior. Fazem parte da mesma substância. O mestre e o escravo, isso era nos bons velhos tempos..."

"Nietzsche é o niilista que era preciso para diagnosticar e ultrapassar o niilismo...É preciso distinguir entre o que ele apelidava de pessimismo romântico: Wagner, Schopenhauer, bom dia Houellebecq... e o pessimismo dionisíaco, isto é, o seu... o verdadeiro negativo, a possibilidade de destruição. O eterno retorno não dispensa uma revelação inacreditável da destruição. Por essa razão Nietzsche só confessava tal eventualidade murmurando, com a mão a tapar a cara e com uma expressão de grande terror... ".

In Entrevista de Philippe Sollers à " La Presse Litteraire", revista da Robert Lafont Editores, France

FAR

sábado, 27 de janeiro de 2007

Abrigo Temporário

( clicar no cartaz para ampliar)
Dias 31 Janeiro e 1 e 3 Fevereiro às 21.45 na sala estúdio do Teatro Extremo em Almada.


É o teatro à procura de abrigo em textos que lhe não pertenciam.
Abrigos temporários... Textos - abrigo transformados de forma a caber no teatro.
Na nossa condição de grupo teatral sem abrigo procurámos guarida em textos concebidos para a leitura solitária. Queríamos perceber a dificuldade de uma decisão:
«Sair da cama?»
Lá fora, o mundo está cada vez mais complicado e hostil; revela-se cada vez mais perigoso. Convém, pois, correr o mínimo possível de riscos.
Podem crer, o mundo é um lugar perigoso...

Oficina de Teatro de Almada

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Aforismos feministas (3)

De Espanha nem bom vento nem bom casamento; mas pode-se abortar legalmente e em segurança.

Cavaco


(Foto tirada de www.allposters.com)
População de Pangim seguiu com muita atenção, alvoroço e comoção a visita do Presidente dos índios


Boa Moeda e Má Moeda

Guardado todo o respeito constitucional devido ao Presidente da República, pronto, já está, vêmo-nos compelidos a catalogar a visita oficial de Cavaco Silva à Índia no extenso capítulo dos um inevitáveis ‘desfavores’ a Portugal. E não exactamente, segundo a multidefendida tese, em razão do vazio cultural da legação belenense. Pelo contrário.
Já bastavam as consequências de uma missão estribada, como soe dizer-se, em pouco trabalho de casa e numa gaffe inadmissível.
Isto é, em vez de enquadrar a visita na realidade da Índia do século XXI- resultou patética aquela proposta de jv na esfera IT; dizem que a terra tremeu entre Bangalore e Hyderabad- a ex-metrópole foi-se a medo, de figa feita atrás das costas, propor uma permuta. Vocês esquecem aquelas cousas de Goa, embora não tenham razão, dão-nos algum graveto, e nós abrimos, à surrelfa, de noute, as portas da cidade UE.
Tomados daquela simpatia que habitualmente sucede aos ataques de riso, gostaríamos de dizer que esta insensatez é natural quando, fruto da ignorância ou da optometria, desviamos as leis da natureza do seu campo próprio. Vide a encefalopatia espongiforme bovina.
Aparentemente, os responsáveis pelo design da investida lusitana ao Indostão inspiraram-se no douto teorema ao abrigo do qual o pré-candidato Cavaco combatera a toxicodependência no PSD: a má moeda expulsa a boa moeda. Logo, a má história expulsa a boa história. QED.
Está mal. Devem ler, como diz o FAR, ler, ler muito, e ler para além da hagiografia lusitana. Recomendamos, desde já, “Goa and The Blue Mountains” de Richard Burton, 1851. E depois é ir por aí for a até às biografias de Nehru.
Por fim, esclareça-se por que temores não partilhamos da tese do défice cultural.
Estando nos antípodas da postura cosmopolita, descomplexada, ilustrada- para o nosso gosto, coreografadamente descuidada, quási operática-, e sempre bem acompanhada de Mário Soares, Cavaco Silva jogou prudente, por um lado, e compatível, por outro.
Furtou-se ao inevitável cotejo com o seu antecessor e não deixou aos humores da fadista Kátia Guerreiro a escolha de uma amostra da cultura contemporânea portuguesa. Quem sabe o que poderia estar escondido nas pregas do xaile de dona Kátia. ? Um grupo de frades amestrados, os rouxinóis de Chelas, compadres alentejanos? Valores seguros como o são os campeões nacionais de acordeão e os de pequenas e grandes harmónicas? Glórias de sempre como o Trio Odemira e o sempiterno Anel de Noivado? Tony Carreira? Os Los Santeros, mesmo em final de carreira? Margarida Rebelo Pinto? Os trinta primeiros prémios da Bienal de Carrazeda de Ansiães? Os vinte da Barreirale 2005?


JSP

PS: Na próxima semana trataremos da supracitada ‘gaffe inadmissível’. De como poderia ter afectado a visita à China de Sócrates e as razões porque não a compromete, nem belisca. Lá está, a diferença entre a má moeda e a boa moeda.
 
Foto de José Carlos Mexia, sobre recortes de Carlos RochaPosted by Picasa

Índia: Putin em Nova Deli ultima contratos fabulosos

O Pr. russo foi o convidado especial do Dia Nacional indiano, perfazendo quatro visitas de Estado. A chuva de contratos é esmagadora: rede de reactores nucleares - a Rússia já tinha construído dois - grande avanço na cooperação militar com a construção de mísseis, tanques e armamento sofisticado... Incluindo um porta-aviões mega-potente. Em troca, a Índia propõe construir uma refinaria na Sibéria.

A visita de dois dias do Pr. russo ultrapassa tudo o que era de temer. Com efeito, o tratado unilateral concedido pelos USA para o desenvolvimento da pesquisa nuclear na Índia, assinado há poucos meses, não perturbou o excelente nível de cooperação entre os dois Estados. " O nosso relacionamento com a Rússia não pretende atacar os USA e a nossa relação com os USA não afectará a nossa contínua cooperação com a Rússia ", frisou em declarações ao NYT, o ministro do Comércio indiano, Jairam Ramesh.

Acima de tudo, a Índia " está impaciente por aceder e investir maciçamente na exploração das imensas reservas de gás e petróleo russas ", dizem as autoridades. Putin permitiu-se mesmo "arreliar" as autoridades norte-americanas, pois, " propôs aos seus anfitriões a construção de um oleoduto que alimente a Índia com hidrocarbonetos do Irão, com passagem pelo território paquistanês ".

A guerra geopolítica é insofismável: Ahmadinejad, o populista Pr. iraniano, está em queda livre política, sem recursos e com graves problemas para o investimento industrial incontornável na exploração petrolífera. A Rússia inclui a Índia como parceiro no auxílio aos iranianos e, capciosamente, tenta afastar a paranóia israelo-yankee da ameaça nuclear estimulada pelos mollahs (falsa: repete e insiste o NY T).

FAR

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Encontro em Bruxelas - 1976


Fotos de Francisco Freire (Xico MunháPosted by Picasa

Manifesto de intenções

Bom, eu tenho de ser sincero: eu ando a perceber que não tenho jeito para isto dos blogues. O que eu procuro nisto não é o que posso encontrar. Percebo que os blogues sejam abertos e democráticos, e até gosto disso. Estou é um bocado farto destas meias-tintas a que me sinto obrigado por supostamente "estar a escrever para os outros" (e quem raio é que são os outros? Os 160 leitores diários deste blogue? Que grande, grande audiência, sem desprimor para esses, que devem ter uma paciência de santo para aturar estas merdas). Dizia que estou farto desta merda de escrever para os outros, e que por isso vou tentar escrever para mim, que se fodam os outros. De modo que começo esta saga com o Zizek mais o Deleuze. Mas não como se fossemos realmente falar sobre o Zizek e o Deleuze, antes uma perspectiva Bêbada (com maiúsculas, e desculpa lá, Palácios, tás aí em Cambridge e já te esqueceste do Cais do Sodré?).
Zizek gosta de Lacan, Deleuze não. Porquê? Se eu gosto tanto dos dois? Ok. Nada de especial. Ambos concordariam comigo em eu gostar "de um" e "do outro". Ambos conhecem a categoria essencial do desejo.
Não se confunda assim o desejo como já fazem, ó leitores, com o vosso desejo simplista das gajas ou dos gajos. Nada de mais equívoco. Para pensar no desejo, devemos começar por imaginar uma rocha á beira do mar (1). Aparentemente fria e desprovida de sentido, mas só para quem não consegue entender a força do mar. Ou uma fábrica, colmeia de operários e engenheiros (2). Onde a máquina se transmuta em fantasma (3) da líbido. O limite do capitalismo-fábrica é a esquizofrenia, líbido revelada em força motriz da negação de si própria (4). Expliquemo-nos, finalmente:
Assim como assim o entendimento de tudo isto tem de ser posto como algo mais no interior disto. A filosofia não serve para inventar respostas, nem para conhecer a "verdade", serve para perceber como certas questões são mal perspectivadas. Deus foi um axioma; graças à filosofia, deixou de o ser. Ok. Também a questão do desejo deve ser perspectivada, segundo Deleuze (5) ou Zizek (6), como algo inevitavelmente constituinte. O "desejo" é parte da infra-estrutura (7). Para libertar o desejo temos de inventar algo de novo, temos de perspectivar o desejo como finalmente outro da máquina que produz espelhos de si própria e que nos induz a pensar o desejo como algo "de dentro" ou "de fora" dela mesma.
O lugar do desejo, se pode ser entendido assim na forma de um texto de poucas linhas, será o lugar subterrâneo em que eu me encontro inteiramente nu. "Guerra contra si próprio"! (8) Este é o manifesto deleuziano, que permite clarificar o lugar da máquina desejante nesta aparência-nós.

(1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)- Tretas sacadas a vulso sem qualquer critério de Deleuze, Zizek, Lacan, Marx, e muitos outros.

(8)- Deleuze, Conversações, não me lembro da página.

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Da Capital do Império

Olá,

Fui ao Oregon do outro lado do continente e aprendi uma coisa: Se Sauvigon Blanc cheirar a xi xi de gato então é do melhor que há..
Isto foi-me garantido por um punhado de provadores de vinho que num fim de tarde numa montanha perto do majestoso rio Columbia me garantiram que o Sauvigon Blanc tem que cheirar mal para ser bom e em unanimidade declararam: “se cheira a mijo de gato é do melhor”. Eu comecei a rir, não só pela analogia mas também pelo facto de por essa altura já ter tido ingerido uns bons quartos de copo de Sauvigon Blanc, Pinot Noir, Cabernet Sauvigon e até Shiraz, pelo que por essa altura já não me interessava a que é que os vinhos cheiravam. Mas os produtores garantiram-me que isso é um velho ensinamento dos provadores e embora não me pareça que aí na Lusitânia se produza Sauvigon Blanc ficam desde já a saber o truque portanto: Se cheira a mijo de gato é bom.
Tenho a dizer que nunca tive grande olfacto para detectar “aromas de ameixas, tabaco e um pouco de citrinos, com toques de cabedal” no vinho e isso serviu para irritar um dos produtores quando eu, ao provar um tinto que já não me lembro o que era, e ao tentar demonstrar que sabia algo sobre o olfacto de vinhos disse que cheirava a “capoeira de galinhas” ao que alguém com sentido de humor perguntou: “Com merda ou sem merda?”.
Isto para vos dizer que a produção de vinho através do Oregon e mesmo no vizinho estado de Washington, do outro lado do Columbia, está num “boom” sem precedente devido ao facto dos americanos terem começado a gostar de vinho.
Se até há pouco tempo o consumo de vinho estava limitado aos “bons vivants” e aquela malta esquisita e “freak” da Califórnia hoje os americanos começaram talvez a compreender que como diziam os romanos onde o vinho falta não há lugar para amor e saúde.
O resultado é que os Estados Unidos se vão tornar em breve no maior consumidor de vinho do mundo e só isso faz com que haja uma corrida ao cultivo da vinha no Oregon e mesmo em Washington porque a Califórnia é demasiado cara.
Com aquela mistura de optimismo, atitude de “tudo é possível” e frieza da ciência que os americanos adulam centenas de pequenos produtores no Oregon e no vizinho Washington estão a produzir vinhas … e vinho claro está. Em vez da fever do ouro, no oeste hoje há febre de vinho!
Os produtores estendem-se da zona do espectacular desfiladeiro do Columbia -onde as montanhas são pontuadas por gigantescos pedaços de rocha que entre pinheiros apontam para o céu como torres de catedral, com cascatas e cataratas sem fim com nomes como Wahkeena e onde no inverno se pode ter sol, chuva, neve e granizo no espaço de 20 minutos - até aos gentis vales de Willamette e Yamhill no Oregon.
Nas agrestes montanhas do outro lado do Columbia em Washington onde o topo das montanhas é as vezes coberto de lençóis brancos de nuvens, tal como toalha sobre a mesa a cobrir o topo e os lados, pequenos agricultores vivem em casas típicas de Madeira, onde se aquecem em lareiras de madeira em zonas onde abundam alces cujas cabeças acabam às vezes nas paredes de bares de aldeias com nomes como Klickitat onde no bar Huntington se come bifes ao peso acompanhado de… tinto da zona.
São zonas onde em tempos havia índios que viviam da pesca do salmão antes da brancalhada chegar, construir uma barragem e os mandar para reservas como a “aldeia índia” de Celilo onde tal como outras tribos índias no sudoeste dos Estados Unidos vivem em roulottes velhas e semi ferrugentas, cercadas de carcaças de carros ferrugentos e de outros detritos da sociedade de consumo como maquinas de lavar.
Claro está que havendo índios há também casinos e numa estrada deparei com o casino “Espírito da Montanha” que pertence à “Conferência de Tribos da Grand Ronde” que ninguém me soube dizer quem são mas que não produzem vinho embora o nome seja francês. Os índios vivem em roulottes podres e têm casinos, a brancalhada produz vinho e diz que os índios “não são muito amigáveis”. Coisas da América!
Nos vales vinícolas, vejam lá, encontrei um produtor que está a produzir garrafas de “Tempranillo” aquilo a que vocês aí na Lusitânia chamam de Tinta Roriz ou Aragonês. Essa uva é uma raridade aqui por estas bandas mas o tal produtor – esqueço-me do seu nome mas lembro-me que tinha uma mulher jovem e jeitosa que percebia mais de vinhos do que eu – disse que estava “determinado a fazer o trempanillo triunfar”. Eu claro está fiz uns chin-chins a isso!
No vale de Wilmatte conheci a família Coelho - Dave e Deolinda Coelho – que embora sendo só segunda geração como americanos não falam uma única palavra de português e têm já enraizado o espírito americano da costa ocidental. Fizeram dinheiro a limpar esgotos e a abrir túneis de construção mas em 2001 dedicaram-se ao vinho produzindo Pinot Noir a que deram o nome de …"Paciencia". Sem experiência mas com vontade o primeiro Paciencia foi engarrafado em 2005. Eu disse à exuberante Deolinda que se fosse na Lusitânia todos lhes teriam dito que “vocês são doidos isso não dá nada, vão lixar o dinheiro todo, não se metam nisso, estão tão bem na vida…”
Para além do “Paciencia” Pinot Noit os Coelhos usam também uma uva que muito poucos ouviram falar – Marechal Foch – e fabricam um vinho de sobremesa. Bebi uns copos na sala de provas da “Coelho winery” que tem uma característica: ninguém na vila sabe pronunciar o seu nome ou o nome do vinho mas… paciência!
Como vocês sabem o Pinot Noire é uma uva que raramente produz bons vinhos e é menos produtiva que outras castas. Talvez por isso tenho a dizer-vos que na generalidade os vinhos do Oregon (a esmagadora maioria Pinot Noir devido ao clima mais frio) mostraram ser caros e não grande coisa para o preço. Fiquem descansados pois os Douros são mais baratos… e melhores, tenho que admitir. Mas atenção. Vejam lá que a malta do Oregon quer produzir Shiraz um vinho tradicionalmente de zonas quentes. Pareceu-me bom!
Mas se os vinhos não agradam mesmo quando bebidos na espectacular propriedade Youngberry onde os terrenos com vinhas parecem ter sido arranjados por uma manicure, então é avançar em direcção à costa onde a paisagem é espectacular. Se a costa da Califórnia é conhecida pela sua beleza grandiosa o Oregon é algo de mais agreste e quiçá mais espectacular, com florestas imensas de pinheiros em montanhas majestosas que ascendem a grandes alturas e descem ou caem subitamente até ao mar sempre cobertas de pinheiro.
No cabo de Nehahkahnie (“Casa do Ser Supremo”) a quase 500 metros em pique sobre o mar que bate bate nas rochas lá em baixo e onde o nevoeiro às vezes se agarra aos pinheiros em farrapos isolados, a natureza engole-nos. Rapidamente faz esquecer aqueles complexos de lojas de cadeias nacionais construídas à entrada de algumas pequenas cidades e formados por enormes parques de estacionamento cercados pelos inevitáveis McDonald’s, StarBucks, Burger King, Staples e outros que - com eficiência mas sem imaginação e alma - são o símbolo do triunfo do socialismo capitalista ( ou será capitalismo socialista?)
As praias são enormes, algumas de areias escuras e vulcânicas, outras de areias douradas como na Califórnia com um mar azul e reluzente, mas muitas delas cheias de troncos enormes de árvores caídas das montanhas e que vão dar à costa. Numa dessas praias, com ar abandonado, vi troncos de árvores de onde nasciam já outras árvores
Algumas das praias – como a na bonita cidade de Canon Beach - gigantescos rochedos em forma de palhota africana e totalmente isolados por grandes distâncias uns dos outros tornam-se em marcos de atracção turística.
São vistas que nos fazem querer envelhecer como ao vinho bom: sem avinagrar. Para celebrar fui a um bar em Canon Beach com um dístico à entrada: “Hippies devem usar a porta do lado”. Porque nos forçam sempre a tomar uma decisão?

Um abraço,

Aqui da capital do império

Jota Esse Erre

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

 
Foto de José Carlos Mexia, sobre recortes de Carlos Rocha Posted by Picasa

Notas de campanha

Com educação laica, republicana e socialista, não estava à espera de no meu exame de Introdução À Economia, Direito, na Católica, ter saído a pergunta (para resposta em 15 linhas): Qual é custo para o eleitor de um almoço oferecido por um candidato em campanha eleitoral? Dava para falar das várias opções. E com argumentos de autoridade. Pensei no cunnilingus. Vá lá, com esta costela de esquerda ateia e solidária, contentava-me com um 69. Mas lembrei-me que não se contrariam os católicos alucinados, especialmente em época de referendo e, a coisa não me correu mal. Segui a Sebenta. Mas a confusão entre o que é de César e o que é de Deus perturba qualquer um. Deve ser também do frio e das neves.

Josina MacAdam

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Brasil,Rússia,China e Índia (Bric) podem liderar um novo G-8 em 2035

John O´Neil economista-em-chefe da Goldman Sachs confia no papel crescente das 4 economias, a solo ou em conjunto. E diz que a China pode-se tornar este ano na segunda maior economia do globo.

Davos à porta e o Finantial Times a desbravar as grandes linhas de força do Fórum Mundial da Economia. O economista escreveu no FT, ontem, um artigo a preconizar uma espécie de mutação institucional no interior do FMI, G8 e OCDE. " Torna-se imperativo que os líderes ocidentais encorajem rápidas alterações institucionais", nos citados organismos supranacionais, por forma - acrescenta -a que seja instrumentalizado o "crescimento potencial, que estrutura a dinâmica sustentável e imparável dos B.R.I.C., e que causa tanta angústia no resto dos pólos mais importantes".

As mudanças no organigrama das instituições-farol da economia global seriam o suficiente, admite," para que o saudável crescimento da economia mundial se mantenha. Fujamos de olhar no futuro para este período como uma oportunidade perdida ".
E aponta: "Mais de um terço do crescimento da economia mundial, desde 2000, foi criado pelos B.R.I.C, e em conjunto com os Estados Unidos, mais de 65 por cento da actividade produtiva global, a eles se lhes deve também ". " Parece mais do que evidente que esses quatro Estados deviam, pelo menos, sentar-se na mesma mesa onde ocupam lugar o Japão, o Canadá e a Europa, de há muito a esta parte".

FAR

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Delgas

(Benguela 2006)




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O acessório e o essencial

A posição mais absurda e impossivel de defender que tenho encontrado sobre o referendo é bem exemplificada neste post de Pedro Arroja no Blasfémias. Arroja, sucintamente, é contra o referendo, por isso se abstém. De permeio, afirma não ter «o direito de andar a decidir sobre intimidade de cada mulher portuguesa e o que lhe está no ventre», não ser «nem contra nem a fovor do Aborto», porque só uma mulher pode ser contra ou a favor, e termina dizendo que a multidão não deve ter autoridade sobre o corpo de uma mulher. Portanto, Arroja acha que devem ser as mulheres a decidir sobre fazerem, ou não, um aborto, mas não vai votar na opção do referendo que defende isso e exactamente isso, porque é "contra o referendo". Ou seja, para Arroja, o essencial (o direito da mulher de ter autoridade sobre o seu corpo independentemente da opinião da multidão) é menos importante que o acessório (o referendo). O que interessa é o referendo, não o que pode, ou não, resultar do referendo. O processo vale mais que o resultado.
Aos adeptos do aborto legal que se pensem abster por este tipo de razões (não parece ser esse sequer o caso de Arroja, que se perde numa contradição absoluta de argumentos), queria lembrar, apenas, que só se encontra esta questão ("ser contra o referendo") em potênciais votantes do Sim; a ninguém, no campo do não, passa pela cabeça se abster por achar que a questão não devia ser referendada. E no entanto, quem mais do que eles está, por definição, contra o referendo?

'Bora lá!

É bom estar de volta. Tenho andado meio desligado...
Na verdade, andava com uma certa urticária em relação a esta coisa de ser cidadão deste país.
Descobri hoje que já não é urticária: é uma comichão terrível.
Tenho um senhor que é Presidente da República que, ao que me foi relatado, se deixou entrevistar a dizer coisas profundamente incómodas acerca da forma como se alimentou enquanto esteve em visita de Estado.
Evito os centros comerciais ao fim de semana, não vou ao cinema, nem ao futebol, recuso-me a frequentar feiras, festas de aniversário, festividades concelhias, festas de gastronomia e festivais de folclore, ou seja, recuso-me a conviver (ou o que seja...) com o Portugal no seu melhor.
Não me revejo neste senhor. Não votei nele. Aceito a sua legitimidade (limitada, ainda assim...) para se intitular Presidente da República. Há, porém, limites: os que nos ditam, por um lado, o bom senso e, por outro, o bom-gosto.
O senhor Professor está de volta. Também ele andou meio desligado.
Mas voltou na mesma.
Deixou-se entrevistar de boca cheia, a cuspir a fatia de bolo-rei.
Como que a fazer com que acreditássemos numa teoria da conspiração: há um Portugal alarve a querer afirmar-se; o Portugal sem maneiras, egoísta, a olhar para o estrangeiro com olho safadote, espertalhaço.
Do tipo: "Dás-me picante mas eu lixo-te... Já tenho umas bolachitas lá no quarto...".
Não gramo mesmo nada este Portugal foleiro.
Fica-nos mal tal representação, ainda por cima ao mais alto nível.

E não se podia referendá-lo?...
 
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Vão-se os tarecos

O nosso Presidente esfalfou-se pelas terras da trindade Trimurti (Brahman, Xiva e Vixnu), saltante de hotel cinco estrelas em hotel cinco estrelas, de cidade em cidade, de bricabraque em bricabraque, de congresso em congresso. Conheceu tipos vitais para cornificar a economia do mundo numa ubérrima riqueza para todos. Cumprimentou empresários milagreiros capazes de tirar lucro das pedras. Conviveu com políticos experimentados em rentabilizar populações (o verdadeiro mafarrico de um economista ventilado das ideias é encontrar uma “população não-rentável”. Fecha o laptop e vai pregar para outra freguesia, porque os seus modelos económicos estão ao serviço do FMI, Banco Mundial e multinacionais. Onde há não lucro, não há business). O Presidente diamantizava Portugal por onde quer que passasse. A sua silhueta, olhos, mãos, cotovelos, boca diziam que existe um país sobreexcelente situado na longínqua Europa. Bom o para turismo cultural. Bem integrado na rede europeia dirigida aos viandantes atafulhados de divisas para gastar numa riquíssima oferta turística de igrejas, igrejas, igrejas, igrejas e… alguns castelos. Mas ainda melhor para o turismo das tacadas de golfe, querido dos endinheirados, os investidores poderiam vir tentar melhorar o seu handicap nos buracos portugueses. E, entrementes, criariam uns postos de trabalho.

Nesta altura do campeonato não somos esquisitos. Aceitamos todas as moedas. Não precisa ser o fiável dólar. Ariary, taka, ngultrum, kip servem, até peseta, se houvesse. Nem pedimos investimento na futurista tecnologia de ponta. Uma latoaria, uma parafusaria, uma pichelaria, um centro comercial chegam, desde que dê para picar o ponto, não somos picuinhas. Nem se discute ordenado. O alívio de voltar a ter patrão compensa ganhar apenas uns tostões no fim do mês. Depois pedimos empréstimo ao banco para comprar os objectos de primeira necessidade: televisor, Playstation, telemóvel, carro… Não se sabe se Cavaco Silva conseguiu atrair as almejadas rupias, se Portugal ficou no mapa mental indiano para férias, se não foi mais uma caça ao gambozino infraestrutural que dizem o país carecer. Só o passar de muita água debaixo da ponte o dirá.
(...)
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Táxi Pluvioso no Pratinho de Couratos

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Soluções ideiais, soluções possíveis


(...) O que julgo importante é saber se o que está na mesa, all in all, com todos os seus prós e contras, merece ou não a nossa aprovação. O enfoque quase exclusivo em situações hipotéticas e ideais (uma tendência, de resto, muito comum noutros debates populares na blogosfera) tem um interesse intelectual intrínseco e uma importância crucial para discutir essa coisa fundamental e demasiado esquecida em Portugal: o pré-político. Todavia, considero um pouco redutor cingirmo-nos quase exclusivamente a esse ângulo. É que o mundo está aí, com todas as suas imperfeições. E a política - perdão, a Política - não é mais do que a tentatida de encontrar um modo de convivência aceitável no meio de tantas imperfeições. Deixo, assim, um comentário (em jeito de pedido) aos idealistas neste debate: ninguém vos nega o direito a frisar aquilo que seria a (vossa) situação ideal, mas não deixem tal ênfase adquirir um carácter próximo do absoluto, enquanto argumento realmente importante para a questão em debate. Sobretudo, digo eu, tendo em conta que nesta questão estão envolvidas, entre outras coisas, pessoas bem reais, que não indivíduos hipotéticos de uma interessante reflexão teórica.»

Tiago Mendes, um dos grandes bloggers portugueses, em regresso esporádico às lides no excelente Logicamente, Sim. Para reflexão dos "nossos" abstencionistas militantes.

Aforismos feministas (2)

As meninas boas vão para o Céu, as más para toda a parte; as outras safam-se como podem.

GW Bush analisado por dois psicanalistas

Manhoso, tímido, colérico, fanfarrão e mentiroso sem compaixão pelos pobres e desprotegidos. Alguns dos traços de um texto sobre o carácter do PR norte-americano, revelado pelo Truthout.Com clicar aqui com entusiasmo da autoria de pai e filho, John. P. Briggs, I e II, psicanalistas célebres do mainstream universitário de New York City. O máximo, pois...


" GW Bush gostava de fazer de palhaço na Escola Primária. A sua habilidade para fazer piadinhas com os erros cometidos por si, constitui um vício de adulto para se defender na vida oficial pública ".

" Bush tem o síndroma do " bêbado com sede ", reflexo que surge no indivíduo que deixou de beber, mas que não consegue apagar os sinais do alcoolismo. Na verdade, beber torna o alcoólico num fortalhaço..."

" Para os mais próximos e íntimos, GW Bush aparece como o chamado emocional colérico. O colérico ganha controlo usando sarcasmo, " picando " o adversário, ridicularizando, injuriando, ameaçando, ignorando, mentindo e pondo de rastos o presumível adversário. A sua mania de dar alcunhas a toda a gente, é o lado escuro de ser colérico. Dar nomes às pessoas é uma forma de os tentar controlar ".

" Vivemos numa cultura que favorece o poder do pensar positivo e persegue a sua forte afirmação pelo treino. Acreditamos que a atitude firme pode, muitas vezes, ser mais importante do que o cérebro ou o trabalho a sério".

"Nós não temos suficiente coragem para contestar a sua bitola de incompetência. Enquanto argumenta que toma " importantes decisões ", psicologicamente está a defender-se contra concomitantes sensações de dúvida. As suas importantes decisões são um logro. O pressentimento do descalabro condu-lo a ser manhoso, arriscado, incompetente nas decisões com que se defronta, manipulando alterações bruscas causadas pelo medo da sua auto-incompetência ".

" Dessa forma, isso não lhe fornece campo de manobra para explorar as alternativas apropriadas de acordo com uma competente decisão. Não está interessado numa discussão detalhada (quando muitas vezes o referente é mentiroso), tenta só o mínimo para que a decisão lhe " chegue", vinda do seu Deus, que lhe providencia a resposta, diz ele ".

FAR

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domingo, 21 de janeiro de 2007

 
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Notas de campanha

Só agora me apercebi das consequências do voto no próximo referendo. Lá em casa vai tudo excomungado. Eu safo-me porque, contrariamente à mamã e ao papá, não fui baptizada. A avózinha não vai votar. Está num lar de freiras e entre a sua consciência, filhos e netos, presumo que vá faltar às próximas comunhões, embalada pelo referendo. Para mim, com medo do confissionário. Mas estou preocupada. Que merda de moral dominante é esta? O relatório Kinsey não foi actualizado? Gravidez de sexo em grupo, de encontro e desencontro, de talvez, de não sei como aconteceu, tem de acontecer? É verdade que não vivo no tempo da minha avó, mas ainda assim, tem de ser criminalizada a interrupção da gravidez nos prazos ora propostos? Desabafo teórico. Eu ia passear a Badajoz.
No próximo 11 estou cá.

Josina MacAdam

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Retirada das tropas USA do Iraque pode começar no próximo Outono

Os próximos três meses serão cruciais, revelou o Comandante-Chefe Georges Casey a três jornalistas do NY Times em Bagdad

Grande e extrema polémica política nos EUA: Pelosi acusa Bush de querer envolver os EUA na via militar iraquiana, " sem limite de tempo", segundo noticia o TruthOut.Com. O refinamento das grandes manobras parecem enfraquecer ainda mais as posições de GW Bush, que tenta segurar os últimos incondicionais do seu partido. Entretanto, o ainda comandante-em-chefe das tropas americanas no Iraque, G. Casey, fez grandes revelações a uma equipe de três jornalistas do NY Times - D. Cloud, Sabrina Tavernine e J O´Neil - sobre o futuro da guerra. Revelou que as tropas iraquianas têm que dar garantias de confiança para a segurança do seu povo, por um lado; por outro, admitiu a jeito de confidência, que os reforços previstos por Bush podem demorar vários meses a treinar-se e a serem constituídos.

FAR

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A morte de Fiama H. Pais Brandão 1938 / 2007


(Foto de www.universal.pt/scripts/hlp/mm/FHLP441_z.JPG)

A poesia portuguesa perde mais um valor dos mais relevantes. Com a morte de Fiama Hasse Pais Brandão, linguista e germanista de rara qualidade, o espaço cultural nacional fica mais pobre e exíguo. No prefácio à mais recente das antologias completas da poesia de Fiama, Eduardo Lourenço salienta que " poucos poetas como ela tiveram uma consciência tão viva deste habitar dentro do que não tem nome - e nós chamamos, para não nos sentirmos perdidos de todo, Natureza, Vida, Mundo, Deus ".

Poema

Para Nuno Guimarães, Rui Belo, Luíza Neto Jorge, Carlos deOliveira, Luís Miguel Nava e os outros que já viveram


Tantos poetas morreram, em minha vida,

antes de mim, não só no sangue ou só na carne,

mas na portuguesa língua.

Deles fica a obra que fizeram .

Todavia vocábulos, para sempre

insonoros, ou no futuro incriados,

demonstram que os poetas todos

morrem sempre mais na língua.



FAR

Aforismos feministas (1)

Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Por trás de uma grande mulher não costuma estar ninguém.

Eu + Silvia Sousa

sábado, 20 de janeiro de 2007

O meu voto Sim

A razão essencial do meu voto SIM a 11 de Fevereiro:

Lamentavelmente, mas previsivelmente, ouvimos e lemos muito ruído sobre este tema. Muitas conjecturas de pretensões científicas, sobre o momento inicial da Vida, como se isso se pudesse conjecturar assim; tão curioso que sobre tema tão grande de repente tanta gente se julgue especialista. A minha questão é outra.

Eu voto Sim por esta razão: pelas mulheres. Pelo direito das mulheres ao seu útero. Parece-vos pouco? Que o direito da "vida" que se desenvolve no útero será superior ao do útero ele mesmo? Então deixem-me lembrar-vos algumas coisas:

Não sei se se recordam, ou se querem recordar, mas há muitos e muitos e muitos séculos que as mulheres são prisioneiras do seu útero. Por isto as venderam e emprestaram e arranjaram para casamento, e continuam a fazê-lo.

Esse útero, esse mistério, que gera a Vida, está impossível do meu entendimento enquanto homem, que pelo menos eu sei que não posso saber, nem sequer imaginar, muito menos julgar, o que será ter um útero. Mas imagino a Liberdade.

Por esse útero gerador de Vida, as mulheres foram e são obrigadas ao seu útero. Para que outros, nós, os homens, possamos dissertar com a maior das impunidades sobre "a Vida" e outros temas tão essenciais.

Chega de o útero ser dono das mulheres. Não é uma metáfora. Foi assim, é assim, e será assim ainda mais algum tempo, enquanto não conseguirmos a Igualdade. Mas eu acredito que conseguiremos, e que aí a mulher possa ser, finalmente, dona do seu útero.
Los Santeros - Red Lipstick live @ Almareado
 
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Sim no referendo

Assinalamos o nascimento do Blogue Sim no Referendo, onde um conjunto de personalidades da blogosfera, das mais diversas origens políticas (do Daniel Oliveira ao Vasco Rato, do Rui Tavares à Helena Matos) se unem em torno de um objectivo comum, o de fazer de Portugal, também nesta matéria, um país mais civilizado.
Até ao fim do referendo os diversos blogues e sitios dos movimentos pelo Sim estarão em destaque na coluna dos links, esperando que, após 11 de Fevereiro, nunca mais tenham de estar.

Um especialista

Cumpriram-se hoje cinco anos sobre o vergonhoso julgamento da Maia, que pôs a nú que, ao contrario do que apregoam os defensores do Não, a lei vigente de facto condena as mulheres por abortarem. Da campanha do Não, já esperamos tudo. Uns, talvez tacticamente, talvez por ingénuos, dizem que a lei vigente serve, também porque as mulheres não serão condenadas (apesar dos processos em tribunal que os desmentem). Mas outros, como o professor Gentil Martins, são mais honestos na sua sanha persecutória e moralista, admitindo que "algumas" mulheres devem mesmo ser "punidas" por abortar. Aquelas que, no seu entender manifestem "um desrespeito absoluto pelos valores da Vida". Como a lei não se compadece com juízos a posteriori e versa sobre o geral, ficamos a aguardar que o professor nos esclareça o critério, e quem o julgará. Talvez o próprio professor Gentil Martins, já que parece ser um especialista na matéria.

Imortais

Pequim, Estremadura

Embora admitindo que a mais-valia de uma nota necrológica resida no‘reset’ do pensamento negligente, se quisermos, no conforto das mais prudentes omissões com que (des)acompanhámos os desgradáveis “factos”, mesmo assim, não queria deixar ausente o passamento do último dos “Oito Imortais”.
Com a morte de Bo Yibo, um relativamente desconhecido membro da galeria dos compagnons de route da Longa Marcha ‘, caídos em desgraça’ no curso da Revolução Cultural, chega ao fim, neste formato, a era da influência dos políticos que mexem os cordelinhos atrás da cortina. Legitimados de cabo a rabo por credenciais revolucionárias, mesmo quando afastados de funções institucionais, Deng Xiapong- no ocaso, manteve uma difusa presidência da Associação dos Jogadores de Bridge-, Li Xiannan (ex-presidente), Wang Zhen (ex-vice-presidente), Peng Zhen (presidente da ANP), Chen Yu (‘patrão’ da Economia), Song Renqiong (‘patrão do ELP) e Bo Yibo (ex-vice-PM), disfrutavam da prerrogativa da última palavra. O paradigma da ‘política opaca’.
Bo, que foi o primeiro ministro das Finanças da República Popular, ajudou, em 1979, a ‘repescar’ Deng, guardando para si a segunda linha no governo e a “discreta” vice-presidência da “Central Advisory Comission” do Partido Comunista. Manter-se-ia confortavelmente ignorado não tivesse sido o alvo emocional selectivo de Chai Ling, o eterno feminino no movimento pró-democracia de Tiananmen, em 1989. “Bo Yibo, fascista; o fascista Bo Yibo”.
Não menos interessante foi o papel que Bo Yibo desempenhou no afastamento de Hu Yaobang. Hu sofreu um ataque cardíaco precisamente durante uma agreste discussão no Politburo. Com…Bo. De quem partiu,alegadamente, o boato de que Hu Yaobang pretendia acabar, num ímpeto modernizador, com o uso dos pauzinhos.
Faltará referir que estes oito imortais parece terem‘descoberto’ na Longa Marcha o segredo de uma longa vida. O relógio biológico do mais novo dos imortais, Li Xiannian, marcava à data do óbito 83 anos. Um feito octogenário colectivo num país onde a esperança de vida anda pelos 66 anos.
Enfim, isto tem a importância que tiver, pelo que devemos concluir com um enigma de sincronia fantástica: Quem são os “oito imortais”, melhor, os oito’ rapazes’ que no seio do PS tentaram reclamar para si um estatuto tão aberrante como os seus congéneres do Império do Meio?
Noblesse oblige, Sócrates ensofismou-os por diversas capitais e sinecuras mudas.

JSP no Império do Meio

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V: Castoriadis: A unidade do processo económico

" O processo económico forma uma unidade, de que não podemos separar artificialmente as fases, nem na realidade, nem na teoria. Produção, repartição, troca e consumo constituem as partes integrantes e inseparáveis de um processo singular, momentos que se implicam, na produção e também na reprodução do capital. Deste modo, se a produção, no seu sentido restrito, é o centro do processo económico, não se pode esquecer que, na produção capitalista, a troca é parte integrante da relação produtiva - por um lado, porque essa relação é de imediato compra e venda da força de trabalho, e porque implica a compra pelo capitalista dos meios de produção necessários; por outro, porque as leis de produção capitalista se afirmam coercitivas através do mercado, da concorrência e da circulação - numa palavra a troca. (A troca é um acto incluído na produção ou é determinada por ela, in K Marx, Crítica da Economia Política)".

" E acrescente-se a isso que a troca e o consumo não são factores de per-si determinantes. E o mesmo se passa em relação à distribuição enquanto distribuição de produtos. Mas enquanto distribuição dos agentes de produção, ela própria é um dos momentos da produção. Uma produção determinada implica pois o consumo, uma distribuição, uma troca determinada, e organiza igualmente as relações recíprocas determinadas por esses diferentes momentos. De facto, a produção, ela também, sob a sua forma exclusiva, é, por seu turno, determinada por outros factores. Por exemplo quando o mercado, isto é a esfera da troca, aumenta, o volume da produção cresce e introduz uma divisão mais profunda. Uma transformação da distribuição desencadeia uma transformação da produção ".

"Ricardo, para quem era importante conceber a produção moderna na sua estrutura social determinada e que é o economista da produção por excelência, afirma por essa razão que não é a produção mas a distribuição que constitui a matéria verdadeira da economia política moderna: De onde o absurdo cometidos por certos economistas que tratam da produção como se se tratasse de uma verdade eterna, enquanto releguam a história no domínio da distribuição. A repartição clara do produto em salário e mais-valia forma a base da acumulação capitalista, que reproduz constantemente numa escala superior e mais ampla a distribuição capitalista das condições de produção e o próprio modo de produção ".

In C. Castoriadis. La société bureaucratique, págs. 205/245. Edt. 10/18. France

FAR
 
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