Amigos meus, hoje estive no Parque Mayer.
É aqui mesmo, em Lisboa, numa perpendicular à Avenida da Liberdade.
Quando entrei revi o 'Variedades', esclerosado. Logo em frente estava um parque de estacionamento a céu aberto entre ruínas. O esqueleto vetusto do 'Capitólio' e logo ao lado um 'Maria Vitória' teimoso, a resistir à decadência.
Aqui mesmo, em Lisboa.
Senti uma imensa pena - eu que nunca frequentei aquele espaço e que dele tenho apenas uma memória afectiva por ser do Teatro.
Assim mesmo, do Teatro. Um Joe que ama uma arte que vai sucumbindo entre ruínas.
O nosso Parque Mayer fazia falta à Cidade.
O importante é que as pessoas vão ao teatro. O importante é que se cultive o hábito de sair para ir ver teatro, amigos meus.
Por isso, me comovi perante as ruínas daquela sala de espectáculos de Lisboa.
No meio das minhas secretas lágrimas perguntava-me apenas isto:
Quanta arrogância, quanta ignorância e quanto desleixo passaram pelo Gabinete da Presidência, na Praça do Munícipio?...
Esta Lisboa, que também sinto como minha, transforma-se, aos poucos, num lugar ermo onde me sinto quase nada seguro. Reconhço que nem mesmo ali os fantasmas se sentem seguros.
Faz muita falta um sítio nesta Lisboa - que reclamo como minha enquanto lugar de civilização - onde possa rir, chorar, aplaudir, comungar desse acto civilizacional que é 'ir ao teatro' - com tudo o que ele implica.
António Silva, Vasco Santana, Laura Alves, João Villaret, Beatriz Costa, Eugénio Salvador, Humberto Madeira, Ivone Silva... quantos fantasmas se acotovelam naquele parque de estacionamento no coração de uma cidade que os despreza?...
Nas treze horas em que cruzo aquelas ruínas e as sinto condenadas vem-me uma grande vontade de chorar.
Contenho-me, porém, a entrada do Metro é quase ali. Não me apetece descer a pé o que resta da Liberdade.
É nesta subterrânea condição de viajante do Metro que me apetece passar até ao lado desta cidade que me há-de conduzir à outra margem. Darei, assim, as costas aos fantasmas e ao desgosto.
Para citar um poeta:
'Lisboa, tão perto e tão longe'
2 comentários:
e o ping-pong, e os bilhares, e os livros a 25 tostões, e os amendoins, e as pessoas que o povoavam,e os néons, e os cheiros e o barulho e as toilletes de quem ía ao teatro ou jantar ou beber uma cerveja, e os pintas e os chulos de cachuchos nos dedos e brutos fios de ouro
Sim, pá.
Mas também uma cidade cada vez mais plastificada.
Os chulos - profissão não reconhecida - são uns fatelas que andam pelos centros comerciais. São iguais mas têm telemóveis.
O Parque Mayer albergava tudo e era a cidade no seu melhor.
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