terça-feira, 31 de outubro de 2006

Breves sobre o socialismo moderno

O socialismo moderno não rejeita o mercado, mas desconfia dele. Ao contrário dos neo-liberais ou dos comunistas, os socialistas não encontram nenhum tipo de valor positivo ou negativo no mercado; e têm a história pelas costas a dar-lhes razão. O credo neo-liberal no mercado é absurdo, porque se trata de evidente ideologia, extremada a quase uma religião; a rejeição do mercado pelos comunistas é absurda por provocar a paralisia social. O mercado, para o socialista moderno, é um instrumento, que deverá ser posto ao serviço da sociedade, e nunca o contrário.
Do mesmo modo, o socialismo moderno não deposita qualquer fé especial no Estado. Ao contrário dessa mentira tantas vezes papagueada pelos neo-liberais, sabe muito bem que o Estado não é uma invenção do socialismo. O moderno Estado Social é uma conquista de séculos, pela qual todos os esforços para a sua manutenção nunca serão demais, porque sabemos que o Estado Social não está inscrito em qualquer genética do Estado. Os neo-liberais pretendem fazer regredir o Estado ao seu papel anterior ao moderno Estado Social, ou seja, pretendem regressar ao Século XIX. Já os comunistas, ao advogarem que a produção esteja mas mãos do Estado, demonstram desconhecer a sua verdadeira natureza. O Estado não serve para produzir, mas para regular a sociedade no sentido da equidade e justiça social.
O socialismo moderno encontra-se entre duas ideologias extremadas e quasi-religiosas, o neo-liberalismo e o comunismo. É, neste momento, o único caminho moderno e progressista, que rejeita simultaneamente o "cada um por si" e o "todos por um", em nome de uma ideia que se recusa a abandonar, a de que todos os homens tem direito à felicidade.

(atenção: não confundir "socialismo moderno" com "José Sócrates")

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Brasil: Lula ganhou mas não pode descansar

O NY Times não aposta numa viragem populista à Chavez na maior democracia da América do Sul. Mas tudo vai depender do crescimento económico...

Lula ganhou/ bisou sem contestação a reeleição para PR da República Federativa do Brasil. Com mais de 60 por cento dos votos escrutinados. A campanha foi muito feia e os últimos ataques da direita prolongam-se nos média afectos ao grande capital carioca. Desde Maio de 2005, que a anterior presidência de Lula da Silva tinha sido causticada por uma série pantagruélica de escândalos político-financeiros envolvendo somas colossais.

Poder, Corrupção e Demissão de alguns dos principais dirigentes do partido presidencial, PT, esfriaram e tornaram muito crítica a posição do líder e PR. Os sucessivos processos de destituição accionados pelos partidos da Oposição ainda seguem o seu curso normal.

O jornalista do NYT enviado ao Rio de Janeiro entrevistou três politólogos e o próprio presidente do Tribunal Eleitoral. O que se sabe, e a gíria apelida de terceiro round das eleições presidenciais, é que Lula da Silva pode ser julgado antes de tomar de novo posse como PR em Brasília.

De qualquer das formas, Lula tem pela frente ciclópicos trabalhos a realizar: desfazer o possesso vigor da Oposição em o querer destituir; modernizar e qualificar o plantel de quadros, gestores e estrategas da equipe presidencial a preparar; e, last but not the least, começar a preparar o elenco do futuro Governo. Ventila-se a hipótese de Delfim Neto, o pai do milagre económico brasileiros dos anos 70 da Ditadura, vir a ser chamado para ocupar a pasta da Economia.

" Duas expressões foram incorporadas no vocabulário do petismo (PT): uma é " privataria", para designar as privatizações. E a outra é " andar de cima/ andar de baixo", para definir o arranca-rabo de classes revisto à luz dos elevadores Atlas ", escrevia ontem no seu demolidor blogue, Reinaldo Azevedo, agora inserto na Veja-On Line.

FAR
 
Desenho de João Fróis Posted by Picasa

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Descida ao inferno em quatro actos

Acto III- Inverno, ou a noite mais longa

Sentia-me bem. Como sempre desejei sentir-me. Uma auto-destruição lenta, deliberada, tinha-me tornado finalmente no sonhado marginal, o ser que não é. Desempregado, sem um cêntimo no bolso, devia dinheiro aos poucos amigos que me restavam. Tinha duas hipotecas sobre a casa, e dois dias para sair dela, ordem judicial. A minha família não me queria ver devido ao alcoolismo crónico, a mulher que eu amava fartara-se de mim pelo mesmo motivo. Estava no céu, como só se pode sentir alguém a um passo do céu.
Até que naquele dia conheci Sérgio.
Eram oito da manhã e sentava-me na tasca habitual, arrumando os cacos de mais uma noite a devorar cervejas fiadas. Aquilo que mais gozo me dava nesta ocupação era observar os velhotes daquele sitio inominável a olhar para mim com um misto de inveja e desprezo pela minha condição de bêbado assumidíssimo. Sentia-lhes a amargura da velhice sofrida, a inveja pela minha eterna juventude, já que a morte se adivinhava breve. De vez em quando, lançava um olhar alucinado e zombeteiro, e eles desviavam-se da perspectiva, como se eu representasse um lugar proibido, um sonho antigo e recalcado que os poderia despertar da horrível mas prazenteira sonolência em que vivem, porque tem de se viver de algum modo. Até que surgiu Sérgio.
Quando vi o monstro imponente Sérgio, logo me agradou o ar altivo e ao mesmo tempo algo decadente. É um daqueles seres que imaginamos desprovidos de tempo, sem carne, na medida em que a carne é a inscrição no momento vivo da História; Sérgio não tem nada de História. A sua figura sempre chamava a atenção: muito alto, nariz comprido, pele muito branca, robusto. Veste fora de todas as modas, geralmente umas calças de ganga sem engomar e uns sapatos velhos, embora elegantes. Eis-me perante aquela figura que, devido ou não ao meu estado alcoólico exagerado, me parecia a de um velho general romano derrotado, a viver as penas do exílio deambulando por tabernas decadentes, como aquela, diga-se. Um homem triturado pela vida. Um homem ideal para mim, para quem a vida perdera todo o interesse. Olhei-o nos olhos. Curiosamente, imediatamente me retribuiu, e sentou-se na minha mesa sem trocarmos uma palavra. Pediu dois moscatéis velhos, de uma qualidade divina, que provou com a delicadeza devida a um vinho daquele calibre. Via-se que apreciava vinhos. Após uma pequena pausa, disse-me:
- Jogas xadrez?
Esta entrada em jogo de Sérgio surpreendeu-me deveras; O xadrez era paixão antiga minha. Não conheço outro jogo em que a complexidade das hipóteses, desenvolvida por um hábito de séculos, tenha transformado o simples mover das peças numa complexa ciência, com estratégias várias para a abertura, o meio-jogo e o final, verdadeira miríade de hipóteses que se abatem sobre a nossa escolha próxima, a jogada seguinte. O xadrez é jogo de magos, e os que conheci que o jogam bem, sempre os considerei como tal. Eu próprio, sem falsas modéstias, sou não só aficionado como jogador razoável, dispondo de razoável reportório de aberturas, forte no meio-jogo, embora algo inconstante nos finais, devido talvez ao meu temperamento intempestivo. De modo que aceitei com agrado a proposta, e praticamente sem trocarmos uma palavra começámos um jogo de xadrez. Sérgio jogou, por insistência minha, de brancas.
Após uma calma abertura de peão de dama, passámos rapidamente, por movimentação das negras, a uma bela e complexa variante escandinava da índia de rei, onde o fianchetto do bispo negro tenta compensar através de ataque na ala de dama o maior ganho de espaço das brancas. Até que, ao décimo quarto lance, surgiu Sérgio.
Ao décimo quarto lance Sérgio movimentou a dama de uma forma que eu nunca tinha visto. Mais tarde comprovei tratar-se de uma completa inovação teórica sobre aquela linha da índia de rei. Sérgio, contrariando as hipóteses vigentes, atirou a dama para a coluna A, expondo-se ao ataque repetido das minhas torres, para num passe de mágica levá-la de um lado ao outro do tabuleiro, e após lógica troca de bispos, desferir um ataque implacável ao meu rei. Eu, que jogara várias vezes com grandes-mestres, nunca tinha sentido tal superioridade. Estava perante mim um mago, talvez tivesse passado ao lado de uma carreira no xadrez. Elogiei o seu jogo, ao que ele replicou.
- Um homem como tu deveria jogar melhor de negras; porque és um ser que, antes de tudo, reage, vejo em ti a insatisfação com o que te rodeia, assim deverias reagir contra a mediocridade do jogo óbvio das brancas.
- Será- respondi- tens razão; por isso costumo jogar estas linhas de contra-ataque.
- Enganas-te. O jogo das negras não é o contra-ataque, mas o ataque, porque o seu fundamento é o desafio ao óbvio, que é a vitória lógica das brancas, devido ao movimento adicional de que dispõem.
Depois jogámos mais três jogos. Ao último consegui, finalmente, um esforçado empate, perante o cérebro magnífico de Sérgio, que começava a adquirir para mim contornos de um semi-deus. Eram dez da manhã. Terminámos as hostilidades.
- O que fazes na vida?- perguntei.
- Que queres saber com isso? Talvez as palavras te atraiçoem, e sejam outras as tuas angústias…
- Quero saber em que trabalhas, o que costumas fazer…
- Normalmente- disse Sérgio- costumo inquirir os prédios, as flores, as estradas e os homens sobre qual será o seu destino, mas as respostas são muito complicadas para eles. Daí o meu amor pelo xadrez, onde as soluções são imediatas face aos problemas colocados.
- Não é isso que vejo no xadrez- respondi- mas um jogo que é quase ciência, onde tudo pode ser bela e magnificamente previsto.
- Não estou de acordo. O xadrez tem tantas possibilidades como as de todos os homens vivos, o que o torna incomensurável.Vês este velhote aqui? Vejo nele uma abertura inglesa simétrica, calma e posicional, mas esperando o primeiro movimento em falso para o ataque. Vês o dono da tasca, ali? Contraído, olhando para todos os lados como se esperasse a morte do outro lado da porta, vejo nele uma tempestuosa siciliana, talvez com sacrifício de um peão, onde ambos os contendores procuram vantagens rápidas para o ataque final. Das coisas que aprendi na fábrica, porque trabalho numa fábrica, não sei se te disse, é que toda a maquina do mundo, tal como o xadrez, está enformada de pequenas possibilidades, que são as pequenas decisões onde movimentamos as peças do grande jogo da vida.
- Mas não achas que se pode compreender, mesmo que de modo rudimentar, a essência do jogo?- perguntei.
- Penso que não. Na minha perspectiva, aquilo que fazemos é apenas empurrar umas peças, e se o fizermos na direcção certa, já faremos o suficiente.
- Mas tu- retorqui- para teres uma direcção certa, já precisas dessa sabedoria anterior; e isso é que faz de nós seres racionais, homens, termos um propósito. Eu, por exemplo, embora despreze os propósitos, sei que não deixo de ter o meu. É esse, e não outro, porque incorporo em mim toda uma sabedoria, uma ciência, que me ensina a mover as peças de forma correcta.
- Mas diz-me então, qual será o teu propósito, tu que tens como regra não teres regras?
- Esse mesmo, não ter regra.
- Pois isso é não ter regra nenhuma.
Foi assim que conheci Sérgio como pensador e xadrezista. Mais tarde perguntou-me quem eu era.
- Sou um poeta- respondi.
- E o que fazes aos teus poemas?
- Nada. Esperam pela minha morte, a ver se a humanidade os percebe finalmente.
- Pois eu, tendo esse talento que dizes ter, ocupava a minha vida a oferecer os poemas a quem passasse na rua. Sem critério, sem regras, como dizes…O peão inicial, o primeiro, é o mais belo e complexo. O mais difícil de mover. O dilema do xadrez e da vida é o primeiro passo. O que fazer e porquê? Embora a respostas pareça dada à partida, a verdade é que se pode vencer com o lance mais inverosímil e de aparência disparatada. Tu sabes que é verdade.
- É verdade…
- E isso, parece-me é o que estes tipos da tasca não compreendem, mas que tu, meu André, talvez possas entender; aquilo que o xadrez tem de similar com a vida não é a ciência que neles subjaz, mas a infinitude de possibilidades. Mesmo a jogada que não deveria ser, aquela que nos escapa, esse pode ser o lance vencedor. Por isso o xadrez e vida nunca serão compreensíveis.
- Mas Sérgio- disse- ao colocares as coisas não estarás também a encontrar um sentido nas coisas, o xadrez, a vida, nem que seja a sua incomensurabilidade?
- Penso que não, André. Não se trata da sabedoria, mas de um todo consciente que move as peças do jogo!
- Não estás a falar de Deus, ou de algo do género?
- Não. Estou a falar dos homens.
Foi assim que conheci Sérgio como pregador da humanidade e do humanismo, mesmo quando estes parecem irreconciliáveis. Mais tarde perguntou-me o que me fazia estar ali, junto aos restos da noite como ele.
- É aqui que me sinto bem- respondi- estou sem emprego, sem dinheiro, sem casa e sem mulher, e é por isso que me sinto bem.
- Sentes-te bem como um peão?
- Não!- e esta foi a minha primeira discordância com Sérgio- não sou um peão, porque faço o meu próprio destino, estou-me nas tintas para o dos outros. Muitos de nós quando nos julgamos peões somos reis, e quando nos julgamos reis, peões!
Foi assim que conheci Sérgio como pregador da humanidade e do humanismo, como grande pensador e xadrezista, sem dúvida demasiado moralista, mas o mais belo homem que até hoje conheci.
Continuei a encontrá-lo muitas vezes, até que um dia deixei de o ver. Nem sei se foi ele ou eu que nos cansámos daquela tasca das manhãs, onde eu, o peão anarquista, e Sérgio, o rei humanista, tantas vezes nos esquecemos da vida no nosso amado xadrez. O que sei, é que depois de Sérgio, não fui mais o mesmo.
Sérgio mudou-me e ao meu xadrez. Ensinou-me o magnífico poder da intuição, o obscuro demónio do improviso. Se ainda acredito, devo-lhe. A minha vida.

A Fábrica de Estúpidos I



Todos anos, desde 2003 – o meu segundo ano na faculdade – que me rio das reportagens dos estudantes que exultam com a sua entrada em Medicina. Haja inocência. Quatro anos já me marcaram o suficiente, e para o ódio (não há outra palavra) não se virar contra mim e eu ficar deprimido, resolvi escrever sobre o que é a minha faculdade.
Todos estes textos são dedicados aos meus amigos, que me ajudam a preservar a minha sanidade mental num quotidiano irracional, ilógico e estupidificante.
Na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa acontece de tudo. Só para vos dar um exemplo, até ao ano lectivo passado não existia Regulamento Pedagógico. O que quer dizer que até o ano 2006 os alunos desta Faculdade não tinham acesso à correcção dos seus exames.
Começo este ciclo com o episódio que me fez ver cabalmente que a minha Faculdade é uma Twilight Zone surrealista. Acontece então, que no ano passado, na disciplina de Terapêutica, me foi dado o código de barras que vêm na foto. Ao princípio ficámos confusos, mas logo nos explicaram que era para controlar as presenças. A confusão passou a espanto.
- Então e se eu me esquecer do cartão?
- Não há problema, é só dar o nome e não tem falta.
Portanto, o cartão não servia para nada. Mas numa Faculdade com a propina máxima e em que a partir do 4º ano não há professores pagos, supusemos que o dinheiro podia ser gasto assim, ao desbarato. O nosso alvo passou a ser a obrigatoriedade das aulas. Será que alunos com 22 anos, que querem ser médicos, têm que ser obrigados a ir às aulas? Que raio de modelo paternalista é este em que me dão um código de barras para eu não fugir?
Eu, por exemplo, aprendo pouco nas aulas. Não consigo assimilar nada e 99% das aulas são incipientes, não acrescentam nada aos livros e sem qualquer pedagogia.
Adorava ter o tempo que gasto em aulas para estudar. É que, aos 22 anos, tenho uma razoável certeza que quero ser médico e sei que é preciso estudar para isso. Mas, maior e vacinado, ainda não me é permitido escolher o melhor método para aprender?
Protestámos, ninguém nos ligou. Começámos então a preparar minuciosamente as aulas (não dando argumentos ao corpo docente) e a pará-la sempre com dúvidas e questões (99% delas acerca de economia política. Do género: porque é que os estudos sobre medicamentos são feitos pelas indústrias farmacêuticas que produzem esses mesmos medicamentos? É ético um médico colaborar com todo esse sistema?). Os professores queixaram-se. Fomos chamados à regente.
- Os professores queixam-se que vocês fazem muitas perguntas.
- Mas…Uma aula de presença obrigatória não permite, sequer, perguntas?
- Sim, mas vocês têm que se acalmar.
Explicámos que a nossa “pouca calma” se devia ao facto de não querermos estar ali. Queremos estudar quando e como quisermos. A regente da cadeira percebeu e até simpatizou connosco. Mas tinha que defender o sistema. Chegámos a isto:
- Vocês têm de ir às aulas, é assim que funciona.
- Mas nós conseguimos aprender de outras maneiras!
- Além disso, se uma aula for facultativa há a responsabilidade do corpo docente em dar uma aula tão boa, que os alunos vão sem serem obrigados! Mais, nenhum de nós vai a nenhum aula teórica e nunca chumbámos a cadeira nenhuma!
- Mas vocês têm que lá ir. Têm que se expor ao conhecimento.
- Mas e se formos com phones, pode ser?
- …
- Ok, phones não, mas se estivermos nas aulas a cantarolar músicas na nossa cabeça e sem fazer perguntas, já não há problema?
- Sim, interessa é que estejam lá. Expostos ao conhecimento.

E as aulas de Terapêutica – em que lemos muito, fizemos Sodokus e palavras cruzadas – continuaram obrigatórias e com os códigos de barras a passar.
Acrescento que numa turma de cerca trinta alunos, só seis nos revoltámos. Esta é a Faculdade onde o Director, todos os anos – todos! – diz na recepção aos alunos de 1º ano que nós somos os melhores e que chegámos à melhor faculdade do país.
E eu ainda não escrevi nada. E tenho quatro longos anos cravados na garganta.~

Manuel Neves

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Imagens reconfortantes para fumadores em tempos difíceis

 
Com a devida vénia, pela ideia, ao Dolo EventualPosted by Picasa

Ui! Que medo

Desde primevos tempos que o medo é a arma usada pelas classes dominantes para manterem poder e mordomias. Exércitos e polícias são eficientes em tempos conturbados quando não há pão e é necessário impor a razão. São a face repressiva visível (e sentida no corpo) do Poder. Para os subversivos ou recalcitrantes da ordem envia-se a baioneta e o cassetete, a paz desce sobre as cabeças partidas, e a sociedade volta ao seu normal funcionamento. Com o passar do tempo as sublevações ou revoluções mais importantes adquirem direito a fornecer motivos de souvenirs para turista (porta-chaves, t-shirts, canecas) e outra memorabilia que as pessoas gostam de coleccionar (a pistola de Trotsky, o paralelepípedo de Cohn-Bendit, o cravo de Otelo). Os belos ideais começam com uma afronta ao poder estabelecido, levam um tratamento da cavalaria ligeira, e acabam nas prateleiras do free shop no aeroporto.

Táxi Pluvioso

(Continue a ler no Pratinho de Couratos)

sábado, 28 de outubro de 2006

ABIAS


Abias Kayenga Ukuma, nascido aos 20 de Setembro de 1969 na aldeia de Kassareia, Município do Bailundo, Província do Huambo.
É membro do Núcleo de Jovens Pintores de Benguela. Fez os estudos primários e secundários também nesta cidade.
Autodidacta, em 1986 começou a aperfeiçoar a técnica de desenho e pintura na antiga secção de desenho e propaganda do Comité Provincial do Partido MPLA de Benguela.
Tem participado na execução de alguns painéis publicitários.
Tem obras espalhadas em Angola e em países como Portugal,França, Espanha, Estados Unidos,Inglaterra, Finlândia e Suécia, representando colecções particulares.

Telemóvel p contactos: +244 924159196 (Angola) ou 96.6333189 (Portugal)

Balanço da Universidade de Outono


(Foto tirada, com a devida vénia, da Oficina das Ideias)

Como é de bom costume, a destempo, pois, aqui se balançam os resultados das sessões informais do British Bar. Também conhecidas pelo aglutinado “Universidade de Outono “2+2=5”.
Mais uma vez, podemos dizê-lo, esta proposta de pedagogia popular saldou-se por um êxito retumbante. Embora a maioria das sessões não se tenha realizado, por razões clínicas, umas vezes, por atropelos de calendário, outras.
Graças às qualidades motivacionais dos elementos mais disciplinados do painel, foi possível, a despeito do confusionismo reinante à partida, chegar a algumas conclusões, à chegada. Com algum exagero dir-se-á que o trajecto entre o contador de pérfida Albion e a Palhota foi percorrido como que numa travessia bíblica, ao sabor da literatura de viagens, ou como numa deambulação antropológica, com tons de idiotia pós-graduada.
Mas vamos a resultados. A jóia da edição 2006, estimou-se, recairia sobre o segmento White Man Burden (monetarização do lobolo, chapa como o caminho mais directo e célere para o inferno, etc), a cargo de G da Silva. Nem brilhou de baça. Silva entrou de sendeiro e recolheu de sendeiro.
Para expiar o fracasso e penitenciar-se de Fróis, o núcleo duro da UO decidiu que o mesmo Silva terá de apresentar, em 2007, um trabalho sobre a cruz de Lorena, ou, em alternativa, pregar Lorena numa cruz.
Auspiciosas foram, porém, as conquistas do “2+2=5” no capítulo liberdades e boa governação. Mesmo os mais obtusos servos da escuridão e do estalinismo, quando confrontados com as políticas sociais, económicas, culturais, do PS, tombaram convencidamente ajoelhados, e, como o ‘tonton alienatus’ de Orwell, esse ex-polícia, ex-terrorista, convertido à humanidade por razões olfactivas, verteram lágrimas sentidas por José Sócrates. Apenas por receio de errar por defeito, e por respeito ao nojo dos recém-convertidos, não se reproduzem aqui as declarações de arrependimento dos ex-comunistas, e outros transviados da história, que se têm recondicionado à evidência de que o governo de Sócrates é, sem dúvida, o melhor dos últimos 20 anos, muito provavelmente, um dos excelentes da UE. No fim de contas, até as manifestações que (aparentemente) contestam, nas ruas, o executivo do PS, fazem-no como pleito à liberdade. No final do dia, lá estão eles de roda e mão dada, brincando de Siegfried ao som de Vangelis.
O mundo pode andar perigoso, admitimo-lo, mas esta não será a sua adjectivação mais funesta. Medra é uma enfadonha falta de imaginação, bem ilustrada pelo genérico da proposta em discussão na Gulbenkian, e objecto de referência no “2+2=5”, na senda da crise dos valores. Estranha crise esta, que não repercute no NYSE, no Nasdaq, no Footsie, no Hang Seng, no Straits, no Nikkei, e outras bolsas de valores. O que não escasseiam são valores. Com a vossa licença, vou já aplicar uns tostões na bolsa de derivados. No terceiro mandato de Sócrates.

JSP

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvâo Posted by Picasa

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Salazar



e o Giló numa de black skin

Da Capital do Império

Olá,

Todas as semanas recebo na minha caixa de correio aqui na Capital do Império cartas a pedirem-me dinheiro. Ao princípio eu até gostava pois as cartas afirmam sempre que eu sou um gajo porreiríssimo e além disso faziam-se sentir como um tipo cheio de responsabilidades para curar os males do mundo.
Agora já fico chateado e algumas das cartas vão para o arquivo permanente da lixeira sem sequer as abrir. Para além de não ter “massa” para agradar a todos os pedintes e para resolver todos os problemas do mundo algumas dessas cartas chateiam-me. Para me fazerem sentir obrigado a doar qualquer coisa enviam com os seus pedidos uns pequenos auto colantes com o meu nome e morada para serem colocadas nas cartas que eu envio, um espécie de recompensa pela minha doação que eles estão certos eu vou enviar e para me fazerem sentir culpado se eu nada enviar.
Tenho uma gaveta a abarrotar desses autocolantes das mais diversas formas e cores. Agora que se aproxima o Natal já sei que alguns desses “pedintes” me vão enviar uns cartões de boas festas pedindo em troca alguns dólares. Tenho uma outra gaveta cheia de cartões de boas festas das mais diversas organizações que tenho acumulado ao longo dos anos e que devem ser suficiente para enviar a todos os amigos e família até morrer .
Tenho a dizer que às vezes me sinto culpado de receber todo esse material que os pedintes me mandam e nada enviar em troca e de vez em quando lá mando um cheque de uns poucos dólares. Isto acontece geralmente na época do Natal quando uma dessas organizações me manda um bloco de notas ou auto colantes ou calendários a pedir em troca uns dólares para ajudar para uma ceia de natal para órfãos, ou bêbados/ drogados/ doidos (a que hoje se chamam higienicamente “sem casa”), soldados estropiados nas guerras imperiais através do mundo ou policias paralisados em defesa da lei, incluindo claro está o direito ao porte de arma. No meio do louco festim de consumo que é aqui o Natal sinto-me culpado e meto cinco dólares no correio embora já saiba que isso vá resultar em mais pedidos.
Isto porque aqui nos “states” a troca e venda de informação pessoal é um negócio enorme. Essas organizações de caridade trocam ou vendem bancos de dados com os nomes dos seus doadores o que resulta em que outras organizações de imediato comecem a assediar-me com mais pedidos. É um negócio enorme envolvendo também instituições de credito e bancos.
Em frente de mim neste momento tenho pedidos de doação da Fundação Nacional dos Veteranos da América, do Fundo para a Construção de um Monumento Nacional aos Agentes da Lei, dos “artistas de Pintura com pés e mãos”, do Centro de Cancro Sloan-Kettering, ainda outro da Fundação da Ordem Militar Purple Heart e outro de uma organização chamada USO que quer 10 dólares para “dar um obrigado a cada soldado no estrangeiro e mostrar que os americanos em casa estão-lhes agradecidos”. Tenho também um pedido de “massa” de organizações mais conhecidas como a Médicos Sem Fronteiras e outro da Cruz Vermelha (que pede também sangue embora não especifique se isso pode ser enviado pelo correio).
Há que explicar que todos estes pedidos de “massa” são perfeitamente legais. Nenhuma dessas organizações é uma fraude. Todas estão registadas.
Há também que dizer que os americanos dão muita massa. Em 2005 os americanos doaram um total de 260 mil e 280 milhões de dólares. Os cidadãos americanos por exemplo deram mais dinheiro para a vitimas do Tsunami na Indonésia que o seu governo.
Do total das doações de 2005 (os 260 mil milhões de dólares) 76,5 % foram dados individualmente pelos americanos, 11,5% por fundações, 5,3% por companhias privadas e 6,7% como parte de testamentos.
“Doar à comunidade” como repetem em refrão os americanos, é algo que está profundamente enraizado no seu psíquico cultural E não só para a caridade. Universidades chateiam anualmente os seus antigos alunos a pedir dinheiro e recebem anualmente dezenas de milhões de dólares em doações dos mesmos e de milionários, o mesmo acontecendo com centros de investigação e museus. São as dezenas os museus através deste país que existem graças a doações de cidadãos privados, milionários e não só. O Museu George Washington aqui na Capital do Império abriu esta semana uma nova ala graças a doações privadas de milhões de dólares.
George Behrakis deu o ano passado mais de 10 milhões de dólares a um museu de arte de Boston o que eleva para 25 milhões a massa que ele já doou ao tal museu. Quem é Behrakis? O museu disse –me que “é um ‘very nice gentleman’ ligado à indústria farmacêutica”. Deve ser…e deve gostar do Museum of Fine Arts de Boston. Mas Behrakis não é único. No total as artes e cultura receberam o ano passado doações no valor de 13 mil e 500 milhões de dólares.
Craig Mello que venceu o último prémio Nobel da Medicina fez as suas investigações graças em grande parte a uma doação de três milhões de dólares de um casal de milionários. No total a saúde recebeu doações o ano passado no valor de 22 mil e 500 milhões de dólares
Ted Turner, o fundador da CNN deu mil milhões, (um Bilião como eles dizem) à ONU e organizações a ela ligadas. O multimilionário Warren Buffet recentemente fez cabeçalho dos jornais durante dias ao anunciar que tinha decidido doar 30 (trinta!!) mil milhões de dólares à Fundação Bill e Melinda Gates ( que como o nome indica existe com base na doação desses dois milionários e que doa mais dinheiro para saude no terceiro mundo que … .a Organização Mundial de Saúde). Toda a malta aplaudiu a decisão do Buffet mas eu fiquei com pena dos seus dois filhos que não devem ter achado piada nenhuma à extravagância do velho.
Grandes companhias americanas com efeito financiam museus, programas de televisão e têm fundos de caridade. A Givin USA disse que em 2005 companhias privadas doaram um total de 13 mil e 600 milhões de dólares. Isso aumenta se se tiver em conta que algumas das grandes companhias americanas têm fundações que contribuem com doações.
Tudo isto é o contrario daquilo que irritava Hannah Arendt quando falava da “riqueza sem função visível” mas para mim o notável nisto é que a grande percentagem (76,5%) é doada pelos cidadãos privados, milionários e não só.
Não sei de onde vem essa tradição bem americana mas sei que está profundamente enraizada e não deixa de espantar muitos que aqui chegam entre eles o filósofo?) /jornalista (?) Bernard Henri Levy. Numa entrevista a uma estação de televisão o homem estava totalmente abismado com o facto de o Texas ser o estado que com grande apoio popular mais gente põe na cadeira eléctrica e ter sido o estado que mais ajuda doou às vitimas do Katrina. Realmente …é de espantar!
Uma tradição talvez ligada a esta veia filantrópica dos americanos e que ao principio me pasmava é o facto de que quando um membro da família de um colega de trabalho morre a primeira coisa que os americanos fazem é fazer uma colecta de “massa”. Revela talvez o sentido dos americanos de quererem ter uma solução para tudo e como não podem resolver a morte pois … vamos atenuá-la com dinheiro. Um dia cheguei ao serviço e e fui abordado por um colega americano que me disse: “Morreu a mulher do fulano tal. Quanto é que queres dar?” Estive quase a perguntar se era para ajudar para uma festa de celebração mas ainda bem que não o fiz pois com o tempo apercebi-me que (pelo menos em principio, embora não haja garantias) não é para isso.
Há que dizer que como tudo na América a filantropia ( ou pelo menos parte dela) tem o seu aspecto financeiro que beneficia o doador. Aqui tudo é negócio …
Todas as doações para instituições de caridade, de estudo, científicas e museus são deduzíveis nos impostos pelo que quando chega o fim do ano aumentam os pedidos e as doações. Automóveis a cair de podre, roupa velha, tudo é doado e depois deduzido nos impostos. Para os americanos é aquilo que eles chamam de uma “win/win situation” ou seja ganham todos. Os americanos preferem dar à caridade, aos museus, à investigação, às universidades do que pagar impostos. Mas pelo que já me apercebi o governo não se importa e até incentiva isso. Deve ser por querer assim é menos gente a pedinchar na assistência pública, no ministério da educação, saúde etc.
Para além disso os americanos estão profundamente convencidos da sua própria benevolência e esta tradição reforça esse sentimento.
Quanto a mim já me decidi: vou dar cinco dólares à Médicos Sem Fronteira: Os autocolantes são giros….

Um abraço,

Da capital do Império,

Jota Esse Erre

Jantar dos finalistas do curso de Filosofia. 1979/1980 (5)

 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

O beralismo

Passados os Pirinéus o liberalismo dilui-se e principia o iberalismo de pathos sangrento. Passado o Guadiana a sul e aquela estação cheia de azulejos a norte, o iberalismo abastarda-se por completo na cabeçorra feia de Fernandes Thomaz e temos o beralismo.
Defende o impossível; O mercado controlado e protegido contra a expansão da civilização em nome da civilização. Promove à Péricles, o fundador da actual anticivilização, a crescente dependência à figura-poli-Rex e sublimizada do mercador, santifica o economista Pontifex, esvaziado do sentido de oikos.
E isto contra o guerreiro, o artista, o filósofo.
O neo.beralista tuga contemporâneo sabe que não tem nenhuma importância que tudo seja bera, desde que todos consumam uma ilusão de civilização que assenta nesta premissa o bem comum gera concorrência positiva, e esta re capitaliza e redistribui recursos novos.
O beralismo ao privilegiar a exploração permissivamente desenfreada de todo o tipo de recursos, acaba por esgotá-los. Cria o predador unidimensional de recursos. Como por exemplo o caviloso armadilhador de cabeçorras, cabecinhas e cabeçóides turistitas como se assiste a olho nu nestas terras solarengas, incendiadas, retalhadas de autoestradas aeroportos. Em que há esta anóia; postos de trabalho (horrível ideia) e incremento de fluxos turísticos (mais mui horrenda linguagem, corbusier abstracta funcionalista pindérica)
Os liberais nunca tiveram nada a dizer de novo porque faziam parte da anticivilização empenhada em recursar, em vez de se entregar ao êxtase dionísiaco ou apolineo.
Free us from all kinds of markets except the market place.

locomotiva

(retirado da caixa de comentários deste post no Blasfémias, com a devida vénia ao autor)

Descida ao inferno em quatro actos

Acto II- Outono
Nesse dia sabia, mais do que em qualquer outro, o significado da viagem.
Nesse dia sabia, mais do que em qualquer outro, porque tinha de partir. Por causa de um rosto. Não. Por causa de uma falha no meu próprio rosto. Por causa do meu sinal no sovaco, da minha verruga nas pernas, dos meus olhos castanhos, do meu cabelo ondulado, Não. Por causa dela. Não. Por causa da imagem. Eu fiz dela uma imagem.
Parti.
Era o único comboio. Não haveria outro. Era necessário chegar a horas. Como sempre, atrasei-me.
Mas consegui, à custa de correr quilómetros, de correr durante anos, décadas, uma vida inteira, e sobretudo de me atirar para o comboio em andamento, de me equilibrar estupidamente no comboio em andamento, consegui. Trepei gloriosamente para o comboio em andamento, senti-me um rei. Limpei o suor e arrastei-me para a carruagem. Estava estranhamente vazia. Só tinha quatro passageiros: uma família muito fora do normal composta por um velho bêbado (branco), uma mulher jovem (branca) e um rapaz (negro). E um jovem como eu, cujo olhar mais sedutor eu nunca vira. Senti de tal maneira o magnetismo desse olhar que embora toda a carruagem estivesse vazia, e a minha viagem fosse uma viagem interior, sentei-me ao lado desse estranho.
-Olá, como te chamas?
-Chamo-me Sérgio.
-E o que fazes por aqui?
-Estou a fazer de cão-de-guarda, que é aquilo para o que nasci. Do teu cão-de-guarda. Estes coitados aqui ao lado, servem para te fazer rir.
Ao meu lado, o Sr. Zé dizia “este miúdo, fui buscá-lo a Cabo Verde. Não serve para nada. Só para me dar despesa e preocupações. Mas eu, com toda a minha pena e a minha paixão, como poderia deixá-lo lá. Não é CABO-VERDIANO?”
O Cabo-Verdiano (não teria mais do que 10 anos) olhava-o com aquele olhar que só se vê em homens que são enforcados pelas suas convicções.
A mulher do Sr. Zé fingia e fingia e fingia. Adorar o Sr. Zé e o Cabo-Verdiano. E a Virgem Maria. Mas não disse nada, pelo menos por agora.
(Os olhos do Sérgio faziam-me lembrar uns que eu tinha conhecido há muitos, muitos anos, talvez muitas, muitas décadas. Eram de um tom castanho-purpúra e não sei se me faziam lembrar os de uma enfermeira que me coseu a cabeça enquanto eu chorava horrivelmente aos três anos, ou os de uma mulher que eu sabia que tinha visto uma vez, mas não onde. De qualquer maneira, eram olhos de mulher- o que não era normal num homem com traços tão masculinos como era o Sérgio).
Ele perguntou-me:
-E o que lá vais fazer?
-Nada.
-Tens então que comprar uma garrafa na próxima paragem e confiar-me os teus segredos.
Na paragem seguinte comprei não uma, mas três garrafas. Uma para o Sr. Zé, as outras duas para mim. Senti-me de tal maneira cativado pelo Sérgio que achei que uma só garrafa não seria suficiente para lhe contar todos os meus segredos. Contudo, ele advertiu-me:
-Tem cuidado com os segredos, demasiados segredos são delírios.
(O Sr. Zé começou a rodopiar em volta de si próprio, urrando como um doido em modo de besta, e a salivar da boca e dos olhos, dizia “Sou o Sr. Zé, o bêbado da aldeia, sou o Sr. Zé, E SAIO NA PRÓXIMA PARAGEM”, mas eu não lhe prestava atenção, tal como não prestei atenção ao que diziam a mulher do Sr. Zé e o Cabo-Verdiano, de tal maneira me fixavam os olhos de Sérgio, mas hoje, depois de tudo o que passei, lembro fragmentos dessas palavras ditas por baixo dos horríveis urros do Sr. Zé, fragmentos que se transformaram em verdades, ou na Verdade devido ao meu pobre entendimento.
A mulher do Sr. Zé:
-Se este homem te parece assim, talvez este homem seja assado, este homem fez por mim o que eu não faria por mim, este homem nunca me bateu, e ter que o arrastar para casa, e ter que o arrastar para a cama, uma casa que nunca existiu, uma cama que nunca existiu, foi sempre pena menor que não ter ninguém que arrastar, sempre quis um homem que pudesse amar, e este homem, embora não o ame, é o que mais se aproximou, nunca houve nenhum outro, É O MEU HOMEM, e outras há que não o têm, embora não saibam sofrer, também não sabem viver, PELO MENOS este homem adoptou o Cabo-Verdiano para nos herdar a minha frustração e o seu ódio.
O Cabo-Verdiano:
-Há muitas vidas. A diferença entre a minha e a tua, é que eu sei que não a escolhi. Pai, vamos para casa.)
Como nesse momento ignorei estas palavras, de tal maneira estava fixado no meu próprio ego, nas minhas próprias dúvidas, achei por bem contar os meus segredos ao Sérgio:
-Nesse dia sabia, mais do que em qualquer outro, porque tinha de partir. Por causa de um rosto. Não. Por causa de uma falha no meu próprio rosto. Por causa do meu sinal no sovaco, da minha verruga nas pernas, dos meus olhos castanhos, do meu cabelo ondulado, Não. Por causa dela. Não. Por causa da imagem. Eu fiz dela uma imagem.
Mas o Sérgio interrompeu-me:
-Eu também saio na próxima paragem. Perdoa-me, mas ainda és muito jovem. Prefiro acompanhar esta família patética. Nunca menosprezes aqueles que te parecem patéticos. Ver-nos-emos quando chegares ao teu destino, embora ele ainda esteja muito longe. Vê bem: disse-te para comprares uma garrafa e tu compraste três…
Dizendo isto, surpreendentemente, desapareceram todos: o Sérgio e família patética. Fiquei sozinho na carruagem, e continuei durante horas, dias, décadas, esperando o fim da viagem para poder compreender o significado de todos aqueles momentos.

Nuno Pereira

I
Os homens mais inteligentes adoram a flecha: ?
Einstein tinha um arco enorme?.
Eu, por mim, gosto das pombas e, por isso, nem escrever deveria.
Como já disse, gosto das pombas.
Dizem-me que para percebê-las, teria de explicar a flecha.
Revoada. Na verdade, quanto ao arco, cada um percebe do seu. A cada um seu braço. Seja, por exemplo: - Para que a flecha seja eficaz, a ponta terá, ardentemente golpeada, de ser forjada de conhecimento. Até se definir, aguçada, ao peso do martelo...
- Mas as minhas são de madeira. Afiadas pelo canivete da ignorância... E o meu arco, bem vistas as coisas, talvez não seja dos piores... - Como sempre, o arco vibra... - Decerto... Mas, insisto: gosto delas...
II
Quando elas me vêem, fazem que caia a noite, no seu esplendor. Vendo-a, sei-as pombas. Atiro à sua plumagem de luz. Quase nunca as mato. Suspeito, aliás, que nem quero. Ao contrário do que possa parecer, se matá-las nos dá, o resto da caçada é outra coisa... Corre-se à queda da luz, já dia em tudo. Excepto na pomba. Ilumina ela ainda a paralisia da morte. Há, agora, o cravar dos polegares nesta ferida. Despedaçada pelos outros oito dedos, ei-la. Aqui está a sua luz, levitando. Aqui, a sabedoria. Acompanha-nos para sempre...

Nuno Pereira é um jovem poeta, ainda não publicado, do Barreiro. Um amigo, também.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Joseph Stiglitz: "Troca justa contra livre-troca"

" O tema central do debate entre economistas é o impacto da liberalização do comércio sobre a eficácia e sobre o crescimento. Mas o tema central do debate público incide sobretudo sobre a equidade, a justiça. Quando, no mundo desenvolvido, se fala de " comércio injusto", pensa-se logo na grande vantagem que usufruem os países em desenvolvimento com os baixos salários. Mas esses países têm também uma série considerável de desvantagens que compensam aquele meio: um custo elevado do capital, as más infra-estruturas, uma mão-de-obra menos qualificada e uma produtividade global mais fraca. No mundo dos países em desenvolvimento também se queixam vivamente da dificuldade em concorrer com os países industriais avançados. Para os economistas, estas forças e fraquezas diferentes significam que cada país tem uma vantagem comparativa, em actividades nas quais é bom, e este facto deve determinar o que pode exportar. Ser pobre, ter baixos salários não é ser injusto, mas sem sorte ".

Do livro" Un autre monde - Contre le fanatisme du marché ", que acaba de sair em França.

FAR

Terra

Lubango/05


A Verdade

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade
do livro "O corpo", editora Record

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvâo Posted by Picasa

Jantar dos finalistas de Filosofia. 1979/1980 (4)

 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

Dos brandos costumes aos costumes rascas...

Sinto-me, cada vez mais, Jeremias...
Constato, insatisfeito, um lugar povoado de gentes contra as quais hei-de lançar as minhas Jeremíadas...
(Isto faz-me lembrar uma conversa que tive, fazem alguns bons anos, com o Mário de Carvalho...).
Desci à realidade e constato que esta Escola não serve. A boçalidade mais rasca instalou-se no sistema de ensino. Da salazarice da tutela, aos salazarentos tutelados, passando pelos rascas tutelandos tudo vem a dar em confusão.

Hoje ouvi da boca de alguém que anda nestas coisas do Ensino há muitos, muitos anos algo como isto: «Se isto de ensinar me desse gozo, ainda aguentava mais uns anos... Há uns anos atrás ainda havia alunos com ideias, alunos com quem se podia conversar... Agora são todos malcriados, sem educação...»

Dá que pensar, amigos meus...
Nenhum professor, que se preze de o ser, poderá estar satisfeito com esta realidade do nosso ensino público.

A falta de educação alastrou pela nossa sociedade. Constata-se a olhos vistos, é palpável, audível, sente-se no ar - é um odor que se pode caracterizar como um não sei quê que se entranha e se desunha e nos empurra. Instalou-se, de alto a baixo, no nosso sistema de ensino público sem que a tutela do mesmo se tivesse importado com tal facto.
Já tivemos uma 'geração rasca'; mas, agora, a coisa é pior: estamos perante uma sociedade rasca que se pretende impor como modelo.
E o fosso vai-se cavando...

Termino com Ruy Belo (tão esquecido pelo PS como o faz com a Dra. Ana Benavente...):

«...
Vi-te pensar e paro e penso
e aqui sozinho em meio desta gente
definitivamente sei que sempre pensarei
que por muito que pense nunca houve ou haverá alguém
que pense tanto e que pense tão bem »

in. Diálogo com a figura do Profeta Jeremias pintada por Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina, Obra Poética de Ruy Belo, Vol. 2, Ed. Presença

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Mambo 5 - Pintores Angolanos


Abias Kayenga Ukuma Benguela/05

Ao fundo da rua, que lateraliza com um dos ícones da cidade de Benguela - Praia Morena - um edifício de primeiro piso, todo em azul (dizem que a antiga açucareira da zona) guarda no seu interior preciosidades bem angolanas.
Abias Kayenga Ukuma é o pai de muita dessa arte, a que os olhos sensíveis ficam como que resguardados no belo.
Conheci-o ali mesmo na Escolinha de Arte, também conhecida pela Brigada da Pintura, onde Abias respira brisas vindas do Sombrero, ensina os seus alunos e pinta as suas telas nas horas vagas, conciliando tudo com a profissão de polícia.
Suku!! Nunca encontrei em corpo de homem olhar tão expressivamente humilde.
Conquistou-me na maneira de pintar e por tão francamente revelar África na cor e forma das suas tintas.

Por tudo isso : N´dapandula tchiwá Abias!!

(N´dapandula tchiwá - mt obrigado / Suku - Deus
Língua Umbundo)

Descida ao inferno em quatro actos

Acto I- Verão

Ontem acordei e estava morto. Percebi que estava morto porque durante a noite tive alucinações devido à febre, e recordo-me bem de um momento em que gritei por um “Sérgio” e ele estava ou ao meu lado como cabeça decepada em cima da mesa-de-cabeceira, ou atrás de mim naquela frincha da janela que deixa entrar a luz. Como entrar ou escapar a luz são a mesma coisa dependendo da perspectiva, posso hoje dizer que o Sérgio estava no ponto onde a luz se escapa, que era onde a minha cabeça decepada em ponto rebuçado-Sérgio trocava olhares com a luz infinto-manhã. Não vos conseguirei explicar este sentimento EXACTAMENTE por palavras, o que se compreende, não serei eu a conseguir explicar a morte através das palavras (embora muito boa gente pense conseguir escapar dela dessa forma, o que, como compreendi nessa manhã-noite, é mais ou menos uma ilusão. Explicarei mais tarde. O encadeamento é importante, o mais importante na presença da morte.)
Acordei, vesti-me, olhei-me ao espelho, cruzei-me com a assombração-Sérgio. Tinha a figura de alguém que eu conheci há muito, muito tempo atrás, e que mora na casa ao lado da minha. Disse-me:
- Não foste à fábrica?
A assombração tem os seus modos de se fazer entender. Digamos que simbólicos. O que ela queria dizer, e só o sei explicar hoje, era que nessa fábrica onde nunca estive, quando tocou a buzina de entrada, um capataz em forma de Sérgio-forma-do-meu-ex-amigo, UM CAPATAZ sentiu a minha falta e tomado de um orgulho de capataz, esse orgulho de ver as máquinas a trabalhar que não é mais que a maior forma de auto-comiseração inventada por debaixo do tecto do universo, gritou de modo a que mesmo o mais belo, o mais puro dos operários, ou seja, aquele que ainda não era bem um operário, não tivesse maneira de deixar de ouvir esse berro horrível, que talvez ainda hoje esteja cravado na sua memória, e de tempos a tempos se liberte das gavetas arrumadinhas pela ordenação a que os neurónios se obrigam a si próprios quando tem de suportar o insuportável peso da alma, ele gritou:
-Mas não há nenhum dia que este gajo chegue a horas? Este cabrão já devia estar a trabalhar há UM MINUTO!
(O minuto, como sabem, é a categoria fundamental da vida do capataz.)
Passei o rio como um sonho. Ainda hoje pouco me lembro. Acordei com a imagem de uma mulher. Pedi-lhe lume. Ela abriu-se num sorriso. Deu-me lume a sorrir. Agradeci-lhe. Ela guardou o isqueiro a sorrir. Pensei por momentos que tinha um rosto muito semelhante ao da minha mãe, mas rapidamente compreendi que esse rosto era o de uma certa mulher que amei, mas que nunca me correspondeu. Ela desapareceu rapidamente, como sempre desaparecem esse tipo de mulheres.
Havia muitos rostos, mas nenhum tinha forma, eram como projectos de rostos, em que só via traços catalogáveis, este era um nariz aquilino com lábios carnudos, aquele uns olhos azuis com maçãs-do-rosto muito vermelhinhas, ali um rosto negro, lábios grossos, resolutos, aqui um finlandês muito, muito delicado. Todos se confundiam, e confundiram-me tanto que os deixei de ver, ou antes, passei a vê-los todos como um só rosto. A questão a que me dediquei nas horas seguintes, que me ocupou todos os momentos dessa viagem, e me consumiu uma, e outra, e outra vez, essa questão que julguei irresolúvel cem vezes, e que cem vezes julguei óbvia, que não resolvi e ainda hoje me interroga, é QUE ROSTO ERA ESSE? Seria o rosto de Sérgio? O rosto da mulher, o meu próprio rosto, haverá no fundo algum rosto para lá da categorização? Ainda hoje não sei responder com exactidão, embora, depois deste caminho, tenha alguns palpites (e aquilo que de mais importante aprendi, nesta viagem para o inferno, é que nada há para além de palpites) sobre essa questão. O que me parece depois de tudo isto, é que só existem dois rostos; e que o meu é uma síntese de ambos. Um deles identifico-o com clareza como o rosto dos Sérgios, o rosto do demónio-anjo, aquele que me ensinou tudo sobre o saber mais importante, o saber a morte; o outro, é indefinível, talvez seja uma projecção, talvez uma ideia, o que é certo é que nunca o consegui ver ou sequer vislumbrar. Talvez esse rosto a que um dia chamei Amor nunca tenha existido realmente. Mas ainda hoje não tenho certezas quanto a estas questões. Aprendi muitas coisas nesta viagem, mas o mais importante que aprendi é que há coisas para as quais não há respostas.
Após algumas horas de pura inércia, em que me deixei invadir pelos sonhos das pessoas que me rodeavam, era altura de me por ao caminho. Segui os passos dos outros mais próximos, todos seguimos os passos uns dos outros, cada vez mais o que eu via eram seres iguais a seguirem-se uns aos outros e a si próprios, e de repente era toda uma multidão que me acompanhava, e todos me acolhiam, me confortavam, todos procuravam nas palavras a síntese, como se nenhum pudesse verdadeiramente ser ou diferenciar-se do outro, como se nenhum de nós verdadeiramente fosse.
Um obstáculo surgiu no caminho. O mais forte disse:
-TODOS JUNTOS removeremos este obstáculo!
Os quatro ou cinco mais fortes juntaram-se a ele e removeram o obstáculo.

As necessidades básicas dos neo-liberais

Só posso agradecer ao Insurgente a resposta ao meu post "A falácia da liberdade". Fiquei esclarecido. Quando se compara a prestação de cuidados de saúde com os restaurantes, e "saúde, educação, segurança social, transportes, água, luz, gás" com "alimentação, roupa, lazer, serviços financeiros, informação, electrónica de consumo, automóveis", nada mais há a dizer.
 
Desenho de João Fróis Posted by Picasa

Jantar dos finalistas do curso de Filosofia. 1979/1980 (2)

 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

Sinais

 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa