segunda-feira, 31 de julho de 2006

SINAIS
 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Thomas Friedman: " O mundo detesta G.W. Bush"

O jornalista peregrino do NY Times visitou, na semana que ontem terminou, Beirute, Telavive e Damasco

" O mundo detesta tanto G. W. Bush como jamais me recordo de isso se ter passado assim em relação com qualquer outro presidente dos EUA. Ele destila radioactividade negativa - e por isso ficou auto-prisioneiro na sua redoma ideológica porque foi incapaz de imaginar ou elaborar alternativas estratégicas".

" Isso deveu-se em parte porque a China, a Europa e a Rússia se tornaram independentes face ao poder dos EUA. Eles angariaram lucros prodigiosos no período do pós Guerra Fria que a América estruturou, mas só se interessaram por agenciar tais proventos; e em vez de dinamizarem e ampliarem tais conquistas só enganaram, lançaram poeira e acabaram por se equivocar minimizando as relações entretanto elaboradas".

"Isto não são bons sinais para a estabilidade mundial. A milícia religiosa que se apelida de " partido de Deus " manipulou um país e conduziu-o para uma guerra, usando obuses de alto nível - mollahs com drones- e o mundo quedou paralisado. Aqueles que ignoram tal loucura irão deparar com o mesmo cenário junto de si, mais cedo ou mais tarde. Os EUA deviam galvanizar as forças da paz no Médio Oriente, mas já o não conseguem realizar ".

FAR

domingo, 30 de julho de 2006

Momento de Poesia

Se me ponho a trabalhar

e escrevo ou desenho,

logo me sinto tão atrasado

no que devo a eternidade,

que começo a empurrar pra diante o tempo

e empurro-o, empurro-o à bruta

como empurra um atrasado,

até que cansado me julgo satisfeito;

e o efeito da fadiga

é muito igual à ilusão da satisfação !

Em troca, se vou passear por aí

sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,

compreendo tão bem o que não me diz respeito,

sinto-me tão chefe do que é fora de mim,

dou conselhos tão bíblicos aos aflitos

de uma aflição que não é minha,

dou-me tão perfeitamente conta do que

se passa fora das minhas muralhas

como sou cego ao ler-me ao espelho,

que, sinceramente não sei qual

seja melhor,

se estar sòzinho em casa a dar à manivela do mundo,

se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.


José de Almada Negreiros

Crónicas do Jocélio

Exames de Química. Continuam os ataques ao “eduquês”. Agora a propósito da repetição de provas. Vale tudo. As Ciências da Educação não são ciências? Não há já lugar para evocar as más experiências, do passado, da educação salazarista? Qual a percentagem de analfabetos nos anos 60? Quantos hoje? Para que serve a memória? Este não é o país onde cientistas foram à TV assegurar que o homem não podia estar na Lua? E estava. Dos putos que tinham febre, somatizando o ambiente repressivo, nos dias de exame? Da menina de “mil olhos”? Do funil à entrada no 5º ano? Nesta merda o “eduquês” é o discurso do bom senso. Não confundir com senso comum, nem com as opiniões da tia Filó e do tio António, mais as Bonifácias. Os tios Vascos, porém, divertem-me pela sua erudição, que contrasta com a sua boçalidade panfletária. Olhem todos para os números da exclusão! A de ontem e a de hoje. A solução para os exames nem sequer foi má. E, também não mexe com o estado em que isto está.

Jocélio Vasco Salvado Elias

sábado, 29 de julho de 2006

" De uma poesia..."

De uma poesia esperam

tanta cousa!

E logo desesperam,

se não ousa.


Mas a poesia nada tem com isso.

Ela não diz nem faz,

nem está sequer ao teu ou meu serviço.

Serão visões da paz.

aquilo que ela traz :

mas quanta guerra para falar nisso!


Uma só coisa ela terá, se for

( e espera ou desespera,

conforme o meu, o teu, o nosso amor):

Inverno ou Primavera,

E sempre uma outra dor.


Jorge de Sena
SINAIS
 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Melhem Chaoul: " Hezbollah só pode ser vencido se mudar regime político em Damasco"

Politólogo libanês ao" Libération ":

" Hezbollah só pode ser vencido se mudar regime
político em Damasco "


Belo trabalho jornalístico dos enviados do "Libération" ao Líbano e Jerusalém. Depois da sucinta e reveladora entrevista com um antigo homem forte do Mossad, o jornal esquerdista não marxista, escutou em Beirute um sociólogo e politólogo, Melhem Chaoul, sobre o jogo louco das relações entre as principais comunidades confessionais libanesas: sunitas, xiitas, drusos, facções católicas e aluítas sírios. Como vemos, é muita coisa e para serem instrumentalizadas, isso custa muito dinheiro.

Três pontos fortes da entrevista. 1). Os xiitas são um bloco e defendem com unhas e dentes a iniciativa militar do Hezbollah. " Apoio forte no combate", sublinha o especialista do ICS de Beirute. Os sunitas culpabilizam os aluítas sírios, no poder em Damasco pelo assassinato de Rafic Hariri, e apontam para a instrumentalização do Hezbollah pelos sírios.
2). Há muitas inquietações na comunidade sunita, dirigida pelo filho de Hariri, por causa da instalação no centro de Beirute de muitos comerciantes e funcionários de obediência chiita, " o que pode alterar a relação de forças intracomunitária da cidade ". O que quer dizer, que a comunidade xiita começou a ocupar zonas vitais tradicionalmente identificadas com os sunitas. Os sunitas lamentam a destruição de Beirute, que tinha sido reconstruída por Rafic Hariri. 3) Os cristãos estão contra a guerra e, não sendo contra o Hezbollah e o Irão, constatam a ambição da Síria em querer regressar ao Líbano. " Se ela voltar, está tudo perdido", dizem.

" Estrategicamente, o Hezbollah só poderá ser vencido se se realizar uma mudança de regime político em Damasco. A Síria, é ao mesmo tempo, um elo forte e fraco. Se cai, o dispositivo do Hezbollah desmantela-se. Forte: é sobre ele que está montada toda a política do Irão na região ".

FAR

Ler mais no Libération
aqui

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Afasta de mim esse cálice!

 
Pintura de Pedro G. R. Posted by Picasa

Aviso de porta de livraria

Não leiam delicados este livro,

sobretudo os heróis do palavrão doméstico,

as ninfas machas, as vestais do puro,

os que andam aos pulinhos num pé só,

com as duas castas mãos uma atràs e outra adiante,

enquanto com a terceira vão tapando a boca

dos que andam com dois pés sem medo das palavras.


E quem de amor não sabe fuja dele:

qualquer amor desde o da carne àquele

que só de si se move, não movido

de prémio vil, mas alto e quase eterno.

De amor e de poesia e de ter pátria

aqui se trata : e que a ralé não passe

este limiar sagrado e não se atreva

a encher de ratos este espaço livre

onde se morre em dignidade humana

a dor de haver nascido em Portugal

sem mais remédio que trazê-lo n´alma.

Jorge de Sena

quinta-feira, 27 de julho de 2006

SINAIS
 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

Feira Mundial do Livro Electrónico

São cerca de 330 mil obras em formato digital, em mais de 100 línguas, que poderão ser descarregadas gratuitamente até 4 de Agosto.

A iniciativa assinala o 35º aniversário da colocação do primeiro eBook online, pelo fundador do Projecto Gutenberg, Michael Hart, a 4 de Julho de 1971, desde então, o número de textos gratuitos à disposição dos internautas não parou de aumentar, o objectivo é chegar a um milhão em 2009.

Entre os mais de 50 títulos em língua portuguesa, encontram-se «Os Lusíadas», de Luís de Camões, várias obras de Camilo Castelo Branco, incluindo «Amor de Perdição», Eça de Queiroz («A Cidade e as Serras», «A Relíquia» e «As Farpas», com Ramalho Ortigão), Florbela Espanca («Livro de Mágoas»), Cesário Verde («O Livro de Cesário Verde»), António Nobre («Só»), Júlio Dinis («Uma Família Inglesa»), Almeida Garrett («Frei Luís de Sousa») e Fernão Lopes («Chronica de el-rei D. Pedro I»).

Visite a feira

aqui

Gabriela Ludovice

"Ofensiva militar prepara terreno para os políticos"

Antigo responsável da Mossad ao "Libération":
"Ofensiva militar prepara terreno para os políticos"

Analistas políticos do NY Times entendem que Israel está condenada a prazo se persistir numa política de terra queimada permanente e obsessiva


Hoje, no Libération, foi publicada uma importante entrevista com um antigo conselheiro militar de Yitzhak Rabin e actual membro do Comité da Defesa Nacional no Parlamento israelita. As declarações do responsável sionista aportam alguns itens de novidade, no contexto " gelatinoso " da luta informativa mundial. Ninguém sabe do real valor dos exércitos sírio ou iraniano. Correm rumores que estão mal equipados com peças vetustas dos arsenais reciclados russo, chinês e norte-coreano. Por outro lado, ainda não está bem esclarecido o "sinal verde" dado pelos americanos para o início da resposta sionista.

A tese de maior consistência sobre a eclosão do actual conflito prende-se, efectivamente, com a " provocação ", montada pelos serviços secretos ocidentais em conluio com os israelitas, que obrigaram as milícias do Hezbollah a atacarem Israel em múltiplas frentes. Há analistas que afirmam que Israel " está condenado a perder", a prazo. E que por cada islâmico preso ou morto, se erguerão novos e em maior quantidade. Ao mesmo tempo, dilata-se no tempo o início consistente de um verdadeiro processo de paz construtivo e equitativo: em cruel perspectiva, novo ciclo de mais 15 a 20 anos de progressos e constrangimentos sanguinários.

O antigo conselheiro de Rabin, desvenda sem hesitar, que os " EUA estão longe de forçar o fim das hostilidades". " " Estão a dar tempo aos israelitas ", frisa. E acrescenta: " E nós dissemos-lhe que precisávamos de ainda duas semanas para continuar a enfraquecer o Hezbollah ". E ainda é mais preciso: " Rice já deve ter testado o que é que os Libaneses e os Palestinianos podem aceitar quando chegarmos ao fim das hostilidades " , adiantando sem pestanejar que, " quando a ofensiva militar terminar, os políticos iniciarão conversações".

O antigo agente do Mossad mostra-se, por outro lado, convicto que " é impossível aniquilar o Hezbollah", apesar de Israel ter o exército mais " moderno do Mundo ". Ao mesmo tempo, preconiza a implantação de uma força militar multinacional aceite " pelas duas partes " em confronto. " Pode ser uma força internacional sob a égide da NATO e que prepare o terreno para a instalação do exército libanês ", reitera.

FAR

Ler o artigo do Libération
aqui

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Da capital do Império

Olá,
Hoje vai uma carta fora do normal que sei que vai irritar muitos dos multilatis que há por aí. (Multilati: Pessoa que acredita que o multilateralismo resolve todos os problemas do mundo e que as instituições internacionais são melhores a resolver problemas que os povos soberanos de qualquer país).
E para esse efeito começo por vos fazer duas perguntas: Quem sabe mais sobre as realidades do Uganda? Yowerri Musseveni ou o Juiz Philippe Kirch do Canadá sentado no seu escritório do Tribunal Penal Internacional na gentil e civilizada Haia?
Quem tem mais em conta as prioridades do povo ugandês? O Arcebispo ugandês John Baptist Odama e o chefe David Onen ou o procurador espanhol do dito tribunal Luís Moreno Ocampo atarefado de trabalho no seu escritório em Haia?
Faço estas perguntas porque na semana passada mantive aqui uma conversa com um amigo ugandês que embora ele próprio seja um multilati (os ugandeses não têm outra opção) está agora perante um dilema que de repente pôs em causa todo o apoio que deu em tempos ao tão famoso Tribunal Penal Internacional que foi entusiasticamente apoiado aí do outro lado da poça e a que, como vocês se recordam, os Estados Unidos (e não só) se opuseram. Vocês lembram-se que a recusa do Bush em aceitar o dito tribunal provocou aí uma crise de Bushite aguda com tudo aos berros e aos gritos… foi o fim da macacada ou como dizem os imigrantes tugas “the end of monkeyness” mas não do tribunal.
Pois o meu amigo ugandês estava visivelmente irritado não por causa do Bush mas porque o espanhol Luis Moreno Ocampo tinha feito uma declaração a dizer que o Uganda “têm a obrigação de aplicar o mandato internacional de detenção que pende sobre o líder rebelde Joseph Koni”.
Há que dizer que todos nós concordamos que o “combatente da liberdade” Koni é prova viva que a inevitabilidade do progresso e civilização é um mito e que este líder do “Exército da Libertação do Senhor” é directa ou indirectamente responsável por crimes horrorosos que fazem concorrência séria aos Mujahedin Sem Fronteiras no Iraque com as suas degolações ao vivo na internet, bombas em mercados e mesquitas, fuzilamento de professores e médicos etc.
Mas acontece que aproveitando o facto do Sudão já não querer dar apoio a Koni o governo do Presidente Musseveni decidiu iniciar discussões com o tal “Exército de Libertação do Senhor” para pôr termo às suas actividades no norte do Uganda que nos últimos anos custaram a vida a milhares de ugandeses.
Para incentivar Koni e os seus “combatentes da liberdade” a acabarem com a guerra Musseveni ofereceu-lhes uma amnistia. E para isso conta com o apoio de David Onen chefe da etnia Acholi que mais tem sofrido na guerra e do influente arcebispo John Baptis Odama que conhece a região afectada como a palma das suas mãos.
O Tribunal Penal Internacional é que não gostou nada da ideia. Há um mandato de captura emitido pelo Señor Moreno Ocampo cujo emprego em Haia e as ajudas de custo dependem claro está de lhe darem credibilidade. Pelo que o tribunal foi rápido em afirmar que quaisquer que sejam as decisões do Uganda e do seu processo de paz o tribunal “tem um mandato” pelo que o mandato de procura do Koni mantêm-se quer os ugandeses gostem ou não (Isto claro está dito em modos diplomáticos e no meio de muito vocabulário jurídico que ninguém entende, nem mesmo os multilatis.)
O chefe Onen não concorda e diz que o tribunal deve respeitar o desejo do seu povo alcançar a paz a qualquer preço.
O meu amigo ugandês está furioso e diz que “a mãe do Senor Ocampo não vive num campo de deslocados” e acrescenta que “somos nós e não ele que temos que lidar com as realidades e viver no mundo real”. O que é verdade.
Os burocratas do tribunal argumentam que Koni está apenas a tentar comprar tempo. Pode ser verdade. Mas se não for? Quem tem poderes de decidir sobre a justiça no Uganda. O Señor Moreno Ocampo no seu escritório em Haia ou os ugandeses? Quem tem poderes para decidir o futuro de Koni? O juiz Philippe Kirsch ou as autoridades político/jurídicas ugandesas eleitas pelos ugandeses?
E isso levanta outras questões: Perante quem respondem Moreno Ocampo ou Kirsch? Perante a ONU? Se sim, o que é a ONU?
Outra pergunta: O tal “mandato” a que o Senõr Moreno Ocampo se refere é mais importante que o mandato de Musseveni?
Pode o tão querido tribunal dos multilatis decidir-se por exemplo a levar a tribunal o Frederick de Klerk ou o PW Botha por “crimes de apartheid” se o Mandela e os sul-africanos decidiram já que “águas passadas não movem moinhos”?
Ou pode o tribunal internacional julgar Pinochet se o processo jurídico de um Chile democrático disser que não?
Ou pode o Senor Moreno Ocampo indiciar o Joaquim Chissano, e o Armando Guebuza por terem fuzilado o Urias Simango e a Joana Simião se os acordos de paz com a Renamo “amnistiam” na prática todos os crimes cometidos durante o PREC pelas duas partes e há agora uma democracia em Moçambique?
Pelos vistos e a julgar pela sua reacção ao Uganda o Senõr Moreno Ocampo obviamente acredita que sim que tem um “mandato” para tal e que o Tribunal Penal Internacional está acima do direito de cada nação. Julga portanto pelos vistos que o direito internacional (que requer definição) se sobrepõe ao direito nacional.
Eu cá vou pelo que diz o Arcebispo John Baptist Odama que sendo um apoiante do conceito de um tribunal internacional diz haver a possibilidade de “algo de bom sair deste processo (de negociações) pelo que as ameaças do tribunal não são nada de bom”.
“É uma boa altura para o tribunal calar a boca,” disse o Arcebispo.
E eu respondo: Ámen.

Da capital do Império (onde os multilatis não são muito populares)
Um abraço,

Jota Esse Erre

terça-feira, 25 de julho de 2006

SINAIS
 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

De amor, ainda

" Dis ce que le feu hésite à dire, / Soleil de l´air, clarté
qui ose, / Et meurs de l´avoir dit pour tous
". (R. Char)


como dizer que te amo sem mentir aos lábios

de palavras ardidas na manhã ausente

fatigadas enfim, invulneráveis... como dizer

a luz toda de negro rodeada

no latejar do ventre contra os pulsos

pesados de fronteiras e de fogo


não, nada direi. Antes ao sol

abrir violentamente o abismo do murmúrio,

a claridade larga do silêncio

aonde faz sentido

a dor dentro dos olhos. Antes

desenhar sobre a areia incendiária

a forma circular da morte aonde

aprisionar um dia a luz ausente dos lábios.


como dizer que te amo sem mentir ao grito ?


António-Franco Alexandre

segunda-feira, 24 de julho de 2006

 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

Thomas Friedman: "O que está a acontecer no Líbano é uma terrível tragédia"

" A América poderá ser capaz de capitalizar a suprema loucura exercida por
Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah? O grande xadrez estratégico será o de
separar a Síria do Irão, e despachar Damasco de volta para o mundo árabe sunita em desagregação
".


Um dos mais escutados e prestigiado jornalista correspondente da Imprensa Mundial, Thomas Friedman, da equipe do NY. Times, publicou uma ditirâmbica catilinária contra o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, por este, " conduzir o Hamas, o seu próprio partido e manipular contra a sua própria vontade os seus fiéis e povo para uma desnecessária guerra contra Israel ". O que, no seu entender, " vai eliminar toda e quaisquer veleidade de jamais voltarem de novo a serem responsáveis pelo Governo "., quer no Líbano quer na Palestina.
" Quanto mais o Irão fornecer mísseis a Nasrallah para impedir qualquer eventual ataque aéreo ocidental contra as instalações nucleares iranianas, mais descredibilizada fica a tese sobre as intenções científicas do programa defendido por Teerão ", aponta.

Uma tese diferente foi exposta no mesmo dia e jornal por dois politólogos consagrados, Charles Kupchan e Ray Takeyh. Que apontam para " a arrogância, falsa superioridade e incompetência dos EUA em terem excitado desmesuradamente o Médio Oriente, em geral ".

" O derrube de Saddam Hussein continha implícita a determinação de enviar ondas de choque através do mundo árabe, intimidando as anquilosadas tiranias ao mesmo tempo que encorajava movimentos cívicos espontâneos na senda do que se tinha passado no final da Guerra Fria na Europa de Leste. Tudo levava a pensar que, no Iraque, os democratas iriam substituir o ditador e criar um modelo providencial para toda a zona. Foi o contrário o que aconteceu ", apontam os dois cientistas sociais.

"A guerra não só mergulhou o Iraque na violência e tornou o país numa atracção para os guerrilheiros islâmicos como despertou tensões sectárias de ambos os lados da fronteira. Da Arábia Saudita ao Líbano, xiitas e sunitas espiam-se uns aos outros, fazendo face a uma monumental rivalidade que já tinha mergulhado outrora o Líbano no caos. A partir desta estratégia lançada no Iraque pelos EUA, eles contavam confinar e controlar o Irão e a Síria. O Irão lançou-se numa fase de intimidação sem precedentes e os xiitas desfrutam da supremacia no Iraque: A Síria fez uma aliança com o Irão para ajudar e encorajar uma aliança entre o Hamas e o Hezbollah. Ao contrário de pacificar a política regional árabe, as estratégias de Washington acabaram por colocar o truculento Irão no comando da opinião pública árabe ", revelam os citados politólogos

" Não, os EUA não deviam nunca ter deixado chegar as coisas a este ponto. Os reformistas que detinham anteriormente o poder em Teerão, desejavam vida interna tranquila e paz na região. Tendo sido ignorados pelos americanos. A administração norte-americana pôs-se a milhas de distância e descurou todas as vantagens de uma possível cooperação e a possibilidade de reforçar consequentemente o poder dos reformadores "., sublinham ainda: " As errantes tentativas para impor a democracia através da força das armas produziram o efeito contrário. Multiplicaram as faltas e incidentes que incriminam o culpado, os EUA, e arriscam espalhar a crise por toda a vasta região.

Voltando aos argumentos de Friedman, mencione-se este: " Neste jogo de sombras, qual será o preço a pagar pela Síria? Não se sabe se valeria a pena descobri-lo. Acima de tudo, os sírios albergam a direcção política do Hamas em Damasco. E são a ponte entre o Hezbollah e o Irão, sem a qual o Hezbollah não sobrevive. Sim, os EUA têm muito que falar com a Síria. E os sauditas, os egípcios e os jordanos também, pois estão apavorados com o facto de a Síria estar a caucionar a supremacia do xiismo iraniano na esfera política árabe ".

FAR

Amor

Desfolho a rosa furtiva, com

os veios corroídos pela seiva

de um relâmpago frio.


Amo a lentidão imprevista

do instante que os teus seios

elaboram.


E ouso o rio de púrpura

exangue que irrompe no leito

do teu sexo.


Nuno Júdice

domingo, 23 de julho de 2006

Baleia

 
Pintura de Hugo R. R. Posted by Picasa

Crónicas do Jocélio

Mudanças. Há mudanças visíveis na educação entre o antes e o depois do 25 de Abril. E há também semelhanças. Fiquemos hoje com aquilo que mudou. Não com o óbvio. Uma escola pública que hoje é democrática e para todos. Propunha-me olhar para coisas mais simples. Tomar, por exemplo, como objecto desse olhar o comportamento de alunos, de encarregados de educação e de professores. Os alunos são de novo tipo. Nasceram com as portas que Abril abriu. É uma geração que para aí com 3 meses de vida entrou na instituição escolar ou equivalente. Cresceu a levantar-se da mesa das refeições, sem pedir autorização. Não é de estranhar que se levante da carteira, sem esperar o professor. Viu TV desde que nasceu, na sala de refeições, cozinha e quarto de dormir. Isso deve mexer com memória, concentração, ritmos de aprendizagem, interesses. Dos encarregados de educação já ficou algo dito. São responsáveis pelo comportamento dos seus educandos. E, também são de novo tipo. É malta que tem assessoria jurídica do melhor. Conhecem as leis que temos, melhor que professores e seus sindicatos. Gente que já não pede aos profs para lhes corrigirem os rebentos, à porrada. Pelo contrário, sempre, mas sempre, ao lado dos seus querubins. Obedecendo aos caprichos da prole, que só se realiza com playstations, nikes e telemóveis daqueles que hão-de foder na próxima geração. Os professores são a constância nesta história. Trocaram a Maria pela Elle, e tal como os outros actores referidos, deixaram complexos de culpa e de inferioridade. No resto, iguais ao passado. Há uma colega minha que dizia que não engravidava por culpa dos alunos. Nenhum aluno, sequer um encarregado de educação, lhe deu ajuda. Definitivamente os tempos são outros.

Jocélio Vasco Salvado Elias
 
Desenho de Maturino Galvão Posted by Picasa

sexta-feira, 21 de julho de 2006

O Irão sobe a parada e ambição, por Olivier Roy

" Até agora, cada um dos conflitos que se desenrolava no Médio Oriente tinha as suas causas próprias e a inerente lógica.
Assiste-se agora a uma articulação de todos estes conflitos, onde o elemento-chave é a emergência do Irão como grande potência regional com potencialidades de dissuasão nuclear".

O texto do grande politólogo e especialista do Médio Oriente, Olivier Roy, constitui uma peça muito importante para a análise dos factores estruturais em jogo no crescente afrontamento militar entre Israel e diversos movimentos islamitas com ramificações junto da Autoridade Palestina e no governo de Unidade nacional libanês, o Hamas e o Hezbollah.
E onde a sobrevivência de regimes árabes está em jogo.

O politólogo fala de " reajustamentos e mesmo de mudanças radicais nas alianças, muito complexas", que o imparável protagonismo político do Irão está a suscitar por todo o Médio Oriente. Deixando a Síria jogar com " cálculos simples ", por um lado, e fomentar a " incoerência, luta de clans ou maus planos tácticos " do Hamas e do Herzbollah, por outro, Israel impôs o crucial dilema criado pela novidade do ataque do Herzbollah, que pode poupar retaliações surpreendentes à Síria por causa do temor de propagação de uma tomada de poder islâmico radical em Damasco., e evitar o ataque às instalações nucleares iranianas. " Os israelitas não querem correr o risco de se encontrarem sitiados por regimes islâmicos, sublinha o perito para alertar para a estratégia controlada de Israel em só atacar os redutos do Hamas e do Hezbollah.

" A chave da actual situação encontra-se no Irão. É o único protagonista a ter uma estratégia coerente; e onde as questões de curto prazo se articulam com uma estratégia de longa duração. No curto prazo, trata-se de evitar que as suas instalações nucleares possam vir a ser bombardeadas. No longo prazo, o Irão quer tornar-se a grande potência regional. Em relação ao primeiro ponto, os seus adversários são antes do mais os americanos e mesmo os europeus; no que toca ao segundo ponto, os seus inimigos podem vir a ser os seus vizinhos árabes. A denúncia de Israel é mais um meio do que um fim: permite curto-circuitar e embaraçar os regimes árabes, " externalizando " a crise no Médio Oriente".

" Muito habilidosamente o Irão lançou para diante da cena os conflitos " secundários " (Israel/ Palestina; Israel/ Hezbollah) para evitar todo o choque frontal(...) Mas por detrás desta hábil manipulação dos conflitos externos, Teerão avança com uma estratégia de longo termo: tornar-se a potência regional marginalizando os seus vizinhos árabes. A carta que o Irão joga agora, para lá de assegurar a sua capacidade nuclear, é a constituição de um arco xiita, que se estenderá do Iraque ao hezbollah, passando pelo regime sírio. A subida em poder e potência do xiismo faz-se contra a aliança das duas forças que tinham apoiado o Iraque de Saddam Hussein na guerra contra o Irão: o islamismo sunita e o nacionalismo árabe ".

FAR

Ler o texto em:

LE MONDE | 20.07.06
Jusqu'à présent, chacun des conflits du Moyen-Orient avait ses causes particulières et sa logique propre. Aujourd'hui, on assiste à une articulation de tous ces conflits, où l'élément-clé est l'émergence de l'Iran comme grande puissance régionale à potentialité nucléaire. Ce glissement entraîne des réajustements, voire des renversements d'alliances, fort complexes.

La crise entre le Hamas et Israël reste en fait bilatérale. Le Hamas subit une mutation difficile pour passer d'une logique militaire à une logique politique : se mêlent le pas en avant (envisager une reconnaissance d'Israël) et la provocation militaire (enlèvement d'un soldat), sans que l'on sache trop ce qui relève des luttes internes, d'un mauvais calcul politique ou d'incohérence. La réponse israélienne reste dans la logique de l'Etat hébreu envers toute autorité palestinienne : ne lui laisser le choix qu'entre la totale coopération avec Israël ou la disparition, toujours au profit de plus radicaux

Mais
aqui

Arte de Amar

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos

que sabe ou sonha de beleza ? Quem

sente que suja ou é sujado por fazê-los

que goza de si mesmo e com alguém?


Só não é belo o que se não deseja

ou que ao nosso desejo mal responde.

E suja ou é sujado que não seja

feito do ardor que se não nega ou esconde.


Que gestos há mais belos que os do sexo?

Que corpo belo é menos belo em movimento ?

E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo

não é dos corpos o mais puro intento?


Olhos se fechem não para não ver

mas para o corpo ver o que eles não,

e no silêncio se ouça o só ranger

da carne que é da carne a só razão.


Jorge de Sena

quinta-feira, 20 de julho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

Contos do Verão .3

O Verão. Sempre o Verão. O meu pai a falar do tempo dele. Que calor. Que chatice. As aulas na Faculdade de Letras, a seguir ao 25 de Abril, claro que da Clássica. Apesar de tudo é um homem com classe. Algumas cadeiras como: “A Esquerda Freudiana”, “Introdução a Marx e Engels”, “Introdução a Freud”, ao lado da “Génese da Filosofia no Oriente e no Ocidente”. O prof. de “Análise Semiótica do Discurso”, peripateticamente às voltas e descalço, filosofando e fumando charros, com os alunos. O trabalho para “Sociologia da Arte” sobre “Forma e conteúdo na fotonovela pornográfica”. Mais as histórias do Amélio, que ganhou esse nome com a Amélia, e que sabia, antes de a ter, o plantel de todas as equipas a jogar futebol em Portugal. Que seca! E, os tempos são outros. A primeira trip do meu pai deixou-o sem rir dois anos. Não vou por aí. Não mais pastilharei. Entro na Faculdade este ano. Vou para a Universidade Católica. Empregabilidade oblige. Consta que o Amélio também se reconverteu. Fala de livros. Traz, debaixo do braço, o “Mil Folhas”. Os tempos estão difíceis. A mim resta-me a saudade, o trabalho e a saúde(zinha). Lá terei que endireitar a herança.

Josina MacAdam

"Ce funeste langage"

Levanta-te e caminha, hesitante palavra

sobre a aresta do mês onde até mesmo Deus

esquece e a crua luz sensivelmente lavra

através de caídos sucessivos véus


Sinal equivalente ao quente cais que canto

aqui na orla da manhã só prometida

a quem matou a morte e desconhece quanto

à morte se devia a ciência da vida


Já tudo o que passou parece imaginado

e Ana Karenina tem no olhar ausente

a estrada que se perde a cada passo andado


Ó palavra impossível cuja vizinhança

a outra, útil ou portátil, não consente,

abre o poema, símil da lábil criança


Ruy Belo

China: "sobreaquecimento" da economia manieta combate ao desemprego urbano

Riscos de sobreprodução e endividamento das empresas para-estatais mantém um perturbador desemprego urbano acima dos 10 por cento da população activa

O risco de " sobreaquecimento " da economia chinesa parece real e o governo mostra-se incapaz de resolver os dois problemas maiores que o assoberbam: uma mais que provável crise sistemática do sistema financeiro geral minado pela deriva dos empréstimos bancários colossais e a fraqueza do consumo familiar que não sustentam, estruturalmente, o bom funcionamento de uma economia que vive da atracção do investimento estrangeiro e das exportações de bens industriais de baixa qualidade.

Os lucros das exportações, que subiram ainda no segundo trimestre ao ritmo de 11,3%, e a massa das reservas em divisas a aproximar-se dos 1000 biliões de dólares fez disparar o crescimento no investimento de capitas fixos, que obviamente, não podem produzir altas taxas de rendimento. Este excesso, segundo peritos económicos internacionais ouvidos pela Business Review, mina a confiança política do mercado, a termo. "O crescimento dos capitais fixos ultrapassou os 30 por cento este ano( enquanto o governo recomendava os 18 por cento). O excesso é atribuído às autoridades regionais que constroem muitos projectos inúteis- uma ponte todos os 10 kms sobre o Yangtzé, por exemplo- com o propósito de atrair favores políticos e investimentos estrangeiros", sublinham os analistas.

O sobreaquecimento da economia chinesa vai gerar inevitávelmente o processo de valorização do yuan. Porquê? Visto a economia estar baseada nas exportações e existir já um elevado nível de stocks criados pela sobreprodução: " Ora em diversos sectores chave como a siderurgia, o alumínio ou a indústria automóvel, basta que a procura mundial, e nomeadamente americana, desça um pouco para pôr em dificuldades sectores inteiros da economia ". Apesar de tudo, globalmente no bom caminho, a economia chinesa mobiliza uma classe média que ronda as 300 milhões de almas, apesar dos problemas e disparidades existentes entre o poder de compra nas cidades e no campo. Ninguém pode prever os efeitos de uma crise sistémica generalizada do sistema financeiro.

FAR

quarta-feira, 19 de julho de 2006

 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

Dádivas para...

Charlie Chaplin - A janela do Convento de Tomar com a colagem que lhe fez Nicolas Calas em 1942. Sob a janela, uma cama em osso de cavalo provida de telescópio e copo de sangue.

Marilyn Monroe - Um navio de guerra adaptado a ferro de engomar.

Fred Astaire - Uma dúzia de lagartos muito frescos.

Bugs Bunny - Uma prova de corta-mato no primeiro andar do Art Institute de Chicago.

Bessie Smith - O quadro " Mona Lisa " de Leonardo da Vinci com sistema eléctrico dois-pés-duas-pernas que o façam andar por toda a casa e mesmo subir escadas.

Harpo Marx - O papel de Iago na ópera " Otelo " de Verdi.

Jack London - Um pequeno cemitério de aldeia.

Krazy Kat - Uma árvore japonesa que, dando-se-lhe um charuto, apresenta um telefone anos 30. Na linha, um padre jugoslavo informa continuamente sobre as experiências do Frankenstein de Utrecht.

Mae West - Uma almofada com a forma da cara da senhora Golda Meier.

T-Bone Slim - Um esquilo marca " Lincoln .

Jerry Lewis - A Torre da Água, de Chicago, mas um pouco mais alta e cortada em fatias longitudinais de onze centímetros cada.

Buster Keaton - Um avião pilotado por uma girafa. Fins de semana: só a girafa


Mário Cesariny

Fidelidade - III

Qual de nós, diz-me, era capaz

de encher com o outro o coração inteiro?


O difícil não é chamar

a caminhos que vão por nossos pulsos

os densos espaços dos desejos

e as águas por onde, como peixes, mergulhamos

um no outro, examinando

o mesmo fundo,


O difícil inauguramo-lo

quando, com os corpos desencontrados,

partimos, por lábios, dedos, abismos

de onde nem sempre

regressamos juntos.

...................................

É muito pouco o que sabemos

da rosa do movimento aberta

e circular nos rostos - e nem sempre

é pelo amor que começamos.


Vítor Matos e Sá

terça-feira, 18 de julho de 2006

 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

A Guerra dos post-modernos vive por procuração das Grandes Potências

O Le Monde e o NY Times relatam-nos o apocalipse surreal no Médio Oriente

Tiros de morteiro, de míssil e de aviões miniatura, de todos os calibres e em vagas sucessivas: caem em território israelita. Os militantes radicais do Hamas e do Herzbollah não querem respeitar os chefes nem os "controleiros" iranianos e sírios. A guerra será total, dizem. Por causa do pesadelo da Pax Americana e da vida de miséria... Raides aéreos e peças de artilharia pesada dos carros de assalto Patton-IV sionistas caem um pouco por todo o Líbano. Existem comandos suicidas das facções radicais do Herzbollah que querem entrar em Telavive e Jerusalém, dê por onde der. Mesmo se não der... vão até lá.

Maquiavel falava dos três tipos de guerra - de ambição, de sobrevivência e de flagelo. Ao mesmo tempo, referia, Moisés indicou na Bíblia que " foi forçado para dar um futuro às suas leis e instituições a dar a matar uma infinitude de pessoas ( amazzare infinit uomi...) ". Nunca o Médio Oriente se encontrou perante uma situação tão complexa e explosiva. Tudo pode acontecer: toda a gente já percebeu que o poder é efémero e corrupto dos dois lados da barricada. É uma guerra de post-modernos, post-post Cold War, sem estados de alma.

Ninguém se atreve a discernir esta guerra de flagelo e de ambição. A manipulação refinada combina-se com a cibernética provocação. Sabemos como a Cia se tinha infiltrado legalmente (para cooperar...) junto da Autoridade Palestiniana e do Fath, de certas franjas do movimento criado por Arafat. As franjas radicais do Fath- o FDLP e o FPLP- exilaram-se em Damasco, massivamente ainda mais depois da primeira Intinfada. O poder teocrático iraniano mudou de mãos e imiscuiu-se da tragédia iraquiana, tirando as castanhas do lume e sonhando com um grande estado petrolífero...chiita.

O Líbano deve servir para alguma coisa. Para atacar Israel. Agora que os populistas tomaram o poder em Teerão. Poutine vendeu mais um stock de mísseis antiquados. Os chineses fizeram o mesmo, a pensar nos negócios cegos que têm que realizar mais tarde, dê por onde der. E instrumentalizem-se os guerrilheiros sem trabalho. Para confortar a ambição de duas ou três cáfilas de déspotas iluminados pelas cotações petrolíferas de Wall Street. É a quadratura do círculo vicioso...infernal.

A Mossad israelita, a mais perfomante polícia secreta do universo, sabe que a vida política em Beirute está num caos inimaginável e os comandos suicidas receberam ordem de marcha do presidente iraniano Mahmoud Ahmadnejdi. Toca de provocar e tirar proveito de um mínimo rapto de dois soldados israelitas: para matar no ovo a derrapagem de uma situação incontrolável a cem quilómetros das fronteiras israelitas e evitar ataques surpresa dos titãs do PR iraniano pagos a peso de ouro. Calcula-se que o pequeno exército de 4 milhares de elementos do Herzbollah custe mais de 300 milhões de dólares por ano aos mecenas do vale tudo.

Israel vai ter que andar muito para encontrar os esconderijos dos homens e das munições. E quer o Hamas-palestiniano, quer o Herzbollah irano-sírio, detestam o estilo de intervenção de Ossam Ben Laden. Preferem imolar-se pelo fogo da acção intempestiva. Os órgãos de Estaline - baterias de morteiros - perfazem milhares de unidades. O seu alcance pode atingir entre os 10 e os 25 km. As centenas de mísseis Fajr - 3 e 5, de fabricação chinesa, podem alcançar alvos a destruir entre 40 a 70 km. Alguns mísseis de patente iraniana - Zelzal - podem atingir alvos a 150 km. Imaginem a paranóia do estado-maior dos exércitos de Israel. A mensagem subliminal passada entre os dois campos diferenciados de luta, aponta: " Quanto mais tempo o inimigo desencadear flagelações sem limites nem linhas vermelhas, mais se torna imperioso o nosso dever de prolongar a confrontação sem limites ".

Segundo o NY Times referia na edição de hoje (17/7), o novo cerco israelita a Gaza deu oportunidade ao Hezbollah de patentear a sua solidariedade para com os seus irmãos islamitas. Outros analistas dizem que o Hezbollah precisa de reafirmar o seu poder para manter a sua pesada milícia de cerca de 4 mil homens treinados pelos Guardas da Revolução; e para consolidar a sua presença, quer no governo libanês, quer no palestiniano. Ao mesmo tempo , distrai a vontade de ataque agitada pelas potências ocidentais contra o Irão e a Síria, de forma crescente. Desse modo, a insurreição dos palestinianos radicais contra Israel visa aniquilar o capitalismo nascente do Líbano, a Suíça árabe, e abalar a burocracia militar e teocrática maioritária no Próximo Oriente, com ou sem efeitos perversos corrosivos. Não existem é certezas de espécie nenhuma para evitar o caos.

FAR

Glória

Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.

Todas estas batalhas, todos estes crimes,

todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva

e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,

todos estes poetas furados por balas

e todos os outros poetas abandonados pelos que

nem coragem tiveram de matar um homem,

toda esta mocidade enganada e roubada

e a outra morreu sabendo que a roubavam,

todo este sangue expressamente coalhado

à face íntegra da terra,

tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.


Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.


Jorge de Sena

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Chipre

Nicósia. A capital de um país Estado-membro da União Europeia permanece dividida há 32 anos. Como toda a ilha, após a invasão das tropas turcas em 17 de Julho de 1974. A “terra de ninguém” que separa as duas comunidades é uma ferida ainda aberta, fomentada pelas manipulações das grandes potências que sempre cobiçaram Chipre. Mas muitos cipriotas gregos e turcos ainda não desistiram da reunificação. Talvez um dia, a ilha de Afrodite se volte a reencontrar.





Fotos e texto de Pedro Caldeira Rodrigues.

Nicósia, Chipre, Abril, 2006

domingo, 16 de julho de 2006

Espelho do Invisível

Loucos nascemos e a pouco e pouco
filtramos esta luz que nos inspira.
Depois é gastar a vida inteira
neste equilíbrio sobre a fauce hiante.

Crisálidas somos de que mundo
oculto e auroral, aonde os finos
liames nos sustêm? Não, não somos
a forma, a aparência, mas a essência

de algo que se elide em nossas mãos
ávidas da aresta dos objectos.
Somos o que a alma sabe, apenas

uma força, um fluido, uma presença
alta e cintilante entre os punhais,
um rumor de luz informe e alado.

José Terra

Da capital do Império

Olá,
Os americanos gostam de balões e bandeiras …americanas, claro está.
Este país é na verdade um festival de balões. Nos “stands” de automóveis, não sei lá por que razão, há sempre balões. Amarrados às antenas dos carros novos, amarrados em cachos das mais diversas cores à entrada dos stands que aqui são sempre ao ar livre com dezenas de carros novinhos em folha alinhados uns ao lado dos outros, com dezenas de balões. Um stand aqui nos arredores de Washington amarra uns balões gigantes - obviamente enchidos com gás - a fios com dezenas de metros o que faz lembrar aquelas defesas antiaéreas da segunda guerra mundial.
Os agentes imobiliários também adoram balões. Amarram balões nos sinais “vende-se”, principalmente aos fins-de-semana quando algumas das casas estão abertas a serem inspeccionadas por possíveis compradores. Os balões obviamente devem adoçar a venda, caso contrário não sei por que razão estão lá.
Um dos supermercados onde eu faço compras semanalmente tem sempre dezenas de balões enchidos a gás amarrados juntos aos “caixas” que são depois dados às crianças que fazem berraria ou mesmo a adultos que os pedem não sei para quê. É giro ver um tipo de meia-idade a sair do supermercado, saco numa mão, balão na outra.
Festas de aniversários de crianças, adultos e velhos têm sempre balões.
Nos hospitais visitantes chegam com balões para os enfermos. Nos aeroportos vêm-se pessoas à espera de viajantes com flores e claro está balões.
Há toda uma indústria (presumo que na China) que produz balões com dísticos como “Happy Birthday”, “get well soon”, “Happy Anniversary”, “welcome home” etc. Enfim, balões para todas as ocasiões, pequenos, grandes, dos mais diversos feitios.
A bandeira americana é outra coisa que os americanos gostam. Por todo o lado há bandeiras americanas (presumo que fabricadas na China). Numas das ruas aqui próximo de onde eu vivo um prédio tem à sua frente a maior bandeira que eu já vi na minha vida. É uma coisa descomunal! Quando eu aqui cheguei esquecia-me sempre do nome dessa rua mas todos sabiam o que eu queria dizer quando eu falava da “rua com a bandeira gigante”.
É obviamente substituída regularmente a custo não sei de quem pois está sempre limpinha a flutuar ao vento num enorme mastro.
Os stands de automóveis também gostam da bandeira americana, misturando-a com os balões. Bandeiras pequenas, médias, grandes, autocolantes, alguns com o dístico “Deus abençoe a América” a adornar a bandeira.
Lembro-me que após os ataques de 11 de Setembro de 2001 um imigrante indiano que é dono de uma estação de gasolina aqui ao pé de minha casa adornou a sua garagem com dezenas e dezenas de bandeiras americanas e pedaços de papel com as cores da bandeira, como que a dizer: “nada de confusões”. Os clientes americanos adoraram a pirosice.
Quando eu lhe perguntei a razão de tantas bandeiras deu-me uma lição sobre “como os americanos não conhecem os muçulmanos, mas nós conhecemo-los há muito tempo”, acrescentando logo de seguida que os muçulmanos “também são uns aldrabões que roubam dinheiro”. Do dono desta garagem Jihad só ao contrário e as bandeiras lá estavam para prová-lo! De qualquer modo depois perguntou-me com um ar desconfiado: “Você é Curdo?”
Foi a primeira vez que neste país (ou noutro país qualquer) fui confundido por Curdo, embora uma vez em Houston no Texas um condutor de táxi árabe que me levava ao aeroporto tenha ficado com um ar de alívio quando depois de me perguntar de onde eu era eu lhe ter respondido que era turco. “Ah”, disse ele com um ar aliviado, “pensei que fosse israelita”. E depois para mostrar o seu sentido de humor acrescentou às gargalhadas: “Então não vai para a terminal da El Al”.
O que me lembrou que uma vez na Dinamarca ia apanhando um enxugo de porrada por ter sido confundido por agente israelita quando ingenuamente fotografava uma manifestação em frente à embaixada de Israel e pensei que seria giro fazer uns “close ups” de uns tipos com toalhas de mesa aos quadradinhos encarnados e brancos na cabeça. O polícia dinamarquês que me safou achou uma piada enorme quando eu lhe disse que era da Lusitânia. “Você parece árabe,” dizia ele rindo para me dar ânimo depois de dar umas cacetadas nos tipos de toalhas na cabeça que me queriam linchar.
Mas isso é outra história. Eu estava a falar do amor a balões e bandeiras e nessa manifestação a malta não gostava de bandeiras pois insistiam em deitar fogo às bandeiras que traziam.
Os americanos esses - e tal como se vê nos filmes ou nas fotografias - gostam de pôr a bandeiras americanas em frente às suas casas. Muitas casas até têm na parede exterior uma anilha de metal para se meter o mastro da bandeira. Devido ao seu formato eu ao princípio pensei que era para abrir garrafas de cerveja. Mas não. É para pôr bandeiras e quando é o dia da independência a 4 de Julho as “stars and stripes” estão por todo o lado.
Aqui no meu bairro algum vizinho este ano colocou pequenas bandeiras em frente a todas as casas e toda a malta da zona adorou a ideia
O que levanta a questão do patriotismo, esse valor démodé que aparentemente aí na Lusitânia teve recentemente um ressurgimento com as aventuras dos “Tugas”.
Aqui há um patriotismo que nunca vi. Uma sondagem recente indicava que 83% dos americanos se descrevem “orgulhosos” de ser americanos e isso nada tem que ver com a guerra no Iraque a que a maior parte dos americanos agora se opõem.
No 4 de Julho sempre me fascina como os americanos cantam o seu hino nacional ou outras canções patrióticas em festejos em que dezenas de milhar de pessoas se juntam ao ar livre para celebrar o dia da independência. Neste ultimo quatro de Julho em frente ao edifico do congresso a orquestra sinfónica no seu show anual à borla nos relvados desses edifício tocou “God Bless America land that I love” que as milhares de pessoas de imediato acompanharam num coro mais ou menos desafinado.
Isto envergonharia qualquer europeu. Será porque a Europa foi criada pela história enquanto os Estados Unidos foram originalmente uma ideia, uma fuga a essa história em que “a busca da felicidade” faz parte dos direitos mencionados na declaração de independência (juntamente com o direito à vida e liberdade)?
Talvez, mas não tenho a certeza. Há quem diga que o patriotismo é “o último refúgio do vilão” mas isso seria simplista e embora as euro-análises simplistas dos americanos estejam em moda eu não vou nessa.
Talvez seja porque o patriotismo é para a política o que a fé é para a religião. E os americanos são muito religiosos. Não sei. O que sei ‘é que eles gostam de bandeiras e balões. E do hino nacional e de outras canções patrióticas. Lá disso gostam. Quanto mais … melhor.

Um abraço,

Da Capital do Império,

Jota Esse Erre

sábado, 15 de julho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

"(...)Esperar e acumular sentido e doçura toda a vida"

" Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudesssem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante),-são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe ".

Rainer Maria Rilke, in " Cadernos de Malte Laurids Brigge"

Le Monde: Real politik sairá reforçada da cimeira do G8 de Saint-Petersburg

Análise de Daniel Vernet sublinha pontos de convergência e perspectivas de colaboração económica e política entre o Ocidente, a China e a Rússia

O presidente chinês, Hu Jintao, deve juntar-se aos seus oito colegas em St-Petersburg , símbolo da intenção suprema de equilibrio e realismo que os estados-maiores das grandes potências mundiais asseguraram preliminarmente. De um modo geral, as pombas e os falcões dos dois lados assimétricos do poder mundial querem esbater diferenças perigosas de análise e intervenção no terreno, em especial no que se refere à assinatura da Carta Energética, aos contornos ameaçadores do dossier nuclear avançado quer pela Coreia do Norte quer pelo Irão e ao quebra-cabeças da guerra sem fim do Médio Oriente . " Não se prevêem grandes e sonantes altercações entre os diversos intervenientes da primeira linha da política mundial",salienta num debate on-line, o editorialista e expert em política internacional do jornal Le Monde, Daniel Vernet, ontem publicado.

Para o especialista do Le Monde, a Rússia não quer nem deseja instituir o diktat de " realismo ofensivo ou de forte competição " com os seus rivais ocidentais e com a China. Assegura, por outro lado, que a presença russa na Ásia Central funciona como tampão e contenção do " contágio islamista . E,em relação à China, é manifesta a inquietação russa pela vizinhança da China junto à fronteira siberiana, território que pode ser cobiçado pelos enormes recursos mineiros que encerra. " Assiste-se a uma espécie de relação triangular Washington,Moscovo e Péquim. Cada um procura estabelecer e reforçar relações com um dos outros dois para suportar o terceiro ", frisa. Mas não ilude o essencial: " Houve um enfraquecimento incontestável da potência russa, porque perdeu os países satélites da era estalinista e também os que tinham feito parte do império tsarista ", acrescenta. A sua influência política e militar é, hoje, " mínima no próximo Oriente. Daí que ande a reboque dos EUA, da União Europeia e da ONU naquelas paragens".

Vernet chama a atenção para a estrutura e composição do estilo de governar de Poutine. Apelida-o de " Poder Vertical ", alertando para o facto de o presidente nomear não só os Governadores territoriais como, a breve prazo, os próprios presidentes das principais autarquias . O grupo que gira à volta de Poutine partilhou/reforçou o poder entre si. É uma espécie " de modelo soviético ", ironiza. No entanto, alerta, existe uma crescente classe média que luta por mais transparência e aposta nas liberdades. Ao mesmo tempo que deseja uma forte e colaborante aproximação com a Europa.

FAR

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Crónicas do Jocélio

Scolari. Hoje sou eu a falar de futebol. Não que tenha deixado os temas da escola. “All things are steered with all things”. Heraclitus, english version. Parabéns ao Cristiano, menino chorão, precursor dos efeitos das novas pedagogias. Há caras que pedem bofetadas, como prescreveu Fanon. Adiante, estamos de parabéns e obtivemos o 4º lugar. Todo o cão, e todo o gato, falam de educação. O Scolari é um disciplinador. Um homem de autoridade. Vai dirigir mestrados/doutoramentos sobre liderança. Para empresários. Políticos, académicos e povo em geral, estão de acordo com o “sargentão”. Nossa Senhora nos livre!

Jocélio Vasco Salvado Elias

Rocheteuse...la putain respecteuse...

" Mazakele gajé novaki..."
"Novucaraças... É um kota..."
"Nunkó tinha visto poraki..."
"Desde knãomeróbe os clientes..."
"Dasse..."
"Iá."

Também, não era para menos: um cinquentão em vinil preto a esfalfar-se rua abaixo, rua acima...

Fernando Rebelo

Cais do Sodré


O cais do Sodré não é
só bares de prostitutas
também é gente a alombar
caixa de peixe e de fruta
não é só o mal que passa
na kananga do japão
também é cais onde embarca
quem busca no mar o pão

Ai cais do Sodré
ai cais do Sodré
mais vale parecer
que ser o que é
ai cais do Sodré
ai cais do Sodré
nem todo o sapato
te serve no pé

O cais do Sodré não é
só rusga que vai e vem
também é gente que mora
num largo que há muito ali tem
gente com filhos mulheres
e a renda da casa em dia
gente que apenas trabalha
e no trabalho confia

O cais do Sodré não é
só refugio de falsários
também é gente, guindastes
movidos pelos operários
não é só amor que passa
na kananga do japão
também é cais onde embarca
quem busca no mar o pão

Avelino Couto

quinta-feira, 13 de julho de 2006

O Corpo Os corpos

O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos

que somados seriam nossos corpos

implantam-se no espaço novos corpos

ora mais ora menos que dois corpos


Que escorpião de súbito estes corpos

Quando um espelho reflecte nossos corpos

e num só corpo os dois corpos

ao mesmo tempo somos quatro corpos


Não indagues agora se o meu corpo

se contenta só corpo no teu corpo

ou se busca atingir todos os corpos


que no fundo residem num só corpo

sem pausa além do corpo

o infinito destes corpos


David Mourão-Ferreira

Itália: bons exemplos para vencer a crise das indústrias tradicionais

O NY Times revela a prodigiosa aventura dos jeans italianos a 8oo Euros/peça

Sair e ultrapassar a crise com os bons exemplos italianos. Contornar o estertor das regras férreas do fordismo, apostar no dinamismo dos factores complexos de competitividade. Design, luxo e imaginação. Dos sapatos ao vestuário, dos modelos únicos da Lancia e Maserati aos jeans bordados de fama mundial vendidos a 800 Euros cada peça. Tudo isso é uma das muitas deliciosas histórias da edição estival do N.Y. Times. Tinhamos já conhecimento do esplendor inimaginável das colecções de Moda e adereços da Gucci , da Tussardi ou da Dolce & Gabana, que a edição italiana da " Vogue" nos faz sonhar acordados todos os meses. A aventura das Martelli Lavorazioni Tessili- jeans bordados e deslavados- complementa essa aposta na audácia e na classe transalpina. E de que todo o mundo fala e quer comprar, seja por que preço fôr...

A superior factura do texto da NY Times- edição de ontem- introduz-nos na odisseia do fundador da têxtil Martelli, nome genérico e singular dos jeans mais caros e fantásticos do Universo, que deixam para tràs a aura dos Cardin ou dos Yves Saint Laurent. Tudo indica, alias, que a qualidade das peças Martelli é tão grande e imbatível que várias marcas de prestígio lhe encomendam linhas de modelos para vender com o seu próprio label.

A técnica operacional da pré-lavagem das gangas foi copiada de um processo antigo de fabricação japonesa. A arte e perfomance italiana do Design e do Corte, elementos essenciais e únicos, perfazem o resto: o traço singular e a instigação da imaginação total nos adereços e bordados suplementares. Depois é uma questão de marketing e de confiança inseparáveis na qualidade única do produto final posto à venda.

Apesar das quatro fábricas instaladas em Veneto, o consórcio Martelli deslocou já parte da produção para Marrocos, Roménia e Turquia. A Turquia é uma potência da indústria de vestuário e detém marcas famosas no seu reportório, de que a Paul Shark é a mais conhecida. Só que a Martelli inovou ao longo dos anos e colou novas técnicas na produção dos jeans de luxo, que realiza à media diária de 120 mil unidades. Depois a serem vendidas nas boutiques de luxo de Malibou, Los Angeles, New York ou Ryad, a 800 euros/1000 dólares a peça.

" Na verdade, a grande e real aposta da Martelli foi a de ter encontrado as mãos prodigiosas para realizar o trabalho. O trabalho de bordados e aplicação de gemas ou outro tipo de efeitos, é realizado por trabalhadores chineses. Que foram descobertos pelo director Giovanni Petrin por acaso, aquando de uma visita efectuada a diversas unidades de tinturaria na China. Tentamos incentivar os romenos e também os africanos, apontou. Mas a paciência e habilidade chinesas foram mais fortes e convenceu-os a virem trabalhar, perto de duas centenas, em Itália. Legalmente e com os salários nacionais assegurados ", comenta o autor do artigo, John Tagliabue.

FAR

Rondel

De amor quem amo nunca sei ao certo

e a quem me tem amor sei que esse amor

eu amo ardentemente e nada mais.

Dizer de amor, sei bem de quem não digo;

não sei, porém, já se o disser, de quem.

Tudo se perde no que quero. Às vezes

quando possuo, não possuir quisera.

E teu amor me quer. Como saber

se quero ou não quero que se perca ?

Dizer de amor,assim, pensando em tudo ?

Ser esse amor que sou em teu amor ?

Como é possível nascer outro, enquanto

o mesmo me conheço e a quem nasço ?

Qual um ou outro? O que se esquece? Aquele

que se recorda? O que não pensa ? O que

finge lembrar-se? Mas lembrar o quê ?

Eu amo ardentemente e nada mais.


Jorge de Sena

Desenvolvimento sustentável evitará guerra pelos recursos em 2050

O Círculo dos Economistas franceses recomenda o nuclear apurado e
a gestão racional e democrática da água, do solo e dos hidrocarbonetos

Os economistas franceses estiveram reunidos em conclave na Côte d´Azur. E lançaram apelos lancinantes para uma melhor estratégia de gestão, partilha e consumo dos bens energéticos essenciais existentes à face da terra. O atraso económico e social de grande parte da população mundial vive num cruel e duplo dilema: ou gasta sem rei nem roque a água, o petróleo e as terras aráveis que explora em fraco rendimento, ou por insuficiência tecnica e de mentalidade invalida a gestão racional e programada dos recursos. A água,o petróleo e os solos aráveis vão sofrer uma pressão fortíssima de exploração nos próximos 35 anos. O potencial de reservas é mais do que suficiente; mas, para evitar a catástrofe da fome e da sede, urge desenvolver programas sociais de grande alcance e qualificar as técnicas de exploração, gestão e conservação. Toda uma verdadeira revolução,convenhamos. Segundo dados avançados no conclave: dos 35 mil milhões de metros cúbicos de água existentes no planeta, só 1/7 são gastos. Quando se sabe dos contornos dilemáticos da falta de água em Africa, na Asia do Sul e na América Latina...Existe alguma coisa de errado e de alta manipulação política na gestão destes dossiers ultra sensíveis. Por outro lado, os economistas recomendam aos governos que invistam os impostos do petróleo na pesquisa e desenvolvimento de novas formas de extracção, transporte e consumo. Um exemplo entre muitos: as areias betuminosas do Canadá parece reterem reservas petrolíferas de valor igual às da Arábia Saudita. O que é preciso é investir na técnica e desenvolver programas aturados de reciclagem e inovação energética também para o sol e o vento. A síntese do Círculo dos Economistas realça: " A resposta às novas carências não implica renunciar ao crescimento, antes pelo contrário. Impõe isso sim aceitar a renovação da oferta energética nuclear e o desenvolvimento das OGM. Supõe também a alteração profunda dos usos de consumo dos países desenvolvidos, o progresso das formas de distribuição e, sobretudo, uma refundação dos modos de cooperação mundiais ". Tudo isto foi ventilado por dois jornalistas do Le Monde, Eric Le Boucher e F. Lemaitre, num artigo da edição de hoje.


FAR

Ler:

Analyse
Fausses et vraies ressources rares, par Eric Le Boucher et Frédéric Lemaître

Em LE MONDE | 12.07.06 | 13h59

La hausse du prix du pétrole a redonné conscience de la rareté des ressources de la planète. La demande mondiale de matières premières, accélérée par le développement des pays à forte démographie comme la Chine, croît à un rythme qui la fera rapidement entrer en collusion avec une offre en quantité finie. C'est vrai pour le pétrole, mais aussi pour toutes les matières premières, pour l'eau, la terre arable et même des biens que l'on commence à cesser de considérer comme inépuisables à l'instar de l'air pur. "Un monde de ressources rares", c'est sur ce thème qu'étaient organisées les rencontres d'Aix-en-Provence, du 7 au 9 juillet, par le Cercle des économistes.

Mais
aqui

quarta-feira, 12 de julho de 2006


Estas parvoices suscitam-me o seguinte comentário: vocês, os gajos que se importam com estas merdas do blogue e quejandos, que vão à Palhota comentar os posts e os comentários e o que mais seja, estão é todos doidos. Vão mas é tratar da vossa vida, ver se comem o cozido à portuguesa ainda quente, e se o vinho é minimamente decente. Vocês estão mesmo doidos. Eu avisei a tempo, que isto é o que dá levarem determinadas merdas que não tem importância nenhuma demasiado a sério. Se querem acabar com isto, acabem de uma vez por todas em vez deste rame-rame patético em que se chafurdam. Isto não é um curral! E da próxima vez que me vierem falar desses projectos, dessas utopias da treta, faço o que devia ter feito logo desde o inicio: mando-os todos à merda!

Aniversário- Parte 2

No princípio fomos dois. Depois vieram mais. Uns foram e vieram, outros ficaram, alguns com aura de espectros, ausentes mas presentes. Mais para a frente fomos sendo sobretudo três, depois talvez ficassem só dois (nessa altura fui eu o espectro ausente). Dois mais dois igual a cinco.
Faz um ano este blogue.
Como os leitores habituais saberão, este não é o melhor momento para comemorar. Os egos, sempre os egos, são a sepultura natural de qualquer projecto feito a várias mãos. Mas quero acreditar que não será assim. Neste blogue escrevi com toda a força do meu espirito, e quero que não acabe assim.
Será que, após o choque de egos a que assistimos, ainda há leitores do 2+2=5? Respondam na caixa de comentários abaixo, queremos saber a vossa opinião sobre esta e outras questões prementes, que são: quem tem razão na eterna querela interna deste blogue? Será possível recuperar o(s) filho(s) tresmalhado(s)? Será que este(s) tipo(s) terá(ão) alguma vez juizo para não se portar(em) como um elefante em loja de porcelanas?
Meus caros leitores, se ainda há leitores (e eu sei que os há), inundem esta caixa de comentários de opiniões, pois vós sois a alma do 2+2=5. Prometo-vos o esforço de fazer dez quilómetros até ao Espaço Internet de Grândola pelo menos de dois em dois dias. Igual a cinco.

terça-feira, 11 de julho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

Contos do Verão .2

E neste Verão só me lembro do Inverno. De histórias de infâmia. Do Natal. De meu pai a telefonar, com a voz disfarçada, para casa dos ex-sogros. De ouvir, só do lado de cá. Está? Daqui da Câmara de …, do gabinete da vereadora da cultura. Como sabem, teremos um presépio vivo, este ano. Estarão, vexas, na disposição de o integrar, com as vacas aí de casa? Para lá da ignomínia, de que me envergonho, do comportamento do meu pai, para além de uma culpa que não é minha, registei um imenso apreço pelo poder local e pelas tradições natalícias.
Uff! Este custou.

Josina MacAdam

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Isto

Não queiras, não perguntes, não esperes

Isto que passa como vida e tu

medes em dias, horas e minutos

ou como tempo passa e vais medindo

em rugas ou lembranças e em sombrias

e plácidas visões de coisa alguma,

às vezes sorridentes, mas sombrias ;

sim: isto, a que dás nomes, que separas

do resto em que surgiu, de que surgiu;

isto, que já não queres, não interrogas,

de que já nada esperas, mas que queres,

por que perguntas sempre, e por que esperas ;

isto, que não és tu, nem vai contigo ,

nem fica quando vais; em que não pensas,

porque ao medir apenas medes e

nada mais fazes que medir- só isto,

apenas isto, isto unicamente:

não queiras, não perguntes, não esperes,

que o pouco ou muito é tudo o que te resta.


Jorge de Sena

Le Monde: Poutine quer dirigir holding estatal e "nomear" fiéis para o Kremlin

A cimeira do G8 em Saint-Petersbourg, dentro de uma semana, vai permitir ao anfitrião levantar suspeitas de viragem autoritária na política russa e reconfortar os sete grandes no reforço da política de segurança energética mundial. Centenas de artigos e análises circulam já nos écrans dos mass-média mais importantes do Mundo, aprofundando os sinais da mudança estratégica que Poutine pretende imprimir para o reforço da posição do seu país. Segundo revelações publicadas no Le Monde, na edição de 4 do corrente, o presidente russo pondera se deve passar a dirigir o conglomerado estatal energético russo, deixando o poder político entregue a homens de extrema confiança. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Ivanov, ou Dimitri Medvedev, conselheiro político, podem vir a ser assim " teleguiados" para o Kremlin. Quatro agências de Comunicação estruturam a " nova imagem " de Poutine, sendo uma delas norte-americana, a Ketchum.O dirigente russo tem reatado laços de colaboração com os liberais liderados por Volochine e Tchoubais, equilibrando o poder da " ala " dos falcões. No último mês, Poutine acelerou a sua visibilidade social e política: visitou o Congresso Mundial dos Jornais, assistiu ao Fórum G8 das ONG, empenhou-se na cimeira Inter-Religiosa e participou na Conferência dos Procuradores dos países do Conselho da Europa. Nos últimos dias, respondeu a 50 questões impertinentes colocadas pelos internautas do " site " conjunto Yandex(russo) e da BBC.

FAR

domingo, 9 de julho de 2006

Aniversário ou funeral?

 
A propósito de 7 de Julho (data de aniversário deste blogue).
O nosso mais fiel comentador, o distintíssimo frade de Alvalade, voltou.
Para o aniversário ou para o funeral?
Daqui um abraço para o clero.
E, ainda a propósito de aniversários, recomendamos o:
O Canto do Bipolar
É um dos lugares de um nosso administrador, e, uma nova força na blogosfera.
Mais um cantinho de catarse grátis.
Parabéns a todos.

P.S.
Questão de ciúmes. Confesso que não gostei de ver a minha cadela enrolada com o frade, com a mamba de Moçambique, com o galo de Barcelos e com os ólindos.
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sábado, 8 de julho de 2006

Índia

Índia: high-income só será atingido
dentro de 100 anos prediz N.Y. Times



O PIB/PNB da Índia só atingirão padrão de desenvolvimento superior dentro de cem anos, assegura um investigador, Panjaj Mishra, num longo artigo publicado na edição de ontem do NY Times. Pleno de dados e anotações geopolíticas, o estudo foca o crescimento desigual e contraditório, ao ritmo de 6 por cento/ ano nos últimos dez, e chama a atenção para as crescentes alterações e sabotagens quotidianas cometidas por grupúsculos comunistas em largas zonas do Norte e Centro do país, à margem da vida legal e parlamentar acarinhada pelo PC indiano.

Denunciando o perfume abusivo de manchetes produzidas, entre outras, pela importante revista de política internacional, Foreign Affairs, o articulista aponta que Mittal, o recém magnate que lançou uma OPA vitoriosa sobre a Arcelor, só começou a investir no seu país no ano passado... E compara o novo rei do aço mundial a Sergey Brin, o filho de emigrantes russos co-fundador do Google. O sucesso eleitoral do PC nas legislativas provocou uma queda de 2O por cento na bolsa, arrasando cerca de 2,5 biliões de dólares de dividendos em apenas 4 dias.

O que se passa, no entanto, é que a reduzida elite indo-americana " infectou " com exacerbado optimismo as relações económicas e políticas entre os dois países. E nada a detém, por ora. Parece ouro sobre azul, comenta o politólogo. " A administração Bush quer instrumentalizar a Índia para fazer frente a potenciais ameaças da China e do Irão. Mas a cooperação e o comércio indo-chineses estão a subir cada vez mais e, embora reconheça e tenha gratidão pela atitude positiva dos EUA na questão nuclear, a Índia tornou-se também muito dependente do petróleo iraniano (esperando construir também um pipeline de gás) "; pelo que, assinala," não será com muita determinação que apoia a política de prevenção dos EU A em torno da ameaça do Irão em se dotar de armas atómicas".

Frisando que, apesar de há um quarto de século, quando a Índia liberalizou a economia e adoptou como apostas maiores a liderança nas tecnologias de Informação e no outsourcing, a nível mundial, nada ficou resolvido; o perito indica, por outro lado, que os governantes indianos de todos os quadrantes, não conseguiram libertar o país do maciço e endémico desemprego, uma vez que só 1,3 milhões de trabalhadores, de um total de 400 milhões, está empregado nos perfomantes sectores do business processing e da information tecno.

O caso de Kashimir, província em guerra ideológica sangrenta há mais de 15 anos, pode, em conjugação com o clima insurreccional larvar patente nas regiões do Norte e Centro, conforme indicámos, provocar o rastilho de uma incontrolável sublevação extremista de ácidos contornos religiosos e ideológicos alastrando a diversos países limítrofes. E o mito da nova Índia será desfeito e entregue a todos os aprendizes de feiticeiro.

FAR

"Guitarra Tejo"


Hoje, mais logo, pelas 22 horas, no Convento dos Capuchos, Vila Nova da Caparica.

João Cuña e Luís Fialho

Site "Las Guitarras Locas"
aqui

sexta-feira, 7 de julho de 2006



Hoje fazemos um ano.

Beijinhos e abraços.

Crónicas do Jocélio

Ainda a propósito do retorno do recalcado.Antes de ser professor fui aluno. Lembro-me bem do que é isso. Jamais me ouvirão dizer que, as bofetadas que apanhei, foram para me fazerem aprender. Para me ensinarem. Que o Crato, mesmo não sendo prior, me desculpe, ainda que ele se interrogue sobre onde pára o ensino.

Jocélio Vasco Salvado Elias

Foto de José Carlos Mexia

Contos do Verão .1

Tão amigos que nós éramos. E penso que todos nós sabíamos como tudo ia acabar. Não era a primeira paixão. Para essa tem-se desculpa nas que lhe sucedem. E a vida faz-se desses encontros e desencontros. Saudades de ter Freud, Nietzsche e Marx sentados à mesa em cavaqueira, não amena, mas frutuosa. De ter começado a conversa em Descartes e acabado no Blade Runner. De começarmos nos gregos e acabarmos no Rumble Fish. De discutirmos tudo. E, depois cresce-se. Talvez não se apareça. Que importa? A velhice é para mim: “Tou no Verão, vou ter tesão”.

Josina MacAdam

quinta-feira, 6 de julho de 2006


Foto de Maya Santimano
Sunne, Suécia

Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão

de tantas sensações contraditórias ;

a sórdida mistura das memórias,

tão longe da verdade e da invenção ;



o espelho deformante; a profusão

de frases insensatas, incensórias ;

a cúmplice partilha nas histórias

do que os outros dirão ou não dirão ;



se é sem dúvida Amor a cobardia

de buscar nos lençóis a mais sombria

razão de encantamento e de desprezo ;



não há dúvida, Amor, que te não fujo

e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,

tenho vivido eternamente preso !



David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 5 de julho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

"Quem muito viu..."

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,

mágoas, humilhações, tristes surpresas;

e foi traído, e foi roubado, e foi

privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu

os mundos e submundos ; e viveu

dentro de si o amor de ter criado ;

quem tudo leu e amou, quem tudo foi-

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe

em sorte como a todos os que vivem.

Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,

será sempre sem pátria . E a própria morte,

quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.


Jorge de Sena

Ségolène Royal: bluff ou redenção?

O " segolismo destrói a distância aristocrática entre alta política e os problemas do dia-a-dia"

Uma súbita e arrazadora vaga de adesões ao P.S. francês levou o politólogo, Zaiki Laidi, próximo da mouvance rocardiana,a estudar neste texto os contornos de um inesperado fenómeno político e espectacular no interior do sistema gaulês multipartidário. Verdadeiro fenómeno político, o " segolismo" deve ser tomado " a sério ", frisa o cientista. " Ele exprime a transformação profunda do sentido da política, que deixou de ser um tipo de realidade que transforma os homens para os projectar agora num mundo ou numa realidade diferentes. Gera-se com o objectivo de ajudar as pesssoas no dia-a-dia vivido ".

" O político não é tudo, mas está em tudo ", sublinha o politólogo, acrescentando que " essa é a realidade do nosso tempo, e, voilà, o que o segolismo tenta captar". " O segolismo não é senão a incarnação desta revolução, pela qual os indivíduos inseridos em sociedade não podem viver, exprimir-se e orientar-se senão em relação a mundos vividos , isto é, em relação com os contextos profissionais, identitários e culturais que organizam a vida ".

O alcance da análise prossegue: " A revolução dos ´mundos vividos não elimina o colectivo mas realiza o seu primeiro alvo no indivíduo, para quem um projecto de sociedade
não se pode assemelhar a um modelo chaves-na-mão fazendo sinais para " um outro mundo ". Desta forma, prossegue Zaiki Laidi, " a forma legítima da política torna-se o que os ingleses apelidam de política da vida. Política da vida parte de baixo, dos problemas do quotidiano. Politiliza mesmo as pessoas que não estavam para aí viradas. Destrói a distância aristocrática entre alta política e os problemas do quotidiano. Da mesma forma, desqualifica a racionalidade, estilhaça simbólicamente a distância entre aquele que sabe e o que deve saber. Precisamente, porque parte do a priori que cada cidadão é portador de uma verdade, de um fragmento de experiência e de saber ".

Existe nestas propostas, confia o autor, " uma parte de ilusão, de confusão de géneros e de potencial demagogia: " Tanto mais que o exemplo de Blair está lá para nos mostrar quanto uma filosofia fundada precisamente sobre a vida política, politics life, descambou numa concentração sem precedentes do poder político na Inglaterra. E não existe a priori nenhum para que por encanto a França escape a tal processo".

" O segolismo reenvia-nos também para uma técnica política fundada, sobre a qual o sr. das sondagens yankee, Dick Morris, apelidou de triangulação política. Que foi posta em prática por Bill Clinton e retomada depois por Tony Blair. "Parte da ideia que a direita é, política e sociologicamente, mais forte do que a Esquerda sobre certos assuntos; e que as hipóteses de chance desta serão diminuídas ,se ignorar ou se atacar frontalmente os valores dessa direita ", revela. Leiam o texto e meditem. O que se sabe, por ora, é que a direita francesa, em geral, e Nicolas Sarkosi, em especia, ficaram sonados pelo " clinto-blarismo " da companheira do (ainda) líder do PSF...

FAR

Ler o texto
aqui

Gisberta


Este post é uma homenagem a Gisberta, trasngender, brasileira, prostituta, toxicodependente. Depois de uma vida em permanente conflito entre o seu corpo e a sua identidade, que sentia como irreconciliáveis, sofrendo com isso como só alguém que passe pelo mesmo poderá alguma vez entender, foi torturada até à morte por um grupo de rapazes, também eles imersos na "marginalidade". O julgamento destes começou esta segunda-feira. Disseram que o fizeram por "brincadeira". A sua brincadeira consistiu em: espancá-la até à inconsciência durante dois dias seguidos, queimá-la com pontas de cigarros, introduzir-lhe um pau de vassoura no anús, e por fim, quando agonizante pedia ajuda, atirá-la para um poço.
O drama de Gisberta, o seu fim horrivel, deveria abrir-nos os olhos para questões que não tem nada de isoladas, que atravessam transversalmente a sociedade em que vivemos. A homofobia ou o racismo, o desrespeito pelo outro, pelo diferente, ao contrário do que possa parecer, são hoje mais fortes que há vinte anos; são-no pela forma, mais subtil e poderosa, porque se introduzem no discurso quotidiano através de subtis processos de linguagem. O preto, o paneleiro, tornaram-se expressões tão aceites que o mesmo que as utiliza pode inclusivé acreditar piamente que não é eivado de qualquer complexo quanto ao outro, que não é racista nem homofóbico. E o que é verdadeiramente grave é que por vezes não é mesmo; mas os axiomas sociais revelam-se cruelmente através da linguagem.
Entretanto, o Ministério Público entendeu não acusar os jovens de Homicidio Involuntário, o crime óbvio nesta situação, mas de Homicidio Tentado. Esta acusacão é simplesmente ridícula e ofensiva. Os doutos magistrados com obrigação de representar o Estado, mas também, note-se, os interesses da assassinada, acham que o conjunto de factos acima descrito não é um Homicidio pelo singelo facto de Gisberta ainda estar viva quando foi atirada para o poço. Note-se que eu sou por uma justiça de reinserção e não de punição, e não estou a defender penas de 20 anos de prisão para jovens de 13 anos. Mas os factos são os factos, e a memória da vítima e do seu trágico final exige que sejam tratados com a verdade e a isenção que a justiça necessita. Então se eu atirar alguém para um poço não é um Homicidio porque a vítima ainda estava viva quando lá caiu? Só espero que também esta leitura dos factos por parte dos doutos magistrados não seja mais um reflexo do preconceito social, como que valorando mais umas vidas (as dos jovens) que outra (a dessa marginal, toxicodependente, "paneleiro", etc.). Espero, porque razões de facto para tal, não encontro nenhuma.

terça-feira, 4 de julho de 2006

Expressão Dramática

"Uma vez que:

* Conforme comprovam vários especialistas de todo o
mundo, a Expressão Dramática é extremamente útil no
desenvolvimento harmonioso do indivíduo, a vários
níveis, e por isso deve ser leccionada em escolas, por
professores com formação na área;
* Em 1989, foi criada a disciplina de Oficina de
Expressão Dramática, que nunca foi avaliada e, apesar
da importância que teve no desenvolvimento dos alunos
que a frequentaram, foi excluída na última Reforma do
Ensino Secundário;
* No 3º Ciclo do Ensino Básico, existe uma disciplina
chamada Oficina de Teatro, semestral, leccionada
maioritariamente com professores sem uma licenciatura
na área do teatro, apesar de existirem vários cursos
superiores que formam docentes de Teatro / Expressão
Dramática;
* Recentemente, houve em Portugal uma Conferência
sobre a Educação Artística, na qual vários políticos
portugueses opinaram sobre a sua importância, mas ao
que parece, não existiu desde então nenhuma medida que
acompanhasse o fulgor dos discursos;
* Recentemente, a Ministra da Educação anunciou que as
escolas de 1º Ciclo passarão a ter Música e Desporto,
esquecendo a Expressão Dramática;
* A Educação Artística tem sido o "parente pobre" da
Educação e a Expressão Dramática tem sido o "parente
pobre" das Expressões Artísticas;

Vimos por este meio, exigir:

* A criação de um grupo de docência de teatro e a
definição de regras explícitas para a colocação de
professores desta área, devendo dar-se prioridade a
licenciados profissionalizados na área do Teatro
(formação artística e pedagógica);
* Que volte a existir a Oficina de Expressão Dramática
no Ensino Secundário Regular;
* Que a Oficina de Teatro no 7º e 8º anos passe para
disciplina anual, mantendo-se a divisão das turmas em
dois grupos;
* Que as escolas interessadas em leccionar Oficina de
Teatro ou Oficina de Expressão Dramática, o possam
fazer, no exercício pleno da sua autonomia;
* Que não se permita a prossecução da Lei que prevê
que os professores de Educação Artística só possam ser
contratados em Part-time, em contratos de três meses;
* A prossecução da Reforma do Ensino Artístico
Especializado para os alunos que queiram prosseguir
profissionalmente a área do Teatro."


Se concordar com a petição, pode assiná-la online
em

Post de Fernando Rebelo

Festa

Vamos proteger os dias contra o desgaste

dos dias, a invasão do medo e a dissociação das coisas

repetidas. É preciso, excessivamente, promover

a comunicação do grande e do pequeno tempo,

convidar o imprevisto e o rosto inicial. Dispensaremos

os especialistas da evocação, os funcionários

que administram os lugares e comemoram o eterno.

Vamos antes recriá-lo todos nós para além

do espaço dos templos, teatros,

estádios, nadar no rio elástico

dos gestos e das vozes. É preciso


virar o forro as palavras, deixar que fervam

nelas a alegria e o vigor dos risos, recuperar o jogo livre onde, a arder,

foram pronunciadas as primeiras regras

e deixar circular o amor, como um vinho, entre os lábios,

abrir os dedos, trocar as almas, emprestar os rostos

confundir as vozes no canto unânime e completo,


pegar fogo ao corpo dançando uns para os outros

nosso único público, hospedados no êxtase

e no possível, para explicarmos com palavras e corpos

o excesso e as fronteiras, a terra e o céu

a luz e a sombra, a vida e a morte.

Vítor Matos e Sá. 1968

Escola

 
Foto de Maya Santimano

Eriksbergsskolan, Uppsala, Suécia. 2006
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segunda-feira, 3 de julho de 2006

O poder, a infâmia e a morte segundo Michel Foucault

" Que restará, então, a não ser essas vidas anónimas que não se manifestam senão tropeçando com o poder, debatendo-se com ele, trocando com ele " palavras breves e estridentes " antes de regressarem à noite, aquilo a que Foucault chamava a " vida dos homens infames " e que ele propunha à nossa consideração devido à " sua infelicidade, à sua raiva ou à sua perturbante loucura ".
" Estranhamente, inverosimilmente, era dessa " infâmia " que ele queria reclamar-se: " Eu partira dessas espécies de partículas dotadas de uma energia que é tanto maior quanto elas são menores e mais dificeis de discernir ". Até ao dilacerante dito de " O funcionamento dos prazeres ": " desprender-se de si próprio...

" É de assinalar que Foucault se opõe a duas outras concepções da infâmia. Uma próxima de Bataille, trata de vidas que passam à lenda ou à narrativa por obra do seu próprio excesso( é uma infâmia clássica demasiado notória, por exemplo a de Gilles de Rais, e portanto uma falsa infâmia).
" Segundo a outra concepção, mais próxima de Borges, uma vida passa à lenda porque a complexidade das suas realizações, os seus desvios e descontinuidades, só podem encontrar inteligibilidade através de uma narrativa capaz de exaurir o possível, de abarcar eventualidades mesmo que contraditórias( é uma infâmia barroca, de que Stravisky seria o exemplo).
" Mas Foucault concebe uma terceira infâmia, a bem dizer, uma infâmia de raridade que é a de homens insignificantes, obscuros e simples, que apenas devem às queixas, aos relatórios de polícia, o serem trazidos à luz por um instante. É uma concepção próxima de Tchecov ".

Gilles Deleuze, in Foucault, págs. 128/9

FAR

Estamos Juntos

 
Foto de Gabriela Ludovice

Comboio Benguela/Lobito. Angola. 2005 Posted by Picasa