sexta-feira, 30 de junho de 2006

The Ratazanas



Amanhã, na feira de Carcavelos, não falto. É o 2º dia do Festival Musa 2006.

O meu amigo João Pedro e a sua banda de early reggae vão actuar.
O site da banda é este.

O do festival Musa aqui

Foto de José Carlos Mexia

Da capital do Império

Olá!
Vão me desculpar mas hoje tenho que vos voltar a falar do futebol. Pensei primeiro em tentar explicar-vos porque é o milionário Warren Buffet decidiu doar trinta mil milhões de dólares a outro milionário, o Bill Gates, mas isso fica para a próxima.
Eu tenho que vos falar de futebol porque pela primeira vez na história dos Estados Unidos o campeonato do mundo de futebol está a provocar aqui uma atenção desmedida. Não só em termos de cobertura desportiva (ratings da TV a subirem para números nunca vistos, jornais como o Washington Post com fotos de primeira página do mundial, discussões acesas na televisão – aos berros – sobre se o futebol pode triunfar nos Estados Unidos) mas também entre os “bien pensants” e intelectuais do país.
Parece que o futebol e os hooligans se tornaram agora coisa “chique” entre os intelectuais americanos que vêm na espontaneidade dos adeptos e nas “nuances” do jogo algo de “cool” e libertário quando comparado com as pirosices das claques ensaiadas dos jogos tradicionais americanos com as meninas de saias curtas a dançarem ao lado dos campos.
Há que dizer que não é só entre os intelectuais de Nova Yorque que o futebol está a causar sensação. Entre os economistas e cientistas também.
Os americanos têm uma fé desmedida na ciência e análise sociológica e psicológica de tudo, o que em parte explica porque é que nas suas lides com o mundo fazem tanta asneira. Não sabem que tal como no futebol nem tudo na vida tem uma explicação ou causa. Mas devido a essa crença na ciência o futebol está a ser analisado sob os mais diversos ângulos em artigos de fundo em todos os jornais americanos, com análises que devem deixar o pessoal de A Bola de boca aberta.
Por exemplo: O New York Times publicou um artigo de dois economistas (Stephen Dubner e Steven Levitt) que descobriram que a maior parte dos futebolistas de “elite” nascem nos primeiros meses do ano. Uma análise das selecções juniores revela que a esse nível isso ainda é mais notório. Não vou entrar aqui nas percentagens mas posso garantir-vos que não tem nada que ver com os signos astrológicos dos jogadores.
A explicação é simples. Os dois economistas explicaram que na Europa os grupos etários do futebol têm a sua data limite. E a data limite é 31 de Dezembro. Para um treinador a escolher jovens para a sua equipa dá-lhe mais benefícios físicos escolher portanto jovens nascidos no início do ano do que no final do ano pois terão fisicamente vantagem. Maturidade não é claro está habilidade, mas dois economistas citam um outro professor, Anders Ericsson, que se especializa em estudar o que é que torna uma pessoa bem sucedida naquilo que faz. E mais uma vez não são os signos astrológicos. Praticar e treinar. É tudo o que torna uma pessoa naquilo que faz. Pelo que os jovens que são seleccionados por serem nascidos no início do ano são depois treinados e devido a serem maiores fisicamente, tem vantagem sobre os outros jovens. Daí todas essas estrelas nascidas na primeira metade do ano.
O New York Times publicou também um artigo sobre estudos feitos sobre os penalties pelos professores Pierre-Andre Chiappori da Universidade de Colombia, o Steven Levvit acima citado da Universidade de Chicago e o professor Timothy Grosecle da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Estes professores têm obviamente muito tempo entre mãos porque analisaram todos os penalties da primeira divisão de França entre 1997 e 1999 e da Série A em Itália em 1997 e 2000. Isto porque aparentemente o penalti do futebol é a situação ideal para estudar as previsões da “game theory”. Não sei bem o que isso é mas aparentemente é algo que interessa aos economistas porque pode responder à questão se as pessoas usam sempre as melhores possibilidades em situações com que deparam. No meu caso posso dizer-lhes que não mas aparentemente no futebol não interessa porque estatisticamente quer um jogador atire a bola para o seu lado favorito ou para o outro lado ou para o meio as suas chances de sucesso são praticamente as mesmas.
O professor Ignacios Palacios Huerta da Universidade de Brown foi mais longe e analisou os penalties de jogadores que marcaram pelo menos 30 dessas faltas para verificar se há sequências previsíveis. Não há e os estudos indicam que apesar disso (ou será por causa disso?) em penalties os jogadores têm um grande nível de sucesso. A malta de A Bola podia ter-lhes dito isso pois como todos nós sabemos… “não ha penalties falhados ha sim penalties mal marcados”.
Branko Milanovic do centro de estudos Carnegie Endowmente escreveu um artigo sobre como o futebol é a prova de que quando a globalização e a comercialização reinam há sem qualquer dúvida uma concentração de qualidade e sucesso, como provado pelo facto de haver uma concentração da melhor força de trabalho nos melhores clubes. Isso por seu turno beneficia os países de onde sai essa mão-de-obra como provado pelo facto de que a era das cabazadas às equipas africanas já acabou.
Para Milanovic o campeonato do mundo tem assim uma lição para todos. A movimentação livre da força de trabalho é uma coisa boa mas deveria ser acompanhada de leis requerendo que imigrantes de países pobres gastem pelo menos um em cada cinco anos a trabalhar nos seus países. Os jogadores do futebol podem ir para onde querem mas a FIFA exige que joguem pelas suas selecções e o mesmo deveria ser feito aos “brains” que saem do terceiro mundo para o primeiro.
Os intelectuais americanos têm também estado fascinados com a arbitrariedade dos árbitros no futebol notando como uma má decisão pode influenciar todo um campeonato. “Um espelho da vida, de todas as suas desigualdades, dos seus momentos de brilhantismo e também de tédio”, escreveu um dos analistas yankee. Bonito não?
Em típica maneira americana um outro analista perguntou se a “arbitrariedade’ dos árbitros poderia ser medida em “termos estatísticos” e se essa arbitrariedade é estatisticamente igual para todos. Talvez a malta de A Bola queira fazer este estudo com fundos da Fundação Luso-Americana…
Outros como Roger Coehn vêm no futebol reflexos das diferentes sociedades. Assim a selecção da França “é o equivalente desportivo de uma sociedade a envelhecer e sobre regulamentada: Ponderosa, sem imaginação e demasiado receosa da concorrência”. O la la! Mon Dieu! Les Bleus não vão gostar disso mas depois de baterem “nuestros hermanos” devem estar a rir-se do Cohen.
Bryan Curris diz que muitos americanos se sentem agora atraídos para o futebol porque a maior partes dos jogadores de futebol não são “formas grotescas dos seres humanos” como acontece no basquetebol ou no futebol americano (o dos capacetes). Os jogadores de futebol, disse ele, “tem físicos alcançáveis, fortes e compactos, o tipo de físico que impressiona intelectuais e as mulheres que os amam”. É bom saber isso…
Na rádio ouvi um outro comentarista manifestar a sua surpresa pelos Estados Unidos terem celebrado o seu empate com a Itália como se fosse uma vitória. Nos Estados Unidos, dizia ele, só há duas opções: ganhar ou perder. Desde quando é que empatar é ganhar?
Eu vou-me e deixo-vos como se diz aí nos relatos com … o esférico no miolo do campo.
Um abraço,

Aqui da capital do império.


Jota Esse Erre

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Petróleo e gás: novos desafios e alianças

O famoso geopolítico Alexandre Adler analisa num texto surpreendente a " entrada a passos gigantescos na era do post-petróleo". Toda a marcha atrás já é "impossível", indica.
Discrimina as " várias causas " que provocam tão "colossais" alterações. Enumera-as: o sobreaquecimento atmosférico; a irresistível ascenção , quer da China, quer da Índia, em potência; a mutação inevitável da tecnologia e dos modos de vida; e, enfim a dependência agora quase insustentável de uma região do Mundo - o Golfo Pérsico - cuja instabilidade política domina interna ou externamente os estados petrolíferos que o marginam.

Adler adverte para os perigos oriundos de uma dependência unilateral e para a exigência de " diminuir o consumo de hidrocarbonetos " para abrandar o sobreaquecimento do planeta." A partir deste ponto, consequências de todos os géneros, quer as que se relacionam com as relações entre Estados, quer nas que terão inescapáveis interferências na vida quotidiana mais banal, podem desde já ser deduzidas; são, com efeito, pouco usuais e mesmo muitas vezes paradoxais ", sinaliza.

O politólogo avança mesmo com teses geopolíticas, que classifica de " conclusões inesperadas " na relação estrita das relações entre grandes potências. Assim, avança que a China jamais poderá negociar " preços políticos de rebaixa " com a OPEP. O que a fará virar para o gás russo e a compra de centrais nucleares antisísmicas. " E a colocará no mesmo barco dos países do Oeste, e não do Sul ou de Leste ". Trata-se de uma " aposta " inevitável a médio prazo, assegura.

A outra consequência paradoxal e inesperada, prende-se com " a europaízação do modelo de crescimento norte-americano ", com incidência na economia energética fundamental. E explica com mão-de-mestre: ": A correcção de tiro mais rápida e mais rentável a curto prazo, trata-se por uma adaptação dos meios de transporte ferroviários americanos para o estilo TGV francês- para começar no Texas de W. Bush?- tirar partido das centrais modernizadas onde a multinacional gaulesa tem vantagens competitivas de grande impacto e o lançamento de centros urbanos pedonais servidos por transportes em comum perfomantes ".

" Uma política europeia prudente deverá tender para associar Moscovo mais estreitament à construção do destino da Europa. (...) Evitar a " capitulação perante as petromonarquias e petroteocracias que, militarizando a região, podem acabar por traumatizar definitivamente a economia mundial " ,constituem outros lances de uma visão estratégica que recomenda a integração económica vital e combinada da UE, Russia, China e Índia.


FAR

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aqui

Foto de Maya Santimano

Gotland, Suécia. 2005

terça-feira, 27 de junho de 2006

AMOR

Amor, amor, amor, como não amam

os que de amor o amor de amar não sabem,

como não amam se de amor não pensam

os que de amar o amor de amar não gozam.


Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende

o olhar ao corpo que perpassa amante

e não será de amor se outro não for

que novamente passe como amor que é novo.


Não se ama o que se tem nem se deseja

o que não temos nesse amor que amamos,

mas só amamos quando amamos o acto

em que de amor o amor de amar se cumpre.


Amor, amor, nem antes, nem depois,

amor que não possui, amor que não se dá,

amor que dura apenas sem palavras tudo

o que no sexo é o sexo só por si amado.


Amor de amor de amar de amor tranquilamente

o oleoso repetir das carnes que se roçam

até ao instante em que paradas tremem

de ansioso terminar o amor que recomeça.


Amor, amor, amor, como não amam

os que de amar o amor de amar o amor não amam.

Jorge de Sena

México. 2005



Poema Azteca

Tochihuitzin Coyolchiuhqui


VIEMOS SONHAR

Assim deixou dito Tochihuitzin,
Assim deixou dito Coyolchiuhqui:
De repente saímos do sonho,
só viemos sonhar,
não é verdade, não é verdade
que viemos viver sobre a terra.
Como erva na Primavera
é o nosso ser.
O nosso coração faz nascer, germinam
flores da nossa carne.
Algumas abrem as suas corolas,
e depois secam.
Assim o deixou dito Tochihuitzin.

(finais do século XIV-meados do século XV)

Extraído de Quinze poetas Aztecas (antologia poética)
Editora Assírio & Alvim, 2006
Tradução de José Agostinho Baptista




Fotos e Post de Pedro Caldeira Rodrigues

segunda-feira, 26 de junho de 2006

O Fumo Mata

Fumar é causa de cancro do pulmão e da laringe. Causa também impotência sexual.
Põe Macário Correia a lamber cinzeiros.
Saiba tudo
aqui

domingo, 25 de junho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

Utilidades sem prestação alguma

uma sola de sapato solitário

uma rã coxa

um silêncio ruidoso

uma luz esquecida do filamento

um filamento solitário e primo da sola

uma rã que não coaxe

um coaxar ferrugento

um pau suficientemente idoso para respeito

um sapo que não azul

um azul sem pedrada

uma cama com pernas que não ande

um limão com gripe

uma gripe de sapo que não azul e estremeça

um tremoço não remoçado

sem casca

que não azul
como o sapo
que não cantigue
como a rã
que não coaxe
como a gente
que não bisbilhote
como a mosca
na língua do sapo
que não gripa
como o dois cavalos
que não atrelados
a nenhum sol
saído de gregos
pelo seu carro aéreo
limpo a seco
nas lavandarias
do Olimpo
multinacional
linguarudo
cemitério de moscas abelhudas
................................................
...............................................

( espaço livre... a preencher com desutilidades do leitor
A CORES
numa base pedagógica interactiva - também pode arremessar)


- continua no próximo descapítulo

f.arom

sexta-feira, 23 de junho de 2006


Foto de Maya Santimano

Tove Larsmo, Suécia. 2005

Ato de Contrição

Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!

Adolfo Casais Monteiro

Desde a Serra

Como os amigos saberão, o autor destas linhas encontra-se em retiro pelas bandas da Serra de Grândola, sítio daqueles onde a ideia de paraíso faz sentido. Junto do cheiro do sobro e do azevinho, perto dos homens que colhem a cortiça, nem quero saber de mais nada. Segurança Social por um canudo? Vejo a ribeira a correr ao longe. Ministra insulta professores? Ouço os melros que habitam no telhado por cima da minha cama. Guerra no Iraque, muro na Palestina, bombas no Irão? Vou à Taberna dos Mosqueirões onde encontro homens que sabem o seu lugar no Mundo, que sabem que sabem muito e pouco ao mesmo tempo. O monte onde estou tem nome romântico: Monte dos Amados, e pelo menos para mim faz sentido na medida em que o amo. Talvez um dia consiga viver apenas esta vida, até lá... Comovo-me com ela. Escreví um poema assim:

Do monte sinto saudade
O monte é meu companheiro
Porque o monte me diz a verdade
No monte sou verdadeiro

Se queres saber quem eu sou
Pergunta áquela ribeira
De todas as imagens que dou
Ela sabe a mais verdadeira.

Um abraço aos amigos do Barreiro, do Cais e de outros sítios por aí, e compreedam-me por não "blogar" mais neste momento. Sinceramente, não me apetece. Peço apenas aos meus companheiros deste blogue que ajudei a fundar, que não se percam em polémicas fúteis, e desde que lhes faça sentido, escrevam, escrevam, escrevam. I'll be back...

quinta-feira, 22 de junho de 2006

OAXACA (1)




Fotos de Pedro Caldeira Rodrigues
Oaxaca, México. 2005


OAXACA

Oaxaca é a cidade de Francisco Toledo, o pintor-indígena, o maior pintor mexicano vivo. É a cidade dos museus de Mezcal. Na sua zona antiga, popular, está o mercado 20 de Noviembre, estão as lojas de tecidos, de roupas, os barbeiro, de músicos que improvisam na rua, sem pedinchar. Dos protestos sindicais. Neste estado do Sul do México, já banhado pelo Pacífico, ainda convivem 15 grupos etno-linguísticos: Amuzgo, Chatino, Chinanteco, Chontal, Cuicateco, Huave, Ixcateco, Mazateco, Mixe, Mixteco, Náhuatl, Triqui, Zapoteco, Zoque… No total, mais de um milhão, um terço da população do estado de Oaxaca. Recuperam dos prolongados tormentos. Oaxaca não é um museu vivo. É um mistério que aguarda pelos que o tentem respeitar e entender, para depois se desvendar.

Pedro Caldeira Rodrigues

OAXACA (2)




Fotos de Pedro Caldeira Rodrigues
Oaxaca, México. 2005

quarta-feira, 21 de junho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

7 receitas e um amor perfeito

um

misture perfume de cidreira
com um pouco de pó de estar calado
mexa com o olhar
e desacelere


dois

da canela
um cio de dedos
dos beijos
dois
em papel de seda embrulhados
ponha a marinar em sais de azul
e desmorda os beiços


três

dois mais um silêncios
bem atados
por fios cor de cobre altaneiro
HO2! OH!
ligue a ficha do instinto
salive q. b.
e raspe de uma nuvem mais à mão
um pouco de rosa tardio
não acrescente açúcar


quatro

pão
pô-lo migado para dentro de um perfume de coxas
cheire quatro vezes
lamba dois olhares por entre os seios
e prove mesmo
ponha um pouco de salsa
e acorde definitivamente


cinco

pegue em um bom litro
de transparentes desejos
filtre um pouco de amor
temperado com assobios de pássaro
remexa ao ritmo de um compasso coxo
e sirva
coberto de rosas ardentes


seis

seguidas rosas
num alinhamento vermelho
sob o muro branco escondidas
como saias sem roda
mais outro tanto
de paus feitos
e obterá um rebanho


o amor perfeito

é branco
incontinente
e cabe na palma da mão
como o destino pintado ao meio de um amarelo em flor
são esses os rios que correm
para um delta inconhecido
e é aí nessa fertilidade ampla das marés
que se dá o milagre
ou antes
a coisa
e a coisa é
um estático poente estriado
de rosas e azuis caçado na rede furada das borboletas

f.arom

terça-feira, 20 de junho de 2006


" Prima Karin"
Lago Lersjön


Foto de Maya Santimano
Sunne, Värmland, Suécia. 2005

Crónicas do Jocélio

O retorno do recalcado. Agora a direita pedagógica, a MFM, a FB, os meus colegas e o meu sindicato (tramaram todos a Ana Benavente), o editor da Gradiva (um abraço para um colega de curso), o matemático Nuno Crato, e tantos outros, para não falar da direita pura e dura, atacam o Ministério da Educação. Este agora tem tempos diferentes, mas fazem hoje todos parte do mesmo coro. Numa das salas da minha escola, a de Orientação Escolar e Profissional (grande nome), li qualquer coisa como: se o prof de matemática tem de ensinar matemática ao Miguel, tem de saber tanto de matemática quanto do Miguel. Pensava eu que todos tinham compreendido, à luz de estatísticas inelidíveis, feitas por organismos internacionais, o estado a que isto chegou. Parece que o bom senso não é partilhado. Trata-se só de senso comum. Querem voltar ao passado! Não conhecem o sabor do saber. Esqueceram Barthes, esqueceram-se do que viveram e marcham todos contra o “eduquês”. Para eles é à martelada que se ensina.Clint Eastwood, na pele de Dirty Harry, na sala de aula. Melhor, esperam uma atitude reverencial e macia por parte dos alunos, que aos profs não pagam para entrarem em westerns. Terão filhos, terão netos? Que fantasmas? Pior, não reconhecem esta escola onde tem assento todo o cidadão. Querem voltar ao passado? Oiçam o António Mourão!

Jocélio Vasco Salvado Elias

segunda-feira, 19 de junho de 2006

O silêncio ensurdecedor de António Oliveira



" O sangue a escaldar não faz o artista, e o champanhe por si só não faz nascer uma obra poética ". Hegel. Esthétique.tome 1.pág.317

Um dos poucos viggies , ou para-viggies, que eu não conhecia, fundador do blogue e inspirado nas horas boas, o António Oliveira, mais um corropio de pseudónimos adjuntos, deixou de escrever no " seu " blogue". Com muita regularidade, qualidade desigual e facilitismo, António Oliveira esteve sempre presente e fez girar a roda da sorte ou do infortúnio do blogue. Por vezes, surpreendia-nos pela maneira como, no texto ágil e habilidoso, conseguia esconder uma ideia batida e mais mal amanhada. Mas estava lá e de atalaia, disparava e seduzia. Queremos que ele volte, que pense na demanda de qualidade que sempre abertamente lhe suplicámos.Tem qualidades e deve aproveitar para se qualificar ainda mais. Escolher o seu terreno- música, efemérides,polémicas históricas- e pegar no PC, ou numa boa Enciclopédia, e desbravar, desbravar. O seu silêncio é ensurdecedor. Não me esqueço do gesto nobre que fez ao multiplicar-se para publicar sem rodeios o texto da defesa de uma dama, Maloud, em quem apóstamos tudo e nos desiludiu apocalipticamente.

FAR

Bibinha e seus modelos (4)


Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2004/2005


De um projecto fotográfico, ainda inacabado, sobre a moda, na Ilha de Moçambique.

Da capital do Império

Olá,
Hoje queria mais uma vez começar por vos fazer uma pergunta. O que é um herói? Eu sei que hoje, tal como coleccionar selos, heróis já não estão na moda. Quando há heróis há quase sempre tragédias claro está e hoje o importante é ser vítima.É mais fácil e rende muito mais.
Para além disso história e heróis são coisas complicadas pois muitas vezes mesmo dentro do mesmo país os heróis de uns não são necessariamente os heróis de outros. Ao fim e ao cabo foi em parte por isso que no Kosovo e na Bósnia os insoletráveis andaram à porrada com os impronunciáveis. Os heróis dos insoletráveis não eram necessariamente os heróis dos impronunciàveis e vice-versa e daí a porrada.
Isto a propósito de uma das minhas vistas favoritas aqui na capital do império. Se um dia aqui vierem não se esqueçam de ir à noite visitar o monumento a Lincoln, o homem que liderou o norte da guerra civil americana acabando com a escravatura e acabando também com a possibilidade dos Estados Unidos se “sul americanizarem” através de secessão individual de estados ou grupos de estados.
Mas se forem vêr o monumento ao Lincoln à noite não se esqueçam também de andar uma dezenas de metros em direcção ao rio Potomac e do outro lado do rio, no estado da Virgínia notarão um pequeno monte com uma casa iluminada quase que em linha com a imitação americana da Pont Neuf de Paris. ( O nome oficial da ponte é “Memorial Bridge” mas eu chamo-lhe Pont Neuf sur le Potomac. Dá um ar mais sofisticado e há-de um dia ser o título de um livro de fotos sobre a mesma que vai vender muito em Paris onde ao contrário das aparências - e como aliás vocês sabem - todos gostam de tudo o que é americano) .
A casa iluminada do outro lado do Potomac é a casa do General Robert Lee, o homem que comandou as forças sulistas e que hoje está cercada pelo cemitério de Arlingon onde a América enterra os seus soldados mortos pelo império fora e políticos famosos.
A casa do Lee está no meio do cemitério devido à sacanada que lhe fizeram após a guerra civil. Para garantir que ele nunca iria voltar a viver na casa os militares do norte expropriaram em nome do governo federal as terras à volta de mesma e fizeram dela um cemitério para os soldados do norte mortos na guerra. Tenho a admitir que é uma das sacanadas mais sacanas que conheço… mas lá que tem imaginação, isso tem e quando eu conto isto todos dizem sem excepção: “grande sacanada”.
Lee nunca mais voltou claro está, embora se fosse vivo hoje faria muita massa a cobrar bilhetes aos turistas que vão ao cemitério ver as campas dos Kennedys e do soldado desconhecido e depois acabam sempre por visitar a sua casa. O que é importante no entanto para esta carta é o facto de hoje a sua casa ser preservada como monumento e à noite do monumento de Lincoln, o seu inimigo, pode-se vê-la a brilhar à distância à luz dos holofotes. Deve haver algum simbolismo histórico ou místico nisso embora eu não saiba bem qual é…
Foi a pensar nisso que notei algo que deveria ter notado há muitos anos. Do outro lado do Potomac já no estado da Virgínia (o estado símbolo da rebelião sulista) há uma “Lee Highway” (Auto-estrada Lee) e também uma “Picket Road” (Rua de Picket) em honra do general do mesmo nome que chefiou a famosa “carga de Picket”, um ataque às forças da união que foi um fracasso e que levou à derrota do sul. Na zona de Alexandria há uma enorme estátua na rua principal em honra dos primeiros voluntários do exército confederado.
Na capital da Virgínia, Richmond bem mais para o sul há uma “Avenida dos Monumentos” cheia de estátuas de generais que combateram pelo sul e até um enorme monumento um tanto ou quanto piroso ao presidente dos estados da confederação que lutaram contra o norte (um tal Jefferson Davies muito famoso no sul mas que ninguém no norte conhece).
Por outro lado lembro-me que em Boston, no estado do Massachussets vi uma estátua ao General Sherman, o homem que deu porrada da grossa nas gentes do sul, na sua “marcha para o mar” a partir da cidade de Atlanta na Geórgia queimando e destruindo propositadamente tudo de valor económico (cidades, pontes, fábricas, propriedades agrícolas, celeiros e armazéns) com o objectivo de partir a espinha dorsal dos sulistas. Antes de iniciar a marcha mandou os civis abandonar Atlanta estilo Khmer Rouge em Phnom Penh e depois deitou fogo à cidade. É interessante que devido a essa táctica até então inédita de atacar alvos económicos civis (“vou fazer o sul gritar”) Sherman é conhecido na história militar como o primeiro general da era moderna. Para mim o “Bomber Harris”, o general britânico que mandou arrasar com bombas incendiárias cidades como Leipzig na Alemanha seguiu a …. Doutrina Sherman. “Bomber Harris’ matou mais civis com as suas ondas de bombardeiros armadas com bombas incendiárias que os americanos em Hiroshima e Ngasaki com a bomba atómica mas o resultado foi o mesmo embora a eficiência fosse menor. Tal como Sherman fez aos sulistas e os americanos com a bomba atómica aos japoneses, Bomber Harris partiu a espinha dorsal dos alemães.
Apesar de Sherman ser um inovador da doutrina militar e ter contribuído para a vitória do norte e do fim da escravatura e da secessão, no sul não há estatuas em sua honra tal como no norte não há estatuas a Lee ou nomes e estradas ao General Picket.
O que eu acho interessante. No mínimo é um modo diferente de encarar a vitória e/ou derrota na guerra civil. Sei lá, era como o governo angolano deixar a UNITA pôr estatuas ao Jonas Savimbi no Huambo ou deixar que nessa cidade houvesse a Avenida Mártires da UNITA. Ou em Moçambique fazer-se uma estátua ao Urias Simango e ter uma avenida com o nome de “Vítimas da Reeducação” Ou em Portugal ter-se umas estátua em honra dos Filipes ali ao lado dos Restauradores. Seria interessante, não?
Lembro-me que há uns anos atrás o poeta moçambicano José Craveirinha disse que a reconciliação na Africa do Sul sé existirá no dia em que crianças Zulus forem pôr uma coroa de flores na estatua do Paul Kruger em Pretória e crianças Afrikaners forem pôr coroas de flor numa estatua ao Shaka. É bonito … mas de poeta.
Aqui ninguém dos estados do norte vai pôr flores nas estátuas dos confederados em Richmond mas também ninguém do sul vai pôr flores nas estátuas do Sherman em Bóston. Cada um com as suas estátuas e os seus heróis dentro dos mesmos Estados Unidos. O que levanta perguntas:
O que é um herói? Pode numa mesma nação haver heróis de uns que não são heróis de outros e ao mesmo tempo serem símbolo da história comum? Onde acaba ( se é que acaba) o relativismo moral e histórico? O que é historia?
Parei à noite próximo do monumento ao Lincoln, olhei para a casa de Lee a brilhar à distancia na noite primaveril com as luzes da Pont Neuf sur le Potomac a brilharem nas águas calmas do Potomac e tive resposta para algumas dessas perguntas mas não para outras.
Sei no entanto de certeza que alguns dos heróis se tornam em chatos. O general Picket por exemplo acabou a vida a vender seguros. Tal como na vida militar sempre a chatear muita gente.
Um abraço
Do vosso amigo na capital do Império,

Jota Esse Erre

domingo, 18 de junho de 2006

Gérard Guégan: memórias sobressaltadas em torno da editora "Champ Libre"

O romancista-jornalista publica livro polémico sobre a nebulosa da Ultra-Gauche parisiense

Depois de Olivier Todd e de Laurent Joffrin terem desembalado as suas memórias e nostalgias sobre o Paris dos anos 70, em livros assinalados neste blogue em antecipação nacional, o fogo da actualidade dirige-nos sobre o novo livro de Gérard Guégan sobre a editora Champ Libre e os meios rapaces e inquietos da extrema-querda da extrema-esquerda, ultra-gauche, pariseense. Mais segredos de alcova, mais retratos ao vitriol e scanner, diálogos com muito jargon e tomadas de posição sobre os principais actores de Maio-68, ascenção e queda. Em " Champ Libre 1 (68/74). Cité Champagne..." , editado pela Grasset, o actual copy-desk jubilado do Canard Enchainé ajusta contas e revela processos sobre a fabricação do maior fenómeno editorial dos anos-da-braza, que influenciou toda a Europa e se colocou como alternativa aos marxizantes editores Maspero e Feltrinelli. Em Portugal, a editora Antígona muito deve ao fulgor e audácia da herança e projecto da "C.Libre".

Guégan, que faz parte daquele grupo de jornalistas-free lancers como Péan, Bercoff e Cohen, que publicam devastadoras análises-inquéritos sobre a actualidade editorial e política francesa, ensaia com este novo livro , o primeiro de dois volumes, uma leitura enquadrada do arranque da célebre editora post-marxista e anarquista até à morte do financiador, Gérard Leibovici, o gatzby que sponsorizou Godard e Debord, que sonhava em ser o sucessor do império mediático mais famoso de França, as edições Gallimard...

" Dizem que para lá das minhas fraquezas, tenho a rara infelicidade de acreditar no acaso. Dizem muitas asneiras,o não importa quê. Não acredito no acaso, mas sim em quem o provoca. O que não é de modo algum a mesma coisa ", assinala numa das milhenteas confissões que assaltam o texto provocador e chocante. As relações humanas e culturais com os activistas das duas outras editoras da "ultra-gauche"," La Vieille Taupe" e "Saggitaire", mostram em paralelo inconfundível a originalidade da " Champ Libre".

É, pois, ao bisturi que é dada a " aproximação " do líder da I. Situacionista ao magnate cinematográfico e proprietário exclusivo da editora. Nada mais, nada menos, Debord encarrega René Viennet - que publicou na Gallimard com Vaneigem - de se aproximar de Leibovici, na base de uma recolha de dados estrutural/secreta de infinitas repercussões nos meandros da Rive Gauche...Os livros-panfletos anarquistas e conselhistas tinham muita saída por causa das diatribes de salada maoista do neo-estaliniano Althusser e da sua banda da EN Supérieure da Rue d´Ulm. Foucault, Deleuze e seus acólitos vieram a publicar na Champ Libre , mas depressa se mantiveram na Gallimard e na Minuit. Tudo por causa da paranóia aguda, a partir de 1974, aquando da substituição de Guégan por Debord nos comandos da editora? Isso virá no segundo volume anunciado.

" Entre os grandes debates que agitavam nessa altura a extrema-esquerda, a oposição entre democracia formal e democracia directa suscitava, para lá do favoritismo ou do anátema, maneiras de estar, mais do que estilos de vida, de que, podemos arriscar, os já tão numerosos mediocratas do novo século não deixarão de sublinhar a falta de humanidade.
" Champ Libre fez pior escolhendo o igualitarismo afínico por rejeição de todas as democracias.
" Isso representava no absoluto o sistema mais cómodo, embora o mais estimulante. Sob pena de acabar o contrato que os unia, os seus partidários não deveriam bater-se senão pela perfeição constante dos seus méritos, para obstar a que apareçam, quer manipuladores, quer seguidistas. (...) A preguiça produz tanto cortesãos nos espíritos fortes como nas fileiras de organizações ortodoxas ".


FAR

sábado, 17 de junho de 2006

TLACOTALPAN (1)



Fotos de Pedro Caldeira Rodrigues
Tlacotalpan, Veracruz, México. 2005



TLACOTALPAN

Estado de Veracruz. Em Tlacotalpan há visíveis focos de pobreza, desordenamento do território, mas paisagens e cores imprevisíveis, maravilhosas. Tlacotalpan é um enorme paraíso, com o seu rio Papaloapan, que corre em direcção ao Golfo do México abençoado pelos bandos de pássaros e pelas plantas de água em flor.
Tlacotalpan das pequenas tabernas, do”Compadrito”, do pequeno museu de Agustín Lara, que terá nascido nesta povoação mágica, das ruas longas e silenciosas, das cores da casas, do teatro Netzahcalcoyotl, das peixarias junto ao rio, das lojas de artefactos, dos mecânicos de bicicletas, dos barqueiros que transportam as gentes para a outra margem na grande Cuenca, a grande foz do rio. E ainda uma cerveja e uma sopa de marisco e peixe saboreados ao pôr do sol, numa esplanada estendida sobre o rio, no “El Mirador”. Tlacotalpan, prometo voltar a ver-te.

Pedro Caldeira Rodrigues

TLACOTALPAN (2)




Fotos de Pedro Caldeira Rodrigues
Tlacotalpan, Veracruz, México. 2005

Foto de José Carlos Mexia

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Contos da Primavera .5

Os gajos, todos de preto, no desfile. Peço desculpa por me intrometer nos temas do Jocélio. Os gajos, dizia eu, todos de preto, lamentavam a perda dos direitos adquiridos.Machimbombo alugado e todos de preto. Choveu e o tempo está para pontes, não para manifestações de rua. Bem, continuando, lembrei-me dos meus tempos de Secundário. Que saudades! Fui parar a uma vilória italiana ao abrigo de um programa comunitário, tipo Comenius. O gozo que me deu tocar num órgão do séc XVI. As tias, tipo Cascais, profes acompanhantes, de Inglês, com pechisbeques penduricalhados ao pescoço, maravilhadas com a minha performance e com as minhas descrições da construção barroca da igreja. Vantagens de quem tem um pai com namoradas arquitectas e que percebeu o papel da música na educação. Quinze dias de cultura clássica, com uns empatas a acompanhar. Finda a visita de estudo, na volta, a dura realidade. Fui penalizada! Por tudo. Por viajar em período escolar. Por não estar em momentos de avaliação da minha turma. Certamente pela inveja que a parolada vota aos estrangeirados. Quinze dias fora, mais nome e apelido, suscitam isso. Baixaram-me as notas. Mas queixas do sistema têm os desgraçados que não chegam ao Secundário. Pobres vítimas, que não têm tias, num sistema formatado para brancos, bétinhos e de classe média. Eu se fosse prof vestia-me de preto. Todos os dias.

Josina MacAdam

quinta-feira, 15 de junho de 2006


Foto de Maya Santimano
Liseberg, Gotemburgo, Suécia. 2005

André Glucksmann: a "somalização" abominável do Mundo

O filósofo francês analisa a inamovível continuação da" implacável permanência do caos"." Passado que vai uma só semana de Junho 2006,continuam a desfazer-se os nossos sonhos de paz eterna.O minúsculo Timor-Oriental, um milhão de habitantes, dirigido por um estimável Prémio Nobel, reconfortado de solicitude por parte da ONU, derrapa num banho de sangue e de pilhagens- os militares amotinados activam o rastilho explosivo de uma latente anarquia politico-social. No Afeganistão, os talibans dispersos há quatro anos reaparecem de novo violentamente. Na Somália, carrinhas de caixa-aberta e jipes cheios de metralhadoras reconfortam o triunfo dos mais fanáticos, os adeptos dos tribunais islâmicos, que decidiram coercivamente impedir a transmissão do Mundial de futebol, este jogo satânico na sua opinião. E o Iraque chora todos os dias as centenas de civis degolados, os desfeitos por explosões e os abatidos pelos nostálgicos sanguinários do tempo de Saddam Hussein e/ou pelos devotos de Ben Laden.

" O pecado mental dos militares ocidentais foi o de contemporizar por muito tempo com os conflitos quotidianos com uma guerra de atraso. Esta falta de iniciativa atinge agora os estados-maiores pacifistas que se baralham com as pseudo-lições do passado, acusando Washington de se enterrar num " novo Vietname". Nada de mais ingénuo: Zarqaoui não era Hô Chi Minh. ( ...) Nenhum dado geopolítico permite decalcar sobre a actual confusão iraquiana os esquemas da última grande guerra tonitruante da época, felizmente ultrapassada, da guerra fria ". A ameaça que pesa sobre a sociedade iraquiana não é a do tipo de uma espécide de "vietnamização", mas a de estilo vulgo " somalização ".

FAR

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quarta-feira, 14 de junho de 2006

Bibinha e seus modelos (3)


Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2004/2005


De um projecto fotográfico, sobre a moda, na Ilha de Moçambique.

TABUADA PO_ÉTICA (conclusão.)

missão poética de vinte e seis a trinta e um

perto do fim do mês
o salário pinga ou não pinga
e
decido :
não levo o automóvel
vou a pernas
nem sequer vou ao trabalho
gazeto
vou ao rio
e de remos no olhar subir uma maré de brisas azuladas
mesmo peneirar entre dedos alguma areia ancestral
com cheiro a madeira de naus
até esquecer que corre que me corre ali
um rio nas veias
com sabor a canho e sal primordiais

no cais das sete partidas esse barco que transporto
branco sujo de velas pacientes
desliza ao sopro das luas e planta-se nos gavetos dos portos
mar predilecto de voos
fora da sombra da sombra do olhar tarifário

se me acontecer tropeçar num isqueiro
não o evitarei
e creio que não sujarei os dedos na tinta cega dos jornais
jejum total informativo
purga global
desintoxicação de alto abaixo
o que quiserem
vomitarei editoriais desses sempre explicando como se governa
do alto da editorialice
que enjoo os uns e os outros


não vou sequer permitir-me discursos de bola
nem ouvir o número de assoalhadas
de uma recém descoberta morada bestial
nem o que custa a vida
ou desconversar de semáforos traiçoeiros
não vou sequer atender o telefone
porque
vou
liquefazendo-me
meio corpo submerso
cavalgar todas as superfícies líquidas esquecidas
junto de paisagens absolutamente incógnitas

vou também tentado pelo diabo do corpo
passear nos seios daquela miúda que ali está
de olhos suspensos na sua inconsciente sede de cenários parisienses
absolutamente centro pompidou
com ou sem baguete sena e saint michelle
olhos que saltam como dúvida na fímbria do tempo
olhos no arame do desejo eriçados
e eu enrolado
serei mesmo o sinalzinho que ela tem no meio das costas
citando um contemporâneo italiano que o descobriu nas costas de uma Iolanda ou Jasna não sei
uma beleza de leste deslocalizada

haverá remédio para este desacerto?
respirar
é o conselho
intensamente
o músculo cardíaco ofegante falará mais tarde de uma inesquecível maratona
em mais do que uma conferência de imprensa expressamente destinada a cardiologistas
vou entretanto na minha condição de bombeiro esvaziar toda a atmosfera que circunda a ponte vinte e cinco de abril
como sendo uma espécie de aspirador global
comer-lhe o ruído
e pôr um elefante a voar sobre uma tenda de circo
estarei também – para quem quiser observar a performance - no voo da abelha por entre todas as pétalas disponíveis de todos os jardins de Portugal esse jardim plantado à beira mar
e polinizarei
mesmo que ligeiramente poluído de uvas antigas e ânsia esteja o seminal que caminha

e o sal do Adriático fará parelha comigo
e o caniço jovem amarelecido das bordas de Bilene

não me contentarei de aplaudir quem passa com ar de cartão de crédito
quero mesmo que se fodam os banqueiros
e outros seus subordinados cães de fila

estarei mesmo disponível para conspirar em qualquer sebe
uma conspiração de pétalas enrubescidas
defronte de todas as casas brancas

perigosamente perfumada
a conspiração

apagará do mapa a crispação totalitária do inquilino
que como que incapaz de um veneno doce perecerá
é para isso que hoje acordo

e acordo em Chiapas também
de braço dado com os rios
e também ponho passe-montaigne no carreiro das formigas
para que não me espreitem do ocidente
estou disposto ao que for para preservar o silêncio das matas andinas
o meu coração macua fechar-se-á em bolbos
no meu quintal de lápis de cor
e derramará o seu veneno de pau preto
numa metamorfose irisada de lírios brancos e lilases
na sombra do limoeiro
primícias de uma infinita guerra química
que vamos conduzir contra as guerras químicas
cujo sinal de partida será uma greve geral de pétalas ao perfume
como na peça grega elas o fizeram ao sexo
o mundo inodoro vingará os mortos inocentes

da burocracia nada direi a não ser que a fuzilem
tal como fizeram a Lorca
do centralismo desinformado nada direi
a não ser que não esquecerei Dionísio
o outro e o deus também

e caminharei por meio das estradas e viadutos
entre as periferias
pelas frágeis construções feitas à mão
e repetirei o fado
ninguém espalhará
em semeador particular
a palavra incendiária
como quem atira trigo em chuveiro
à mão
solitário
gesto largo
essa é a tua tarefa de todos nós

f.arom

terça-feira, 13 de junho de 2006


Foto de José Carlos Mexia

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética vinte e um

as leis dizem-te maior
maior o quê?


Po-ética vinte e dois

para graus no vinho corrente é uma utopia


Po-ética vinte e três

muito longe ainda dos ladrões de Ali Bábá


Po-ética vinte e quatro

de abril


tarefa poética vinte e cinco

de abril


f.arom

(continua)

segunda-feira, 12 de junho de 2006

TLAYACAPÁN


Foto de Pedro Caldeira Rodrigues
Tlayacapán, Morelos, México. 2005



TLAYACAPÁN

A cidade das cerâmicas, das borboletas de barro, dos sóis e luas, das magias indígenas, dos adoradores da Natureza, dos zapatistas. Como em Cuernavaca, há símbolos zapatistas espalhados por Tlayacapán. Uma casa está entreaberta, parece um bar, uma cantina, uma loja. Está calor. Lá dentro, altares aos mortos, simples, humildes. Oferendas pagãs perto do sangue de Cristo, dos santos, de Nossa Senhora. Gente pobre, gente que sofre, que crê. “Que hace aquí?”, pergunta uma idosa. “Hay sido una cantina, pero ya no lo es”. Retiro-me, respeitosamente.

Pedro Caldeira Rodrigues

Da capital do Império

Olá,
Hoje vou começar por vos fazer uma pergunta. O que é cultura?
O que me pôs a pensar sobre isto, vejam lá, foi o cócó de cão. É que aqui na capital do império cada vez que se vê alguém a passear o cão, esse alguém traz sempre consigo um saquinho de plástico. Cada vez que o cão faz cócó lá se vê o americano a meter o saco de plástico na mão com se fosse uma luva, baixar-se, apanhar o referido cócó com a mão envolvida no plástico e depois virar o plástico do avesso. Cócó dentro do saco lá vai o americano trela do cão numa mão, saco – agora cheio de cócó – na outra. Ando a ganhar coragem para perguntar a alguém o que fazem com o cócó. Deitam-no juntamente com o saco no lixo quando chegam a casa? Ou deitam-no na retrete ? Mas isso é outra questão.
A questão desta carta é que cada vez que vejo o americano de saco de cócó na mão vem-me sempre à cabeça o meu acidente quando estive aí a última vez na capital da Lusitânia. Foi ali para os lados do Rato, ia a caminho de um restaurante com um amigo e pus o pé numa poia que eu pensei que era de elefante. Não vou entrar em mais pormenores, mas basta dizer que no restaurante os restos da poia ainda deitavam cheiro, obrigando-me a ir à casa de banho lavar os lados do sapato. O meu amigo dizia-me: “isto aqui não tem solução. É como se fosse um campo de minas e ninguém liga”.
Eu depois disse-lhe que tinha estado em Paris e que lá tinha visto uns pequenos carros que andam nos passeios com uns enormes tubos flexíveis a sugar o cócó dos cães parisienses. Pago pelo governo ou municipalidade, com uns tipos de uniforme por detrás do volante a movimentarem com perícia o suga-cócós. O meu amigo não ficou entusiasmado com essa francesice.
“Para isso é preciso ‘massa’,” respondeu-me. “Aqui como somos tesos temos que pisar a merda ou então esperar que a chuva a lave”. Eu decidi por essa altura que era melhor começar a falar do menu…
Foi já depois de ter regressado aqui à capital do império que notei os americanos, os seus cães e os saquinhos de plástico para os cócós. Primeiro pensei que fosse um fenómeno restrito à capital do império, talvez resultado desta zona estar cheia de soldados, agentes da CIA, do FBI e dezenas de milhar de burocratas do governo federal, todos habituados a uma certa ordem e limpeza.
Mas na semana passada fui a Nova Yorque e notei a mesma coisa. Vi um tipo com três cães no Central Park com um saquinho já cheio de cócó e outros na mão ainda por encher. Vi também no Washington Square uns locais reservados especialmente para os cães andarem à solta onde não se via um cócó de cão. E a tabuleta afirmava claramente que esse local é administrado pela “Associação dos Locais de Recreio de Cães” (Dog Run Association) e “não recebemos um centavo da cidade ou do departamento de parques”.
Lembrei-me também depois que há uns anos atrás em Los Angeles tinha visto uma loira espampanante e escultural a abaixar-se de costas para mim (daí a minha recordação!) para apanhar o cócó do seu cão. Portanto, pode-se concluir apanhar o cócó do cão é um costume generalizado deste lado do lago Atlântico e como diria a velha canção “from California to the New York Island” e sem qualquer interferência do governo
Em Nova Yorque notei que em algumas ruas há mesmo pequenos sinais que lembram:”Apanhe depois do seu cão”. Não se especifica o que deve ser apanhado “depois” do cão mas... para bom entender meia palavra basta.
Mas vejam lá que já de regresso aqui à capital do império estava eu a ruminar sobre cócó de cão e cultura quando vejo passar uma carrinha com o dístico “Especialistas de Desperdício de Animais”. Nem pude acreditar! e para confirmar telefonei à companhia que me informou que .. é isso mesmo. Especializam-se em apanhar o cócó dos cães ou de outros animais de estimação. Podem limpar o jardim ou associações de moradores. Onde haja cócó … eles apanham.
E mais! Fui informado que existe no pais uma Associação de Especialistas Profissionais de Desperdicios de Animais que engloba as companhias deste ramo com nomes como “Doodycalls”, “Dog-Gone-it” e (o meu favorito) “Your Dog Business” (O negocio do seu cão)
Na associação disseram-me que segundo a Associação de Veterinários dos Estados Unidos há 61 milhões de cães nos Estados Unidos. É muito cócó. Mas onde aí na Lusitânia se vê apenas cócó aqui os americanos com o seu sentido empresarial sem par viram … uma mina de ouro.
E dai a tal questão: O que é cultura?
Três povos três modos diferentes de lidar com o mesmo problema:
1) Ninguém faz nada
2) Governo compra máquinas, paga a funcionários para resolver o problema
3) Governo não interfere, as pessoas orgulham-se no facto do governo não fazer nada e apanham elas próprias o cócó. Aí aparece um empresário e rapidamente o negócio multiplica-se.
Já tenho a resposta à pergunta com que iniciei esta carta. Cultura pode ser aquele consciente colectivo que engloba a historia e os seus traumas, língua, literatura, religião e que nos leva a actuar de e a reagir de um certo modo. É também culinária pois eu sei que quando cheiro alho a vir das panelas de uma cozinha então sinto que está tudo bem enquanto outras culturas acham que o alho cheira mal.
Mas cultura são também valores, um modo de se viver em conjunto com outros seres humanos. Não?
O vosso amigo,
Da capital do Império

Jota Esse Erre

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética vinte

número redondo
menos que oito redondíssimo
duplamente redondo
e vinte é um começo de assinatura
é quase e um
essa simbólica passagem à maturidade
que
nos tempos que correm
e na realidade
anda mais pelos trinta e cinco
chama-se a isso
nova adolescência em virtude dessa esperança de vida
que nos trama a todos
pois traz-nos mais ofício mas não nos traz mais juventude

f.arom

(continua)

domingo, 11 de junho de 2006

Bibinha e seus modelos (2)


Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2004/2005


De um projecto fotográfico, sobre a moda, na Ilha de Moçambique.

Crónicas do Jocélio

Professores à beira de um ataque de nervos. Nome de acção de formação frequentada, com êxito, por quem assina este post. A história é curta. Sábado de manhã um “workshop” na minha escola, às 9h e 30m. Os meus colegas terão muitos defeitos, mas costumam ser pontuais. “Les os du métier”. Com uma meia hora de atraso chegam as formadoras, colegas de profissão. É verdade, tratamo-nos por colegas. Normas da boa educação em várias, antigas e respeitáveis profissões. Umas quarentonas desinteressantes, desenxabidas, ar “suixant-huitard”. Como não estar assim? A juventude sempre com a mesma idade à volta, e nós a envelhecermos, inexoravelmente. Sabendo, e cito J. de Sena, que “um velho para não cheirar a velho, tem de se cuidar especialmente”. Acção em que não possa fantasiar, para mim, não é acção. E, lá começam elas. Primeiro fazem comentários desagradáveis sobre a escola, tipo arquitecto paisagista a olhar para a Brandoa. Depois, com alguma antipatia à mistura, dizem que a acção tinha sido pensada para menos pessoas. Tínhamos que decidir quem ficava e quem saía. Estava um belíssimo dia de praia. A minha mulher bonita, com um bebé nos braços, esperava-me em casa. Eu a sentir-me traído pela minha paixão pela cinefilia, que o nome da acção evocava. Apanhei um ataque de nervos. Disse que me ia embora. Disse-lhes tudo. A educação que recebi e o facto de ser funcionário público limitaram esse tudo. E aí o clímax. Elas eram grandes actrizes. Animadoras de primeira. Eu tinha colaborado. Deram-me os parabéns. A partir daí iríamos reflectir. Fui-me mesmo embora. Os outros carneiros ficaram lá. Por estas e por outras me desencantei com a profissão. Haverá outras em que a maioria das pessoas têm dignidade. Assim cheguei onde estou, apoiante convicto da Ministra da Educação. É verdade, passaram-me um diploma. Mereci-o. Os meus colegas não. Também não há acção que lhes chegue!
Vosso,

Jocélio Vasco Salvado Elias

A valsa-hesitação de Vladimir Poutine

Os " duros" de Moscovo e Washington podem criar uma nova guerra-fria...

" Se quereis que a vida vos sorria ,dêem-lhe de início o bom humor ", gostava de sublinhar Espinoza, o contraponto dialéctico da perfídia e inteligência política de Maquiavel. Ora, a reunião na capital chinesa da Organização de Cooperação de Shangai, a 15 do corrente, poucas semanas antes da cimeira do G-8 em St -Petersburgh, pode clarificar os pólos de tensão entre os EUA, seus putativos aliados do Oeste, e a múltipla( ainda) informal constituída pela Rússia, a China e os principais países produtores de ouro negro da Asia menor, com o Kazakhistan à cabeça, e os estados petrolíferos( e não só) do Golfo Pérsico e do Indico, com destaque para o Irão, a Índia, o Paquistão e a Mongólia., que vão ser admitidos. E´o desdobrar de uma partida de xadrez muito dificil e complicada: os " falcões" de Washington e os " kgbistas-new style " de Moscovo podem extremar posições e " congelar " o post-periodo Cold War, ao tomarem resoluções polémicas nos aéropagos chinês e mais tarde no russo.

Samuel Charap e Johannes Hecker, dois especialistas económicos sobre a Rússia da Oxford University, advertem num texto publicado no NY Times que se a ala dura personificada por Mironov, actual presidente da Douma, e o ex-procurador Oustinov conseguir conquistar o poder em 2008, a aliança da Rússia com a China e as autocracias do Médio Oriente e Pérsico poderão ser uma realidade. Com agravantes para o desenvolvimento económico Leste/ Oeste e represálias e " chantagem" na esfera dos recursos energéticos vitais. Os analistas censuram a " diplomacia de megafone " utilizada aspera e violentamente por Dick Cheney contra a Russia( facção Poutine)na sua mais recente visita à Europa de Leste. " O Oeste deveria regressar à diplomacia afável e amistosa do relacionamento com a Rússia, datada do início do ano 2000 até 2003. A Rússia detesta a política do facto consumado e deseja ser ouvida com antecedência ", frisam.

Justamente, o cerrado secretismo do afastamento do procurador-geral Oustinov- atacado pela sua moleza e dureza, ao mesmo tempo- e a valsa-hesitação de Poutine face ao caso iraniano podem ser sinais de que, conforme salientou a especialista russa Olga Kryshtanoskaya no NYT," se desenrola uma luta de morte entre as facções que podem pretender à sucessão do líder ". A esse respeito, de acrescentar o fim do recuo da alta finança mundial perante a demissão do antigo procurador na vida interna russa, em nota de Imprensa publicada pelo consórcio bancário americano-alemão, Goldman Sachs, logo após a destituição de Oustinov e do PM.

Alexandre Adler, o magnífico geo-estratego francês, escreveu recentemente que os " duros " de Moscovo, se por acaso conquistarem a sucessão de Poutine, " incrementarão a convergência dos interesses russos, chineses e das nações islâmicas para criarem uma espécide de frente dos descontentes que se oporia não só à mundialização como à extensão julgada negativa das liberdades políticas no mundo ". Ora, acrescenta Adler," o inspirador intelectual da ocidentalização da vida e da economia russas, Anatoli Tchoubais, continua firme e mantém a sua relação com a equipe económica , o secretário -geral do Kremlin e o todo-poderoso ministro da Defesa".

FAR

sábado, 10 de junho de 2006

Basketball, outros desportos, uma vida cheia



O José Manuel Botelho Coelho foi uma estrela do basquetebol nacional.

Também foi um excelente jogador de futebol e durante uns anos foi profissinal.

É um desportista nato.

Tem um blogue em fase inicial/experimental:
animusport.blogspot.com/

Vão lá!

Foto de José Carlos Mexia

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética dezanove

não é número que se aconselhe
é uma espécie de terra de ninguém
ninguém o reivindica
é mesmo pior que treze
dezanove é no entanto
em matéria de beijos
um score mais interessante que dezoito

f.arom

(continua)

sexta-feira, 9 de junho de 2006

CUERNAVACA





Fotos de Pedro Caldeira Rodrigues
Cuernavaca, México. 2005




CUERNAVACA

Morelos, terra de Zapata. Em Cuernavaca, capital do distrito de Morelos, há um mercado com o seu nome, há uma grande rotunda com a sua estátua, montado a cavalo e de espada em riste. É um estado de resistência, orgulhoso do seu passado, dos seus filhos mais bravos e mais justos. Em Cuernavaca, “la cuidad de la eterna Primavera”, a menos de 100 quilómetros do Distrito Federal, a Sintra da Cidade do México, rodeada por montes arborizados, há grandes mansões cercadas por altos muros, para se protegerem do mundo hostil, do mundo dos deserdados. No centro de Cuernacava descobre-se o El Farolito, antigo bar e agora restaurante. O Hotel Casino de la Selva foi destruído, mas o El Farolito confronta-nos com Malcolm Lowry. E com o cônsul Geoffrey, debaixo de um vulcão, alucinado, inchado de cerveja, de tequila, de mezcal. Lá vai ele, cambaleando pelas ruas, com o Popocatepetl (a Montanha que fumega, em língua náhuatl, azteca) ao longe, junto ao Iztaccíhuatl (a Mulher de Branco).
E em Cuernavaca fica Los Colorines, comida sabrosa… nachos, nopales, frijoles negros, pollo en salsa de tomate picante, arroz verde, ensalada mexicana… A típica gastronomia mexicana, cozinhada em grandes recipientes de barro. À vista de todos. Voltam os cheiros, os sabores, as cores. O prazer em estado puro.

Pedro Caldeira Rodrigues

Um revolver muito especial

Faz 40 anos que foi posto à venda um dos melhores discos pop de sempre. Lançado a 5 de Agosto de 1966, Revolver é considerado o primeiro álbum psicadélico de todos os tempos, cujo movimento marcou a segunda metade dos anos 60. Pela primeira vez misturaram cítaras indianas (Love You To), com sonoridades Motown (Got To Get You Into My Life) e guitarras flutuantes (I'm Only Sleeping). A inspiração do livro Tibetano dos Mortos (Tomorrow Never Knows) não deixou de nos lembrar que a solidão pode ser tristemente bela (Eleanor Rigby). Não querendo ser exaustivo, resta dizer que neste álbum todas as canções têm uma sonoridade e um sabor muito especial.
A capa foi também uma pedrada no charco. Completamente original para a época, foi fruto da inspiração de Klaus Voormann, um amigo dos Beatles ainda do tempo em que tocaram em Hamburgo. Voormann também músico, substituiu na altura Jack Bruce no baixo dos Manfred Mann e tocou mais tarde com John Lennon and the Plastic Ono Band.
De Revolver, destaco a letra de uma das mais belas canções de amor de sempre:
*
“Here, There And Everywhere”

To lead a better life, I need my love to be here

Here, making each day of the year,
changing my life with a wave of her hand
Nobody can deny that there's something there
There, running my hands through her hair,
both of us thinking how good it can be
Someone is speaking, but she doesn't know he's there

I want her everywhere,
and if she's beside me I know I need never care
But to love her is to need her,
everywhere, knowing that love is to share,
each one believing that love never dies
Watching her eyes and hoping I'm always there
*
I want her everywhere,
and if she's beside me I know I need never care,
but to love her is to need her
I will be there, and everywhere,
here, there and everywhere
(Lennon-McCartney)

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética dezoito

dezoito são os silêncios acesos
em dezoito interiores
dezoito são quatro dedos
de quatro mãos a caminho
uma boa conta de beijos
são poucos quilos de gente
mas muitos de açúcar
o que possa dizer-se de dezoito
não passará a dúzia e meia

f.arom

(continua)

Bibinha e seus modelos (1)


Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2004/2005


De um projecto fotográfico, ainda inacabado, sobre "a moda" na Ilha de Moçambique.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Marguerite Yourcenar
Nasce a 8 de Junho de 1903, em Bruxelas
*
"O amor é um castigo.
Somos punidos por não termos podido permanecer sós."
Marguerite Yourcenar, in "Fogos", Relógio D´Água, 1988

quarta-feira, 7 de junho de 2006


Ilustração de Joana Ralha

(...)
Estava neste desespero, podia ouvir a turba a aproximar-se, quando deu com a caixa de peixe. O cheiro era pavoroso, um odor forte a mares putrefactos, mas tinha o espaço exacto para um homem agachado. Assim meteu se dentro da caixa e aguardou.
Espreitando por uma fresta viu chegar a malta das fitinhas. Arrastavam pelo pescoço, empurravam, faziam avançar ao pontapé e á coronhada, cinco pobres tipos cuja única culpa, aparentemente, era falarem umbundo.
(...)

“O Homem da Luz”, de José Eduardo Agualusa

Gourmet lendário da Tour d'Argent deixa sucessor para o Paris-Monde

O mais célebre dos gourmets parisienses, Claude Terrail, faleceu no passado dia 1 de Junho na cidade Luz, a verdadeira-capital da Europa. O facto tem resonância histórica, pois, a Tour d´Argent era o mais premiado restaurante do Mundo, com três estrelas do Guide Michelin (uma espécie de Nobel da Gastronomia) inalteráveis ao longo de 52 anos. Um record absoluto. A regra capital, que veio sendo alterada por poupanças incontornáveis, apontava para um extravagante número de refeições completas (150), realizadas por 20 cozinheiros e servidas por 25 maitres-de -table. Geralmente, os 3 Estrelas só devem servir 45 refeições completas e devem possuir mais chefes na cozinha, segundo os especialistas. O sucessor do Grupo TDA, André Terrail, fruto de uma ligação aos 60 e tal anos do falecido com uma manequim finlandesa, vai tomar conta dos florescentes negócios da família. Toda a classe política mundial e o glamour do jet-set universal eram clientes do famoso restaurante de seis andares situado em frente da catedral Nôtre Dame. O preço médio por refeição rondava os 25O E por cabeça.

FAR


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TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

tarefa poética catorze

as primeiras borbulhas
idade da punheta
do armário
o melhor é esquecer



tarefa poética quinze

a situação não melhora



tarefa poética dezasseis

primeiros sintomas
de melhorar



Po-ética dezassete

as musas
nesta fase
são perfume de água cristalina
e olhar imprevisto
prometem mesmo o voo à beira pele
quando olham
sem o saber
abrem-se em pétalas
e ardem
absolutamente naturais
de intensidade glandular
as palavras
emudecem na boca de quem as cicia
ao vê-las
e caídas de espanto
letras abaladas no seu desenho
pasmam desarquitectadas
apenas as folhas acenam um gesto de silêncios
as pálpebras nestes dias são abertas a sul
e o sal intensamente da vida
branco avermelha
se nos calham entre os dedos
estes pardais crepitando desejos
como frutos levitando
e sumindo
meteoritos lentos de tacto e odores
a vida despoleta-se em granada aberta

f.arom

(continua)

Foto de José Carlos Mexia

terça-feira, 6 de junho de 2006

Contos da Primavera .4

Body heat e vem aí um hot summer. O meu pai anda feliz. A minha nova madrasta saiu de uma fairy tale. Está tudo nos drinks. Mas esta felicidade anda toldada por nuvens negras. Acho que a isto se chama hybris. A bruxa má é a sogra do meu pai. Mais uma mãe que não suporta a felicidade dos filhos. Vou a correr casar com um órfão. Já este Verão?


Post dedicado ao meu pai. Ao capuchinho vermelho. À minha mãe. À mãe do meu irmão. À sogra do meu pai. Às anteriores sogras do meu pai. Às vossas sogras. Às que hão de vir. E termino com um beijinho para o meu namorado na esperança que, lido o post, mate a mãe.

Josina MacAdam

MÉXICO





Fotos de Pedro Caldeira Rodrigues
Mercado Jamaica, Cidade do México.2005




DISTRITO FEDERAL/CIDADE DO MÉXICO

As primeiras cores, os primeiros cheiros, os primeiros sabores, a primeira luz do México surgiram pela manhã no mercado Jamaica, na grande metrópole 18 milhões de habitantes, o Distrito Federal, a cidade que ferve. O mercado das flores em vésperas do Dia dos Mortos, Dia de Muertos… Às flores amarelas e vermelhas chamam-lhes Xempaxuchitl, cravos da Índia, e as suas pétalas enfeitam as casas onde se homenageiam “aqueles que partiram para outra dimensão”.
E há os bolos de açúcar ou chocolate em forma de caveira, para as crianças saborearem a vida, os tascos, os tacos, os sumos, as frutas. A batata doce, o milho e o feijão. E as pessoas, a cor da sua pele, os cabelos lisos de um negro profundo, os gestos humildes ao embrulhar as flores mágicas em grandes papéis pardos. Um espanto, uma surpresa, um delírio, esta América dos Índios.

Pedro Caldeira Rodrigues

Ilustração de Ivone Ralha



Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

Mesa dos sonhos
Alexandre O'Neill
Forças aliadas desembarcam nas praias da Normandia, França. 06.06.44
*
"Têm razão aqueles que definem a guerra como um estado primitivo e natural. Enquanto o homem for um animal, viverá através da luta, à custa dos outros e temerá e odiará o próximo. A vida é, portanto, a guerra".
Hermann Hesse, in “Sobre a Guerra e a Paz”, 1946