quarta-feira, 31 de maio de 2006

"O petróleo absorve todos os erros"

Andrew Solomon, da revista " The New Yorker ", visitou a Líbia

Círculo de fogo ou de imaginação? O grande repórter foi à Líbia para ver como se desenrola o " degelo" qaddafiano. E o que encontrou foi uma indisfarçável luta:" Os círculos governamentais líbios estão ocupados num combate, entre os que entendem que uma aliança e laços estreitos com o Ocidente são boas opções e os que desconfiam muito dessa temática ". O impasse político da " revolução verde ", de significado militar e ditatorial, " obriga " a acumulação " de iniciativas políticas nem sempre coincidentes. O líder do golpe de estado decidiu usar o " carisma " de chefe beduíno inspirado no deserto: joga um dos seus filhos-varões contra o ideólogo do regime, Ahmed Ibrahim, um dos três elementos -chave da ala conservadora, que engloba Musa Kusa, chefe da secreta libanesa, e Abdallah Senoussi, chefe da segurança interna.

O regime tem taras complicadas herdadas do " leninismo " revolucionário " dos primeiros anos e dos reflexos atávicos de dois tipos de colonialismo, a bizantina corrupção conjugada com a burocracia italiana. Apesar dos cofres cheios de divisas fortes provenientes da venda do petróleo de mais alta qualidade do Mundo, o clan Qaddaphi não descura impulsionar as reformas vitais para a sobrevivência do regime, que se agudizam na área do Emprego e da Economia interna. Os empregos na administração e na companhia de petróleo são atribuídos por cotas tribais sem controlo." Devido aos bens essenciais serem massivamente subsidiados, o desemprego é enorme e de conveniência, pois os libios pagam muito pouco para sobreviverem e por isso podem recusar empregos".

O PM lembra ao repórter, a propósito, que o livro verde do líder faz a apologia da troca de produtos, e não da concorrência, assim como descreve o povo como parceiro e não como assalariado. Os empregados por conta de outrém só trabalham da parte da manhã e desconfiam do regime de cotas tribais por causa das maiorias. As mulheres podem usar bikini na praia e são obrigadas a usar o véu islâmico na via pública. O álcool é proíbido e os prisioneiros políticos foram " trasformados " em presos de delito comum, não existindo Imprensa livre.

As receitas do petróleo permitiram acabar com a iliteracia e cobrir o país com uma modelar rede de auto-estradas. O investimento na cobertura sanitária foi colossal e a electricidade chega a todos os lugares, mesmo no deserto. Apesar do " degelo " e da política de sedução para com Ocidente, em geral, e os EUA, em particular, a Líbia confronta-se ainda com graves entraves à liberdade de expressão e reunião. A esperança democrática criou-se em torno da candidatura formal( e ainda no segredo dos deuses...) do filho mais velho do líder,Seif el-Islam al-Qaddafi, formado pela London School of Economics, que liderou as conversações para as compensações para as vítimas de Lockerbie e estreitou laços com a Amnistia Internacional e outras ONG´s de combate ao crime e à corrupção.

O jornalista viajou e encontrou-se com o futuro sucessor declarado de Qaddafi, o PM e altos funcionários do estado e do partido único, sentindo-se sempre muito vigiado. E narra esta edificante história que retrata o impasse líbio: " Um ministro disse-me, a propósito, que se em muitos estados da Europa existem muitos partidos e nos EUA só dois. Por isso, aqui, só existe um único! É a nossa grande diferença ". " Mesmo os reformadores expressam pouco entusiasmo pela democracia eleitoral. A maioria aspira a uma espécide de moderna autocracia: o seu ideal está mais próximo do regime de Atatürk ou do Xá da Pérsia do que do incarnado por Vaclav Havel...", sublinha. A reportagem é fascinante, desdobrada e estruturada pela mediação sublime da inteligência histórica e ideológica.

FAR

Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2002


Da série "Uma História Fotográfica Sobre A Ilha De Moçambique"

Vizinhanças

A blogosfera aumenta a olhos vistos e no meio da quantidade vem muita qualidade. Por isso, não com orgulho, porque como diria Georges Bataille "o orgulho é igual à humildade: é sempre mentira", mas com muita satisfação decidimos juntar aos links do 2+2=5 o Arrastão, do Daniel Oliveira, o Avesso do Avesso, do Filipe Moura, o Boato, do Alexandre Borges, o Cha-no-Yu, da Folha de Chá, Contra a Corrente, do Carlos do Carmo Carapinha, o colectivo Desejo Casar, Estado Civil, do Pedro Mexia, Frangos para fora, de Victor Lazlo and The Bird, Franco Atirador, do Luís M. Jorge, Homem a Dias, O Janseista, o fotográfico João Luc, o colectivo Mau Tempo no Canil, a deliciosa Miss Pearls, Moody Swing, Mundo Pessoa, Poesia & Lda, do João Luís Barreto Guimarães, o musical Quase Famosos, Serendipity, Tabacaria, Tristes Trópicos, (o vazio), do Carlos Gil, Viagens Interditas, de m.m. botelho, Vidro Duplo e o cinéfilo O Zombie Comeu o meu blog. São a nossa proposta do mês e merecem ser visitados.

Os culpados do costume

O Estado português é o pior a pagar dívidas num universo de 22 países europeus. Portugal demora em média 150,8 dias a regularizar as suas obrigações. O estudo agora tornado público é do Intrum Justitia, o principal grupo europeu do sector das cobranças. A pequenina Estónia, por exemplo, está a meio da tabela, em 11º lugar, e demora em média 19,6 dias a pagar o que deve. Para o responsável da Intrum Justitia em Portugal, a "situação é de tal forma preocupante que os atrasos do Estado acabam por funcionar como bola de neve". De acordo com Luís Salvaterra, "o Estado deve às câmaras, aos tribunais, às empresas, aos contribuintes. As câmaras devem às juntas, à electricidade, à água, às construtoras". Partindo do princípio que o relaxe obriga ao pagamento de juros, não seria uma boa ideia penalizar os responsáveis públicos por esta situação? E terminar com este eterno estado de coisas em que nós acabamos por pagar tudo? Não faz sentido continuar a apertar os contribuintes individuais ou colectivos e pouco se fazer para tornar a Administração Pública mais responsável. Atrás de cada dívida há uma cara, na origem de cada falha há uma mão. Seja de director, ministro ou presidente de Câmara. Eles que paguem. Não é justo que continuem a gastar o dinheiro dos nossos impostos para pagar a balda da Administração Pública ou Autárquica. A não ser que vivamos num Estado fora da lei. Será o caso?

terça-feira, 30 de maio de 2006


Ilustração de Ivone Ralha

(...)
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
(...)
António Ramos Rosa

Foto de José Carlos Mexia

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética nove

nove são os orifícios de que somos proprietários
a humana espécie
nem todos fedem
alguns até iscam
e são belos
mesmo os tais que fedem
a escatologia é isso
essa ligação entre o belo e o mal cheiroso
e não esqueçam :
ao cheiro da canela
povoou-se o império – pouco, dado o tamanho do jardim e a imensidão da descoberta -
mais tarde o cheiro foram as férias graciosas
a cavalo no paquete
em ampla descoberta dos rissóis de camarão
- por esse tempo o camarão não era ainda classe média
pois a classe média não era ainda média -
a canela diga-se
foi de primórdios dupla :
veio mulata
mas deu
um brasil que não foi total
falta cumpri-lo

f.arom

(continua)

segunda-feira, 29 de maio de 2006


Paul Klee


Poder-se-ia imaginar que três dos mais geniais sábios do século XX, todos
judeus, por acaso, conversando, tivessem tido o diálogo que se segue:

.............................................................................................................................


Walter Benjamin - Há uma quadro de Klee que se intitula «Angelus Novus».
Representa um anjo que parece estar na iminência de se afastar de qualquer
coisa, que fixa com o olhar. Os seus olhos estão esbugalhados, a sua boca
aberta, as suas asas estendidas. É a essa imagem que se deve assemelhar o
Anjo da História. O seu rosto está virado para o passado. Onde nós vemos uma
cadeia de acontecimentos, ele mais não vê que uma só e única catástrofe, que
sem cessar amontoa ruínas sobre ruínas e as precipita aos seus pés. Ele bem
gostaria de se demorar, acordar os mortos e reunir o que foi desmembrado.
Mas do paraíso sopra uma tempestade que se apossou das suas asas com uma
violência tal, que o anjo já não as poderá fechar. Essa tempestade arrasta-o
irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto a
pilha de ruínas se eleva ao céu. Essa tempestade é aquilo a que chamamos
progresso.

In «Sobre o Conceito de História».


Franz Kafka - Acreditar no progresso não significa acreditar que já tenha
havido algum progresso. Isso não seria acreditar.

In «Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho».


Hannah Arendt - O Progresso e a Ruína são duas faces da mesma moeda; são
artigos de superstição, e não de fé.

In «As Origens do Totalitarismo».

A Arendt e o Benjamin foram amigos, muito amigos em vida. Ambos nutriam por Kafka uma admiração - julgo que posso dizer - ilimitada.

domingo, 28 de maio de 2006

sábado, 27 de maio de 2006

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética seis

a medida de tudo
a meia dúzia
é poupada e ampla
traduzida em ovos
por muito colesterol que possua sempre omeletou
e aos precários resolveu preçários
metade da dúzia seis
um exército
um comité quase central de cérebros
a claque a si mesmo elegendo-se
única e omnívora



Po-ética sete

para quem tem fé aritmética
a sorte
pode
nesta cabalística de todos
espreitar como o loto
e por entre um fumo opiácio
- quem tem setes no loto dá-se a luxos -
esse súbito dealbar de poder
pode metamorfoses
a de um lagarto em banqueiro
mesma a de um enchido beirão em ministro
o que é muito comum
e está na calha



missão poética oito

os três não se retiram tiram-se
e por vezes a vida fica feita num coito interrupto
ininterruptamente
múltiplo de microdramas
que é tudo o que nos alimenta
proteína afectiva
justamente o cisco em olho próprio
por outras palavras

f.arom

(continua)

Foto de Gabriela Ludovice
Angola. Agosto de 2005


Existem voluntários de uma ONGD Portuguesa - Leigos para o Desenvolvimento, também em Benguela-Angola, que no terreno dão o seu melhor no apoio às populações locais, em diversas áreas (saúde, alfabetização, formação humana...).
Têm também implementado um Projecto de apoio às crianças desfavorecidas, que é o apetrechamento de um espaço lúdico onde podem as crianças aparecer, estar, e brincar. É para este projecto que neste momento apelamos.
Visite o site de apoio:
aqui e se possível aja.

Gabriela Ludovice

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Ourives


Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2002

Da série "Uma História Fotográfica Sobre A Ilha De Moçambique"

Um dos ourives mais antigos da Ilha de Moçambique.
Utilizando instrumentos deixados, por amigos indianos, há muitas décadas atrás e ainda operacionais.

N.Y. Times: os pontos de fricção entre os EUA e a China

" Ler entre-as-linhas os pontos de fricção entre os EUA e a China", é um texto da série incomparável criada no NY Times pelo analista-globalista Roger Cohen. Na edição de ontem, o balanço do texto é particularmente bom e totalizante. Trata-se, efectivamente, do lento e inexorável surgimento de uma obscecada e perigosa luta entre duas potências mundiais de primeiro plano. Piadas ferozes e alusões alucinantes marcaram mais uma edição anual da Conferência da Sociedade Asiática instalada nos EUA. E que alberga também cidadãos norte-americanos.

A visita do presidente chinês Hu Jintao aos EUA deixou muitas feridas. " Recebendo os três representantes chineses da Igreja Católica pouco depois da visita do presidente Hu - a quem foi recusada a classificação de visita de Estado- e que foi insultado nos jardins da Casa Branca-isso só pode passar por provocação. You guys like to provoke ", cita o relato de Cohen. É recordado o facto do PM australiano, John Howard, ter agora sido recebido em visita de Estado e ter tido direito a um banquete na CB...

A China, através dos seus coriféus adeptos residentes nos EUA, critica o facto da política económica e militar dos americanos ter "dois registos contraditórios", o que causa prejuízo à " responsabilidade internacional de fomento dos direitos humanos ". " Como nos dificultam a importação de petróleo do Canadá e do México, deliberamos fazê-lo de outros lugares . O nosso princípio é o da não-ingerência nos assuntos internos dos outros estados, que consideramos preferível ao uso que v.fazem da bandeirola da democracia-liberdade para esconder a perseguição dos v.interesses nacionais, incluindo segurança e petróleo ". Muita polémica tem sido estimulada pelos serviços crescentes prestados pela China em África e no corno de África, especialmente, em troco do incremento das importações petrolíferas do Sudão, Tchad e Nigéria ,entre outros países. Isto para não falarmos da ajuda e cooperação muito estreitas com a Venezuela, a Arábia Saudita e o Irão.

Os emigrantes chineses deploram o facto dos EUA estarem a materializar uma " aliança anti-China na Ásia". "Como se deve explicar o reforço dos laços entre os EUA e o Japão, o novo partenariado e a cooperação nuclear com a Índia, a venda de armas a Taiwan e as vossas ameaças a favor do aumento das tarifas aduaneiras contra a importação de bens chineses ? ". Os representantes yankees sublinham o facto de os EUA terem sido "marginalizados" da Conferência da Ásia do Sudeste ,"de forma prematura, quando se deviam fazer esforços para criar um fórum de Cooperação Económica Ásia/ Pacífico".

A reciclagem dos lucros chineses em bilhetes do Tesouro americano foi outro dos pontos fortes do meeting. " Os EUA estão a ficar muito afectados. Endividam-se diariamente em cerca de 8 biliões de dólares, através de buscas mundiais, para tentar apagar o déficite corrente da economia. Mas não nos deixem de avisar sobre as possibilidades de um desastre, está bem ?", ironizam os chinocas. " Vocês são fracotes do miolo. Ninguém conseguirá ultrapassar com disputas os desiquilíbrios económicos mundiais. Vocês não conseguirão sustentar o v.rápido crescimento num mundo que favorece a Inovação, se continuarem a amordaçar o fluxo livre de informação", contra-atacaram os filhos do tio Sam.

FAR

Mitologias

120 efectivos da GNR regressam a Timor-Leste pelos piores motivos. O desentendimento entre os timorenses sobe de tom e o espectro de um golpe de estado paira no ar. Foi interessante constatar que quando as autoridades timorenses pediram ajuda a Portugal, referiram-se logo à GNR. Quando esta força foi responsável pela segurança de Díli, os elementos do Batalhão Operacional eram conhecidos como Robocops. Eram amados e odiados com a mesma intensidade e a sua figura no meio das casas destruídas de Díli parecia saída de um filme. Quando por lá passei, em 2001, havia problemas todos os dias no mercado de Díli e a intervenção dos Robocops da GNR era constante. Eram duros, nada paternalistas como a maior parte dos estrangeiros, e os timorenses gostavam disso. Talvez correspondesse, no imaginário de muitos, a uma versão moderna dos antigos guerreiros que combatiam nas montanhas contra os invasores. Nesse tempo, que chega à primeira metade do século XX, era comum cortarem a cabeça dos derrotados. Para mais tarde recordar.

Da capital do Império

Olá,
Desculpem lá isto mas hoje tenho que vos escrever sobre algo que sei que vai irritar muita malta aí do outro lado do charco, na Lusitânia e se houvesse franceses que lessem isto então seria uma bagunça sem fim.
Isto devido ao que se passa em Timor Leste. Sei que não se trata de um caso de “arrependência” (a doença que assola alguns após poucos anos de independência) pelo que não se assustem não vou pôr em causa aquele entusiasmo/obsessão surrealista que se viveu em Portugal com a independência dos timorenses e que me levou mesmo a pensar que o Xanana Gusmão era o Dom Sebastião regressado nas Ásias para resolver todos os traumas e sentimentos de culpa e impotência resultantes das aventuras coloniais falhadas da Lusitânia.
Mas o que se passa em Timor Leste levanta uma questão: Quando há problemas urgentes que requerem solução imediata a quem é que se telefona?
Pode-se telefonar às Nações Unidas, claro está. E esperar. Talvez por uma resolução do Conselho de Segurança manifestando “grave preocupação” ou se a situação for mesmo má “exortando” as partes a porem fim ao que quer que estejam a fazer de mau ou então se a coisa estiver mesmo a resvalar para o precipício “apelando” à “comunidade internacional” para fornecer ajuda e ameaçando impor sanções. Ou como diria esse grande diplomata irlandês da ONU que foi Conor Cruise O’Brien: “Pode-se sempre apelar à ONU com a confortável certeza que ela vos vai desiludir”. Os ruandeses ou os massacrados de Srebrenica que o digam….
Na verdade um dos grandes paradoxos trágicos da idade moderna é que a ONU é hoje indispensável na política internacional e contudo é ao mesmo tempo totalmente ineficaz em resolver emergências. Indispensável e impotente. Deveria talvez ser o novo slogan para a ONU, não? O que não é de admirar. Para terem sucesso organizações internacionais têm que harmonizar as vontades dos estados membros e para alcançarem tal objectivo têm que se guiar pelo mínimo denominador comum, paralisada assim a iniciativa e tornando-se em grande parte dos casos num obstáculo à resolução de problemas e crises.
É por isso que todos nós sabemos o que significam as palavras código “comunidade internacional”. Ao fim e ao cabo quem é que tem a capacidade de no espaço de dias colocar helicópteros, barcos e soldados para…enviar ajuda imediata de emergência às vítimas do Tsunami ou do tremor de terra em zonas longínquas do Paquistão? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando se quis por termo às aventuras do Slobodoan Milosevic na Bósnia e no Kosovo a quem é que a UEtupia pediu ajuda? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando se fala em enviar uma força para Darfur quem é se diz que TERÁ que fornecer apoio logístico e de informação? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando houve que enviar tropas de emergência para estabilizar a Serra Leoa quem foi “a comunidade internacional”? O vendido do Tony Blair claro está…
Quando foi preciso restabelecer a ordem em Timor na altura do referendo quem foi a “comunidade internacional? Os vendidos dos australianos, claro está..
O que nos leva à pergunta que o Ramos Horta deve ter feito a si próprio esta semana. A quem é que vou pedir ajuda para pôr termo a esta palhaçada?
A resposta é simples ainda que para muitos dolorosa de aceitar: Chama-se os “States” ou então os seus aliados regionais, ou como diria aqui um diplomata (cuja nacionalidade eu mantenho no sigilo para não vos chocar) os “sherifes” locais.
E esses “sherifes” são geralmente aqueles que: 1) tem capacidade de projectar poder; 2) Não têm vergonha em dizer que têm as costas quentes porque têm os “states” do seu lado.
Por coincidência (ou não?) ainda há uns dias atrás o John Howard esteve aqui em Washington a falar com o Bush e depois na conferência de imprensa disse que “aqueles que pensam que o mundo seria melhor sem a presença dos Estados Unidos não sabem o que estão a dizer”.
Eu sei que irrita. Ah pois não. O poder irrita sempre, principalmente quando às vezes vem acompanhado de uma certa falta de elegância ou mesmo de não “savoir faire”.
Mas como disse o MNE australiano Alexander Downer: “Resultados são mais importantes do que a fé cega nos princípios da não intervenção, soberania e multilateralismo”.
Quem fala assim não é gago. Os timorenses sabem-no. É por isso que Ramos Horta discou o número de Downer em Camberra e não o de Kofi Annan em Nova Yorque.

Da capital do Império,

Jota Esse Erre.

PS – Sim eu sei. Depois da coisa estar acalmada a ONU vem administrar a nova ordem. É para isso que serve (bem ou mal). Antes da resolução contudo é preciso “botas no terreno”. Neste caso made in Austrália
PS II – Americanos, britânicos, australianos… (deve ser une conspiration anglo saxonique, non?)

quinta-feira, 25 de maio de 2006

O verão chegou

Hoje o Super Rock dá o sinal de partida. Amanhã o Rock in Rio junta-se ao grupo. É aqui que começa o verão, onde a música se encaixa como num puzzle, e, nota a nota, vai construindo aquela que acaba por ser a banda sonora das nossas vidas. É uma picardia que se repete todos os anos, só para nos lembrar que continua a existir o sul, um local cheio de sol onde mora a fantasia.
Fotografia de Manuel de Almeida
Confrontos entre soldados rebeldes e membros da polícia hoje em Dili, Timor-Leste.
.........
Quem não me deu Amor,
não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
in "Linha de rumo", Ruy Cinatti

TABUADA PO_ÉTICA (cont.)

Po-ética quatro

difícil equilíbrio
o de caminhar uma vida sobre as pernas
o quatro fazer
para que te quero pernas senão desandar?
mais frequente andar é fazê-lo
às costas de alguém
dos convictos adeptos do tinto não reza a história
dos arrivistas sim


Po-ética cinco

são os dedos da mão
que calam fundo quando sobrepostos em coração
tresmalhada janela de cheiros e olhares
e as quinas cinco são
essa erecção nada dúctil de ementas pátrias
o que se chama
somando-os
dedos e suas metáforas
contraditório
pois nada mais útil que as mãos
e nada mais desútil que a pátria
mas a mão
mesmo inteira
e há as que não o sejam
sem a cabeça indicadora
pode apenas ser para terceiros
e muito acontece esta circunstância
chama-se a isto desarticulação
obediência ao tendão alheio

f.arom

(continua)

Foto de José Carlos Mexia

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Onde está a felicidade? Num copo de cerveja ou num chicote de cabedal?

1. A Amnistia Internacional considera que a violência doméstica em Portugal continua a ter dimensões preocupantes. No seu relatório anual refere mesmo que, em 2005, 33 mulheres portuguesas morreram vítimas de violência praticada pelo respectivo cônjuge.
*
2. Este relato surge na mesma altura de um estudo sobre o consumo de álcool nos jovens. A investigação revelada num Encontro das Taipas em Lisboa refere que 47% dos adolescentes em Portugal com 13 anos consome álcool. Os valores vão aumentando 10% ao ano. Já na idade adulta, os números são impressionantes. Os portugueses bebem 2,8 milhões de litros de álcool por dia. Em 2005, cada português com mais de 15 anos ingeriu em média 115 litros de álcool. Portugal já foi o número um na lista dos maiores consumidores mundiais, mas agora ocupa um modesto sétimo lugar.
*
3. Estas duas realidades revelam a intranquilidade que se vive neste rectângulo. Poderá ser um problema de género que está na origem desta situação? Vamos ver. O binómio álcool e mulheres está entranhado no imaginário masculino. Eliminá-lo é impossível, diminuí-lo é difícil. Será que um estado superior de satisfação, ou de felicidade, poderá diminuir a violência e o alcoolismo? Vamos buscar, por exemplo, o futebol. Se o sonho de conquistar o Mundial for uma realidade, será que ficará tudo melhor, mais feliz? A responda imediata é sim, mas no final vem um não. Não deixa de ser uma ejaculação precoce.
*
4. Vou introduzir novo elemento: a economia. Será através dos tostões que se vislumbra uma saída? Ser mais rico traz a felicidade? Ajuda sim, mas se formos honestos encontraremos um não. A voz do povo diz que “o dinheiro não traz a felicidade”.
*
5. O que fazer? Pensei: “em Roma, sê romano”. Fui ao Google e coloquei a seguinte questão: “O que é preciso para ser feliz?” As respostas não se fizeram esperar e nem foi preciso abrir as páginas para ficar com uma ideia. O mais engraçado que nenhum deles metia nem futebol nem economia. Assim, temos as respostas poéticas “para ser feliz é preciso ter paz e gostar de si mesmo” ou “para ser feliz é preciso passear os meus olhos pelos teus”, justificativasnão preciso casar para ser feliz. Catarina Campos ocupa um cargo de importância regional mas acredita que lhe foi oferecido por mérito”, o desabafo da solteirona desesperada “se encontrasse um marido honesto e dedicado, ainda podia ser feliz”, a solteirona feliztenho prazer de ser eu mesma, de ser feliz comigo e de adorar a minha companhia”, a cautelosapara ser feliz, é preciso que a gente aprenda a conhecer-se”, a maternal farta de aturar os filhos “você pode ser feliz tomando um sorvete, levando os filhos para brincar”. Também há uma perspectiva masculinaduas coisas para ser feliz na cama: ter muito apetite sexual e ser um homem famoso”. Esta última lixou-me. A concordância nominal “É preciso a consciência de uma criança para se ser feliz. Ou se usa o adjectivo assim no neutro, ou se faz a substituição”, a visão dos dietistas “é preciso querer ser magro. Demorou muito tempo a querer iniciar a dieta ou ainda faltam alguns quilinhos para ser feliz?”
Os mais complicados são os psicólogos. “Somente o indivíduo pode ser feliz. A felicidade não é produto da sorte. O que é preciso para um ser humano tornar-se indivíduo?” ou “É preciso mesmo ser feliz? É possível ser feliz sempre? A minha resposta a ambas é não”. Fico-me por aqui.
*
6. Percebi afinal que o Google não dá respostas para resolver o problema da violência doméstica e do alcoolismo. Vou beber um copo com a minha namorada e perguntar-lhe: ”estás a ser verdadeira quando me dizes quanto mais me bates mais gosto de ti?”

KGB À VENDA



Entre nós, e já amanhã, garante o "Jornal de Notícias".
Aqui

terça-feira, 23 de maio de 2006

Et vive la poésie

Grande Prémio de Poesia CTT/APE 2006
José Agostinho Baptista foi hoje distinguido pelo seu livro «Esta voz é quase o vento». Como este é um blogue de poetas e muita e boa poesia, não podíamos deixar passar em branco esta distinção. Se não conhece o premiado, investigue. Vale a pena.

"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista

Foto de Sérgio Santimano

Balama, Cabo Delgado, Moçambique. 2001

TABUADA PO_ÉTICA

(para coleccionar, no fim dão-se alvíssaras)


Po-ética um

os dedos
logo pelo cio das pássaras
nos horários nobres do orvalho
dedilham essa humidade
contentes de a terem aberta em lábios
o céu dorme e as ervas regurgitam
agora em lâminas erectas a noite que as teve silenciadas
são rainhas na calma obscura das raízes
no mastigar dos dias
algures
o mais esquecido dos cantos
acende um olhar no perfume
enraizado de maçãs na memória
e parte
ondas de clarinete
verdes em mar aberto


Po-ética dois

as formigas quando azulam
largam a fila em transparência fatigada
mas apolíneas
de harpas e seu som
apenas na infra posição do que nelas é a sua pata maquinal
se percutem as cordas
tudo isto se passa no continente das formigas
cabe no meu dedo mínimo
de modo invisível
falamos obviamente de formigas liliputianas
e de um ouvido atento


Po-ética três

nesta a matemática tem um papel
como se diz de um actor que tem um papel
e é um papel nada simbólico embora perder os três
seja mais do que simbólico
e sangre
as mais das vezes
tal como as pétalas ardem
ao dia chegado

(Continua.)

f.arom


Aqui começa uma colecção de poemas sequenciados. Irão surgindo com indicação do nº de série.

Frente de intensidade de mão-de-obra


Foto de João Azevedo

Rui Vaz, S.Domingos, Santiago, Cabo Verde. 2006

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Carrilho e Rangel contra Costa e Pereira ou Carilho contra Costa e Rangel contra Pereira ou Pereira contra Costa e Rangel contra Carrilho?

Hoje, no programa “Prós e Contras” da RTP1, vai debater-se a relação entre política e comunicação social. Presentes vão estar Manuel Maria Carrilho, Ricardo Costa, José Pacheco Pereira e Emídio Rangel. De cada lado da barricada vai estar um jornalista e um político.
As relações entre media e política voltaram a estar na ordem do dia depois do polémico livro de Manuel Maria Carrilho “Sob o Signo da Verdade”. Um dos factos, não o único, que despoletou toda esta discussão, prende-se com o debate de campanha entre Carrilho e Carmona Rodrigues na SIC-Notícias. No final desse debate, Manuel Maria Carrilho teve um diálogo tenso com Carmona Rodrigues e não lhe apertou a mão. Foi tudo filmado pelas câmaras da SIC-Notícias.

"Não pensei que estivesse a ser filmado, para gáudio de um espectáculo vergonhoso que a SIC-Notícias fez. Um amigo disse-me que isso era o que fazia a polícia política dos países de Leste: filmarem cenas privadas e usarem-nas para depois o humilharem".
Sobre o livro "Sob o Signo da Verdade". "Ricardo Costa falou de um livro que não existe, espezinhando o Código Deontológico dos jornalistas e mentindo ao dizer que sou impopular. Disse coisas grotescas, que são intoleráveis", e terminou dizendo que "há um poder opaco, impune, que é o da comunicação social".
Manuel Maria Carrilho

“A versão é absolutamente falsa. A gravação que a SIC fez foi feita por uma equipa de reportagem. Naquela noite, estava uma equipa de reportagem da SIC, como de outros órgãos de comunicação social, a fazer a reportagem de bastidores do debate. Assim que o debate acaba, abrem-se as portas e entraram esses jornalistas. E a cena do não aperto de mão dá-se já perante esses jornalistas e é filmada pela equipa de reportagem da SIC. Essa cena é feita perante o olhar dos repórteres, não é nenhuma cena feita no estúdio. E digo exactamente o contrário, que era ilegítimo e uma manipulação clara não termos passado isso. Era um facto tão inaudito que acabou por abafar o debate. A culpa não é nossa, é dele.”
Ricardo Costa

Foto de José Carlos Mexia

Breaking News! Breaking News!

J-L. Gergorin sem paradeiro certo
e a ensaiar fino a delacção encapotada


O combate de galos Villepin/ Sarkosi continua a galgar todos os limites do decoro e da geometria política-politiqueira. Depois das declarações contraditórias do general dos serviços de espionagem, Rondot, que afirmou tudo e o seu contrário a sucessivos jornais, o alto funcionário da EADS , antigo perito do MNE francês, Jean-Louis Gergorin resolveu por razões de conforto abandonar o domícilio pariseense para parte incerta, se bem que diz estar a disposição da Justiça do seu país." Tenho ainda muitas reservas sobre o que poderão fazer os juízes neste caso ", sublinha em declarações telefónicas hoje impressas no jornal " O Leste Republicano“, impresso em Lyon e Grenoble, na fronteira suiço-gaulesa.
O velho amigo de Villepin acrescenta que o PM francês " se via bem confinado no papel de cavaleiro sem medo e sem rabos-de-palha lutando contra a lavagem de dinheiro, mas quando souberam que queria consultar o juíz, surgiu um consenso na classe política francesa e no mundo da espionagem para silenciarem tudo ".

Ler desenvolvimento no:

LEMONDE.FR | 21.05.06
aqui

FAR

Mundial: contra o canal único, marchar marchar...

A Sport TV quer proibir a transmissão do Mundial em locais públicos. O canal que detém o monopólio das transmissões desportivas no cabo diz que já alertou várias entidades fiscalizadoras e exige o seu cumprimento. A Sport TV quer assim evitar que milhares de pessoas assistam aos jogos do Mundial em écrans gigantes ou em televisões em bares e restaurantes. O motivo é claro: angariar mais assinantes. Além de ser o canal mais caro do cabo, a Sport TV usa e abusa da sua condição de canal único. A Autoridade da Concorrência tem aqui uma boa causa para combater o monopolismo e espero que não perca esta oportunidade. Os consumidores querem mais concorrência, porque isso significa preços mais baixos e canais de desporto alternativos. E porque o Mundial está aí, vamos mostrar a nossa revolta anti-monopolista e furar esta pretensão da Sport TV. Não são suficientes os jogos da selecção nacional, que a SIC já tem assegurado. Queremos ver todos os jogos em locais públicos, como tem acontecido até agora. Por isso, a criação de um movimento de cidadãos é um imperativo. Será uma resposta contra mais esta atitude autista da Sport TV. E já que ninguém faz nada, temos de ser nós a tornar público o nosso descontentamento. Mande um e-mail à Sport TV e às respectivas empresas de cabo a dizer: “Eu gosto do Mundial, mas não da Sport TV. Quero um Mundial livre e para todos”. Se quiser dizer outra coisa, esteja à vontade. O que é preciso é não ficar calado.
Cabovisão - INFO@CABOVISAO.PT
Pluricanal - pluricanal@pluricanal.net
Bragatel - mail@bragatel.pt
TVTel - info@tvtel.pt

domingo, 21 de maio de 2006

Escola


Foto de Sérgio Santimano

Namuno, Cabo Delgado, Moçambique. 2001

sábado, 20 de maio de 2006

Informação ou manipulação?

É preocupante ficar a saber que a maioria das notícias que lemos nos jornais não é fruto de investigação jornalística. Mas mais preocupante é saber que elas nos são “impostas” por mãos misteriosas. De acordo com o Expresso de hoje “cerca de 70% das notícias publicadas nos jornais portugueses têm como origem as agências de informação ou os gabinetes de Imprensa”. Este estudo da agência Emirec revela que os jornais estão a por de lado a sua função de mediadores directos entre as fontes e os seus leitores. Se este panorama é negro, valeria a pena saber o que se passa nas nossas televisões. Aqui, aposto que a percentagem de notícias corta e cola é maior, uma vez que a investigação jornalística é mais reduzida do que nos jornais. Ou seja, praticamente não existe e as excepções apenas vêm apenas confirmar a regra. As notícias que enchem os diversos telejornais ao longo do dia têm a sua origem habitualmente nas manchetes dos jornais. Basta ver as primeiras páginas dos diários e semanários e compará-las com os destaques noticiosos nas televisões. Na origem deste problema poderá estar, por um lado, o facto das direcções de informação aceitarem o espartilho financeiro imposto pelas administrações. É óbvio que uma investigação sai mais cara do que reciclar uma notícia, ainda por cima, e de acordo com o estudo, quando tem a sua origem nas chamadas fontes organizadas de informação. Mas por outro lado, vem ao de cima o carreirismo de muitos responsáveis redactoriais, sem coragem de incomodar directamente o poder, sob pena de “encalharem” na sua carreira profissional devido a razões que só Deus sabe. A falta de coragem e ambição são confrangedoras. Será daqui que advém a sensação de vazio que os noticiários televisivos cada vez mais nos provocam?
Volto de novo à notícia do Expresso. A investigação compreendida entre 2000 a 2005 de Vasco Ribeiro, que tem como base o JN, DN, CM e Público, revela que 73,5% das notícias analisadas são provenientes de assessorias de Imprensa do Governo, das autarquias e agências de informação.
Seria a isto que Manuel Maria Carrilho se referia no seu livro?

Esboço de Luís Ralha

O designer e a responsabilidade

Nós estamos, aqui e agora, confrontados com uma realidade complexa. E essa percepção crescente justifica a inclusão em ‘Reflexões sobre o Design’ de uma conversa sobre a responsabilidade social do designer, tema que ainda recentemente seria considerado inoportuno, deselegante, polémico, contra a corrente.
Submergidos de objectos por todo o lado, encurralados por um gosto global e necessidades criadas por um marketing omnipresente, com alternativas sem fim, que diluem as referências e a história, o efémero como estratégia para a multiplicação de mercado, reduzindo o tempo de vida e o valor de uso dos produtos – produtivizando a ‘ideia’ – quem somos, para onde vamos, para quê e para quem desenhamos?
As sucessivas modas, o gasto irresponsável de matérias-primas não renováveis – somos das poucas gerações com acesso ao petróleo – a poluição do ambiente, incluindo a visual, vão criando perplexidades que nos paralisam.
O desperdício gerado por esta produção liberalizante afunila o consumo para grupos socioculturais ganhadores e os outros, os perdedores, que constituem a grande maioria planetária, vão-se limitando a uma existência cada vez mais redutora, envolvidos todos nós por uma informação excessiva que não dá folga – conhecemos a marca das botas do Figo e as imagens anorécticas das passarelas. O pormenor e o acessório são fundamentalizados, apetece pôr a zero, reencontrar raízes.
O fascínio das novas tecnologias e materiais, o espasmo estético da renovação formal acelerada para a mesma função, o novo pelo novo, o diferente como moderno parecem ser a ordem natural das coisas. Será?
Não devemos pedir mais ética e menos estética?

Luís Ralha

intervenção no ciclo de conferências ‘Você está Aqui’, promovido pela associação de estudantes da Escola de Belas-Artes de Lisboa.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Mulher muito pobre


Foto de João Azevedo

Moia-Moia, S. Domingos, Santiago, Cabo Verde. 2006

"A Esquerda Caviar": novo livro de Laurent Joffrin

Ensaio, manifesto ou panfleto, o novo livro de Laurent Joffrin, director da redacção do Le Nouvel Observateur, o mais prestigiado newsmagazine do centro -esquerda francês surge na conturbada vida política tricolor e com opções decisivas à beira de serem tomadas: a reformulação estrutural da política socio-económica e a escolha do sucessor de Jacques Chirac, onde se projectam/ interseccionam as disputas fratricidas de Villepin/ Sarkosi e a nebulosa dos diversos candidatos socialistas em desordem. Pode ser uma resposta mais construtiva ao desafio iconoclasta da ruptura lançado pelos sarkosistas e seus peões-de-brega, às tentações liberais e pró-americanas de direita em ruminação no microcosmo pariseense?.

" Antes de ser uma categoria política, a esquerda caviar é um espaço. Ou melhor: vários espaços, varias tribos, vários pequenos mundos que se cruzam e baralham. Cada um deles suscita as suas críticas, os seus ressentimentos, por vezes as suas raivas. Há a esquerda caviar dos intelectuais, dos patrões, dos editores, dos políticos e dos jornalistas ".

Laurent Joffrin faz parte do escol da geração dos anos 80, de que fazem parte Denis Olivennes, o novo patrão da FNAC, Patrick Weil, os herdeiros Nora e a grande maioria dos novos craques do mundo editorial pariseense. Joffrin entrou no " Libération " em 1981 e assumiu toda a nova estratégia de rigor e de rentabilidade concebida por Serge July, o antigo mao-sartreano de elevada qualidade que perseguia a ideia de fazer concorrência ao Le Monde. Com a saída de F-O. Giesbert, é convidado para o Nouvel Obs em 1988.

De uma forma muito elegante e profunda, Joffrin narra as raízes da " esquerda caviar" mundiais : as receitas dos clans Roosevelt e as do de Kennedy , e a da sua génese francesa, a partir de Jaurès, normalien e filósofo, de Lèo Blum , intelectual e advogado, até ao "misterioso" Mitterrand, que foi católico e conservador na juventude e se eleva 30 anos depois a impôr a aliança com o PCF, um dos Pc´s mais estalinistas da Europa. " Sobre o plano doutrinal e militante, em matéria de consciência social ou de visão económica, está( Mitterrand) muito abaixo de Jaurès, de Blum ou de Mendès-France. Mas ultrapassa-os de longe em estratégia política ", refere.

" Para a esquerda caviar, a existência precede a essência. As ideias iniciais, os preconceitos de classe, as convicções herdadas não determinam a vida da élite progressista. É a vida que forja as suas ideias ", frisa, para deambular sobre o perfil moral de gigantes como Vítor Hugo e Emilio Zola, hoje tão actuais na sua narrativa . E sublinhando que a " esquerda caviar " pelos efeitos da mundialização abandonou a " hegemonia moral e ideológica aos seus colegas adversários do liberalismo mais rigido ", Joffrin preconiza que a esquerda democrática volte a contar com os idealistas da " esquerda caviar , de forma a evitar o perigo do populismo"e as aventuras de uma conflitualidade total e intangível.

FAR

TIMOR, Alkatiri sentado sózinho

Da capital do Império

Olá,
Não sei se alguns de vocês se lembram mas em tempos afirmava-se que “o que é bom para a General Motors é bom para a América”. Isto era nos tempos em que se dizia que o orçamento para papel higiénico da General Motors era igual ao orçamento total de Portugal.
Não sei se essa história do papel higiénico era verdade e também não sei se ainda o poderá ser. O que eu sei é que afinal o que era bom para a General Motors não é bom nem para a América nem para a própria GM. E sei também que o que se passa com a General Motors é uma lição económica dura que vocês aí do outro lado do charco na UEtupia deviam estudar com atenção.
Para vos dar uma ideia de quão má é a situação da GM basta vos dizer que recentemente a companhia fez soar as trombetas da vitória porque no primeiro trimestre deste ano teve prejuízos de 323 milhões de dólares. Eu cá não compraria acções da GM mas … pronto, vá lá…. para quem perdeu 10 mil e 600 milhões de dólares no total de 2005, perder 323 milhões em três meses é uma boa negociata ou como disse um comunicado da dita cuja “um marco” . Há quem diga que uma análise mais estrita dos livros revela que este “marco” é maior do que a GM admite, que na verdade a companhia está ainda a perder 13 milhões de dólares…por dia.
Mas o que é que isto tem a haver com UEtupia (ou cê ié ié como se dizia antigamente aí na Lusitânia)? É que a GM pode a qualquer momento abrir falência por duas razões simples:
1) Assumiu-se durante anos como um “estado de bem-estar” para os seus trabalhadores
2) a concorrência dos japoneses e agora dos sul coreanos e em breve dos chineses ( ou seja a concorrência/globalização) tornou o paragrafo 1) insustentável
Vejamos alguns exemplos da “follie”. No tempo das “vacas gordas” quando a GM tinha controlo do mercado americano (juntamente com a Ford e a Chrysler) julgou que isso era uma situação que iria durar para sempre, que a expansão da procura dos seus produtos estava garantida para sempre (a la produtores de vinho francês). Quem também assumiu isso - com mais vigor como lhe compete foi o sindicato UAW (United Autoworkers Union), uma das mais poderosas organizações laborais dos Estados Unidos. A combinação produziu algo de fazer inveja à social-democracia escandinava. Vocês sabem por exemplo que a General Motors tem um … subsídio de desemprego?
É verdade. Ao abrigo de um acordo entre a GM e a UAW assinado em 1984 foi criado uma “banco de emprego” em que trabalhadores do sector automóvel abrangidos por esse acordo que sejam despedidos não vão para a rua. Vão isso sim para o tal “banco de emprego” aguardando apenas que os bons tempos regressem pois …. a expansão da procura é inevitável. (Dream baby, dream!) Nesse tal banco de emprego, os trabalhadores a que a ele pertencem têm que ir ao emprego todos os dias aprender algo que poderá eventualmente um dia ser útil à indústria automóvel, o que significa …nada. Os trabalhadores são mais realistas e chamam aos locais onde se têm que concentrar para aprender coisas inúteis o “quarto dos loucos”. A GM tem 7.500 trabalhadores a viverem deste subsídio de desemprego com o pretexto de estarem a ser retreinados e a quem é pago não só o seu salário total mas também o seguro de saúde na sua totalidade (que inclui familiares) e ainda os fundos de reformas. Custo anual para a GM: entre 750 e 900 milhões de dólares.
E tal como acontece com os subsídios de desemprego em muitos países da UEtupia… não têm fim. É, como se diria em Moçambique, uma situação…
Outro problema da GM é que a sua força de trabalho foi envelhecendo. Hoje a GM tem 147.000 trabalhadores e 460.000 reformados. Graças aos acordos com a UAW os que passam à reforma recebem não só a reforma mas também cuidados de saúde sem igual nos Estados Unidos. Reformado da GM não paga um centavo quando vai ao médico. Faz lembrar certos países, não é? Resultado: só o ano passado a GM gastou cinco mil e 400 milhões de dólares em gastos de saúde (reformados, activos e familiares) o que é mais do que os rendimentos dessa outra grande companhia americana a Harley Davidson. O que é mais de mil e duzentos dólares por veiculo. Em cada carro da GM há portanto mais cuidados de saúde do que aço, disse alguém.
Junte-se a isto o facto de que durante anos, preocupada em manter o sistema a funcionar a GM descurou os seus produtos jogando sempre no princípio de que o seu mercado era garantido. O seu departamento de investigação e desenvolvimento caiu porque os fundos eram cada vez menos (porque é que aqui eu me estou a lembrar do Durão Barroso a chorar que a UE precisa de gastar mais massa na “research and development” mas que todos dizem que não há “massa”?)
Aqui nos Estados Unidos a anedota do consumidor era a certa altura que a garantia de um carro da GM “acaba quando ultrapassar o passeio entre a loja e a estrada”. Tão desligada estava a GM do mercado que ficou totalmente surpreendida quando depois dos japoneses lhe abrirem o mercado foi informada que para vender carros no Japão tinham que os fabricar com o volante à direita porque lá guiam como em Inglaterra. É verdade!!
Mas o consumidor não é estúpido e os concorrentes também não. Em 1965 a General Motors tinha 50% do mercado americano. Em 1985 tinham 41%. O ano passado 26%. A Toyota deverá este ou o próximo ano tornar-se no principal vendedor de automóveis dos Estados Unidos. As marcas estrangeiras (na prática japonesas e sul coreanas) controlam hoje 43 % do mercado americano. Faz pensar em certos produtos aí desse lado do lago, não é?
Há que dizer que graças à concorrência os produtos da GM melhoraram e muito,. Há também que dizer que recentemente a UAW depois de fazer contas à vida viu que a galinhas dos ovos do estado do bem-estar estava a ficar de papo para o ar e concordou em fazer concessões para reduzir os custos e poupar à companhia cerca de mil milhões de dólares por ano. O que pode ser um “marco” . Vamos a ver. Há quem não acredite.
O que é um “marco” é que o que se passa com a GM prova aquele velho ditado económico e que se aplica aí onde as pessoas pensam que a galinha do estado do bem-estar é eterna: Factos (como concorrência, globalização, envelhecimento da população, etc.) são coisas teimosas. Não se vão embora.
Abraços
Aqui da capital do império

Jota Esse Erre. PS – Tenho a dizer-vos que eu gosto da e aprecio a ideia de não descontar no meu salário para pagar um seguro de assistência médica, ou de ir à universidade sem pagar ou de me reformar com tudo pago pela GM ou estado ou seja lá quem for. Quem não gosta disso? Mas o problema é que em questões económicas, como diria o grande revolucionário e/ou revisionista Nikita Kruschev “a economia é uma coisa que não respeita os nossos desejos” . Ou nas palavras desse grande filósofo inglês Mick Jagger: “You can’t always get what you want”.

Fim

Jota Esse Erre

Foto de José Carlos Mexia

quinta-feira, 18 de maio de 2006

O Sobe e Desce

IN Contra todas as expectativas, o ministro das Finanças admitiu que o Governo pode não aplicar o aumento do imposto sobre os produtos petrolíferos previsto no Orçamento de Estado para 2006. Justificou esta medida dada a conjuntura dos mercados petrolíferos. Enquanto ela se mantiver, não se aumenta. Os partidos da direita já manifestaram o seu apoio e da esquerda ainda não ouvi nada. Em Janeiro deste ano, só com o aumento em 2,5% da taxa do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (IPP), o governo gerou 210 milhões de euros de receita.
= Há quem continue a afirmar que as SCUTS vão todas ter portagens em breve. Quem apostou no aumento do IPP já falhou. Ganhará aqui? Não percebo porque a razão a direita aplaude o não aumento do IPP e reclama portagens nas SCUTS. Não são todas receitas para combater o défice? Até agora o que se sabe é que está em curso um estudo sobre o novo modelo de financiamento da rede rodoviária. Deverá estar concluído este ano. Mário Lino disse na altura (finais de 2005) que o actual modelo das Scut não seria alterado enquanto as condições económicas e sociais se mantivessem e desde que não houvessem vias alternativas. Acreditar ou não, eis a questão.
OUT A lei das Rendas está para mudar e a maioria das pessoas ainda não percebeu como é que essa mudança lhe vai afectar a vida. Até agora o governo ainda não conseguiu passar uma ideia clara sobre as mudanças. Noticias contraditórias e declarações avulsas só estão a gerar mais confusão. É importante que todas as questões relacionadas com o novo regime do Arrendamento Urbano, diplomas complementares e o Regime Jurídico das Obras em Prédios Arrendados sejam esclarecidas, de forma clara e simples. Porque vai mexer com a vida de muitos milhares de pessoas. Se por um lado há que inverter rapidamente a tendência da degradação do parque habitacional, não se pode esquecer que há que criar soluções para milhares de famílias, muitas delas constituídas por pessoas muito idosas e com parcos rendimentos. Não penso que deva ser o mercado a resolver o problema, porque se trata de um problema social que envolve uma franja etária muito vulnerável. Esse ónus é do governo, que deve aclarar as linhas gerais das novas relações jurídicas que vão surgir. Mas, ao que parece, a confusão vai-se instalando, excepto para os iluminados do Direito.

Foto de Sérgio Santimano
Da série "Ville, Capitales d'Afrique"

Xipamanine, Maputo, Moçambique. 2000

São como ossos que se desarticulam

Omnidentais

São como ossos que se desarticulam
Sob a pressão metálica dos directos
E nada sangra
Cirurgia de silenciador
No turbilhão de imagens a gota de sangue
É inexistente
Atiram-nos contra a cara uma multidão de corpos
Enquanto logo uma simbólica nas gargantas esganiçadas
De uns mais descalços que outros
É erguida em fúria cega
Já nada passa silencioso
No passo ancestral de morte e luto
Nem os rituais têm o seu tempo

A água nas mãos
Lenta na sua transparência soluçada
Deitarmo-nos com o poente
Semicerrar os olhos
Num alentamento do corpo
Extinguiram-se
Tudo corre atrás dos próximos cadáveres
Numa contabilidade infindável de ódios
Contar aprende-se a somar valas comuns
É este o estádio supremo do desenvolvimento
E esta é a fé

E as multidões ululam
Em espasmos globais de bola entrada na baliza
Espasmos salivados contra o outro
Globalizados nunca fomos tão canhestros
E o palco do mundo
É mais velho que uma arena de gladiadores


Sob o olhar jogador da turba
O imperador aposta o seu poker íntimo
Em gestos de tédio
Comerciando carne como quem rói as unhas
E verde é o campo da bola
Não o olhar espraiado em qualquer estepe
Savana ou deserto

Acontece por vezes
Quando uma súbita maresia rompe o ecrã
E certamente escapada ao turismo de massas
Que na pele do ar que nos oxigena
Partículas de silêncio
Evoluem como pássaros azuis
Em forma de violino e abas de grilo
No arame de um circo campânula de paz
Aí respira
O que pode
Um nariz de clown

f.arom

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Do sol e dos toiros e outras elucubrações

A praça de touros do Campo Pequeno reabriu ontem sem touros. Nem mesmo um boi. Nas escadarias forradas com tapetes vermelhos apenas vaquinhas e vaquinhos. É certo que são os mais distintos da socialite lisboeta e arredores, mas isso não se faz. Também não vi forcados e campinos. Só mesmo emissões em directo com sorrisos em diferido. Alguns estavam mesmo retraídos, preocupados com conotações taurinas e ornamentos naquelas testas bem pensantes. Mas notou-se que fizeram um esforço para não pensar nisso. No entanto, não faltaram os pensamentos profundos. “As nossas touradas são outras”. Esta foi das frases mas elaboradas que Alberto João Jardim proferiu nos últimos tempos. Não sei se foi a ele que a Ministra da Cultura se referiu quando disse que as touradas verdadeiramente tradicionais “não passam pela morte do touro”. De facto, mais tradicional que Jardim é difícil de encontrar. Mas algumas críticas não pouparam o estado actual de Lisboa. “A cidade está cheia de espaços mortos e de património mal cuidado”, disse Paula Teixeira da Cruz, autarca do PSD e presidente da Assembleia Municipal de Lisboa. Ooopss. “Não sou eu a responsável por este estado de coisas?”, pensou minutos depois. Como não estava para queimar o neurónio, começou a dar beijinhos a torto e a direito. A noite era das loiras, definitivamente. A sorte da autarca é que a populaça está tão tesa que nem dinheiro tem para comprar Ginkgo Biloba para manter a memória saudável. Mas a noite lá prosseguiu com o glamour característico destas ocasiões. As vaquinhas e os vaquinhos divertiram-se imenso e nem tiveram de fazer grande esforço para evitar a arena. A organização já tinha previsto que poderia haver mentes baralhadas com tanta oxigenação. Por isso marcou a tourada só para amanhã, não vá alguma rica enganar-se na porta da casa de banho.

Foto de José Carlos Mexia

terça-feira, 16 de maio de 2006

Brasil, São Paulo
*
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto, mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelho
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vem de outro sonho feliz de cidade
aprende de pressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Caetano Veloso, Sampa

Investimentos e jogos de cintura

Em alturas de crise, quando se fala em investimento, tudo o que vem à rede é peixe. Pelo menos no início. Foi o caso da refinaria de Sines. O atómico Patrick Monteiro de Barros prometia um investimento vultuoso, que deu em nada. Se a promessa de criar em Sines a maior refinaria da Europa é um isco irresistível para qualquer governo, também se deve louvar a recusa de comprar gato por lebre. Mas, no Diário de Notícias, o advogado laranja Proença de Carvalho protestou contra o que chama contrapoder burocrático: “criaram-se na Administração, em especial na área do ambiente, visões fundamentalistas e delirantes sem correspondência efectiva com os valores a preservar, que estão a criar obstáculos ao desenvolvimento de iniciativas globalmente meritórias”. Veja-se a lata! E lança um elogio a Miguel Cadilhe, que “deixou um excelente diagnóstico dos porquês da dificuldade em atrair investidores. Uma das causas mais influentes é a teia burocrática que asfixia qualquer ideia”. Este diagnóstico foi a única coisa visível que Miguel Cadilhe fez, mas não penso que ele assinasse por baixo esta iniciativa nos moldes em que estava. Na relação custo/beneficio, a região e o país perdiam. Manuela Ferreira Leite, no Expresso, escreveu que não gostou da atitude do governo. “Começa a ficar claro, o que há muito se suspeitava, que existe um abismo entre o anúncio e a realidade. É a distância entre o entusiasmo e o desânimo, entre o projecto e o vazio, entre a ficção e a realidade. Estou, por isto, com uma dolorosa dúvida. Não sei se o ministro se enganou, como disse, ou se nos enganou, como parece”. Os analistas têm outra perspectiva. Para Nicolau Santos, “não é fácil um Governo ter em mãos um potencial grande investimento de €6.000 milhões, anunciá-lo com pompa e circunstância - e depois deixá-lo cair. (…) O ministro da Economia esteve, pois, muito bem ao «matar» elegantemente o projecto”. Já Miguel Sousa Tavares, também no Expresso, destaca o facto de “correram a rufar tambores e a posar ao lado do grande empresário. Afinal, descobre-se agora que a refinaria iria libertar 2,5 vezes mais CO2 do que o anunciado, iria envolver 1200 milhões de euros de comparticipação pública, a compra dos direitos de poluição por parte do Estado e mais uma orgia de incentivos fiscais”. Foi este gato por lebre que Sócrates não comprou e bem. A oposição reagiu carregando no piloto automático das frases do costume. Para o PSD foram manobras de diversão do governo e o CDS-PP pediu explicações no Parlamento. Sabendo-se que Pedro Sampaio Nunes, agora vice-presidente do CDS, é colaborador de Patrick Monteiro de Barros, tanto no projecto da refinaria de Sines como na construção de uma central nuclear em Portugal, pergunta-se: o grupo parlamentar funciona já com patrocínios?

Pintura de Luís Ralha




fim de poema

.....................................................

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.


Sebastião Alba

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Histórias de um deus menor

Sou suspeito ao escrever sobre Manuel Maria Carrilho. Não gosto dele mas gosto da mulher dele. Foi por isso que o apoiei nas eleições. Com as devidas reservas. Eu sei que este é um mau começo para qualquer escriba, mas arrisco. Não gosto do MMC porque é um autista convencido que é um iluminado de excepção. Conhece Kant e Maquiavel melhor do que eu, assim como a trica política. Mas não sabe geri-la nem percebe as regras do jogo em que se meteu. É demasiado altivo e arrogante para sequer tentar perceber o progressivo deserto que foi criando ao longo da campanha eleitoral. Jogou com o apoio de milhares de eleitores em função das suas birras. Ao querer integrar-se no mundo do glamour cabotino lisboeta, como um golpe de asa para ganhar eleições, tinha de conhecer as regras do jogo, ou pedir a alguém que lhe explicasse o que fazer nessas circunstâncias. “Sob o signo da verdade” é um livro esclarecedor, não só para os seus admiradores, que tinham em grande conta o filósofo ou o político, como para os seus detractores. Como resultado do lançamento destas estórias da miséria humana, Carrilho fica mais sozinho do que nunca. Os seus críticos ganharam com este escarafunchar numa ferida que já estava esquecida. Para eles foi a cereja num bolo que desejaram e do qual já se tinham esquecido. Não fiquei com vontade de conhecer o conteúdo do livro porque cheira a histórias tontas e sem sentido. Mas uma coisa é certa. Continuo a gostar da mulher do ex-canditato ofendido. Se decidir entrar na próxima corrida eleitoral, ela pode contar com o meu apoio.

domingo, 14 de maio de 2006


Foto de Sérgio Santimano

Anjuna, Goa, Índia. Janeiro de 2006


Mercado popular que se realiza todas as quintas-feiras.
Antigo meeting point de hippies.

Mesa

Gelados Chile

no mesmo passo
entre o odor a formigas estalando nas narinas
como pedra portuguesa em fogo
passam as nuvens
tardias

a caminho de outros poentes
outros poemas
e poentes
a mesma perfumada mancha na paisagem dos neurónios

mas a estes
impregnados de contemplativa retroprospectiva
alguém os escreve sobre toalhas de papel
num gesto deslizando
soprado de vida
como o pão acontece

ali
na cadeira exígua
olhar debruçado para a bica
o corpo dobrado a memórias
está gentil e silencioso
são letras num arame
em equilíbrio menos que precário
da perna do A de antónio ao O de mora
cada respiração
a tecla de um piano sem cauda
navegando súbito na infinita língua da costa Indica
a pulmões plenos


à força do branco marfim teclado
a negras batidas
as menores
sonoras
abrem solos para crepúsculos de arcos íris utopicamente entrepostos
súbitos como paisagens em aceleração
aos olhos de uma derradeira visão
crepúsculos de odor a glicínias de Maio
no Tejo à mão
e na Brito Camacho
também no porto a Catembe de lá

o chapéu pousado
os ossos encavalitados
circo da vida esse malabarismo das articulações
desaprendidas já do tempo das acácias florindo
sepultadas com os poemas mais físicos
para os lados da ponta vermelha

e não acontecem

e isso foi na altura em que fizemos o pião com o DKW
na moamba
e lá vem ela
a MOAMBA
escrita com arbustos rasteiros
recortados e adornando a encosta
- à moda do Minho sabe-se lá
e que tínhamos nós com o Minho?-
no mesmo passo de antes


agora a velha posição na mesma mesa e a mesma respiração
a tinta nos dedos mais que a leitura
malaca é hoje uma palavra vaga e só é para aqui chamada porque nos chega a maresia de uma saudade intensamente bebida nas crónicas
prolongamento de especiarias num odor a quinhentos

quantas vezes apesar de tudo se viveu o caril
silves
marvão
inhambane
namaacha
salvador
bahía
goa

vultos em uma esquina ao dobrar a folha da vida

e também uma prospectiva para as criaturas
e esse dom de pensar um mundo descomerciado
de gente livre
singular e único

f.arom

Foto de José Carlos Mexia

A família, as betas da linha e a Filó

Veio parar às minhas mãos esta semana o último número da revista Atlântico. Na minha modesta opinião, a única coisa que a revista tem de bom é o facto de vender pouco. O resto é mais do mesmo. Uma revista de amigos para amigos, com crónicas bem pagas. Quem assinou as suas confissões numa coluna sobre a FAMÍLIA a foi a Maria Filomena Mónica, a nossa “crida” MFM. Não sei porque razão, MFM e o seu Bilhete de Identidade têm sido um tema recorrente ultimamente em várias conversas entre amigos quando se fala de sexo e opinion makers. Não percebo o interesse das quecas da MFM com o Vasco Pulido Valente, quando andavam juntos. Para mim é como falar em geriatria e vida sexual após os 80. Mas, voltando ao que interessa. MFM escreve assim sobre a família na revista “Atlântico” de Maio: “É melhor viver no seio de uma família harmoniosa e culta do que entre grunhos despenteados e sujos, disputando entre si o afecto, o status e o dinheiro”. O que significa, à contrário, que nas famílias “harmoniosas e cultas”, não há grunhos a disputarem afectos, status e dinheiro. MFM continua uma gracinha e sempre da linha. Mas isto parece-me uma fraqueza. Os seus detractores dizem que sempre foi assim. Uma fraca desgastada. Mas eu não. Nem penso que seja grunha nem despenteada. Mas andando. Um pouco mais à frente, acrescenta: “ao longo dos séculos, fizeram-se muitas experiências no sentido da substituição da família, mas todas falharam, incluindo as comunidades hippies, que sempre me pareceram detestáveis”. Não posso estar mais de acordo. Se há coisas detestáveis eram as comunidades hippies, freaks e outros marginalismos militantes. Aquilo era tudo uma rebaldaria, que nem se chegavam a saber bem quem eram as suas famílias. Um perfeito horror. MFM descreve no seu BI (pág.159) a sua procura por uma identidade icónica na Londres plebeia no início dos anos 60. Queria modelos que pudesse copiar. Não os encontrou. Só anos mais tarde, o click veio quando apareceu Julie Christie e a nossa baronesa Marianne Faithfull. MFM é condescendente. Podem ser ovelhas negras, hippies até, desde que venham de famílias bem. Podem ser taradas, heroinómanas, e tudo o mais, mas noblesse oblige. Percebeu isso cedo e ao que parece defende esta bandeira na trincheira da “sua esquerda”. Também foi isso que me guiou toda a vida. Mas, no fundo, o que eu queria mesmo era foder as famílias bem. Taras de gajos radicais de esquerda. Já Freud alertava para esses recalcamentos. Mas as coisas correram mal. Hoje, a minha vida é um pesadelo, e tem muito a ver com a personagem da série “O Fugitivo”. É que as betas da linha não perdoam e jamais esquecem.

sábado, 13 de maio de 2006

Da capital do Império

Olá,
Presumo que alguns de vocês estão chateados com a minha falta de regularidade e talvez mais ainda pelo facto de eu na minha última carta ter prometido que vos iria escrever dentro “de dois ou três dias” para finalizar as minhas impressões sur le Quebec. Foram dois ou três dias à… espanhola (ou à portuguesa?).
No Quebec isso seria razão, talvez, para me chamarem “meu hóstia”. Hóstia? É de fazer rir de espanto mas é verdade.. No Quebec não chame a alguém “hóstia” ou diga a palavra “tabernáculo” ou “cálice” ou mesmo “baptismo” em público. Essas palavras, todas elas vindas dos rituais da Igreja Católica, são insultos ou pelo menos palavras estilo “porra” a não dizer em boa companhia, portanto. Como por exemplo “mon ’sti” (meu hóstia) é o equivalente a dizer “meu sacana”.
“Ah mautadit tabarnac ’sti baptême”, seria como afirmar “Ah maldito sacana, porra, caraças”. (Note-se que o quebecois não diz “maudit”. Faz-lhe uma modificação ligeira só para dificultar a vida dos tipos como eu que por terem aprendido francês na escola pensam que vão compreender o que dizem os quebecois. Pois, pois…)
Isto para voz dizer que o uso de “cálice” e “hóstia” como pejorativo demonstra que o que em tempo era muito sagrado para os quebecois é agora algo a ser totalmente menosprezado. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, diriam alguns. O que é verdade mas neste caso reflecte, mais do que isso, a conturbada história desse pedaço francófono implantado na América do Norte em que a Igreja Católica jogou sempre um papel importante. Primeiro a “civilizar” os “sauvages” que habitavam essa zona a que chamavam Kebeq e depois a manter calmos os descendentes directos das ambições imperiais falhadas de la patrie française.
(Alguns dos indígenas chatearam-se mais rapidamente com os padres do que a brancalhada local. Fui informado que há uns “mártires” católicos - esqueço-me os nomes - que foram cozinhados vivos pelos índios. Não sei bem com que fim porque fui também informado que não os comeram.)
Após James Wolfe ter derrotado Montcalm em 1759 os “bifes” decidiram deixar os francófonos locais às suas instituições semi-feudais vindas de França e na qual a Igreja Católica jogava um papel predominante. O papel da Igreja Católica em governar os Quebecois aprofundou-se após uma falhada revolta em 1837 que levou à execução dois anos depois de 12 “patriotes” que se convenceram que poderiam derrotar o império britânico. (O que prova que o frio daquelas zonas congela não só as mãos mas também o cérebro. Explica também o misterioso “Je me souviens” escrito em todas as matrículas dos carros de Quebec. Não é - ao contrario do que pensam muitos Quebecois - “je me souviens… de les anglais” mas sim “Je me souviens… de les patriotes).
A partir dessa revolta a Igreja Católica assumiu-se como entidade protectora dos quebecois controlando TUDO na vida local. E quando eu digo TUDO não é tudo à la igreja portuguesa. É TUDO. Por exemplo só após a “ “Revolution Tranquille” dos anos de 1960 é que a Igreja Católica deixou de controlar a educação. Todos os quebecois do sexo masculino nascidos até aos anos 60 têm o primeiro nome de Joseph. Todas as mulheres nascidas até à “revolution tranquille” têm o primeiro nome de Marie. Mas ninguém toma atenção agora ao primeiro nome. Portanto quando for ao Quebec não peça para falar com a Marie. Embora o país esteja repleto de Marias ninguém sabe quem elas são. (De qualquer modo essa de dar a todos os machos o nome de Joseph fez-me lembrar aquela história do chefe de posto de Moçambique que no dia de registar nomes dava a todos os nomes de António ou Oliveira em honra do “patrão grande” em Lisboa).
No Quebec e após as revoltas fracassadas a Igreja Católica decidiu que o papel dos quebecois era o de não chatear os “bifes” que passaram a controlar o comércio e a indústria transformando os francófonos em agricultores, trabalhadores ou, os mais afortunados (poucos) em médicos e engenheiros mas nunca “businessmen”. Como dizia a igreja católica da região “On est né pour un petit pain”. O “grand pain” pelos vistos era para os ingleses…
Jean Lesage, o homem que lançou a “revolution tranquille” mudou – se calhar sem o querer – tudo isso. Deixou de haver canadianos francófonos, passou a haver quebecois: o “joual”, esse maravilhoso francês livre que se fala na província passou a ser honrado como tal, falado em peças de teatro, usado nos livros. A Igreja Católica foi para o galheiro. Igrejas há muitas mas a sua influência é nula. No “Oratoire St Joseph”, uma enorme igreja que me faz lembrar o Sacré Coeur de Paris, há sempre dezenas ou centenas de pessoas. Turistas a verem, imigrantes a rezarem. Quebecois? Só a acompanharem os turistas….
Pena que já me esteja a alargar demasiado mas tenho que voz dizer ainda que descobri porque é que o General de Gaulle em 1967 causou um “barraca” diplomática quando gritou da varanda da câmara municipal de Montreal: “Vive Le Quebec Libre”.
A umas poucas dezenas de metros da Câmara há uma estátua de Lord Nelson que foi ali colocada pelos ingleses antes mesmo de terem construído a famosa estátua colocada na praça de Trafalagar em Londres.
Eu creio que De Gaulle, da varanda olhou para a estátua e deve ter dito para consigo mesmo “Mautadit ’sti calice” e depois bem alto para todos ouvirem:
“Vive le Quebec … Libre”. Tomem lá ó “bifes” que é para aprenderem. “Baptême! Calice!”
Estou ainda convencido que como prémio os quebecois lhe ofereceram depois um “peido de freira” (Pet de Soeur), um bolo de receita local.
Do vosso amigo
Jota Esse Erre

PS – O Boulevard St Laurent (conhecido por todos como “La Main”) divide a cidade na parte inglesa e quebecoise. Uns para um lado outro para o outro. Os imigrantes de língua inglesa (indianos por exemplo) vão para o lado inglês. Os de língua francesa (Haiti por exemplo) para o outro. As lojas dos tugas estão no meio, ao longo do Boulevard St Laurent, à “beira Main” plantados portanto. As ruas dos generais Wolfe e Montcalm estão lado a lado a indicar senão uma reconciliação um andar paralelo de vizinhos. E no livro de visitantes da Câmara Municipal houve um canadiano inglês que escreveu em inglês: “O meu Canadá inclui o Quebec porque sem vocês não seríamos canadianos – seríamos americanos insignificantes”. Bonito…

Jota Esse Erre

Pintura de Luís Carlos Galvão

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Tinariwen, o som quente do Sahara

São gente do deserto e não tocam rock, nem samba nem trip hop. Vêm do Sahara, talvez com alguma sede mas com muita força na alma. Chamam-se Tinariwen, são do Mali e consideram-se "imajeghen", o que quer dizer "homens livres". Começaram a tocar num campo de treino para guerrilheiros, cuja população era maioritariamente refugiada. As suas músicas também são as suas armas. Nos primeiros tempos, no início dos anos 90, utilizavam as canções como instrumentos de consciencialização e mobilização política.
O seu último disco "Amassakoul" é um álbum intenso, salpicado com slow rock e letras politizadas. Recebeu boas críticas da revista norte-americana "Billboard" e foram considerados os melhores da World Music em 2005, pela BBC.
Se não tiver preconceitos e quiser ouvir novas propostas culturais vindas de terras com tradições diferentes da sua, vá hoje à noite (sexta) ao Bar Lua, no Jardim do Tabaco, em Lisboa. Depois conte.


Esmalte de Luís Ralha


...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda...

Cecília Meireles

Dominique de Villepin ultrapassa demissão anunciada?

" Muita loucura é o mais divino senso "

Esta epígrafe de Emily Dickinson, na tradução apaixonada de Jorge de Sena, pretende marcar e traçar o ambiente de frenesim, de estonteante ribombar e, ao mesmo tempo, sinalizar sobrepostos golpes palacianos que agitam a classe política francesa. É a versão hard, a mais despudorada, daquela tese de que "as élites mundiais só pesam nelas e na sua irradiação, mais nada". Eu que denunciei sempre as teses conspirativas e de faca-na-liga da política profissional, desato a rir às gargalhadas sonoras e pecaminosas ao ler os pormenores relatados pela biblia do parisianismo político, o Tout-Paris, que o fabuloso Le Canard Enchainé relata e apimenta. A edição desta semana é um " must " pelo caleidoscópico siderante e proteiforme das alusões e interferências que despoleta, alicia e sinaliza. São ministros, com ou sem amantes, altos funcionários das " jóias da coroa " industrial francesa que são desmascarados, postos em praça pública e, para quem sabe ler nas entrelinhas, manipulados a rigor por aquele deus ex-machina da política, Dominique de Villepin. Há 15 dias que toda a gente o dava como morto políticamente.Corriam rumores de uma demissão inesperada e inescapável. Ontem, Chirac fala aos jornalistas e garante a total confiança política no PM.Porquê? Ontem foi o dia em que o ex-chefe da espionagem exterior francesa, o general Rondot, revelou ao Le Monde que o PR lhe deu instruções para apurar se Sarkosy recebeu dinheiro pela venda das fragastas a Taiwan, dinheiro que foi " lavado " e transferido para o exterior pelo banco Clearstream. E contou mais: falou de uma conta de Chirac no Japão no valor de 300 milhões de francos( 60 milhões de euros...) que ninguém sabe donde vinham... a partir dos finais dos anos 90. Giscard e Miterrand parecem anjinhos de côro provinciais perante a desenvoltura e a ambição de Chirac, que gastava por dia enquanto maire de Paris mais de 300 euros só em compotas e bolinhos-de-chá. Total dos 14 anos anos do rol de mercearia da Fauchon, a creme de la créme das mercearias finas universais: 14 milhões de euros! Estamos conversados, como dizia o outro! Agora, a recuperação de Villepin junto do seu patrono e cúmplice passa pela minagem do staff judicial encarregue do apuramento da verdade das listas de clientes do Clearstream, através de um minuncioso processo de eliminação de provas... so que a conta de Chirac no Tokyo Sowa Bank foi posta a circular e a encher as primeiras páginas dos jornais. É uma jogada de top-master: condicionar o que só pode( e para...) enfranquecer as posições do pilar do regime, o PR, para conquistar terreno e ultrapassar pecados e falhanços inesperados. Tudo pela conquista do poder e preparar a tempo a desforra com Sarkosi, cujo comportamento pode indiciar alguma manipulação intencional de uma polícia secreta de potência estrangeira interessada em colonizar definitivamente a doce e maravilhosa França, onde a consciência da classe operária se mantém indomável e feroz, basta ver os telejornais, onde se fala de greves ou ocupações por tuta-e-meia, num país que produz o Airbus, o TGV e lidera nichos de mercado vitais no Comércio de Luxo , na Agricultura e na Distribuição.

FAR

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Portugal mais competitivo que Itália? Uauuu, quem diria....

A economia dos Estados Unidos da América continua a ser a mais competitiva do mundo. A revelação é feita hoje na edição de 2005 sobre competitividade mundial, um relatório elaborado pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento da Gestão. Mas o documento considera este facto um paradoxo, uma vez que se verificou uma redução na sua taxa de crescimento para 3,5% e continuou a acumular uma dívida que supera os oito biliões de dólares. Por dia, a dívida norte-americana aumenta qualquer coisa como 2,1 mil milhões de dólares. É caso para dizer, isto só na América. O curioso vem depois e prende-se com o facto de haver cada vez mais países com títulos da dívida pública dos EUA. O engraçado é que a China comunista é já dos maiores credores dos Estados Unidos e vai a caminho de ser o número um. Ironias do destino.
Nas economias competitivas, Hong Kong mantém o segundo lugar e Singapura o terceiro. Quanto à União Europeia dos 15, sem os países do alargamento, a Dinamarca está em 5º e o Luxemburgo em 9º. Portugal melhorou, e está agora em 43º lugar, depois da Grécia (42º), Espanha (36º) e França (35º). Para os mais nacionalistas fiquem a saber que a Itália está abaixo de nós, em 56º lugar.
Este estudo baseia-se em centenas de critérios, que podem ser agrupados em quatro factores de competitividade: desempenho económico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infra-estruturas. Foram analisadas 61 economias, divididas em 53 países e oito regiões.