domingo, 30 de abril de 2006

Vendedora de Tecidos


Foto de Sérgio Santimano

Colvá, Goa, Índia. Janeiro de 2006

sábado, 29 de abril de 2006

França: Villepin cercado por Sarkosy no "caso" Clearstream tenta subir a parada sádica

O" Le Monde " destaca hoje nas suas manchetes multi-mediáticas o caso Clearstream e força o PM a retratar-se cabalmente ou a demitir-se por causa da manipulação que envenena o caso e implica todo o topo do aparelho de Estado chiraquino. O vespertino não se faz rogado e aponta: " trata-se de um escândalo de Estado " e "por agora, é sobre Dominique de Villepin que pesam as presunções em maior número sobre uma possível utilização dos serviços de Estado para conceber uma manipulação, um ajuste de contas político ". Nas entrelinhas, Villepin tenta implicar Chirac como o " estratego " da questão e Sarkosi tenta aumentar a sua margem de manobra para aparecer como candidato imposto à força a médio prazo.

" Se ele pretende continuar a dirigir o governo e a gerir os negócios da França, se ele aspira a que a dignidade da sua missão não seja manchada, D.Villepin deve lavar-se o mais rápido possível das suspeitas que sobre si recaem ", sublinha o jornal.

E´um autêntico rififi de fazer entontecer. Sade diria o crime como resgate da paixão contra a repressão, da ultrapassagem pelo desejo do excesso: " só o desejo é activo, só ele nos torna presentes ". Sarkosi persegue o(s) responsáveis pela inclusão do seu nome nas listas de clientes secretos do banco de compensações do Luxemburgo, o Clearstream. No afrontamento contra Villepin, o PM derrotado pelo CPE primaveril, o titular do Ministério do Interior, o senhor de todas as polícias, decidiu jogar por antecipação e crucificar novamente Dominique de Villepin, deixá-lo no tapete com a estocada final contra as suas ambições de presidenciável. Ou então obrigá-lo a um acordo de " banho maria ", mas com a corda na garganta.

O caso é de antologia policial de alta voltagem. Tem por comparsas, a cúpula do poder de estado- Chirac parece que deu luz verde. Villepin preparou o golpe há dois anos com os altos comandos da contra-espionagem interna e externa francesa. E um amigo seu de peito e antigo colega no MN francês deu-lhe o mote: o caso das listas de clientes evasivos do banco luxemburguês. Agora passa para a Imprensa, que recebeu instruções de Chirac para
tomar tal iniciativa... que cruxificaria Sarkosi.

Sarkosi acumulou alguns dividendos com a má-gestão por Villepin do dossier do Contrato de Primeiro Emprego, que fez cair o PM nas sondagens e colocá-lo da lista negra dos perdedores potenciais na corrida presidencial de Maio 2007. Chirac deu "corda" ao Sarkosi para proceder a alterações nos comandos das polícias- sinal de força do ministro, presidente do partido presidencial UMP e putativo auto-candidato à sucessão - e este, lesto, desencadeou buscas gigantescas no gabinete ministerial da sua colega da Defesa, a autoridade delegada no comando da polícia de espionagem externa, que controlou as investigações.

Se o" Le Monde" mobilizou a nata do seu Serviço Político( 4 redactores) e o edito do director ; o Libération destacou também quatro redactores. Serge July, (o ex- maoísta-sartriano director) vendeu mais de 45 por cento do jornal a um dos herdeiros Rotschild, e não pode nem deve querer fazer sangue. Bernard-Henri Lévi, o filósofo pop, autêntico sismógrafo das intenções políticas do maistream mediático-político-financeiro pariseense ,ainda há pouco se questionava publicamente sobre quem tinha mais chances... Villepin ou Sarkosi.!?! Citando Max Weber, poderíamos dizer que " ninguém sabe ainda quem habitará a gaiola, nem se no final deste gigantesco processo aparecerão profetas inteiramente novos... ".


FAR

LOROSAE - LOROMONU


Pintura de João Azevedo


Timor

Nestes últimos dias ali a terra treme à volta, os ciclones estão passando perto, nem deixando aparecer o sol durante dias, a chuva enche as marés e engrossa os rios, às vezes os tiros ouvem-se e até voltam as balas e catanas a matar, promete-se, promete-se e nada se faz para parar, de facto, o conflito; aparecem outra vez uma colunas de fogo, o cheiro a queimado. As pessoas mais comuns, essas voltam para trás, têm medo, naquela sensação já herdada de não mandar nada, de não controlar nada, de não ter confiança em nada. São, portanto os maus crocodilos que aparecem, mas desta feita batem-se entre eles.
Onde se pensava que se estava no leste do leste, no oriente do oriente, descobre-se agora que não: dentro do oriente do oriente (timur lorosae) há uma divisão ulterior: o leste do leste-leste (lorosae) e o oeste-ocaso do leste, loromonu. Dois crocodilos iguais-irmãos que se batem entre eles.
Isto está bom é para os "maus" crocodilos!

João Azevedo

sexta-feira, 28 de abril de 2006


Pintura de Luís Ralha


Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


José Gomes Ferreira

Seymour Hersch desvenda "fixação" de G. W. Bush

Ataque ao Irão dissimula apreensão de mais petróleo?

Seymour Hersch, a excelência do grande jornalismo nova-yorkino, continua a fazer das suas. E em grande. Na edição de 17 do corrente mês do " The New Yorker" publica uma piramidal reportagem-inquérito sobre as especulações crescentes que dão consistência a um hipotéctico ataque-surpresa dos EUA contra as instalações militares iranianas de pesquisa nuclear. " Algumas operações aparentemente para intimidar o Irão já correm, desde o Verão passado. Como , por exemplo, treinos da aviação simulando largada de bombas de pequeno calibre nuclear no Golfo Pérsico- missões-relâmpago com o nome de código " todo-o-terreno " de bombardeamento- sem que sejam detectados pelos radares costeiros iranianos ". Citando uma fonte diplomática de alta patente, o jornalista confirma a tese de que " o desenlace real " da hipotéctica intervenção " encaminha-se para o controlo do petróleo do Médio Oriente nos próximos dez anos.

Hersch, que desmontou a incongruência da estratégia militar dos EUA no Iraque, voou de Washington para Viena, Berlim e Bruxelas, para produzir o seu trabalho de impacto mundial.
Entrevistando um analista militar experimentado, deparou com um manacial de informações gigantescas: Os alvos a destruir no Irão ultrapassam os 400; provávelmente existem duas fábricas de enriquecimento de urânio. E estão operacionais 14 campos de aviação militar e existe uma flotilha de submarinos que pode ameaçar a navegação. Os misséis balísticos iranianos são outro dos alvos a abater.de imediato, e encontram-se agora na fronteira junto ao Iraque, desde há pouco tempo.

" Um antigo conselheiro da Casa Branca especialista " na guerra com terror " expressa uma visão similar. A administração Bush-II acredita que a única maneira de resolver o problema é mudar a estrutura de poder no Irão, e isso quer dizer fazer a guerra , acrescenta, mas o perigo é que isso reforça o sentimento iraniano em se dotar de capacidade nuclear para defender o país ".

Falando com Patrick Clawson, expert do Instituto de Política Médio Oriental de Washington, Hersh apura que ," enquanto houver um poder islâmico em Teerão, tem que existir um programa de armas nucleares tácticas, nem que seja clandestino. A chave agora do problema é esta:Quanto tempo o regime iraniano durará? ". E prossegue o relato de Clawson: " Portanto, o Irão não tem outra alternativa do que se vergar às exigências de desarmamento ou fazer face à guerra. Ahmadinejad pensa que os ocidentais são cobardes e entraremos em colapso". O recurso a sabotagens e outras actividades clandestinas, como os acidentes industriais " são as tácticas de guerra preconizadas pelo perito militar norte-americano citado. " Mas , frisou, será prudente prepararmo-nos para uma guerra de longa duração, dada a forma como o poder iraniano se conduz: Isto não é como planear invadir o Quebéc".


Na extensa reportagem, Hersch narra as contradições dos experts militares de alta patente que rodeiam Bush e Rumsfeld. É recomendado " o apropriado tratamento por armas nucleares tácticas de objectivos de destruição de alta prioridade, em paralelo com a utilização de meios convencionais posteriormente ". Por outro lado, " existem responsáveis ! que constatam o grau de dispersão das instalações militares iranianas, algumas no subsolo, e nós desconhecemos onde tudo isso se encontra. Sendo preferível bombardear o armamento nuclear de través, seguindo uma planificação determinada. Talvez atingindo certas bases e esclarecer outros objectivos depois ".


" Na eventualidade de um ataque aéreo norte-americano, Richard Armitage-- antigo alter ego de D.Rumsfeld, neo-con-- disse-me, tinha-se que levar em linha de conta as seguintes preocupações: O que é que acontecerá nos outros países islâmicos? De que forma o Irão nos puderá atingir globalmente-isto é, usando o terrorismo? A Síria e o Líbano libertar-se-ao da ameaça de Israel? Que consequências é que acarreterá o ataque para a nossa decrescente credibilidade internacional? O que é a Rússia, a China e a ONU pensarão de tal iniciativa?"., desvenda Seymour Hersch.

FAR

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Nuclear: uma outra visão

O recente boom do preço do crude deu aos defensores da opção pelo nuclear em Portugal novos argumentos: tratar-se-à da nossa independência energética face ao volátil petróleo, ainda para mais quando o importamos dessa zona perigosa que é o Médio Oriente; o risco será reduzido; os outros países europeus também as possuem e não vem grande mal ao mundo por isso. Hoje, no Parlamento, a deputada dos Verdes Heloísa Apolónia desmontou o primeiro destes: a grande fatia da nossa dependência energética provém do sector dos transportes, e o nuclear terá apenas efeito na produção de electricidade, e para mais teremos de importar Urânio para alimentar a central. Quanto aos outros dois, lembro apenas que o facto do risco ser reduzido não quer dizer que não exista, que o problema dos resíduos é uma questão civilizacional, e que as centrais nucleares não foram, e continuam a não ser, decisões pacíficas nos países em causa.
Permitam-me, contudo, apresentar um outro argumento, que julgo ser o decisivo, na minha opção contra o nuclear em Portugal- o comodismo. A construção desta central irá fazer com que, durante mais algumas dezenas de anos, se desaproveite um recurso único deste país: o clima. Portugal tem condições extraordinárias para investir numa miríade de energias alternativas: solar, eólica, e sobretudo energia das marés. Lembro-me de um estudo com alguns anos da Universidade do Minho sobre esta última; o que foi feito com ele? Nada. Pondo de parte o interesse ecológico no investimento nestas energias, e dando de barato que tal interesse não cala fundo nos nossos decisores, pelo menos a perspectiva económica deveria valer alguma coisa. A questão da energia das marés é paradigmática: a tecnologia para a mesma é ainda rudimentar, mas o seu potencial enorme. O nosso país possui condições únicas, de norte a sul, para o seu desenvolvimento. Isto permitiria não só produzir energia de forma limpa e inovadora, mas também, e mais importante, desenvolver esta tecnologia e vendê-la posteriormente, em lugar de importar tecnologia, como no caso da energia eólica (onde os espanhóis, obviamente, já começam a aproveitar os nossos recursos), e mais ainda da energia nuclear. Claro que isto são opções de fundo, opções para o futuro, que pouco importam a quem procura o lucro já, como é o caso de Patrick Monteiro de Barros. Quanto a importarem os nossos decisores... Isso levar-nos-ia a uma conversa bem longa.

"Do frio vem tudo isso, e é esse frio que eu não quero"


Esta luta quase sanguinária contra os tabacos a que assistimos hoje significará que há outras coisas, como o prazer do amor, que vão ser hostilizadas por princípio?
Esse tipo de campanha fundamentalista contra prazeres que pretensamente incomodam o próximo, tudo isso é pensado por gente do Norte da Europa, por calvinistas. São tipos pouco inteligentes mas muito rigorosos e exactos, (…). Cada vez mais sinto uma coisa que não se deve sentir e que não gosto de sentir: não é ódio, mas é um desprezo profundo pelas civilizações do Norte da Europa.
(…)
Essa sua “sanha” contra os povos do Norte da Europa tem uma equivalência relativamente aos Estados Unidos da América?
Claro! Esses não são bem do Norte, mas foram os piores do Norte que para lá emigraram. E que estão a transformar o mundo à sua imagem e semelhança, ao seu estilo. Aquele estilo que nós conhecemos, que é profundamente desumano e desumanizado, onde a miséria é brutal, onde os preconceitos são imensos, onde impera muita estupidez de convivência e de vivência e onde há uma tecnologia altamente avançada que finge compensar isso. Qualquer indivíduo que preze a sua humanidade como capacidade de chegar ao prazer tem de ter uma sanha grande contra essa gente. Do frio vem tudo isso, e é esse frio que eu não quero.

Entrevista a Alberto Pimenta
Epicur, Ano 8, nº56, Março/Abril 2006

quarta-feira, 26 de abril de 2006


Pintura de Luís Ralha

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Kandengue de Benguela


Foto de Gabriela Ludovice, 2005

Cavaco: faz o que eu digo, não o que eu faço

Cavaco Silva esteve ontem no Parlamento e fez um discurso que se enquadra na linha do seu presidencialismo executivo. Mas contrariando as expectativas, não falou de economia e puxou mais para o social. Cavaco preocupa-se agora com os pobres, depois de como primeiro-ministro, se ter preocupado com os ricos. O que vale é que estes discursos de circunstância não são para levar a sério. Até porque José Sócrates já veio a terreiro dizer que “não posso estar mais de acordo com o senhor Presidente da República, ao chamar a atenção do país para a necessidade de fazer mais no que respeita à justiça social”. Palavras que significam “calma lá que eu já estou a tratar disso”. Ao surgir nas comemorações do 25 de Abril sem nenhum cravo na lapela, Cavaco Silva foi o primeiro a quebrar uma tradição e marcou a sua posição política sobre o assunto. Tal como Alberto João Jardim já o tinha feito. No entanto, em plena campanha eleitoral, não se coibiu de ir a Grândola, onde cantou a música de Zeca Afonso “Grândola, Vila Morena”. Mário Mesquita intitulou no “Público” aquele filme como “Grândola, Vila Amarela”. Escrevia assim a 08.01.2006: "(…) comício em Grândola, de apoio ao candidato da direita e do centro-direita. Entoava-se, em coro, a canção ‘Grândola vila morena’. Alucinação? Não era. O candidato Cavaco Silva, envolvido no canto colectivo, ostentava o seu famoso sorriso amarelo (?) Para conquistar o centro-esquerda vale bem a pena trautear uma canção de José Afonso, mesmo que tal coro tenha, nalguns sectores, sabor a blasfémia. (…) Valerá a pena ir tão longe? Obrigar Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa a lembrar a pensão recusada, pelo governo de Cavaco Silva, a Salgueiro Maia, ao mesmo tempo que o Estado recompensava os bons serviços de agentes da PIDE? A eficácia justifica a hipocrisia?"
Mas o actual Presidente da República também é um pensionista, só que “de luxo". Além do salário que recebe pelo cargo que exerce, o Estado paga-lhe mais 2.679 euros através do Banco de Portugal, 5.007 euros da Universidade Nova de Lisboa e 2.876 euros por ter sido primeiro-ministro. O que dá um total superior a 10 mil e 500 euros.
Como fica bem ter pena dos pobrezinhos!

Chernobyl: 20 anos depois, o nuclear continua a ser opção

Passam hoje 20 anos sobre o maior desastre da história numa central nuclear. A explosão de um reactor em Chernobyl, em 1986, libertou uma nuvem radioactiva que continua a fazer vítimas ainda hoje. Só nos dez dias que se seguiram à explosão, foi libertada radioactividade equivalente a mais de 200 bombas de Hiroxima. A União Soviética só 48 horas depois da tragédia é que assumiu a escala do desastre. No entanto, não avisou as populações que viviam na região dos perigos que corriam. As notícias só chegaram através das estações de rádio estrangeiras, que se ouviam às escondidas. Esse desleixo causou milhares de vítimas, não se conhecendo até aos dias de hoje os números exactos. A Ucrânia fala em cinco milhões de pessoas afectadas, a ONU aponta para 4.000 mortes por cancro e a Greenpeace sobe a fasquia para as 93 mil mortes por cancro. Um estudo científico britânico recente aponta para um total de mortes situado entre os 30 mil e 60 mil. Mas como se pode constatar, a falta de exactidão continua.
Esta reflexão sobre a tragédia de Chernobyl chega numa altura em que a opção nuclear volta à agenda dos executivos de vários países. A extrema dependência das economias mundiais do petróleo é a principal razão apresentada. Consensual parece ser a aposta nas energias limpas, mas ao nível da investigação. Mas ainda não são consideradas alternativas ao nuclear, pelo menos a médio prazo, por não estarem ainda suficientemente desenvolvidas. Por isso, o debate sobre o nuclear volta de novo às agendas, e os prós e os contra já se começaram a fazer ouvir. A subida de tom na discussão não deverá demorar muito, pois a escalada do preço do petróleo vai obrigar os governos a tomarem medidas, cuja orientação é fácil de advinhar.

terça-feira, 25 de abril de 2006

"Caça ao Pide", um desporto datado

Em 1974, o dia 25 de Abril começou a tomar forma de maneira diferente para todos os que o viveram. Seja em Portugal ou noutros lugares espalhados por esse mundo imenso. Por cá, depois da canção e enquanto os militares tomavam conta da situação, começou em paralelo a caça aos Pides, um "desporto" apreciado nos tempos que se seguiram. Mesmo acossados, ainda conseguiram causar as únicas vítimas mortais da revolução do cravos. Os disparos feitos por agentes da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, trouxeram o luto ao vermelho de Abril. No entanto, não impediu que a caça se tivesse espalhado um pouco por todo o lado, colónias incluídas. Mas aos poucos, entre diversos sectores políticos e militares começou a chegar algo parecido com o que hoje se chama Direitos Humanos. Mesmo estando a revolução na ordem do dia, o poder começou a encarar a questão dos agentes do ancient regime de forma diferente. Era o politicamente correcto da época. Os cabecilhas foram levados para o reino que mais tarde seria de Alberto João Jardim, e depois... Copacabana! Estes exemplos da ala reformista caíram mal no figurino revolucionário. Só o tempo e o álcool amenizaram o mal-estar causado na altura. Muitos torcionários da Pide acabaram por não pagar pelo que fizeram, para pena de muitos que passaram pela tortura e pelo degredo. Depois da tormenta, uns acabaram por ficar por cá e outros foram apanhar ar lá para fora. Num balanço final, foram poucos os Pides que amargaram na prisão e pagaram o que deviam à sociedade. E os que ficaram atrás das grades, foi por pouco tempo. Alguém percebeu porquê?

A profecia de Salgueiro Maia


Na manhã de 25 de Abril de 1974, os cacilheiros chegavam, como sempre, da outra banda. Pessoas vindas de Almada, Cacilhas, Barreiro e do Montijo dirigiam-se ao locais de trabalho e tentavam passar a barreira criada pelos militares. Uma mulher dirige-se a Salgueiro Maia:

- Assim já não chego a tempo para assinar o ponto e depois quem as paga sou eu. É que trabalho como mulher de limpeza num banco e o senhor sabe que eles não perdoam. Para ganhar o miserável ordenado que ganho.

- Não pode passar -, respondeu-lhe o capitão. - Oh! minha senhora, vá para casa, hoje é feriado. E para o ano também. Faremos uma grande festa.
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança

se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

"O Futuro", José Carlos Ary dos Santos

Desenho de Luís Ralha

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira


Para o Jó, na continuação de uma longa conversa, Sábado à tarde.

Um rio de pedras

Anjos, arcanjos
E pardais a recibo verde


Um rio de pedras
de rosas um trajecto
e de pétalas um silêncio espraiado
A pedra a pétala a rosa a forma da brisa
em voo de asas ofegante
fundam o corpo num semear à mão
disponível sem reservas

E nele
mapa de extensas suaves elevações e ancas e colo e coito
colinas mudas de pele fermente
arbustos auriculares
seios perfumados de rosa
pedra bravia e cutâneos movimentos
Imperceptíveis dedos em cobra deambulando
a mão pousada na pausa a flor a língua
Passeiam

Um sol limite no interior de olhos verdes
em âmbar aurora
acende um pardal na erva inquieta dos dedos

Os anjos
Este é um outro filme
saídos de um alfarrábio
ainda húmidos do convívio com os recantos de papel dobrado
numa parede esquecida de mãos
Sacodem-se
como cães de água
e DESAMARELECEM
peixes exteriores em adaptação abrupta

São simpáticos e estão cansados
Nada mais desconcertante
mesmo desorientante
do que viver em páginas fechado
amarrado a uma imensidão de letras ordenadas
em busca de um sentido
tal como as rosas
ao criarem um percurso de odores visível
a caminho de uma utopia sensorial toda ela tópica
desenham traços no vazio
e de repente ser anjo e cumprir o exterior
uma espécie de serviço militar obrigatório
Acontece-lhes e acontece-nos

Anjos obviamente entabacados
de amarelo
na ponta dos medos
Anjos de café em hora de ponta
Olheirentos
de vinte e quatro horas non stop
de guarda
ao sopro cardíaco próprio
em busca de um alento indico
de um mapa possível de afectos
no fim de um recomeço
numa esquina
nos sorrisos de um ping pong de olhares tresmalhados


Anjo caído em desgraça
é essa nuvem de tabaco em aura intensamente nicotina
que o vela silencioso e sarcástico
Anjo desasado em fados menores
Não há nada a fazer
Não há reaparafusar possível
A máquina desprogramada tosse uns últimos azuis
e a palavra SUAWILI definitivamente areada nas dunas da praia cerebral
brilha mas não tropicaliza
o andar chanatado de sesta
longe que está
nem lança seduções de calor instante
nem mãos escorrendo sombras de casuarina
ou erva dançando em brincar de água pelo tornozelo
e por aí adiante
a palavra Bilene essa
são sorrisos abertos de marfim na brisa salina andando no mar
tal como na extrema da extrema
da ponta
do ouro
o infinito
convida ao movimento perpétuo
e tu vais em osmose de sais
na própria respiração voando
corpo a corpo em inspiração de pássaros
debicando silêncios
por entre pauzinhos arcaicos de caravelas carcomidas
e esse imenso areal de sonhos reacesos de emoção cristalina ali está
SUAWILI
a palavra
talvez mulher
fica definitivamente colada
a Pemba e Inhambane e Maxixe e Quissico e Závora

Não tem sequer o destino do papel do gelado ali perdido
como uma correria de cão estancada
que acordasse nos sonhos de alguém
a quem emprestasses paisagens absolutamente primaveris
floridas
em círculos de afectos
idos
na busca dos próximos

E assim
como uma gazua abre sonhos
que nenhuma caixa de pandora guarda
sonhos deslizando em esquis imaginários
absolutamente brancos
numa neve negra de feitiços e odor a caril
feitos à unha
ocultos em silêncios espessos de luz excessiva
a merda dos dias continua
no fedor de um mc-donalds em erupção constante de ketchup e maionese

Nem nos calendários santos mais VATICANADOS
regressarão ao velho odor das coisas bentas
essa eterna humidade beatificada
dos lugares de produção milagrosa
em que é reservado o direito de admissão
tal como nas axilas de DEUS

E os anjos de serviço
os mais comuns
arrastam-se como lepra num luto nacional de anjos
quando em regimentos partem para qualquer mais uma bósnia
e ELAS
estão sempre disponíveis no mercado concorrencial das guerras
em produtividade crescente particularmente nas zonas de mão de obra armada barata e onde a vida presa por um fio não vale um dólar americano

Aí nada te vale nem a mãe nem o café de bairro
nem os olhos da miúda nem o cão solícito nem o a b c
nem estar pró nem estar contra
sequer a agilidade súbita da cabeça acordada

Celebrando negativamente a sua sorte em uísques baratos
são pelotões de anjos servindo a velha ordem de burocrático respeito
e continências e peito firme – apetece dizer peido, de peido firme –
e prés e direitas volver

Nada arriscam
Nenhum esboço de aceno de asa sequer
Nenhum olhar para cima com ares de insubmissão
mesmo que menos que light menos que light ainda menos
longe do hálito iconoclasta de setentas
mistura de tabaco cubano
laurentinas
suruma
e marxismo servido entre pregos trinchados

Sequer um desejo de azul
navegando por cima da hora de ponta
a desfazer a meada do nada em contracções cardíacas e verdes

Arcanjos alguns
sargenteando como nos folhetos de cordel
tentam então a lotaria sofrida dos sorrisos possíveis
- nada pior que levar uma tampa, e quantas não cheguei a tentar???-

O que era cinzento assim continua
Para um anjo as instituições
são como os números de páginas
uma ordem secular religiosamente a cumprir

Agora é vê-los de serviço a semáforos agarrados
máquinas de destroços encavalitadas em ossos
com penugens sebentas e alcatrão nos olhos como Tirésias

Sábios mas desconhecidos
remetidos para a sombra da sombra

E na hora
A erva daninha despontará
alegremente nas alcatifas mais GULBENKIANAS?
como uma espécie de revolta da natureza –
há vulcões que preparam a sua erupção durante séculos,
indaguem um vulcanólogo e se ele não quiser ser indagado,
perguntem-lhe, que ele vulcamonologará!

Ela própria
a natura
um lume nada brando
com visão estratégica
tal como o terramoto
que fez fugir as casas de Messina de que Pirandello falava?

O verde fresco que ri de livre não ilude o olhar dos porteiros
e os vídeo-porteiros estão por todo o lado
softes e empáticos
Nova capilaridade global
directamente ligada entre si à ordem policiada do cosmos

Sobre elas
instituições que são
como se sabe paisagens burocráticas por andares reguladas
- e quem é que não vive em gavetas? -
e vistas obrigatórias para fora do betão
Sobre elas
que interromperam o curso das águas
dos rios
as colinas
e a liberdade antiga dos ventos
e nesse jardim de delícias lançaram o negócio imobiliário
vomitando betão sobre betão
esmagando os rebentos da hera e o bambu
Sobre elas
os anjos nada dizem
ocupados que andam com as suas vidas
e pequenos tiques
e mesmo com a hora da bica

Agora
como velha memória de passarar
pedintes
murcham o que a mais pura água tem de transparência
e de rodar mós

Há respirações mais precipitadas no passo dos anjos caídos
os que entre os outros
são por assim dizer convictos

Anjos deserdados
para esses
o silêncio é um destino
um antes que não regressa
o princípio de um não recomeço

As páginas onde porventura tenham habitado
essas revoam por entre um céu compacto
e desaparecem nesse azul de chumbo que nos acontece
Não há casa no regresso
apenas o esqueleto da casa antiga plantado na memória
a traços de fumo branco sobre o branco sujo do tempo
Esse cinzento que é nenhures

Na berma desta estrada que percorremos
na flor dos sentidos
uma pequena margarida saltita no papel de uma rã pássaro
- a natureza tem os seus clowns espontâneos
basta pensar uma preguiça amazónica
pernilonga como um flamingo
e montada na rapidez de um pardal
não há Buster Keaton que resista -

e reaparece solar
a margarida
no coaxar dos pulmões mais acesos
ofuscando por momentos toda a linha do horizonte
São assim os melhores anjos

f.arom

segunda-feira, 24 de abril de 2006

Goa (Colvá)


Foto de Sérgio Santimano

Cruzada de Pacheco Pereira contra a liberdade de expressão na blogosfera

O analista e comentador televisivo José Pacheco Pereira, membro e aparatchik do PSD, um dos pioneiros da blogosfera nacional retoma e aprofunda a sua cruzada puritana e censória contra a evolução da Blogosfera,e a sua inquestionável qualidade em se assumir plural, diversa e incontrolável, como confortam as leis de um Estado europeu de Direito. A nossa companheira Maloud foi alvo de um ataque sumário e infeliz, sejamos medianos, de uma grande injustiça: sempre as suas intervenções se pautaram por um equilibrio muito grande de valor ético-estéctico. Pacheco Pereira, uma espécie de António Ferro em potência do novo cavaquismo, mostra-se extremamente susceptível com a falta de controlo ideológico da grande maioria dos blogues nacionais. O caso não é para menos, convenhamos. É que o nosso novíssimo PR perdeu um potencial amigo em Roma, o Berlusconi, e está em vias de ver o republicano Bush-II a perder e ,talvez, a vir ser processado pelas escutas ilegais e outro tipo de malfeitorias que cometeu à sombra da Casa Branca, como toda a Imprensa isenta mundial o diz há meses. Numa jogada de excesso de zelo compulsivo e aterrador, JPP tenta atemorizar e lançar suspeitas contra a " fauna especializada na produção de insultos a esmo, maledicentes por natureza, que não poupam nada nem ninguém" .Nós que assistimos ao início da carreira de JPP na Grande Imprensa- Semanário de Cunha Rego - à chacota das alusões de misógenia que a Natália Correia lhe desferiu e a crítica malévola do EP Coelho sobre a factura técnica dos textos- nunca nos deixamos iludir por pensarmos estar em presença de um trabalho de fundo, honesto, democrático e leal. O que é ensurdecedor e intolerável, agora, é que JPP pretende tentar proibir e coarctar o direito à iberdade de expressão Adorno, num livro muito belo- Mínima Moralia-dissecou , exaustivamente, os meandros da cultura de massas e a antítese entre a vontade pura e a astúcia." Super-pensado, guiado por mil considerações políticas e tácticas, prudente e desconfiado, o intelectual outsider sabe o que o espera: Mas os que caem em dar-lhe razão, cujo reino abarca quase tudo em geral, muito para lá das fronteiras dos partidos, não têm mais necessidade do calculismo que lhe era atribuído.(...) Se procurarmos desatar os seus propósitos obscuros, julga-los-emos de forma metafisicamente exacta, porque têm afinidades com o curso negro do mundo, mas psicologicamente cairemos no erro: deixamo-nos cair na tentação da perseguição que cresce objectivamente ". A astúcia político partidária- a vontade do poder- está a destruir a vontade pura e a independência estratégica da carreira política de J .P. Pereira, um liberal a caminho de ser um fora-de-moda conservador impertinente, sectário e repressivo.
FAR

sábado, 22 de abril de 2006

A Estação Inexistente (2)














"A estação inexistente, nome posto desta harmonia desconcertante. Dois autores, duas épocas, dois dramas ligados por pontes musicais e pelo mesmo espaço físico."

Aqui fica o site do:
Teatro da Rainha

A Estação Inexistente (1)











É uma co-produção Malaposta/Teatro da Rainha. A Estação Inexistente (de Luigi Pirandello e Rocco D'Onghia).

Encenação de Fernando Mora Ramos.

Ainda vai a tempo de a ver.

Deixamos aqui o site da:
Malaposta

Pintura de Luís Ralha


Balada Do Outono
(...)
Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
(...)

José Afonso
Phil Borges, Barogoi, Kenya, 1997
"Só é digno da vida e da liberdade
quem todos os dias
se esforça por as conquistar. "
Goethe
W, um presidente com um grande cemitério na consciência
São já 300 mil o número de civis iraquianos mortos desde 2003. Este é o resulado de um estudo efectuado por cientistas norte-americanos no Iraque, através de um inquérito feito em todo o território, agora tornado público.

Em Dezembro passado, W. Bush tinha avaliado o número de vítimas mortais em 30 mil.

Aqui entram "meninos" e saem notas

  Posted by Picasa

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Os chicos-espertos, o petróleo e os relatórios

Várias instituições nacionais e internacionais divulgaram, nos últimos dias, análises sobre o estado da economia nacional. O relatório mais badalado foi o da OCDE, porque vindo de uma instituição independente, foi também bastante pormenorizado. E, verdade seja dita, nós gostamos de saber o que é que "outros" dizem de nós. E se disserem muito mal, mais destaque lhes damos. Mas não foi o caso. O relatório acabou por dizer o mesmo que todos os outros. Falta equilibrar as contas públicas, melhorar a educação e a qualificação. Considera, no entanto, que o governo está demasiado optimista e deve implementar as medidas já, custe o que custar. De facto, análises teóricas feitas em gabinetes dourados de instituições supranacionais só podem dar nisto. Os custos e os riscos de uma ruptura social nunca são levados em conta. E o facto de por trás dos números haver pessoas, é pouco relevante. Mas, um ponto interessante referido foi o da qualificação. A organização por certo se referia à falta dela. Mas será que os "iluminados", ou seja os tais "quadros qualificados" também são de qualidade? Vejamos o caso da GALP. Horas depois do preço do barril de petróleo ter tocado nos 74 dólares, aumentam os preços dos combustíveis. É público que os actuais preços por barril nos mercados internacionais são para entrega em finais de Maio. Tomar essa medida é ser um bom gestor? Em Espanha, a mesma GALP não fez isso. Aqui o litro da gasolina 95 custa 1,329 euros e em Espanha 1,066 euros. Nos mesmos postos da GALP. Porquê? Talvez porque lá "hay gobierno". No entanto, essa empresa é considerada de sucesso e das mais "competitivas" neste país. Talvez por fazer coisas destas é que António Mexia foi considerado um gestor excelente. E acabou por ser convidado para o governo dos chicos-espertos de Santana Lopes. Mas ele é apenas mais um chico-esperto à portuguesa, a quem ninguém apertou os calos. A concertação dos preços da gasolina entre as principais gasolineiras instaladas em Portugal é um facto e ninguém faz nada. Será este perfil de gestor que falta neste país? Penso que não. Mas para se ser "qualificado" por cá continua a ser fundamental estar no partido certo e poder contar com amigos que mexem cordelinhos.

Quero dançar contigo!


Me Gustas Tu

¿Qué horas son mi corazón?
Te lo dije muy clarito
Doce de la noche en la Habana, Cuba
Once de la noche en San Salvador, El Salvador
Once de la noche en Managua, Nicaragua

Me gustan los aviones, me gustas tu.
Me gusta viajar, me gustas tu.
Me gusta la mañana, me gustas tu.
Me gusta el viento, me gustas tu.
Me gusta soñar, me gustas tu.
Me gusta la mar, me gustas tu.

Que voy a hacer, je ne sais pas.
Que voy a hacer, je ne sais plus.
Que voy a hacer, je suis perdu.
Que horas son, mi corazón.


Me gusta la moto, me gustas tu.
Me gusta correr, me gustas tu.
Me gusta la lluvia, me gustas tu.
Me gusta volver, me gustas tu.
Me gusta marijuana, me gustas tu.
Me gusta colombiana, me gustas tu.
Me gusta la montaña, me gustas tu.
Me gusta la noche, me gustas u.

Que voy a hacer, je ne sais pas.
Que voy a hacer, je ne sais plus.
Que voy a hacer, je suis perdu.
Que horas son, mi corazón.

Doce un minuto

Me gusta la cena, me gustas tu.
Me gusta la vecina, me gustas tu.
Radio
Me gusta su cocina, me gustas tu.
Un minuto
Me gusta camelar, me gustas tu.
Me gusta la guitarra, me gustas tu.
Me gusta el reggae, me gustas tu.

Que voy a hacer, je ne sais pas.
Que voy a hacer, je ne sais plus.
Que voy a hacer, je suis perdu.
Que horas son, mi corazón.

Me gusta la canela, me gustas tu.
Me gusta el fuego, me gustas tu.
Me gusta menear, me gustas tu.
Me gusta la Coruña, me gustas tu.
Me gusta Malasaña, me gustas tu.
Me gusta la castaña, me gustas tu.
Me gusta Guatemala, me gustas tu.

Que voy a hacer, je ne sais pas.
Que voy a hacer, je ne sais plus.
Que voy a hacer, je suis perdu.
Que horas son, mi corazón.
(x3)

A la bin, a la ban a la bin bon ba
A la bin, a la ban a la bin bon ba
Obladi Obladá Obladidada
A la bin, a la ban a la bin bon ban

No todo lo que es oro brilla
Remedio chino es infalible


___________________________________________________________________
Esta letra foi retirada do site Letras.mus.br

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Soneto de Separação


Ilustração de Ivone Ralha


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

O Teatro Extremo acolhe na sua sala a Oficina de Teatro de Almada



Nos próximos dias 21 e 28 de Abril, 6 e 12 de Maio, pelas 21.30horas, a Oficina de Teatro de Almada apresenta as suas mais recentes produções: “Mãe? Companheira? Escolhe!”, a partir de textos de Dario Fo e Franca Rame e “Como é diferente o riso em Portugal” – recital de poesia satírica de autores portugueses.

O espectáculo “Mãe? Companheira? Escolhe!”, foi estreado nos Recreios da Trafaria, durante a última edição da Mostra de Teatro de Almada e conta com a interpretação de Sandra Quá.
Neste espectáculo falamos da descaracterização crescente do ser humano.
A mulher que sonha com o trabalho e a mulher que vive o pesadelo de ter um filho que foi mandado para uma guerra, serão a mesma pessoa?...
O teatro não deve nunca distrair, nem abstrair (-se), pode divertir mas tem sempre um fundo, uma mensagem que passa. Daí a nossa escolha de Dario Fo.

Como é diferente o riso em Portugal”, é um espectáculo – recital construído com textos de vários poetas portugueses. Com interpretação de Pedro Bernardino e Fernando Rebelo, este recital foi estreado na última edição da Quinzena da Juventude, em Almada, no Ponto de Encontro.

Bilhetes: 2 espectáculos: Público em geral – 7€; jovens até 25 anos, 3ª idade, grupos de 10 ou mais pessoas – 5€;
1 espectáculo: Público em geral – 5 €; jovens até 25 anos, 3ª idade, grupos de 10 ou mais pessoas – 3€.

Informações/ Reservas:
Teatro Extremo, R. Serpa Pinto, nº16, 2801-801 Almada, Portugal
Tel. 1 21 272 3660 || Fax. 21 272 3669

teatro@teatroextremo.com

www.teatroextremo.com/



Peças em cerâmica de Reinata
Exposição na Perve Galeria, Lisboa
*
Reinata Sadimba nasceu em 1945, em Moçambique, numa aldeia do Planalto de Mueda, na província nortenha de Cabo Delgado. Filha de camponeses macondes, recebeu uma educação tradicional, que incluía o fabrico de objectos utilitários em barro. Depois da independência em 1975, começa a pôr de lado os métodos tradicionais e começa a trabalhar a cerâmica de forma mais criativa. Os novos objectos foram então considerados como peças de “formas estranhas”. A guerra civil obrigou-a a refugiar-se na Tanzânia, em 1980. Regressa em 1992 e leva para Maputo uma técnica mais apurada, cujos trabalhos começaram a despertar o interesse no meio das artes. Depois veio o reconhecimento nacional e internacional. Expõe regularmente em Moçambique e no estrangeiro, e o seu nome é cada vez mais conhecido.
Os seus trabalhos podem ser vistos na Perve Galeria, na Rua das Escolas Gerais, em Lisboa, até 13 de Maio.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Em nome dos "meninos"

A nova táctica comunicacional do governo Sócrates: tudo dizer como se estivesse a ajudar os pobrezinhos. Exemplos: o ministro da Saúde anuncia o fecho de maternidades. Razão? "A falta de condições das existentes". A ministra da Educação fecha escolas. Porquê? Pela "falta de condições" das escolas, em nome do interesse dos "meninos" (a ministra da Educação é mestre nesta estratégia). As soluções são assim apresentadas como inquestionáveis; e quem se atrever a sugerir alternativas está, é bom de ver, contra o interesse dos "meninos". Assim se leva a cabo a desqualificação de serviços públicos essenciais com o único objectivo de poupar dinheiro do Orçamento do Estado, perdão, de servir os interesses dos "meninos". Se as maternidades tem poucos médicos não se contratam médicos: fecham-se. Se as escolas tem poucas condições não se investe nas escolas: fecham-se. Isto, claro está, em nome do nosso interesse que, facilmente se vê, é mesmo esse, o de ter cada vez menos escolas e hospitais abertos.

Não nego a necessidade de
alguma reorganização na rede escolar. Mas questiono o método, e o principio que lhe subjaz, que é o da poupança cega. Concelhos do interior com UMA escola primária? Crianças de seis anos a 40 km da escola mais próxima? De um governo socialista esperava-se um mínimo de noção do que é o interesse público.

Breaking News. Breaking News

Indústria automóvel na India emprega já 10 milhões de operários

Cavaco a visitar hospitais de criancinhas, Sócrates a iludir-se com o Simplex e o mundo a crescer sem parar, sobretudo no Sudeste asiático e na Indía. O NY Times trazia hoje um artigo aterrador: a indústrial de montagem automóvel indiana engloba já 10 milhões de operários. E as possibilidades de crescimento disparam. A BMW, Hyundai e a General Motors aumentam a área das suas fábricas. A Intel e a Nokia seguem-lhe o exemplo. Mais de 75 zonas especiais de economia estão a ser construídas, 1/6 das quais entraram já em serviço de oferta. Uma política talentosa de salários baixos atrai as multinacionais, receosas da dependência chinesa, refere o artigo. Experts admitem, no entanto, que pode haver partilha no dispositivo das off-shores de fabricação: A China fica com a produção primária de brinquedos, artigos electricos e televisores; enquanto que a India se encarregará das produções médias com incomes técnicos sofisticados próprios. Por exemplo, a famosa marca de sapatos Clarks- que produziu em Portugal durante décadas- instalou-se em Madras e produziu 1 milhão de pares no ano passado.

FAR

"Rua da Judiaria" recorda massacre

O blogue "Rua da Judiaria", de Nuno Guerreiro, convida todos a concentrarem-se hoje às 19:00 no Rossio, em Lisboa, em memória dos 4000 judeus mortos no massacre de Lisboa de 1506. Este acontecimento, que em termos históricos nunca teve grande destaque, é impressionante pela sua crueldade.
A iniciativa está também a ser divulgada pela comunicação social, mesmo vindo de um blogue cujo titular não é um comentador politico nem nenhuma figura pública com grande visibilidade. É um exemplo do poder crescente dos blogues, que se impõem cada vez mais no espaço mediático público.
*
Como vozes que teimam em emergir de entre as poeiras da História, cronistas como Damião de Góis e Samuel Usque deixaram relatos detalhados dos motins sangrentos. Contam os testemunhos que tudo terá começado na Baixa, no dia 19 de Abril de 1506, um domingo, na Igreja de São Domingos, quando alguém gritou ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se inexplicavelmente no altar. Em redor, gente que rezava pelo fim da seca prolongada que grassava pelo país clamou que era milagre. Entre eles, um judeu convertido à força terá tentado explicar que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Terão sido as suas últimas palavras. Arrastado para a rua, o marrano e um irmão seu foram espancados até à morte. Os seus corpos mutilados foram arrastados para o Rossio e queimados em frente dos Estaus – onde décadas depois foi instalada a Inquisição. Eles eram apenas os primeiros de entre mais de 4 mil mortos – anussim, judeus portugueses, homens, mulheres e crianças, assassinados em três dias sangrentos. (...)
Para ler mais é só clicar no texto.

Pintura de Luís Ralha


Roubam-me Deus
Outros o diabo
Quem cantarei

Roubam-me a Pátria
e a humanidade
outros ma roubam
Quem cantarei
(...)

Jorge de Sena

terça-feira, 18 de abril de 2006

Da capital do Império

Olá!
Era só para vos escrever na próxima semana sobre arrotos, peidos, hemorróidas, alergias e Viagra que são a dieta da televisão americana à hora do jantar. Mas terá que ficar para as próximas semanas porque a visita de Hu Jintao trouxe ao de cima algo que creio deve ser lido por uma certa classe de pensantes aí do outro lado do oceano.
Já ouviram falar de Wang Jisi? Ou de Zheng Bijian? Aposto que não. Mas se alguma vez tornarem a ouvir esses nomes prestem atenção. O seu realismo e a sua capacidade de análise são impressionantes e são algo que eu com todos os meus preconceitos julgava incapaz em produtos de escolas ideológicas do PC chinês. Mas afinal e pelos vistos na China não há a doença infantil do pós comunismo que é o anti-americanismo primário ou mesmo qualquer sinal de “sindroma de Bushite”, a incapacidade de se raciocinar quando o nome George Bush é mencionado.
Comecemos com Wang. É deão da Escola de Estudos Internacionais na Universidade de Pequim e director do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais na escola central do Partido Comunista da China. Credenciais ideológicas das mais puras portanto. Eis algumas citações de um artigo que ele escreveu para o jornal dessa escola:
“Os Estados Unidos são actualmente o único país com a capacidade e ambição de exercerem primazia global e vão continuar a sê-lo por muito tempo”.
“…os Estados Unidos são o líder global na economia, educação, cultura, tecnologia e ciência. A China tem portanto que manter relações próximas com os Estados Unidos se quiser alcançar sucesso nos seus esforços de modernização”.
“…Tenham em consideração que os Estados Unidos continuam a liderar outros países desenvolvidos em crescimento económico, inovação tecnológica, produtividade, investigação e desenvolvimento e a capacidade de cultivar o talento humano. Apesar de graves problemas tais como recentes deficits comerciais e fiscais, imigração ilegal, cuidados de saúde inadequados, crime violento, grandes disparidades de rendimentos, sistema educacional em declínio e um eleitorado profundamente dividido, a economia americana é saudável… Caso não haja uma grande queda económica inesperada, o tamanho da economia americana como proporção da economia global vai continuar a crescer por muitos anos”.
“…só o declínio económico de Washington pode reduzir a força de Washington e aliviar a pressão estratégica sobre Pequim. Essa queda contudo irá também danificar a economia chinesa…. Se por exemplo a influência de Washington no Médio Oriente diminuísse, isto poderia levar à instabilidade nessa região o que poderia ameaçar os fornecimentos de petróleo à China. Paralelamente o aumento do fundamentalismo religioso e o terrorismo no sul e centro da Ásia poderão ameaçar a própria segurança da China….”.
E agora as palavras do camarada Zheng Bijian. Ocupou “destacados postos em organizações partidárias” da China e elaborou relatórios para cinco congressos do partido comunista chinês. Depois de falar dos sucessos da China (que todos nós conhecemos) escreveu:
“O crescimento económico só por si não fornece o retrato total do desenvolvimento de um pais. A China tem uma população mil e trezentos milhões de pessoas… e a população da China ainda não atingiu o seu máximo; não está projectada a começar a cair até alcançar mil e quinhentos milhões de pessoas em 2030. Para além disso a economia da China é apenas um sétimo do tamanho da economia dos Estados Unidos e um terço da economia do Japão. Em termos per capita, a China permanece um país em desenvolvimento de baixo rendimento, colocado mais ou menos em centésimo lugar. O seu impacto na economia mundial é limitado”
“…Vai levar outros 45 anos – até ao ano 2050 – antes da China poder ser descrita como um pais desenvolvimento de nível meio e modernizado”.
“… até ao final de 2020…o PIB per capita da China deverá alcançar os três mil dólares”.
“A decisão estratégica mais significativa feita pela China foi abraçar a globalização económica em vez de nos afastarmos dela”.
“…nos anos de 1990…. A decisão da China de participar na globalização económica fez face a sérios desafios. Mas pesando cuidadosamente as vantagens e desvantagens da abertura económica e tirando historias da história recente, Pequim decidiu abrir a China ainda mais, ….”
Faz pensar não é? Eu cá por mim que tinha e ainda tenho algumas dúvidas sobre a possibilidade de sustentação do actual regime chinês vou passar a levá-los muito mais a sério.
Do vosso amigo,
Aqui na capital do império aguardando a chegada do Hu,

Jota Esse Erre

Zimbabué na idade das trevas

A 18 de Abril de 1980, a Rodésia mudava de mãos e de nome. A transição acontecia quinze anos depois da minoria branca ter declarado unilateralmente a independência. Foi a Robert Mugabe que coube a tarefa de reafirmar a sua independência, desta vez sob o nome de Zimbabué. Passados 26 anos, o país atravessa uma grave crise económica e alimentar, iniciada com a reforma agrária, que expropriou 4.500 fazendeiros brancos. Rapidamente Mugabe passou de libertador a ditador. O Zimbabué é hoje um país sem liberdade, onde os partidos da oposição são perseguidos e a imprensa reprimida, muitas vezes à bomba. De acordo com um relatório da Organização Mundial da Saúde, agora tornado público, o Zimbabué é actualmente o país com a expectativa de vida mais baixa do mundo. Trinta e sete anos para os homens e trinta e quatro para mulheres. E não foi há muito tempo que o Zimbabué tinha um dos mais elevados níveis de vida do continente africano e era considerado o celeiro da região. Foi só há 20 anos. Hoje é dos países mais pobres do mundo. Para a comunidade internacional o culpado por esta situação tem um nome: Mugabe. Só nos últimos sete anos, a economia do país afundou-se 40%, e a queda continua, até quando, ninguém sabe. O que todos sabem é que a recuperação do país e a sua integração na comunidade internacional, só será possível quando Mugabe for derrubado.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

Documento-pesquisa de Franz-Olivier Giesbert marca data

Duelo Villepin-Sarkosi ensanguenta final de mandato de Chirac


O tonitruante F-O Giesbert acaba de publicar um documento-pesquisa sobre os 20 anos de vida política de Jacques Chirac-" La tragedie du president - Scènes de la vie politique 1986/2006", Edit. Flammarion. O feroz e heterodoxo jornalista pariseense - coqueluche nos anos 70 do Nouvel.Obs e hoje director do Le Point-revela e narra pormenores caústicos do trajecto político de Chirac, desde o início da sua primeira coabitação com Mitterrand até ao final do traumatizante reinado, a poucos meses do seu términus.

O duelo Villepin-Sarkosi ganha novos contornos e é alvo de uma análise estrutural desassombrada.Chirac é "o pai e tutor" dos seus herdeiros desavindos e ambiciosos, que travam uma luta de vida e de morte pela conquista do poder." Sem dúvida, ele foi com Mitterrand um dos maiores mentirosos da V° República ", aponta F-O.Giesbert logo no início para enquadrar o personagem que, adianta," viu a conduzir bêbado e a cantarolar em russo, Les bateliers du Volga, na Côte d´Azur, e mesmo quase ébrio nos Champs-Elysees "...

" Há uma maldição Chirac , escreve na pág.5. " É preciso que ele não cesse de correr, porque foge de qualquer coisa. Um vazio, uma angústia, não sei o quê. Ele sente-se muito mal na sua pele para ficar parado( relata V.G. d´Estaing ao jornalista) ". E FO-Giesbert acutilante estigmatiza: "A vários títulos, Chirac assemelha-se ao duque de Orleans retratado por Saint-Simon: Uma das infelicidades deste príncipe foi o de ser incapaz de dar seguimento a um projecto...".

Giesbert arquivou mais de vinte anos de diálogos e confissões com Chirac e todos os tenores da classe política francesa. O livro de 406 páginas acumula ,pois, milhares de dados e reflexões políticas, mundanas e canalhas... de alto nível. Trata-se de um instrumento para profissionais e amantes da vida política francesa. O jornalista desdobrou os factos com análises políticas e uma perfomance extraordinária: Sem fretes nem golpes sujos, no entanto. Se bem que, se insinue subtilmente uma certa afeição pela teoria da ruptura " incarnada por Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsa, herdeiro da realeza húngara exilada em Neuilly nos anos cinquenta.

Sobre Dominique de Villepin, F-O. Giesbert não hesita em o tratar de " espião sagaz " e de" aldabrão -de -feira", revelando o contéudo deste desabafo do actual PM feito há nove anos atràs: " O presidente não me pode mandar embora. Jamais. Introduziu-me no âmago de todo o sistema. Sei muitas coisas. Ora ,tornar-me-ia uma bomba ao retardador se fosse posto fora ". A separação do casal Cecília/Nicolas Sarkosi e a tentativa de envolvimento do ministro de Estado e do Interior no escândalo Cairstream suscitam também a maior das perplexidades...

Em contraponto, sobre Nicolas Sarkosy, o retrato- sucessivamente elaborado e diversificado igualmente dezenas de vezes- contém pérolas deste jaez:Jerôme Monod, amigo e cúmplice de Chirac desde a adolescência, observa que, " se Chirac o descobriu, Sarko nunca foi um dos seus acólitos. Fez-se só como um grande político,à força de pulso.(...)Ele nunca suportou os métodos de trabalho de Chirac".

FAR

A história da cegonha


"A história até é bonita e romântica, mas nunca percebi bem como é que o bico da cegonha entra na chaminé, a fazer concorrência com o Pai Natal".
Marta Crawford, Notícias Sábado, 15 de Abril de 2006

Algarve: o dinheiro é quem mais ordena

O Algarve vai estar este ano em foco nas comemorações do 25 de Abril. A escolha foi da Associação 25 de Abril, que decidiu homenagear os 30 anos de poder autárquico. É irónico. Dava para rir se o assunto não fosse sério. Se há uma região onde o poder autárquico pode ser apontado como um mau exemplo é aquele rectângulo no sul do país. Sendo uma das regiões mais favorecidas pela natureza em Portugal, o Algarve é hoje um amontoado anárquico de prédios, onde os interesses de empresários sem escrúpulos se confundem com o poder local. Ao ver as vivendas Mariani, os prédios tipo J.Pimenta, as casas de luxo em cima das falésias e as construções na areia, dá para se ter uma ideia do que foi a acção do poder autárquico no Algarve. O caos no trânsito automóvel no verão, ou nos feriados ao longo do ano, é mais uma prova da falta de planificação nas últimas décadas. Se hoje se pagam os erros do passado, o futuro não se apresenta risonho. Basta ver com atenção o que se passa na região. Existe uma faixa estreita junto ao litoral onde a construção continua a crescer como cogumelos. E resta um interior que mais parece um filme dos anos 40. A falta de vontade política para planear continua a ser notória, excepto nos resorts de luxo. O dinheiro dos neo-patos bravos ainda é quem mais ordena. Haverá razões para comemorar? O quê?

domingo, 16 de abril de 2006

Vestido elegante, México, 1997
Fotografia de Flor Garduño
*
"A astúcia tem muitos vestidos;
a verdade gosta de andar nua".
Thomas Fuller

sábado, 15 de abril de 2006


Ilustração de Ivone Ralha

Eu não peço desculpas e nem peço perdão
não, não é minha culpa
essa minha obsessão
já não aguento mais ver o meu coração
como um vermelho balão
rolando e sangrando
chutado pelo chão
psicótico, neurótico, todo errado
só porque eu quero alguém que fique
vinte e quatro horas do meu lado
no meu coração eternamente colado.

Todo Errado
Caetano Veloso e Jorge Mautner

Contos da Primavera .2

Tempo de renovação. Tempo de escolhas. De OPAS e contra-opas. De economia de mercado. De reivindicações políticas. De protestos sindicais. Procurar um emprego? Continuar a estudar? O mundo está difícil. Há uns anos tudo era mais fácil. É verdade que era mais nova. Como tudo mudou! Lembro-me do Gustavo, emérito sindicalista. Na 1ª euforia bolsista portuguesa investiu as suas economias numas acções. Perdeu. Hoje diz mal do capitalismo e do cavaquismo. Tivesse lido e permanecido fiel a Marx! Sindicalista era para mim uma palavra bonita. Hoje é cinzenta e gasta como o velho Gustavo. Não me vou precipitar. Continuo a viver à custa da família. Vejo para que lado sopram os ventos da globalização e logo decido quando for mais velha. Coisas de ciclos?

Josina MacAdam

sexta-feira, 14 de abril de 2006


«A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. (…) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa’».

George Steiner, A Ideia de Europa.

Vamos andar de triciclo!


Não gosto de quem só gosta de cães e gatos.
Não gosto de quem não gosta de putos.
Não suporto grupos dinamizadores de bairro!

Uma taberna britânica vista de dentro


É um bar com retoques ingleses dirigido a apreciadores de cerveja. Situado em pleno Cais do Sodré, está aberto até às duas da manhã. Oscila entre o muito cheio e o ar aluado do empregado que serve às mesas. Nestas, o tempo de espera é imprevisível. Mas o ambiente não deixa de ser acolhedor, principalmente por causa da malta e do malte. Desde o principio do século que o British Bar está de portas abertas. Por ali passaram muitas histórias de faca e alguidar, contrabandistas, espiões falidos, candidatas a Mata Hari e cineastas à procura da hora certa. Hoje a saudade não é um dos pontos fortes da clientela, que oscila entre a meia-idade e a idade-meia. O que quer dizer que alguns proto-punks já podem entrar. Há empregados, desempregados e mal-empregados. O conflito entre os três grupos varia consoante a espuma dos dias e a trajectória dos fumos. As mulheres que frequentam o espaço, ou que apenas por lá passam, são sempre vistas com muito carinho. É definitivamente um lugar women friendly. A política e o futebol são temas obrigatórios, mas as referências a vidas passadas em terras distantes são sempre temas recorrentes. O cheiro a caril, ao sentir da festa e da maresia, são muitas vezes pontos prévios da agenda diária. Maputo, Paris, Suécia e o jornal El País são citados com alguma frequência. Por vezes Wittenstein é usado como fundamento para uma boa discussão, e outras vezes como arma de arremesso no bar concorrente do outro lado da rua, o Americano. Um último destaque para a cerveja. É boa, têm boas marcas e vem sempre bem gelada. Um grande Hare Krishna para vocês.