quinta-feira, 30 de março de 2006

 
Foto de Ivone Ralha

Quando quero fazer alguma coisa
Constato que as estrelas já existem
No céu que também já existe.
Pintar o mundo com estrelas é ridículo
Basta misturarmo-nos com a noite.
É isso a honestidade do artista.

Nyiama Ludo,Caixinha com Rodas,Grupo Experimental de Intervenção Cultural Posted by Picasa

quarta-feira, 29 de março de 2006

A França Suicidária?

Em 7 de Fevereiro manifestaram-se 400 000. Em 28 de Março 3 000 000.
Os jovens captaram os partidos de esquerda e as organizações sindicais, contra o CPE. Aparentemente o CPE só se destina aos jovens até aos 26 anos, mas os franceses perceberam que é a porta de entrada, para uma revolução nas leis laborais. Laurence Parisot, presidente do Medef {confederação patronal} foi clara. Aceita o CPE, mas exige discussão global sobre as leis do trabalho. 68% dos franceses rejeitam uma política, que lhes retire direitos duramente adquiridos. Afinal, foi com esses direitos, que a França viveu os chamados 30 ans glorieux. De Villepin chegou, onde talvez nunca imaginasse. Sarkozy foi puxando lentamente o tapete e agora acelerou. Numa entrevista ao Parisien disse que o compromisso nunca é desonroso. Num comício, no Norte, falou em suspensão do CPE.
Os media estrangeiros, principalmente os americanos, não compreendem. Acusam os franceses de resistirem à inevitável mudança, de não aceitarem as novas regras da economia, de não perceberem que vivem num mundo globalizado. Estes media são pouco perspicazes. O paradigma americano nunca foi o europeu. Mas, enquanto o resto da Europa vai cedendo, sem perceber o que lhe está a acontecer, a França compreendeu, e rejeita ser um país de cidadãos descartáveis. Pode perder esta batalha, mas dificilmente perderá a guerra. O mundo não é o Nasdaq, o Cac 40, a City… O mundo são milhares de milhões de pessoas cansadas de não existirem.

maloud

O méli-mélo de Villepin

A confusão( méli-mélo) da prática política do PM francês, Dominique de Villepin, no lançamento do pacote laboral para a Juventude, o tom cortante e altaneiro exposto , a ausência de pedagogia democrática e o desprezo pela concertaçāo, podem gerar efeitos imprevisiveis na gestāo do calendário eleitoral francês, a um ano das Presidenciais. Tudo pode acontecer: Villepin ou tenta um recurso indirecto a um veto do Conselho Constitucional, ou tem que se demitir pelo arrastamento da crescente constestação sindical e social à sua lei celerada, que viola referências capitais do Código do Trabalho e da própria Constituição.

A promoção do turbo-capitalismo em França precisa de liquidar, de bons ou maus modos, o proteccionismo e as regalias sociais que as massas trabalhadoras usufruem por imperativo da sua proverbial e legendária luta contra as desigualdades e os privilégios . No contexto europeu, a França é dos países mais impermeáveis a qualquer alteração do status quo laboral e social, apesar dos sucessivos entorses cometidos ao longo de três dezenas de coabitação política ( PR de esquerda/direita e maiorias governamentais adversas).

A reforma das Leis Laborais constitui um instrumento,por excêlencia, para o implementar de uma nova lógica económica(política). Os desafios da Globalização impõem o repensar de
uma nova gestão económica,com as palavras mágicas de flexibilidade e precaridade como tótens-fantasma, sobretudo nas instâncias de recrutamento de pessoal. A China e a India têm milhões de quadros a preços imbatíveis, que podem ser comandados à distância pela
Internete. Empregos inalteráveis, inexpugnáveis e de longa duração ficaram fora de prazo,a
partir de finais dos anos 90...

É neste contexto que surge o Contrato de Primeiro Emprego(CPE) de Villepin. Que foi obrigado a tal recurso pelo "forcing" demagógico do seu potencial concorrente presidencial, Nicolas Sarkosy. O número dois de Villepin alterou em cinco meses toda a sua táctica: defesa ruidosa das receitas económicas neo-liberais de Bush e de Ângela Merkel, apologia do comunitarismo multi-confessional e métodos policiais exacerbados. Por análises políticas e programadas, o staff de Villepin optou por jogar no campo do provável adversário. E tentou dobrar as receitas e métodos pelo exagero:sobretudo no sector laboral mais sensível ao patronato e decisores. Ignoraram os parceiros sociais, desprezaram os conselhos e emendas dos partidos da Oposição e decidiram a sua promulgação calendarizada.

Nestas semanas de luta, destaque para a posição expressa por Jacques Attali, antigo conselheiro especial de F.Mitterrand: "O que é hoje essencial não é precarizar o Emprego mas, o que pressupõe o contrário, valorizar a competência dos trabalhadores e coloca-los em posição de considerarem a mudança de emprego como um progresso e não como uma derrota".

FAR
 
Foto de José Carlos Mexia Posted by Picasa

terça-feira, 28 de março de 2006

Paris de ontem e de hoje

Robert Doisneau - Le Baiser de l'Hotel de Ville, Paris, 1950

Agência EFE, violência numa rua de Paris, 28.03.2006

segunda-feira, 27 de março de 2006

domingo, 26 de março de 2006

 
Foto de Ivone Ralha Posted by Picasa

Knopfli

No meu poema
Tem gala gala a florir nas acácias
E tem formiga cadáver
Nas minhas luas
São duas uma cheia outra crescente
Quando pouso os dedos nas sementes de canho
Abrem-se em asas de maçaroca com cabelo e folha desalinhada
Tem também pôr de sol
Mas esse é mesmo no solavanco da minha rua
E só tem aquele ângulo de se ver
Por trás da cabeça do gala gala citado a
Azul gigante estriado de lilás
Quando o mundo se zanga
Fica roxo de dentes raiados de laranja ácido
Parece bispo a pôr Cristo na cruz
Saindo da sua naftalina
E a fazer render
No meio dos torrões tropicais de silêncio na esquina do meu país
Estendem-se pontas de ouro esguias
Tenho-o sempre no bolso em forma de mapa isósceles
Triangular pastilha elástica rupestre
Sei quando
Que acaba como ponta de sapato acaba
E há azagaias em figuras de cafres a espreitar nas dunas altas
Comendo as unhas e estranhando as sete saias da elite dos náufragos
E há pedras desconhecidas nada redondas
A serem laboradas pelo mar constantemente
Esse mar é outro do mesmo que vivera
E está sempre aqui à mão em transparência que alimenta
Como nós e respirar
E tudo o que nos anoitece natural sem volta de tempo possível
E volta sempre
Não se espantem se vos crescerem savanas nos pulmões
E quando em corpo de papaieira adormecerem
Deixem sonhar brisas lentas
Que amanhecerá sempre um clima de águas amigáveis
Nesses pontos das vossas colinas
É mais às senhoras que isso têm que os ventos escolhem
E a adolescência reverdecerá
Como manga verde sem sal

f.arom

sábado, 25 de março de 2006

MANIA DO SUICÍDIO


Foto de Ivone Ralha

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

Rui Knopfli

Foto de José Carlos Mexia

Diálogos do Cais do Sodré (8)

T.Z.A.- Eu digo-te: a França vai entrar em guerra civil. Para restabelecer a ordem vai ser necessário chamar a NATO. Mas sabes quem é que o Bush vai mandar para pôr os franceses em sentido? Os turcos! Será a suprema humilhação para a França chauvinista. Os franceses detestam turcos!

J.C.- Só não me desato a rir porque já são dez da manhã...
Buenos Aires, Argentina, 30 anos depois do golpe de Estado militar.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Arriba la Paz! ¡Mas alto que Carrero Blanco!

É uma boa notícia e uma má notícia. A boa é que a ETA decretou um cessar-fogo a partir de hoje. A má é que já o fez várias vezes. Ou será ao contrário? Não sei. Muitos nacionalistas do país basco não estão lá muito animados, mas este anúncio de deposição das armas está a ser bem recebido em Espanha. Embora com as devidas reservas e cautelas. Os dirigentes da Euskadi Ta Askatasuna (ETA) garantam que desta vez o cessar-fogo é permanente e para ser levado a sério. Será? Mas já dizia António Machado: “La verdad es lo que es, y sigue siendo verdad aunque se piense al revés”. Há muito que as várias esquerdas pedem paz. Longe vão os tempos em que se faziam apostas sobre a altura a que tinha chegado Carrero Blanco, partindo do princípio que o céu era o limite. Hoje, o abate cirúrgico deixou de fazer sentido num mundo globalizado. O que está a dar, é morrerem aos milhares. Uns por não quererem aprender lições de democracia dos norte-americanos ou de islamismo da Al-Quaeda. E enquanto vão caindo de um lado e do outro, continuam a morrer milhões de fome, sede e doenças, no resto do mundo.
Mas com este anúncio da ETA, regressam os condimentos perfeitos para uma boa história de intriga internacional, que poderia ser assinada por John Le Carré. E vejam lá se não é assim. De acordo com a imprensa espanhola de hoje, houve encontros preparatórios em Genebra e Oslo, em que, além da ETA e dos socialistas bascos, participaram alguns históricos do Sinn Fein e do IRA. Intriga. Suspense. E talvez amor. Gay ou straight? É escolher. Tem tudo para dar um filme, com sangue, suor e lençóis brancos manchados. Bom. Era só isto que queria dizer e vou-me pirar. Tenho umas bombas para entregar no prazo de uma semana. A concorrência é cada vez maior, os clientes rareiam e são cada vez mais exigentes. Coisas do capitalismo selvagem.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Já o Galo de Barcelos

Desbarcelados

Já o Galo de Barcelos
Voou do solo pátrio
Pr’a capoeiras asiáticas
E lá nova crista pariu
Agora de tão contente
Nem cocorocuguês canta
Cacareja alto mandarim
Depenica de chá verde
E de grão de arroz se alimenta
Desnaturou-se desgalou-se
E vendeu-se a olheiro
De rasgada pontaria
Que o milho lá deles
Transfotogénico brilhante
Enche da menina o olho
E como quem o tem
Olheiro é não olha a meios
Mesmo não os tendo no sítio
Rei é na cega terra
E rega o que quer
O galá-lo abriu asa pr’onde
Lhe pagam mesada farta
Pois que apesar do risoto
A paixão é o grão grão
A grão - de milho são –
O papo o enche
E a galinha
Que de inha nem já tosse
Olha de longe que galo é galo
Mas é galo ou galinha?
Galo galinha é entremez
Tanto faz ou fez e refez
Qual estrela que é norte
Desse futebol global
À gripe dos dólares
O Galo desbarcelizou-se
Que será de nós lusos e
Do aviário à beira mar plantado?
....................

Pois o galo não voa não voa como a joaninha cujo pai está em Lisboa.
Então como foi ele parar a Cantão?
É navegador e vasco gamando e corococando deu a volta ao bestunto do chefe da capoeira, o ministro da economia e investimento estrangeiro, que ficou corno tanso com o responso do patrão de cima por causa de tão escandalosa fuga ao controle nacional de um sector estratégico e simbólico.
O nosso primeiro saiu à liça e disse em hora nobre “é o melhor para o futuro do país” remetendo-se depois para a bisca lambida dos domingos em circuito fechado de amigalhaços lá na terravilhã.
Oremos!

f.arom

Cartas na Mesa: para onde vão o Iraque e o Irão?

A realidade é a política-e não o rídiculo de relações de bluff ou de propaganda-o que , no rigor de Gramsci , unindo Maquiavel e Marx, alerta e inflecte para," no entanto, que a missão da política permanece específica; realiza acções cujo sentido é fixado pelas leis que regem as relações de força", conforme assinala o grande pensador marxista-liberal italiano, no seu livro capital "Notas sobre Maquiavel". O impasse iraquiano despoleta dia-apòs-dia revelações sobre a incúria e o exagerado optimismo da frente invasora liderada pelos USA, cujo alto custo em vidas e a vertigem despesista da máquina de guerra não cessam de semear o pânico e a dissensão no seio da oligarquia liderada porG.W.Bush. Os globe-trotters da quiromância estratégica-os Neo-Cons-ou penitenciam-se pelos maus planos ou culpam o presidente de incompetente. Perle, Kogan, a família Kristol dos jornais, Sullivan e Brian Riedl , parece que contam os minutos para sairem de cena, dizerem adeus ao bushismo.

Ora, a complexidade do puzzle geopolítico que envolve a dialéctica insurrecional no Iraque e a tensão deslizante do "cerco" do Irão pelos USA , projectam estratégias onde " o que parece, não é" e acaba por revelar finalmente as debilidades do invasor e dos sitiados, de acordo com os comentários de Thomas Friedman (NY.Times ) ao livro da epopeia da invasão de 2003 ," Cobra II", de M. Gordone B. Trainor.O jornalista-nómada mais reputado do Mundo,dá o seu assentimento à tese nuclear do livro: Saddam Hussein fez de conta que tinha ADM´s para evitar retaliações do Irão , sobretudo.

As perspectivas de paz no Golfo Pérsico parecem diferidas para as calendas gregas. Porquê? Porque todos os intervenientes fazem bluff e propaganda,de forma desenfreada. Bush,o" presidente-guerra", pode arruinar a economia americana, se os chineses acabarem com a troca de yuan´s por bónus do Tesouro yankee, relação sado-masoquista que só dá alento às multinacionais apátridas.Não tem dinheiro,nem forças para impôr a ordem. Rumsfeld apoia-se em Cheney para inventarem historietas:levarem a NATO a qualquer preço a envolver-se na guerra-pântano, o que é outra miragem dramática.

O Irão de Ahmadinejad , que só exporta petróleo e pistaccios, prometeu construir uma refinaria na Indonésia quando as suas próprias unidades se encontram em adiantado estado de decomposição, o que quer dizer que as miragens dos petrodólares são ireais e não validam a compra de canhões...Poutine pode vender-lhe mais sucata para implementar a construção do novo missil-anti-missil russo.O que tem que ser, tem muita força.

Por outro lado, Ahmadinejad tem tentado" conter" o líder Supremo , o ayatollah Ali Khamenei, fomentando rivalidades e dissensões políticas gravosas, querendo dar força ao seu mentor espiritual, o radical Mohamed Taqi-Yazdi, de acordo com dados avançados por um politólogo da Universidade de Washington, Stanley Weiss. Que relata, a esse propósito,
que " Khamenei e a élite clerical estão de atalaia e seguem de perto as manobras. O Parlamento rejeitou por três vezes as nomeações do ministro do Petróleo; e Khamenei colocou Rafsanjani, o candidato vencido na corrida presidencial, no Conselho Económico e Social, nova autoridade de controlo do poder de Estado".

O NY Times- apesar do Le Monde estar a despertar de um afastamento no terreno dos grandes afrontamentos mundiais - tem revelado de forma exemplar que os chiitas iraquianos têm três tendências maioritárias, pelo menos. E armadas. Que o populista presidente iraniano evita confontos com os sunnitas do país vizinho, mas teme que os sunnitas paquistaneses venham a dominar e estragar as ambições regionais do poder populista incarnado por si ,obrigando-o a ceder às potências ocidentais no controlo da pesquisa nuclear de ponta. Definitivamente, os erros e tergiversações pagam-se muito caro.

FAR
França, Março de 2006
"Aquele que se empenha a resolver as dificuldades
resolve-as antes que elas surjam.
Aquele que se ultrapassa a vencer os inimigos
triunfa antes que as suas ameaças se concretizem."

Sun Tsu, in "A Arte da Guerra"

quarta-feira, 22 de março de 2006

The Broken Column, 1944

The Bus 1929
*
Fui ver a Frida Kahlo ao CCB.
A força da exposição e a chuva,
levaram-me a ter saudades da minha barba à Trotsky.
Faz sentido?

Crónica da Rua 513.2


Ilustração de Ivone Ralha

Umas vezes deserto inóspito, outras um mar revolto, a Rua 513.2 oscila de um extremo ao outro sem encontrar serenidade. Todavia, se fosse tirada uma média a esses dois estados ela não passaria de uma rua normalíssima
Na Rua 513.2, o Inspector Monteiro, o Doutor Pestana e dona Aurora, o mecânico Marques, a velha prostituta Arminda de Sousa e alguns outros, emergem do passado para interferir nos dias dos vivos. Por outro lado, sob o olhar atento de Filimone Tembe, o Secretário do Partido, esses mesmos vivos fazem o que podem para que as suas vidas avancem. Vendem enquanto há o que vender, como o louco Valgy ou a incansável Judite; apelam ao conselhos de retratos pendurados na parede, como o empresário Pedrosa, pescam peixes forjados, como Teles Nhantumbo; lêem cadernos que escondem histórias de outros tempos enquanto reparam automóveis quase inexistentes, como Zeca Ferraz; combatem no mato, como o Comandante Santiago; ou distribuem pelos vizinhos aquilo que lhes chega às mãos, como Josefate Mbeve, que no fundo segue à risca as directivas do Presidente Samora Machel e tenta fazer do socialismo uma realidade.
Até que um dia chegam novos fantasmas para ocupar o lugar dos antigos, e as coisas começam a mudar. (Da badana do livro)

Crónica da Rua 513.2
João Paulo Borges Coelho
Editorial Caminho

terça-feira, 21 de março de 2006

A namorada


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

Manoel de Barros, Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - Rio de Janeiro, 2001.

"Escrever é entrar é penetrar na fonte branca”

"A poesia tem sido para mim uma forma de libertação. Não se pode dizer que seja uma expressão simples, fácil, o que a poesia procura é algo que de certa maneira ela não consegue admitir. Quer dizer, a finalidade do poeta é escrever, criar um texto que tenha uma certa coerência, que tenha a coerência da incoerência (como diz um crítico francês).

Mas é o que está para além das palavras, é o horizonte das palavras e é realmente o que é fundamental. Não só as palavras poéticas me fascinam mas aquilo para que elas apontam, o horizonte para que apontam, o espaço para que elas se dirigem é que é realmente a realidade imaginária e real; essa é que é a finalidade porque há em nós algo que é indefinível, incomunicável e indescritível.

O poeta pode suscitar a possibilidade de tornar actual (no sentido real) certas virtualidades, que se concentram no desejo do homem, numa espécie de corpo que ele quer encontrar, como que penetrar nesse corpo (uma criação, mas também uma realidade exterior, cósmica)."

António Ramos Rosa, excerto de um entrevista em 20.11.1996

Título: in O Livro da Ignorância, 1988

Manoel de Barros

Quero poemar
Como Manoel de Barros
Poema com sotaque
Sem bainha sapato e cordel
Prefiro lagartixa e cartão tresmalhado sem rabo
O dente olhando pela fresta
O caminho mexe cobra na mão
E nas ervas dorme a fúria das gotas lentas lentas
No poema joga-se tudo fora
Nada de guardar
Só janela
Nem no poema há paredes
Branco é o juízo e nó da gravata
As correrias dos pássaros desafinados são salgadas
Um toco de madeira
Uma memória mal embrulhada
E os pés
Esquecidos na lua pastam
Intensamente azuis
Não tem silêncios este voo
E é todo feito à mão

f.arom

segunda-feira, 20 de março de 2006

Do diálogo e outros eufemismos

A França dos liberais está debaixo de fogo. Mesmo assim é interessante ver como todos eles continuam a falar em diálogo. Uma palavra simples, que de repente se torna numa repescada buzz word da direita, politicamente correcta, e que afinal significa imposição. Villepin diz querer dialogar, mas nada faz para isso, nem altera uma vírgula ao Contrato Primeiro Emprego (CPE). E quem vem em seu socorro, utilizando a mesma palavra? Nem mais nem menos que o nosso conhecido Durão, o Barroso. Ontem, no grande júri "RTL-Le Fígaro”, disse coisas como esta: "É inelutável a reforma na Europa, senão todos perdemos. Não se pode continuar a viver na ilusão de que é possível garantir as coisas como elas eram no passado. É necessário reformar, evidentemente, com equilíbrio, com diálogo, mobilizando todos os parceiros sociais”. Para quem é responsável pelo executivo comunitário, que não se deve intrometer nas politicas internas de outros países, estamos falados. Mas a solidariedade da direita pesa mais. Mas este seu paleio é bem conhecido de todos nós. E, se bem me lembro, significa: “dialogar é preciso, desde que façam o que eu quero”. O passado é que era uma desgraça. Os despedimentos “até que são bons, os cabrões dos putos é que ainda não o descobriram”. E dá todo o apoio a Villepin. Mas este já tinha afirmado que não recua e que o CPE é para avançar. Porquê? Porque criará novos postos de trabalho. Desempregar para empregar. E empregar para desempregar. Eis o ovo de Colombo redescoberto. Os americanos funcionam assim há muito tempo, com a legislação laboral liberalizada. Mas a Europa em geral, e a França em particular, sempre fez questão de mostrar a diferença das leis europeias, e do seu Estado social. E cantavam: "this is not América"... Mas, ao que parece, os conservadores franceses não resistiram ao charme da terra que viu nascer notáveis como W. Bush. Resultado. Levaram com milhões de franceses na rua em cima. E não só. Ontem, o semanário "Le Journal du Dimanche" divulgou uma sondagem que dá conta do descontentamento de 61% dos franceses. Mas Villepan é um optimista e vê este aviso pelo lado positivo, Afinal, “ainda há 39% que não me condena”. E parece não se ter incomodado com as ruas cheias em protesto contra as suas políticas, praticamente durante toda a semana. Com o bloqueio das universidades a manter-se e a mobilização dos sindicatos em curso, tudo indica que na próxima quinta-feira haverá outra gigantesca manifestação. Só para lembrar a Dominique de Villepin que o conceito da palavra diálogo tem outra interpretação. O chefe da banda francesa sabe que tem a cabeça a prémio. E talvez nada disso tivesse acontecido se ele nunca tivesse faltado ás aulas de literatura, quando era jovem.

Nas galáxias do eu o vidro quebra

Pelas galáxias do eu
vagueando
o vidro quebra-se
em fogo de artifício interior
a noite explode e corre o corpo
o silêncio cega

entre as pedras polidas de lua acesa
deslizam Ofélias
leitos de flores ecoam pétalas translúcidas que descem para a foz
de um rio que transportamos como um rumor que não cessa
as lágrimas azuis de Ofélia são cristais de sal lentamente rosa ciclame
estes preparam-se para milénios de químico labor interstício

a paz morreu entretanto prenhe de lâminas no fio cortantes
e espera rapina nas esquinas caladas de luz
a sua vítima
mãos farpadas entreolham-se fazendo contas de metal sonante
e preparando o futuro nas Suíças de Davos

na menina do olho de Ofélia
no espelho imaginário
vê-se o lado de lá
quando se olha
crianças subindo paredes na vertical e
bicicletas acenando nos tetos lenços de clown
sorrindo
através dos raios infinitos das rodas que não cessam de girar
surreais
e sabendo-o
o velho piano de cauda e obstinatos
engoliu as teclas de amarelo tabaco e dorme
o som é uma sobra grasnada de maiores e menores desencontradas
dissonante
circular
em pião com gosma

do lado de cá
há muito que o olho perdeu a menina
e não há ofélias nem pedras de luas reflectidas
apenas o velho limoeiro solitário de cansaço
vitaminando tudo o que o toca
de alegrias nada breves e amarelas só de sol
o eu caleidoscópico desaprende-se em espiral despenhando-se dentro das suas próprias galáxias em queda livre de respirações nada ofegantes
os sapatos de cambados estacionaram de vez num adeus bem português
à porta logo ali perto da horta
quem lá vem não bate e entra flutuante
como quem conhece os passos que caminham
e recaminha os mesmos trilhos domésticos
as mesmas reesquinas recantos recovas de sofá e recôdeas
no cosmos

na gravidade rarefeita a pulso e em levitação oxigenada
somos um ponto em eu interrogado
uma imensa exclamação reticente de vírgulas fora de sítio
sem explosivos atados em cintura alguma
apenas movidos pela batida cardíaca
essas asas do desejo que não poluem
de olhos abertos e habitando uma voz à velocidade da luz
voamos em corpos de palavras
anunciando para 2017 um inverno de palácios reocupados
bastilhas tomadas por bandos de pétalas desavindas em greve geral
e silêncios comovidos do destamanho de Saharas
repletos de múltiplos oásis naturais de palmeiras despostaladas e areias e águas límpidas e sombras deitadas em sofás de ocasião
nada de plástico por perto
como aquários sobre pernas profundas e magras
rebolamos na estratosfera
de exótico rosto humano e escamas
circulando em parafuso como cornucópias
e mais do que uma estrela
real ou de hollyhood
somos poeira
parcela ínfima
um nada que dói

f.arom

TESTAMENTO


Foto de Ivone Ralha

Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que não me repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

Rui Knopfli

domingo, 19 de março de 2006

Invasão do Iraque: ano III


In memoriam
Teixeira de Sousa


É uma terra agreste, a ilha do Fogo, penúltima do Sotavento, no arquipélago de Cabo Verde. Aí cresceu a «mui nobre e altaneira vila de S. Filipe». Em frente a ilha Brava. O céu sem nuvens. O mar imenso. Nesse lugar de expressão portuguesa nasceu o médico e escritor Henrique Teixeira de Sousa.

Permanece ainda hoje um desconhecido entre nós. Todavia, o seu romance Ilhéu de Contenda inspirou o filme do mesmo nome, exibido nos cinemas do nosso país.

Contra Mar e Vento, reeditado agora pela Europa-América, é um surpreendente livro de contos do referido autor. Nessa obra, o que mais nos impressiona desde as primeiras páginas, é o facto de uma pequena ilha, pobre e pouco povoada, se transformar num autêntico universo onde será possível apreciar os mais curiosos tipos de habitantes. E o calor de endoidecer, a fome, as rixas, o corpo sensual da mulher crioula.

Nesse escasso território, cercado, esquecido, onde numa carta de Setembro alguém lembrava que «Rebocador vem fim de Oitubro», a vida pode surgir colorida, alegre ou trágica, engrandecida pela criatividade rara dos narradores cabo-verdianos. Como Teixeira de Sousa.

Acontece de tudo um pouco: o avô que «estava passando leve da cabeça», porque o velho teimava que a chuva devia chegar quando o vento sopra de madrugada; Aniceto Brasão, viúvo, com as suas quatro filhas casadoiras, falava todas as noites com a defunta mulher supostamente sentada na sua frente. Mais tarde as filhas haviam de o chorar e guardariam para sempre a recordação da formosa casa. «As buganvílias encostavam os seus ramos às paredes da capela e o roseiral enchia-se de rosas sem par».

E sempre a poeira das estradas, os campos ressequidos, a gente implorando a chuva que devia chegar pelo S. João. Ou chegaria quando chegasse. Restava fugir, tentar a sorte.

O capitão Fortunato era proprietário de uma pequena embarcação de carga, um palhabote da Praça do Fogo, Cape Verde Islands. Fortunato era aventureiro, mas desejava acima de tudo, desejava ardentemente regressar a S. Filipe onde o aguardavam a mulher, que lhe pedira uma máquina de costura, e o filho, que sonhava com a bicicleta da América. Fundeara em Providence. Investiu o dinheiro disponível em reparações, carregou o barco de mercadorias sem esquecer a máquina de costura mais a bicicleta. Largou no final de Novembro, na esperança de safar as Bermudas, evitar os temporais do Golfo, chegar a casa pelo Natal. O barco, afinal um palhabote, afundou-se nos mares do Golfo. Salvo por um cargueiro grego, iria trabalhar dois anos, pagar as dívidas, comprar outro barco, regressar a casa pelo Natal. A consoada. A Missa do Galo.

Nos restantes textos, o que sentimos a cada instante é ainda o sufocante calor tropical, a sede, as doenças, a grande solidão de um povo miserável. «A vila enchia-se de gente que abandonava os campos sem água. Vinham esfarrapados, magros, com chagas enormes fedendo a podridão. As mulheres traziam os filhos pequenos à cabeça, em grandes balaios». Os momentos hilariantes surgem como a face luminosa de uma existência mestiça, mas também ameaçadora, brutal e selvagem.

Era dia da procissão do Senhor dos Passos. Segundo a tradição, a imagem do Senhor, transportada ao longo do trajecto pelos homens mais possantes da localidade, deveria encontrar-se com a Virgem-Mãe, igualmente suportada por gente robusta. Porém, por antigos ajustes de contas que entenderam saldar nesse dia de comunhão, os homens pousaram as imagens em plena calçada envolvendo-se numa batalha campal de criar bicho. Mulheres fugiam espavoridas, as crianças gritavam. O Senhor dos Passos e a Virgem ali se mantiveram, inalteráveis, silenciosos, sobre as pedras do caminho. Sós, em frente um do outro.

E sempre as tardes de um céu desgraçadamente limpo, a longa espera das águas. Até que subitamente o vento entendeu mudar de madrugada, trouxe as nuvens densas, e o céu pesado se desfez em chuva torrencial sobre os telhados da vila, sobre a terra sedenta, enquanto o ribombar dos trovões anuncia a festa das águas que haviam de florescer as plantas, encher os poços, sossegar a gente. Por algum tempo.

Essa tradução dos dias da ilha do Fogo, com todas as tonalidades, o garrido, o grotesco, o suave, o sombrio, essa limpidez da escrita merece o mesmo nome de uma revista literária de grande significado em Cabo Verde: Claridade.

Teixeira de Sousa é seguramente um dos melhores representantes dessa escrita da portugalidade, negra e esplendorosa.

Texto publicado no jornal Correio da Horta em 16/11/99. Título adaptado.

Mário Machado Fraião

Ler Georges Bataille - I

" A única via rigorosa,honesta.Não possuir nenhuma exigência determinada. Não admitir de forma alguma limites. Inclusivamente em direcção do infinito. Exigir de um ser humano: o que é ou será. Não querer saber senão da fascinação. Nunca se fiar nos limites aparentes.
Os olhos da amizade são o necessário para ver ao longe. Só a amizade pressente o mal estar que emite o enunciado de uma verdade restrita ou a determinação de um objectivo. Não escrevo um manual de orientador. Será aconselhável que me compreendam únicamente pelo esforço de uma profunda amizade".

In Sur Nietzsche, Volonté de Chance. Págs. 125/162

Copyright FAR

sábado, 18 de março de 2006

All that you touch and all that you see
all that you taste, all you feel
and all that you love and all that you hate
all you distrust, all you save
and all that you give and all that you deal
and all that you buy, beg, borrow or steal
and all you create and all you destroy
and all that you do and all that you say
and all that you eat and everyone you meet
and all that you slight and everyone you fight
and all that is now and all that is gone
and all that's to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.

There is no dark side of the moon really.
Matter of fact it’s all dark.

"Eclipse",

Pink Floyd, The dark side of the moon, 1973
Ilustração da pinkfloydiana Ivone Ralha

Encontros de conspiradores





Poema


Foto de Ivone Ralha

No tempo em que os suicidas falavam
Amar-te teria consequências.

Mas teria?
Ou nem uma última ruga
Viria alterar a face das coisas
Dispô-las pela primeira vez a meu favor?

(Uma ruga que me deixasse para sempre limpo
Para sempre autêntico
E que imediatamente me recompensasse
Do acto por excelência cabotino
De desaparecer a deixar rasto
De desaparecer em contracção, em convulsão de teatro).

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 17 de março de 2006

Os homens de Cavaco

As primeiras nomeações do novo PR, Cavaco Silva, embora não surpreendam os mais atentos, não podem deixar de causar preocupação. Para o Conselho de Estado, rompendo com a lógica de equilíbrio seguida por Sampaio (que tinha como convidado, por exemplo, Carlos Carvalhas, de forma a manter o PCP representado neste orgão), Cavaco mostra a sua verdadeira face de homem do partido (e pensar que ganhou as eleições com aura de "suprapartidário"...): três históricos do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite e Dias Loureiro, um do CDS, Anacoreta Correia, e o seu mandatário nacional de campanha, João Lobo Antunes, provocando uma clara maioria de direita num orgão que se quer representativo das diversas sensibilidades da sociedade portuguesa. Mas piores, porque as consequencias serão mais graves, são os indícios da orientação cavaquista recolhidos pelas nomeações dos diversos assessores: para a economia foi escolhido João Borges de Assunção, um ultraliberal do grupo da Católica, defensor do emagrecimento ao máximo do estado, que recentemente acusou o governo de ter "um preocupante pensamento antieconomicista". Para a ética e ciências da vida, uma das áreas mais importantes da acção governamental, Cavaco nomeou Maria do Céu Neves, uma professora universitária da linha da direita católica próxima da Opus Dei. E é com ela que se aconselhará quanto a matérias como o aborto, a eutanásia ou a clonagem. Para os assuntos sociais, David Justino, o inenarrável ex-ministro da educação do governo PSD/CDS. Finalmente, para a assessoria-chave dos assuntos políticos, teremos António de Araújo, um dos nomes da nova direita conservadora ligada à revista Atlântico, que já se mostrou contra a pílula do dia seguinte, o "direito à pornografia" e a favor da criminalização específica de actos homossexuais com adolescentes; e nada mais nada menos que João Carlos Espada, o ex-maoísta-actual-neoconservador, visceralmente pró-americano, que já escreveu no Expresso a favor da guerra do Iraque, contra os casamentos gay, cuja cruzada pessoal é o que chama "a crise de valores da civilização ocidental". Pela amostra, isto promete. Aqueles que votaram Cavaco com a ilusão que seria um presidente suprapartidário, gerador de consensos e alinhado ao centro, que percam as ilusões: Cavaco será igual a si próprio. Nunca foi, ao contrário do que quis fazer crer a nojenta campanha em que tantos opinadores e jornalistas alinharam, um homem do centro, mas sim da direita, até mesmo, em determinados aspectos como as questões "morais", da ala mais à direita no PSD (e estas, curiosamente ou talvez não, serão questões em que a função presidencial terá mais importância). Nada contra, mas que se assumisse em vez de fazer toda uma não-campanha, em que surgiu como uma figura salvadora desprovida de ideologia e apenas preocupada com "o país". Aqueles que, não sendo de direita, se deixaram enganar por este conto do vigário, que se habituem. Terão cinco anos para pensar no que fizeram.

A que há de vir

Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.

Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
Ela é a querida da minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração
Ela é a minha poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.


Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro, 1933

Foto de José Carlos Mexia
"...prometi a mim mesmo dignificar as profissionais do amor e nunca mais chamar filho da puta a quem não o merecesse. Filho de Alá pareceu-me um insulto muito mais contundente."

Luís Sepúlveda, Diário de Um Killer Sentimental, trad. Pedro Tamen, Público

Post dedicado aos meus amigos do Savana


A Oficina de Teatro de Almada estreia no próximo dia 18 de Março, na Casa da Juventude – Ponto de Encontro, em Cacilhas, pelas 22.30 horas a sua mais recente produção: um recital de poesia composto por textos de: Alberto Pimenta, Jorge de Sena, Mário – Henrique Leiria, Abade de Jazente, João de Deus, Mendes de Carvalho, Ruy Belo, Armando Silva Carvalho, Ary dos Santos, Almada Negreiros, Fernando Assis Pacheco, Bocage, Luiz Pacheco e Bernardo Guimarães. A entrada é livre.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Se me perguntares
Quem sou eu

Cavada de bexiga de maldade
Com um sorriso sinistro
Nada te direi
Nada te direi
Mostrarte-ei as cicatrizes de séculos
Que sulcam as minhas costas negras
Olhar-te-ei com olhos de ódio
Vermelhos de sangue vertido durante séculos
Mostrar-te-ei minha palhota de capim
A cair sem reparação
Levar-te-ei às plantações
Onde sol a sol
Me encontro dobrado sobre o solo
Enquanto trabalho árduo
Mastiga meu tempo
Levar-te-ei aos campos cheios de gente
Onde gente respira miséria em toda a hora
Nada te direi
Mostrar-te-ei somente isto
E depois
Mostrar-te-ei os corpos do meu Povo
Tombados por metralhadoras traiçoeiras,
Palhotas queimadas por gente tua
Nada te direi
E saberá porque luto.
Armando Guebuza
Moçambique, 1977

(...) A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.
(...)
Agora eu penso no que poderia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. (...)

‘O Homem’, em ‘Contos Exemplares’ de Sophia de Mello Breyner Andresen, Figueirinhas

Fotografia e Post de Ivone Ralha

terça-feira, 14 de março de 2006

Haia: Quem morreu, Milosevic ou o TPI?

O processo contra Slobodan Milosevic foi encerrado. Termina assim um caso jurídico que em tudo se parece com um casamento católico: foi a morte que os separou. Durou quatro anos. As relações entre o Tribunal Penal Internacional e Milosevic, passaram por altos e baixos. Este queixava-se, barafustava, mas o Tribunal gostava de o ver assim. Por isso empatava, empatava. Para os juízes o Milo tinha piada, assim como a cidade. Haia é uma cidade simpática, ganha-se bem, e aturar o jugoslavo todos os dias, até que nem era mau de todo. Com noites longas pela frente, numa cidade com vida nocturna razoável e boas strippers, folgas ao fim-de-semana e férias alargadas, os juizes não se podiam queixar. Com um bom emprego, não há pressa. E fizeram tudo para que o Tribunal se portasse de forma digna. Deixaram correr o marfim, até porque não queriam cometer falhas. Agora Milosevic morreu. Os juízes lavam daí as mãos. O Tribunal até é contra a pena de morte. O preso é que morreu, não foram eles que o mataram. Azar dele. Tomasse mais vitaminas e fizesse ginástica. Mas a vida continua. Depois de Milosevic ir desta para melhor, os juízes já esperam ardentemente por Karadzic e Mladic, os dois "most wanted men" da Jugoslávia. Porque um homem tem que trabalhar. Mas, tudo leva a crer que eles já não vão aparecer. Embora as instalações e as refeições sejam boas, aquilo é uma chatice. Nada acontece. Não há acção. Souberam que Milosevic ainda tentou animar a coisa, tomando umas pastilhas, mas faltou-lhe algo. Ferrero Rocher? Ainda pediu ao TPI, mas ele não alinhou. “Isto não é uma palhaçada”, disse. E não foi em cantigas. É um tribunal sério. Ou pensam o quê? Perante a morosidade e pouca eficácia, muitos ficaram mais próximos da posição dos Estados Unidos, que se recusaram a ratificar o Tratado que criou o TPI. O que é mau. Para eles, os soldados e chefes militares estão acima de qualquer tribunal internacional. São intocáveis e nas tropas da superpotência ninguém toca. E consideram que com eles não se brinca: quando se trata de matar, não há problema. No terreno ou na prisão, é indiferente. Agora pactuarem com burocratas e serem acusados de tal é que não. Isso é um insulto. Coisas, que nem a uma mãe se diz.
Morre em Londres a 14 de Março de 1883
*
"Um problema só surge,
quando estão reunidas todas as condições para solucioná-lo."
Karl Marx

Cada vez mais "hermanos". Isso é bom ou mau?

Continua a ter preconceitos contra os espanhóis? Há cada vez menos razões para isso. Em 2005, safámo-nos de entrar em recessão económica graças às nossas exportações para nuestros hermanos. No entanto, não deixa de ser preocupante a crescente dependência económica de Espanha. Algumas empresas portuguesas já tentaram, ou estão a tentar, penetrar no mercado espanhol, abrindo lojas, sucursais ou departamentos. No entanto, dizem ser um mercado difícil, muito nacionalista. Ao contrário de nós, os espanhóis têm apetência pelo produto nacional. Talvez por isso, o crescimento da economia espanhola tem rivalizado com a Irlanda, e há 12 anos que está acima da média europeia. Os seus produtos também já são muito visíveis em Portugal, que o digam os jovens e menos jovens que já elegeram as lojas de roupa espanholas com nomes ingleses como as suas favoritas. Talvez por isso, quase um terço das nossas importações já vem de Espanha. O facto de haver por cá cada vez mais empresas espanholas também contribui para esta subida. É o gene nacionalista a comandar, ou dito de outra forma, é a pescadinha de rabo na boca, com molho espanhol.

Foto de José Carlos Mexia