terça-feira, 31 de janeiro de 2006

ALTERNÂNCIAS...

Entra Cavaco e sai Sampaio.
Como já antes entraram e saíram Guterres e Durão e Santana e, depois, Sócrates.

Não há nada como alternar!

Há que mudar algo para que tudo fique na mesma!

Mudam-se as moças mas a teta é a mesma...

E, com passo de lesma, cá vamos erigir Cavaco.
Prestar-lhe honras de Estado ( as quais lhe são devidas, por inerência de cargo...)

Choro por Portugal (a Teresa, uma senhora...)
Choro, desgostoso (muito mais que a Barroso...)

Só se expatria QUEM SENTE POR DESGOSTO TER POR PRIMEIRA-DAMA A MARIA!

(Conheço um tipo que fabrica passaportes... anti-CAVACO, uni-vos!)QUEIRO
Neste post do Random Precision:

«A Teresa e a Lena vivem juntas há quase três anos. O amor que a Teresa e a Lena vivem e que sentem uma pela outra levou-as a projectar e a planear uma vida conjunta pelo resto dos seus dias. Por isso, e como é natural, querem constituir uma família em plena comunhão das suas vidas. Querem celebrar um compromisso formal e solene entre ambas, que as vincule reciprocamente tanto do ponto de vista patrimonial como do ponto de vista moral. Querem formar uma sociedade familiar que integre todos os seus bens, e querem celebrar um compromisso mútuo de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência. Querem também que a família que pretendem formar seja reconhecida e tenha plena eficácia jurídica na sociedade em que vivem. Querem, numa palavra, casar-se!
Por isso, no próximo dia 1 de Fevereiro de 2006 pelas 14,30 Horas a Teresa e a Lena vão apresentar-se na 7ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (sita na Avenida Fontes Pereira de Melo, nº 7 – 1º andar em 1050-115 Lisboa), onde requereram já a abertura do respectivo processo de publicações, precisamente para se casarem.»

Mais posts no Random Precision sobre o tema aqui e aqui, e reaccções dos liberais-só-para-os-negócios aqui.

Amanhã irei fazer os possíveis para aparecer na 7ª Conservatória em solidariedade com a causa e a coragem destas duas mulheres. Convido os leitores a fazerem o mesmo.

Foto de José Carlos Mexia

Existe algum messias chamado Bill Gates?

É interessante a forma com está a ser noticiada a presença de Bill Gates em Portugal. Está a ser tratado como uma espécie de D. Sebastião binário, que vem salvar uma jangada de pedra que se afunda. Mas bem pode ser balão de oxigénio para o governo, com uma necessidade urgente de apresentar iniciativas. Se para a Microsoft tudo isto são peanuts, e conferências deste tipo ficam bem a empresas desta envergadura, as acções conjuntas que vai ter com o governo não vão ser obras de caridade. O preço a pagar ainda não se conhece. Como também não se sabe como se vai concretizar o seu envolvimento com o Estado português na dinamização do plano tecnológico, na criação de centros de desenvolvimento de software e nos centros de especialização tecnológica. Quais os seus custos e benefícios? Todos nos lembramos das acções de formação nos anos 80 e 90, de má memória. Servia para os organizadores ganharem fortunas, Estado incluído. Mas depois dos tempos de desperdício, a situação mudou e a margem de manobra diminuiu significativamente. Analisar se as contrapartidas para Portugal são vantajosas e os efeitos da parceria a curto ou médio prazo é um imperativo. Assim como a exigência de prazos e resultados. A formação não deve ser mais um emprego, mas um caminho para desempenhar funções com mais qualidade e eficiência. No entanto este tipo de encontros internacionais não deixam de ser importantes. Trazem uma lufada de ar fresco ao bafiento empresariado nacional, pouco interessado em apostas estratégicas e mais virados para o lucro do curto prazo. Espero que esta conferência da Microsoft em Lisboa tenha resultados visíveis e que as conclusões do encontro que tem o nome pomposo "Impulsionar a competitividade global através da inovação local" dêem em qualquer coisa. É uma oportunidade que não se pode desperdiçar.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

A coisa está a animar

Não podiamos deixar de assinalar a entrada de Vasco Pulido Valente na blogosfera, através de O Espectro. Junta-se à Constança Cunha e Sá, mas parece que há mais um colaborador a caminho. VPV começou já a dar o ar da sua graça. Hoje colocou o seu primeiro post e entrou a matar. Eis o texto: "As graçolas sobre a "recuperação" de Alegre não me parecem de muito bom gosto. Depois de trinta anos de ociosidade no parlamento, três meses de trabalho matam um homem".

Instabilidade

Estabilidade
O caso Cavócrates


Institucional aperto – foto de uma semana que virá -, entre o nosso primeiro e a figura presidencial, aperto de mão logotípico, valendo mais que mil palavras – já lá vai o tempo em que uma imagem valia mil palavras, isto é, hoje, uma palavra autêntica, nesta rarefacção do verbal, agora que tudo se faz com trezentos vocábulos, vale mil imagens, é puro caviar, já que as trezentas palavras usadas e abusadas mais não são que funcionalidade, água a correr nos canos da comunicação automática - mais que um telefonema de parabéns retribuído pelo anúncio de um bom tempo em assumido porvir. Vamos entender-nos dizem pela mesma boca mental, para bem do crescimento e da produtividade, essas ninfas da desgraça que nos perseguem. Não será? Mesmo quando em fim de tarde, o futebol cosendo nas imperiais a moleza de um gás de bolhas tristes e o Benfica voando na memória da águia amestrada de serviço – ela nunca olha para a baliza - se instalem e a criatura esbracejando em Sagres, exiba corada do nariz até aos artelhos, falando vermelho primário, o número de sócio, como quem foi a Meca: mesmo aí, o assunto é a nossa impotência produtiva. Já não há mar que valha, o que é que querem?
E a triste figura que aí vem, montada naquelas maxilas largas, a pôr um olhar moral estrumado em vários salários, outras tantas flores de virtude, a bestificar em denodado esforço um raciocínio, coisa diferente de ruminar confiança nos portugueses, eles são capazes, até são como os outros, os europeus, a triste figura dizia, afirme, para nosso conforto : eu confio nos portugueses, tudo dito depois de uma pausa de maturação prévia, coisa para longo alcance. Eles até são normais, penso.
O bom político faz-se pagar, o mau político é mau porque não ambiciona mais que o que tem. Logo o mau político não capitaliza na governação, é um péssimo político, pois governar é desenvolver com toda a discreção sinais clandestinos de riqueza não ostentável – como por exemplo contas na Suíça. O bom político, pelo contrário, é o que ambiciona o mesmo que os políticos reformados instaladamente em Conselhos de Administração obtiveram, ou o mesmo que os ex ministros repimpados instaladamente em Conselhos de Administração têm. Como se sabe não são salários, são qualquer coisa por vezes mais que 50 vezes um salário mínimo nacional – será possível?
É fazer contas.
O que espanta é que esta estabilidade, apregoada à exaustão como um seguro de vida obrigatório, mesmo como o ar que se respira, seja martelada no esquecimento e ocultação de outras instabilidades ( por vezes oculta-se com maior eficácia o que se expões até à saturação), as que atiram as criaturas para a inactividade, a incapacidade, a negação de si mesmos, o desemprego.
Mas o que é que estes europeus querem?

f.arom

Canção


Ilustração de Ivone Ralha


Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodrecem no céu
dos que não quiseram ver
- mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem

Alexandre O'Neill

Contos do Ano Novo .6

O país a sofrer um choque tecnológico e ele céptico. O insucesso nas ciências e na matemática acabrunham qualquer um. Culpa do sistema de ensino? Das indústrias de explicações? Quem sabe? A verdade é que no caso dele a culpa foi da prof. e dos colegas. Era no tempo da segregação sexual. Liceus femininos e masculinos. Matemática com n horas semanais. E a prof. tão diferente dos coirões que por aí dão aulas. Também é verdade que com o tempo as fantasias se requintam. Trinta putos entre os 15 e os 19 anos. A prof. decotada e perfumada. A aula começava com o M. a pôr o lenço em cima da carteira. Em seguida um olhar cúmplice para os colegas. Começava o momento pitagórico. O número abria-se. Seguia-se a construção faseada, em técnica oriagami, de um pássaro tomando forma. Maravilha das geometrias. Fase completa, olhar, risos na assistência. A prof. entusiasmadíssima com a recepção dos alunos. Nova pedagogia avant la lettre. E aí, a 10 minutos do fim da aula, M. abre a braguilha e tira o pirilau. Põe o pássaro perfeito na mão livre e esgalha uma. Depois o delírio. Toca, o rapaz vem-se, o pássaro voa. Que sincronia! A turma desmancha-se em aplauso. A prof sai em glória. Como perceberam esta história é do passado. O insucesso na matemática persiste, mas hoje as escolas são mistas. Fodemos uns com os outros. Masturbamo-nos pouco. Bendita democracia!

Josina MacAdam

Vinhos e Literatura

A vida é curta demais para beber maus vinhos.” Duijker
*
Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram.” Cícero
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Onde o vinho falta não há lugar para o amor.” Eurípides
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É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.” Baudelaire
*
O vinho que se bebe com medida jamais foi causa de dano algum.” Miguel Cervantes
*
Agora que a velhice começa é preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo, e sobretudo, escapar do perigo terrível de ao envelhecer virar vinagre.” Dom Helder Câmara
*
Linkado do Alentejanando, com a devida vénia
Recordar o passado, no presente, para cimentar o futuro

domingo, 29 de janeiro de 2006



"O futebol tem destas aversões aos ritmos do jogo e à suposta justiça dos homens. É um jogo digno dos deuses e por isso caprichoso. Foi assim ontem, com os deuses a brincarem com o destino, até esse destino se tornar inevitável."

Vítor Serpa
In A Bola, 29 de Janeiro de 2006

China: Mundos & fundos

China: Mundos & fundos. Disputa as head-lines de todos os noticiários, à cerca de cinco anos a esta parte. Parece lenta mas irreversível a ascensão da República Popular da China aos lugares cimeiros da economia e política mundiais. Ninguém sabe o que é que acontecerá com a dinâmica da produção industrial chinesa, que em 2004 bateu novos records de exportação e gerou um superavit comercial colossal, só batido pela Alemanha, se bem que existam especulações sobre a veracidade dos números apresentados por Pequim. Todavia, no espectro regional da Ásia do Sul, avivam-se as tensões geradas pelas rivalidades políticas entre os três Estados gigantes, Japão, China e Índia, cada um a procurar aliados e mercados para sustentarem o ritmo imparável do crescimento interno. Ninguém inagina o que o futuro lhe reservará: Taiwan e a Coreia do Sul, a Birmânia e a Indonésia são alvos-cobiçados pelo triunvirato da expansão a dois dígitos, que desequilibra as outras potências do G-8., marginalizando a Europa e intimidando os EUA.

Philippe Cohen, um dos maiores jornalistas franceses da actualidade e autor do livro que abalou o funcionamento do jornal Le Monde, realizou uma reportagem magistral que concretizou em volume, " A China será o nosso pesadelo?", editado na Fayard/ Mille et une Nuits, que engloba e manobra todas as vastíssimas referências teóricas e políticas alinhadas ao longo dos últimos anos sobre o fenómeno da aliança marxista-leninista e do neo-liberalismo despudorado mais despótico e implacável. O caudal de informações e a escolha dos tópicos de análise nucleares fazem deste ensaio um dos grandes livros deste novo ano, à escala mundial. É impossivel compreender o que se passa, sem interrelacionar as teses de Joe Studwell com as de Erik Izraelewicz ou de Laurence Benhamou, indo depois para o terreno vários meses, esse o método utilizado pelo jornalista da Marianne.

" Com efeito,a expressão atelier do mundo não foi escolhida por acaso: a China possui verdadeiramente a possibilidade técnica de se tornar o distribuidor industrial exclusivo mundial. Mais grave ainda: tendo em linha de conta a rapidez crescente com que as empresas chinesas se adaptam ao mercado livre, a desindustrialização do Ocidente pode surgir mais cedo do que previsto ", frisa P.Cohen.

Regime de partido único, a China domina já o vasto sector das indústrias de electrodomésticos mundial, preparando-se para entrar em força no software e na produção de automóveis híbridos a baixo preço. Como não tem sistema de Segurança Social de espécie alguma e as reservas de mão-de-obra são ilimitadas, o estado-partido gere via rede bancária um cash-flow gigantesco que investe numa segunda ronda de deslocalização para escapar ao sistema de quotas europeu e americano. Assim, surgiu recentemente em Hong Kong uma linha de confecções de Alta Costura- que abastece a Ralph Lauren e a Calvin Klein, entre outras- que concentrou os estilistas nova-yorquinos na antiga colónia inglesa para produção autónoma em perspectiva. Mais , cita P.Cohen, a partir de 2009, a China poderá ser o centro mundial da Pesquisa & Desenvolvimento, um Sillicon Valley multifuncional gigante, que abrirá ainda mais as portas à dominação económica chinesa e despoletando, se assim se pode chamar, um cataclismo ideológico e social imprevisível a médio prazo.

FAR

"Explicação de Soares"



"(...)com derrota ou sem ela, Soares continua. Não é uma "festa" eleitoral como Manuel Alegre. Nem um produto da televisão como Louçã. Nem a cara amável de um partido arcaico como Jerónimo. É quem é. Se enterrar depressa a frustração , verá que não perdeu qalquer influência na esquerda, no PS ou na política portuguesa. Avisou que não dormia bem com Cavaco na presidência. Não tardará que muita gente se lembre."

Vasco Pulido Valente
In Público, 28 de Janeiro de 2006

Foto de Gabriela Ludovice

Para acabar de vez com o debate sobre as eleições, parte II

A intenção de Manuel Alegre manter vivo o movimento que o apoiou na corrida presidencial não deixa de ser patético. Não percebeu que os seus apoiantes o fizeram porque não se queriam submeter ao espartilho partidário criado pelos verdadeiros responsáveis pela vitória de Cavaco Silva. Estamos a falar de Mário Soares, José Sócrates, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã. Pode-se já dizer que foi a arrogância da esquerda que acabou por colocar Cavaco em Belém. Louça e Jerónimo ficaram muito contentes com os resultados partidários. Só que nestas eleições o objectivo principal era derrotar a direita e não obter um bom score do seu partido político. Para Mário Soares a corrida foi como uma erecção matinal aos 81 anos: para esquecer. Sócrates perdeu as eleições mas ganhou o melhor inquilino em Belém para executar as suas políticas. Manuel Alegre foi o refúgio de milhares de pessoas que se aperceberam à última da hora aquilo que os partidos não viram ou não quiseram ver: a necessidade de uma unidade da esquerda.
Quanto ao movimento cívico de cidadãos faz-me lembrar o PRD de má memória. A mobilização de Alegre ao longo da campanha não foi famosa. As campanhas do movimento cívico cheiram-me que irão ser piores. Vão dar cabo do que restou da visão que um milhão de eleitores: uma unidade genuína e espontânea que acreditava que as décimas da última esperança ainda chegariam a tempo de obrigar Cavaco a calçar de novo as pantufas, depois de perder a segunda volta.

sábado, 28 de janeiro de 2006

O Real Imaginário I
Pintura acrílica sobre papel
Bela Rocha, 1999
*
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
*
Pablo Neruda,
in "Últimos Poemas"

Mulheres: mistérios, encontros ou talvez não

Com o virar dos anos e com a revolução tecnológica em curso é cada vez mais importante estar atento à complexidade da vida moderna. Um pequeno descuido e acabamos na cervejaria da última esperança a falar do mundial de 1966 e do euro 2004. Mas, atentos ou não à evolução social e à sua interacção com os múltiplos apetrechos tecnológicos, há sempre um tema de conversa que nunca escapa: mulheres. E por muitas voltas que o mundo dê, continuam a ser o que há de mais complexo e inexplicável no planeta. Qual gadget qual carapuça. Babes, sim. Há quem use e deite fora, há quem não use e espere pela Cinderela e há quem quanto mais usa mais gosta. Talvez usar seja um termo forte de mais. Mas em qualquer dos casos, a questão principal é esta: é difícil desvendar o mistério que envolve a mulher.
*
Por muitas discussões, seminários, estudos, livros que elas escrevam a exporem-se e a dizer mal umas das outras, há sempre muito que fica além da nossa compreensão. Óscar Wilde dizia que “As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos”. Não sei se será bem assim, porque muitas vezes tudo começa logo nas agendas do verbo amar: são diferentes nos dois géneros e não sei porquê, na altura da acção, há sempre alguém com dores de cabeça ou a ter de se levantar cedo. Já Voltaire tem outra perspectiva e acusa: “Se os homens estivessem satisfeitos consigo mesmos, estariam menos insatisfeitos com as suas mulheres”. Eu penso que a satisfação tem muito a ver com a compreensão. É difícil perceber quando elas dizem uma coisa, mas afinal estão a pensar noutra. E acaba num inevitável: ”tu não me compreendes”. E quando se tenta balbuciar que “mas não foi isso que tu disseste…“ a conversa é cortada com um seco “vocês são todos iguais”.
*
No entanto, quando a crise estala e se começam a procurar alternativas à esposa ou namorada, aí as coisas aquecem. Tudo é suspeito. E-mails, telefonemas sussurrados, atrasos, passam a ser indícios que poderá haver outra. A insegurança instala-se e desconfiam de todas as mulheres do círculo de amigos. E começa-se a embirrar com as mais mediáticas. Um exemplo. Mas desta vez fora da alcova em que estão a pensar. Todos sabemos que Joana Amaral Dias foi uma espécie de Viagra da campanha de Mário Soares. Mas ela é uma mulher que sabe pensar e com ideias próprias. Numa hipotética candidatura a um cargo político de eleição directa ou não, seriam as mulheres as primeiras a tentar travar a sua eleição. Por um lado admiram a sua beleza, mas desconfiam da sua inteligência e da sua praxis. Uma figura gordinha, avozinha, tipo Maria de Lurdes Pintassilgo, teria mil vezes mais hipóteses. É maternal e inofensiva. Não tem aquela atitude afirmativa gauchiste que não precisa falar para se concordar com ela. Nem um look matador. Um bloco de mulher, que qualquer um quer descobrir mais de perto.
*
Longe vão os tempos em que a mulher era um acessório de promoção do marido. Virgínia Wolf dizia a esse respeito que “As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de reflectirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural”. Gostava de ter vivido nesses tempos, em que as mulheres falavam das criadas e de festas e os homens só bebiam cognac, falavam de política e inevitavelmente das mulheres dos outros. Agora bebe-se menos cognac e as criadas são do Leste ou da América Latina. Na altura, levava-se bem à letra aquilo que Óscar Wilde sintetizou: “A felicidade do homem casado depende das mulheres com quem não se casou”. Talvez tudo tenha a ver com um trauma familiar que parece manter-se actual ao longo dos séculos: “em princípio, não há nada que as mães desejem mais para os filhos do que vê-los casados, mas nunca aprovam as mulheres que eles escolhem” afirmava Raymond Radiguet. Mas não quero entrar nestes campos edipianos, porque nos levam a outros caminhos.
*
Há quem entenda que na relação com as mulheres se podem separar as águas. “Há mulheres com quem fazemos amor, outras com quem falamos” dizia Maurice Chapelan. Era bom que não fosse assim, mas é verdade. O interessante é que mesmo com essas mulheres, a parte que deve ser levada com mais cuidado ou mesmo a evitar, tem quase sempre a ver com outras mulheres. Curioso. Já em casa, a coisa piora. Com a mulher, companheira ou amante, qualquer referência a colegas de trabalho, amigas ou conhecidas provoca automaticamente um sinal de alerta. Muitas suspeitas levam mesmo a represálias, que passam muitas vezes pela abstinência sexual forçada. O que leva de novo a procurar as tais amigas para mais conversas, aí já de profundidade duvidosa e de instintos carnais óbvios. Por vezes há um acordo tácito, dizem mal da companheira ausente e vingam-se na cama da forma mais debochada. Chega-se a levar horas, pois a raiva teima em vir ao de cima. A partir daí, pode-se entrar num ciclo vicioso. Byron dizia que “terrível é que não é possível viver com as mulheres, nem sem elas”. Por isso, e porque só a objectividade interessa à ciência, é preciso continuar a procurar a verdade científica que o género misteriosamente esconde. E nunca faltar aos treinos. Só mesmo em caso de doença.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006


Foto de José Carlos Mexia

Deve-se receitar poesia

"Considero a poesia como uma das mais importantes componentes da existência humana, mais como elemento funcional do que valor. Dever-se-ia prescrever a poesia como se faz para as vitaminas:" Atenção meu caro, na sua idade, se não faz uso de poesia, isso não o estimulará por aí além...". E, no entanto, apesar da poesia ser tão importante para mim, contam-se pelos dedos os dias em que leio ou realizo um poema. Não é por falta de ocasiões para que tal aconteça, mas escapam-me por entre os dedos e exclamo: agora, falhei. Em relação à música passa-se o mesmo: é também fundamental, mas, por vezes, esqueço que existe durante semanas. É um pouco em relação a tudo isso que traço as minhas estratégias ".

Félix Guattari

*) In " Les années d´hiver", 1980/1985. Edit. Barrault.

Copright FAR

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Sociologia


Fotos de Ivone Ralha


Tenho o meu pequeno tratado de sociologia,
uma sociologia de horizontes modestos.
Ponho-me a remorder
continentes, povos, hábitos e costumes,
mas a minha sociologia não
passa disto,
uma sociologia de esquinas.
Da malta e das esquinas,
e tudo muito limitado.
Vem de antes de mim
e irá para além um pedaço.
Antes, era o grupo do Jacaré,
a geração que me precedeu.
Vinham, como sempre, após os estudos,
por volta das cinco da tarde,
um a um,
sentar-se na dobra do passeio, à esquina,
alguns inda vinham da geração anterior.
Agora outro grupo, outra esquina,
outros nomes (alguns inda se sentaram
à minha beira).
As coisas mudam muito,
mas nesta essencialidade
a malta permanece.
E, ainda,
com a brisa da tarde a cair,
se vêm sentar na borda do passeio,
à esquina.
Eu aqui mordo-me de lembranças
e saudades,
faço esta sociologia
e nunca mais, com a brisa da tarde a cair,
me irei sentar na borda do passeio,
à esquina…

Rui Knopfli

Presidenciais 2006

A INSUSTENTÁVEL DUREZA DE CAVACO SILVA


Dizia um grande estratego político que venceu o Czar de todas as Rússias, que a política é a economia concentrada. Ora, como ninguém o diz mas todos o sentem, a economia portuguesa navega em águas recessivas, há mais de cinco anos. Foi esse handicap que "afugentou" Guterres, que " balançou " Durão Barroso para Bruxelas e armadilhou a prestação medíocre dos seis meses de Santana Lopes. Por isso, a entrada em campanha eleitoral dissimulada no Outono , obrigou todos os candidatos a " pensarem " os remédios para a gravíssima crise económica e social que atravessa Portugal, caso único no concerto da União Europeia, de cuja média vivencial nos estamos dramaticamente a afastar.

As percentagens obtidas por Cavaco Silva e Manuel Alegre, dois terços do eleitorado, não podem servir de paliativo para ninguém: as receitas keynesianas do Estado protector e supletivo não têem suporte material consistente nem nas poupanças, nem nos impostos de uma indústria pauperizada e inflaccionada e muito menos no mirífico e volátil investimento estrangeiro. Como bem o expressou no Público(23/1), Augusto M. Seabra, estas eleições revelaram o " excesso de passado dos três principais candidatos ". E que, adianta, " assim sendo,como pode surpreender que o vencedor seja um político que calculadamente sempre preservou uma imagem de não-político e o grande derrotado seja um político, que o é por inteiro, que não compreendeu que visivelmente a generalidade do país entendia que este já não era o seu tempo?".

António Barreto no mesmo jornal, em jeito de balanço instantâneo, atirou com estas flechas: " Sócrates deve julgar que ganhou. Mas desenganar-se-à rapidamente. Vai ter enormes sarilhos. Por causa da colossal votação em Alegre. Mas as suas principais dificuldades serão outras. Ele acha que tem Cavaco Silva nas mãos e que este é a sua alma gémea.(...) Cavaco Silva será tudo menos um incondicional ". E o prestigiado sociólogo e analista político vai mais longe: " Venceu o candidato mais misterioso. De mais difícil qualificação. Mais previsível, na vitória, mais imprevisível no comportamento . Na verdade, o que merece ser sublinhado é que tem as mãos livres ". Constança Cunha e Sá, TVI e Sábado, a grande revelação do jornalismo dos anos 90, admite que " Cavaco Silva não é de direita, nem nunca se notabilizou por deixar espaço à direita"., in blogue O -espectro.

Vital Moreira, o célebre prof. de Direito de Coimbra, atalhou no seu blogue( Causa-Nossa), que a vitória de Cavaco Silva foi " uma vitória à tangente, a mais magra de todos os presidentes até agora; foi uma vitória assente numa forte abstenção, principalmente no campo socialista ". Ao contrário de Barreto, Vital Moreira entende que " esta vitória fraca não lhe deixa margem para o intervencionismo presidencial que ele e os seus apoiantes acalentavam.". Por outro lado, admite: " Ter um PR que não ultrapassa os limites de uma cultura economista e tecnocrática é uma enorme sensação de despromoção ". Pacheco Pereira no seu blogue(Abrupto), amandou-se ao ar por tais confissōes:" Mau perder abunda por todo o lado, sendo até um dos traços distintivos destas eleiçōes presidenciais".

De realçar, por fim,o comentário de Miguel Sousa Tavares, na TVI, de que " toda a gente estava à espera de uma vitória muito mais folgada de Cavaco Silva ", que se reflecte no de Marcelo Rebelo de Sousa- " De certa maneira, o soarismo termina "- e no sibilino desabafo de Maria João Avillez, na Sic, ela que é a grande biógrafa do fundador do PS- " Ninguém percebeu, ainda hoje, muito bem o que levou Mário Soares a candidatar-se ".Ficam no ar, no entanto, as profecias do número dois do Bloco de Esquerda, Miguel Portas, que vaticina que " esta vitória de Cavaco Silva será a construção de um bloco central institucional". A ver vamos, como diz o desmancha-prazeres.

FAR

Benguela


Foto de Gabriela Ludovice

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Como nos bons velhos tempos

Nós no 2+2=5 ficámos tão abalados com a eleição da criatura (perdão: o xôr Presidente da República Anibal Cavaco Silva), que ainda não conseguimos compor sequer duas linhas de análise sobre o tema. Outros tiveram mais capacidade de encaixe: a Susana Bês encontra razões para manter o optimismo; o Ricardo Alves responsabiliza Sócrates pelo desastre; já o Eduardo Pitta ataca Alegre pelo divisionismo. Coisas das opções que cada um tomou. A melhor, para mim, é esta do Luis Grave Rodrigues. De facto, caro Luis, ganhar e perder faz parte do jogo democrático, e pelo menos temos matéria de sobra para a blogosfera, como nos bons velho tempos de Santana Lopes!

O que querem os neoliberais

A Autoridade da Concorrência alemã veta uma fusão nos media por entender que uma concentração de 65 % pode prejudicar a liberdade de informação. Os neoliberais estão contra; pouco lhes importa a liberdade de informação, apenas a liberdade económica. Perante a ameaça de uma catástrofe ecológica, procura-se reduzir a emissão de gases através de um protocolo. Os neoliberais estão contra; pouco lhes importa as catástrofes ecológicas, apenas a liberdade económica. Um governo decide aumentar os impostos de forma a financiar políticas de promoção da igualdade, designadamente através de subsídios aos estudantes pobres. Os neoliberais estão contra; pouco lhes importa a promoção da igualdade ou os estudantes pobres, apenas a liberdade económica. Um movimento propõe o fim dos off-shore e a taxação em 1 % das transacções bolsistas, de forma a financiar um fundo para o desenvolvimento dos países pobres. Os neoliberais estão contra; pouco lhes importa os países pobres, apenas a liberdade económica. Os homossexuais organizam-se em protesto pela igualdade de direitos. Neste caso, os neoliberais podem estar contra, a favor ou serem indiferentes conforme a inclinação, porque pouco lhes importa os direitos dos homossexuais, apenas a liberdade económica.
Se pensam que estou a exagerar convido-os a visitarem os blogues neoliberais como o Blasfémias ou O Insurgente, como faço diariamente, e lerem pelos próprios olhos as justificações mais rebuscadas para a defesa pura e simples da sacrossanta liberdade económica contra qualquer outro direito. A pergunta que faço aos neoliberais é: até ao momento tenho-os visto defender com igual afinco a liberdade política, e felicito-os por isso; mas se, por exemplo, for eleito um governo que ataque a liberdade económica, qual será a vossa escolha? Democracia ou Capitalismo?

Panorama


Ilustração de Ivone Ralha



Ao longe
na distância da manhã por vir,
na indecisão das camuflagens
E do rumor da guerra,
Há agonias esbatidas no negro-fumo
da pólvora
dos homens que se batem.
Aquém, é a luta na rectaguarda!

Às dores que nos campos de batalha
o golpe de misericórdia é dado
pela metralha,
correspondem nas fileiras de trás
ansiedades intérminas de almas
e lutas maiores…
Há evacuações despedidas, alarmes,
e notícias de comboios torpedeados.
Há a guerra de nervos destrambelhados:
A guerra que ficou em nós
das notícias de guerra!
E há noites incalmas
de almas
que escrevem poemas
aos poemas dos nossos nervos em guerra.

E fica-nos a certeza
de que há um ‘front’ em toda a gente.
A leste, ao sul, no espaço.
Em nós
há guerra – Aqui e além.

Guilherme Rocheteau, 1944

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Eu hoje acordei assim...

Contos do Ano Novo .5

Nestes tempos de eleições recordo-me sempre de outros tempos, com outras eleições. Não, não é uma história do antes do 25 de Abril. É de depois. Pouco depois. Mas as coisas não eram fáceis. A malta mais politizada lia Reich. Falava da necessidade de uma companheira para levar a cabo a revolução. Sonhava com o aproveitamento das descargas orgasmáticas para mover o país. Muito, muito longe do Cavaquistão. E, no entanto, tão perto. Bem sei que isto é um exagero! Ele era delicado, oferecia-lhe flores. Ela gostava. O problema era com o colectivo e com as sessões de crítica e auto-crítica. Receber flores era um acto da burguesia. Ele levou com os pés por esse revolucionário motivo. Ficou ressabiado. Não gosta de democracias directas. Ela desposou um quadro da Frelimo.

Josina MacAdam

domingo, 22 de janeiro de 2006


Foto de José Carlos Mexia

A objectividade não existe

" Quem quer realizar o que deve ser, deve tomar em linha de conta o que aconteceu", gostava de frisar Maquiavel, o primeiro analista político da modernidade e que contesta no início do séc.XVII o poder absoluto sob todas as formas. " Não é o acontecimento que surge como perturbador; ele não é senão o ponto de encontro entre os efeitos de acções infinitas, o ponto onde, sob uma forma manifesta, se institui ou desfaz o sentido- uma marca do " tempo que apaga tudo diante de si, o mal como o bem, o bem como o mal". Tudo isto, para referenciar a saída em França do último livro de Olivier Todd, o biografo polémico de Malraux e Camus e considerado como o melhor repórter dos anos 70. Na sua autobiografia, Todd escalpeliza o perfil técnco e humano da " nata " do jornalismo pariseense. Já tinhamos analisado o livro sobre JJ Servan-Schreiber, agora só falta concluir com o diário do fundador de Actuel e Nova, Jean-François Bizot.

Todd, bilingue anglo -francês, caso muito raro em França, pertenceu ao círculo dos amigos íntimos de Sartre, andou pelas redacções de Les Temps Modernes e iniciou a sua carreira no Nouvel Observateur, o mais prestigiado dos semanários franceses, de esquerda rocardiana, onde os intelectocratas do mundo inteiro participam. Apesar disso, na era mitterrand ainda tenta a direcção do L´Express, onde coteja Aron e Revel, os coriféus mais inteligentes da direita giscardiana, numa espécie de quermesse ideológica pragmática, sendo correspondente da BBC, do Observer e de jornais USA, intermitentemente." Deviamos procurar acima de tudo a objectividade, esta sombra movediça. Ela não existia, afirmavam certos mentores como André Fontaine, do Monde. Podiamos, no máximo, ser honestos. Perseguiamos a objectividade, que nunca se captura ", comenta, para nos dar a sua fórmula do bom artigo:" 95 por cento de trabalho: presença no terreno, pesquisa de testemunhos e dados, e 5 por cento de talento". Voilà.

O testemunho fervilha com mil e umas estórias das alcovas pariseenses. Ficamos a saber que o multimilionário Bizot, o industrial Perdriel, dono do Nouvel Obs, ou Jean Daniel, o eterno director, iam de aviāo privado para férias no Magrebe ou na Côte-de-Azur...A namorada de Bourdet , o famoso publicista trotskista, vivia num palácio perto da Gulbenkian. Mas muito bem trabalhadas, são as suas entrevistas/ encontros com Ezra Pound, émulo do seu poeta preferido T.S. Eliot, e Graham Green, para lá de revelar que foi o divulgador das tesesd de Guy Debord na Grande Imprensa.

Acarinhado por Sartre, seu vizinho de bairro, Todd remexeu tudo para apurar as dissensōes entre Sartre e Camus. Apura que Simone de Beauvoir o queria levar para a cama, o que ele recusava terminantemente. Casou com a filha de Paul Nizan e viveu com a de Brel. Os seus escritores preferidos sāo George Orwell, Evelyn Waugh e Green, que relê periódicamente. Ganhou 1 milhão de francos com a monumental biografia de Camus. E confessa, noutro registo, que uma mulher nunca consegue remoçar um amante...


FAR
22-01-2006

Crónica












Picasso

De quando os professores sabiam ler e escrever, tinham personalidade e opinião acerca das coisas. Havia teatro nas Escolas. Não havia Internet. E mesmo nas suas fases menos boas, os professores não eram alvo de processos disciplinares.


A notícia da representação da peça A Cantora Careca, de Ionesco, na cidade do Porto, rapidamente avivou na minha memória ocorrências de outras eras e outras vontades.

No final dos anos sessenta a cidade da Horta vivia um tempo sombrio, passados que haviam sido os anos estrangeiros dos cabos submarinos, os «Clipper» nas águas baía, festas e bom teatro, onde se distinguiram alguns notáveis da vida cultural da ilha, por exemplo, António Baptista, Amilcar Goulart, Constantino do Amaral, Ernesto Rebelo e Silva Peixoto, para citar apenas alguns nomes.

Despovoada e triste devido ao recrudescer da emigração após a erupção dos Capelinhos, a cidade arrastava-se na sua famosa má língua, sustentada de pequenos escândalos, e apenas o paquete Funchal, depois o Angra do Heroísmo, que não atracava, conseguiram alegrar, no «dia de São Vapor», uma doca sem navios.

Descoloridas ficavam pouco a pouco as molduras do Café Internacional e pouco a pouco envelheciam as conversas com saudades da antiga faina do porto, ou dos intermináveis bailes da Sociedade Amor da Pátria, ou do glorioso Angústias Atlético Clube.

António Duarte entregou-se à tarefa de recuperar a tradição faialense para os espectáculos de teatro e variedades tirando partido das condições existentes, concretamente a abertura marcelista, e uma sensibilidade própria para a representação, característica secular dos habitantes da cidade da Horta.

A primeira experiência de António Duarte no teatro foi a encenação da peça Óleo, de Eugene O’Neill. Seguiram-se alguns quadros dos Autos de Gil Vicente, um espectáculo inspirado na lírica de Camões que incluiu declamação e bailado, e uma adaptação da Ode Marítima. Cremos, sinceramente, não faltar à verdade se defendermos que o poema de Fernando Pessoa saiu engrandecido pelo aproveitamento das diversas vozes, alternando entre o solo e o coro, com registos diferentes, evidenciando as diversas fases desse fabuloso texto poético. Parece-me que ainda consigo ouvir essas vozes de forma ritmada, vigorosa: «Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, / Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas». E por aí fora.

Mas foi com A Cantora Careca, de Eugène Ionesco, que António Duarte confirmou os seus méritos de encenador valendo-se da prestável colaboração de outros residentes no Faial, como, por exemplo, Mora Porteiro e José de Freitas Diogo. Este espectáculo foi complementado e enriquecido com a declamação de poemas de José Gomes Ferreira e a interpretação de canções de José Afonso. Tudo isto nos tempos da outra senhora, no palco do Ginásio do Liceu. E pôde ainda este acontecimento incluir uma interessante originalidade: a exposição de pintura contemporânea, com destaque para as reproduções dos mestres do impressionismo.

Não era fácil a tarefa de levar à cena La Cantatrice Chauve, naquela época, numa pequena ilha. O dramaturgo romeno, autor da peça, caracterizou-se por um estilo inteiramente novo, introdutor do nonsense no teatro. No caso presente as personagens participam em conversas e diálogos absurdos com a solenidade de encontros entre pessoas da classe média mais tradicional. Muitos de nós ainda se lembram de ouvir a Odília, no papel de criada, a dizer: «Comprei um penico para o meu quarto». E contrariando todos os receios o espectáculo foi ovacionado pelo público.

Todavia, o aspecto mais relevante da intervenção cultural de António Duarte no Liceu da Horta, onde foi professor, terá sido, quanto a nós, o espaço aberto para a confraternização, a mobilização das qualidades, o despertar da nossa curiosidade para os mais diversos campos do pensamento. E com alegria, com humor, quando dirigia os ensaios. «Mais alto».«Mais devagar». «Não fales à moda dos Cedros».

E morreu a preparar a segunda parte de um espectáculo com Carlos do Carmo. De repente, de ataque cardíaco. No Teatro Faialense, o espectáculo continuou. O António morreu no Hospital da Horta.

Quando tanta vaidadezinha se passeia alegremente pelas cidades destas ilhas é sempre bom lembrar aqueles que morrem do coração.

Mário Machado Fraião
In Suplemento de Artes e Letras do «Diário Insular», 12.9.1996.
(título e subtítulo adaptados a este blogue)







Picasso

O voto inútil


O CANDIDATO-SURPRESA!!!

Este candidato promete (os 10 pontos para uma Boa governação):

- A Vida na sua essência
- Não nos preocuparmos mais
- Sermos sem mais
- Não querer
- Dar beijos em toda a gente
- Saber tudo para saber o que se quer
- Olhar para o chão e ver o céu
- Ter a mania que se percebe de tudo e mais alguma coisa
- Saber o que se quer para saber que não se sabe
- Amar

O voto útil

Hoje iremos votar no representante máximo da nossa Nação. Nestas eleições sui generis aconteceu que mais importante que a nossa escolha, é a nossa não-escolha. É fundamental NÃO votar Cavaco. Porque já nos basta a Direita dos interesses disfarçada de Esquerda no governo. Porque nem sequer nisso confiamos, os interesses são vários e a criatura há-de querer pagar as dívidas. Porque naquilo para que queremos um Presidente ele não serve; queremos um Presidente que seja um símbolo. É para isso que ele serve. Para ter uma posição. A posição de Cavaco já sabemos: parece não ter para não parecer; é uma agenda escondida à vista, esse cobarde nem sequer tem coragem de dizer o que pretende. É um merdas. Hoje, embora vislumbremos mais uma derrota, votar NÃO a Cavaco é um dever cívico.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Moraes

Presidenciais: Faites vos jeux

Com todas as sondagens divulgadas, a primeira conclusão a retirar é que nada está decidido. Na campanha que termina hoje, Cavaco Silva passou de “grande vencedor” a um “possível vencedor” na primeira volta. Os mais de 10 pontos percentuais de vantagem com que iniciou a volta a Portugal, passaram para pouco mais de dois.
À esquerda, a subida de Manuel Alegre para segundo foi ligeira e não foi suficiente para apagar a luz vermelha. Como não houve desistências, não chegou a haver uma concentração de intenções de voto, necessária até para mobilizar muitos indecisos.
É nestes precisamente que agora se concentram todas as atenções. A sondagem Expresso/SIC/Renascença dá a vitória a Cavaco com 53,0%, mas considera que “esta conclusão, porém, só será válida caso os 10,1% de indecisos se distribuam proporcionalmente ou se abstenham”. E a Eurosondagem acrescenta que “se os indecisos se situarem esmagadoramente à esquerda, Cavaco pode ver-se obrigado a disputar uma segunda volta”.
Os indecisos são 23% na sondagem da Universidade Católica para o Público/Antena1/RTP, na qual Cavaco lidera com 52%. Este número tão elevado poderá marcar a diferença, caso decidam votar no domingo. Já a sondagem CM/Aximage obteve 49,8% dos votos directos no ex-primeiro-ministro, sem contar com os indecisos, cujo número não revela. No caso de nada ficar decidido agora, Pacheco Pereira considera no Abrupto que Cavaco Silva “entrará muito enfraquecido na segunda volta, em contraste com a força com que entrou na primeira, e terá que defrontar dificuldades para que a sua campanha declarativa e proclamatória não está pensada”.

Presidenciais: o voto não é secreto

Nunca lidei bem com o voto útil. Sempre me incomodou ter de votar em alguém que não fosse a minha primeira escolha. Confesso também que não costumo ler os programas dos candidatos. A não ser se que seja a única coisa que tenho à mão quando ando de metro ou de autocarro. Sempre foi algo que considerei desnecessário, uma vez que os candidatos se encarregam de os divulgar ad nauseam. Também não gosto dos candidatos mainstream. Estão demasiado comprometidos para serem minimamente verdadeiros.
Nestas eleições, a minha primeira escolha foi para Francisco Louça. É o eterno enfant terrible deste e de doutros actos eleitorais. Tem um discurso actual e é um político com grandes capacidades. Mas muitos não se apercebem disso, ou porque têm vistas curtas ou porque a ligação partidária não os deixa ver mais longe.
Nos últimos tempos, e face ao rumo que a campanha eleitoral tomou, comecei a enquadrar-me nos eleitores de esquerda indecisos. A causa primeira deve-se a Cavaco Silva e a tudo o que ele representa: as suas ideias bafientas, anunciadas com a arrogância de quem sofre de complexos de inferioridade. Em última análise, elas apontam para o retrocesso social, o neo-liberalismo e o aumento das desigualdades. Já para não falar dos boys, que vai desencantar ninguém sabe bem onde, para depois os aturarmos o resto da vida. Tudo isto sem contar com a sua inqualificável Maria.
Por isso, e porque muitos dos meus camaradas de blogue já o fizeram, decidi tornar público o meu voto, que vai ser em Manuel Alegre.
Porque é necessário travar Cavaco Silva com alguém que tenha hipóteses;
Porque é tempo de cerrar fileiras contra a direita e não cair na esparrela das divisões em que os partidos de esquerda cairam;
Porque acabou o tempo das hesitações. As cartas estão na mesa e é tempo de decidir. Ser lúcido é um imperativo e está na altura de o demonstrar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Anschool II, a não escola




"Anschool significa que não precisamos de análise nem formação. Anschool significa que precisamos de coragem. De curiosidade e de vontade. De afirmação. Precisamos da arte como arte e precisamos de correr o risco de explorar o "outro" ou a tal "outra coisa".
Thomas Hirschhorn
Exposição no Museu de Serralves,
Porto, Janeiro de 2006

Segunda volta é possível e provável.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes



Post dedicado ao André, a quem devemos este blogue e a quem devo a minha carreira como blues man.

Partirá em viagem filosófica para a Holanda. Que as crónicas holandesas não nos faltem! Que volte depressa e bem!

Silogismo Neoliberal

P1- O sistema actual é inevitável.

P2- O sistema actual sacrifica milhões de pessoas.

C- O sacrifício de milhões de pessoas é inevitável.

América do Sul, 2006

Com a eleição de Michelle Bachelet para a presidência do Chile, a América do Sul torna-se definitivamente o grande laboratório da Esquerda para os próximos anos. Com Bachelet no Chile, Morales na Bolívia, Kirchner na Argentina, Chavez na Venezuela e Lula no Brasil, existe uma linha claríssima em que, independentemente das diferenças entre estes, foi plebiscitada uma governação alternativa ao modelo neoliberal que nos é apresentado como "inevitável". Organizados neste bloco poderso, os sul-americanos podem resistir com eficácia à depredação dos seus recursos e ao ciclo infindável de pobreza a que as políticas alinhadas com Washington levaram nas últimas décadas. A observar com todo o interesse deste lado do Atlântico, onde uma Europa que também poderia constituir um modelo alternativo se deixa ir na onda, levada pela tibieza e falta de coragem dos seus líderes (com a honrosa excepção Zapatero em Espanha), quando não mesmo pela efectiva conjugação dos interesses destes com os do sistema vigente.

P.S.- Por razões a que sou alheio, a minha colaboração neste blogue será um pouco mais esparsa nos próximos tempos. Nada de preocupante, pois o 2+2=5 continua a contar com a grande qualidade dos outros intervenientes.

Uma noite inesquecível: Mad Dog Clarence & Los Santeros - LIVE

Uma breve introdução. A noite ia ser longa...
Singing the blues, just the blues, man...

Um solo de harmónica magistral, como só os grandes clássicos são capazes.

Mad Dog corresponde ao desejo da assistência, começa a despir-se e dança com uma fã.


O público não queria acreditar no que estava a ver. O momento era único.


Mad Dog e um conhecido empresário da noite.


Los Santeros em grande forma. Enlouqueceram todos os presentes ao tocarem, pela primeira vez, músicas do seu novo album, que todos aguardamos com ansiedade. Continuam em digressão. Quem sabe se um dia destes não estarão numa sala perto de si.

Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.

Contagem final

Este senhor, que já não precisa de provar nada, merecia que estes senhores, em quem habitualmente voto, se empenhassem. Está na hora!

Foto de Francesca Pinna

18.1: Esquerda sobe, Cavaco desce e Maria não se sente nada bem

Parece que já não são só as mulheres de Almodovar que estão à beira de um ataque de nervos. É um país inteiro que segue esta corrida presidencial como se fosse uma final da selecção nacional. Nem mesmo a Betandwin.com pensou que as coisas chegassem a este ponto. Será que nestas meias-finais, Cavaco joga com o equipamento da Holanda e perde a favor da selecção de Portugal/Alegre, como no Euro 2004? Ao que parece, é cada vez mais provável uma segunda volta. A excitação está ao rubro e a decisão parece estar cada vez mais nas mãos dos indecisos de esquerda. Mas vamos a contas. A três dias do fim da campanha eleitoral, Cavaco Silva continua em queda. Esta quarta-feira desce mais 1,4% nas intenções de voto e situa-se agora nos 53,2%. De acordo com a sondagem de hoje da Marktest para o DN/TSF, o candidato da direita perdeu 7,8% desde que começou a campanha. Manuel está cada vez mais Alegre, e sobe para 19%, mais 0,6%. O candidato patrocinado pelo PS está agora com 13,4%. Mário Soares recupera apenas 0,2%. Jerónimo de Sousa é a revelação do dia, ao ultrapassar Francisco Louçã com 7,2%. O candidato do Bloco tem agora 6,3%, e está à frente de Garcia Pereira. Como não podia deixar de ser, também damos notícias da esposa candidata a First Lady of Bethlehem. Ao que parece, Maria está com problemas em dormir. As insónias começam a atacar. Segundo fontes da candidatura pró-primeira-dama, na origem do mal-estar estão os cortinados já encomendados para o Palácio de Belém. Agora, só já pensa em atrasar a entrega. Uma chatice. Há barbudos Alegres, com a mania que são poetas/cantores, que só vivem para aborrecer os outros. Um horror. Ao que parece, os dourados e as flores em tons laranja vão ter de esperar por melhores dias. Quanto tempo? Vá-se lá saber...

José Carlos Ary dos Santos

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança
que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.
*
*
"Auto-Retrato"
in "Fotosgrafias", Lisboa, 1970
*
7 de Dezembro de 1937
18 de Janeiro de 1984
*

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Cavaco continua em queda. Maria na expectativa

De acordo com a sondagem do DN de hoje, a direita ainda não pode sorrir, uma vez que Cavaco continua a descer. A Marktest deu-lhe 54,6% das intenções de voto, ou seja, menos 6,4% do que há uma semana. E embora eles digam que esta queda ainda não põe em causa a sua vitória na primeira volta, talvez não seja bem assim. Faltam cinco dias para as eleições e caso a queda cavaquista continue, poderemos estar à beira de um turning point, que poderá levar a uma segunda volta. Como ainda 16% de indecisos, sendo a maioria de esquerda, pode-se concluir que ainda nada está decidido.
A descida poderá ter a ver com a dramatização que Cavaco introduziu agora na sua campanha. Apela aos seus apoiantes para convencerem os primos afastados , os amigos na farmácia e os colegas no local de trabalho para irem votar. As sondagens estão a criar um desassossego no seio da campanha da direita. E pode ter uma explicação académica. De acordo com um estudo de Thomas E. Patterson, "Of Polls, Mountains: U.S. Journalists and their Use of Election Surveys", inserido no norte-americano Public Opinion Quarterly, e divulgado no Margem de Erro: “os candidatos são estrategas, com certeza. Mas o facto deles dramatizarem os seus apelos e encenarem as suas mensagens não é nenhuma novidade. Tais manobras são tão velhas quanto a política. O que é novo é a intensidade penetrante sob a qual as actividades dos candidatos são expostas, dissecadas e criticadas. E não deve constituir surpresa que ao mesmo tempo que os candidatos que são apresentados como mestres de estratégia e manipulação, os americanos os tenham em menor consideração”.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Soneto do amor total



Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes

Contos do Ano Novo .4

Fingir-se de morto é uma estratégia de sobrevivência. No reino animal há várias espécies que a ela recorrem. Há meses que eles se seguiam. Ela muito livre, ele muito tímido. Tinham a mesma idade. Ela tinha vivido mais do que ele. Ele estava obcecado por ela, mas não sabia nem como, nem quando, concretizar a paixão. Aqui para nós, o rapaz era inexperiente e inseguro, mas tinha vontade dela. A rapariga era segura e experiente, também tinha vontade dele. O primeiro passo foi dela. Organizou um jantar em casa. Tudo bem comido, bem fumado, bem bebido. O grande tímido, só olharezinhos, voz quente e sorriso envergonhado. A casa foi-se esvaziando, tinha sido uma grande festa. Ele foi-se deixando ficar. The party is over. Só ficou ele, aparentemente vencido pelos excessos da mesa e dos fumos. Um corpo abandonado, inerte, no meio de uma sala vazia. Morto. Ele estava morto. Ela de milagres sabia. Apareceu nua a seu lado perguntando-lhe se não preferia deitar-se na cama. Ele aí saiu do coma profundo. Ressuscitou. Venceu a timidez. Aprendeu, com a vida, outras estratégias de sobrevivência. Assim é o mundo animal! Hoje lembra-se com enorme saudade daquela mulher e sente ternura pelo tímido que foi.

Josina MacAdam

domingo, 15 de janeiro de 2006

Equilíbrios precários no Médio Oriente

Aquelas biscas lambidas da direita portuguesa, a tal que o Marcelo Caetano apelidava de mais estúpida do mundo,que tentam impingir o produto Cavaco Silva , a qualquer preço, não fazem ideia do que as espera: petróleo mais caro e uma União Europeia a esvanecer-se por causa da pressão insuportável do crescimento chinês e da tensão ao retardador do Médio Oriente. Com quem é que Anibal se quer aliar? Mesmo Berlusconi pode vir a ter que fazer uma Grande Coligação com Romano Prodi para salvar o que resta de uma economia desfeita... A arrogância de Cavaco Silva faz parte do album de recordações dos miguelistas e trauliteiros do mais sinistro pseudo-nacionalismo lusitano.

A impertinência e a chantagem da proliferação nuclear lançadas pelo novo líder iraniano, Ahmadinejad, podem criar uma catástrofe geopolítica estrutural no Golfo Pérsico, provocando uma subida mais expressiva do preço do barril de petróleo e tornando os putativos fariseus da coexistência económica global- EUA, China,Índia e Rússia-em parceiros opostos e diferenciados de um afrontamento múltiplo e sangrento. Alexandre Adler, no seu mais recente livro- " Rendez-vous avec L´ Islam "- ventila tal hipótese como o princípio do fim do crescimento imparável da economia chinesa, por um lado; e, por outro, como o início de uma recessão intercontinental que deixaria a Europa e os EUA de rastos. Dois cientistas sociais minimizam tal eventualidade num texto publicado no NY Times desta semana, que possui o mérito de aprofundar as questões de uma forma clara e sintéctica.

Sabe-se, com efeito, que Teerão assenta hoje em dia a a sua arrogância política activa no pressuposto de uma confortável almofada de divisas externas fortes, provenientes das exportações de crude e da concessão de diversas explorações . A raíz do problema e da congénita instabilidade política e social radica, tão-só, na falta de discernimento ideológico do novo homem-forte de Teerão, de quem se desconhecem as afinidades ideológicas mais profundas e dinâmicas em acto:"estará ligado de pés e mãos com as confrarias sunnitas integristas, Irmãos Muçulmanos egípcios e sírios, os oulemas sauditas, a nebulosa Al-Qaida para não se falar dos talibans pathans? ", questiona Adler.

Os dois politólogos da Universidade de Berkeley, D. Zahedi e O.Memarian, pontuam no artigo conjunto publicado no NY Times- Um demagogo no imbróglio iraniano - que " os lideres do Ocidente deveriam levar em consideração o que diz o arrogante e bluffista recém eleito presidente do Irão sobre as questões maiores do seu projecto político regional e deameaça nuclear". Está em jogo a integridade regional do Irão e a segurança do mundo Ocidental, admitem.

" O exército americano está atolado no Iraque e no Afeganistão, e os EUA deram a primazia ao controlo e fiscalização nuclear da Coreia do Norte, prioritariamente ao do Irão. Caso venha a ser ameaçado, o Irão pode espalhar a devastação militar e social no Afeganistão, Iraque, Libano e Israel, pelo menos.Informações distorcidas podem inclinar o líder iraniano a responder a uma escalada militar norte-americana",acentuam os especialistas de Berkeley University,e avisam, que " mesmo se o Irão jogar a carta religiosa com os Sunnitas, posicionados em vários países da zona,inimigos frontais dos chiitas", o que parece estar em jogo, " diz respeito a um ajuste de contas de Ahmadinejad contra os seus rivais internos e o esmagamento das franjas modernistas da sociedade iraniana ".

FAR

Ternura



Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora.


Vinicius de Moraes

sábado, 14 de janeiro de 2006

Soneto de Fidelidade




De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Que vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Estoril, Outubro, 1939
Vinicius de Moraes

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Estado de Direita

Crónica presidencial despropositada

O Estado temo-lo em casa e não se dá por isso. É a palmatoada do pai em obediência ao Grande Costume, mas desaparece no sorriso do pai, é a sopa obrigatória marcando passo, torcendo a espinha, mas vai-se na bola de gelado, é a espada imaginário de Afonso e a pá da padeira, mas também o serviço de urgência em dia de cabeça partida quando a senha que nos calha é amarela e lá secamos como bacalhau de Janeiro à espera da consoada. Em casa senta-se à nossa frente e emite livremente uma vida alheia, de outros bibelotados e habitados, em que enredamos como mosca na teia e comemos preocupadamente como a nossa própria. O Estado vende modos de vida e comportamentos, mesmo quando diz que não. O Estado é o patrão por trás da televisão, porque o patrão é o Estado berlusconizado, o Estado dos interesses e da celebridade cultuada, neutro a favor deles e muito colorido a pintar protagonistas eternizados no instante. O Estado também é terrorista quando lhe dá jeito. E magnânimo nas datas simbólicas. Mais pau de bandeira menos pau de bandeira, obriga-nos a respirar os ventos patrióticos da história a plenos pulmões ou impondo-nos, sentimental, a nostalgia de uma amputação, em cada escalada alegre ao topo do mastro ou quando triste se queda na meia haste. Hasteia o que pode, por vezes muribundo e ainda dá coice, gemebundo, tiros atirados à toa em Largos do Mundo, casas de pombos desempregados. Ele é a aranha sempre pronta a cuidar dos nossos desvios. E quando estes estão para além da vontade de quebrar uns vidros por mera angústia ou desvario, ou além de vituperar um sentido proibido que nos desestaciona a existência, ele estica o seu longo braço e observa-nos a cabeça como quem faz uma cerebroscopia, à procura da raiz do mal, que já lá estava, na genética origem malformada. Diagnosticar um pendor anarquizante, um desconhecimento do princípio hierárquico, uma peste mental, é o que fazem os seus serventuários mais dedicados com sanha militante. O Estado pode ser um clube com direito reservado de admissão, mesmo uma seriíssima casa de alterne. O Estado é a Casa Branca, espalhando imaculada cirúrgica guerra entre civis. O Estado filma-nos e pede que a gente sorria, de frente ou de perfil, de trás ou no covil. E calça-nos a cabeça sempre que ela perde as baias. O Estado é também o princípio da competição, ele quer o maratonista mais maratonista, o Estado quer pernas musculadas e secas de carnes para espalhar horizontes de visão, o Estado é um imenso professor de ginástica sueca, um dois, um dois, braços estendidos, à frente, começar! O Estado é algures o banho esfregado até que o corpo perca a vontade de respirar pela pele, é o alicate puxando a língua, é o avião atirando opositores sobre uma mar pacífico. É invisível quando descemos as persianas e se faz um escuro definitivo, as horas que o sono durar, porque estando lá não está lá, mas vela pelos nossos sonhos, fabricando pesadelo quando girando à volta do sol, o não podemos, decreto havido. Tal como o anjo da guarda, protege-nos do mal, essa vida saturada de diabos dançando frenesins solsticiais nos cromeleques da imaginação. Não que eu alguma vez o tenha tido de guarda à cabeceira: de asas talhadas em prata e sorrindo, o que se pode pôr de dentes protectores, na dimensão de um medalhão? O resto de uma chiclete sim, colada no espaldar da cama, clandestina e duradoura, para mascar no silêncio do preto escuro, essa áfrica de todos os dias que anoitece connosco. O Estado é o satélite olho do grande irmão. E nós o pirilampo, luz precária saltitante, fugindo do apanha luzes. O Estado é o Cavaco, o cavaco inifogado que as televisões vendem como a qualidade. O Estado são as Silvas que por todo o lado infertilizam os baldios. O Estado com um E de continência, É o Estado de Direita.

f. arom

Agora que o Fungágá da bicharada tomou o poleiro




Epitáfio para M

Dos tubarões fugi eu
Os tigres matei-os eu
Devorado fui eu pelos percevejos


Brecht em tradução de Arnaldo Saraiva

AFORISMOS E AFINS



Eu gosto tanto de ti que tenho vergonha de mim. Há todas as razões boas para eu não gostar de ti, menos a de eu não gostar, porque gosto. É fantástico a gente sentir o que não quer e ter um coração independente.
Fernando Pessoa
In AFORISMOS E AFINS

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

O Circo está de volta a Corroios

Mad Dog Clarence

Los Santeros

LUSA- Numa das mais aguardadas e badaladas movimentações do defeso, a mítica banda de surf-mariachi-underground-grease-trash-majestático Los Santeros contratou para as primeiras partes da sua tour nacional o não menos mítico bluesman do Cais do Sodré Mad Dog Clarence. A primeira data é já no Sábado, dia 14 de Janeiro, em Corroios (mais propriamente, Vale de Milhaços) no Ritmus Bar, com inicio marcado para as 23 horas. Este espectáculo prevê-se marcado pela memória do primeiro concerto dos Santeros nesta sala, quando após Chicken Birdie Joey (baixo e voz) ter tentado desesperadamente que a empregada de mesa aceitasse um pedido de casamento efectuado em palco, foi organizada espontâneamente uma sessão de tatuagens, tendo a sala se transformado de repente na ante-câmara de uma sessão de tortura ao som do DJ americano Shimmy. Sábado caberá a mais um americano, o DJ Reverend Bo Jackson abrilhantar a festa até de madrugada. O que sucederá desta vez? Uma pergunta dificil de responder, pois nos concertos de Los Santeros tudo pode acontecer. Lá estaremos para dar conta aos leitores.