terça-feira, 20 de junho de 2006

Crónicas do Jocélio

O retorno do recalcado. Agora a direita pedagógica, a MFM, a FB, os meus colegas e o meu sindicato (tramaram todos a Ana Benavente), o editor da Gradiva (um abraço para um colega de curso), o matemático Nuno Crato, e tantos outros, para não falar da direita pura e dura, atacam o Ministério da Educação. Este agora tem tempos diferentes, mas fazem hoje todos parte do mesmo coro. Numa das salas da minha escola, a de Orientação Escolar e Profissional (grande nome), li qualquer coisa como: se o prof de matemática tem de ensinar matemática ao Miguel, tem de saber tanto de matemática quanto do Miguel. Pensava eu que todos tinham compreendido, à luz de estatísticas inelidíveis, feitas por organismos internacionais, o estado a que isto chegou. Parece que o bom senso não é partilhado. Trata-se só de senso comum. Querem voltar ao passado! Não conhecem o sabor do saber. Esqueceram Barthes, esqueceram-se do que viveram e marcham todos contra o “eduquês”. Para eles é à martelada que se ensina.Clint Eastwood, na pele de Dirty Harry, na sala de aula. Melhor, esperam uma atitude reverencial e macia por parte dos alunos, que aos profs não pagam para entrarem em westerns. Terão filhos, terão netos? Que fantasmas? Pior, não reconhecem esta escola onde tem assento todo o cidadão. Querem voltar ao passado? Oiçam o António Mourão!

Jocélio Vasco Salvado Elias

2 comentários:

Anónimo disse...

Desconheço que a direita, a pura e dura, ou a impura e suave, ou qualquer outra, ataque o Ministério da Educação. Duvido mesmo que a direita exista como um bloco, embora conceda que existe como um mito, ou um fantasma, que dá jeito à ansiedade identitária das pessoas que insistem em definir-se de esquerda. Por oposição à «direita», no singular, está bem de ver. Em qualquer caso, não contradigo ninguém que me ache «de direita». Nada contra. Passo em frente e tento a substância das coisas.

Há gente a quem é costume rotular de direita, que está encantada com a ministra da Educação. O António Borges, que foi dez anos reitor da melhor escola de gestão do mundo (é o que se diz...), o INSEAD, de Fontainebleu, usou uma página inteira do Público para dizer que o que a ministra está a fazer está muito bem. Mas eu sou um simplório nestas coisas, porque não tenho créditos para alvitres extensos sobra a matéria.

Mas posso falar do que aprendi nas escola. Voltar ao passado? Seria bom de mais para ser verdade.

Tenho pena dos miudos de hoje a quem a roda da fortuna não deu o privilégio de terem nascido a tempo para estudarem no Liceu Salazar (não tenho culpa do nome), em Lourenço Marques. Ou noutro igual.

Ali, a primeira lição de todas, era a de que aprender custa, exige esforço. Que nada na vida, que valha verdadeiramente a pena, se faz sem aplicação e sacrifício. E que esse esforço recompensa. Recompensa por si mesmo, porque saber é em si mesmo gratificante (mais tarde, quando estudei a «Metafísica» de Aristóteles, não me foi difícil entender por que é que todo o livro é um prolongamento da primeira frase: «todo o homem deseja naturalmente saber». E por que é que essa frase é a primeira).

E recompensa também porque diferencia: temos a possibilidade de ser excelentes, de sermos reconhecidos como os melhores, em algo que é por todos considerado importante, dignificante: SABER. É evidente que o risco é falharmos, e sermos olhados como medíocres. Mas a vida é uma sucessão de riscos. Também se aprendia isso.

Ali, a segunda lição era a de que o brio é uma qualidade. Neste sentido (e não só..., é claro), a escola era profundamente elitista. Ensinava-nos que os melhores são necessariamente poucos, uma minoria. Mas é evidente que esta segunda lição depende da primeira: a de que SABER É UM BEM. E que nada de bom se obtém de graça.

No passado (talvez um pouco idealizado, concedo) era assim.

Depois vieram os anos hippies da ideologia do prazer como alfa e ómega de tudo. Do prazer espontâneo, imediato. A escola tinha de ser divertida, lúdica. E foi o aviltamento que se viu.

Creio profundamente que nenhum projecto educativo que não olhe para o passado, como eu pude vivê-lo, e faça dele o seu ideal, terá sucesso. É elitista? De direita, dizer estas coisas? Passo em frente. A ministra acredita que sem esforço e distinção, a ser praticado, antes de todos os outros, pelos professores, não há Educação? Se assim for, é bom de mais para ser verdade.

Armando Rocheteau disse...

Caro Jó:

Passando em frente e indo à substância das coisas, como queres.

As políticas educativas dos governos PS, seja a do governo Guterres, seja agora a do governo Sócrates, são de esquerda. Explico-me, visam o combate à exclusão escolar, e consequente exclusão social.

O PSD, quando teve a pasta da educação, não me parece que se tenha demarcado.

Cocordo contigo quando falas nas direitas. Também, para mim, há esquerdas.

Quando frequentei o Liceu Salazar não tirei as lições de vida que tiraste. Não gostava que os meus filhos tivessem tido a Escola que tive. Sobretudo repugnar-me-ia que tivessem vivido o tempo que vivi naquele Liceu.

O teu passado idealizado será como dizes. É tudo. Estará hoje morto o poeta?

Por último, que isto já vai longo, penso que todas as políticas educativas que tivemos, desde o 25 de Abril, entram em conta com o passado.. Continuamos a pagar a factura deixada por Salazar. Felizmente num tempo outro, com outra Escola.

Abraço