Omnidentais
São como ossos que se desarticulam
Sob a pressão metálica dos directos
E nada sangra
Cirurgia de silenciador
No turbilhão de imagens a gota de sangue
É inexistente
Atiram-nos contra a cara uma multidão de corpos
Enquanto logo uma simbólica nas gargantas esganiçadas
De uns mais descalços que outros
É erguida em fúria cega
Já nada passa silencioso
No passo ancestral de morte e luto
Nem os rituais têm o seu tempo
A água nas mãos
Lenta na sua transparência soluçada
Deitarmo-nos com o poente
Semicerrar os olhos
Num alentamento do corpo
Extinguiram-se
Tudo corre atrás dos próximos cadáveres
Numa contabilidade infindável de ódios
Contar aprende-se a somar valas comuns
É este o estádio supremo do desenvolvimento
E esta é a fé
E as multidões ululam
Em espasmos globais de bola entrada na baliza
Espasmos salivados contra o outro
Globalizados nunca fomos tão canhestros
E o palco do mundo
É mais velho que uma arena de gladiadores
Sob o olhar jogador da turba
O imperador aposta o seu poker íntimo
Em gestos de tédio
Comerciando carne como quem rói as unhas
E verde é o campo da bola
Não o olhar espraiado em qualquer estepe
Savana ou deserto
Acontece por vezes
Quando uma súbita maresia rompe o ecrã
E certamente escapada ao turismo de massas
Que na pele do ar que nos oxigena
Partículas de silêncio
Evoluem como pássaros azuis
Em forma de violino e abas de grilo
No arame de um circo campânula de paz
Aí respira
O que pode
Um nariz de clown
f.arom
2 comentários:
lindo; adorei;obrigada Rocheteau
apetece cravar nao pele seca do tempo a raiva cuspida em vomitos de espuma no tapete roto da memória humana...pelos rostos esquecidos pelos corpos denegridos,pela dor do mundo que rodopia no egoismo...
ADOREI!
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