sábado, 31 de dezembro de 2005

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Um grande 2006 para todos os leitores e amigos!

CHINA

COMPETI VIDADE
da vida dos assessores mais que principais e mesmo de alguns secretários do estado em que isto está

Como verificaram falta um TI para que a palavra viesse como a deu à luz o tempo, falantes da língua mãe e fonte latina: COMPETITIVIDADE (competitio). Foi engolido o TI e como uma espinha às voltas na garganta atrapalha muito a todos, sofre-se a sua gritante ausência como uma falha nossa: ouvimos COMPETI VIDADE e abala-se a ideia pátria, o português, derramando-se logo incônscia uma lágrima de sal do mar de Pessoa pelo rosto cacilheiro abaixo, que Cacilhas é todo o nosso norte, a Índia para lá estando entregue a si mesma, coitada, abandonada entre monções, saris e sarapatéis.
O caso é de sala de urgências e não de médico de família, pois uma espinha cravada na garganta em forma de T é TITTrágico. E se vai parar à glote e delita as cordas vocais? É um black out imediato de vogais e aí a nossa criatura, o pseudonominado animal sem TI, o criador do buraco negro, o engolidor do TI, o nosso herói, perde a característica, o toque singular e fica sem palavras, o que é também frequente ouvir a parentes seus : são muitos os protagonistas a dizer : estou sem palavras.
Enfim, bem vistas as coisas, engolindo o I pode-se reavê-lo no recycle bin, porque um I na garganta passa sem problemas, mesmo no papel de perigosa espinha protagonista. Um I não atrapalha, não convulsiona, na põe tudo em catalepsia. O problema está no topo do T, letra em CRUZ, com tudo o que isso tem de passivo milenar simbólico dificultando o trânsito na garganta : está tudo no T, desde os cristãos atirados aos leões até à irmã Lúcia, nossa querida santificada míope.
Contextualizando : quando nós, consumidores compulsivos de realidades simuladas, na ânsia de ver um telejornal capaz de fazer transparecer o mundo ligamos o bombardeiro (1) de imagens falantes, toma, levamos com um COMPETI VIDADE na fronha, absolutamente assumido do lado de lá e infalível quanto ao alvo. Um COMPETI VIDADE dito com a gravidade da profunda convicção de circunstância, sob um fundo azul com a bandeira verde e vermelha esticada em pontas e dito, tudo o indica, talvez por um ex-beirão feito doutor à pressa no pólo regional de uma Moderna qualquer (2).
Essa convicção assim expressa, um COMPETI VIDADE salivado alto e disfarçando o tropeço no TI, leva a necessidade de debate ao tapete no primeiro impulso. Mas mais: radicando na encenação de uma infalível sabedoria económica, como outras também de testa alta, e por via de eficaz técnica mediática, expressa-se fundamentalmente na ordem papagaiada, derivada da primeira, aquela que leva assessores e locutores a repetir até à exaustão o que uns supostos especialistas ou chefes dizem em programas ditos insuspeitos, especializados em suma, transformando estúdios em locais de verdade incontestada, templos de seriedade e aura benzida. Especializados em quê? No TAXISMO? Ele é 1,3% e dão pulos, ele é menos de 3% e franzem sobrolho e lá vamos nós, cantando o rindo, atrás dos por cento deles que isto de percentagens é só para quem tem matemática cerebral, o que não é o caso da maioria dos portugueses que, desde que usam a maquineta das contas saída em brinde de supermercado, deixaram de saber contar.
Mas, perguntamos nós depois de tirar a pele de consumidores compulsivos, E a ALMA, mede-se com quê? E a perda de RAIZES, de IDENTIDADE? E a ILITERACIA crescente entre os recém saídos das universidades que pululam, incluindo eminentes membros de Secretarias de Estado? Mede-se em aulas de americanês no básico? E porque não de chinês, o próximo império?
O diagnóstico salvífico e óbvio dos que paleiam a COMPETI VIDADE como panaceia, oferece de mão beijada pelos olhos dentro a receita que tarda há muito e oferece-a já – ao longe já se vê o sebastião que come tudo tudo tudo a emagrecer, emagrecer, até ficar do tamanho de uma esquadra da polícia e o país do tamanho de um bairro periférico onde se guerreiam gangues... E as coitadas das elites perguntarão? Estão no CONDOMÍNIO, no CONDOMÍNIO meus senhores, resguarda neomedieval – ou pós moderna para quem queira - para os novos ricos da democracia, porque os velhos ricos já tinham as suas praias privadas, o seu Brasil, a sua ilha privada, a sua polícia privada.
Quem é que ainda não deu qualquer coisa para este peditório da COMPETI VIDADE? Eu, para onde quer que me vire, truz, apanho com uma COMPETI VIDADE em cima e quem a repete, ouvinte, a quem a ouviu já repetida, tem a estranha sensação do quanto mais me bates mais gosto de ti, como naquela anedota do horizonte socialista que se afasta à medida que nos aproximamos exactamente na mesma extensão.
Porque raio temos sempre esta palavra nas costas, em perseguição incessante, nós que somos um povo de gente que se dedica às longas digestões ( a propósito : Zapatero ameaça terminar com a sesta andaluza, devemos solidarizar-nos JÁ com os nossos irmão desse sul), mesmo ao volante de um TIR, povo de gastrónomos e padeiros, de navegadores e afogados, de alcoviteiras e marquesmendistas doutores, inventores do tacão alto e da prosápia, da anedota e da iliteracia militante erudita, aquela que é infalível no palpite?
É que, bem vistas as coisas, quanto mais pós modernos mais longe de ser modernos - e cada vez há mais pós modernos, basta olhar para os rabos de madeixa fotocopiados nas melenas e para cor dos aros em miopias mais que criativas.
É que estamos cada vez mais pobres e cada vez há mais dinheiro electrónico a circular.
É que cada vez há mais estradas boas e cada vez há mais mortos na estrada.
É que o bacalhau é alto, cada vez mais alto, à medida que os natais televisivos vão criando tradição, de tal modo que já se prevê para o próximo natal não a árvore de natal maior da Europa, mas o bacalhau de consoada mais alto da Europa aos mais baixos preços. E por obra de quem ? Da CHINA, Made in China.
Acreditem caros amigos: depois de ter visto um galo de Barcelos feito em Cantão o meu desejo de competi vidade não cessa de crescer. Oxalá o Sócrates tenha maiêutica para milagrar a coisa para além do TI ausente.

Pé de página:
1. o que fazem é torná-lo mais opaco, sobrepondo camadas de situações dramatizáveis sobre camadas de situações dramatizáveis, desenvolvendo o nosso sentimento de impotência e alimentando as derivas psíquicas daí originadas, transformando assuntos em episódios de uma trama que não se dá à análise, antes enrolando-nos como peixe preso numa rede de sentidos armadilhados que nos massacram pelo que têm de óbvio ou, por uma outra via, recorrendo à estratégia da cortina única, como foi exemplo o 11 de Setembro, acontecimento que escondeu todos os outros atrás da sua omnipresença, tapando-nos a nossa peneira com o sol deles.
2. mesmo por um ex-minhoto, talvez até por um ex-alentejano, todos a viver na Amadora/na Linha/no IC19/na Expo, na perspectiva de transladar carreiras ascendentes para Lisboa, Lapa ou Restelo, Avenidas Novas ou Velhas, quando a política der o capitalizado suficiente ou já lá estando por já terem capitalizado.
3. cenho franzido, pausa meditalonga, nó engordado da gravada flamejando um vermelho audacioso e diagnóstico radical do país mais terapia urgente em pacote único, afirmados com muita coragem, pois não estão em causa nem a conta bancária, nem o colégio privado dos meninos - já ouviram aquele Abominável César das Neves?

f. arom

Foto de José Carlos Mexia

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Perguntas à CNE

Irá a Comissão Nacional de Eleições repreender de algum dos modos que legalmente dispõe as televisões e rádios (mesmo privadas, porque estão abrangidas por um contrato de serviço público) pelo facto de Garcia Pereira, cuja candidatura foi aceite e irá surgir nos boletins de voto, não ter sido convidado para nenhum debate ou entrevista nesta fase de pré-campanha? Não entende a CNE que todas as candidaturas que preencham os requisitos legais devam ter as mesmas oportunidades de expôr as suas ideias?

A nossa Democracia

Leiam esta notícia (via Blasfémias) e avaliem a qualidade da nossa Democracia. A burocracia sobrepondo-se aos direitos de cidadania; evidente má-vontade dos juízes do Tribunal Constitucional (alguma coisa a ver com o facto de serem nomeados pelos partidos?). E assim, criando dificuldades num processo que já de si não é nada fácil, as candidatas independentes Teresa Lameiro e Manuela Magno, e o candidato do PH Luis Filipe Guerra, correm o risco de ver as suas candidaturas recusadas. Acompanhei com algum interesse o processo de candidatura de Manuela Magno, e simpatizo com as suas ideias. Aconteceram episódios verdadeiramente rocambolescos: por exemplo, ao solicitar ao STAPE dados sobre eleitores para completar as certidões (p. ex., eleitores que se esqueceram de colocar a data de nascimento, etc.), foi-lhe recusada a pretensão com o argumento de que "não há provas de que fosse candidata", isso apesar das conferências de imprensa, do site e do blogue, ou do apoio de José Gil. Em contrapartida, qualquer partido político o pôde fazer (tenho outro exemplo que conheço bem, o POUS de Carmelinda Pereira, a quem nunca foi levantado nenhum obstáculo). Outra situação: pedidos de certidões que demoraram um mês quando deveriam demorar três dias. Para quem luta com armas desiguais, são situações que derrubam e desanimam, mas Manuela Magno nunca desistiu. Mesmo que não concorra, o seu exemplo de persistencia e cidadania perdurará, e será também um exemplo da vergonha deste círculo de poder auto-perpetuante simbolizado na burocracia do TC e da CNE.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Desmistificando teorias ultraliberais sobre transportes, energia e ambiente (3)

Escreve João Miranda no Blasfémias:

«Actualmente os automobilistas têm que pagar Imposto Automóvel, Imposto de Circulação, IVA nos serviços e componentes automóveis, Imposto Sobre Combustíveis e portagens. O valor total destes impostos deve ser comparado com o que o estado gasta na construção de estradas e os custos ambientais. Em contra-partida, a maior parte das empresas de transportes públicos são subsidiadas, as empresas públicas de transportes têm passivos colossais e o estado financia totalmente infra-estruturas ferroviárias. Para além disso, o estado subsidia a energia consumida pela ferrovia, a qual também tem custos ambientais. É só fazer as contas.»

Este é um argumento interessante, porque nos permite compreender certas premissas ideológicas que subjazem a este tipo de argumentos. É necessário compreender os custos ambientais da utilização dos diversos tipos de transportes; e não será necessário lembrar a João Miranda os inúmeros estudos que provam que o transporte ferroviário, ou o transporte colectivo rodoviário, tem muito menos efeitos nefastos no ambiente, e que deverá ser da responsabilidade do Estado promover este tipo de transportes, eventualmente menos concorrenciais (porque não oferecem a mobilidade do automóvel), através justamente da redução dos seus custos para o utilizador. Mas para JM este argumento não é válido; isto porque, devido a um preconceito ideológico que o cega, não reconhece qualquer papel válido ao Estado na promoção de opções; para ele, imbuido da lógica messiânica ultraliberal, a livre escolha dos consumidores e a concorrência irão per si resolver todas as dificuldades. Acontece que não cabe às empresas qualquer responsabilidade ambiental, e a propalada escolha dos consumidores necessitaria de um grau de consciençalização ambiental que eles ainda não possuem; e acontece também que a promoção dessa consciençalização depende precisamente daquilo que JM rejeita: intervenção do Estado (através de campanhas, educação para o ambiente nas escolas, etc.).

Desmistificando teorias ultraliberais sobre transportes, energia e ambiente (2)

Escreve João Miranda no Blasfémias:

«A construção de centrais eólicas requer o consumo de energia. Parte dessa energia é produzida em Portugal e a outra parte é produzida no estrangeiro e chega incorporada nos componentes necessários para fazer uma central eólica. Sendo assim, uma central eólica terá que produzir energia limpa durante alguns anos para compensar as emissões necessária para fazer a própria central.»

Sabemos que João Miranda tem uma fixação contra tudo o que lhe cheire a "alternativo" ou "de esquerda". Mas nunca pensámos que perderia desta forma a lucidez. Este argumento falacioso esquece que qualquer central energética, seja fóssil, nuclear ou renovável, requer obviamente o consumo de energia na sua construção. Ou seja, este é um não-argumento circular que não acrescenta nada ao debate. Um tiro que falhou o alvo, portanto.

Desmistificando teorias ultraliberais sobre transportes, energia e ambiente (1)

Escreve João Miranda no Blasfémias:

«O transporte ferroviário é uma das bandeiras políticas da esquerda. O que não é estranho porque é o tipo de transporte que mais exige planeamento e controlo centralizado. Só que o transporte ferroviário não se adapta muito bem à vida moderna. O transporte ferroviário é muito bom para transportar grandes quantidades de pessoas do ponto A para o ponto B. O que o torna adequado para transportar pessoas a horas fixas entre grandes cidades ou em zonas urbanas densamente povadas. Mas não é suficientemente flexível para responder às necessidades das vidas cada vez mais suburbanas que as pessoas têm. Nos subúrbios, o que é necessário não é levar grandes quantidades de pessoas do ponto A para o ponto B, mas levar, a qualquer hora do dia ou da noite, cada pessoa do ponto onde ela está para o ponto onde ela quer ir, e para isso, nada melhor que o automóvel.»

Este pseudo-argumento seria válido se não se desse o caso de, devido ao facto de demasiadas pessoas pensarem deste modo falacioso, acontecer que o tempo que se leva e os custos de ir de um ponto onde se está para um ponto onde se quer ir, serem substancialmente superiores em relação à hipótese de se ir do ponto onde se está para o ponto A, deste para o ponto B, e deste para o ponto onde se quer ir.
Quanto a «o transporte ferroviário é uma das bandeiras políticas da esquerda», obrigado pelo elogio. Gostamos sempre que nos destaquem o bom-senso.

Foto de Sérgio Santimano



Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...


Reinaldo Ferreira

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

O melhor da entrevista de Cavaco Silva ao Jornal de Notícias:

(Publicado por Ricardo Alves no Esquerda Republicana)

A mentirinha inocente sobre a decisão de se candidatar: «Foi um mergulho súbito para o que, confesso, não estava lá muito bem preparado. (...) Foi um mergulho sem preparação.»

A promessa de ser implacável com Sócrates: «A primeira tarefa que gostaria de realizar era uma conversa longa com o primeiro-ministro.»

A ameaça de modificar o regime na sua vertente simbólica: «A primeira cerimónia a que o próximo presidente vai presidir será a comemoração do 25 de Abril. O que diria para lembrar essa data?-Ainda não pensei nisso. No passado, assisti a discussões e até a desejos de se modificar a cerimónia do 25 de Abril».

O desejo de mandar em todos os sectores da política económica, até aos mais ínfimos detalhes: «Vai usar até à exaustão o poder da palavra?-Ai isso vou. Vou falar. Uma palavra-chave para mim é cooperação. Há aí candidatos que estão nervosos por eu dizer que vou cooperar com o Governo, mas até digo mais, alargarei esses estímulos e contactos à sociedade. Por exemplo, preocupam-me muito os nossos têxteis e calçado. Tenho dito, e continuarei a dizer que é uma ilusão pensar em substituir, de um momento para o outro, os têxteis por indústrias tecnologicamente avançadas. Este sector tem de ser apoiado na direcção da qualidade, na marca».

A vontade de desenhar o organigrama do Governo: «Podia existir um responsável do Governo que fizesse a lista de todas as empresas estrangeiras em Portugal e, de vez em quando, fosse falar com cada uma delas para tentar indagar sobre problemas com que se deparam e para antecipar algum desejo dessas empresas se irem embora, para assim o Governo tentar ajudá-las a inverter essas motivações. Tem de ser um acompanhamento com algum pormenor que deveria ser feito por um secretário de Estado especialmente dedicado a essa tarefa.Vai propor isso ao Governo?-Já o estou a propor aqui.»

A interpretação maximalista dos poderes presidenciais, exigindo poderes legislativos para o Presidente: «Admite sugerir legislação ao primeiro-ministro?-Nas conversações com o primeiro-ministro, se entender que existe um domínio que carece de uma lei ou que tem legislação em excesso posso trocar impressões com ele. (...) O presidente pode sugerir intervenção legislativa nalgumas áreas.»

ELA DANÇA...



E...

«Eu p’ráqui olhando só...»

Sorriso que encanta.
Os olhos que enfeitiçam.

Só estou, mesmo, à espera de um desencontranço.

Assim, como no virar de uma esquina.
Num desencontro desatinado de um (quem sabe?...) destino.

Sem escapatória possível.

«Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus...»

Pode não ser apenas desejo
talvez mais: vontade de te olhar.

Ou, apenas, uma súbita vontade de dançar...

Uma vez na vida, os tímidos dançam.

Ela estrela se edita, dançando.
Minha homónima.

Tão desencontrados nos encontramos
que, quando nos encontramos, nos ficamos pelos olhares furtivos.

«resolvem se encontrar...»

E eu, descrente de tudo
eu, que olho para trás de mim quando me olham.

Ela dança e festeja.
Eu sonho e danço, no meu sonho,
com ela...

terça-feira, 27 de dezembro de 2005


Foto de Ivone Ralha


Medo

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

(...)

Reinaldo Ferreira

Foto de José Carlos Mexia

Elis



Ponta de Areia

Ponta de areia, ponto final
da Bahia-Minas estrada natural
Que ligava Minas do porto ao mar,
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra o povo alegre que vinha cortejar
Maria-fumaça não canta mais
Para moças, flores, janelas e quintais
Na praça vazia um grito, um ai
Casas esquecidas, viúvas nos portais

Fé Cega, Faca Amolada

Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranqüilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada

Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer na luz de todo dia
A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada
O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada

Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia
Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranqüilo
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada

Milton Nascimento

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Contos de Ano Novo (1)

Ano Novo, Nova Vida. Tinham vindo de Moçambique com uma mão à frente e outra atrás. Quereriam ter ficado, convivendo. Mas vieram todos os vivos, que os mortos lá ficaram no seu eterno descanso. Tiveram a felicidade de trazer, no avião que os trouxe, um pouco de terra e o animal de estimação. Aprenderam a viver de novo, sempre com uma doce nostalgia do Índico. O peixe ficou com o nome de Nono. Não respondia se o chamassem. Não reconhecia os donos. Mas fazia parte da família. Era o nono elemento, ficou o Nono. Em tempos que já lá vão a família, contrariamente ao costumado, passou um Fim de Ano fora do apartamento, do bairro de retornados, em que vivia. Ficou o filho mais velho e o Nono. Boa ocasião para uma festa com amigos. E, o Nono até nem era difícil de aturar. Uns flocozitos e o apetite dele ficaria saciado. Casa vazia, grandes amigos, mulheres, muita bebida, festa de Fim de Ano. Depois dos beijos e abraços da meia-noite, alguém se lembra que o Nono devia festejar também a entrada do ano. Verdadeiro espírito natalício que perdura até Janeiro. Vai daí um reforço de flocos, dado por uma alma generosa. Segue-se um brinde e um copo de champagne é deitado para o aquário. Outro dos amigos faz novo brinde e aumenta-se a dose de champagne. O espírito da festa foi-se alterando. Muita alegria, muitos copos. Entra o paganismo. Esquece-se a herança cristã, com lobos e peixes que entendiam um bom sermão. Vai daí um urinou no aquário. Vem outro entorna um frasco de piri-piri. Finalmente o Raúl, um fanático dos filmes de James Bond, servindo-se de um garfo, arpoa o peixe. No dia seguinte o pessoal compreendeu a enormidade dos actos. Havia que conter os estragos. Infelizmente os peixes não ressuscitam. Mas os amigos são para as ocasiões. Depois de um brain-storm, alguém tem a brilhante ideia de se ir comprar outro golden fish. Ninguém daria pela substituição. O filho mais velho quando os amigos partiram, enquanto esperava o resto da família vinda das mini-férias, observava o novo peixe e, orgulhoso com o milagre operado, até o achava mais jovem e saudável. Mas o Nono não era um peixe vulgar. Tinha sobrevivido com eles ao exílio. Conheciam dele as barbatanas e até as imperfeições das escamas. O resto da família já perdoou ao filho mais velho. Nenhum deles tinha acreditado, na altura, na peta inventada, nem nunca acolheu o recém-chegado peixe como nono elemento. Todavia um peixe sempre é menos que um filho ou um irmão. O filho mais velho, com os remorsos, retornou a Moçambique. Consta que peixe não faz parte da sua dieta e que em todos os fins de ano umas lágrimas são vertidas em memória do Nono. Também sente saudades da família e dos amigos.

Josina MacAdam

A onda que abalou o mundo foi há um ano


"Milhões de pessoas foram afectadas. Foi um nível de destruição sem precedentes”. Alex Jones, coordenador das operações pós-tsunami das Nações Unidas.
*
Indonésia: 131 mil mortos e 37 mil desaparecidos. Foi o país mais afectado. Sri Lanka: 35 mil mortos e desaparecidos. Índia: 15 mil mortos e desaparecidos. Tailândia: 8 mil mortos e desaparecidos, cinco deles portugueses. Outros países afectados: Maldivas, Birmânia, Malásia, Bangladesh, Seychelles, Somália, Tanzânia e Quénia. No total mais de 220 mil pessoas poderão ter morrido devido à onda gigante.
*
No entanto, a Caritas Internacional considera que o tsunami poderá ter provocado o dobro dos mortos oficiais. Baseia esta sua análise em dois pontos: no facto de não terem sido tidos em conta as várias centenas de ilegais que trabalhavam na Tailândia e, por outro lado, os números avançados pelas autoridades indonésias não terem correspondência aos números de vítimas mortais dados ao governo pelas populações locais.

domingo, 25 de dezembro de 2005

Os Pink Floyd foram considerados a melhor banda de sempre. Esta é pelo menos a conclusão de uma sondagem tornada pública este domingo pela rádio na internet Planeta Rock. Na votação participaram 58 mil pessoas. Os Led Zeppelin ficaram em segundo lugar, os Rolling Stones em terceiro, seguidos pelos The Who e AC/DC. É óbvio que estas votações valem o que valem. E são discutíveis. Mas deixo-vos uma imagem que vale por muitas capas de discos que fazem parte da banda sonora das nossas vidas.


A melhor prenda de Natal

Uns vão bem e outros mal

Senhoras e meus senhores, façam roda por favor
Senhoras e meus senhores, façam roda por favor, cada um com o seu par
Aqui não há desamores, se é tudo trabalhador o baile vai começar
Senhoras e meus senhores, batam certos os pézinhos, como bate este tambor
Não queremos cá opressores, se estivermos bem juntinhos, vai-se embora o mandador
Vai-se embora o mandador

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

De velhas casas vazias, palácios abandonados, os pobres fizeram lares
Mas agora todos os dias, os polícias bem armados desocupam os andares
Para que servem essas casas, a não ser para o senhorio viver da especulação
Quem governa faz tábua rasa, mas lamenta com fastio a crise da habitação
E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

Tanta gente sem trabalho, não tem pão nem tem sardinha e nem tem onde morar
Do frio faz agasalho, que a gente está tão magrinha da fome que anda a rapar
O governo dá solução, manda os pobres emigrar, e os emigrantes que regressaram
Mas com tanto desemprego, os ricos podem voltar porque nunca trabalharam
E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

E como pode outro alguém, tendo interesses tão diferentes, governar trabalhadores
Se aquele que vive bem, vivendo dos seus serventes, tem diferentes valores
Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar
Que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar
Segura bem o teu par, que o baile vai terminar

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978

(poema oviamente desactualizado e sem qualquer relação com o mundo actual. Só compreensível por suadosistas, frustrados, gente pouco realizada, idealistas ultrapassados, falhados mesmo. Mas dedicado a estes amigos)

O post abaixo é a prova que a Esquerda não tem Futuro:

Natal, 2+2=5

Trinta SMS de Natal, todos iguais, enviados para a lista dos "amigos". Amigos são os que estão na lista de contactos do telemóvel, se acaso tiveres outro que não esteja, faze-lo depender dos humores do momento. Isso não pode ser!
O Natal numa cidade pequena: à tarde todos aparecem nos mesmos sítios, hordas de gente. À noite não se vê vivalma. De madrugada, por todo o lado, noctivagos.
Há aqui algo errado. Há aqui alguém que eu esperava bem disposto mas que está deprimido. Há aqui muita gente deprimida. Porque não estão todos tão bem dispostos como eu?! Comeram? Beberam? Encontraram (- se)?
Rewind: compras de última hora. Eu não compro nada porque a minha última liberdade é a de onde gastar a minha massa. E eu prefiro gastá-la comigo.
Isto embora esteja muito agradecido a quem me ofereceu todos os CDs do Fausto e ainda a Elis em Montreux com o Hermeto. Aleluia para essa alma! É capaz do que eu não sou, e é por ela que ainda acredito. Mas eu não acredito.
Há uns anos, quando era um freak que escrevia poemas, escreví um que começava:

"As luzes não se apagam, impedindo os sem-abrigo de dormir"

Mas isso era quando eu ainda dava importância a isto do Natal. Agora sou um cínico. Limito-me a comer, beber, encontrar (-me).

(poema de Natal dedicado a ela sabe bem quem)

ESTE HOMEM

Por todos os lados onde se situa
Aquela paixão pelo universo
Onde fixa o ponteiro do pensamento
Onde estamos não tão sós como agora
Por todos os sinos que replicam
Pelos pecados da natureza
E todas as ondas sejam uma em mim
Seja eu, o outro, o mais profundo
Todos os dias e todas as noites
Sejas tu, o mais amante de nós
Este homem!

E quando somos homens tranquilos
Olvidamos o ruído e beijamo-nos
E quando no mais endógeno nos encarceramos
Á procura do espaço e do tempo
Em roda…

E se eu e
Tu fossemos um só
E só por uma vez
Este homem fosse um Homem
Em modo de se ver ao espelho no rio
Quando no rio todas as coisas aparecem
Em modo de tudo
Como se tu e eu fossemos nada
Só por esta vez…

Fotos de Sérgio Santimano

sábado, 24 de dezembro de 2005

Ladaínha dos Póstumos Natais...

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
*
David Mourão-Ferreira, in “Cancioneiro de Natal“

O microfilme é uma arma

A notícia avançada pelo Diário de Notícias segundo a qual Paulo Portas, Nobre Guedes e Telmo Correia mandaram microfilmar vários tipos de documentos dos ministérios da Defesa, Ambiente e Turismo revela o entendimento que o CDS/PP tinha sobre as suas funções governativas. Pura e simplesmente escandaloso. As coisas agravam-se quando o assessor e ex-jornalista do Independente de Portas, Pedro Guerra, vem agora dizer que foram apenas documentos pessoais, para Portas e os outros ex-ministros não só para se defenderem em caso de ataques políticos, mas também para escreverem as suas memórias. A questão que agora se põe é esta: quantos arquivos particulares com segredos de Estado existem na posse de ex-governantes? Agora que todos antigos ministros, assessores e amantes estão a passar para o papel “recordações dos tempos em que éramos felizes” é uma boa altura de saber. Que legitimidade têm os governantes de, enquanto exercem o seu mandato, mandarem microfilmar tudo o que lhes apetece, sem que haja algum controlo ou registo do que fazem? Polémicas e ataques políticos e pessoais foi coisa que nunca faltou em todos os governos. Mas isso dá legitimidade a alguém? Cavaco fez isso? Ou Soares? Santana Lopes prepara por certo as suas memórias mais cor-de-rosa, e tem alguns ódios de estimação que não vai querer poupar. Terá também ele microfilmado segredos de Estado? Era de bom tom que a Procuradoria-geral da República procedesse a uma investigação profunda e abrangente. As revelações que envolvem Portas e os colegas, foram divulgadas ao tribunal pelo ex-dirigente do CDS/PP Abel Pinheiro, no âmbito do processo do "Caso Portucale". Este tem a ver com o abate de 2600 sobreiros em Benavente, e com a suspeita de tráfico de influências que envolve o Grupo Espírito Santo. Se politicamente e eticamente é altamente reprovável, já quanto à questão legal, a coisa complica-se. Haverá crime caso se prove que os documentos copiados eram classificados e logo considerados segredo de Estado. É necessário também estabelecer o nexo de causalidade e provar que visava fins pessoais que poderiam lesar o Estado. Separar o papel de governante do de cidadão para apurar responsabilidades é mais complicado do que parece. São ténues as linhas que separam os dois campos, quando eles se fundem na mesma pessoa. No entanto, algo terá que mudar, porque é inconcebível que estas coisas aconteçam num Estado de Direito.

Mad Dog! (8)


Fotos de Fernando Gomes da Silva

Mad Dog! (7)

Mad Dog! (6)

Mad Dog! (5)

Mad Dog! (4)

Mad Dog! (3)

Mad Dog! (2)

Mad Dog! (1)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

AI PORTUGAL...

Do culto Mariano ao oculto Marianí (Vivenda) – a dura poesia de um candidato atirado para estas lides – e que bem podia ficar a fazer companhia aos netinhos, 4-netinhos- 4

Não me conformo com este modus vivenda.
Das duas, uma ou não lhe chamamos nada, ou assim, não a chamamos.

«Vai p’ra dentro filho, vai p’ra dentro...»

E ele a obedecer, mas lá no fundo a resmungar:

«Cada país ou cada povo tem o Cavaco que merece ou tem o Cavaco que lhe foi destinado ou, ainda, tem o Cavaco que lhe foi preparado...
Ai, Maria, mao - mao Maria...»

«Ó filho, não te armes em Durão...»

E o Aníbal amochava e de noite até sonhava com a maré-cheia em Armação...

«Tenho filhos, tenho netos,
tenho muitos trabalhos.
Já chega de canseiras,
Ai, Maria, que tu me matas de tantas...
Sei lá...»

«Está bem, pronto.»

«Candidateiras?...
Esta rima não vale?...
Dá-me aí o bolo - rei ...
Não percebeste?...
Era uma piada.

Pois.

Daquelas...
Das minhas...

Está bem.

Mas olha que eles riem-se muito.
Sobretudo, o que tem dois aninhos...»

Candidatos de primeira e de segunda

Segundo esta notícia do PÚBLICO, dos 13 candidatos presidenciais que entregaram o processo de candidatura dentro do prazo legal (que terminou hoje às 16 horas), Garcia Pereira, secretário-geral do PCTP/MRPP, Luis Filipe Guerra, secretário-geral do PH, e ainda Manuela Magno, Teresa Lameiro, Josué Gonçalves Pedro e Diamantino Silva, terão entregue as 7500 assinaturas necessárias, embora ainda sujeitas a verificação por parte da Comissão Nacional de Eleições. O que nos leva a perguntar: para a CNE existirão candidatos de primeira e de segunda? É que não se ouviu ainda (e não se ouvirá, certamente) qualquer censura por parte desta ao facto de estes candidatos terem sido ostensivamente ignorados pelas televisões e rádios (designadamente as estações públicas) aquando dos vários debates e entrevistas que se realizaram (e lembro que na altura da marcação destas ainda nenhum dos candidatos o era oficialmente). Pelo que conheço do processo parece-me que pelo menos Garcia Pereira, Luis Filipe Guerra e Manuela Magno terão de facto entregue as assinaturas correctamente, e irão aparecer nos boletins de voto. Mas na nossa democracia apenas os mesmos de sempre tem direito a ter visibilidade e apresentar as suas ideias em condições de plena igualdade, e isto ainda mais quando esses são os que dispõem do apoio das máquinas partidárias. Ou os senhores da CNE (e os da RTP e da RDP) desconhecem o significado da palavra "democracia"? É que, pelos vistos, a nossa "democracia" não passa de uma "partidocracia".

Foto de José Carlos Mexia
Epístola a Grabato e Quadros

Por Jorge de Sena (1972)

António Quadros,senhor meu, chegou-
-me, nesta desconversa de correios
distantes tanto pelo globo e os fados
que acaso nos retardam as missivas,
a vossa mui prezada e laurentina,
sem data como cumpre a eternas prosas,
mas carimbada a treze deste mês.

Trocou-se ela coás décimas solenes
de minha fraca inspiração mandadas
em como que resposta áquela carta
grabática qual esta mas em verso
de suplicante pelas sacanagens
quibiricófilas e prefaciais
entanto enviadas por vosso amigo
enlanguescendo em praias do Pacífico,
roído de saudades africanas,
enquanto o sol se esfria o só bastante
a que de corpos elas se esvaziem,
qual não mais acontece em Califórnias,
se o Inverno se aproxima,como agora.

Grabato ou Quadros ou Grabatus Frei,
e não de quadras mas de oitava e quadro,
nenhuma gratidão vós me deveis.
Naquela minha prosa, tudo fiz
Para provar-se o que não é de prova:
quem foi que algo escreveu, mesmo assinado,
quando possesso de altas Musas ou,
como é segredo, elas se alongam diante
o que se chama de fraqueza humana
e se não fora duro as não honrara.

Qual haveis visto em vossa tripla vista
de poeta de hoje e de ontem que é pintor
por símbolos e monstros minuciosos,
ninguém citei ou nada( quase nada)
que realmente exista. Assim se fritam,
em seu azeite mesmo, as sábias bestas.

A vós, Senhor de Quadros, vos sou grato
e temo apenas que as gorgonas pátrias
se quedem no prefácio furibundas,
e não penetrem pela poesia adentro
que não é de piada mas daquela
trágica farsa que em poesia agora
é quanto em grave troça nos compete
imaginar poesia neste mundo
tão torpe e tão vil, que as rosas e os encantos
são de deixar-se às putas rimadoras,
e às que, menos que putas, se deslaçam
em verso livre, ou se contraem tanto,
que menos que biputas são concretas.

Concreta é só a porra que nos roubam.
Lembrai-me, senhor meu, ao Quenofílico
de tanta minha estima, e ao Mafalalo
sobrequem vou escrever galante prosa (1).
E ao que Lisboa tem no nome e não
na força com que urze asnos benditos,
de Nixon e de Mao dilectos filhos.
E a todos por aí, como é devido.
Deste palácio vosso em Santa Bárbara
( aposentada santa dos trovões)
de Califórnia, Outubro o dezanove,
Jorge de Sema vos saúda e firma.

1. Quenofílico= Rui Knopfli; Mafalo= José Craveirinha
Eugénio Lisboa, o terceiro poeta citado por Sena


Copyright FAR para Armando Rocheteau, aniversário 21.12.05

Faltam seis meses para o Verão

No Inverno Fica Tarde Mais Cedo

Escuridão noite liquefeita
tudo toma forma do corpo que se deita
na escuridão nenhum olhar aceita
tudo se transforma numa cama desfeita
na escuridão hora da colheita
para quem semeou ventos
numa cama desfeita

no Inverno fica tarde mais cedo
só depois de te perder descobri que era um jogo
um jogo que não acaba nunca, nunca acaba empatado
se foi um jogo, você ganhou: eu perdi a direcção
se foi um sonho, se foi o céu, eu não sei
eu que não sei perder, perdi o sono
na escuridão, na escuridão

só depois de perder você descobre que era um jogo
um jogo que não acaba nunca, nunca acaba empatado
se foi um jogo, você ganhou: eu perdi a direcção
se foi um sonho, se foi o céu, eu não sei
eu que não sei perder, perdi o medo
da escuridão, da escuridão
*
Engenheiros do Hawaii

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E ainda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Mas certamente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
*
Chico Buarque ( revisitado)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Dexter Gordon, Royal Roost, New York City, 1948
Fotografia de Herman Leonard
*
"...quase toda nossa originalidade
vem da inscrição que o tempo imprime
às nossas sensações".
Charles Baudelaire

O duelo na terceira idade

Era o debate mais esperado e as expectativas eram altas. Penso que não foram defraudadas. Soares esteve imparável no seu discurso agressivo, que fazia lembrar outros tempos. Se descontarmos alguns deslizes de linguagem, como aquela de chamar primeiro-ministro a Cavaco, o antigo inquilino de Belém entrou a matar e conseguiu marcar o ritmo durante a maior parte do debate. Por seu lado, Cavaco tentou defender a sua imagem de virgem pura que só está na corrida para lutar pelo bem dos portugueses. Definitivamente, o confronto não é o seu forte. E lá foi passando o seu discurso repetitivo, sempre a sublinhar meia dúzia de ideias já feitas. Não foi inovador e não conseguiu fugir à pressão de Soares, que por diversas vezes o manteve refém das suas deixas. Mas, ao longo do frente-a-frente, debateu-se pouco o futuro e muito o passado. Foi uma revisão dos últimos 20 anos da política portuguesa. De acordo com uma sondagem da SIC, Soares ganhou o debate. Agradou a 25% dos telespectadores enquanto Cavaco ficou-se pelos 23,7%. No entanto, esta sondagem-relâmpago também revelou que 51,3% dos inquiridos não viu o frente-a-frente, não soube ou não quis responder. Isto pode significar que, embora tudo o que se passou ontem á noite tenha sido favorável a Soares, não deverá provocar grandes alterações nas tendências de voto. As festas vêm aí, o álcool vai ajudar a esquecer muitas coisas. Quando a ressaca estiver a terminar, eis que chega a campanha para as presidenciais. Por isso, o melhor é continuar a beber, pois o futuro adivinha-se negro. Salut.
*
Frases
*
Mário Soares para Cavaco Silva:
“Não tem formação política, desconhece a História de Portugal, é uma pessoa distante, sem conversa para além da economia”
“É um economista razoável”
"Tem tendência para conceber críticas a si como se fossem ataques pessoais"
"Cavaco Silva fala de coisas que vai fazer como Presidente da República para as quais não tem competência. Está a enganar os portugueses. Se não se meter dentro das suas competências, vai criar graves problemas políticos e institucionais".
"Sei o suficiente de economia para ter feito face a duas crises em períodos em que Portugal esteve à beira da bancarrota".
“O dr. Miguel Cadilhe acaba de publicar um livro em que o acusa de ser o pai do ‘monstro’ (défice orçamental).
"Demitiu-se do Governo de Sá Carneiro. Nunca prestou justiça aos governos de Pinto Balsemão e de Mota Pinto e tem vergonha do seu partido".
"Ninguém na Europa o reconhece como social-democrata. É um homem de direita, que agora tenta vender gato por lebre".
*
Cavaco Silva para Mário Soares
“Lamento que Mário Soares não fale nas suas ideias".
“Não me apresento contra ninguém”.
”Não quero ser deselegante. Mas tenho de me conter”.
“Sou um social-democrata, mas a minha candidatura é suprapartidária”.
"Não serei um corta fitas nem um contra poder”.
"Quero que o Governo governe bem, mas o Presidente da República não dá cheques em branco".
“Eu não quero exercer as funções de primeiro-ministro, quero colaborar com o Governo”.
“Prometo empenhar-me em estimular um pacto económico e social de médio e longo prazos”.

Ilustração de Ivone Ralha


ESPERO

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner

Crónica presidencial despropositada

A Cauda e a Europa

Há uma clara aversão à cauda no imaginário político português. É o estamos na cauda por oposição a estar no pelotão da frente. Da metáfora animal passamos ao ciclismo sem descarrilar, obra de grande e criativa desconexão referencial. Nunca entendi tanto desprezo pela cauda, por qualquer cauda, já que à cauda, não se juntando o animal específico, apenas podemos pensá-la palavra sonora, dita para dentro, gozando as mais que estimulantes ressonâncias sensuais.
Experimente, diga baixinho, só para si, cauda, ouviu? O que sentiu?
Repita um pouco mais alto, diga mesmo cauda ao espelho, na casa de banho, enquanto pisca o olho. Que tal? Não sentiu algo a puxá-lo para baixo, uma respiração mais ofegante, vontade de embarcar para a Caudilândia e cantar com os plenos pulmões dos ?
Para além desse desprezo difuso, injustificado e provavelmente só jornalístico, a palavra cauda, identificada em contextos verbais concretos, pode, de facto, ser o clic que porventura falta a uma vida, o início de uma nova aventura, o fim de uma triste conjugalidade de sofá.
Comecemos pela cauda de um piano, de um piano de cauda, de um piano de meia cauda, já imaginou com que tristeza um piano é vertical?
Não lhe parece que um piano de cauda é evidentemente um valor cósmico, mais ainda se estiver de cauda subida e o pedal no fundo, as teclas a saltar-lhe da alma num jazz definitivo e orgiástico, copulando inadvertidamente, sem camisa nem vénus, no pleno voo inebriante de um sax soprano?
E agora outras: já sentiu a cauda sonora de uma cascavel? Que me diz?
Já pensou num leão sem cauda, num macaco sem cauda, num épico vestido de noite sem cauda? Que seria da noite!
São tristes amputações da realidade, um pudim sem ovos, um mar sem água, uma amor sem amor, ou mesmo uma presidência sem fitas.
Não me diga que já claudicou e aderiu à visão vulgar, aquela que gramsci distinguia do senso comum, visão de alguma lucidez, mesmo que empírica?
Tenho feito um esforço e não chego ao busílis da questão. Não durmo a pensar nas caudas que por aí andam, de beiça triste, tão maltratadas são por todos os olhares, mesmo pelos mais atentos ou sobretudo por esses, habilmente disfarçados de míopes, topam tudo.
Há mesmo, diria, uma xenofobia baseada no ódio às caudas, que as atira para essa posição terrivelmente frustrante e que qualquer cauda sonha em pesadelo e que é ser-se: a cauda de uma cauda, um limite indesejado e trágico.
Se nos dissessem que estamos no traseiro da Europa, embora também discutível pois nesta matéria há olhares variadas e não posso plebiscitar o meu sem mais nem ontem, creio que poderíamos aceitar que há mundos talvez melhores. Repito que esta tese é controversa, não pensem portanto que não respeito a diversidade com toda a correcção política necessária, de acordo com a letra e espírito da constituição, a primeira, sem revisão nenhuma.
O que é verdade é que me parece mais feliz, para dizer o que diz, a expressão cú do mundo que a expressão cauda da Europa. Aliás, talvez seja a hora de esperar uma síntese satisfatória. Vejamos: Que será que se vê de qualquer cauda, que é uma fenda e que, mesmo fechada, pode prejudicar qualquer nariz aberto? Esta adivinha, como repararam, de dificuldade um numa escala de dois mais dois igual a cinco, podia ser objecto de análise nas quartas classes. Creio que resolveria a nossa inexorável caminhada, nossa, de portugueses, em direcção à ciclotimia nacional, essa bandeira sem cores, nem verde vermelha, nem vermelha verde, que nos torna campeões do atraso, mas campeões, dado que é justamente interessante estar na cauda por se estar perto do cú e que mais vale ser consensual que colocar cú e cauda em concorrência desleal. Lá viria a Alta Autoridade e nem cú nem cauda, tudo para o xadrez. O que talvez educasse o pessoal e o tornasse competitivo ou qualificado, como se diz para não dizer letrado, cultivado, palavras miseráveis, em desuso, caudíófilas.
Mas vírgula meus caros outra vírgula meus caros digam-me: o que é que tem assim de tão desastroso ser a cauda, ou estar na cauda, da Europa, que é aliás uma moça redonda e gosta de raptos?
O problema, a meu ver, é que não estamos na cauda, porque nela estando estaríamos no corpo, no corpo da Europa e isso é que é uma profunda inverdade. Na realidade estamos em nenhures, num litoral prenhe de interioridades, na falésia invejando gaivotas e grilos, definitivamente continentais e porventura sem os tomates do padre Bartolomeu de Gusmão, o da passarola.

f.arom

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

*
Iggy Pop, Miami, Florida, 2000
Fotografias de Annie Leibovitz
*
"O universo embaraça-me
e não posso acreditar que esse relógio exista
e não tenha um relojoeiro."
Voltaire

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005


Foto de Sérgio Santimano


Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem ---
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
(...)
Mário de Sá-Carneiro




Foto de Ivone Ralha

domingo, 18 de dezembro de 2005

O REVÓLVER DE TRAZER POR CASA


Fotos de Ivone Ralha


Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente, uma, duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.

Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio, mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.

Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...

Alexandre O’Neill
No Reino da Dinamarca

Contos de Natal .5

O meu pai é um irresponsável. Certamente já tiraram essa conclusão. Bem lhe deixo preservativos pela casa a lembrar-lhe que o sexo deve ser seguro. Não sei se as namoradas dele são cuidadosas. E, o palerma deve-lhes obedecer em tudo. Não me desviando do meu último conto de Natal, queria-vos contar o meu desejo: Do ascetismo cristão guardei a imagem do sacrifício. Neste Natal, não quero nada para mim, nem para a cadela. Quero uma madrasta! O meu pai sem uma mulher ao lado afunda-se. Acreditem que é um grande sacrifício. Conheci várias madrastas. Excepto uma com idade aproximada, odiei as outras. Questões de ciúme, que não tenho espaço para, aqui, agora, relatar. Não vos vou falar da que comprava brinquedos para ela. Eu é que era a criança. O parvalhão não tomava partido Nem daquela que alterou a ordem lá de casa. Até o faqueiro teve outra disposição. Muito menos da outra que nos obrigou a uma despesa faraónica com a lavandaria. Nada, moita carrasco! Neste Natal venha uma nova madrasta! UM BOM NATAL PARA TODOS! PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE! Até sempre! Gostei muito de estar convosco. Coitado do meu pai!

Josina MacAdam

Foto de José Carlos Mexia

sábado, 17 de dezembro de 2005

Ó amigos que andais fardados...

No passado dia 13 entregaram-me, em Lisboa, uma carta “dos militares ao povo português”. Guardei-a no bolso e resolvi lê-la enquanto passava para Almada.
Iniciada a travessia do Tejo pus-me à leitura.
Não enjoei porque parecia mal. Mas aquela carta deu-me a volta ao estômago.
Então não é que as “Associações Profissionais de Militares”, tratando-me por ‘caro concidadão’ se me dirigem numa lamúria pejada de expressões como “sacrifícios”, “sacrifício”, “os militares, (...), ligam a sua própria existência à existência da Nação”, “os militares são os únicos de entre os cidadãos que asseguram, em última instância, com o sacrifício da própria vida...” e etc.
Perante tanto sacrifício guardei a missiva no bolso.
Os nossos militares são uns sacrificados, diria mais: uns mártires.
Não estivessem eles em alerta permanente, constante e sacrificado 24 sobre 24 horas e já teríamos sido invadidos não sei bem quantas vezes; é graças à sua esforçada e sacrificada acção que Portugal não deixa entrar fronteiras dentro nem um grama de haxixe, quanto mais de ‘coca’, muito menos de heroína e etc.
Durmo muito mais tranquilo desde que sei que os militares se encontram presos a um juramento. Aliás, passei a olhar a instituição militar com outros olhos: as nossas Forças Armadas são a única instituição com pessoas vivas que, em pleno século XXI, se prestam a práticas medievais. Aqui vai uma ideia, gratuita: sendo o turismo uma das poucas fontes de receita deste país, que tal construir roteiros turísticos que incluíssem visitas guiadas a unidades militares?... Aproveitem.
Pois é, a cartita estava catita mas a malta não perdeu de todo a memória.
Ó amigos que andam de farda, enxerguem-se.

Privilégios é uma palavra que vos está interdita.
Sabem que sim, que os tiveram e não foram tão poucos como isso.
A meu ver, alienavam-se as instalações militares, vendiam-se os materiais que ainda não enferrujaram e reconvertiam-se os militares com direito a opção, a saber:
1. Reforma antecipada;
2. Ir para a polícia;
3. Ir para os Bombeiros.
O Estado encaixava uma boa soma, reforçavam-se as polícias (que, mais tarde, a meu ver, seriam banidas) e os bombeiros (que dão imenso jeito...).
A vossa carta, amigos que escolheram passar a vossa jornada de trabalho envergando um farda, não colhe. Nem venham com essa do 25 de Abril de 1974. Trinta anos depois as coisas estão quase iguais, à excepção da guerra e das prisões por delitos políticos.
Não precisamos desses serviços, dos quais não se vêem resultados nenhuns. Só através da acção de um ‘lobby’ poderoso podemos continuar a dar-nos ao luxo dispendioso de manter três ramos das Forças Armadas. Precisamos mais escolas e universidades, mais investimento na área da investigação, da Saúde, da formação e qualificação profissional. Aí é que deverá o nosso país investir de forma séria. Não numa instituição tão tacanha e obsoleta como as Forças Armadas.
A vossa missão – e, de resto, ninguém deve ter missões na vida... – seria despir a farda e dizer onde poderiam ser realmente úteis, enquanto cidadãos e trabalhadores, ao vosso país.

METRO menos que quadrado

No Senhor do Roubado as carruagens para Odivelas no cais de lá chinfrineiram-me os miolos. De cá umas miúdas eriçadas vão emaranhando os cabelos numa profusão de tranças do género pernas de um polvo seco num sol torrencial de trópico. O meu olhar persa vai fazendo uma panorâmica pelos rostos circundantes, tão inverosímeis na sua realidade e incrivelmente diversos, uma bochecha caída, um queixo interior, umas olheiras sulcadas à jardineiro, uma testa e tal, uma cara sem rosto, esquecida no tempo, sem traços nem origem, mesmo um latido em pele mais caída, a meio de uma lágrima que não pára de cair e não sai do sítio. Ao lado um rapazola entregou os tímpanos a uma fonte de surdez militante e dá ao pé, numa cadência que exibe calças e calcanhares como o cavalo de Alter em dias patrióticos faz continência aos quase novecentos anos de história perante o olhar impávido de bois bravos e ganadeiros. Estão a ver?
Lá entramos na geringonça, toda pós moderna na velocidade e ruído, aos sacões, batatas de um saco atirado para o topo de uma carga. A metáfora das sardinhas em lata tem a meu ver o inconveniente de suscitar salivares imediatos, para além do que, dentro da lata acachapadas, cumprirem um ideal de felicidade, comunidade de irrecusáveis físicos afectos e bandeira que são.
Vou a medo, a prótese faz sinais de impaciência no arranque, a perna não se cala, não me estatele naquele chão andante e me descomponha, me decomponha – também tenho a minha máscara, ou pose: passe-me lá a perna por favor, é estranho apesar de nada já ser estranho, menos ainda a morte, tão corriqueira.
Lá pouso e pauso, cuassentado, de pé ficam os mais marinheiros e o pessoal que está escorado em ampla sacaria natalícia. Um pinheiro esquartejado?
Aqueles rostos perseguem-me como se os esculpisse, vocação de demiurgo que não me liberta e já me sinto mergulhado em silêncio obrigatório, ocupado pelo ruído em sentido militar, sangue sonoro a correr-me veias e artérias em circulação de sentido único. Já pensaram: o coração a bombar ruído, ingénuo?
Que tristeza, que circunspecção tão de medo e inexpressão vai naquelas desalmas. Escola de solidão em massa. O ruído é tal que a voz da hospedeira não rompe as rodas. A chiadeira podia ser light como a coca, ou não? (A coca, a cola, a que desentope). A voz parece dizer qual a estação mais próxima, mas nem lhe vejo o sexo. Tipo? Tipa? O contraste é total quando a coisa stopa: voz maviosa, cheia de afã informativo, decalcando as letras como os lábios da moura guedes naquela dança ampla – que pena vai-se embora!-, silabando uma dicção de tropa, letras escritas no ar com a evidência de um giz branco escarrapachado na velha ardósia preta.
O pessoal vai pardacendo cada vez mais à medida que a coisa se eterniza – já imaginaram ir de metro para Estocolmo?, a luz neónica torna as coisas mais irreais, como se fizesse dos rostos palco de bactérias, trajecto de formigas: zombis de óculos escuros, habitantes criados em aviária hora de ponta.
Apenas umas ciganas fazem praça na carruagem, não há tristeza que lhes dê.
Afinal que pandemia será esta? E ainda falam da gripe das aves.

f. arom
Kok Nam, somewhere in New York City, May 2005
Fotografia de António Oliveira
*
É um amigo de longa data, de longas lutas e de caminhadas vermelhas. É mais popular do que Confúncio ou Sun Tzu em terras africanas abaixo do equador. É um homem de guerra e paz. Nasceu com o eclodir da segunda guerra mundial. Durante muito tempo ficou á espera que alguém lhe oferecesse uma máquina fotográfica nos seus anos. Mais tarde vingou-se. É actualmente considerado um dos melhores fotógrafos da África Austral. As máquinas que mais gosta são ainda do tempo da II luta armada. Foi mais próximo de Samora do que do vizinho de cima da sua casa em Maputo. Mesmo assim, nunca gostou que o chamassem de camarada. "É pá, eu sou o Kok", diz. Muitos chamam-lhe Joe. E ele ri-se. Maningue. Faz anos nesta altura, quando o ano começa a pensar em terminar. Quanto às datas, a doutrina divide-se. Pode ser 12. Pode ser 25. Talvez por isso, inicia as comemorações mais cedo. Normalmente no principio do ano e termina com o surgimento do ano seguinte. Como não podiamos deixar passar esta efeméride em branco, aqui está ele, numa fotografia a cores e tudo, próximo do local onde 50 Cent surgiu para a música. Ou foi o 1.25 USD. Não sei. Biografias de rappers é a especialidade do Kok. Um abraço de parabéns da equipa do 2+2=5 e, tenho a certeza, de muitos dos nossos associados.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Cacao, Mexico, 2000
Fotografia de Flor Garduno
*
Excerto da carta que Harold Pinter escreveu ao júri do Prémio Nobel da Literatura, por não lhe ter sido possível ir a Estocolmo receber o prémio, devido à sua doença. Clique no texto e veja-a na íntegra.

Fotos de Ivone Ralha



CLARA

Clara, loura e capitosa
como uma taça de espumante seco,
dizem-me que já pintas...

Dizes-me com que tintas?

Rui Knopfli

Foto de José Carlos Mexia

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

A festa do século

Caríssimos amigos e amigas de todo o mundo, magnos membros da confraria duquesiana, camaradas: é com grande prazer que anunciamos o evento por que todos esperam, imploram e suspiram: a super-mega-ultra festa de anos dos convivas e bloggers André Carapinha e Armando Rocheteau, na próxima 4ª feira, 21 de Dezembro. Só serão aceites verdadeiros duros à antiga e à portuguesa. O imperdível programa começará com um mega-jantar no Duques do Cais, ao Cais do Sodré, pelas 19h30m; a partir das 23h a festa muda-se de armas e bagagens para a Discoteca Europa, também ao Cais, junto dos bares Jamaica e Tokio. Ali, espera-nos um concerto onde e espírito do Delta se reunirá com o grease mexico-punk. Concretamente: primeira parte com Mad Dog Clarence, mítico bluesman da zona portuária lisboeta, acompanhado de banda. De seguida, os deuses descerão novamente à terra e os também míticos Los Santeros brindar-nos-ão com o seu mariachi-trash-punk-surf-western-operático, acompanhado de doses extra de performance e doses cavalares de decadência. Todos os leitores do 2+2=5 estão convidados. Os concertos são grátis, e o restaurante oferece uma óptima relação qualidade/preço. Devido ao limite de lugares do Duques do Cais, pedimos aos que queiram jantar que se inscrevam enviando mail para o endereço do blogue. Arriba!!!!!

Dois interessantes posts...

...Sobre a questão da pena de morte, a partir de um editorial de Nuno Pacheco no PÚBLICO, são este do Tiago Mendes no Aforismos e Afins, e este do João Galamba no Metablog. Aproveito para destacar estes dois blogues de grande interesse. Especialmente, e apenas por maior proximidade ideológica, que não pela qualidade, os textos de João Galamba no Metablog. Alguns são imperdíveis.
Pêra, Switzerland, 1998
Fotografia de Flor Garduno
*
"O rouxinol disse ao passarinho: Sabes que tens um belo canto.
O passarinho respondeu: Eu nunca duvidei do teu bom-gosto."
Kahlil Gibran

Sumo do cajueiro de Carlos Cardoso

É um nome apelativo: Mártires da Machava. É um destino que não se constrói: Metical. Há um nome que faz cruzamento entre a Mártires da Machava e o Metical. É uma tragédia em três actos: cajueiros e indústrias de caju, falcatruas nos bancos e um homem que foi assassinado na Mártires da Machava por ser mártir das suas próprias convicções. Avenida Mártires da Machava, 22 de Novembro, cajueiros, e uma legenda que diz assim: “Jornalistas, não nos acobardemos”. O que é que significa não nos acobardarmos? Porque, no fundo, não é o Carlos Cardoso sozinho. Há o Raul Zunguza, morto por ter dito que a Operação Produção era uma estupidez. E o governador residente, nessa altura, em Niassa, era o poeta, Sérgio Vieira. E o Abel Faife? E o Joca Santos? E o Zeca? Quando a televisão ainda era experimental (TVE).
A ÚNICA COISA que respeito na memória do Carlos Cardoso é o cajueiro, que alguém se lembrou de plantar na Avenida Mártires da Machava, onde, num princípio de noite de 22 de Novembro, ele foi assassinado.
O MECÂNICO DIZ QUE NÃO FUI EU. A da Cossa diz que também não fui eu. O Escurinho diz assim: escuro eu? Eu sou castanho.
O QUE É IMPORTANTE é que o Cardoso lutou pela soberania do caju, do Metical, da vida, dos bigodes, da barba e do consumo racional da soruma. Para uma pessoa que pensa, com pensamento de um gerente de uma padaria, isso é grave. Ou seja: defender a liberdade é crime.
NAQUELE LUGAR alguém plantou um cajueiro. Coisa generosa. O cajueiro do Cardoso, do nosso sangue, da nossa pobreza (pobreza do bolso porque cérebro temos bué), o cajueiro está florido e se ele quiser, daqui a dois meses, vamos beber sumo de caju na Mártires da Machava...
A OUVIR TIMBILA...
A VER A ISABEL CASIMIRO, amiga, amiga, a Nina Berg, viúva mas não desconsolada, a Milena Cardoso, de capucho na cabeça...
E O EDUARDO CONSTANTINO, secretário-geral do Sindicato Nacional de Jornalistas, em posse de discurso. Desde quando é que um sindicalista usa fato de linho, põe as mãos em cima do casaco e faz discurso com um cartaz ao fundo que diz: jornalistas, não nos acobardemos. Veja-se. Quem está atrás do dito cujo? O modesto e íntegro editor do jornal SAVANA, Fernando Gonçalves. Putz...
E O CARDOSO? Barbudo, defensor oficioso do uso da THC, não como marijuana para ser consumida, mas como matéria-prima para fazer calças, jeans para os povos pobres, deste planeta todo.
Ou seja: de ti, brother.
Vê lá a cara do Cardoso: Soruma? Eu nunca fumei....
*
Fernando Manuel
In "SAVANA, semanário independente", Maputo 09.12.2005

Foto de Sérgio Santimano


Era assim: 

era assim:

queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?

quanto me queres?
quanto me desejas?

ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...



Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera

A Inocência das Idades (3)



“Dimensão Quatro”

Este desaire do “Progresso” não nos liquidou a esperança e conseguimos ver aceite um pedido feito à Direcção da Associação dos Naturais de Moçambique, situada na Avenida 24 de Julho e onde pontificavam alguns vultos da cultura moçambicana como José Craveirinha, Eugénio Lisboa, Rui Knopli, entre outros.
Esse pedido consistiu na elaboração de um Suplemento Juvenil no Jornal “Voz de Moçambique”, editado pela referida Associação e a que demos o nome de “Dimensão Quatro” porque pretendemos dar continuidade à Comissão Directiva do “Progresso”, constituída por quatro pessoas.

Mas, decididamente, estávamos em Maré de azar. Logo no primeiro suplemento fizemos uma primeira página com uma fotografia de graduados da Mocidade Portuguesa em saudação fascista e com uma legenda elucidativa: “ Levados, levados sim!”
A falta de humor da “PIDE” determinou a apreensão daquela edição do Jornal “Voz de Moçambique”, bem como do primeiro suplemento juvenil que terminou também.

Capítulos seguintes
Depois destas peripécias, o Mário José Fernandes e o Luís Carlos Patraquim deram o salto para a Suécia onde, suponho, pediram asilo político e só voltaram a Portugal e a Moçambique depois do Golpe de Estado de 25 de Abril de 1974.
Eu continuei a estudar e fiz o curso de Jornalismo na Escola Superior de Meios de Comunicação Social em Lisboa. Iniciei a profissão de jornalista a 1 de Junho de 1976 no semanário “Tempo”, passando depois pelo C1 da RTP, Jornal Novo, Teledifusão de Macau (TDM) e RTP-Açores, onde me aposentei por doença em 1997.
O Luís Carlos Patraquim regressou a Moçambique e, meu caro Armando Rocheteau, faz o favor de completar o resto e de acrescentar ou alterar o que achares conveniente.

Sassoeiros, 8 de Dezembro de 2005
Victor Pereira

Foto de José Carlos Mexia

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Willie Nelson, cantor de country music, Texas, 2001
Fotografia de Annie Leibovitz

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005


Foto de Ivone Ralha

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
(...)

Mário Sá Carneiro

As grandes manobras do ouro negro

O petróleo caro para sempre induz alterações políticas maiores no conjunto dos grandes países produtores- Irão, Iraque e Ásia Central, sobretudo-por efeito do investimento tecnológico necesssário nas infra-estruturas de extracção e transporte, primo, e pelo afluxo financeiro ganho na comercialização posterior via exportação. Trata-se, efectivamente, do maior meccano político e social das próximas décadas, com consequências geopolíticas incalculáveis para a manutenção dos mais variados tipos de regimes no poder actualmente. O NY Times abriu recentemente um debate e o grande politólogo francês, Alexandre Adler, publicou páginas decisivas sobre as grandes manobras do ouro negro, que acarretará pelo menos o enfraquecimento da aliança " populista e altaneira " da Arábia Saudita e da Venezuela; e, por alternativa, a consolidação do eixo turco-iraniano vital por laços confessionais evidentes.

O desenvolvimento " simbiótico e combinado " do mundo chiita- englobando o Irão, o conjunto caucasiano, a Ásia Central ( Azeiberjão e Cáspio) e o Iraque, a antiga rota da seda, despoleterá uma complementaridade total entre o " vasto mercado turco ligado à Europa e os trunfos energéticos do Irão", que colocarão Bruxelas como cliente privilegiado e porão a Rússia em continência para não subir preços e conter as ambições territoriais no Extremo-Oriente russo dos chineses ávidos de petróleo.

Portanto, a força negocial da Turquia é imensa e parece incontornável a sua entrada na UE a prazo, alterando todas as relações de força geopolíticas mundiais. No entanto, avisa Adler," a vitória arrepiante de Ahmadi-Nedjad na corrida presidencial iraniana rejeita, por algum tempo,o enquadramento indispensável entre a postura internacional e o equilibrio nacional do Irão ".O que pode agravar os equilibrios precários em todo o Médio Oriente e colocar o preço do barril de petróleo em 120 dólares fatais, e que confirmariam a aposta de Zgbiniew Brzezinski sobre o " arco da crise " médio-oriental como pesadelo maior e incontornável para o futuro do modelo democrático ocidental. Poutine anda à procura de sucessores e nacionalizou opacamente todas as empresas de energia. E Hu Jintao só deseja manter a economia aberta e a benéfica mundialização por acordo tácito com os neo-conservadores de Washington, à bout de souffle.

O colóquio do NY Times apontava esta súmula: " Vamos viver num mundo cada vez mais turbulento, em que depararemos, não só com golpes em termos de preços e volume energético, como, por outro lado, sofrendo das interacções entre o caos metereológico e os recursos energéticos- quer seja gelo numa linha de alta tensão de Ohio ou uma série de tornados no Golfo do México, por causa da tensão política no Médio Oriente ou pela preferência de Hugo Chavez pelo chinês em detrimento do inglês ". E, como nota curiosa, foi ventilada a hipótese do Iraque ter mais reservas de petróleo do que a Arábia Saudita.

FAR

A Inocência das Idades (2)

A Associação Académica e a FNI

Nesta época do Jornal “Progresso” existia já uma incipiente actividade política centrada na Associação Académica de Moçambique e na chamada Frente Nacional Integracionista (FNI), desenvolvida por estudantes universitários.
O grupo da Associação Académica de Moçambique era liderado pelo Ivo Garrido, na altura Presidente da A.A.M. e hoje médico e Ministro da Saúde do governo moçambicano, e conotado com o que na altura se chamava “os do contra”.
Através do SIPE, Serviço de Informação e Propaganda Estatística, a Associação Académica editava documentos políticos poli copiados na velha “Stencil” e que eram ou distribuídos gratuitamente ou comprados, como foi por exemplo o caso do “Processo Histórico” de Juan Clemente Zamora, editado semanalmente em fascículos clandestinos.
A “FNI” era um grupo de Direita ou mesmo de Extrema-Direita, alinhado com o Governador-geral da Província e, nomeadamente, com o general Kaulza de Arriaga, Chefe de estado-maior na Província de Moçambique e que coordenava toda a acção política e militar na guerra contra os então chamados terroristas da Frelimo.
A “FNI” era liderada pelo Gonçalo Mesquitela, já falecido, e que era filho do Dr. Mesquitela, deputado de Salazar e Caetano e com assento, por nomeação, na “União Nacional” e, mais tarde, na “Assembleia Nacional Popular”, ambos Partidos Políticos únicos, uma vez que se vivia em Ditadura.


Com excepção do “Nampula” que era Comandante de Bandeira da Mocidade Portuguesa, todos os outros membros do grupo fundador do Jornal “Progresso” estavam mais ligados ao grupo da Associação Académica do que à “FNI”, mas o próprio “Nampula” nada tinha a ver com a “FNI”.
Por isso, foi com naturalidade que pedimos alguma colaboração à “A.A.M.”, na pessoa do Ivo Garrido, no sentido de ocuparem algum espaço nas páginas do “Progresso” e enriquecerem o conteúdo do jornal. E foi a partir daí que a porca começou a torcer o rabo.
A “FNI” apercebeu-se da ligação do “Progresso” ao grupo da Associação Académica e quis também integrar o grupo de colaboradores do jornal.

Uma reunião aterrorizante!

Foi, então, marcada uma reunião com a “FNI” para se conversar sobre a colaboração deles e juntámo-nos no apartamento do Gonçalo Mesquitela, localizado num dos prédios da antiga Avenida António Enes, próximo do local onde terminava a Avenida Pinheiro Chagas.
A reunião foi à noite, o andar era alto, e nela participaram eu próprio, o “Nampula”, o Luís Carlos Patraquim e o Mário José Fernandes, ou seja, a Comissão Directiva do “Progresso” em peso, estando a representar a “FNI” o Gonçalo Mesquitela, um indivíduo de apelido Belmonte (que não conhecíamos) e o Guilherme da Silva Pereira, a quem apelidámos de “mata-hari” porque já o tínhamos visto participar em eventos da Associação Académica, o que pressupunha ser um espião que jogava nos dois tabuleiros da actividade política universitária.
A reunião foi dirigida pelo Gonçalo Mesquitela que se dirigiu a nós sempre em tom intimida tório. Refira-se, a propósito, que o Gonçalo era um indivíduo de forte compleição física e cinturão negro de “karaté”.
Começou por nos ameaçar com a “PIDE” e por nos dizer que estávamos metidos em maus lençóis por nos relacionarmos com o grupo da Associação Académica de Moçambique, contestatários ao governo e relacionados com os “turras”.
As ameaças subiram de tom e, confesso, estávamos todos verdadeiramente amedrontados, par não usar expressão mais vernácula, com o que se estava a passar e o meu pavor era tanto maior quantas as vezes que o Gonçalo se levantava e se dirigia à varanda, espreitando lá para baixo. Cheguei a temer que íamos ser atirados dali a baixo!
Às tantas é-nos lançada a seguinte ordem proibição da colaboração da Associação Académica de Moçambique nas páginas do jornal e só a “FNI” poderia publicar os textos que entendesse.
Ainda ripostámos e concedemos ceder igual espaço nas páginas do “Progresso” à “FNI” e à “A.A.M.”, mas não aceitámos a exclusão da Associação.
A “FNI” engrossou ainda mais o tom intimida tório e para nos mostrar a gravidade da situação decidiram, ali mesmo e connosco presentes, telefonar ao general Kaulza de Arriaga a quem disseram que os “rapazes” não aceitam desligarem-se do grupo da Associação.
A conversa entre a “FNI” e o general Kaulza de Arriaga durou alguns minutos e, depois de desligarem o telefone, informaram-nos que se persistíssemos na nossa posição seríamos convocados para a tropa e colocados em zona cem por cento de guerra.
Já quase sem voz na garganta, acabámos por dizer que íamos pensar melhor no assunto e que voltaríamos para nova reunião.
É preciso, talvez, recordar que a Comissão Directiva do “Progresso” rondava a faixa etária dos dezassete/dezoito anos e que éramos todos alunos do sétimo ano do liceu António Enes.
O ir para a tropa significava não só enfrentar uma guerra com que discordávamos, mas também a interrupção dos estudos, para além da preocupação que isso causava, naturalmente, às nossas famílias.
Quando descemos o elevador e nos apanhámos na rua, a nossa reacção foi desatar a correr pela Pinheiro Chagas acima e só parámos no velho “Tico-Tico”, ponto de encontro da malta da Associação Académica.
Numa das mesas do “Tico-Tico” lá estava o Ivo Garrido com alguns colegas e amigos em animada cavaqueira e que, o verem-nos completamente encharcados em suor e com ar aterrorizado, nos perguntaram o que tinha acontecido?
Nós contámos, eles ficaram muito indignados e depois de umas catembes bem bebidas e de uns pregos trinchados, a noite acabou par ali.
No dia seguinte fomos chamados ao gabinete da reitora que, na presença da vice-reitora, nos informou que o Jornal tinha acabado, afinal sem nunca ter vindo a público!
Os nossos Encarregados de Educação foram, dias depois, também convocados para se responsabilizarem pelas despesas que já tinham sido feitas pela empresa da Revista “Tempo” e que na altura orçavam, salvo o erro, trinta contos em moeda moçambicana.
Sei que o meu pai se recusou a assumir essa responsabilidade e que perguntou à Dr.ª Maria José Salema porque razão não tinha convocado os Encarregados de Educação quando autorizou os alunos a fazerem o referido Jornal e os convocava só agora?
Ainda hoje não sei se essas despesas foram ou não pagas, mas posso assegurar que, caso o Jornal tivesse sido publicado, a receita da publicidade era mais do que suficiente para cobrir as despesas existentes.
Entre nós, miúdos, o ambiente era de revolta que foi ainda agravada quando, passados mais uns dias, entra na aula de Latim da professora Ana Jacob o contínuo que lê um comunicado da reitoria que dizia mais ao menos o seguinte “…na sequência das actividades relacionadas com a criação de um Jornal deste Liceu são aplicadas sanções disciplinares de um dia de suspensão e sete dias de repreensão registada aos alunos Victor Pereira, Luís Carlos Patraquim e Mário José Fernandes e repreensão registada ao aluno Emílio Luz Branco. Inacreditável! Levantámo-nos e saímos logo da sala de aula, depois de autorizados pela Dr.ª Ana Jacob, e dirigimo-nos ao Gabinete da Reitora para apresentarmos o nosso protesto, mas não fomos recebidos.
Mais tarde, o Mário José Fernandes e o Patraquim encontraram a reitora Maria José Salema na rua, junto ao edifício do BNU na antiga Avenida República e insultaram-na e ainda lhe deram uns bem merecidos encontrões.
Na sequência disso, o Mário Fernandes e o Luís Carlos Patraquim viram a pena agravada para um ano de suspensão das aulas.

Victor Pereira

(continua)