quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Exposição de Arte Contemporânea“ Às Portas do Mundo”


"A Câmara Municipal de Évora e a Fundação Pro Justitiae inauguram dia 30 de Novembro, pelas 16 horas, a exposição de arte contemporânea “Às Portas do Mundo – Pluralidade na Lusofonia”, no Palácio de D. Manuel, com a presença de Sua Excelência o Senhor Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio.

Esta mostra está integrada num projecto desenvolvido pela Fundação Pro Justitiae, que a autarquia eborense decidiu acolher na cidade, e que prevê também a realização de um ciclo de conferências, um ciclo de cinema e vídeo e a implementação de um serviço educativo que acompanhará este conjunto de eventos.

O projecto conta com a participação de artistas portugueses e de artistas provenientes de países lusófonos, como o Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Timor Lorosae e Moçambique. Também estão envolvidos criadores culturais, investigadores na área das ciências sociais, entre outros, com o intuito de se contribuir para o estabelecimento de um corpo de conhecimento transversal a todo o espaço lusófono, prosseguindo, para isso, em 2006 e 2007 a sua actividade nos países de língua oficial portuguesa.


Esta exposição estará aberta ao público até 29 de Janeiro de 2006, funcionando de terça à sexta-feira das 10:00 às 12:00 e das 13:00 às 17:00, aos fins-de-semana das 13:00 às 17:00 e encerra às segundas-feiras."





Fotos de Sérgio Santimano
Fernando António Nogueira Pessoa
13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.
*
Todas as cousas que há neste mundo
Têm uma história,
Excepto estas rãs que coaxam no fundo
Da minha memória.
Qualquer lugar neste mundo tem
Um onde estar,
Salvo este charco de onde me vem
Esse coaxar.
Ergue-se em mim uma lua falsa
Sobre juncais,
E o charco emerge,
que o luar realça
Menos e mais.
Onde, em que vida, de que maneira
Fui o que lembro
Por este coaxar das rãs na esteira
Do que deslembro?
Nada. Um silêncio entre jucos dorme.
Coaxam ao fim
De uma alma antiga que tenho enorme
As rãs sem mim.
13-8-1933
*

Mais uma filha de Cavaco


Legenda: É ela!

Série: os filhos do 25 de Novembro (2)

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita. Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada. Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita. Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José António Moreira - Lorelei.1 (Miguel Esteves Cardoso) Lorelei vem de uma água escura! Há uma luz de navios caídos e está presa aos cabelos dela, noite e dia! Noite e dia tem a pele molhada e o corpo em sobressalto. Não consegue parar a alma, sempre em mudança. Põe-se de pé no alto de uma pedra, a chorar. Esquece, grita, chama, adormece. Lorelei levanta-se. Levanta-se outra vez. Nos olhos tem o azul sujo de um mar cansado de céu. Queixa-se, espreguiça-se, lava-se em lágrimas e floresce. Acorda. Quando Lorelei acorda, o mundo tem ordens para não olhar. É uma sereia. Não se vê. Não se percebe. É magia? É uma magia que ainda não cresceu. É de pele? É de pedra? É de água. Não se perecebe. Lorelei não se percebe. É uma sereia. Uma sereia é um problema que não se resolve facilmente, que gosta de grutas. Não gosta de vir à tona de água. Tem medo das alturas. Não gosta da sensação do ar nos olhos. Não suporta a claridade. Sem a ajuda da água, todas as cores acabam por esbranquiçar. Sempre que está em terra, a tratar das coisas que as sereias tratam, tentando aliciar o primeiro marinheiro do dia, apetece-lhe desistir e mergulhar, abrir os olhos e olhar. Não gosta nada quando os marinheiros não vêm ou não correspondem ou só aparecem muito tarde. Não gosta nada de não se despachar. Mas gosta de estar deitada de costas no chão do rio, num dia de calor, a adivinhar quantos azuis tem o céu. A água funda é mais fresca no verão e ela gosta de estar horas sem se mexer, a sentir o rio inteiro a passar por cima dela. Lá em cima, no barulho branco do outro mundo, quase se vêem os pássaros inteligentes a nadar na ventania. Não gosta de estar cá em cima. Nada. A escuridão do rio é a única coisa capaz de a sossegar. Argila de luz (Banda do Casaco). Ela é feita de argila feita de pedra erva brava que mesmo sem água medra/ ela não sabe nem do futuro/nem do passado/ só sabe que sente pressente o presente cansado/ Ela é feita de chuva feita de vento lua emancipada desde o início do tempo/ ela não sabe nem do arcanjo nem do diabo só sabe o que sente pressente o presente adiado/ Ela é luz de negro luz de luz de luz ela é luz que cega luz que nos seduz/ Ela é feita de verde feita de sumo maltratada ainda linda de aprumo ela não sabe/ nem da mentira nem da verdade só sabe o que sente pressente o presente parado Lorelei.2 (Miguel Esteves Cardoso) Lorelei é a menina curva da minha mão, a linha recta do meu olhar. Deita o cabelo à pedra fria e escuta. As árvores cantam o que o rio lhes diz e o rio corre, porque o mar chama. E o mar é como a lua mandar. Quem manda na lua, nimguém sabe. Sabes? É por ela que eu hei-de apaixonar-me. Esquece. Escuta. Há qualquer coisa no coração que te quer falar. Entorna o cabelo para um poço de sombra. Espalha-o como se estivesse a nadar. Vê-se na água escura de onde vem, vê-se feliz, de corpo inteiro, em todas as posições, com todas as idades, menina mais uma vez, sorrindo na água-mãe. Esperava o vento que vinha. Tinha tudo o que queria. Diziam-lhe para descer; ela descia. Esperava uma verdade que não vinha — as tempestades, a perdição, os navios — com o queixo sobre os joelhos, respeitando o ar da pele, sozinha como o dia. Não sabe o que tem. O céu corre-lhe por cima da cabeça, parece tinta. Não quer saber o que se passa. Dança, quer dançar, dança toda a noite. As estrelas param e a manhã começa. Dança como se fosse proibido, dança como se fosse de verdade, até descer aquela alma dentro de mim, tirando-me o sono, tirando-me a certeza, tirando-me a paz. O amor não fala a quem o escuta. A sereia não se deita e eu não durmo. A sereia não se deita à água e o rio está inquieto, remexe-se toda a noite, perdendo o fio das horas, enquanto ela dança, dança ao som do amanhecer. Disse assim: “Hei-de fixar-me, repetir-me, multiplicar-me”. E pensou assim: “Como se estivesse sozinha numa cidade que ninguém viu, hei-de decorar tudo o que eu vir. Olhar-me e aprender-me de cor. Insistir que me vejam. Um a um. Que se apaixonem o mais que puderem. E caiam como cães em torno de mim”.E tudo isto de madrugada, quando a luz do mundo se parecia com a luz debaixo de água. Sim!, ela às vezes era assim. Barquinha de lua (Banda do Casaco) Ai a lua ai a lua é uma barquinha/ que anda no céu a boiar as estrelas são os peixes à volta dela a nadar/ Ai a lua ai a lua é uma barquinha que anda no céu a boiar/ com meu amor andei nela andámos nela a pescar/ Andámos nela a pescar com nove estrelas fiquei/ levei grinalda de estrelas no dia em que me casei/ no dia em que me casei no dia em que me quiseste/ quantas estrelas havia quantas estrelas me deste/ Quantas estrelas me deste quantas estrelas guardei/ bordei-as de noite e dia no enxoval que levei/ no enxoval que levei que minha mãe me ofereceu tantas estrelas bordei como as que havia no céu/ Quantas havia no céu quantas meu amor me deu numa barquinha de lua quando meu filho nasceu/ quando meu filho nasceu no dia em que dei à luz bordei-lhe nos cueirinhos estrelas em ponto de cruz Lorelei.3 (Miguel Esteves Cardoso) Via-a sempre de longe. Nos meses em que eu não estava e nas cidades onde eu não vivi, diziam-me que a tinham visto. Viam-na os olhos dos homens que voltavam não sabiam de onde. Viam-na no efeito da música. Viam-na fechada dentro das mãos de doentes. E viam-na em janelas altas, junto às noites que caem dentro de casa, de cara escondida na escuridão e corpo dado à luz do dia. Tinha muitos sítios. Tinha muitos nomes. Mas só se chamava Lorelei. É uma sereia, é fingida. Não fala. Ouve-se cantar todo o dia, chorar toda a noite, cantigas de amor amargo, lágrimas de água doce. É a brincar. É só uma sereia que espera no resto de uma rocha. Não tem importância. Chama-me os dedos da mão. Chama-me pelo corpo preso, pelas mãos, pelo cabelo apanhado, pelo meu nome. Vive nas casas que lhe dão, no tempo que tem. Tudo o que lhe dão deita fora. Segura-se como se fosse de pedra e, como a pedra, não se mexe. A tarde sobe no céu. Lorelei fecha os olhos ao calor. É noite do outro lado do mundo. Alguém está a sonhar com ela. É um menino-rei. É um pastor. É um pai. Ela deixa. É da sombra. A vida passa sem ela saber. Não tem paciência para o ar. O vento não lhe obedece. Não lhe cai aos tornozelos. Não faz nada do que ela quer. Caço-a nos meus olhos, com o meu coração empobrecido e bom. Procuro-a. Encontro-a. Apanho-a. Pelo verão, pela sombra, pelos cabelos louros. Vejo-a pelo amor de Deus. Caço-a no dia e na noite, na minha espécie de vida. Se não a vejo durante muito tempo, deixo de ver seja o que for. O mundo desaparece. A vida não calha. O mundo é só um sítio que serve para ela estar. Para eu encontrá-la e ela perder-se de mim, escondendo a cara, à beira de uma sombra de água. Salvé Maravilha (Banda do Casaco) Cai o dia sai da noite cai sopa no mel/ Salvé Maravilha coisa linda de alegria toca a língua no teu céu/ ensaliva lá em sonhos céu da boca nem tem dó/ Cai o dia sai da noite sol a sol a sol/ Salvé Maravilha vê meus olhos nascer dia céu da boca é fronteira do que é corpo e é ideia céu da boca nem tem dó/ toca a língua no teu céu ensaliva lá em sonhos/ Cai o dia sai da noite cai sopa no mel/ Salvé Maravilha coisa linda de alegria céu da boca é fronteira do que é corpo e é ideia/ céu da boca nem tem dó toca a língua no teu céu ensaliva lá em sonhos/ Razão tem o Herberto Helder! Não foi ele que disse/ que temos esse talento doloroso e obscuro para construir o lugar do silêncio? - Banda do Casaco, Miguel Esteves Cardoso e José António Moreira

Mais uma falha de Cavaco

Não resisto a citar:

"Cavaco teve reacção inadmissível [quanto a retirar-se o crucifixo das escolas]. Ao dizer-se "surpreendido" com a decisão, que "há uma separação entre o Estado e a Igreja mas que não se pode ignorar que na sociedade portuguesa predominam os valores do catolicismo", revelou, uma vez mais, não ter perfil para PR.

(...)

São as reacções a estas notícias que as transformam, inopinadamente, em polémica num país europeu no século XXI.

De acordo com a Constituição "o ensino público não será confessional" e a Lei da Liberdade Religiosa define que ninguém pode ser obrigado a "receber propaganda em matéria religiosa".

A presença de crucifixos nestas condições possibilita que a Igreja Católica faça a difusão das suas crenças através dos meios que o Estado possui para o cumprimento dos seus deveres no ensino.

Portanto, a ordem de mandar retirar os crucifixos só peca por tardia.

(...)

A Igreja Católica e o CDS/PP, como seria de esperar, opõem-se à medida, mostrando como ambos concordam com a interferência desta religião na esfera pública.

Do mesmo modo, Cavaco Silva teve uma reacção inadmissível. Ao afirmar que se sente "surpreendido" com a decisão, que "há uma separação entre o Estado e a Igreja mas que não se pode ignorar que na sociedade portuguesa predominam os valores do catolicismo", revelou, uma vez mais, que não tem perfil para Presidente da República.

Cada um pode ter as convicções que quiser. Mas a República é laica."
Joana Amaral Dias
Aqui: http://dn.sapo.pt/2005/11/29/opiniao/criancas_mulheres_primeiro.html



"Gostei de ouvir a Ministra da Educação,Maria de Lurdes Rodrigues,desmontar na televisão, a operação da nova guerra dos sinos, com que os reaccionários pretendiam obscurecer o que está em jogo na próxima eleição presidencial.Cavaco Silva abraçou-se imediatamente ao crucifixo.A Ministra demonstrou que o candidato da direita pode dormir descansado que não haverá cruzada religiosa.Guarde as energias, professor.A coisa é mais complicada do que parece."
José Medeiros Ferreira
Aqui: http://bicho-carpinteiro.blogspot.com

terça-feira, 29 de novembro de 2005

P03M4 M473M471C0

M473M471C0 (53N54C1ON4L):
4S V3235 3U 4C0RD0 M310 M473M471C0.
D31X0 70D4 4 4857R4Ç40 N47UR4L D3 L4D0
3 P0NH0-M3 4 P3N54R 3M NUM3R05.
C0M0 53 F0553 UM4 P35504 5UP3R R4C10N4L.
540 5373 D1570, N0V3 D4QU1L0...
QU1N23 PR45 0NZ3...
7R323N705 6R4M45 D3 PR35UNT0...
M45 L060 C410 N4 R34L
3 C0M3Ç0 4 F423R V3R505 D3 4M0R
C0M R1M4 0U 4T3 53M R1M4 N3NHUM4

Mandaram-me esta divagação matemática por e-mail.
Achei piada. Vá com calma. Chegará lá.

A propósito, é só para lembrar...

segunda-feira, 28 de novembro de 2005


Fotos de Ivone Ralha


AUSÊNCIA

Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

O dia da independência



Rostos
Ilha de Ataúro
Timor-Leste, Maio de 2001
Fotos de António Oliveira
*
A 28 de Novembro de 1975, a Fretilin declarou unilateralmente a independência de Timor-Leste. Nove dias mais tarde, foi invadida e ocupada por tropas de Jacarta. Foi incorporada na Indonésia como província, em Julho 1976. Na chamada “campanha de pacificação”, que decorreu nas décadas seguintes, morreram cerca de 250 mil pessoas. A 30 de Agosto de 1999, num referendo popular patrocinado pelas Nações Unidas ganhou, por esmagadora maioria, o voto a favor da independência. Depois da votação e até à chegada do contingente das Nações Unidas, as tropas indonésias e as milícias mataram cerca de 1.500 timorenses. Mais de 300 mil procuraram refúgio em Timor ocidental. O caos e a devastação que se seguiu ainda está presente na mente de todos nós. A maioria das infra-estruturas do país foram totalmente destruídas. Dili foi praticamente arrasada. Com a chegada das forças de paz das Nações Unidas, INTERFET, a 20 Setembro de 1999, a situação começou lentamente a entrar na normalidade. A independência de Timor-Leste, declarada a 28 de Novembro de 1975, acabou por ser reconhecida internacionalmente a 20 de Maio de 2002.

domingo, 27 de novembro de 2005

EXÍLIO VOLUNTÁRIO
Ou
(Isto não é normal, a Europa a arder e eu a dar-me para a poesia...)

1.

Talvez seja tarde. Talvez nem sequer valha a pena o meu modesto esforço.
Posso perfeitamente deixar-me ficar aqui a gerir paixões efémeras.
Egoísta.
Centrado em mim.

As tardes deste Outono são estranhas.
Ora se desfazem num cinzento – noite.
Ora são laranja – violeta.

Nem sequer me dou ao trabalho de ver qual a cor do mar...

Talvez não valha o esforço de ir e saber que sítio é este.

Este lugar.

Que sei deste lugar?...

Sei o que foi e aonde foi e quando foi.
Sofro o que é.
Desconheço o que há-de ser.

2.

Numa manhã inominada há-de surgir o sítio onde me quero.
Por entre canteiros de folhas da cor de um verde macio, ainda a chorar de orvalhos.
O sítio onde anseio voltar.
Manhã, quase madrugada de beijos.
A manhã cheia de saudades da noite.
Manhã, dia de voar aos gritos de saudade.

3.

Quantos exílios vivi à espera de um gesto teu?...
Há quanto tempo vivo a imaginar as tuas mãos, os dedos bonitos das tuas mãos?
Exilado na vontade de te falar, de te ouvir.
Como se estivesse à espera que surgisses, subitamente, numa das esquinas do meu
exílio para me resgatar.

Os dias colam-se-me à pele, de tão iguais, em ilusões amarelas.
Escoam-se as horas passadas sem te encontrar.

Quantos Outonos terão de escorrer pelos calendários até que te encontre?...

4.

De manhã, as gotas da humidade escorrem em grandes lágrimas pelos vidros.
Há, nas ruas, uma Humanidade que passa: seres estranhos que vão às suas vidas.
Ponho-me à janela e sonho aquelas existências.

Revivo verões passados que nem sequer me pertenceram.

Fabricador de todas as ficções, roubador dos fogos divinos.

De manhã, há uma toada lenta na minha imaginação, um som de passos com pressa.
Uma finíssima melodia que vai subindo das ruas até junto do telhado onde mora o meu pensamento.

Brinco com o fogo, enquanto as janelas vão chorando...

5.

Manhã de todas as manhãs, galos que cantam e vida a espraiar-se pelas ruas...
Deixem-me ficar neste voluntário exílio.
Quero ficar aqui, na margem, a observar a vida.
De olhos abertos quero ser aquele que contempla e pensa e reflecte a vida...
Ninguém me peça mais do que contemplar e reflectir sobre o que vê.

Era de grande utilidade que se permitisse a uns quantos realizar estas actividades...

Depois, era deixá-los ir de novo para a cama.

Passear pelos sonhos, pastar rebanhos de desejos e voltar a acordar...

6.

Exilo-me voluntariamente
Despojo-me de tudo o que a mim se foi agarrando...

Agora sou Nada.

Quantos de mim fui, nem quero saber.

Vivo exilado de forma voluntária.

Isso, pelo menos, me foi dado escolher.

7.

Contabilizo todos os meus erros.
Somo tudo o que fui perdendo ao longo dos tempos.

Confundo perdas e ganhos.

Nas minhas contas todo o mal se ajusta
(que nem sempre se ajusta o bem...)
Nada se acerta em se perder
Nada se ganha em acertar.

Contando peça a peça
Reconheço que sei pouco do deve e do haver.

Quantas vezes se ganha em se perder?...

8.

Um passeio solitário no fim da tarde que escurece
é uma forma de exílio.

O mês de Novembro vai frio e um pouco agreste, às vezes o sol rompe,
lá em casa fazem-se compotas e outros doces,
o mundo vai ardendo um pouco por toda a parte...
Um cobertor mais na cama e tudo se resolve.

Esse é o passeio de quem pensa que se exila pensando passeando.

9.

Quando chega a madrugada a mão arrefece por sobre as teclas.
A melodia das palavras impressas letra após letra vai entrando numa toada lenta.
É a canção triste do escrevinhador das três e tantas da madrugada.

A Humanidade dorme ou, então, estará pelo menos ausente.
Os gatos recolheram-se há muito para o interior morno dos motores dos carros.
Há no ar frio de lá de fora um cheiro a pastelaria, um guincho de pneus no asfalto.

E a mão, as mãos arrefecendo, como pétalas murchas à beira das teclas.

Exaustas, as palavras deitam-se por volta das quatro da madrugada...

10.

Inominada, indefinida – és tu, aquela por quem anseio.
Um sorriso, um tom de voz, o queixo bonito onde apetece morder...
Vou-te encontrando por vezes
e as mais das vezes te desencontrando, te perdendo
Adiando o momento em que te veja inteira.

Irei esperando pacientemente.

11.

Freneticamente vou ao encontro das palavras.
Com o desespero de quem chega atrasado a um encontro previamente combinado.
Corro num passo desengonçado, coro na vergonha de me sentir inferiorizado pelo atraso.
E, afinal, as palavras esperam-me.
Quietas.
Numa espera de noite subitamente revelada.

Há noites em que as palavras nos esperam de forma insuspeita.

12.

Fui vergando todo o meu corpo até que os meus cabelos se afundassem no chão.
Dobrei-me pelas ancas e cravei os tornozelos no chão.
Exilei-me nesta resistência de não sair daqui, deste chão que me pertence.
Vergo-me apenas ao Vento que é natural e não se pode evitar.

O meu exílio é resistir enquanto existir.

Apaixonar-me.


Fernando Rebelo – Nov.05
16:35
11.42
Serra da Estrela, 27.novembro.2005
Fotos de António Oliveira

Contos de Natal .2

Vejo as iluminações de Natal e tenho dificuldade em perceber a época em que vivo.A culpa é do meu pai. Era suposto ser uma época à volta de coisas simples, sob a égide de um menino, nu, num palheiro, aquecido pelo bafo de um burro e de uma vaca.A menina dos fósforos do conto projectava esse imaginário. O que temos hoje? Vocês sabem! O meu pai é do tempo da missa em latim. De um Inferno com labaredas que queimavam, para a eternidade, aqueles que não eram pios. De uma comunhão, feita em jejum, violentíssima para quem tinha entre sete e nove anos. Do terror de trincar a hóstia, que se colava ao palato, e que só se podia afastar com a língua. Com imensa delicadeza, tratava-se do corpo de Cristo. Quem não tivesse essa mestria, com apenas uma trincadela, era apanhado no acto, pois o sangue sagrado faria círculos à volta do prevaricador. O Inferno não eram os outros. Por desejo familiar, não fui baptizada, mas deram-me a Bíblia a ler, como me deram a Odisseia. Não rezo, nem papo hóstias. Na noite de Natal não me sinto angustiada, embora sinta que o meu pai assim fica. Para mim as angústias são coisas do dia-a-dia em que vivo. “ L’enfer sont les autres”. A culpa é do meu pai.

Josina MacAdam

Homenagem ao 25 de Abril no 25 de Novembro

Estes são Tom Jobim, Chico Buarque (meio escondido), Marta Silva e Vinicius de Moraes

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque

Série: os filhos do 25 de Novembro (1)



Banda do Casaco

sábado, 26 de novembro de 2005

NÚMERO DE TELEFONE


Foto de Francesca Pinna


Lembro com raiva o número
de telefone.
Empurro-o dentro de mim, aperto-o
de encontro às paredes do cérebro.
Quero esquecê-lo.
Tomo os algarismos na palma da mão,
sacudo-os, atiro-os ao vento.
Reconstituem-se.
Ainda me encarniço de novo. Disfarço:
atento no voo parabólico da mosca,
examino a página de anúncios do jornal,
espreito pela janela o homem gesticulando
na paragem do autocarro.
Insinuam-se.
Vão continuar o bailado sardónico,
felinos dentes de hiena risonha.
Ameaça prolongar-se o jogo e todavia
por toda a hora de qualquer dia
acabarei por acordar sem lembrá-lo.
E, já que não posso esquecê-lo,
lembrando-o com raiva, teu rosto frio,
tirarei este pequeno desforço
de esquecer o número do teu telefone.

Rui Knopfli

Uma data de merda...

Hoje não me estava nada a apetecer 'postar'.
Até pela data que é.
Em 75, em Novembro de 75 tinha 16 anos. Era um puto. Tinha, na turma, malta que vivia do IARN. Aqueles gajos tinham direito a lanche e eram reaccionários como tudo. Andava no Liceu do Pragal (actualmente Esc. Sec. Fernão Mendes Pinto). Foram difíceis aqueles dias. Tinha o desenho do Che Guevara feito por mim a tinta da china num bornal que tinha comprado na Feira da Ladra, era nele que levava livros e caderno de apontamentos. Estava mais que identificado.
Almada em Novembro de 75 foi dura para um gajo de 16 anos. No Forte da Trafaria prenderam homens que fizeram o 25 de Abril de 74. O ambiente na escola era de cortar à faca: os 'retornas' e os CDS's faziam esperas aos colegas que estavam identificados como sendo 'comunas' ou 'pró-comunas'.
O 25/11/75 foi, para mim, o ajuste de contas dos que fugiram para o Brasil no dia 26 de Abril de 1974. Manobraram até conseguir o que pretendiam. Eles aí estão - com novos nomes, talvez - controlam a banca, as principais indústrias, compram políticos, controlam os 'media'.
Relembro, em jeito de homenagem, José Carlos Ary dos Santos:

« Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!»

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

O meu post sobre o 25 de Novembro

Não se espantem se um destes dias o 25 de Novembro for feriado nacional. Já se começa a ler, aliás, em artigos de jornais e blogues, a reivindicação. Para nós, a quem a utopia comanda a vida, é difícil imaginar comemorar o fim de um sonho. Para eles, fará toda a lógica celebrar o fim de um pesadelo. São duas perspectivas opostas, irreconciliáveis, as mesmas de sempre, por mais que nos venham com aquela do fim da divisão esquerda/direita; nestas questões terra-a-terra, a divisão vem sempre ao de cima. Aqueles que viveram o sonho nunca se reconciliarão com aqueles que fugiram do pesadelo, para a Madeira ou para o Brasil.
Não me é fácil escrever sobre o 25 de Novembro. É um tempo que não viví pessoalmente, não tenho aquela perspectiva que sempre tem quem esteve por dentro dos acontecimentos. No entanto, e quanto mais não seja por ser um dos filhos dessa data, também escrevo o meu post. Um post necessariamente numa perspectiva mais actual.
Só quero dizer uma coisa: os grandes culpados do fim do sonho são não aqueles que sonharam com um país mais justo, fraterno e solidário, mas os que projectaram para Portugal as Cubas, Albânias ou Uniões Soviéticas. Face a esses também eu estaria do lado dos vencedores do 25 de Novembro. Infelizmente, os verdadeiros revolucionários não eram (nunca são) aqueles que travavam as guerrilhas intestinas em Lisboa, mas os que partiram país fora a alfabetizar e instruir populações que viviam na pura Idade Média. Esses, como nós, são os derrotados.

Nota: Belíssimo artigo de Adelino Gomes sobre o PREC hoje no PÚBLICO "Em louvor dos dias em busca do nunca alcançado". Uma pena não estar disponível on-line. Irei colocá-lo em breve (não tenho tempo de momento) aqui no 2+2=5

25 de Novembro: o princípio do fim ou o fim do princípio?

Corria o ano de 1975. Eram tempos de agitação e mudança. Nessa altura, os ciclos eram marcados por factos políticos e não pelo calendário gregoriano. Naquele ano, o verão foi quente e acabou em já perto do Outono terminar. O inicio do fim desses tempos escaldantes começou na madrugada de 25 de Novembro, quando os militares da Escola Prática de Administração Militar ocupam a RTP. Juntamente com tropas do RALIS, controlam algumas vias de acesso a Lisboa. Outro grupo de paraquedistas já tinha saído da Escola de Tancos com uma missão bem definida: ocupar as bases aéreas de Tancos, do Montijo e de Monte Real, controlar o Comando da Região Aérea de Monsanto e prender o seu comandante, Pinho Freire. Na origem do protesto estava a substituição de Otelo Saraiva de Carvalho por Vasco Lourenço à frente da Região Militar de Lisboa e a passagem à disponibilidade por indisciplina de um milhar de paraquedistas, decidida pelo comandante, Morais da Silva. Pouco depois de tornada pública a acção militar em curso, todas as atenções se viraram para Otelo Saraiva de Carvalho. Os militares revoltosos queriam Otelo a dirigir as operações e os moderados sabiam que estavam em minoria em Lisboa, principal palco das operações. Perante a hesitação de Otelo, ainda comandante do Copcon, Vasco Lourenço, que o substituiu no Comando da Região Militar de Lisboa, começa a contar espingardas. Os planos previamente criados para uma situação destas, avançam. Costa Gomes, então Presidente da República, decreta o Estado de Sítio na Região de Lisboa. A partir daí Jaime Neves, Ramalho Eanes entram verdadeiramente em acção. Os apoios que os páras aguardavam, da Marinha e de outros sectores militares e políticos, estavam a falhar. Os confrontos eram a concretização no terreno da divergência que opunha o chamado Grupo dos Nove ao núcleo duro do MFA quanto aos caminhos da revolução de Abril. Havia dois conceitos de sociedade em choque, nos quais não havia coabitação possível. As razões próximas que dividiam os dois sectores tinham a ver com o recente cerco à Assembleia Constituinte e com o documento "Aliança POVO/MFA”, que propunha a construção da sociedade socialista em Portugal. O Grupo dos Nove não o aceitava. Entretanto no terreno, a RTP, controlada pelos paraquedistas, era o meio usado para fazer passar a sua mensagem. O capitão Duran Clemente, a face mais visível da ocupação da estação pública, faz um apelo, em directo, à mobilização da população. Mas a emissão acaba por ser cortada, depois de alguns incidentes rocambolescos nos emissores de Monsanto, que envolvem os comandos de Jaime Neves. Com a tomada do Comando da Região Aérea de Monsanto, é o princípio do fim da revolta. Aos poucos, paraquedistas e militares do RALIS começam a baixar as armas. As únicas vítimas mortais ocorrem no dia seguinte, 26 de Novembro, num tiroteio entre os Comandos e a Policia Militar. Houve três mortes a registar. Carlos Fabião é destituído de Chefe de Estado-Maior do Exército e é substituído por Ramalho Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é demitido de Comandante do COPCON. Pouco depois foi decretada a sua extinção. Estes são alguns dos elementos-chave relevantes. Muita coisa ficou de fora. Principalmente a opinião.

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Scorsese: um realizador de cinema com queda para a música

Que Martin Scorsese é um grande realizador já todos sabemos. Mas que é um melómano e que gosta de documentar os caminhos da música popular norte – americana já poucos sabem. Nasceu em Nova Iorque, em 1942, cresceu em Little Italy e o bichinho da música sempre o perseguiu. Assim como o cinema. Mas, desta vez vou destacar a sua costela musical. Dois trabalhos recentes de enorme qualidade, acabados de chegar às prateleiras, e duas referências. Tudo disponível em DVD.

Bob Dylan: No Direction Home
É conhecida a aversão de Dylan às entrevistas e às biografias. Neste documentário, Scorsese faz uma investigação da vida de Bob Dylan, desde as suas origens no Minnesota, passando pelo seu trajecto no meio folk, até à ascensão e à glória. Quando já era considerado uma espécie de guru da protest song, eis que o novo messias liga a guitarra à corrente e cria um desgosto enorme aos seus fans, que ainda hoje perdura. Isto em 1966. E é aqui que termina esta parte da estória. É possível que venha aí mais. Está muito bem contada, documentada e é explicada pelo próprio Bob Dylan. Uma raridade e um must.


The Blues - A Musical Journey
Foi uma série produzida para o canal público de televisão norte-americana PBS, que saiu agora em DVD. Sete para ser mais preciso. A série é produzida por Martin Scorsese, que assina o primeiro episódio. Chamado “Feel Like Going Home”, conta a história de um jovem músico negro do Mississippi. E leva-o a África para poder sentir as raízes e a alma mais profunda dos Blues. Tem interpretações musicais de John Lee Hooker, Salif Keita, Taj Mahal, Ali Farka Toure e Muddy Waters, entre outros. Scorsese confessa: "eu sempre senti uma grande afinidade com os Blues, é uma cultura fascinante de contadores de estórias. Os Blues provocam-me uma ressonância emocional muito forte." Aqui está a lista total da série, só para fanáticos:
1.Feel Like Going Home - Martin Scorsese
2.The Soul of a Man - Wim Wenders
3.The Road to Memphis - Richard Pearce
4.Warming by the Devil's Fire - Charles Burnett
5.Godfathers and Sons - Marc Levin
6.Red, White & Blues - Mike Figgis
7.Piano Blues - Clint Eastwood

Nos anos 70, Martin Scorsese realizou dois filmes importantes:
The Last Waltz, de 1975, é o adeus de um dos grupos mais importantes dos anos 60 e que acompanharam Bob Dylan durante uns tempos: The Band. Conta com participações de Neil Young, Bob Dylan, Muddy Waters, Eric Clapton, Van Morrison, Joni Mitchell, entre outros.

O segundo é uma homenagem à música da sua cidade: Nova Iorque. New York New York, de 1977, é um tributo às sonoridades que ecoam nos tijolos da Big Apple. Robert de Niro e Liza Minnelli encarnam duas personagens com a mesma paixão, mas com gostos musicais diferentes. Ele é Jimmy Doyle, um jazzman obcecado pela perfeição e ela é Francine Evans uma obcecada pela Broadway e pelo Music Hall.

Have Fun!

Foto de Ivone Ralha


AO PRAZER

Alegria e aroma da minha vida, a memória das horas
em que encontrei e segurei o prazer como o queria.
Alegria e aroma da minha vida para mim, pois abominei
qualquer deleite de amores de rotina.


Konstandinos Kavafis, ‘Os Poemas’
Trad. J.M.Magalhães e Nikos Pratsinis
Relógio D’Água

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Jim Morrison
Foto da polícia, 1963
*
Carry me Caravan take me away
Take me to Portugal, take me to Spain
Andalucia with fields full of grain
I have to see you again and again
Take me, Spanish Caravan
Yes, I know you can
Trade winds find Galleons lost in the sea
I know where treasure is waiting for me
Silver and gold in the mountains of Spain
I have to see you again and again
Take me, Spanish Caravan
Yes, I know you can
*
Waiting for the sun, 1968 - The Doors

terça-feira, 22 de novembro de 2005

Um exemplo chamado Carlos Cardoso

Faz hoje cinco anos que morreu um grande moçambicano.
A 22 de Novembro de 2000, o jornalista Carlos Cardoso, o Catoja, morreu assassinado a tiro em Maputo. As balas da AKM, uma arma de guerra, calaram uma das vozes mais intervenientes do jornalismo moçambicano, mas não calaram a nossa indignação nem o exemplo de profissionalismo e de luta por um mundo mais justo, que ainda representa o nosso amigo.
Cinco anos depois, continuamos à espera que seja feita JUSTIÇA!

DOS CASADOS INFELIZES


Foto de Francesca Pinna


Tomo inteiro um tubo de barbitúrico
e viajarei no travesseiro
para uma noite dentro de outra noite.
Tu,
Viajarás para um qualquer
país, longínquo
como o esquecimento.
Talvez que um dia,
Um dia muito distante,
um dia daqui a milhares
de anos,
nos encontremos de novo,
surpresos então,
mudos de espanto e lágrimas,
na luz de qualquer estrela,
no frio de qualquer planeta.
E só então perguntarás
Como foi o resto da vida
sem nós,
o que foi de aqueles que tanto
queríamos
e perdemos em um dia esquecido
e remoto.
Tarde,
tarde porque seremos dois seres
vazios de sentido,
perplexos
em aquele lugar frio
e escuro,
algures na distância indescritível
dos incógnitos anos futuros.


Rui Knopfli

Chuva e half jack numa noite de Maputo

Os engenhosos cultores do terrível vício de consumir aguardente caseira, de melaço ou solução de bateria, deram-lhe um nome bonito, sugestivo e por demais poderoso: half jack!
O half jack é uma medida de um quarto de litro de aguardente de primeira - tem de ser de primeira (sndere) - senão nada - que, normalmente, se bebe sem companhia, contrariamente ao que é norma para as outras medidas, sejam de primeira, segunda ou terceira. Nos quintais da zona urbana da cidade de Maputo, um half jack custa dois contos. Na periferia, um conto e meio.
Pois bem: naquela madrugada de sexta para sábado choveram canivetes: cats and dogs.
A chuva caía em catadupas, as gotas de água feitas projécteis que embatiam no asfalto e no cimento dos passeios com um impacto seco, metálico e lívido de ira.
Tomado de insónias e atraído pela grandeza do espectáculo, enfiei a minha velha camisola de algodão e fui à varanda ver: nem carro, nem peões, nem bêbedos tresnoitados, nem prostitutas crepusculares, nem meninos da rua: apenas o silêncio gritado da chuva a cair. Por volta das seis da manhã, a chuva abrandou.
Continuava, porém, o impetuoso rio das suas águas descendo avenida abaixo, berma a berma, rumo ao subúrbio das Lagoas, à Mafalala, ao Stala Mati. Senti-me deprimido, imaginando o trágico e cíclico destino dos milhares de seres iguais a mim, àquela hora, naqueles bairros.
Iguais a mim não propriamente: eu estava no resguardo da minha varanda de primeiro andar, agasalhado, se desse uma volta iria para o aconchego das minhas mantas, o halo quente da minha consorte, um chá, em querendo, o What a Wonderful World de Louis Armstrong, em querendo!
Voltei em pontas dos pés para o quarto, ela ronronava auave e compassadamente, meti-me num par de calças de flanela pretas, botas, a camisola seria a mesma. Abri a porta e fui, quase a correr, para as Bananeiras. Bananeiras é o nome de um sub bairro que fica entalado entre as avenidas Acordos de Lusaka, Marien Ngouabi e a rua Milagre Mabote. É uma espécie de zona tampão, anexamente com a defunta e de má memória Praça da Paz.
A água chegava-me aos joelhos. A terra, barrenta e saturada de água que já não pode, de há muito, absorver, escorregava sob os meus pés. Tinha que caminhar devagar, os pés o mais afastados possível para aumentar o eixo do equilíbrio.
À volta, o espectáculo miserável do destino miserável de centenas de famílias entregues à tarefa ingente e inglória de acarretar em latas, em bidões sem o tampo, em jarras de plástico, a água que se tinha infiltrado para dentro do casebres. O quintal dela era uma lagoa de águas barrentas, suadas.
Cheguei de sorriso triste, mas ela estava vivaz e firme. Tinha que transmitir confiança aos seus clientes, confortá-los. Estavam sentados sobre grandes ou pequenos blocos de pedra, em pequenos grupos, como sempre, mas em silêncio, tiritando, contrariamente ao que era norma, no meio de cada grupo uma garrafa de exportação ou média, o maquinista a distribuir o álcool, que se bebia pelo mesmo copo, de plástico que ia passando da boca para o maquinista, das mãos deste, depois de cheio, para o consumidor seguinte. Ninguém me olhou. Ali ninguém presta atenção a ninguém.
De pé, disse-lhe: - Vô Matilde: dá-me lá um hâfo jâck.
- Certamente, filho. Não te sentas ? A água está a correr, ainda és capaz de cair.
A Matilde, com mais anos de cheias do que o Sahara de seca, tinha, ao longo do tempo, montado zonas altas nos cantos do quintal com recurso a entulho de origem diversa. Era nessas ilhas que se acomodavam os seus clientes naquela manhã de borrasca. Embuti uma taça de hâfo jack, de pé e senti como que um esticão provocado por uma elevação repentina do corpo, por efeito de um gancho sob a nuca, enfiado numa roldana. A coluna distendeu-se, os músculos ficaram tensos como um arco com a flecha pronta a varrer o ar. Embuti o segundo e tudo voltou gradualmente ao estado de relaxamento total.
Half jack!...
Circunvaguei então o olhar pelo quintal: velhos aposentados que à noite fazem de guardas na cidade de cimento para disfarçar o complexo de inutilidade social, estivadores na eterna espera do barco das Américas a caminho das Ásias, jovens desactivados da sociedade depois de fazer - ou mesmo antes - o ensino secundário e não caberem no mercado do emprego, velhas e desencantadas viúvas a quem os filhos, com formação superior, renegam por analfabetas e desconhecedoras de como se usa o garfo e a faca à mesa - “Senhor doutor, como está a senhora sua mãe ?“. “Ah! Não soube? Ela morreu.” - na verdade essa está morrendo a cada momento no quintal da vô Matilde, de cirrose, com doses diárias industriais de tontonto:
- Vô Matilde. Dá lá mais um hâfo. Daqui a meia hora tenho que estar na oficina.
Cheguei à oficina, assinei o ponto, arranjei um canto e fui dormir, sonhando chuva!
*
Fernando Manuel
in “SAVANA, semanário independente”, Maputo 11.11.05

Conselho do dia

«Preguicemos em toda a escala excepto no amor e na bebida, excepto na preguiça»

Doris Lessing

O preço do privado

Dois interessantes artigos revelam a verdadeira face da privatização dos cuidados de saúde: um grande negócio para uns e uma enorme perda para todos. Através do estudo das características da prestação de cuidados de saúde nos EUA, e da comparação do modelo deste país (com abertura quase total à iniciativa privada) e do Canadá (estatal), os autores concluem que não só os cuidados se degradam no primeiro, como inclusivé os custos finais são superiores. Artigo "Os altos custos da saúde baseada no lucro" de Steffie Woolhandler e David U. Himmelstein (respectivamente do departamento de Medicina do Hospital de Cambridge, Massachussets, e Escola Médica de Harvard) a ler aqui, e artigo "A falência da saúde de mercado" de Olivier Appaix (economista) a ler aqui. Descoberto no site brasileiro Informação Alternativa.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005


Foto de Ivone Ralha


Origem dos sonhos esquecidos

(...)

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo

Mário Henrique Leiria
in A Única Real Tradição Viva
Perfecto E. Cuadrado
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
Assírio & Alvim

Alguns comentários aos comentários sobre o artigo de Miguel Sousa Tavares

Tem surgido nos últimos dias no Blasfémias alguns comentários sobre o já famoso artigo de MST no PÚBLICO que são bem reveladores do que são estes ditos "liberais". Incapazes de esconder a contradição evidente entre o seu conservadorismo moral e o suposto "liberalismo" das suas ideias, ocupam-se a encontrar as teorias mais rebuscadas e patéticas. Assim, por exemplo, João Miranda diz que deve ser protegido o "direito das minorias homofóbicas", CAA acha que o facto de não haver bares gay em Braga se deve ao facto de não haver por lá gays, e Carlos Loureiro descobre que não existe discriminação no facto de se criminalizarem actos homossexuais com adolescentes e não actos heterossexuais, uma vez que não é preciso ser homossexual para praticar actos homossexuais. Uma série de posts fantástica que recomendo, embora com a ressalva de que pode provocar dores no abdómen de tanto riso, ainda por cima daquele mais prejudicial à saúde, que é o riso de escárnio perante a palermice em último grau.
A chatice é que o meu riso não resolve nada. Não vai contribuir para acabar com os preconceitos da maioria homofóbica neste país.

domingo, 20 de novembro de 2005

Alguns comentários sobre um artigo de Miguel Sousa Tavares

1- Duas raparigas, com 17 e 19 anos, beijaram-se numa Escola Secundária. MST acha isto "exibicionismo gay".
2- Foram vistas por uma auxiliar de acção educativa, vulgo "contínua", levadas ao conselho executivo e repreendidas pelo respectivo presidente. MST acha que isto não é discriminação sexual. É que MST sabe que nessa escola, mas só nessa escola, todos os beijinhos estão proibidos.
3- Entretanto, como seria de esperar, a blogosfera caiu em cima de MST. E fez muitissimo bem!
4- Mas, surpreendemente ou nem por isso alguns sairam em sua defesa. Dizem de si próprios ser "liberais", mas como notou um comentador, é só quando se trata do dinheirinho, porque em matéria de costumes não passam de reaccionários dos mais tacanhos.
Interior metafísico com fábrica. 1969
Giorgio de Chirico
10.julho.1888 – 20.novembro.1978
*
Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Manuel Alegre

Contos de Natal

Tenho 20 anos e por vezes vivo em casa do meu pai. Um cinquentão divorciado com queda para os copos e para amores infelizes. Sinto por ele pena, raiva, ternura. Coisas de filha. No último fim-de-semana passou as marcas. Tive medo. Chegou a casa às 4h da manhã com uma mulher estranhíssima. Uma trintona, estilo freak das Avenidas. Ele muito formal, ela muito simpática. Quando, no acto das apresentações, ela insistiu que a nossa cadela de dois anos era um mastim de dois meses, percebi que era doida. Não a contrariámos. Cá em casa somos educados. Quando às 6h da manhã, numa insónia, fui à cozinha beber água e a vi, fascinada, como na descrição de João de Deus, na Cartilha, a olhar, não para uma serpente, mas para uma faca de cortar presunto, fiquei em pânico. Que fazer? Chamar a polícia? Os bombeiros? Um psiquiatra de serviço? Acordar o meu pai? Fechei-me no quarto com a cadela. Não preguei olho. Tive remorsos. No fim do dia o meu pai estava vivo. Desta não o mataram com um picador de gelo, neste caso, com a faca do presunto. Fica para a próxima. O meu pai é responsável por estas minhas ralações.

Josina MacAdam

Murais do muro da Palestina (4)


José Pinto Sá

Pensas que eu vou ficar... sempre?!?

Pensas que eu vou ficar a vida toda à tua espera?

És mesmo parva! Pensas que...

És tão parva!

Este é o meu voto

Caros, leitores, decidi o meu voto para as próximas eleições.
O único critério é estar farto de meias-tintas.
O voto será este:

«Francisco Anacleto Louçã nasceu em Lisboa e tem 48 anos.
Actividades políticas
Participou da luta contra a ditadura e a guerra no movimento estudantil dos anos setenta, foi preso na Capela do Rato (Dezembro de 1972); libertado de Caxias sob caução. Adere à LCI em 1973 (transformada em PSR em 1979) e faz parte da sua estrutura da direcção quando do 25 de Abril de 1974, participando na luta política desde então.
Escreveu ou fez crónicas de rádio em diversos órgãos de comunicação social (O Jornal, Público, TSF, Antena Um, etc.)
Fundador do Bloco de Esquerda em 1999 e membro da sua direcção desde essa data. Eleito deputado por Lisboa em 1999, reeleito em 2002 e em 2005. No Parlamento, pertence às comissões da área de economia e finanças e, durante uma legislatura, pertenceu igualmente à comissão de liberdades, direitos e garantias.
Foi um dos intervenientes na preparação da reforma fiscal parcial de 2000, de que algumas medidas emblemáticas foram logo revogadas pelo governo Guterres e depois pelos governos das direitas. Fez parte de várias comissões de inquérito e dirigiu a bancada do Bloco de Esquerda no parlamento durante alguns anos.
Apresentou e defendeu inúmeros projectos de lei da sua bancada, alguns dos quais foram aprovados nestas três legislaturas: criminalização da violência doméstica, acesso livre à contracepção de emergência, despenalização do consumo de drogas e nova política para a toxicodependência, legalização das medicinas alternativas, lei sobre a informação genética e pessoal de saúde, redução dos prazos do trabalho a prazo, novas políticas fiscais e outras. Defendeu projectos que foram recusados, nomeadamente sobre a criação de um imposto sobre as grandes fortunas, sobre as regras para o levantamento do segredo bancário para efeitos de combate à fraude fiscal, generalização da banda larga, separação entre drogas leves e duras, administração médica de canabinóides em doentes terminais e crónicos e outros.
Participou como convidado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre e em diversos fóruns e contra-cimeiras na Europa. Participou nos movimentos sociais contra a guerra imperial, com Mário Soares, Freitas do Amaral, Maria de Lurdes Pintasilgo, Boaventura Sousa Santos, Carvalho da Silva e muitas outras personalidades. É membro da direcção do Partido da Esquerda Europeia. Participou em conferências políticas em diversos países, como a França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Suiça, Holanda, Bélgica, Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Nicarágua, Equador, Colômbia e Argentina.
Em 2005, tendo sido convidado pelo Banco Mundial para participar com quatro outros economistas, incluindo um Prémio Nobel, numa conferência científica em Pequim, foi desconvidado por pressão directa do governo chinês alegando razões políticas.
Publicou os seguintes livros de ensaio político:
Ensaio para uma Revolução (1984, Edição CM)
Herança Tricolor (1989, Edição Cotovia)
A Maldição de Midas – A Cultura do Capitalismo Tardio (1994, Edição Cotovia)
A Guerra Infinita, com Jorge Costa (Edições Afrontamento, 2003)
A Globalização Armada – As Aventuras de George W. Bush na Babilónia, com Jorge Costa (Edições Afrontamento, 2004)
Ensaio Geral – Passado e Futuro do 25 de Abril, co-editor com Fernando Rosas (Edições D. Quixote, 2004)
Frequentou a escola pública em Lisboa no Liceu Padre António Vieira (prémio Sagres para os melhores alunos do país), o Instituto Superior de Economia (prémio Banco de Portugal para o melhor aluno de economia), onde ainda fez o mestrado (prémio JNICT para o melhor aluno) e onde concluiu o doutoramento em 1996. Em 1999 fez as provas de agregação (aprovação por unanimidade) e em 2004 venceu o concurso para Professor Associado, ainda por unanimidade do júri. É professor no ISEG (Univ. Técnica de Lisboa), onde tem continuado a dar aulas e onde preside a um dos centros de investigação científica (Unidade de Estudos sobre a Complexidade na Economia).
Recebeu em 1999 o prémio da History of Economics Association para o melhor artigo publicado em revista científica internacional. É membro da American Association of Economists e de outras associações internacionais, tendo tido posições de direcção em algumas; membro do conselho editorial de revistas científicas em Inglaterra, Brasil e Portugal; “referee” para algumas das principais revistas científicas internacionais (American Economic Review, Economic Journal, Journal of Economic Literature, Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, History of Political Economy, Journal of Evolutionary Economics, etc.). Foi professor visitante na Universidade de Utrecht e apresentou conferências nos EUA, Inglaterra, França, Itália, Grécia, Brasil, Venezuela, Noruega, Alemanha, Suiça, Polónia, Holanda, Dinamarca, Espanha.
Publicou artigos em revistas internacionais de referência em economia e física teórica e é um dos economistas portugueses com mais livros e artigos publicados (traduções em inglês, francês, alemão, italiano, russo, turco, espanhol, japonês).
Publicou os seguintes livros de economia:
Turbulence in Economics (edição Edward Elgar, Inglaterra e EUA, 1997), traduzido como Turbulência na Economia (edição Afrontamento, 1997)
The Foundations of Long Wave Theory, com Jan Reinjders, da Universidade de Utrecht (edição Elgar, 1999), dois volumes
Perspectives on Complexity in Economics, editor, 1999 (Lisboa: UECE-ISEG)
Is Economics an Evolutionary Science?, com Mark Perlman, Universidade de Pittsburgh (edição Elgar, 2000)
Coisas da Mecânica Misteriosa (Afrontamento, 1999)
Introdução à Macroeconomia, com João Ferreira do Amaral, G. Caetano, S. Santos, Mº C. Ferreira, E. Fontainha (Escolar Editora, 2002)
As Time Goes By, com Chris Freeman (2001 e 2002, Oxford University Press, Inglaterra e EUA); já traduzido para português (Ciclos e Crises no Capitalismo Global - Das revoluções industriais à revolução da informação, edições Afrontamento, 2004) e chinês (Edições Universitárias de Pequim, 2005)
Terminou em Agosto um livro sobre “The Years of High Econometrics”, que será publicado brevemente nos EUA e em Inglaterra»

Andamos mesmo infelizes...

Andamos cada vez mais infelizes.
Vivemos mais anos, temos uma qualidade de vida infinitamente superior à dos nossos avós e, no entanto, andamos cada vez mais infelizes.
Aos quarenta anos vivemos ainda incertezas e angústias de adolescentes.
É verdade.
Amadurecemos muito mais tarde do que era suposto ser normal.
Há umas décadas atrás, um fulano na casa dos quarenta nem pensava em usar um brinco na orelha, quanto mais um ‘piercing’ no umbigo ou uma tatuagem na omoplata direita. E, se o fizesse, tinha o destino traçado: viciava-se em LSD, vivia numa comuna e acabava num manicómio.
Era a famosa trilogia: droga, loucura, morte.
Hoje em dia é perfeitamente normal encontrar um cinquentão de rabo de cavalo a entregar o modelo 1 do IRS numa repartição de Finanças e, se for mais perto do Verão, a exibir duas ou três tatuagens por baixo da camisola de alças.
E por falar de infelicidade: estes adolescentes retardados que somos nós andam numa infelicidade terrível. Metade deles estão divorciados, a outra metade está casada mas em trânsito para o divórcio.
O que é que sucede?
Os putos dos 16 aos 18 anos, por sua vez, vivem relações muito estáveis, aparecem lá em casa com o namorado ou namorada, trocam alianças e vivem tão ou mais infelizes que os progenitores. São, biologicamente adolescentes, mas não passam de crianças que brincam às relações amorosas, sem perceber que estão a imitar grosseiramente modelos que existiram há décadas atrás.
Confusos?
Os sexagenários encontram-se no Mercado da Ribeira e passam tardes luxuriantes a dar à perna, em bailaricos.
Claro que um panorama destes só pode contribuir para a infelicidade geral e generalizada.
Não há sossego possível.
Vai uma quarentona divorciada há largos meses e topa com um colega quarentão e logo lhe ocorrem pensamentos lúbricos. E nesse mesmo momento a sua costela judaico - cristã a apertar-se como um cilicio:«pois se ele é casado...», e vai daí a pobre e desesperada quarentona desiste de toda e qualquer investida. Infeliz, passa o fim de semana a empanturrar-se de bolos e todas as porcarias alimentares que lhe aparecerem pela frente, enquanto o filho aparece a dizer que vai jantar com a namorada e a mãe lhe telefona a dizer que vai, no sábado, para uma excursão e que volta no domingo. O quarentão casado passa um fim de semana de cão, a aturar os sogros, a ir às compras e a procurar meias no cesto da roupa lavada.
No início da semana de trabalho, ambos – quarentona e quarentão - se cruzam e lançam um ao outro os olhares mais infelizes que se possam imaginar...

sábado, 19 de novembro de 2005

Murais do muro da Palestina (3)

José Pinto Sá

No tempo em que os políticos tripavam

Dizer que os políticos são uma chatice é um lugar comum. Mas os políticos também se chateiam. Embora ninguém leve isso muito a sério. O que é pena. Mas que dava um bom estudo sociológico, lá isso dava. Há 30 anos, corria o Outono quente de 1975, uma figura sobressaía na política portuguesa. A ele se devem algumas das frases e atitudes mais enigmáticas e insólitas daqueles tempos da Revolução. Chamava-se Pinheiro de Azevedo. A 19 de Novembro de 1975, faz hoje portanto 30 anos, decidiu que a actividade do governo parava. STOP. Estava farto. Era o VI Governo Provisório, e era ele o líder. Há alguém com tomates para fazer isso hoje? Pois é. Como os tempos mudam. Já no dia anterior, a 18 de Novembro, Pinheiro de Azevedo tinha dito que estava muito aborrecido com o rumo que as coisas estavam a tomar. Por isso, tinha anunciado que o governo estava em greve. Nem mais. GREVE. E todos os membros do governo cumpriram, menos um. O fura-greves, o amarelo, foi o ministro comunista Veiga de Oliveira. Mas, para mostrar que tudo isso era para ser levado a sério, o então primeiro-ministro justificava-se assim ao país: “estou farto de brincadeiras, já fui sequestrado duas vezes. Já chega! Não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia”.
Esta frase ficou para a história. É de homem. E surgiu algum tempo depois de outra, proferida quando rebentaram petardos e granadas de gás lacrimogéneo numa manifestação de apoio ao seu governo, no Terreiro do Paço. Nesse dia, Pinheiro de Azevedo anunciava solenemente: “o povo é sereno”.
Ele já tinha ameaçado que o seu governo iria ser diferente. Logo na tomada de posse tinha deixado outra ideia basilar: “também eu rejeito a social-democracia como objectivo final da Revolução”. Foi uma frase fatal e talvez por isso, é que Pinheiro de Azevedo encabeçou o último Governo Provisório. Em Julho de 1976, o social-democrata Mário Soares encabeçou o primeiro Governo Constitucional. Eu sei que aqui a doutrina se divide. Mas eu é que sou o escriba da Junta!

Diálogos do Cais do Sodré (7)

T.Z.A.- O poder está na América, como sempre esteve numa América.
J.C.- Respondo-te com Plotino:

«Fujamos, pois, para a pátria bem-amada. Tal é o mais sábio dos conselhos. A nossa pátria, de onde viemos, está onde está nosso Pai. Não é uma viagem a pé, porque os pés não nos levam senão pela terra, de uma região para outra. Deveis por de parte todas as coisas que tais e delas afastar os olhos: deveis fechar os olhos e convocar antes outra visão que havereis de despertar dentro de vós»

T.Z.A.- Que visão?
J.C.- Uma visão que é de todos por nascimento, mas que poucos utilizam.

Diálogos do Cais do Sodré (6)

J.C.- Santo Agostinho: "Os grandes reinados não são mais que os pequenos projectos de grandes ladrões"
A.C.- Mas ficava parvo perante os ladrões de hoje em dia.

Fétiche - Rui Knopfli

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Diálogos do Cais do Sodré (5)

J.C.- Hegel: «As grandes massas tem necessidade de uma religião dos sentidos. E os filósofos também». O poder imperial já não consegue resolver o conflito através de esquemas de mediação.
T.Z.A.- Não há maneira de escapar à América.

Diálogos do Cais do Sodré (4)

T.Z.A.- Então fala-me lá dessas tuas ideias.
J.C.- Claro que sim. Há dois obstáculos que nos impedem de responder imediatamente a essas questões. O primeiro é o poder arrogante da metafísica burguesa e, mais concretamente, a ilusão de que o mercado e o e regime de produçao capitalistas são eternos e insuperaveis.
T.Z.A.- O capitalismo é o movimento próprio da revolução mundial.
J.C.- O segundo obstáculo é a relativização do poder.
T.Z.A.- Essa não percebi!

Murais do muro da Palestina (2)


José Pinto Sá

Diálogos do Cais do Sodré (3)

A.C.- Mas lembras-te, como o Brel cantava "Pour atteindre l'inacessible étoile"
T.Z.A.- O Brel cantou tudo!
J.C.- Sim, mas tu és uma falsificação, uma fraude do Brel e da tua vida, tu, meu amigo, és a favor das bombas.
T.Z.A.- A grande revolução agora é a Democracia.
A.C.- ....
J.C.- Tu és um FILHO DA PUTA.
T.Z.A.- Vamos destruir a Jugoslávia!
J.C.- Assassino!

Diálogos do Cais do Sodré (2)

A.C.- Existe um ponto nebuloso. Eu não vejo onde possa nascer a revolta neste paradigma.
J.C.- Tu não vês a revolta porque não entendes o paradigma.

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

Nomadismo e miscigenação (2)

Os heróis reais da libertação do Terceiro Mundo terão sido, na realidade, os emigrantes e os fluxos de populações que destruiram as velhas e as novas fronteiras. Com efeito, o herói pós-colonial é quem transgride constantemente as fronteiras territoriais e raciais, quem destrói os particularismos e aponta a direcção de uma civilização comum. O comando imperial, pelo contrário, isola as populações na pobreza e só lhes permite que ajam envergando as camisas de forças das nações subordinadas pós-coloniais. O êxodo do localismo, a transgressão das alfândegas e das fronteiras e a deserção da soberania foram as forças efectivamente operantes na libertação do Terceiro Mundo. Aqui, mais que em qualquer outro lado, podemos reconhecer claramente a diferença estabelecida por Marx entre a emancipação e a libertação. A emancipação é a entrada de novas nações e novos povos na sociedade imperial de controlo, com as suas novas hierarquias e segmentações; a libertação, em contrapartida, significa a destruição das fronteiras e mobilidades estabelecidas de migração forçada, a reapropriação do espaço e o poder por parte da multidão de determinar a circulação global e a mistura dos indivíduos e das populações.

Michael Hardt
e Antonio Negri in Império, Ed. Livros do Brasil, pag. 397

Diário Socrático (4)

17/11/05

Chamem a polícia! Ôôôô!
Chamem a polícia!

Onde é que eu já ouvi isto?...
Bem, não importa.
A noite ontem acabou mal, mesmo muito mal. Também quem me mandou a mim sair de casa naqueles trajes ridículos? É claro que o estúpido do segurança não me reconheceu quando tentei entrar em casa. E vai de chamar reforços e, quando dei por mim, estava a levar castanha daqueles matulões. Eu dizia “Sou o primeiro... sou o primeiro...” e eles riam-se alarvemente e respondiam “Pois e eu sou o José Castelo Branco...”. Por fim, só lhes dizia “Na cara não... na cara não...”.
O miúdo, que tinha assistido a tudo aquilo com um ar que me pareceu divertido, resolveu intervir e pediu aos matulões que parassem. Os tipos olharam para ele com respeito e pararam.
Acho que começo a ter problemas com a autoridade. Hei-de ter uma conversa com o miúdo. Aquilo dos complementos das reformas até correu benzinho. Só fiquei chateado por não terem incluído uma ideia minha, que era a seguinte: “Terão direito ao complemento de reforma todos os maiores de 80 anos que se apresentem acompanhados pelos respectivos progenitores.”. Não aceitaram esta ideia. Fartei-me de lhes explicar que esta ideia se baseava num papel que eu vi afixado num café onde se podia ler “Só se vende fiado a todos os maiores de 90 anos acompanhados dos respectivos pais” e o dono do café garantiu-me que o aviso funcionava às mil maravilhas. Espero que não se arrependam...
A Lurdes telefonou-me toda contente a dizer-me que tinha conseguido que um sindicato dos profs. tinha desconvocado a greve de amanhã. Grande coisa! Um sindicato! Há mais de uma dúzia de sindicatos de profs.!

Murais do muro da Palestina (1)


José Pinto Sá

Outono na cidade branca

"Quando é que despertarei de estar acordado?"
Álvaro de Campos