domingo, 30 de outubro de 2005

Bush et l'Irak: quel avenir?

LEMONDE.FR 25.05.04 15h00

L'intégralité du débat avec John Mason, directeur du département de sciences politiques de l'université William-Paterson de Wayne (New Jersey), aux Etats-Unis, mardi 25 mai, à 15 h .

Franco : Est-il absurde de comparer l'Irak et le Vietnam ?
John Mason : La réponse est bien entendu oui et non. Oui, dans le sens où l'armée de terre américaine est de plus en plus convaincue qu'elle peut gagner toutes les batailles au niveau tactique mais qu'elle est en face d'une défaite stratégique. Et non parce que les enjeux pour les Etats-Unis et pour l'Europe, dans le conflit irakien, sont beaucoup plus importants. On aurait pu perdre la guerre du Vietnam et gagner en Asie, mais il est loin d'être certain de pouvoir dire la même chose pour l'Irak.
Patus : Hubert Védrine a parlé d'hyperpuissance au sujet des Etats-Unis. Cette hyperpuissance peut-elle avoir un avenir en faisant fi de l'évolution de l'opinion publique internationale ? Existe-t-il d'ailleurs une période de l'histoire des Etats-Unis où ils ont été aussi contestés à l'extérieur ? N'est-ce pas le propre des empires de déchoir après avoir atteint un certain apogée ?
John Mason : Je pense tout d'abord que la notion d'hyperpuissance ou d'"empire américain", qui est un thème cher à la fois à la gauche et à la droite américaines, est une notion très contestable. Il va sans dire que les Etats-Unis sont actuellement une hyperpuissance militaire étant donné qu'ils dépensent à eux seuls autant que le reste de la planète. Mais, comme l'a bien remarqué Emmanuel Wallerstein, l'hégémonie économique américaine est en perte de vitesse depuis quelques décennies. Et les Etats-Unis sont devenus complètement dépendants de ses créditeurs extérieurs, à commencer par le Japon et la Chine, pour financer le niveau de leurs dépenses.
Comme beaucoup d'observateurs américains, je crains donc que ce moment de dominance unipolaire ne soit que transitoire. L'essentiel pour les stratèges américains était de préparer la transition à la multipolarité future, où les Etats-Unis ne seraient qu'une puissance parmi plusieurs autres dans un jeu de pouvoir compliqué. Bien entendu, le grand défaut de M. Bush et de ses conseillers était d'imaginer que l'emprise américaine sur la planète est une condition permanente que l'on peut prolonger à long terme. (...).

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Foto de Francesca Pinna


Il vento che stasera suono attento
- ricorda un forte scotere di lame -
gli strumenti dei fitti alberi e spazza
l'orizzonte di rame
dove strisce di luce si protendono
como aquiloni a cielo che rimbomba
(Nuvole in viaggio, chiari
reami di lassù! D alti Eldoradi
malchiuse porte!)
e il mare che scaglia a sclaglia,
livido, muta colore,
lancia a terra una tromba
di shiume intorte;
il vento che nasce e muore
nell'ora che lenta s'annera
suonasse te pure stasera
scordato strumento,
cuore.

Eugenio Montale

sábado, 29 de outubro de 2005

O Discurso de Harold Pinter na Câmara dos Comuns – Outubro de 2002

Há uma velha história acerca de Oliver Cromwell. Depois da tomada da cidade de Drogheda os cidadãos foram trazidos para a praça principal. Cromwell anunciou aos seus oficiais: “Muito bem! Matem todas as mulheres e violem todos os homens" Um dos seus ajudantes disse: "Peço desculpa meu general. Não será ao contrário?" Um voz da multidão exclamou: "O sr. Cromwell sabe o que está a fazer!"
Essa voz é a voz de Tony Blair "O Sr. Bush sabe o que está a fazer!" Mas a verdade é que o Sr. Bush e o seu gang sabem o que estão a fazer e Blair, a menos que seja realmente o idiota alienado que tantas vezes parece ser, também sabe o que anda a fazer. Eles estão determinados, muito simplesmente, a controlar o mundo e os recursos mundiais. E estão-se marimbando para quantas pessoas têm de matar pelo caminho. E Blair alinha com isto tudo.
Ele não tem o apoio do Partido Trabalhista, ele não tem o apoio do país ou da celebrada «comunidade internacional». Como pode então ele justificar em envolver este país numa guerra que ninguém quer? Ele não pode. Ele só pode recorrer à retórica, aos clichés e à propaganda. Nunca pensámos quando votámos nele para o pôr no poder que viéssemos a desprezá-lo. A ideia de que ele detém influência sobre Bush é de dar gargalhadas. A sua rebaixada aceitação do empurrão americano é patética.
Empurrar é com certeza antiga e sempre fielmente repetida tradição americana. Em 1965 Lyndon Johnson disse ao embaixador grego nos Estados Unidos: “que se fodam o vosso parlamento e a vossa constituição. A América é um elefante. O Chipre é uma mosca. A Grécia é uma mosca. Se estes dois gajos continuam a fazer comichão ao elefante eles podem ser castigados pelo tronco do elefante, e bem castigados ".
E ele não estava a brincar. Pouco tempo depois, os coronéis, apoiados pelos Estados Unidos, tomaram o poder e o povo grego passou sete anos no inferno. E no que respeita ao elefante americano, ele cresceu para se tornar num monstro de proporções obscenas e grotescas.
A terrível atrocidade de Bali não muda os factos do caso. A relação «especial» entre os Estados Unidos e o Reino Unido trouxe, nos últimos 12 anos, milhares e milhares de mortos no Iraque, Afeganistão e na Sérvia. Tudo isto para alcançar a «cruzada moral» americana e britânica, para trazer «paz e estabilidade para o mundo».
O uso de urânio empobrecido na guerra do golfo foi particularmente eficaz. Os níveis de radiação no Iraque são terrivelmente elevados. Os bebés nascem sem cérebro, sem olhos, sem genitais. Mas se vêm com ouvidos, bocas ou rectos, tudo o que deles sai é sangue. Blair e Bush são com certeza totalmente indiferentes a tais factos, não esquecendo o «encantador» Bill Clinton, que recebeu uma estrondosa ovação na conferência do Partido Trabalhista. Porquê? Por matar crianças iraquianas? Ou crianças sérvias?
Bush disse: "Não permitiremos que as armas piores do mundo fiquem nas mãos dos piores lideres". Muito bem. Olhas para o espelho, pá! És tu. Os Estados Unidos desenvolvem actualmente sistemas avançados de “armas de destruição massiva” e estão preparados para as usar onde acharem adequado. Afastaram-se dos acordos internacionais sobre armas biológicas e químicas, recusando permitir qualquer inspecção das suas próprias fábricas. Mantém centenas de prisioneiros afegãos presos na baía de Guantanamo, não lhes concedendo assistência jurídica, embora não os acuse de nada, em prisão virtualmente perpétua. Insistem na imunidade face ao Tribunal Penal Internacional, uma posição inacreditável mas que é agora apoiada pela Grã Bretanha. A hipocrisia é de cortar a respiração.
A subserviência contemplativa de Tony Blair para com este regime criminoso americano amesquinha e desonra este país.

Outono (2)


Foto de Ivone Ralha


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Esquerda?

Será só impressão minha, ou ultimamente o BE tem tido um discurso moralista, o PCP um discurso nacionalista e o PS um discurso tecnocrata?

DONA FLOR E SEUS TRÊS MARIDOS


Foto de Ivone Ralha

"De tout temps, les civilisations se sont mélangées et je pense que c'est ce qu'elles ont fait de mieux."

Caprices de l'histoire

Que reste-t-il de Rome? La politique. Entretien avec Paul Veyne.
par Jean-Baptiste MARONGIU

Jeudi 27 octobre 2005

Pourquoi l'histoire et pourquoi l'histoire romaine ? Simple accident individuel. Il arrive aux enfants des passions qui relèvent du pur hasard. Le conservateur du Musée archéologique de Nîmes a commencé à m'instruire au cours de mes visites assidues, car j'avais eu une émotion toute spéciale le jour où, petit écolier, j'avais trouvé un tesson d'amphore. Cétait la fascination d'une planète lointaine. Or, dans le milieu populaire où je suis né, Rome était la seule planète lointaine connue. J'ignorais l'existence des Mayas ou du Japon. J'appartiens à une génération qui s'est auto-éduquée puisqu'elle n'attendait plus rien de ses «vieux maîtres» en Sorbonne. Notre goût pour l'histoire était une résultante heureuse du marxisme car, chez un intellectuel communiste, elle devait prouver la justesse de la théorie. Accablé par l'injustice sociale autant que par le comportement peu reluisant de mes proches sous Vichy, j'ai été au PCF entre vingt et vingt-cinq ans, de 1951 à 1955.

(...)

En quoi, (...), Foucault a-t-il révolutionné l'histoire ?


Desenvolvimento em
www.liberation.fr/page.phd?Article=333958

quinta-feira, 27 de outubro de 2005


Foto de Ivone Ralha



Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.


António Ramos Rosa, 'Volante Verde'

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Eu e os liberais (4)

O meu post anterior teve alguma repercussão, de todo inesperada para mim, tendo sido comentado e debatido aqui e aqui, e tendo havido debates laterais nos quais participei, por exemplo aqui ou aqui. Nem sempre foi possível cumprir estes debates no que tinham de necessário, o que se deve tanto à minha falta de tempo dos últimos dias, da qual os leitores já foram informados, como a certas tacticas terroristas, por exemplo do João Miranda no Blasfémias, que, e como é um profissional de blogue e aparenta viver só para isto, atira rajadas de comentários a um comentário, pega em frases e frasezinhas, e no fim não diz nada. Se clicarem nos links que destaquei verão que foi possível debater com liberais, mas que este liberal não quer debater, mas vencer pela exaustão. É lá com ele. O meu próximo post não foi escrito a pensar no João Miranda, mas agora que olho para ele, assenta-lhe que nem uma luva.

IGNORÂNCIA
Um dos grandes problemas da análise liberal é a questão, ou a ausência dela, dos modelos para a análise. A reflexão liberal apoia-se numa “crença” neo-hegeliana que poderíamos definir exactamente como a definiu Hegel: «o conhecimento pelo Espírito de si mesmo e da sua profundidade». Não escandaliza assim que os liberais entendam a História como um género de “caminho para a realização”; no qual, obviamente, estaremos em determinado ponto definido pela maior ou menor proximidade ao “projecto”. Resulta fácil entender o monstruoso simplismo, até falacioso, deste entendimento que simplifica a realidade a tal ordem que pretende olhar para o “real” como simplesmente “o óbvio”, ou “o necessário”. Diremos que os liberais estão inebriados do óbvio porque o óbvio lhes convém; lamentamos que não saibam sequer perceber o momento histórico concreto do aparente “óbvio”. Mas nós, que não limitamos a análise ao discurso de boas intenções à maneira de John Rawls, sabemos, se o quisermos saber, desde o estruturalismo, que a aparente “ordem” do mundo não passa de uma projecção dos modelos mentais intrínsecos individuais e da sua correspondente matriz transversal, e que esses modelos se definem como “estruturas”, o que não é mais que a única forma que a nossa mente tem de unificar a complexidade, como necessariamente tem de fazer de modo a atribuir-nos a aparência de unidade sem a qual, simplesmente, enlouquecemos. E se aplicarmos isto ao acima citado de Hegel, bem como ao pensamento de Rawls, Milton Friedman ou qualquer dos liberais mais importantes, podemos começar a supor que essas análises não serão mais que “projecções” de desejos concretos internos ao funcionamento do “espírito” (o desejo de unidade) que servirão certamente para dormir mais descansado mas que simplesmente não constituem análise teórica honesta, profunda e bem fudamentada, antes um total embuste teórico! Pois o que chamar a um pensamento que ignora por completo o conceito de Poder, tanto histórica como factualmente? E que repete até ao óbvio o discurso do Poder sem sequer vislumbrar a existência desse Poder, ou seja, que o papagueia? A análise liberal do mundo é, antes de mais, escandalosamente ignorante, e vai-nos valendo nestes tempos de pensamento único a tradição crítica ocidental para podermos ler um Focault, um Deleuze, ou Hardt e Negri, e percebermos qualquer coisa para lá do “nevoeiro das sombras”.

Fotos de Ivone Ralha


Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho de muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

(...)

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
Do orvalho. Corria.

(...)

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.

Herberto Helder, ‘Elegia Múltipla, III’ em ‘Ou o Poema Contínuo’, Assírio & Alvim

Exposição de pintura de Maria José da Costa

Inauguração 27 de Outubro às 21h.

Galeria Quatro Montras
Rua da Esperança, 45 (Santos) Lisboa

Tel. 213979319

De 27 Out. a 10 Nov. 2005. De Segunda a Sexta das 14h30 às 19h.


Foto de Ivone Ralha

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Ainda que em travessa, a esperança não morre.


Foto de Francesca Pinna


E a seta é para a esquerda

Amanhã 26, não se esqueçam!

Brel (5)


Les Vieux

Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan
Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps

Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit : je vous attends

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit

Et s'ils sortent encore bras dessus bras dessous tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent par la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer

Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit : je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend.

Poemacto II - Herberto Helder (conclusão)

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Poemacto II - Herberto Helder

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Don't smoke in bed

Era só para agradecer a todos os que me telefonaram hoje...
Que é que querem?...
Um homem chega aos quarenta com mais cinco e fica nostálgico.
É que, bem feitas as contas, são:
2(0)+2(0)= (4) 5.
Obrigado.

domingo, 23 de outubro de 2005

No país das Grunhisses - a grande confusão (2)

O ensino público (insisto...) atingiu níveis inusitados de grunhisse. Cada governo traz a sua reforma, como se ensinar se fizesse por decreto ou portaria. A escola pública tornou-se um campo de experiências desvairadas, com reformas atrás de reformas.
Tivemos de novo, ontem, num suplemento do jornal 'Público', o inefável 'ranking'.
Tremei, ó classes médias empobrecidas! Contai até ao útlimo cêntimo e chegareis à triste conclusão de que os vossos filhos hão-de sofrer nas escolas públicas! Não há qualquer esperança.
É o ensino privado que faz chegar com sucesso à almejada Universidade, privado e, de preferência, católico.
Daqui sairão as cabeças pensantes que hão-de ditar leis no futuro.
As élites sairão de quem tiver dinheiro. Quem o não tiver há-de aspirar a uma certa espécie de arrivismo social - esses são os piores: vieram do nada e odeiam quem nada tem.

Queria apenas acrescentar que - estando dentro do sistema de ensino - me repugna olhar para o estado em que o mesmo se encontra. Os meus alunos desconfiam da escola, não têm hábitos de trabalho, são gente profundamente desinformada a todos os níveis, para eles, em geral, livros, música, cinema e mesmo jornais são coisas desinteressantes. As aulas são uma tortura. Não sabem estar, nem querem estar. A escola é o sítio onde se vai porque os pais os obrigam. Na escola não há nada de interessante.
Cada vez me parece mais evidente que os nossos políticos se haviam de pôr de acordo no sentido de promover um pacto de regime relativamente às questões do nosso sistema educativo. É um assunto que diz respeito ao bom senso.
O governo do sr, engº. Sócrates, pelo contrário, resolveu arrepiar caminho noutro sentido: "Vamos pôr os profs. na ordem!". Primeiro braço de ferro: vão fazer vigilância aos exames? Ai não, que não vão! Pôs na ordem e na primeira fila os membros dos Conselhos Executivos: "Ou se portam bem e fazem de 'his master's voice' ou cortamos a verba que recebem extra-salário." Perante tal perspectiva (e mesmo dando de barato que alguns ingénuos terão pensado algo como: «Não isto, não é bem assim, estamos num Estado de Direito, Democrático, nós exercemos um cargo de gestão, mas acima de tudo somos profs. ...»), o que é certo é que essa gente enfiou a cabeça na areia e se calou e fez aplicar as ordens, quanto à gente dos mil e um sindicatos de professores, esses foram para o alto de Santa Catarina e ficaram a ver passar navios. Nunca ninguém tinha chegado tão longe em matéria de Ensino como o actual Governo. Cilindrou todos os princípios e a classe que se devia ter pronunciado ficou quietinha, perfilada de medo. Pelo sim, pelo não tomaram decisões: há os que compraram um PC portátil, «para trabalhar na escola» e outros que se inscreveram num qualquer Mestrado, «para progredir na carreira»...
Santa Grunhisse!

sábado, 22 de outubro de 2005

"Ne laissons pas le monopole de la personne au néolibéralisme et à sa définition marchande."

L'individu, enjeu de la gauche

Par Philippe CORCUFF, Jacques ION et François de SINGLY

mercredi 19 octobre 2005


L'intelligence du réel apparaît en crise dans la gauche française. Dans son réfrigérateur conceptuel, on trouve surtout des formules creuses à tonalité technocratique sur «la nécessaire conciliation de l'économique et du social», avec çà et là des restes rances d'économisme keynésiano-marxiste. La fin de l'hégémonie marxiste en son sein aurait pu ouvrir une ère intellectuelle de diversification salutaire de ses références. Ce n'est pas ce qui s'est passé : une régression anti-intellectualiste a pris le pas. Les trois pôles constitués jadis par le goût de l'élaboration théorique, par le souci de l'enquête sociale et par l'éducation populaire se sont affaissés. Des médias de plus en plus standardisés et une expertise dotée d'oeillères énarchiques triomphent à leur place.
La sociologie, apparue en même temps que l'idéal démocratique et que la société des individus, depuis toujours confrontée à la question sociale, peut proposer quelques repères pour alimenter un renouveau du débat, notamment concernant les processus d'individualisation. Car l'individu se présente encore bien souvent comme un ovni, mal-aimé et incompris à gauche. Ceux qui, sociaux-libéraux, admettent le cours néolibéral, en l'agrémentant de quelques édredons sociaux à la marge, font de l'individualisme un «mal nécessaire» lié à la puissance du marché. Quant à ceux qui récusent le néolibéralisme, ils réduisent fréquemment l'individualisme à un sous-produit de la marchandisation à combattre. Il n'y a guère d'individualistes heureux à gauche.

Desenvolvimento em
http:/www.liberation.fr./page.php?Article=331992#

Outono (1)


Foto de Ivone Ralha


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o Outono,
e o que é o Outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
-Era uma casa-como direi?-absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no meu esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
-Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
-Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne com um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta-como
direi?-um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito com uma rosapeixe.
-Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
-Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema com base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção.Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder

Bárbaros do Sul, Cuidem-se!




By Ivar Ekman, International Herald Tribune

THURSDAY, OCTOBER 20, 2005

STOCKHOLM As one of the world's most gender-equal countries - a land where 80 percent of the women have jobs, where about half of the members of Parliament are female - does Sweden need a feminist party?

Many people thought so this spring, when a number of high-profile Swedish women began Feministiskt Initiativ, or Feminist Initiative. Polls then showed that almost a quarter of the electorate would consider voting for the party in parliamentary elections next year.

Six months later, however, that backing has imploded as Sweden rethinks the politics of sex.

Feminist Initiative is in disarray with the loss of several founding members who abruptly departed over the radical direction the party was taking. At its recent founding congress, for example, instead of tackling a mainstream platform as planned, the party presented proposals to abolish marriage and create "gender-neutral" names.

Support for feminism took another hit this summer with the airing of a Swedish television documentary called "The Gender War." A wrenching debate was set off by the film, which showed militant feminism to be widespread, reaching into official circles: Ireen von Wachenfeldt, the chairman of Roks, Sweden's largest women's shelter organization, for one, was shown asserting that "men are animals."


Desenvolvimento em
http:/www.iht.com/articles/2005/10/19/news/feminism.php

Ilustração de Ivone Ralha para capa de livro


Meridião. Índicos Indícios II
João Paulo Borges Coelho
Caminho



(...)
O mar não molha, dizia ele, afogueado.
E foram todos ver, a dúvida e a curiosidade acotovelando-se.
Apesar de serem muito mais olhos, muito mais interrogações tentando abri-lo, o segredo continuou fechado como antes, obstinado no seu mutismo. Porque as respostas que merecemos dependem, como é sabido, da qualidade das interrogações que fazemos, talvez fossem eles, pequenos pescadores incrustados nas margens da cidade como se dela não fizessem parte, que não soubessem interrogar. Ou talvez fosse um desses tubos de esgoto que a cidade usa para lançar ao mar os seus fétidos humores que, caprichoso, estivesse funcionando ao contrário; sofregamente engolindo, em vez de expelir, no acto consumindo a água toda da baía.
(...)

Quem olhar lá para cima, para o título, vai peceber que...

...as classes foram abolidas neste blogue.

Diálogos do Cais do Sodré (1)

J.C.- Sou um comunista radical. Abaixo todos os capitalistas.
A.R.- Abaixo mas é os comunistas.
J.C.- Abaixo esses comunistas também.

No país das Grunhisses - A grande confusão 1

Eu, que por razões económicas (como diria Karl Marx...) me vejo metido nesta embrulhada que é o ensino público, não me revejo enquanto sócio desse mesmo clube. E, para continuar a citar Marx (desta vez, Groucho...) nunca faria parte de um clube que me aceitasse como seu membro...
A Educação (ou, para dizer melhor, e aqui começar-se-ão a esclarecer as coisas: a educação é uma coisa e o ensino outra; têm lugares e tempos e agentes e contextos diferentes e diferenciados; parecem-se porque se completam e complementam; no entanto, diferem em termos de espaços e de agentes), a Educação tem um Ministério, está sujeita aos caprichos eleitorais. O Ministério da Educação tutela o Ensino e, como tal, este último está submetido ao sabor das correntes políticas. E, assim, presta-se a toda a sorte de equívocos.
Vejamos:
Nos tempos em que o Eng. Guterres lançou aquele 'slogan': "A NOSSA PAIXÃO É A EDUCAÇÃO" queria referir-se ao ensino (público, é bom que se entenda...). Ele estava a referir-se ao ensino, mas esta palavra não dá 'slogans' fortes. Ensino rima com coisas esquisitas.
Bota-se educação e não se fala mais na coisa. A populaça percebeu logo que aquilo cheirava a escola e vá de dar votos ao engenheiro.
A Escola ficou na mesma. Na mesma não.
O engenheiro ficou chateado à brava porque ganhou as Câmaras Municipais de Setúbal, de Alcochete e do Barreiro aos sacanas dos comunas e bazou. Há até quem diga que se refugiou.
Chegou o Grande Líder Durão e trouxe uma grande máxima: o 'ranking'.
Lembram-se?...
Por alturas de Agosto os professores agitavam-se, passavam noites em claro, as férias já nem eram a mesma coisa de outros tempos. Os jornais, as televisões, as rádios anunciavam para breve a publicação do 'ranking'!
A ansiada ocasião chegava e, então, era vê-los, aos profs., mais desesperados que um aluno a consultar as listas de colocação na Universidade (pública, entenda-se...). Que figuras rídiculas! Cabia agora citar Cesariny:
«O pouco amor que tive à burguesia
deixei-o todo numa casa de passe
quando me perguntaram quer assim? Ou assim?»
Nem quem governa sabe daquilo que governa, nem quem se deixa governar pensa acerca da forma como está a ser governada e se manifesta em conformidade ou em desacordo.
(Continua)
Fernando Rebelo

Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal.

"Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as «opiniões» dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal). O «debate» é necessariamente «fulanizado», o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimação de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem «em carne e osso», subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo".

José Gil
in 'Portugal Hoje - O Medo de Existir'

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Este é o poema do amor

Isabella Rosselllini, 1988
Fotografia de Robert Mapplethorpe


"Este é o poema do amor.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.
Este é o poema do amor.
"
*
António Gedeão

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Um embuste chamado Cavaco Silva

Quando Maria de Lurdes Pintasilgo foi primeira-ministra de um governo da iniciativa da Ramalho Eanes, antes de sair do seu posto resolveu aumentar as pensões sociais de certas camadas de pensionistas. Foi um aumento considerável. Sá Carneiro, na altura a preparar a AD, criticou fortemente esse aumento. A AD ganhou a seguir as eleições e foi para o governo, com Cavaco Silva em ministro das Finanças. Não tardou muito e fez novo aumento dessas pensões, o que fez com que num só ano essas pensões tivessem aumentado cerca de 45%. Começou aqui o descalabro despesista do Estado. Mas, como o preço do petróleo entretanto tinha subido muito, de 12$/barril, para perto de 40$/barril, e como Sá Carneiro faleceu no acidente de Camarate, e era depois Pinto Balsemão o primeiro-ministro, Cavaco Silva, prevendo mau tempo no canal para a economia mundial e portuguesa abandonou o barco da AD e recusou ser ministro do governo de Balsemão. Este ficou amuado e com o tempo se veria que nunca lhe perdoou este abandono do barco em pleno naufrágio. A AD, esfrangalhada por lutas intestinas e pela crise económica que levou o país à beira da bancarrota, acaba por perder as eleições em 1983 e dá lugar a um governo de salvação nacional presidido por Mário Soares, com Mota Pinto em vice-primeio ministro. Foi o governo do bloco central.
*
Mário Soares teve de recorrer ao FMI para resolver a situação, com a ajuda do seu ministro das Finanças, Hernani Lopes. Em 1985 as contas públicas estavam recuperadas e o caso deu brado nos meios financeiros internacionais. Portugal passou a ser um exemplo de bom aluno do FMI. Mas esta recuperação das finanças públicas custou popularidade a Mário Soares e ao PS, que na altura fez outra grande reforma, a do arrendamento, matéria tabú para os governos anteriores. E o PSD, com Cavaco Silva, sobe ao poder. Iniciava-se na altura a recuperação da economia mundial depois do choque do petróleo de 1980/81, com a descida forte do preço do petróleo. Cavaco Silva, bem infomado sobre os ciclos económicos, viu que teria um período de vacas gordas par fazer figuraço, até porque Portugal se preparava para entrar na CEE e iria receber chorudos fundos comunitários. Cavaco Silva passou então a governar com três Orçamentos, o geral do Estado, o dos fundos comunitários e o das privatizações da banca, seguros, etc. Foi um fartar vilanagem, dinheiro a rodos para distribuir pela clientela, incluindo centenas de milhares de funcionários públicos. O despesismo estatal no seu melhor! Fez obras, sim senhor, incluindo o CCB, que era para custar 6 milhões de contos e custou 40 milhões, segundo se disse na época. O rigor cavaquista no seu melhor!
*
Anos depois vem a guerra do Golfo, com implicações económicas fortes a nível internacional, e Cavaco Silva, prevendo período de vacas magras e já com ele em andamento, resolveu abandonar o barco e parar de governar e entregou o testemunho ao seu ex-ministro Nogueira. Este perdeu as eleições para Guterres e em 1996 iniciava-se a recuperação da economia mundial. Foi um bom período para Guterres, que continuou o despesismo de Cavaco Silva, já que este último tinha deixado o campo minado por sistemas automáticos de aumento da despesa pública, o MONSTRO cavaquista de que viria a falar Miguel Cadilhe, além de milhares de contratados a recibos verdes no aparelho do Estado, que Guterres teve de integrar nos quadros do Estado para não ter de mandar para a rua gente que há anos não fazia outra coisa senão trabalhar para e dentro do aparelho de Estado. Foi este o percurso do despesista Cavaco Silva, o que como ministro das finanças da AD aumentou num ano, pela segunda vez, milhares de pensionistas, e o que, como primeiro ministro, aumentou a despesa pública de tal ordem que os défices públicos da sua governação, se limpos das receitas extraordinárias, subiram tanto (chegou a 9% do PIB) que o actual défice das contas públicas é apenas mais um no oceano despesista inventado por Cavaco Silva nos longínquos tempos da AD e continuado nos tempos em que foi primeiro ministro, depois da recuperação heroica dos tempos de Mário Soares e Hernani Lopes, nos anos 1983-85. É neste despesista disfarçado de rigor que devemos votar para PR?
*
Desculpem, se quiserem propor Hernani Lopes para PR, podem contar com o meu voto. Mas como ele não aparece a candidatar-se a PR, vou votar em quem o ajudou a salvar Portugal da bancarrota provocada pela AD de Cavaco Silva. E esse alguém é Mário Soares. Estes os factos. E eu voto em factos, não em mitos e miragens. Mário Soares tem um brilhante CV em controlo da despesa pública (governos de 1977/78 e 1983-85). Cavaco Silva tem um brilhante CV no descalabro das contas públicas.Qualquer economista, se intelectualmente honesto e conhecer um pouco da nossa História recente, rejeita liminarmente este embuste chamado Cavaco Silva. Se ele for presidente da República, como pode ele pregar moralidade económica quando ele foi e é ainda o pai do MONSTRO? Monstro que agora Sócrates se esforça por abater com as reformas profundas que está a fazer. Para os mais novos aqui fica a radiografia do embuste chamado Cavaco Silva.

Post retirado da mesa do café, com a devida vénia

Eis quem está de volta e a sorrir

A partir de hoje, Cavaco Silva é candidato a Presidente da República. Para muitos sectores do eleitorado, é o regresso de um fantasma que assombrou Portugal durante dez anos. Para outros é o D. Sebastião mais esperado nos últimos tempos. Para o homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas, a sua candidatura é natural. Depois de ter saído do governo começou a ler jornais. Mesmo assim, só em 2002 abriu a sua alma para dizer à Domingo Magazine: “não posso dizer que fiz amigos jornalistas. Posso é dizer que muitos não tinham simpatia por mim”. Talvez para ser simpático ou já a olhar para Belém, é que disse tempos mais tarde ao jornal Público que, sem a sua simplesmente Maria, ganha apenas, em pensões e subvenções, 9356 euros líquidos por mês. Não sei se ganhou mais amigos por dizer isso, mas sei que muitos ficaram roídos de inveja. Porque sabem que esta soma é apenas a ponta do iceberg. Mas, de qualquer maneira, seja a lembrar Salazar ou D. Sebastião, aí está: Cavaco is back to business!


Ilustrações de Ivone Ralha



minha mãe lá vem o Jorge
no seu cavalo amontado
é verdade ó Moriana
diz como é que tens passado

inda ontem me disseram
que tu estavas p’ra casar
é verdade ó Moriana
que te vou a convidar

espera aí só um bocado
espera aí um bocadinho
que eu vou ali ao sobrado
buscar-te um copo de vinho

o que meteste no copo
o que meteste no vinho
trago a minha vista turva
não vejo bem o caminho

quando minha mãe julgava
que tinha o seu filho vivo
também a minha julgava
que tu casavas comigo

Rimances
José Barros e Navegante
Música tradicional portuguesa Ed. Ocarina

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Os Três Estarolas



Um país onde até os ladrões são incompetentes

I – O homem olhou em volta, esquerda, depois direita. Aproximou-se e entrou de supetão na casa de câmbios em Cascais. “Mãos ò ar! Ninguém mexe”, ameaçou, empenhando uma pistola na mão direita. Na esquerda, segurava dois sacos. Atirou-os para cima do balcão e o empregado, atarantado, começou a obedecer-lhe. Estava tudo a correr com ele tinha planeado. De repente, abre-se a porta num rompante e entra… um cliente. “Um cliente. Mas isso não estava previsto no me plano”, pensou logo o assaltante. E reagiu de imediato… largou os sacos e o dinheiro, atirou a pistola ao ar, arremessou-se para a porta ainda aberta e desatou a correr a quatro pernas. Mas não foi longe. Os polícias toparam-no logo. Toda a gente embasbacava a olhar para aquele fugitivo desalmado… vestido de Zorro, com mascarilha e chapéu a preceito!!!
Onde que estaria Tonto?

II – Eram um “gang”. Pelo menos assim gostavam de pensar, apesar de serem só dois. Emboscados na viela, cosidos com a parede, esperavam por quem passava na rua mal iluminada. Nos últimos dias já tinham aviado mais de dez. Só mulheres. Apesar de mais que alertadas, as infelizes tinham mesmo de se meter na boca do lobo. Se escolhessem o outro percurso demoravam mais um ror de tempo. “Chiu! Vem gente”, sussurrou um deles. Mas não era preciso. O outro já estava pronto, encurvado como um gato assanhado. À medida que os passos se aproximavam, a sombra que o vulto projectava alongava-se. “É uma mulher”. Quando assomou à esquina da viela, saltaram-lhe para cima, procurando sacar-lhe a carteira, os brincos e os anéis, enquanto ela esperneava. De repente, como um tiro, ouviu-se um grito: “Ernesto!”
A vítima era a ex-mulher de um deles. E lá foram “de cana”.

III – Pela tarde, um homem com ar destemido, aí dos seus 45 anos, acercou-se do balcão da bomba de gasolina urbana e não esteve com meias-medidas. Abarbatou a empregada pelos colarinhos da blusa, levantou-a comedidamente e, com a outra mão, esvaziou-lhe a gaveta. Saiu num passo largo, pegou na mota e zarpou dali. Tudo demorou um “ai”. Mas, o anjo da guarda do homem revoltou-se e, umas centenas de metros mais à frente, a mota avariou-se Desempoeirado, o assaltante abandonou-a (“Jóia, a minha sorte voltou!) e, enquanto o Diabo esfrega um olho, mandou parar um táxi livre que travou ao pé dele. Aproveitando a maré, assaltou também o taxista, enquanto o mandava encostar. Saiu do táxi… e deu de caras com dois polícias que, alertados pela gasolinadora, já vinham no seu encalço e se aproximaram enquanto o ele “aliviava” o motorista. É o que dá a ganância e… e não se ter certificado que o instrumento de trabalho estava em condições.
zemari@

Cuba: bloqueio dura há 45 anos

A 19 de Outubro de 1960, os EUA decretaram o bloqueio económico a Cuba. É o único país do mundo que insiste em mantê-lo. Há quem o entenda à luz da guerra fria que se vivia então. Mas a maiorida das pessoas nunca o entendeu. Não obstante as pressões mundiais, os EUA continuam irredutíveis.
*
Como nota de rodapé, fica a estória que se passou na última Cimeira Ibero-Americana, que se realizou há poucos dias em Salamanca. Na redacção da declaração final o termo bloqueio foi objecto de discussão, depois da embaixada dos EUA em Espanha ter mostrado desagrado pela utilização de vocabulário pró-Fidel Castro. Optou-se então pela utilização das mesmas palavras que constam na Declaração da ONU de Novembro de 2004, quando pede o fim do “embargo económico, financeiro e comercial a Cuba”. Mas em espanhol, o texto aparece com a palavra bloqueio, sempre utilizada por Cuba para definir 45 anos de teimosia e prepotência norte-americana. Questões linguistícas que fogem ao controlo de Washington.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

....................Elegie.................

Fotografia de Robert Mapplethorpe
Patti Smith, nude
1976
*
I just don't know what to do tonight,
My head is aching as I drink and breathe
Memory falls like cream in my bones, moving on my own.
There must be something I can dream tonight,
The air is filled with the moves of you,
All the fire is frozen yet still I have the will, ooh, ah.
Trumpets, violins, I hear them in the distance
And my skin emits a ray, but I think it's sad, it's much too bad
That our friends can't be with us today.
Patti Smith, Horses, 1975

Foto de Francesca Pinna


PORTAMI IL GIRASOLE ch'io lo trapianti
nel mio terreno bruciato dal salino,
e mostri tuttu il giorno agli azurri specchianti
del cielo l'ansietà del suo volto giallino.

Tendono alla chiarità le cose oscure,
si esauriscono i corpi in un fluire
di tinte: queste in musiche. Svanire
è dunque la ventura delle venture.

Portami tu la pianta che conduce
dove sorgono bionde transparenze
evapora la vita quale essenza;
portami il girasole impazzito di luce.

Eugenio Montale

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

"Nunca ousei ser um radical na juventude.
Tinha medo de me tornar um conservador depois de velho".
Robert Frost

domingo, 16 de outubro de 2005



Las Guitarras Locas é um projecto de música instrumental baseado na comunicação e cumplicidade entre duas guitarras, com interpretação de composições originais e temas de outros autores.

A sonoridade latina com influências de Jazz, de flamenco e de Blues, caracterizam de forma geral o diálogo das guitarras em palco.

Após a gravação do primeiro álbum Las Guitarras Locas, editado pela Blind Note e divulgado amplamente a nível nacional, João Cuña e Luís Fialho preparam-se agora para editar o segundo CD denominado Guitarra Tejo, no qual contam com a participação de Raimund Engelhardt nas tablas e cajon.


sábado, 15 de outubro de 2005

Eu e os liberais (3)

RELIGIOSIDADE
Não é óbvia a matriz religiosa no pensamento liberal. Como chamar religioso a um pensamento que põe no “indivíduo” a tónica? Para a entendermos, mais uma vez teremos de “levantar o véu” e reconhecer os subterrâneos do texto liberal. A religiosidade no liberalismo assenta em três dogmas: 1- A perfeição das organizações: para os liberais, o modelo organizativo da sociedade humana actual, longe de ser circunstancial ou determinado, resulta da prossecução do projecto essencial do Homem. É o “ímpeto” imparável da Evolução. Os liberais são darwinistas dentro do sistema, porque entendem que este se regenera através da competição, em que sobreviverão os melhores, mas são hegelianos fora dele, uma vez que são incapazes de aplicar o seu darwinismo à estrutura geral do modelo organizativo. Daqui resulta do seu discurso que só aparentemente é adaptável- o modelo vêm-no como fixo. 2- A infalibilidade do individuo: é claro que os liberais não supõem que os actos de cada indivíduo são infalíveis, mas julgam reconhecer a infalibilidade nas acções do conjunto geral das formas organizativas do indivíduo. Daí que o seu projecto seja permitir a livre competição entre indivíduos, ou organizações de indivíduos, uma vez que o resultado final dessa competição será sempre positivo. Imersos nesta semi-religiosidade, os liberais são incapazes de entender que nas organizações humanas a estrutura de poder é assimétrica. 3- A positividade da empresa: É curioso, mas os liberais vêm a perfeição nesse modelo que é a “empresa”, quando falam das “empresas” adoptam um tom divinatório, convencidos de que as “empresas” irão resolver “os problemas” se puderem simplesmente “ser empresas”, operar. Isto é a ontologia da empresa, assim mesmo com estas palavras. Os liberais estão sempre convencidos que o mercado, a acção das suas “empresas”, irá encontrar a justa via. Pouco lhes importam os exemplos que se repetem que contrariam este dogma: ainda ontem se descobriu que as farmacêuticas estavam a cartelizar o mercado português. Pouco lhes importam as Enrons e quejandas, para os liberais estes são ramos podres da árvore. Como não reconhecem a assimetria da estrutura de poder, não percebem que isto é toda a árvore. É que, como o exemplo das farmacêuticas permite mais uma vez compreender, o interesse das empresas só circunstancialmente pode coincidir com o interesse geral; de qualquer modo, não é esse o seu objecto. Mais, sem o Estado que abominam não haveriam investigações e responsabilização destas práticas que a todos prejudicam, o que não é problema para os liberais, que devido à sua fé cega no mercado, julgam que do desaparecimento do Estado surgiria uma “ética” empresarial responsabilizadora que por si só nos levaria ao Paraíso.

Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim

Adília Lopes


Em 1976, em Évora, um comando internacionalista de anarcas afixou um panfleto à porta dos principais cafés da cidade.

Ficaram-me partes do texto: “Burgueses vocês não entenderam nada….As nossas plantações crescem lindas como as searas cooperativas do Alentejo…Vocês a falar de droga fazem lembrar as freiras a falar de sexo…Libertemos a droga, libertemos a loucura, desejemos sem limites.”

O Marciano, Eduardo Luiz Magno, argentino de Martinez de Hoz, fez parte do grupo.

Anos mais tarde recebi dele esta foto do Luxemburgo. Onde andará?

sexta-feira, 14 de outubro de 2005



Fotos de Ivone Ralha

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

(...)

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


Herberto Helder, ‘Tríptico’, II
‘Ou o Poema Contínuo’. Assírio & Alvim

Eu e os liberais (2)

INDIVIDUALISMO
O moderno pensamento liberal baseia-se nesta simples e singela premissa: entendem que o indivíduo é soberano. Nada de mal nos parecerá esta ideia, que traz a capa do igualitarismo, no entanto por baixo dela esconde-se uma realidade divergente. Para a compreender temos nós de “mudar a agulha” da análise, e ver a coisa por outro prisma. Na verdade, dizer que “o individuo é soberano” não será mais que uma boa ideia, o problema é verificar se existem condições de facto para que o indivíduo, ou melhor, cada indivíduo, exerça livremente a sua soberania. Parece então claro que por baixo desta ideia igualitária esconde-se a mais brutal das desigualdades: uma vez que esta proto-soberania do indivíduo se fará à custa da transferência do poder estatal, resulta que a relação de poder terá de obedecer a novos critérios. João Miranda e os outros liberais não têm pejo em esclarecer de onde virá a nova fonte de legitimação da soberania. Por baixo desta aparência de individualidade nasce o individualismo, e assim todos terão na justa medida do que puderem pagar. Desta forma pode João Miranda escrever, falando de municipalismo, que «Num sistema puramente liberal, o território não é planeado. Os municípios e as regiões organizam-se de acordo com as decisões descentralizadas de cada munícipe», e que «Os habitantes do município M não podem esperar que os habitantes dos outros municípios se diponham a financiar o município M». Ou seja, a cada um consoante as suas posses. É por isto que os liberais defendem o fim dos sistemas públicos de saúde ou educação (como já tive oportunidade de comentar aqui). A sua visão individualista impede-os de entender conceitos como a redistribuição da riqueza, que, note-se, não têm origem em qualquer tentativa quixotesca de igualizar o mundo, mas antes, como Keynes entendeu muito bem, na necessidade de sobrevivência do próprio sistema. É que a acção do indivíduo, se deixada sem controlo, irá necessariamente produzir não a igualdade mas a desigualdade, e numa segunda fase a crise do sistema, uma vez que os liberais não querem entender que as relações entre indivíduos não são iguais na medida em que a relação de poder entre os mesmos é desigual.

Mandela líder de um governo mundial

Nelson Mandela é o político preferido para chefiar um hipotético governo mundial. Pelo menos para as pessoas que seguiram e votaram no programa da BBC “ Who Runs Your World?”. E foram mais de 15 mil, os votantes de todo o mundo que consideraram o ex-presidente da África do Sul como o mais capaz de liderar um executivo global.
As pessoas eram convidadas a escolher 11 entre 100 personalidades propostas. Estas integravam-se em quatro categorias principais: pensadores, lideres, economistas e uma categoria avulsa, subdividida em quatro: políticos, design, artes e desporto. Portugueses nem vê-los. Nem mesmo o José Mourinho no Sports!
No final, depois de somados os votos, o resultado foi o seguinte:
1 - Nelson Mandela
2 - Bill Clinton
3 - Dalai Lama
4 - Noam Chomsky
5 - Alan Greenspan
6 - Bill Gates
7 - Steve Jobs
8 - Desmond Tutu
9 - Richard Branson
10 - George Soros
11 - Kofi Annan
Mandela tem quase 200 anos. É um avozinho simpático, mas está fora da corrida. Os outros, please. Afinal, a crise de valores é mundial. É incrível que sejam estes os sujeitos que inspiram mais confiança às pessoas para governarem o mundo.

Nobel da Literatura: dar o seu a seu dono.


Harold Pinter
Prémio Nobel da Literatura 2005
*
Sou um amante do teatro. Vi muito, o mais possível, desde 68/69. Em Coimbra há(via) duas companhias estupendas e opostas: o TEUC (grego/clássico) e o CITAC (moderno/stavilasky-grotovskiano). A Gulbenkian subsidiava a contratação de encenadores sul-americanos (pelo espanholês) de renome internacional. Vi, aprendi, gozei e considero-me um meio-teatrólogo muito difícil de satisfazer.Não tenho culpa. Vi do melhor, do no Japão (Kabuki e Nô) a Nova Iorque (“Einstein on the Beach”, de Bob Wilson), E vi do mais melhor bom em Portugal (Coimbra, Porto e muito em Lisboa). Da tragédia grega ao Living Theatre. Do teatro do Absurdo ao Peter Brook (“Birds”, um espanto no Convento do Beato). Onde vi também “outra coisa do outro mundo”: «Novos Contos da Montanha», de Miguel Torga, que é(ra) de leitura obrigatória no secundário, numa encenação desse génio singular que é João Brites e do seu “O Bando” irrequieto.
Sem falar da “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht, pelo TEC (Cascais), encenada por Carlos Avilez, em 1976. Esta trupe, já em 1968, tinha varrido muitas das teias de aranha que atrofiavam a cena teatral portuguesa com um inovador/brilhante “D. Quixote”, aplaudido em “n” países. Costumava dizer-se que quando um (actor(riz) (de)clamava "Fiquei cego! Não vejo nada!" só dava vontade de replicar "Ó filho(a) tira a mão dos olhos".
Podem, portanto, imaginar a minha felicidade pela atribuição do Nobel da Literatura a Harold Pinter por ter "recuperado para o teatro os seus elementos básicos: um espaço fechado e um diálogo imprevisível, onde as pessoas estão à mercê umas das outras". Estamos a falar de um “Figo”, ou melhor, no caso dele, britânico, de um “Lampard”.
É um “menino” (75 anos) que, além de ser um criador multifacetado, diz coisas como estas: “The laws are brutal and cynical. None of them has to do with democratic aspirations. All of them have to do with intensification and consolidation of state power. Unless we face that reality fairly and squarely, this free country is in grave danger of being strangled to death.” – in "Murder is the most brutal form of censorship", 1989. Na temporada 2001/2002, os Artistas Unidos (Jorge Silva Melo, um “must”) levaram à cena 8 peças de Pinter. Pois, mas já passou. Mesmo que sejam os mesmos intervenientes nunca será igual. Se é diferente todos os dias que está em cena…Este é também um dos fascínios do teatro.
Depois há ainda o texto, o cenário, a luz, o som, os desempenhos/actuações e o conjunto disto tudo, ali, à nossa frente, onde um passo em falso pode ser a morte do artista. Atribuir o Nobel a Harold Pinter foi dar o seu a seu dono.
zemari@

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Um certo olhar para a História

Foto de Robert Capa, da agência Magnum, em 1932, o seu primeiro trabalho publicado. Na fotografia, Leon Trotsky fala aos estudantes de uma universidade na Dinamarca, sobre a revolução soviética.
*
"Quando se quebra um braço ou uma perna, os ossos, os tendões, os músculos, as artérias, os nervos e a pele não se rompem segundo uma só linha, da mesma forma que não se colam novamente e saram ao mesmo tempo. Quando se produz uma fratura na vida da sociedade, não existe simultaneidade nem simetria de processo, quer na ideologia social, quer na estrutura económica. As premissas ideológicas formam-se antes do seu rompimento, enquanto as suas mais importantes consequências ideológicas só aparecem muito tempo depois."
Leon Trostky

Rave Party

Dando cumprimento à política de segurança e proximidade do Governo, P.S.P. e G.N.R. vão convidar a população para convívios na esquadra, ou no quartel, da sua área de residência.

Sem mais comentários publicam-se excertos de notícia, de hoje, do D.N.:

O consumo de álcool e de droga no seio da PSP e da GNR é do conhecimento do Ministério da Administração Interna (MAI) desde o ano 2000. .
(…)
… num estudo da IGAI, feito em 2000, a que o DN teve acesso, e que nunca o MAI revelou, lê-se "Podemos constatar facilmente que o abuso de consumo de bebidas alcoólicas é uma realidade conhecida e admitida pela PSP."
(…)
No âmbito deste mesmo estudo, a IGAI entrevistou mais de uma centena de agentes, colocando-lhe uma pergunta concreta "Concorda que os elementos da PSP possam ser testados?" Mais de 90 por cento responderam afirmativamente. Mas ressalvando: "Se foram efectuados a todos e com isenção, e não apenas a alguns como é hábito da Instituição". Curiosamente, 47% dos entrevistados garantiram que os testes são feitos a quem não bebe, e 43% que eram "por simpatias".
Relativamente ao consumo de estupefacientes, a IGAI constatou "Os resultados são reveladores de que o consumo de estupefacientes é um problema que existe na PSP e não se pode continuar a ocultar. E acrescenta-se: "Mostram também que a Instituição não se apercebeu de qual a sua dimensão, pois caso contrário teria tomado medidas mais sérias de controlo".
A IGAI chegou a estas conclusões no ano 2000 e, conforme ontem o DN noticiou - com base em fontes policiais -, a situação não está ultrapassada, ainda que, em comunicado ontem veiculado pela Direcção Nacional da PSP, se garanta que há desde 1982 um controlo interno sobre o consumo do álcool.
Também o Comando-Geral da GNR emitiu um comunicado em que garante a realização de testes de despistagem de álcool com frequência. Afirma-se, por exemplo, que este ano já se realizaram 1754 testes, dos quais apenas três apresentaram resultado positivo.
Contudo, uma dissertação de licenciatura, elaborada por um capitão da GNR, em 2004, demonstra que a situação está longe de estar controlada. Este estudo, aliás, não se distancia da realidade apresentada pela IGAI em 1998. "O abuso do consumo de bebidas alcoólicas é uma realidade conhecida e admitida na GNR", lê-se num relatório a que o DN teve acesso.

Eu e os liberais (1)

São muito úteis as comparações: João Miranda costuma escrever no Blasfémias sobre o clima. João Miranda apresenta-se como um especialista, mas curiosamente todas as suas intervenções são no sentido de rebater aquilo que é hoje a opinião consensual dos especialistas sobre este assunto: que a acção do Homem está a provocar alterações dramáticas nos modelos climáticos do planeta. João Miranda escreve no Blasfémias, um blogue de convertidos à cultura do sucesso liberal que vai colonizando a praxis do nosso tempo. O seu axioma primeiro é o de que a acção do Homem não deve ser criticada nos termos em que, por exemplo, nós a criticamos. Claro que esta opinião nasce de um terreno epistemológico, o de que o Homem de hoje, a nossa civilização, será algo de inquestionável per si, como se fosse simplesmente o que de melhor poderia ter acontecido, o resultado lógico. Daí que seja impossível para João Miranda achar que poderíamos (atenção: que poderíamos!) estar a prejudicar o planeta, logo a prejudicarmo-nos, quando destruímos as florestas, poluímos a água, etc. Serve este exemplo para introduzir o tema que me vai ocupar os próximos posts neste blogue. Pretendo demonstrar como os liberais, os neoliberais, os ultraliberais, ou os anarcoliberais, são simplesmente as representações presentes de um fenómeno que só imperfeitamente poderíamos chamar de religioso, mas que mantém do religioso as piores características: aceitar sem questionar e questionar ferozmente a opinião divergente; chamar a si a razão no que aparenta ser óbvio e ser sofista no que nos ultrapassa.

Foto de Álvaro Mendonça

O Zambeziano Que Encalhou No Recife


Foto de Ivone Ralha

A Tales de Mileto


A Água

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau lasca
que bebe o homem que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche
e lava a boca depois de um broche.

Atribuído a Bocage

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Convém ter cuidado com os foguetes

- Total de votos obtidos pelos partidos de Esquerda (PS, CDU, BE, PCTP/MRPP e PH) concorrentes às eleições autárquicas de 9 de Outubro de 2005: 2.699.812

- Total de votos obtidos pelos partidos de Direita (PSD, CDS/PP, PPM, PND, MPT, PNR e PSN e suas diversas coligações) concorrentes às eleições autárquicas de 9 de Outubro de 2005: 2.321.642

- Listas independentes: 133.146

- Votos em branco ou nulos: 230.338

Fonte: site oficial da Comissão Nacional de Eleições

Foto de Ivone Ralha


Há uma irreparável decepção quando um homem encontra uma sereia.
(...)
São, com efeito, seres horríveis, as sereias. Move-as o puro gosto de matar, de remeter a carne humana à sua origem, ao lodo, aos vermes e à fermentação. Vêm de tempos velhos, do horror de uma terra convulsa, ainda encharcada de sangue e lava, revoltada por nascer. Cantam, tal como canta a mulher feia, com a face escondida e desejando que quem a escuta se estilhace como vidro.
(...)

Hélia Correia, ‘Bastardia’, Relógio d’Água

terça-feira, 11 de outubro de 2005


(Katrina / A revolta da natureza)



José Pinto Sá

"O Tigre da Malásia"


Luís Carlos Galvão. Foto recente de Ivone Ralha


João Santa Rita, com o próprio Sandokan, em foto do nosso arquivo.