sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Tabucchi responde a Pacheco Pereira

António Tabucchi sai em defesa de Soares e responde hoje no DN, em crónica intitulada "Quem testemunha pela testemunha", a outra crónica de José Pacheco Pereira, "Vamos escolher o 'fixe' ou o 'confiável'?", esta no PÚBLICO de 22 de Setembro. A não perder, aqui. Destaco este excerto:

«(...) não era o Salazar, também ele, um entendido em Finanças, na linha da sua visão do mundo? A economia não é uma ciência objectiva como a química ou a física, é uma ciência humana. O Portugal salazarista era um país miserável, mas os indigentes (80% da população) tinham a satisfação de poder dizer que as moedas que mendigavam nas esquinas eram uma moeda forte. Não duvido que Cavaco Silva tenha estudado bem na Inglaterra da sua juventude. Mas tenho a impressão de que ele viveu os seus tempos estudantis ingleses como alguém que vinha da Bélgica ou da França, e não de um país totalitário. Faltava-lhe pois o que se chama "consciência política". O que, para um político, é uma falta grave. E quem não a teve aos 20/30 anos, quando o seu país precisava dela, não sei se a poderá ter em idade mais que madura, quando o seu país já a tem, porque alguém se bateu para lha conquistar e continua a bater-se contra qualquer ameaça que a possa desfalcar.»

Barreiro Rocks 2005

Temos o prazer de anunciar a todos os fãs do Rock n' Roll em Portugal (estima-se que vinte, pelo menos), mais uma edição, a terceira, do Barreiro Rocks, o único festival luso com mais prestígio no estrangeiro que em Portugal (sem brincadeiras). Organizado pela editora Hey Pachuco, o festival teve já duas festas de apresentação. A primeira, a 10 de Setembro no bar Porto-Rio, no Porto, contou com os Lascivos e os The Ballyhoos. A 24 de Setembro o rock deslocou-se a Madrid, ao Club Nasty, para apresentar novamente os Ballyhoos acompanhados por Capitan Entresijos e Juanita y los Feos. A festa prossegue hoje, 30 de Setembro, pelas 22 horas, com um programa absolutamente imperdível: no Espaço B, Barreiro, espera-nos o garage-rock dos referidos Ballyhoos, o surf-mariachi dos míticos Los Santeros e o rock minimalista dos espanhois Jesus Racer Rock n' Roll Trio (são um duo). Dia 4 no mesmo local e à mesma hora podemos apreciar o blues revivalista dos Big River Johnson. O Festival propriamente dito apresenta um cartaz de grande qualidade, embora necessariamente underground para aficionados do rock puro e duro. No Espaço Barreiro Rocks, junto à Escola Alfredo da Silva, actuam dia 7 os espanhóis Los Chicos, uma banda absolutamente poderosa ao vivo, um verdadeiro show que já conquistou a admiração, por exemplo, de Beck; os britânicos The Hells, representantes do "novo rock" no Festival, comparados muitas vezes a bandas como os White Stripes ou Yeah Yeah Yeahs; o "psychogaragepunk" dos americanos The Black Lips; e finalmente a lenda viva do rock americano Billy Childish (100 discos, 30 livros de poesia, 2 novelas e 2000 quadros) acompanhado pelos The Buff Medways numa actuação em que se espera que o espírito martirizado do Delta do Mississipi se cruze com o lado mais negro e sujo da Motown. No dia 8 o festival termina em grande: temos a abrir os franceses The Magnetix com o seu rock primitivo inspirado por uns primeiros Gories; depois, o rock festivo dos ingleses The Coyote Men; um dos esperados grandes concertos do festival surge de seguida com o soul dos americanos The DT's (atenção à voz de Diana Young-Blanchard); e para terminar em alta, uma das grandes bandas rock europeias, os The Flaming Stars, irão apresentar-nos o seu som cheio de poder, de soul e de emoção. Um concerto imperdível. Mais informações poderão ser obtidas no site oficial do festival.

Sondagens contraditórias lançam a confusão

Não sei se são feitas de acordo com a vontade do freguês ou se pura e simplesmente são mal feitas. No entanto, parece que algo vai mal nas empresas de sondagens. Há uns anos largos, mais precisamente em 1954, Darrell Huff e Irving Geis lançaram um livro chamado “How to Lie With Statistics”, que mostrava as formas como a manipulação dos dados podia ser feita. Não sei se haverá o equivalente especificamente para as sondagens. Mas qualquer coisa está mal no reino de César. Senão vejamos as duas sondagens saídas hoje.

O Barómetro da Marktest para o DN e TSF, relativo a Setembro, coloca o PSD à frente com 39% e o PS 34%. Dá à CDU 10%, ao Bloco de Esquerda 10% e ao CDS-PP 4%.

Já na projecção da Eurosondagem para a RR/Expresso/SIC, o PS recebe 42,5% das intenções de voto, sem maioria absoluta portanto, o PSD fica-se com 33%. A CDU mantém os 10%, o CDS-PP sobe para 7% e o Bloco de Esquerda desce para 6%.

Portanto, a acreditar nas sondagens vindas das duas empresas, se as eleições legislativas se realizassem hoje ganhavam os dois maiores partidos, o PS e o PSD em simultâneo.
O único valor coincidente foram os 10% de votos na CDU.

O universo e a margem de erro das sondagens também não são muito diferentes. A Marktest realizou 803 entrevistas telefónicas, e apresenta uma margem de erro de 3,46%. Já a Eurosondagem realizou 1031 entrevistas telefónicas e uma margem de erro de 3,05%.

Em quem acreditar? Escolha a sondagem da sua preferência, e seja feliz.

"A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer"





Post pessoalíssimo dedicado aos amigos mortos em combate

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Copos: disto percebemos nós!

A revista norte-americana Wine & Spirits colocou quatro vinhos portugueses entre os 100 melhores de 2005.

São eles: Taylor Quinta de Vargellas Vinha Velha 2000, Quinta do Crasto 2001 Douro Reserva, Quinta do Ventozelo 2000 Douro e o verde alvarinho Reguengo de Melgaço 2004.

O Top 100 (2005) foi seleccionado depois de 8.820 vinhos de todo o mundo terem sido provados por experts.

Salut.

Frederico Garcia Lorca


Romance Sonâmbulo

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.
Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de luas
ostenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

(Tradução de Eugénio de Andrade)

Este poema belíssimo de Garcia Lorca integrou um magnífico recital, "As Cidades Ciganas" a que tive oportunidade de assistir esta 3ª feira no Bar "A Barraca" em Santos, com a (sempre) esplêndida Maria do Céu Guerra acompanhada por um guitarrista, do qual, infelizmente, não fixei o nome. Uma noite soberba num bar de excepção em Lisboa.

Máximas do Cais do Sodré (3, agora em britânico)

«I love being drunk! I hate being sober!»- Douglas

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Miles Davis forever

Miles Davis morreu a 28 de Setembro de 1991, faz hoje 14 anos. A pneumonia e os problemas respiratórios não perdoaram. Estava na altura a ultimar mais um álbum, que acabou por sair só em 1992. Chamava-se Doo Bop e era mais uma achega à permanente inovação com que Miles sempre presenteava os mais fiéis. Desta vez, o rapper Easy Mo Bee era o elo de ligação com o lado mais comercial da música de então. Curiosamente acabou por ganhar um Grammy na secção de Best Rhythm & Blues Instrumental Performance, com o tema "Fantasy".
*
Vi Miles Davis uma única vez. Foi no primeiro festival de Cascais, em 1971. Tinha vindo de Moçambique passar umas férias, com a minha família. A minha onda era mais rock e o jazz era para mim um território desconhecido. Mas o nome de Miles Davis não. As suas incursões na área da fusão tinham começado, penso eu, dois anos antes com “In a Silent Way”. Mas foi com "Bitches Brew", de 1970, que Miles mergulhou de vez na fusão de Jazz e Rock, privilegiando as sonoridades electrónicas. De realçar que o Festiva de Jazz de Cascais foi o meu baptismo em concertos a sério. Nunca tinha visto tantos músicos com aquela qualidade juntos e ao vivo. E mesmo muitos
anos e dezenas de concertos depois, tenho alguma dificuldade em destroná-los do Top 1. Senão vejam. No grupo de Miles Davis, Keith Jarret era o organista. Presentes no Festival estavam Ornette Coleman, Phill Woods, Dexter Gordon, Joe Turner e o sexteto «Giants of Jazz». Este combo integrava Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Art Blakey, Sonny Stitt, Kai Winding e Al McKibbon, entre outros que já não me lembro.
Miles esteve no seu melhor, mas não disse uma palavra. Refugiado atrás dos seus óculos escuros, maravilhava todos, e a mim em particular, com os seus solos divinos. Tocou cerca de uma hora. Naquele dia 20 de Novembro de 1971, Miles Davis tocava com Gary Bartz, Keith Jarrett, Michael Henderson, Ndugu Leon Chancler, Charles Don Alias e James Mtume Forman. Já agora o alinhamento das canções foi: Directions, What I Say, Sanctuary, It's About That Time, Honky Tonk, Funky Tonk, que durou mais de 20 minutos e acabou com Sanctuary.
*
Como sabem, ou leram em livros da escola, os tempos eram cinzentos e os horizontes esbarravam em agentes da polícia política e outros fundamentalistas à civil. Que eram pouco dados a brincadeiras. A vinda a Portugal de músicos deste calibre não foi muito bem visto por sectores progressistas de muitos países. Mas só quem está do lado de dentro do arame farpado é que sabe como é bom respirar um ar novo e fresco. Durante os dias que durou o festival foram distribuídos panfletos de apoio aos movimentos de libertação, o que gerou alguns problemas. No entanto, o ponto alto da contestação deu-se quando o baixista Charlie Haden, que tocava no quarteto de Ornette Coleman, se chegou junto do microfone e dedicou uma música aos movimentos de libertação em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. Logo a seguir foi preso pela PIDE/DGS e enfiado num avião.
*
Como nota de rodapé, uma pequena história engraçada, contada por João Braga neste
site. O fadista fazia, juntamente com Luís Vilas Boas e outros, parte da organização e esteve em contacto directo com Miles Davis. A primeira exigência do músico foi uma limousine branca, guiada por um branco, fardado a rigor, com boné, luva branca, dragonas e tudo! Mas há mais.
Tive que arranjar um veterano boxeur para, à laia de sparring-partner, levar uma carga de porrada logo pela manhã, quando o grande artista acordasse. O pior foi que, na segunda manhã, farto de levar nas ventas, virou-se ao outro e foi despedido. Acordaram-me de supetão e lá tive que ir descobrir outro marmanjo. Por outro lado, devo ter ficado com uma fama danada na classe médica da época:
1 - Mobilizei um médico para ir ao Hotel Palácio observar o cabeleireiro do Miles, que estava com um problema de ordem venérea no traseiro;
2 - Chateei todos os clínicos que conhecia para que me arranjassem as embalagens que pudessem de Profamina. Todos os que responderam ao meu pedido me avisaram, "vê lá o que andas a fazer, que isto, tomado em excesso, pode ser muito perigoso", apesar de eu clamar que aquilo era para o Miles Davis - no que eles, obviamente, não acreditaram...
O genial autor de “Kind of Blue” saiu do armário (literalmente) da suite onde se encontrava, em meditação, e engoliu sem se deter as três caixas que reuni, não sem me sussurrar, na sua voz rouca, mas doce, que lhe fizesse companhia. Lembrei-me dos avisos dos médicos e recusei, polidamente.”

Um Rio

Apenas dois membros do painel de críticos do PÚBLICO se deu ao trabalho de ir ver o filme, e atribuíram-lhe, ambos, uma bolinha, que significa “a evitar”. De facto, “Um Rio” é um filme falhado, mas seria mais interessante discutir o que falhou, em vez de o arrasar e ponto final. E, já agora, tentar entender os motivos que levam uma entidade como o ICAM a atribuir-lhe um subsídio, num país onde todos os cineastas se queixam da escassez de apoios.
Aparentemente, terá sido determinante a utilização do nome de Mia Couto, um autor de grande popularidade em Portugal. O (paupérrimo) material promocional destaca que o filme se inspirou no romance “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”, o que constitui, sem dúvida, um empreendimento arriscado, para não dizer suicida. A popularidade da escrita do Mia deve-se, em grande parte, a uma criatividade lexical que é a sua marca distintiva. Na transposição para cinema, isso só pode ser preservado nas falas dos personagens, e, mesmo assim, suscita problemas de continuidade, em relação ao diálogo adicional.
Além disso, a profusão de gente, acontecimentos, recordações e sonhos que há no livro, não cabendo no filme, teve que ser desbastada, e o fio condutor ressentiu-se da colagem das passagens apuradas. No entanto, ressente-se muito mais do desbaste que sofreu, visivelmente, o guião inicial, de Luís Carlos Patraquim e António Cabrita.
A título de exemplo, basta referir o caso de Paula Guedes. (Lembram-se dela em “Kilas, o Mau da Fita”?) Embora o seu nome surja, com destaque, no cartaz, a sua participação, no filme, resume-se a uma cena. Depois, desaparece sem explicação, embora o seu nome surja, com destaque, no cartaz.
Se o realizador José Carlos de Oliveira teve mais olhos que barriga na escolha do romance, também pecou por ambição na “profundidade” que procurou imprimir à narração; de facto, ela obstrui-a até ao insustentável.
No entanto, “Um Rio...” não é só isso. A visão que o filme projecta de África é muito mais “saudável” do que é costume nas co-produções luso-moçambicanas, onde se repetem as velhas tretas da “magia de África” e onde os negros são coisificados. Por outro lado, José Carlos Oliveira soube tirar partido dos recursos cinematográficos, humanos e materiais, existentes em Moçambique, confiando-lhes lugares de primeiro plano nas equipas técnica e artística. A participação de moçambicanos no elenco não se resumiu à pretinha bonita do costume, e “Um Rio...” é uma boa oportunidade para rever actores como Ana Magaia, Cândida Bila, Gilberto Mendes e muitos outros.


José Pinto Sá

Justiça: o contra-ataque da situação

Homem Novo Precisa-se
Muito se tem comentado e escrito sobre os cortes aos direitos adquiridos de vários profissionais do Estado, quer funcionários públicos, quer agentes de órgãos de soberania, como os Juízes. (...)
Mas, vejamos o seguinte. Portugal recebeu, durante anos, cerca de um milhão de contos por dia da Europa e alienou grandes quantidades de ouro que se encontravam no Banco de Portugal, aforrado pelo "Antigo Regime". Passados 31 anos e depois de termos beneficiado de tais privilégios, comparados apenas com a descoberta do ouro no Brasil, em que estado o Estado está? Falido, puro e simplesmente falido. E não há processo de recuperação que lhe possa valer. Se o país fosse uma sociedade anónima e os nossos políticos fossem os administradores desta sociedade, alguém duvida que tinham sido todos exonerados dos cargos por incompetência? (...)
António Ferreira Ramos
*
Os privilégios dos Juízes Conselheiros
No Expresso de 17.9.05, discorre o Sr. Advogado António Marinho sobre os privilégios dos juízes e eu, como Juiz Conselheiro, pelos vistos também sou um privilegiado.
Tenho a sorte de me levantar às 07:30 e chegar pelas 08:30 ao Tribunal de Braga, onde trabalho de empréstimo num gabinete que, necessariamente, terei de deixar se ele for preciso ao Tribunal. Divirto-me a trabalhar até às 13 horas, altura em que vou almoçar e regresso ao divertimento até às 20 horas, muitas vezes até mais tarde, sendo necessário que a minha
mulher me chame para jantar porque, frequentemente, me esqueço, tamanha é a alegria no trabalho; muitas vezes, regresso ao Tribunal, depois de jantar, onde me divirto até às 23/24 horas. Como sabe, mas se não sabe eu digo-lhe que, desde 24.9.04, altura em que tomei posse, já relatei 84 processos (todos os processos que me foram distribuídos) e subscrevi, como Adjunto, cerca de 170: como vê não sou "madraço" como se disse numa reunião da sua Ordem Distrital, onde o Sr. Advogado participou, segundo se relatou na imprensa. Este ritmo ocorre todos os dias e na maioria dos fins-de-semana e feriados, quer chova quer faça sol, menos às quintas-feiras. (...) Chega, então, a quinta-feira e, para fugir ao ritmo habitual, levanto-me às 05:30, seja Verão seja Inverno, para ir apanhar o Alfa ao Porto. Então aí sim, "usufruo de viagens totalmente gratuitas “incluindo, obviamente, os comboios Alfa"; de burro, como o fez, há anos, António Costa, não chegaria a tempo à sessão. (...)
Custódio Pinto Montes
*
Afronta
Afronta. É a palavra que melhor se ajusta para classificar o aviltamento que tem sido feito aos profissionais forenses. Embora existam excepções, podemos dizer que 98% dos Juízes, dos magistrados do Ministério Público e dos oficiais de justiça dedicam-se em sacrifício pessoal, da sua vida, da sua saúde, do seu lazer, da sua família, a uma causa relativamente à qual nunca recebem qualquer louvor, acabando agora por ser os bodes expiatórios da péssima legislação que os órgãos executivo e legislativo têm asnaticamente produzido e multiplicado, mas que, por ignorar a realidade dos Tribunais, apenas conduz à sua maior degradação. (...)
Joel Timoteo R Pereira
*
Excertos de opiniões retiradas com a devida vénia do Verbo Jurídico e do seu blog

Rui Knopfli



"Cântico Negro"

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T'ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
- esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.

"...sei também que me dirijo aos mais sábios e inteligentes de todos os macacos"

"Ilustres presidentes,
Nobres gorilas,
Sábios orangotangos,
Subtis chimpanzés,
Oh macacos!
Permiti que um homem se dirija a vós."

O Planeta dos macacos, Pierre Boule, trad. Carlos Trindade, Ulisseia, pag 118

Post dedicado a António Marinho que, no DuraLex, semanalmente vai dessacralizando o Direito, lembrando que ele se funda na liberdade e não na autoridade

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Dedicado aos nossos anónimos visitantes

Os anónimos

Não me lembro na minha adolescência de receber telefonemas não identificados. A não ser num período de crise, e estou a referir-me à época em que o meu pai, então Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, teve de afrontar as consequências (juntamente com os membros do júri) de uma campanha desencadeada por causa de um prémio atribuído a "Luanda" de Luandino Vieira. Nessa altura, Amãndio César, salazarista convicto, desenvolveu uma série de denúncias na televisão e diversos cidadãos anónimos, também eles indómitos nacionalistas, telefonavam durante a noite lá para casa com insultos e ameaças, quase sempre em torno do tema então infamante de "comunistas". Os anónimos das linhas telefónicas preferem a noite: digamos que tal prática deve estar ligada à desesperante insónia e à alucinante solidão.
O fenómeno ganhou novas dimensões com o aparecimento dos telemóveis. Porque logo à partida há duas hipóteses: ou o telefonema oral, ou a mensagem escrita. Como através da oralidade existe apesar de tudo uma forma de presença (e a hipótese remota do reconhecimento), prefere-se em geral o silêncio ofegante, ou a mensagem escrita. Mas há gradações em tudo isto há uma forma de não anonimato que passa por aqueles que nos telefonam e fazem questão em não dizer quem são – cabe a nós adivinhar. Já me aconteceu falar com alguém e ao cabo de dois minutos dar-me conta de que preciso de operar uma viragem que me faça adaptar o discurso desenvolvido à descoberta de que me enganei e de que se trata de outra pessoa completamente diferente. Entretanto, vou-me perguntando se o que ficou para trás fazia inteiramente sentido para o interlocutor que reconheço agora. Há também os que nos enviam mensagens escritas no pressuposto de que nós inscrevemos o nome deles na agenda. E dizem coisas como: parabéns, hoje é o dia em que os filhos celebram a existência dos pais. Ou: estiveste bem na televisão, dá-lhes com força, e outros estímulos mais ou menos libidinais. E a gente tem de perguntar para lá: a quem devo tão entusiasmantes palavras?
Mas o mais interessante são as mensagens verdadeiramente anónimas. Elas permitem criar personagens pela sua insistência. É a heteronímia do pobre. E temos o admirador fiel e o fiel opositor, o colega dos bancos da escola e o inimigo de estimação. Grande parte das mensagens (e dos "mails") vêm de inimigos, que devemos classificar em duas espécies: os circunstanciais e os estruturais. Estrutural é aquele que nos odeia todos os dias porque nós um dia nos recusámos a ler o seu manuscrito genial. Alguns ódios nós podemos prever. Outros vêm de gente que nós não conhecemos e que nos odeiam pelo simples facto de existirmos (o que é uma razão muito aceitável).
Adoro receber mensagens anónimas (embora ache que, no fundo, se trata de uma prática miserável e sórdida). Mas quando alguém utiliza um pouco do seu tempo para me comunicar que "X escreve muito melhor que o EPC" (facto que me é totalmente indiferente), eu comovo-me até às lágrimas pelo facto de alguém tirar um pouco do seu sono para pensar em mim. As mensagens circunstanciais pertencem a períodos de grande intensidade polémica: a questão do aborto ou o facto de eu ter defendido os direitos dos homossexuais. Aí temos uma avalanche de mensagens que nos tratam de "almôndega abortada" ou de "maricas infecto". Fico sempre a tentar entender que tipo de satisfação estas mensagens anónimas suscitam naqueles que as enviam. Mas alguma deve ser.
Mas à cautela, não vá ter ataques de sonambulismo, eu evito até saber como se faz uma mensagem anónima. Mas que os operadores as prevejam é certamente uma atitude de terapêutico serviço público.

Eduardo Prado Coelho, Público, 12/09/2005, Pg 39


João Leão Neves

Alexandre O'Neill


Soprónia Insuflávia

Soprónia Insuflávia, ó minha noiva cauchutada,
minha câmara de ar nupcial, coito do coitado, coutada do solitário
cervo que nos galhos trazia à dependura
o retrato da que diziam verdadeira...

Verdadeira és tu, Soprónia! Machucada,
logo repões a glória da tua carne
na opulência das tuas formas,
as mesmas que, pelo catálogo, escolhi.

Porque fui eu que, à velha maneira, te escolhi
e a teus pais te paguei para poder trazer-te
a este quarto onde, dando novos sentidos à estafada canção,
o amor é uma coisa maravilhosa!

Que obediência devemos a práticas que não sejam as mais antigas?
Nós não fazemos amor, como diz a de hoje tão dessorada gente;
nós, está bem de ver, FORNICAMOS!

Não precisamos de Kahn, Egas Moniz ou Freud,
sequer de Reich, pensador orgasmático,
nem dessa trupe que dá pelo nome de As Femininistas
e que ao homem, quando quer, fecha obscenamente as pernas,
como santola que, já no prato, se recusasse.

Tão-pouco necessitamos de dar as nossas mãos
e fazer rodas infantis em casa de senhores idosos
para que a língua-de-sogra neles se desenrole
e eles digam:"- Te adoro!"

Somos absolutamente pela moral.

..............................................

Ao Algarve, Soprónia, que o tempo tástupendo!

Desinflada, meto-te na mala.

Em Albufeira, recobro a forma do meu amor
e, naquele mar que nasceu para estar deitado,
deitamo-nos perdidamente a amar!

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

I´ve seen all good people

I've seen all good people turn their heads each day
so satisfied I'm on my way.
I've seen all good people turn their heads each day
so satisfied I'm on my way.
Take a straight and stronger course to the corner of your life.
Make the white queen run so fast she hasn't got time to make you a
wife.
'Cause it's time, it's time in time with your time and its news is
captured
For the queen to use.
Move me on to any black square,
Use me any time you want,Just remember that the goal
'Sfor us to capture all we want, anywhere,
Yea, yea, yea.
Don't surround yourself with yourself,
Move on back two squares,
Send an Instant Karma to me,
Initial it with loving care
Don't surround
Yourself. 'Cause it's time, it's time in time with your time and its
news is captured
For the queen to use.
Diddit diddit diddit...
Don't surround yourself with yourself,
Move on back two squares,
Send an Instant Karma to me,
Initial it with loving care
Don't surround
Yourself with yourself.
Don't surround yourself.
Send an Instant
Karma to me. Don't surround yourself.
'Cause it's time, it's time in time with your time and its news is
captured
For the queen to use.
Diddit diddit diddit...
'Cause it's time, it's time in time with your time and its news is
captured.
*
Jon Anderson
Yes

Estou tranquilo
Não posso chamar inimigo a quem assim me sorri
*
Mutimati Barnabé João

Não deveríamos mostrar-nos tão críticos

Não deveríamos mostrar-nos tão críticos
Entre o sim e o não
Não há tanta diferença como isso.
Escrever numa folha em branco
É bom
Mas não menos bom é dormir e comer à noite
A água fresca sobre a pele o vento
Os fatos bonitos
O ABC
Defecar.
Falar de corda em casa de enforcado
É contrário à boa educação
E marcar no meio do lixo
Uma nítida diferença entre
A argila e o esmeril
Não parece conveniente.
Ah,
E quem fizer alguma ideia
Do que é um céu estrelado
Esse
Pode muito bem calar o bico.

domingo, 25 de setembro de 2005

B.Leza pode fechar a qualquer momento

É o fim de um espaço alternativo em Lisboa. Durante muitos anos, quando se queria acabar, ou começar, uma boa noitada, havia um nome que surgia sempre. Era o B.Leza. Um refúgio para quem abominava os lugares trendy, da socialite ou do marketing da noite. No B.Leza a festa era certa e a música sempre boa. Aquele espaço habituou-nos a poderem ser vistos, ao vivo, os melhores artistas da música de Cabo Verde.
*
A crise começou em 2001 quando a empresa proprietária do espaço moveu uma acção de despejo ao Casa Pia Atlético Clube, que está naquelas instalações desde 1920. De recurso em recurso chega-se a um acordo. O Atlético Clube, que subalugava o espaço aos gestores do B.Leza, tinha de sair até 31 de Agosto de 2005. Durante a transição, tentava-se arranjar solução para o B.Leza e um espaço para a biblioteca-museu. O prazo já passou e as soluções ainda não foram encontradas. Por isso, o encerramento pode acontecer a qualquer momento.
Aquela que poderá ter sido a grande festa de despedida ocorreu no passado dia 12 de Setembro. Tito Paris, Celina Pereira, Dany Silva, Nancy Vieira e Maria Alice, entre outros, esgotaram completamente a sua lotação e muita gente foi impedida de entrar. A publicidade foi feita pelos frequentadores e amigos que pensaram que aquela seria a última noite do clube de música cabo-verdiana. Manuel Maria Carrilho também fez noitada e esteve lá com a Bárbara. Disse: ”comigo o B.Leza não fecha. É um santuário. Tudo farei para que continue. Lisboa tem de continuar a ser a capital da diversidade”. Mas enquanto não há uma resolução definitiva, o B.Leza continua com a sua programação de Setembro e já tem a sua agenda de espectáculos preenchida para Outubro.
*
Instalada num palácio do século XVI, a sala mais conhecida do Casa Pia Atlético Clube, acolheu entre 1985 e 1989 as famosas “Noites Longas”. Entrou definitivamente na onda cabo-verdiana com “O Baile”, em 1989 e passados dez anos mudou o seu nome para “B.Leza”. Foi uma personagem carismática que descobriu e pensou em animar aquele espaço. Chama-se Zé da Guiné, e, na altura, tinha um estilo muito próprio. Como DJ passava tudo o que considerava cool: música africana, portuguesa, rock, reggae, jazz. A casa estava quase sempre a abarrotar e a festa acabava já com o sol a nascer. Paulino Vieira era o músico habitual da casa, quando se começou a chamar “O Baile”. A partir de 1989, muitos artistas cabo-verdianos começaram a pisar o palco do grande salão. De destacar as actuações daquela que, anos mais tarde, veio a ser descoberta pelos franceses e hoje uma das grandes vozes da world music: Cesária Évora.
Como registo, ficam dois discos aí gravados: “Tito Paris Ao Vivo No B.Leza”, de 1998, e “Ao Vivo No B.Leza”, de 2003, com gravações d e diversos artistas que actuaram naquela sala durante 2002.

Portanto, enquanto o B.Leza não fecha, é aproveitar malandragem.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Deuses desceram à terra (II)

Fast "Eddie" Nelson

"Chicken Birdie" Joey

Nick Nicotine

Para os fãs disponibilizamos um link para uma extraordinária reportagem exclusiva sobre este concerto, nesse magnífico jornal on-line, o "Rostos". Leiam-na em http://www.rostos.pt/paginas/inicio2.asp?jornal=18&revista=5&cronica=90839&mostra=2

Mais uma vez ficou provado, se necessário fosse: LA SANTERIA ES COSA SÉRIA!

Deuses desceram à terra (I)














Ladies and Genitals, LOS SANTEROS!

Fátima, voltaste, mas não estás perdoada!

A propósito deste formidavelmente indecente caso de Fátima Felgueiras: em 2001, aquando da sua recandidatura a mais um mandato na CMF, Barros Moura, deputado do PS, opôs-se terminantemente, pois os órgãos autárquicos tresandavam a corrupção e "sacos azuis". A liderança e o aparelho do PS reagiram, excluindo-o como candidato nas eleições legislativas seguintes, apesar dele já ter exercido vários mandatos, unanimemente reconhecidos e elogiados pelos seus pares.

Barros Moura, a quem, com amizade ou maledicência, mas sempre com admiração, alcunhavam de IBM (Inteligente Barros Moura) morreu pouco depois amargurado com o rumo que o seu País estava a tomar.

ZÉMARI@

Auschwitz: começam as execuções com gás

23-09.1941
*
Primeiro prenderam os comunistas,
E eu não disse nada porque não era um comunista.
A seguir prenderam os judeus,
E eu nada disse porque não era um judeu.
Logo vieram pelos operários,
E eu nada disse porque não era nem operário nem sindicalista.
E então meteram-se com os católicos,
E nada disse porque eu era protestante.
E quando, finalmente, vieram por mim,
Já não restava nada para protestar.
*
Martin Niemoller

Recordar Coltrane, John Coltrane

Born 23.09.1926
*
Dear John, Dear Coltrane
*
Trane, Coltrane;
John Coltrane;
it's tranetime;
chase the Trane;
it's a slow dance;
it's the Trane in Alabama;
acknowledgment,
a love supreme,
it's black Trane;
*
Michael S. Harper
1970

Eu nasci aqui
Me criei aqui
De lá nada sei
Eu só sei de mim
Quando vou pra lá
Vejo coisas daqui
Quando volto pra cá
Vejo coisas de lá
Quero saber
O que se passa aqui
Quero saber
O que se passa por lá
Quer saber
O que se passa aqui
Quero saber
O que se passa por lá
Quero saber
O que se passa em todo o lugar
Eu tenho estado aqui
Fazendo coisas daqui
Então estarei sempre lá
Assim em todo o lugar
Eu nasci aqui
Me criei aqui
De lá nada sei
Eu só sei de mim
Quando vou pra lá
Me sinto longe daqui
Quando volto pra cá
Me sinto perto de lá
Jorge Benjor é daqui
James Brown é de lá
Carlinhos Brown é de todo lugar
Eu sou um pouco daqui
Eu sou um pouco de lá
Mas as coisas que eu falo
São de qualquer lugar
Mas as coisas que eu sinto
São de qualquer lugar
Mas as coisas que eu como
Eu como em qualquer lugar
E pelas coisas que eu vejo
Esse é o lugar
Eu nasci aqui
Me criei aqui
De lá nada sei
Eu só sei de mim
Quando vou pra lá
Sinto falta daqui
Quando volto pra cá
Me faltam coisas de lá
Com os pés aqui
Com a cabeça lá
Minha visão daqui
O meu olhar de lá
Vou vivendo
Misturado misturado
Vou vivendo
Misturado misturado
Aprendi
As coisas que se fazem aqui
Aprendi
As coisas que se fazem por lá
Aprendi
A misturar e servir
Eu nasci aqui
Me criei aqui
De lá nada sei
Eu só sei de mim

Fernanda Abreu
«The accumulation of blunders [do Governo, do Pentágon, da CIA, etc., no Iraque] has led a Pentagon guerrillla-warfare expert to conlude, "We are repeating every mistake we made in Vietnam.»

Joe Klein, "Saddam's Revenge", in «Time», 19 de Setembro de 2005.


ZéMari@

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

SIMON WIESENTHAL (1908-2005)

«Há muitos Hitlers e Estalines pelo mundo; para regressarem estão apenas à espera que nós nos esqueçamos deles»

Duas fotos do tempo em que a burguesia colonial se ia suicidar enquanto classe




Ponta Malongane. Sessão de AGIT-PROP. Faculdade de Economia. Ano lectivo 1973/1974

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Mais rabinico que os rabis

José Manuel Fernandes, o nosso neo-con de estimação, insurgia-se, em editorial públicado no PÚBLICO sábado passado, contra a destruição das sinagogas em Gaza pelos palestinianos em fúria. Um dos argumentos preferidos de JMF, à boa maneira neo-con, tem sido justamente o de que Israel representará a "civilização" contra terroristas como o Hamas ou a Jihad. Assim, entre outras objecções, JMF comparava a destruição das sinagogas com a suposta situação das mesquitas em Israel onde supostamente os muçulmanos israelitas poderiam rezar sempre que lhes apetecesse, assim invectivando os palestinianos de bárbaros e perguntando onde estão agora os defensores dos direitos humanos que apoiam a causa da Palestina. Para azar de JMF, hoje, no seu próprio jornal, uma reportagem de Alexandra Lucas Coelho dá a resposta sobre a suposta tolerância dos israelitas: ficamos a saber que «das cerca de 140 mesquitas de aldeias abandonadas (a mesma situação das sinagogas dos colonatos abandonados), cerca de cem foram completamente destruídas. As restantes estão em avançado estado de colapso ou negligência, ou são usadas pelos residentes para outros fins, como armazéns ou restaurantes». Alexandra Lucas Coelho oferece-nos mais uma excelente reportagem, onde ficamos a saber que a opinião de JMF é mais radical que a opinião da generalidade da imprensa israelita (incluindo a de direita). O Ha'aretz (esquerda) escreve em editorial: «A maior parte dos membros do Governo tinha medo de ser vista como tendo ido contra os rabis. Preferiram culpar os palestinianos». No Ma'ariv (direita), Dan Margalit escreve: «Num embaraçoso gesto populista (o ministro da Defesa Shaul Mofaz) rejeitou a visão do aparelho de segurança, que tinha explicado a todo o mundo que era um dever demolir as sinagogas». Também o rabi Avi Acherman, da organização Rabis pelos Direitos Humanos, diz à enviada do PÚBLICO: «Segundo a tradição judaica, não há santidade depois de os rolos da Tora terem sido levados (...) Houve aqui manipulação política: algumas destas sinagogas foram feitas depois de serem anunciados os planos de retirada». Para rematar, o ex-presidente da Câmara de Jerusalém, Meron Benvenisti, escreve no Ha'aretz a lição que JMF ainda não percebeu: «A história da luta nos lugares santos não é uma guerra entre os judeus filhos da luz e os palestinianos filhos das trevas, mas a história de uma guerra em que ambos os lados cometeram actos bárbaros aos lugares santos um do outro». Com a diferença que uns têm um estado e outros não, acrescentamos nós.

Os militares e a condição feminina: só para falar das flores

Não faz parte de nenhum dos direitos ou deveres conjugais substituir os maridos em manifestações. É capaz de fazer parte do principio geral “unidos até que a morte nos separe”. Penso que nem todas as mulheres dos militares serão apenas donas de casa. Muitas delas terão trabalhos ou profissões, para além daquela que é, ao que parece, ser mulher de militar. No entanto, penso que não é dignificante para ninguém, as mulheres dos tropas darem a cara por eles. É mau para elas e para eles . Considero a situação simplesmente patética. Já agora só faltava mandarem também os filhos, de preferência bebés ou crianças com deficiência. Revela a que ponto chegou o que eles chamam de condição militar. Se a moda de convocar familiares para manifs pega, poderá haver alguém que o veja como um bom nicho de mercado a explorar. Até pode ser por eles, os tais militares feridos nos “direitos adquiridos”. Criar empresas especializadas em manifestações pode até compensar as reduções nas "regalias" agora "impostas" por Sócrates. A sua promoção poderia ser “Fazemos manifestações por si; não dê a cara, nós damos”. As caras seriam escolhidas através de castings. Mães, pais, mulheres maridos, filhos, primas. Caras duras, caras doces, novas, velhas, debochadas, coloridas, tristes, enfim, à escolha do freguês. “Escolha o protesto, nós escolhemos-lhe as caras”. É uma ideia de fazerem business. E depois não digam que só vos queremos mal.
*
Mas, voltemos ao protesto. Acontece que as medidas contestadas pelos militares/mulheres já estão promulgadas. O Presidente da República já deu luz verde aos diplomas do Governo sobre os sistemas de reforma e de saúde nas Forças Armadas. As associações, já dizem que não concordam com “algumas medidas”, mas consideram que “os diplomas foram em muitos
aspectos melhorados”. Então em que é que ficamos? Mandam as mulheres para a frente e na rectaguarda dizem que afinal as coisas não são tão más como as pintam? As posições dos militares revelam um completo desnorte. Concretamente, o que fazem os militares? Em Portugal, nada. Nem sequer apagam incêndios, como noutros países. Aconteceu uma ou outra vez, porque os politicos precisavam de salvar a cara. Mas no estrangeiro, já fazem alguma coisa. Missões, dizem eles, normalmente pagas a peso de ouro. Esperto, esperto, foi o Valentim Loureiro que melhorou fortemente a sua “condição” quando passou por lá. Chegou, na recta final, inclusivé a major. Um feito, já de secretaria. A justiça militar passou-lhe sempre ao lado, mas a civil parece não o querer deixar fugir, embora por outras razões. Já agora: qual será a sua reforma? Estarão também os militares agora a defender este tipo de condição? Que interesses estão por trás deste folclore? É que a velha máxima "somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros" é já dificil de engolir. Para a próxima, poupem-nos. E por pensar que neste caso não bate a bota com a perdigota, fica a dúvida no ar. Que outros "direitos adquiridos" estarão por trás de tudo isto?

Alemanha- o impasse, o delírio

Os resultados das eleições alemãs deixaram a direita blogosférica à beira dum ataque de nervos. Diriamos mesmo que estão a fazer birra; já sonhavam com a grande vitória das "reformas" de Merkel, com o fim do Estado Social alemão e a abertura dos sistemas públicos à fúria rapinatória das multinacionais da saúde, dos seguros privados, dos consórcios de educação, onde o "mercado" iria operar o milagre da multiplicação dos recursos- iria prestar melhor serviço conseguindo aumentar o lucro á custa, obviamente, de ninguém (de ninguém que eles conheçam, acrescentamos nós); e eis que o povo alemão, que pode ter muitos defeitos mas a quem não convém acusar de burro, lhes tira o tapete oferecendo a maioria à Esquerda! Daí que rapidamente a birra se tenha tornado em delírio; há um que no mesmo post acusa os alemães de serem "neo-egoístas" (o que quer que isso seja) e de não pensarem nos filhos por não aceitarem que o lucro rapinante e o individualismo se substitua à responsabilidade social do Estado e à ideia de Comunidade, e que depois diz que as eleições provam que a hora dos liberais está a chegar (e porque não dos neo-comunistas?); outro, acossado por altas febres, diz, rediz e acredita que o Estado Social alemão foi fundado por Hitler. Mas que confusão, blasfemos! Está mesmo visto que não conseguem perceber o que seja o Estado Social, acredito que por nunca dele terem tido necessidade. Confundir este conceito com o Estado opressivo, açambarcador e opressor do fascismo? Será preciso fazer um desenho para que o tal de CAA perceba que a função do Estado Social é assegurar um mínimo de condições de sobrevivência a qualquer cidadão, promover a redestribuição da riqueza utilizando o conceito do imposto progressivo sem prejuízo do direito de propriedade, ou promover a mobilidade social através da diferenciação positiva dos mais pobres? E, atrevo-me a perguntar ao distinto ideólogo, onde e em que momento viu Hitler promover uma medida que fosse que respondesse a um só destes desígnios? Regojizemo-nos, companheiros, com estes momentos singelos que revelam o desespero delirante dos nossos adversários. Mas mantenhamo-nos alerta, porque embora tenha sido ganha uma batalha, são eles que estão a ganhar a guerra.

terça-feira, 20 de setembro de 2005

________PONTA DA ILHA_____

*
Ó corpos dados com melodia
As melodias do meu ardor!
Ó pretas lindas! Ponta da Ilha!
Vestem soberbos panos de cor.
*
Deles se despem com grã doçura,
Vénus despida no próprio mar.
É com doçura que negras, lindas,
Desaparecem no meu calor.
*
Alberto de Lacerda

Corrosão Social


Durão (A Fuga)

Tanta promessa de melhorar os sistemas em Portugal
Não fizeste nada a não ser merda
Portugal metido na guerra, desemprego, enfim...
Mas não me sinto culpado, não votei em ti

Tiveste anos a dirigir Portugal
Mas tu não passas de uma marioneta
O problema são os fascistas que te manipulam
Preferiste dar o baza antes que te fodam

Depois de tanto tempo a roubar
O filho da puta pôs-se a andar
E agora tá-se a cagar

Continuo sem perceber porque o povo vota em tais pessoas
Pessoas, não! É uma falta de humanidade.
Foda-se, Durão! Metes nojo aos cães.
Que se fodam os políticos! São mais que as mães.

Depois de tanto tempo a roubar
O filho da puta pôs-se andar
E agora tá-se a cagar.

(Letra de música da banda neo-punk "Corrosão Social")


José Pinto Sá

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

The Muppets Show: o choque, a vertigem, o insulto...


A grande peixeirada em que se tornou o frente-a-frente entre Carmona Rodrigues e Manuel Maria Carrilho, na quinta-feira passada na SIC Notícias, deverá ter um segundo episódio em breve. Tudo leva a crer que será na TVI. Mas ainda está no segredo dos deuses.
Do lado de Manuel Maria Carrilho parece não haver qualquer objecção. A sua candidatura sempre se mostrou disponível. Do lado de Carmona Rodrigues, só depois do debate na SIC é que se decidiram aceitar. O típico estilo "deixa as coisas rolar até ver" , repescado de Santana Lopes, foi quebrado depois do debate de quinta–feira. Elementos da candidatura consideram que estão agora reunidas as condições para um novo debate. A carga negativa que teve na opinião pública a recusa de Carrilho em apertar a mão a Carmona foi determinante. No entanto, apresentam uma condição: Carrilho tem de divulgar o seu programa eleitoral, coisa que ainda não fez. Mas o candidato socialista já anunciou que a divulgação do seu programa será feita na próxima segunda-feira. A marcação de lado a lado é cerrada, como se pode ver.
Certo, certo, é o debate a cinco que a 6 de Outubro acontecerá na RTP. Só para fanáticos e para pessoas que tiverem de tomar um comprimido muito importante à 01:00 da manhã. Para esses, e para quem tiver pachorra, um debate a não perder. Aí, além das duas personalidades de quem se fala, vão estar também Ruben de Carvalho, Maria José Nogueira Pinto e Sá Fernandes.
O tiro de partida para as Autárquicas 2005 é dado a 27 de Setembro.


As frases do debate na SIC:

“…estou a ser vítima de insultos de carácter pessoal. Repita-os agora cara a cara…" Carmona Rodrigues

"…Quem não tem hábitos democráticos, não consegue ouvir os outros…" Manuel Maria Carrilho

"…Em Lisboa houve um despesismo descontrolado. Só o estudo prévio do arquitecto Frank Gery para o Parque Mayer custou 2,5 milhões de euros” Manuel Maria Carrilho

“…Quem gasta em propaganda é Manuel Maria Carrilho, que espalhou pela cidade mais de 250 outdoors muitos meses antes das eleições" Carmona Rodrigues

"Quanto pagou pela casa de banho?" Carmona Rodrigues
(Obras numa casa de banho do Ministério da Cultura realizadas quando Carrilho era ministro)

“…Essa polémica foi a tribunal, e saí do processo completamente ilibado" Manuel Maria Carrilho

"O nível da sua argumentação revela bem o seu carácter" Manuel Maria Carrilho

”…O senhor perdeu toda a credibilidade ao prometer empregos pós-eleitorais. Estamos perante um verdadeiro mensalão" Manuel Maria Carrilho (acusação de promessas que Carmona Rodrigues teria feito aos dirigentes do Partido da Nova Democracia, Manuel Monteiro e Jorge Ferreira).

"Isso é uma calúnia e não lhe admito. O senhor tem falta de carácter" Carmona Rodrigues

"Se for eleito presidente da Câmara, vou servir Lisboa e não servir-me dela como fizeram Pedro Santana Lopes e Carmona Rodrigues" Manuel Maria Carrilho.

"Blasfémia, isso não aceito" Carmona Rodrigues

"Não houve reabilitação urbana na cidade. Houve multiplicação de painéis a dizer que houve reabilitação urbana" Manuel Maria Carrilho

"Ordinário" Carmona Rodrigues (depois de Carrilho não lhe ter apertado a mão)



João Leão Neves

Foi a voz/era fresca forte e boa/como as tardes longas do Verão - Poema de Mário Machado Fraião

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Volte Sr. Reitor

Hoje, 19 de Setembro, arranca, em força, o ano lectivo, na grande maioria das escolas.

Deixando para depois, a análise das medidas tomadas pela Ministra da Educação, e, o seu impacto no terreno, há uma pergunta que gostaria de ver respondida.

Porque é que os Conselhos Executivos, eleitos democraticamente, não se demitiram?
É que sucede que, a aplicação das directivas ministeriais implica uma realidade nova, para a qual os Conselhos Executivos não foram mandatados.

Quando nos sindicatos dos professores, nomedamente no SPGL, se instala o desnorte, nos Conselhos Executivos, o norte é estarem de pedra e cal.

domingo, 18 de setembro de 2005

Dos militares, juízes e polícias: as opiniões

Até meados de Outubro, vamos ter acções de rua ou greves de militares, de juízes, de magistrados do Ministério Público, de funcionários judiciais, da PJ, da GNR, da PSP, do SEF, da Polícia Marítima e da Administração Pública. Como se chegou até aqui?
Vasco Pulido Valente
Público

*
Os senhores militares dominam o assunto, conhecem muito bem o tema dos «direitos adquiridos». Fizeram, aliás, uma revolução em Abril de 1974 por causa disso. Foram os militares que nos libertaram do regime antigo e acabaram com todos os direitos adquiridos que a sociedade de então mantinha. É mais do que legítimo, portanto, devolver-lhes a questão. E lançar o desafio: quem está disposto a liderar uma outra revolução para acabar com os direitos adquiridos deles? E com os dos senhores juízes, magistrados e funcionários judiciais? (…) As pessoas perderam o sentido da nação, mas isso não irrita. Preocupa, angustia, desilude. Mas não irrita. O que irrita são os motivos desta crise. Tudo o que está na origem deste ambiente, em que cheira a fim de regime. A Armada em passeata. Tribunais fechados. Sem lhes assistir a razão. Militares e agentes da justiça. (…) mentem descaradamente, quando dizem estar a defender a dignidade da instituição militar. Treta! Estão a defender a vidinha que os contribuintes lhes garantem - uma vidinha, diga-se, que os contribuintes gostariam mas o país obviamente não permite.
Sérgio Figueiredo
Jornal de Negócios

*
O Governo ganhou o primeiro ‘round’ e ganhou-o bem, porque esta manifestação não tinha cabimento legal. Era mais própria de um país do terceiro mundo do que de uma democracia e de um Estado de direito. (…) A lei da manifestação não é clara, de facto, e devia ser. Assim deixa a porta aberta a várias coisas. Mas está inteiramente fora de questão que os militares não podem participar em manifestações de cariz político ou partidário ou sindical, o que era o caso. (…) Os militares não podem ter um sindicato. Têm uma associação representativa, podem ter associações profissionais desde 2002, coisa que não existe nos países que têm forças armadas a sério, na Europa. Não existe em Inglaterra, não existe em França, Espanha, Alemanha, não existe em lado nenhum. Em Portugal podem ter essas associações, mas não com carácter político ou com carácter sindical, o que é o mínimo exigível.
Miguel Sousa Tavares
TVI

*
Sempre que se fala nos privilégios dos magistrados portugueses, logo aparecem algumas vozes (sindicalistas e não só) a negar essa realidade. Vejamos alguns exemplos.
I - Os magistrados do Supremo Tribunal Administrativo, do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal Constitucional que residam fora da área da Grande Lisboa recebem ajudas de custo por cada dia de sessão nos respectivos tribunais. Significa que estes magistrados recebem as ajudas de custo, precisamente quando se deslocam para o seu local de trabalho. A situação torna-se tanto mais incompreensível, quanto é certo que os referidos magistrados usufruem de um generoso subsídio de renda de casa e ainda de viagens totalmente gratuitas em todos os transportes públicos terrestres e fluviais, incluindo, obviamente, os comboios Alfa.
II - Os magistrados portugueses recebem um subsídio de renda de casa no valor de 700 euros mensais. Mesmo os magistrados que residem em casa própria. (…) A situação atinge mesmo o absurdo, porquanto até os magistrados aposentados ou jubilados incorporaram esse subsídio nas suas reformas nas mesmas condições dos que no activo têm efectivamente de fazer face às despesas com a habitação por motivos de colocação.
III - Será possível que alguém possa auferir uma remuneração mensal permanente, que essa remuneração entre no cálculo da reforma, mas que esteja isenta de IRS? É. Em Portugal tudo é possível desde que se trate de magistrados.
António Marinho
Expresso

*

Sendo a PSP uma força às ordens do Governo, um corpo policial que tem de obedecer às directivas do Governo, uma instituição que tem por função fazer cumprir o que o Governo decide, como entender que um agente ridicularize em público o primeiro-ministro e continue tranquilamente a fazer parte da corporação? Ora, sendo a Polícia o braço do Governo com a missão de manter a ordem, não pode haver entre uma e outro uma relação de oposição, um clima de desconfiança. Os trabalhadores têm direito a fazer greve. (…) O que aconteceu esta semana, com a projectada manifestação de militares, é igualmente inacreditável. Mais do que isso: configura uma situação pré-insurreccional. A recusa dos militares em cumprir ordens do Governo, só acatando a decisão do tribunal, mostra que estão em confronto aberto com o poder político regularmente eleito - ora isso viola todas as normas de funcionamento das Forças Armadas em países civilizados. A obediência total das Forças Armadas ao Governo é um elemento essencial do exercício da soberania.
Editorial
Expresso
ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

— Essa cova em que estás, com palmos medida, é a cota menor que tiraste em vida.
— é de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe
neste latifúndio.
— Não é cova grande. é cova medida, é a terra que querias ver dividida.
— é uma cova grande para teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo.
— é uma cova grande para teu defunto parco, porém mais que no mundo te sentirás largo.
— é uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca.
— Viverás, e para sempre na terra que aqui aforas: e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre, livre do sol e da chuva, criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás só para ti, não a meias, como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra da qual, além de senhor, serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra, tu sozinho tudo empreitas: serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra que também te abriga e te veste: embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa: te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa: te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra completo agora o teu fato: e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem, a terra te dará chapéu: fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor será de terra e não de fazenda: não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor e te ficará bem cingida: como roupa feita à medida.
— Esse chão te é bem conhecido (bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido (bebeu o moço antigo)
— Esse chão te é bem conhecido (bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido (através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido (vive com tua mulher, teus filhos)
— Desse chão és bem conhecido (te espera de recém-nascido).
— Não tens mais força contigo: deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva: teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana: és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão: és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna: deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão: deixa-te semear no leirão.
— Dentro da rede não vinha nada, só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo, só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira, só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca, tua vida que deu sem soca.
— Na mão direita um rosário, milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza, o rosário, semente maninha,
— Na mão direita o rosário, semente inerte e sem salto.
— Despido vieste no caixão, despido também se enterra o grão. De tanto te despiu a privação que escapou de teu peito à viração.
— Tanta coisa despiste em vida que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga, lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha, dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve, como mulher com que se dorme

João Cabral Mello e Neto (Morte e Vida Severina)

BORBOLETA

Ela é uma borboleta pequenina e feiticeira
Anda no meio da noite procurando quem lhe queira
Minha camisa foi manchada de vermelho
Tem um beijo desbotado de batom ou de carmim
E a feiticeira tem a boca encarnada
E um beijo e uma dentada sempre guardados pra mim
Eu procuro a borboleta feiticeira, descarada
Pelo batom na camisa, pela marca da dentada

Alceu Valença

Alceu Valença


Esperei no planetário o meu amor
Ela foi ao analista e ainda não voltou
(...)
A Luisa não viu
Uma estrela caiu
Meu sonho imaginário
Foi tomando o planetário