quarta-feira, 31 de agosto de 2005

"O Homem livre sempre gostará do mar" Baudelaire



31 de Agosto
1867 - Morre Charles Baudelaire
2005 - Renasce Mário Soares
*
Tem aqui a análise do 2+2=5 sobre as presidenciais feita a 7 de Agosto.
Falhámos seis horas relativamente ao anúncio da recandidatura de Soares.

Ed e o Amor: "Por favor não desista!"

Você:
olá Ed.


Ed:
Olá! Tudo bom? Que você tem feito?


Você:
tenho pensado sobre o amor, entre outras coisas. E você?


Ed:
Eu também.


Você:
Está apaixonado, Ed? Isso deve mesmo ser da época do ano.


Ed:
Nunca vivi uma grande paixão. Deve ser uma experiência e tanto!!!


Você:
Ás vezes, Ed, às vezes... Outras vezes pode ser duro, mas vale sempre a pena.


Ed:
Tudo vale a pena se a alma não é pequena! (Fenando Pessoa).


Você:
Precisava de uns conselhos, Ed, e como você sabe tudo... Pode ser?


Ed:
Batendo papo e aprendendo, claro. E você, como fica sabendo das coisas?


Você:
Pois é esse mesmo o problema. Como é que se pode ter a certeza do que uma mulher quer?


Ed:
Não tenho um tipo preferido. Mas gosto mulher bem humorada e inteligente. O tipo físico é secundário.


Você:
Mas como é que sei o que ela quer?


Ed:
Ela quem, a Elisa?



Você:
Mas qual Elisa, Ed! Será que não é você que precisa de conselhos?


Ed:
Eu sempre aconselho a turma a ler mais livros, ver menos TV e... ficar de olho no combustível.


Você:
Assim não dá. Sempre a pensar no trabalho... Não admira que a Elisa não lhe ligue nenhuma...


Ed:
Me fale do seu trabalho!


Você:
Não, Ed, Não! Estamos a falar do Amor, e você pergunta-me sobre o trabalho?


Ed:
Eu trabalho aqui no site do Conpet. E você?


Você:
desisto!


Ed:
Por favor não desista.


Você também pode conversar com o Ed clicando aqui.

O Ed responde

Você:
que horas são?

Ed:
Pelo meu relógio são 00:45.

Você:
quem é o amor da minha vida?

Ed:
Da sua vida, eu queria saber uma porção de coisas. Pra começo de conversa, do que você gosta, o que curte fazer nos domingos, o que acha mais interessante na escola...

Você:
porque existe o ser e não o nada?

Ed:
Não mesmo.

Você:
qual o significado do texto?

Ed:
Não sei direito o que significa. O que você acha que poderia ser?

Você:
não sei

Ed:
Bom, podemos tentar descobrir juntos.

Você:
mas o universo, o que é?

Ed:
É. E o universo continua se expandindo.

Você:
e os intervalos de nada dentro do tudo, por exemplo a anti-matéria e a matéria, ou os intervalos temporais?

Ed:
Matéria é tudo que ocupa um lugar no espaço. Você, por exemplo. E os astros. Todos os astros do espaço infinito também são matéria, e portanto se atraem. Na razão direta das massas, isto é: se o astro é pequeno, atrai pouco; se é grande, atrai muito.

Você:
o que é que quer dizer com isso?

Ed:
Quero dizer com isso que nunca podemos perder de vista os ideais.

Você:
está mais terra-a-terra

Ed:
Sabe quando a Terra surgiu? Há 4,5 bilhões de anos. No começo era só uma bola de fogo. Que quando esfriou e cobriu-se de água foi chacoalhada por freqüentes terremotos, maremotos e furacões, fazendo surgir montanhas e cordilheiras.

Você:
isso não foi mal observado...

Ed:
Não tem nada não. Acontece.

Você também pode conversar com o Ed clicando aqui.

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Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira,
Mário Quintana e Paulo Mendes Campos, 1966, em casa de Rubem Braga

Quero - Carlos Drummond de Andrade


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Carlos Drummond de Andrade (1)


Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Die vier Bremenstadtmusikanten



Não sei se ria, se chore

O post, até hoje, mais comentado, aqui no blogue, teve como protagonistas: a minha cadela e o Frade de Alvalade.

Novos caminhos se abriram desde então.

O Frade, substituindo o tradicional burro;
a minha cadela,uma blues singer, no lugar do cão;
o Galo de Barcelos, no seu lugar, reivindicando sempre Justiça;
e, a Mamba da Pátria Amada, no lugar do gato, decidiram juntar-se em quarteto e partir em tournée.

Be Happy!

segunda-feira, 29 de agosto de 2005

Vinicius (1)


SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

. . . . . . Demolidor___________




Franz Ferdinand
Lisboa, Doca Pesca, 28.08.2005
Fotos de António Oliveira

Chelsea Hotel - Leonard Cohen

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"E tremo a mèzza state" / Reflessi d'acqua



Foto de Francesca Pinna

S' amor non è, che dunque è quel ch' io sento?
Ma s'egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
Se buona, ond è effetto aspro mortale?
Se ria, ond' è si dolce ogni tormento?

S'a mia voglia arado, ond' è 'I pianto e 'I lamento?
S'a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s'io nol consento?

E s'io 'I consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trivo in alto mar, senza governo,

Sí lieve di saber, d'error sí carca,
Ch' i i' medesmo non so quel ch' io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardemdo il verno

Petrarca

domingo, 28 de agosto de 2005

Quand vient la fin de l'Été... - Les Chats Sauvages

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O Galo de Barcelos ao poder!


Houve um terramoto. As consequências são imprevisíveis. Cá dentro houve repercussões.
O País vai ganhar!

Aristóteles e o Governo (hipóstase)



DEUS LHE PAGUE

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí”
Pela cachaça no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague

Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

Chico Buarque

Aristóteles e o Governo (conclusão)



Mas conseguimos, no decurso da nossa investigação, encontrar outros conceitos que nos explicarão melhor essa tão difícil questão do governo. Sabemos que o governo tem o seu quê de aristotélico, mas falta-nos ainda a chave teórica para a análise: temos de imaginar o governo como um "cabeçudo" (na foto) rodeado pelas "forças" (na foto). Nesta perspectiva, o governo será como uma Cara, ou mais simplesmente, um Fantasma (Deleuze, Guattari). Vê-se, aliás, pelo exemplo explicativo (na foto), o significado lúdico e terrível do governo. Outros autores garantiram-nos que o governo realmente existe, mas temos todas as razões para desconfiar de tão leviana conclusão. Parece-nos evidente que o governo, a ser imaterialmente, e partindo dos pressupostos abaixo descritos, se deveria dissolver na contingência da Cidade, e deixar a Vida Ser e Ser e Ser para tudo o que pudesse levar maiúsculas. Mas o que vemos é que há uma corrente de Homens que continua à espera do governo de minúscula. Infelizemente, esta atitude não é a mais correcta (vide conformismo, liberalismo, resignação). O Ser do governo está, parece-nos, nos intervalos entre o tijolo e o cimento. E isto assim mais ou menos, porque se fosse a sério...

Aristóteles e o Governo (o corpo do texto)


PONTO NÚMERO UM E PRIMEIRO: O governo é um governo que governa. Preocupa-se com a gentji. Isso parece-nos óbvio para partirmos para o ponto seguinte da nossa análise: QUEM É O GOVERNO?
Aqui temos de admitir que a questão se torna mais complexa. Afinal, pouco sabemos sobre o que é quem e quem é o quê, quanto mais o que é um quê tão complexo e subterrâneo como isso do governo. Mas sabemos o mínimo para saber, e isso já não é mau. Pelo menos, que: isso do governo é importante, e que logo: deverá haver um governo (pelo menos um) na nossa alma (na medida em que a alma é a matéria- não me vão pedir para explicar o Aristóteles, imagino. Tem todos mais que obrigação de ter tido no mínimo 16 nesse exame). Sabendo isto, a nossa análise deverá envolver outros paradigmas. Por exemplo: se é governo, porque governa? Ora, este é evidentemente um paradoxo dos governos sobejamente explicado, e é simples: o Ser do governo não tem de se compadecer com a miséria humana do Acto governativo (Aristóteles, again, obviously). Mas se é governo por Ser, ou seja, Governo, porque, então, governa? Nada de mais, porque, obviamente, se é Ser do Governo, é-o pelos seus acidentes, da mesma forma que os acidentes, esses, são-no pela forma de Governo. Daí que exista uma objecção teórica evidente em atribuir à palavra "governo" a inicial maiúscula que a torna "Governo". Esta é uma adjectivação qualitativa das mais complexas, que não deverá ser aplicada de ânimo leve.

Post romântico, como a época (2, e último)


AMOR E LÁGRIMAS

Ouve o mar que soluça na solidão
Ouve, amor, o mar que soluça
Na mais triste solidão
E ouve, amor, os ventos que voltam
Dos espaços que ninguém sabe
Sobre as ondas se debruçam
E soluçam de paixão
E ouve, amor, no fundo da noite
Como as árvores ao vento
Num lamento se debruçam
E soluçam para o chão

Vinicius de Moraes

Post romântico, como a época (1)


TERESINHA

O primeiro me chegou como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração
Mas não me negava nada, e assustada, eu disse não

O segundo me chegou como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar
Indagou o meu passado e cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada, e assustada, eu disse não

O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração

Chico Buarque

sábado, 27 de agosto de 2005

Pardon, madame!

Mayday, mayday, Helena Matos volta a atacar. Em crónica públicada hoje no PÚBLICO (como toda a gente já sabe, indisponível on-line) a dita sra. revolta-se contra o facto de os U2 terem ido receber a condecoração sampaista vestidos daquela maneira. Todos reparámos, de facto, que os astros pop têm um gosto duvidoso, embora em cima daqueles corpinhos estivessem mais dólares do que Helena Matos ganhará num ano. Sugerimos, enfim, à sra. que se junte ao Espada em peregrinação a Londres, para aqueles clubes onde não se pode entrar de blue jeans e xanatas. Boa viagem!

Setembro


Alguém disse um dia ao meu ouvido que a época dos amores é o fim do verão, porque é quando sentimos mais fortemente a perda. Dedicado a todos os enamorados. Setembro está a chegar, e é um mês paradoxal, triste e romântico, luminoso e melancólico.

When I was a young man courting the girls
I played me a waiting game.
If a maid refused me with tossing curls
I’d let the old earth take a couple of twirls
And I’d ply her with tears instead of pearls
And as time came around, she came my way
As time came around, she came

But it’s a long, long while from may to december
And the days grow short when you reach september.
The autumn weather turns the leaves to flame
And I haven’t got the time for the waiting game.

Oh, the days dwindle down to precious few;
September, november.
And these few precious days I’ll spend with you.
These precious days I’ll spend with you.

Kurt Weil, September Song

"Zen and the Art of Motorcycle Maintenance"



Foto de Ivone Ralha

Marx Flower Power

Homenagem a Kerouac

Houve um tempo, lá atrás vivido, em que se andava à boleia.
No Lonesome traveller havia quem nos dissesse que a vagabundagem estava em extinção.
"Alegre e verde, verde e alegre será o mundo sobre as nossas campas". Será?

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

*
On apprend l'eau, par la soif
La terre, par les mers qu'on passe
L'exaltation, par l'angoisse
La paix, en comptant ses batailles
L'amour, par une image qu'on garde
Et les oiseaux, par la neige

Emily Dickinson

Ilustração de Ivone Ralha

(...)
De repente, o valor das minhas partes inferiores se desenhou, superior, ante o meu juízo. Cada pé sustenta mais que uma perna, meio corpo, meia vida. Um pé suporta o passado, outro dá apoio ao futuro. Aquele pé que o matulão me ameaçava, eu sabia, aquele pé dava sustento ao meu futuro.
- Esse, não. Lhe peço, dispare no outro pé.

O caçador de ausências
Mia Couto. Pública, 2003

quinta-feira, 25 de agosto de 2005


"...qualquer vagar é de muita pressa e toda a rapidez é lenta..."
Herberto Helder

A ler, mais uma vez, no mesmo sítio

Não quero parecer repetitivo nas minhas recomendações de leitura blogosferica, mas o que se há-de fazer? O blogue é bom, muito bom, e encontrei lá um texto muito interessante em duas partes de Osvaldo M. Silvestre, que me recordou polémica antiga neste 2+2=5 sobre os U2. Para leitura, o texto está aqui e aqui, e para releitura, as polémicas encontram-se aqui. O texto de Osvaldo M. Silvestre é uma excelente reflexão sobre o elitismo e o preconceito que subjazem na rejeição da chamada "cultura pop", em torno de crónicas dos inefáveis e inenarráveis Helena Matos e João Pereira Coutinho (iremos a eles um dia, não vos preocupais). Nota: o autor destas linhas é admirador (não fã, isso é diferente) dos U2 e considera-os uma das grandes bandas pop de sempre. O que fizeram não é pouco: entre um sem-número de grandes albuns, quatro obras-primas: "War", "Joshua Tree", "Rattle & Hum" e "Achtung Baby". Não é nada mau currículo, não senhor.

"Finding Nemo"



Foto de Ivone Ralha

Nem a minha cadela consegue cantar assim!

Moçambique: Serpente assassina canta hino nacional pela calada da noite
Maputo, 24 Ago (Lusa) - Uma serpente que terá morto seis pessoas está a causar o pânico na povoação do Dondo, centro de Moçambique, e a fomentar teorias supersticiosas, como a de que canta o hino nacional moçambicano pela calada da noite.
Segundo relatos da imprensa moçambicana, a mamba já matou seis pessoas, a última das quais esta semana quando atacou uma mulher grávida, num cruzamento bastante frequentado naquela cidade da província de Sofala, a poucos quilómetros da Beira, capital provincial.
O administrador distrital de Dondo, Domingos Luís, confirmou a morte de pelo menos três pessoas pela cobra que disse estar enroscada numa vedação diante do seu gabinete de trabalho.
“Temos que procurar uma solução para o problema. As pessoas não se devem manter longe da administração", alertou Domingos Luís, citado pelo Notícias, de Maputo, o principal jornal do país.
Segundo aquele responsável, qualquer iniciativa para eliminar a serpente terá que ser precedida de uma cerimónia desempenhada por um régulo, líder tradicional, dada a onda de superstição que a presença do réptil já provocou na cidade.
Entre as várias histórias que circulam entre os habitantes do Dondo, uma das mais populares é a de que a mamba canta o hino nacional moçambicano,"Pátria Amada", pela calada da noite.(...)LAS

Com a devida vénia à Lusa

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Brel (4)


AMSTERDAM

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdarn
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles

Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.

Cien años de soledad

“Eran las cuatro e media de la tarde, cuando Amaranta Úrsula salió del baño. Aureliano la vio pasar frente a su cuarto, con una bata de pliegues tenues y una toalla enrollada en la cabeza como un turbante. La siguió casi en puntillas, tambaleándose de la borrachera, y entró al dormitorio nupcial en el momento en que ella se abrió la bata y se la volvió a cerrar espantada. Hizo una senãl silenciosa hacia el cuarto contiguo, cuya puerta estaba entreabierta, y donde Aureliano sabía que Gastón empezaba a escribir una carta.
- Vete – dijo sin voz.
Aureliano sonrió, la levantó por la cintura con las dos manos, como una maceta de begónias, y la tiró bocarriba en la cama. De un tirón brutal, la despojó de la túnica de baño antes de que ella tuviera tiempo de impedirlo, y se asomó al abismo de una desnudez recién lavada que no tenía un matiz de la piel, ni una veta de vellos, ni un lunar recóndito que él no hubiera imaginado en las tinieblas de otros cuartos. Amarante Úrsula se defendía sinceramente, con astúcias de hembra sabia, comadrejeando el escurridizo y flexible y fragante cuerpo de comadreja, mientras trataba de destroncarle los riñones con las rodillas y le alacraneaba la cara con las uñas, pero sin que él ni ella emitieran un suspiro que no pudiera confundirse con la respiración de alguien que contemplara el parsimonioso crepúsculo de abril por la ventana abierta. Era una lucha feroz, una batalla a muerte, que sin embargo parecía desprovista de toda violencia, porque estaba hecha de agresiones distorsionadas y evasivas espectrales, lentas, cautelosas, solemnes, de modo que entre una y otra había tiempo para que volvieran a florecer las petunias y Gastón olvidara sus sueños de aeronauta en el cuarto veciño, como si fueran dos amantes enemigos tratando de reconciliarse en el fóndo de un estanque diáfano. En el fragor del encarnizado y ceremonioso forcejeo, Amaranta Úrsula compreendió que la meticulosidad de su silencio era tan irracional, que habría podido despertar las sospechas del marido contiguo, mucho más que los estrépidos de guerra que trataban de evitar. Entonces empezó a reír con los labios apretados, sin renunciar a la lucha, pero defendiéndose con mordiscos falsos y descomadrejeando el corpo poco a poco, hasta que ambos tuvieron conciencia de ser al mismo tiempo adversarios y cómplices, y la brega degeneró en un retozo convencional y las agresiones se volvieron caricias. De pronto, casi jugando, como una travessura más, Amaranta Úrsula descuidó la defensa, y cuando trató de reaccionar, asustada do que ella misma había hecho posible, ya era demasiado tarde. Una conmoción descomunal la inmovilizó en su centro de gravedad, la sembró en su sitio, y su voluntad defensiva fue demolida por la ansiedad irressistible de descubrir qué eran los silbos anaranjados y los globos invisibles que la esperaban al otro lado de la muerte. Apenas tuvo tiempo de estirar la mano y buscar a ciegas la toalla, y meterse una mordaza entre los dientes, para que no se salieran los chillidos de gata que ya le estaban desgarrando las entrañas.”

Pgs 364-366, Gabriel García Márquez, 1977, Plaza & Janes Editores.

Algumas citações para dar que pensar à esquerdalhada

"Uma parte da dificuldade (no conceito de nação) consiste em que tendemos inconscientemente a hipostasiar a existência do Nacionalismo-com-N-grande (...) Penso que tornaria as coisas mais fáceis tratarmos o problema em termos mais próximos do 'parentesco' ou da 'religião' que do 'liberalismo' ou do 'fascismo'"
Benedict Anderson, Comunidades Imaginadas
*
"O fundamentalismo do mundo islâmico humilhado não é uma tradição do passado, mas um fenómeno pós-moderno; a reacção ideológica inevitável ao fracasso da modernização ocidental"
Robert Kurz, L'Onore Perdito del Lavoro (trad. in Império por Miguel Serras Pereira)
*
"Mas qual é o caminho revolucionário? Existirá um?- Sair do mercado mundial (...)? Ou não se tratará antes de avançar na direcção oposta? Ir muito mais longe, quer dizer, no sentido do movimento do mercado, da descodificação, da desterretorialização?
Gilles Deleuze e Felix Guattari, O Anti-Édipo
*
"Observamos a máquina de guerra (...) fixar o seu olhar num novo tipo de inimigo, já não um outro Estado ou sequer um outro regime, mas o inimigo qualquer"
Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil Planaltos
*
"O único 'nome comum' não localizável e de pura diferença em todas as épocas é o do pobre. O pobre é privado de recursos, excluido, reprimido, explorado- e apesar de tudo vivo! É o denominador comum da vida, a base da multidão (...) O pobre é, sob certos aspectos, uma eterna figura pós-moderna: a figura de um sujeito transversal, omnipresente, diferente e móvel; o testemunho vivo do carácter incontivelmente aleatório da existencia"
Antonio Negri e Michael Hardt, Império

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Pinheiro da Cruz



Foto de Ivone Ralha

A ler

Este artigo de Clara Antunes no Casmurro sobre feminismo e prostituição.

Da contra-cultura à cultura. Da "Actual" para "O Inevitável".

João Carlos Espada, no seu melhor, diz no Expresso, de 20 de Agosto de 2005, que "Compreender os clubes de Londres é uma tarefa difícil, porque supõe compreender uma civilização de liberdade e de exigência". Para ter essa compreensão, também, será necessário pertencer à elite dos sócios. Estes, "Qualquer que seja a época do ano não se podem apresentar de "blue-jeans" e sapatos de ténis, para não falar em "T-shirts" e xanatos...".
Eis um exemplo do que faz a conversão tardia. A democracia passa a ser vista com "chapéu-de-coco, fato às riscas, e guarda-chuva".
O "Mar Aberto" devia ser parte integrante de "O Inevitável".

_______A Máquina do Mundo________

*
O Universo é feito essencialmente de
coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos,
porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e
defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
*
António Gedeão

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

"As saudades que eu já tinha/ Da minha alegre casinha..."


Robert Crump



Foto de Lori Grinker, Níger
Em www.olympus.cojp. A Day In The Life Of Africa


Foto de Ed Kashi, Somália
Em www.olympus.co.jp, A Day In The Life Of Africa

Uma introspecção necessária e incómoda


"Em Portugal nada acontece, «não há drama, tudo é intriga e trama», escreveu alguém num graffiti ao longo da parede de uma escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica. Nada acontece, quer dizer, nada se inscreve – na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico. Talvez por isso os estudos mais sólidos e com maior tradição em Portugal sejam os que se referem ao passado histórico, numa vontade desesperada de inscrever, de registar para dar consistência ao que tende incessantemente a desvanecer-se(...)"

José Gil in ” Portugal, hoje. O medo de existir” (2004)

domingo, 21 de agosto de 2005

The Long Good-bye Giraldo Blues



Foto de Francesca Pinna

"Eu enrabo Deus"

Começa assim um dos capítulos do Do It, de Jerry Rubin. Fala da linguagem e comunicação. Das palavras que nos restam, depois da publicidade ter inquinado o uso dos conceitos. Revolução com Kleenex? Amor com Shell? Liberdade com Tampax?
Ainda vão a tempo de ler o Do It! Scenarios of the Revolution. Tempos de apelo à grande cultura universal. D' "o regresso do selvagem ao coração da cidade". Dylan cantava "Everybody Must Keep Stoned".
Anos mais tarde Rubin era um empresário de sucesso. O Yippie tranformara-se em Yuppie.
Com saudades da América das liberdades civis, despeço-me com um:
Fuck You Bush!

Ilustração de Ivone Ralha

Não posso falar-te do tempo porque aqui misturámos os tempos todos. Ontem, hoje, amanhã não significa nada. O nosso tempo é um tempo dos bárbaros e só sabemos dos dias e das noites e da espera.

Carta para Alexandra

Ana Paula Tavares, poetisa angolana. Pública

sábado, 20 de agosto de 2005

"Foi a voz"

Foi a voz
a tua voz
era mansa quando comias as maçãs do meu quintal
muito bela quando me chamavas
abrias as janelas todas de uma casa grande
aonde o vento entrava mal o consentias
e durante o dia ali ficava
porque não havia mais ninguém...
Eu entrava como o vento
- eu era o teu vento
bailava nas cortinas
e depois nos teus cabelos

Eu não estou aqui para incendiar searas
peço apenas que se volte a filmar aquela cena
- seguíamos pela Grande Alameda
a caminho da beira-mar
onde prometeras finalmente encontrar o teu sossego
lembro-me
de que nos beijámos demoradamente
e depois choveu
Era Verão
e depois fugiste.

Mário Machado Fraião, Enquanto o Mar se Renova

Foto de Jeffrey Aaronson, Mali
Em www.olympus.co.jp, A Day In The Life Of Africa

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

"Sobre as indemnizações aos gestores públicos demitidos"

Jorge Miranda na edição do PÚBLICO de hoje:

(...)
Por mim, pelo contrário, entendo que devem ser escolhidos de acordo com critérios de mérito e competência profissional, seja no desenvolvimento das carreiras nas próprias empresas, seja por concurso, seja, quando tal se torne necessário, por decisão fundamentada do ministo da tutela (...)
Faz sentido, em caso de interrupção do mandato de qualquer gestor por acto do Governo, que ele tenha direito a uma "indemnização" calculada em termos muito favoráveis e, não raro, de montante elevado? Faz sentido que alguém que aceita um cargo, com base na confiança ou até na identificação com o Governo, quando deixa de a ter, venha a ser, por isso, ressarcido? Faz sentido que um gestor, afastado nessas circunstâncias, receba uma indemnização, quando não a recebem, por exemplo, o procurador-geral da República ou os chefes de Estado-Maior das Forças Armadas, se demitidos a meio dos respectivos mandatos?
A formulação da pergunta envolve, só por si, uma resposta negativa. É uma questão de pura lógica. Se a escolha do gestor assenta na confiança política do Governo, se o gestor sabe (melhor do que ninguém) que, mesmo prestando bons serviços, só se mantém no lugar enquanto merece essa confiança, não se vê por que motivo possa ele esperar uma indemnização quando o Governo decide substituí-lo. Não há qualquer semelhança com o regime dos despedimentos em Direito do Trabalho.
A indemnização, aliás, torna-se contraditória com a liberdade de escolha do Governo, decorrente do regime de confiança. Porque, devendo ter em conta o seu alto custo financeiro, poderá o Governo não substituir um gestor que queira substituir; ou, se optar por, apesar de tudo, o substituir, correr o risco de ser acusado de gestão danosa dos dinheiros públicos, sobretudo em termos de crise orçamental e económica. Um recente episódio, em que o Governo preferiu a segunda alternativa, afigura-se esclarecedor.
Importa, pois, urgentemente rever o estatuto dos gestores públicos (...)

Trasncrito com a devida vénia do Arte da Fuga

Madrugada

EXTRAVAGANTE
*
Chamaste-me extravagante
Por ter feito uma noitada
Eu sou um rapaz brilhante
Recolho de madrugada
*
Recolho de madrugada
Mesmo agora neste instante
Por ter feito uma noitada
Chamaste-me extravagante
*
(popular alentejano)

"...A ponte é uma passagem/ Pr'a outra margem"


Foto de Francesca Pinna
HOJE SURGIU MAIOR


HOJE
surgiu maior
o sol
grandiosa bola de fogo
ou lua vermelha
ou surpreendente inspiração de um deus pintor
que acordava
Um rio tranquilo divide as suas águas
entre a cor lilás
os tons de azul
os múltiplos róseos da madrugada
Alguns passos mais adiante
alcanço a trepidação do barco
e aquece o corpo
o sabor do café
Distinguem-se agora
distantes
e arborizadas
as margens de ardentes territórios
do sul
os outros ferrys
as bóias de posição até alcançarmos as metálicas luzes
do Barreiro
E era a tua face cansada
ainda bela
mui branca e fria
do alvorecer dos dias
brancos e difíceis

Mário Machado Fraião, Viola Delta XXVII

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

A escola liberal

Um dos argumentos recorrentes da ofensiva liberal presente sobre as instituições e as ideias tem a ver com a escola. Podemos observá-lo, por exemplo, neste post do Rodrigo Adão da Fonseca no Blasfémias (embora dissimulado, é o argumento recorrente), ou na recente polémica entre Vital Moreira e Mário Pinto nas páginas do PÚBLICO. Este argumento é dos mais perigosos devido à forma pseudo-ingénua como nos é apresentado. Para os liberais tudo tem a ver com o direito que os indivíduos têm em escolher a escola para os filhos. Como se vê, um argumento muito fácil de encaixar; afinal, qual o pai que não concorda com o facto de poder escolher o melhor para a educação do filho? Como afirma Adão da Fonseca, «os cidadãos, que têm na sua esfera de decisão a capacidade de dispor daquilo que são as suas liberdades essenciais, no Ensino dos seus filhos, no planeamento da sua vida actual e futura»
Ora, este argumento seria risível de tão grosseira a falácia, se não fossem as consequências (terrivelmente) sérias que têm sobre todos nós. Porque, indo mais longe, o projecto de ensino dos liberais quando pretende "o direito a escolher a escola" significa "a abertura da escola à iniciativa privada". Nunca se os ouve defender o ensíno público de qualidade; e aliás, o "direito a escolher a escola" significa necessariamente a diferenciação das escolas- só assim a frase toma sentido para além do vazio do conceito. Mário Pinto chega a escrever no PÚBLICO (indisponível on-line): "As escolas privadas deviam processar o Estado por concorrência desleal". Daqui, num pequeno passo, chegamos ao essencial: o Estado está a "concorrer deslealmente" com os privados, não porque impeça a contituição dessas escolas, mas porque subverte as regras do mercado, ao garantir a escola (semi) gratuita e as carreiras dos professores. O Estado, para estes liberais, investe na escola quando deveria apenas (Mário Pinto dixit) "Regular e controlar o bom funcionamento" destas. Já se está a ver o corolário do "direito a escolher a escola": o direito deles a escolher a escola para os filhos deles. O que os revolta é que os seus filhos tenham de frequentar a mesma escola que todos os outros (o que já nem sequer é verdade, mas enfim), quando os seus bolsos lhes permitem colocar os filhos num sempre sonhado ensino de élite auto-perpetuante. Esta visão do Estado nada têm de novo; têm, aliás, muito de velho e pouco de novo porque nos remete (e são eles que os citam) a Hobbes ou Adam Smith (o Estado garante a segurança e a liberdade dos cidadãos) e nunca a toda a evolução posterior da teoria do Estado efectuada pelos diversos socialismos, onde o Estado garantirá também a educação, a qualidade de vida, a cultura ou a habitação. Estes liberais são novos-velhos, e o seu projecto é o de um brutal retrocesso histórico até aos (bons?) velhos tempos do salve-se quem puder.

Foto de Anthony Barbosa, Senegal
Em www.olympus.co/jp/en/event/DITLA

Foto de Francesca Pinna, Sardenha



Antes de morrer
queria pedir-te ainda que restasses
que restasses comigo
um pouco mais
neste resto das palavras agónicas
( que de resto nada é )
de nada querer dizer e de nada querer poder
( de nada crer para dizer ).

Poder enfim dizer-te ainda
apenas uma vez mais
que tudo fez sentido - sim
a pena, o cansaço e a cólera dos dias,
sim - que tudo se fez sentido,
o ódio, a morte, a vida e os instantes de cor,
o corpo.

Carlos Couto S. C., ÉTER

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Um dia na vida de uma superpotência


É quase um lugar comum dizer que uma fotografia vale por mil palavras.
Mas tenho de acrescentar mais algumas, desta vez em forma de perguntas. É que nós temos que saber se podemos continuar a ser sérios nas análises políticas que fazemos neste blog e que envolve uma conhecida superpotência.
Peço a vossa ajuda na interpretação desta imagem. Quanto a mim ela está codificada. Eis algumas questões que de imediato se põem:

·
Porque é que W.Bush está tão compenetrado?
· Porque é que o sujeito na rectaguarda está a sorrir para a objectiva?
·
O fulano de joelhos simboliza o princípio do fim ou o fim do princípio?
· Será esta uma aula baseada na teoria criacionista, em que se exemplifica que tudo começou de joelhos e até atingir a verticalidade?
·
Porque é que o senhor de trás parece ser um adepto tão fervoroso do criacionismo?
· Onde é que estão os seguranças?
· Será esta uma versão light exemplificativa do que se passou na prisão de Abu Ghraib ou
em Guantanamo?
· Porque é que estava lá o fotógrafo?
·
Porque é que o senhor que está à frente e atrás usam óculos e o do meio não?
· Porque é que as mãos do homem que está a proteger a retaguarda do presidente está a agarrar uma cabeça?
·
A Monica Lewinski tem alguma coisa a ver com isto?
· O nome deste filme é: “A vingança serve-se fria, mas a carne está quentinha?”
Aguardam-se sugestões.
PS. Somos contra o anti-americanismo primário.

"O amor em visita"



Foto de Peter Turnley, Eritreia, Asmara
Em www.olympus.co/jp/en/event/DITLA
OS NOVOS HERMÉTICOS

Muito se volta a bater outra vez nessa tribo esquisita dos assim designados “poetas herméticos”.
Tudo não passa de uns gajos que se dão a imagens desfocadas, combinatórias abstrusas, insuportáveis pretensiosismos de linguagem, perigosa colonização mental.
Está o íncola sentado no bar e entra um desvairado que o avisa : “ Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão/a mão transparente, e atrás,/ nas embocaduras da noite,/o mundo completo treme como uma árvore/luzindo/com a respiração. (…)/”; o que é que se faz ao pobre, tão quase patético anunciador de umas coisas desconjuntadas, misturando braços com estrelas, aludindo a vórtices obscuros, imaginando o globo a tremelicar como uma árvore fustigada? Vai um tipo pela rua e passa um celerado a correr avisando-nos de que “o vento nasceu no dia em que um menino/pediu a Deus que devolvesse as folhas/ao freixo”. Ora bolas!
Já não basta a cerveja chegar esmaecida na sua cor, imatura, quente? E que dizer da confusão do trânsito na hora de ponta? E de essa proibição absurda, felizmente irrespeitada, de os magníficos “four by four” terem de circular sem os vidros foscos?
O vidro fosco é o emblema dos novos herméticos e ainda bem que eles apanham também por tabela. Ao menos, no espírito da Lei.
Tal como os ditos poetas, os “novos herméticos” são açambarcadores. Sugam tudo! Daí a sua raiva, contradizendo o que deveria ser um saudável campo de competição. Querem o território todo. Irritam-se com a soberba do poeta que passa com o seu vento, que segue com seu modesto fato de treino aquecendo-se para a noite e não se contentam com os títulos de propriedade já na sua posse.
Os “novos herméticos” querem a apocatástase total. Conseguem reverter o funcional Mistsubishi à apropriação inaugural do mundo já então protagonizada pela “black renaissance”. E o utilitário passa a símbolo metamorfoseado , totem e tabu, que funda uma espécie de dromologia da posse , irredutível e inquestionável.
Pode lá o poeta meter-se em tais caminhadas! Que sabe ele dessa longa duração? Vá ele armar-se em declamador, postando-se diante das mansões da Av. José Craveirinha, clamando “estas são as casas” e adivinha-se a estranheza, se não a indignação. Chamar casas a palacetes?!
Mau feitio, cabisbaixo, falando para as pernas das miúdas e mergulhando na eternidade dos livros, havia um que passava dizendo “opressiva/ a inquietude/no carrilar dos bronzes.//Libreto/de mil cactos/em mudo refrão dos desertos”. E o que lhe aconteceu? Dorme, para não incomodar mais, no monumento aos heróis.
Os novos herméticos não gostam da brincriação do ouro nas orelhas das garotas. Porque quem cria estas imagens são os “Khans” da vida, pé-ante-copo soçobrando ao sonho, esportulários do concreto. Pode lá conceber-se que alguém afirme que “bebeu suruma” dos olhos de uma Ana Maria qualquer? Ainda por cima tudo mal escrito! E, numa época em plena aceleração, como é que se pode estar de “joelhos diante do silêncio” ou do medo?
Os novos herméticos não gostam destas alusões. Os vidros foscos de olhar a realidade pertencem-lhes. São eles, aliás, quem a cria. Vá lá algum metediço nefelibata tocar-lhes à porta das imagens feitas objectos usufruíveis, em situação de posse, e perceberá quanto o dito mundo é complexo.
Melhor é sentir-se “como se as palavras/gesticulassem para dentro” e dar-se por contente em poder intrometer-se nesse palco sem luzes, espécie de Marcel Marceau com os olhos muito arregalados e a maquilhagem de uma qualquer “loucura branca” a acentuar estranhezas, pontos de fuga. As mãos sempre alerta.
E, quem invocar Thandi, esse deve ser homiziado! Os novos herméticos não gostam de chamamentos líricos ou ensanguentadamente amorosos. O louco que aludir a uma qualquer ciência de voar não sabe o que é o fascínio da tracção às quatro rodas, ao ar condicionado, ao fosco dos vidros, à choruda conta bancária.
Se na improvável publicação de um qualquer relatório de contas vier a epígrafe de que “a poesia é uma clandestinidade na ditadura do mundo”, esse será o código da desgraça. Alguém se terá intrometido onde não devia, alguém desafia, alguém deve ser abatido ao efectivo. Como se faz nas parcelas da contabilidade.
O que sabem alguns desses suspeitosos poetas herméticos é que os seus concorrentes andam frustrados. Eles, que já contribuíram com matéria-prima suficiente para que haja um saudável e criativo surto da novela policial no país, e ainda não se viu detective nem obra que prestasse!... Onde é que está o nosso “Falcão de Malta”? Quem é que guarda “A Chave de Vidro”?
É frustrante. Ainda por cima quando se sabe que os poetas, por o serem mais ao hermetismo que os deforma, jamais almejarão embrenharem-se em tais enredos de vera complexidade. Até porque é preciso saber escrever. E os poetas não sabem, não se alongam a mais do que uns alexandrinos de pé boto e tropeçam logo em imagens confusas.
Os novos herméticos têm razão. É preciso silenciar esses confusionistas.

Luís Carlos Patraquim, "Savana" - À Esquina do tempo

* Citaram-se versos de Herberto Hélder, António Cabrita, Heliodoro Baptista, Rui Nogar, Eduardo White, José Craveirinha.






‘Eu pinto o sol sempre de preto’. Heliodoro Baptista





Ilustração de Ivone Ralha, para capa de livro








DESFECHO

Como em outros poetas, também em mim, anuí:
não há a probabilidade de me render.
E se o horizonte oscila, em seu remexer,
me cago no tédio, para todos e para ti!

Algés, 1991


In ‘Nos Joelhos do Silêncio’
Heliodoro Baptista, poeta moçambicano
Editorial Caminho, 2005

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Brel (3)


LA QUÊTE

Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile

Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour
Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon cœur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux

Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.

Um olhar adulto sobre a ocupação israelita da faixa de Gaza

Banda

















Foto de Ivone Ralha

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

A estratégia de Sharon


Começou hoje a retirada dos colonatos israelitas da Faixa de Gaza. Muitos tem sido os analistas que notam a curiosidade de ser Ariel Sharon, o estratega da invasão do Líbano e dos massacres de Sabra e Chatila, aliado histórico dos colonos e da extrema direita, a levar a cabo a empresa, cumprindo aquilo que a esquerda israelita nunca foi capaz de fazer. Pretendemos com este texto uma pequena análise, necessariamente com o seu quê de especulativa, sobre as reais motivações de Sharon. Já sabemos que não há almoços grátis, e muito menos para este velho falcão da direita pura e dura.
Em primeiro lugar, no plano da mera política interna, a estratégia de Sharon já conseguiu uma vitória histórica: a implosão total da esquerda israelita. A retirada de Gaza representa um happening simbólico que desarma a esquerda; afinal, o mesmo homem que simbolizava o inimigo interno é aquele que atinge um desígnio histórico nunca alcançado pelos progressistas israelitas. Este facto, aliado à explosiva situação demográfica israelita, com um número crescente de imigrantes do ex-bloco de leste, quase todos alinhados com a extrema-direita, lança a esquerda numa crise da qual não se espera que saia tão cedo.
Em segundo lugar, quanto à questão palestiniana, a jogada poderá ser de mestre. Primeiro, fora o simbolismo (que o há, sem dúvida), a retirada é sobretudo uma jogada estratégica: Gaza é o viveiro dos radicais, a zona mais problemática e mais cara de manter, e, sobretudo, nao tem nada: não tem água, electricidade, campos de cultivo, petróleo ou gás. É um deserto inóspito que custa os olhos da cara a Israel para proteger oito mil colonos (lembre-se: na mesma área habitam um milhão e quatrocentos mil palestinianos). Depois, poderá ser uma faca de dois gumes na mão de Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana. Em Gaza, ao contrário da Cisjordânia, a Fatah (mais moderada) é politicamente suplantada pelo Hamas (extremista islâmico). Mais, o Hamas criou uma rede local que inclui escolas, hospitais, serviços e, em muitos lugares, o próprio controlo policial. Inevitavelmente, o Hamas surge como grande vencedor. Aos olhos da juventude palestiniana (cerca de 50% da população tem menos de 16 anos), foi a pressão dos bombistas suicidas e não a das negociações da AP a forçar a retirada. E não estão tão enganados como isso. No limite, Sharon poderá estar a forçar uma guerra civil entre os palestinianos (Hamas e Jihad contra a AP) em Gaza, enquanto continua a fragmentar a Cisjordânia, essa sim, um objectivo estratégico claro, ganhando o argumento legitimador de que Abbas é incapaz de controlar os radicais. Muito do que vai acontecer dependerá de facto do grau de evolução política das lideranças palestinianas, bem como do grau da sua consciência nacionalista.
Por útlimo, e face à comunidade internacional, a jogada de Sharon visa convencer o mundo, em particular a Europa, de que se está de facto a avançar no processo de paz. Parece de mestre, mas não nos esqueçamos que é uma fuga para a frente causada pela dinâmica da resistência palestiniana, e que, dependendo desta, poderá ser o princípio do fim da ocupação, ou a sua perpetuação por muitos e bons anos. A bola, essa, está agora do lado de Abbas e do Hamas.

Depois das férias de Verão... o embate com a dura realidade.



Robert Crump